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sábado, 1 de abril de 2017

SOLIDÃO DO COMBATE DA FÉ

Aleluia! Finalmente o Gnocchi chegou lá. Que ele é um dos meus escritores preferidos, junto com o finado Mario Palmari, os meus leitores já sabem (veja a tag), mas eu havia parado de ler o que escreviam, mais ou menos quando Palmari faleceu, porque eles estavam “quase lá”, e eu já estava cansada dos “quase lá”, como eles, o Socci e o Mastino, por exemplo. Quem ainda está sub CVII ou crê que Bento XVI é tradicionalista... me dá nos nervos e ponho de lado mesmo, com toda a genialidade que possam indiscutivelmente ter. Mas Gnocchi reacende minhas esperanças, e quiçá Socci e os demais também possam alcançar essa clareza e tomada de posição que vejo, agora, neste texto, que assino embaixo como se meu fosse. Contudo... ainda sinto um cheiro de respeitos humanos em suas palavras. Aceitável, porque a conversão pode ser assim mesmo, aos poucos, ainda que seja desejável que fosse de um sopetão, como tive oportunidade de testemunhar algumas poucas vezes: uma mudada de rota definitiva e instantânea. Sobretudo em se tratando de um formador de opinião. E isso também é uma atividade solitária

Não sei se é porque sempre fui autossuficiente, desde menina; nunca precisei “do outro”, de grupos, de estar com a maioria; sempre fui “eu & Deus” – o que me parece hoje uma grande e bela graça, pois sempre me soou como um defeito meu, o de não precisar pertencer – mas o fato é que a perspectiva de ficar só nesse mundo, sem sacramentos, já não me preocupa há algum tempo. Bom, só para registro: quando falo “só” não me refiro à minha família, meu marido e minha filha, mas em sentido maior. Preciso desenhar? 

E é verdade que, desde que redescobri a Tradição, e percebi que estava de volta à Casa Paterna, passei a ter a boa sensação de não estar mais só, de pertencer a algo. Mas, graças ao estudo da doutrina e a uma boa orientação por parte do meu diretor espiritual, hoje não tenho mais medo (Lucas 12,7) de estar só, de não ter os Sacramentos, de vivenciar a experiência japonesa de quase 3 séculos sem padres e, portanto, sem Missa e sem Sacramento. Minh'alma custou o Sangue de um Deus bom, e não vou expô-la a riscos em missas juramentadas – ou em vias de – ao CVII só “porque sou pecador e preciso dos Sacramentos”, como ouço muito por aí, e que é de uma arrogância sem par! Eu não. Eu me confio nas mãos de Deus e aceito de bom grado tudo que Ele me mandar, inclusive o castigo que o mundo merece. Ainda que ele me mate, nele esperarei, dizia o bom Jó (13,15). 

I - Ir à missa “em latim” de qualquer sacerdote que está sub (ou em vias de) Concílio Vaticano II, mesmo que ele o critique de manhã, de tarde e de noite, é ir a uma missa juramentada. A mesma dos tempos da revolução maçônica francesa. 

II - ir à missa juramentada “pelos sacramentos” mostra falta de catecismo e de confiança em Deus. 

Raça de víboras. Homens de pouca fé. Não tenhais medo! Deus dá as graças. 

 


*   *   *

SOLIDÃO DO COMBATE DA FÉ




 

domingo, 14 de setembro de 2014

Loreto desconfessada - como o Modernismo está destruindo a Fé

Deparei-me, por acaso, com este artigo escrito por Alessandro Gnocchi, companheiro inseparável de Mario Palmaro, falecido em março passado, com quem dividiu a pena em vários livros de leitura agradável, que lembra o inesquecível Giovannino Guareschi. Em minha modesta opinião, deve ter feito um passeio em Loreto e voltou de lá escandalizado com a maneira "moderna" de confessar da igreja de Francisco. Eu estava pesquisando algo e encontrei uma "resposta" de algum responsável de Loreto ao artigo de Gnocchi, publicado em Il Foglio, no dia 10 de setembro passado, e que, pela resposta, parecia mais preocupado em indicar um local físico para Gnocchi, do que explicar por que eliminaram um sacramento da igreja, substituindo-o com conversas fiadas que mantêm o homem escravo do pecado, doente, sujeitado a ir para o Inferno... Os grifos e textos entre [colchete] são nossos. 

 

Loreto desconfessada 

por Alessandro Gnocchi para “Il Foglio”. 

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Se, em um dia de final de verão, um peregrino se aventurasse no Santuário de Loreto, em busca de um confessor, tome cuidado ao circular entre os confessionários colocados ao redor da Santa Casa. Procure, ao invés disso, alguma capela menor, pode ser que encontre um frade acomodado em uma cadeira, um fiel nem sempre de joelhos e um pequeno grupo em apressada espera: isso significa que chegou onde pretendia.

Mas, sobretudo, se abstenha
o peregrino de bisbilhotar com o olhar a Capela dos eslavos, onde um lacônico cartaz adverte, em letras garrafais: “Aqui, não confissões, mas diálogo e escuta”, e um oportuno folheto explica que o "Ponto de escuta" é ativo todos os dias, das 10:00 às 12:00 e das 16:00 às 18:00. Ali, a um pulo da casa na qual Maria disse o seu "Sim" ao Anjo que lhe anunciava a Encarnação do Verbo, as almas não encontram o bálsamo celestial que cure suas feridas, mas o pão dormido da tagarelice mundana.

segunda-feira, 10 de março de 2014

Comunicamos o falecimento do escritor católico Mario Palmaro

Com a esposa, Anna Maria e os filhos
Giacomo, Giuseppe, Giovanna e Benedetto
A caridade de um bom homem é atemporal, como a de Palmaro que, mesmo após sua morte, continua a fazer o bem. Neste tempo pascal, essa entrevista que ele deu no passado, quando descobriu sua doença e a tornou pública, é pontual e benfazeja, pois nos fala dos novíssimos, do exame continuo que devemos fazer do estado de nossa alma, do exercício benéfico de pensar na hora de nossa morte e até no depois. Isso nos dá uma real perspectiva das coisas. 

Queria fazer apenas uma singela homenagem a este homem que é um dos meus escritores italianos atuais favoritos, do qual possuo três livros em italiano (vide bibliografia, em títulos em vermelho), junto com o inseparável Alessandro Gnocchi, ecoando o estilo inesquecível de Giovannino Guareschi, mas não posso, não consigo, nem quero esquecer alguns fatos relacionados a essa "dupla do barulho": o enterro tradicional negado ao pai de Gnocchi, a demissão de ambos da Radio Maria por represália, o telefonema inútil de Francisco logo em seguida, solidário mas vazio, pois Palmaro não foi readmitido, apesar daquele dizer que rezava por sua doença (então, sabia!) e aceitava as críticas que este fizera caridosamente... À época, Palmaro se emocionou com o telefonema. Em sua generosidade deve ter perdoado. 

Depois do texto de Corrisponenza Romana, alguns post sobre Palmaro no Pale Ideas e uma breve biografia. 

Descanse em paz, Mario Palmaro, o único Juiz é Deus. E que Deus, em Sua misericórdia infinita o receba no Céu e console a sua família, mantendo-os firmes na Fé Católica, a verdadeira Fé. Nossos pêsames à família: a esposa, "Anna Maria e os filhos Giacomo, Giuseppe, Giovanna e Benedetto, que subiram com Mario o calvário da doença, mas sempre abandonados confiantes à vontade do Pai" (Fonte).

* * *

Um grande luto para o mundo católico. Morreu Mario Palmaro


Na noite de 9 de março, em sua casa de Monza, rendeu a alma ao Senhor, depois de uma longa doença, Mario Palmaro.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Carta aberta a Francisco - É preciso responder à altura à ONU



O texto e os firmatários são uma mistura de boas intenções e equívocos. As boas intenções estão bem clara no apelo para que o Bispo de Roma que atende pelo nome de Francisco - como eles mesmos fazem questão de dizer - se mexa e não fique abençoando em silêncio para não constranger os não católicos! Neste caso, para - em bom português e... com todo respeito - para não abaixar as calças para a chantagem da ONU. A mesma que está sob acusação pesada de pedofilia em praticamente todos os países do terceiro mundo onde atuam, sobretudo os mais pobres, aqueles onde as superestrelas de Hollywood vão para adotar criancinhas e posar de santas.

Os equívocos estão na confusão de ideias que o modernismo inoculou nas mentes católicas, embotando o bom senso e fazendo esquecer o catecismo básico. Certamente, é uma causa justa a da infância, e mais ainda a da verdade, mas não podemos, por causa disso, sacrificar a verdade. Explico. Reconhecer às superstições e falsas crenças que vicejam mundo agora como "outras religiões" é matar a verdade. Só há uma religião, as demais são FALSAS religiões, e devem ser chamadas assim, porque a verdade não tem pudores, não tem medo e algumas vezes não tem sequer boa educação. E por ai vai, no texto há vários pontos em que a boa vontade se deixou ludibriar pelo bom-mocismo que tanto acusa. 

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Bergoglio, Twitter & followers

Mais um belo texto de Gnocchi e Palmaro. Certamente pesa, agora, a perseguição que passaram a sofrer por ter ousado criticar o novo "queridinho" do mundo, mas não mentem, não são desonestos. Vale a pena ler e refletir a respeito. 




Papa Inocêncio III (1161-1216), Lottario dos Condes de Segni, foi o mais poderoso Soberano da Igreja que a história da Cristandade conheça: para ele, Igreja e Império não eram que dois aspectos complementares do mesmo mandato divino.

Papa Francisco, Jorge Mario Bergoglio, através dos meios de comunicação global, está se tornando o mais famoso personagem de todo o mundo contemporâneo e virtual, da forma como o revelam Gnocchi e Palmaro em seu artigo realista e permeado de católica amargura, que apareceu em “il Foglio” de ontem, e que aqui apresentamos. Francisco alcançou dez milhões de seguidores no Twitter, ou seja, dez milhões de fãs. Além disso, milhões de pessoas clicam em “curtir” Bergoglio no Facebook. Milhões de pessoas entram em chats, de um continente para outro, para dizer: “Viva Papa Francesco”... Mas tudo isso é goliardo[1], como o foi o “Flash Mob” dos 1.200 bispos em Copacabana[2], durante a Jornada Mundial da Juventude neste verão: esta é a era dos grandes jograles[3] (do provençal-occitano “joglar”, que, por sua vez, deriva do lema latino “iocularis”), não só políticos, mas também religiosos.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

O Cristo de Bergoglio: sem doutrina nem verdade.

Apresentamos mais um capítulo sobre a perseguição (afastados do programa de rádio e agressões verbais à filha, entre outras) aos que ousam criticar o Bispo-de-Roma-e-às-vezes-Papa Bergoglio. Claro que eles ainda fazem parte de um grupo que ainda crê ser possível salvar a Igreja “por baixo”, por ação dos homens – como fez maldestramente dom Fellay (e agora tenta lavar a cara sem precisar reconhecer o erro e, menos ainda, repará-lo) e alguns na Tradição vez ou outra fazem também, porque, cansados do combate, preferem se arriscar em águas lamacentas que ficar em segurança ao abrigo do bastião da Tradição resistente, que não se arvora a Igreja, mas cumpre apenas seu humilde papel, conforme lhe foi determinado por Mons. Lefebvre. O cansaço deve amolecer o tutano e confundir a razão.

Bom, mas estes dois escritores – meus favoritos no panorama contemporâneo – ainda persistem em encontrar na igreja conciliar a Igreja de Cristo, e isso apesar de tudo que, como nós, já testemunharam e até vivenciaram, como o notório fato do enterro do pai de Gnocchi, ao qual lhe foram negados – quase por birra – os funerais “de sempre”, apesar de “devidamente” solicitados.

Enfim, a restauração da Tradição bimilenar da Igreja se dará por obra e graça Divinas, deixemos, portanto, de aventuras narcisistas, dobremos os joelhos e rezemos.

Não esqueçam que os autores amam a ironia e o sarcasmo, que espero ter traduzido a contento. Como sempre, qualquer correção à tradução será bem-vinda. Boa leitura.


CRISTO, SEM DOUTRINA NEM VERDADE.



A bisavó “Antonia” de Gnocchi e Palmaro me lembra a minha bisavó. Chamava-se Marietta e aos domingos ia a pé, sozinha, faça chuva ou faça sol, à Santa Missa das cinco da manhã, porque precisava, depois, ficar “livre” para preparar o almoço para sua família, aquela construída sobre a rocha e não sobre a areia. E a rocha era Cristo na Cruz... Santa Missa, Santo Rosário, orações, jaculatórias, procissões... eram a sua força, sua resistência, sua perseverança, sua coerência de vida, eram a Fé vivenciada, não um sentimento religioso que hoje existe e amanhã se vai... Podia desabar tudo ao redor da bisavó Marietta (e muito para ela desabou), mas ela permaneceria de pé, sem necessidade de psicanalistas e psicofármacos... porque sabia discernir entre o que é bem e o que é mal; e não com base em uma consciência “pessoal” (que muitas vezes é levada ao erro porque o homem, por causa do pecado original, é mais dirigido para o mal do que para o bem; ao pecado e ao vício do que à virtude), mas com base e graças a uma trama e urdido católicos.

Chesterton[1] escrevia: “O mundo moderno, com os seus movimentos modernos, vive graças ao capital católico que possui. Usa e abusa das verdades que lhe restavam daquele antigo tesouro que é a Cristandade”. Hoje, esta Cristandade está à beira do precipício.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

UMA CARTA ABERTA DE PARIS A ROMA


Esta carta aberta é de um padre francês que conhece bem a realidade do Islã, suas pretensões e as perseguições aos cristãos. Não é um padre tradicionalista, mas conservador, mais um dos que avisam a Bergoglio I de que está agindo mal, e o faz com toda a legalidade possível, "nas fuças" daqueles normalistas a que se referiam Gnocchi e Palmaro, que acham que mesmo quando espirra o Papa é infalível e não pode ser "contrariado" sob pena de sedevacantismo.

Eu não deixaria o cavalinho na chuva à espera de uma "resposta aberta" de Bergoglio, tendo em vista que não se trata de um ateu, os novos amigos de infância de Jorge. Assim como ficou sem resposta a carta do ex-muçulmano e ex-católico Magdi Allam, a que o pobre padre também faz referência. Esses são "ralé miúda", para os novos moradores da colina do Vaticano.

O que o padre diz é o que qualquer católico com um catecismo mediano sabe. Claro que é preciso ler com a devida condescendência, uma vez que para os conciliares escandalizados com os atos de Bergoglio é difícil compreender a razão e a origem disso tudo. E dá-lhe a mencionar o "grande" Vaticano II, no qual ainda repousam todas as esperanças... como se o que acontece hoje ainda fosse por causa de uma Igreja "imperialista e monárquica, opressora e antiquada, medieval"...

Esse puxão de orelhas valeria para muito uma excomunhão ou algo assim. Antes fosse, quem sabe assim esse padre bem intencionado abrisse verdadeiramente os olhos... Mas isso, o sabemos, é uma graça de Deus. Ele a dá a quem bem entende. Um dia saberemos o por que.

Vamos à carta. As notas são originais. Grifos e notas (no texto) nossas. Se houver algum erro de tradução, ficaremos felizes em sermos alertados. E gratos.

* * *

CARTA ABERTA DE UM PADRE PARIESIENSE


Santíssimo Padre,

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo, que vos deu a missão de guiar a sua Igreja!

Deixai-me, em nome de inúmeras pessoas chocadas com a sua carta aos muçulmanos, por ocasião do “Id al-Fitr” [1], e, em virtude do cânon 212 §3 [2], compartilhar convosco as reflexões desta carta aberta.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Gnocchi e Palmaro: Desse Papa não gostamos

Desta vez meus escritores italianos contemporâneos preferidos (pelo estilo, não pela doutrina, porque ainda mais conservadores do que tradicionalistas, embora não "normalistas") não usaram da típica linguagem salpicada de humor sarcástico, colocaram o dedo na ferida. Não há católico que possa ouvir calado o que Bergoglio diz. Falo aqui do católico verdadeiro, não do "normalista" a que eles se referem no texto, para quem as coisas nunca foram tão normais, um papa nunca foi tão católico e nunca disse tanto a verdade, "embora com outras palavras"... 

Mala tempora currunt... 

Vamos ao texto. Incorporei as notas ao texto por ser mais prático. Incorporei também os links. 


Bergoglio non vá!


Bergoglio: a pasta surrada e a cruz de ferro
Quanto tenha custado a impressionante exibição de pobreza de que papa Francisco foi protagonista no dia 04 de outubro em Assis não foi divulgado. Claro que, em tempos em que está tão na moda a simplificação, somos tentado a dizer que a histórica jornada foi bem pouco franciscana. Uma partitura bem escrita e bem interpretada, se se quiser, mas privada do quid que fez único o espírito de São Francisco, o santo: a surpresa que desloca o mundo. Francisco, o papa, que abraça os doentes, que se aproxima da multidão, que diz piadas, que fala de improviso, que utiliza um Panda [carro popular da Fiat, na Itália – NdTª.], que larga os cardeais no almoço com as autoridades para ir sentar-se à mesa dos pobres era o que mais seguro havia de se esperar, e pontualmente aconteceu. Claro que com grande concorrência da imprensa católica e para-católica a exaltar a humildade do gesto, sem deixar de suspirar de alívio porque, desta vez, o papa falou sobre o encontro com Cristo. E da [imprensa] laica a dizer que, agora, sim, a Igreja se coloca em sintonia com os tempos. Tudo o que poderia desejar um titulista medíocre que tem pressa de fechar a edição do jornal, e seja-o-que-deus-quiser.

Não houve nem mesmo a surpresa do gesto clamoroso. Mas, até mesmo isso, teria sido coisa muito pequena, tendo em vista o que papa Bergoglio tem dito e feito em apenas meio ano de pontificado, que culminou na troca de piscadelas com Eugenio Scalfari e na entrevista a “Civiltà Cattolica.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Franciscanos da Imaculada e a crise da Igreja: por que não se pode calar!

Publico porque é deles, Gnocchi e Palmaro. E eles me comprovam por que eu sou big fan deles! Precisos, pontuais e italianíssimos, no melhor estilo Guareschi de ser!!! Eles são os caras! O "italianíssimos" é por conta de que os italianos não costumam fazer cerimônias quando expressam seu pensamento ou sua opinião, não têm papas na língua mesmo! É uma franqueza que pode ser tomada, por quem não está acostumado, por rudeza. Mas não é. O mundo moderno tornou as pessoas melindrosas demais. Imagina se Cristo hoje os chamasse de "raça de víboras" como realmente são? Seria um escândalo! Perderiam a fantasia de ver a Cristo como um hippie woodstockiano. A verdade é sempre a melhor opção. Uma observação ainda, se me permitem, pesquisando sobre um padre anterior ao Vaticano II de quem ainda vou falar neste blog, eu li que antes deste concílio protestante os acusados que respondiam a processo canônico não tinham direito a ler as acusações, nem acesso às provas. O concílio trouxe a novidade, segundo eles mesmos afirmavam: benfazeja, de permitir total acesso aos autos e a ampla defesa... Mas por quê no caso dos FI isso não se aplica? Nisso, os conciliares preferem ser tradicionalistas? Se é que isso é verdade, ainda estou pesquisando, mas vale a pena algum nobre canonista nos esclarecer a respeito disto. 

1. Recomendo ler: O Pecado do Silêncio.
2. Se colocarem na pesquisa do Pale Ideas o nome deles: "Palmaro" ou "Gnocchi", encontrarão uma série de artigos deles ou sobre eles. Também recomendo. Eles são ótimos, tenho alguns livros deles e gostaria muito que pudessem ser vertidos para o Português.


Então, vamos ao texto. Não o revisei, mas parece uma boa tradução. 


* * *


Dossiê Franciscanos da Imaculada (I): A opinião de Alessandro Gnocchi e Mario Palmaro.


Os dois importantes jornalistas italianos, cujas intervenções aparecem sempre no diário Il Foglio, se manifestam sobre a intervenção Aviz-Carballo na Congregação dos Frades Franciscanos da Imaculada.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

As pressões para um acordo 'diplomático' começaram

É melhor que os lefebvrianos aceitem o acordo com Roma (para salvar Roma)

(por A.Gnocchi e M.Palmaro, em  Il Foglio, 27/01/2012) 

 



Data venia da 'opinião' dos já ilustres Gnocchi e Palmaro, que costumam escrever livros com mensagens positivas em relação à FSSPX, e sobre os quais eu tive o prazer de traduzir algumas análises de Cristina Siccardi e outros, desta vez... deram uma 'bola fora'. Ou várias. Primeiro, porque o conhecimento da matéria em causa que eles possuem é mais ou menos o que todos nós temos. Um pouco mais talvez, mas não o suficiente para poder 'palpitar' publicamente sobre o melhor deslinde para a questão. Segundo, porque há palavras-chaves no discurso deles que fazem eco a outras 'opiniões' expressadas, desta vez, pela ala progressista da Igreja: a 'via diplomática' que legitimaria a mudança do endereço de decisão da Congregação pela Doutrina da Fé para a Cúria das relações ecumênicas do Card. Kasper, e dai para a solução mais óbvia de submissão cega da FSSPX ou cisma. Também mencionam uma 'terceira via', uma opção para que não haja vencedores e perdedores, mas todos vencedores, como fazem na escola brasileira onde todos ganham estrelinhas e medalhas, não apenas o primeiro colocado, para não criar traumas, não embaraçar as pessoas, e cujo resultado, obviamente, é forjar perdedores. Todos: o primeiro colocado, que nunca mais vai se esforçar para se superar, e... o resto, um pelotão de perdedores que continuarão perdedores porque aprendem que não precisam se esforçar para ganhar. O que me preocupa nesse 'manifesto público' dos dois autores que são arroz de festa no mundo tradicionalista é 'porque agora' e 'a mando de quem' este discurso... Sobretudo me chama a atenção a manipulação das ideias: "diante da hesitação da Fraternidade": que hesitação? Quando a FSSPX hesitou? Com que palavras e em que momento? Todo seu agir e seu falar foi sim, sim, não, não. Seus argumentos são claros e sempre foram os mesmos. Suas pretensões, idem. Posso estar enganada, mas uma terceira via só existe na cabeça de quem pretende deixar as coisas como eram antes que Mons. Levebvre começasse a apontar o rei nu da fábula conciliar. Quanto à argumentação "por causa do bem de toda a Igreja"... Qual seria, seguindo essa hipotética terceira via, o bem de toda a Igreja? De fato, o bem da Igreja é esquecer, apagar, deletar o Concílio Vaticano II. Ponto. A preocupação com a 'cara de Roma' diante de uma decisão óbvia e, porque não, corajosa do Papa não passa de respeitos humanos que, sobretudo nesta questão, são hediondos. Heréticos, diria. E, para encerrar, sobre a 'hora' de pôr fim a essas 'rusgas' - porque é isso que está a parecer do discurso de Gnocchi e Palmaro - esse é o desejo dos católicos sinceros, mas não se pode optar por uma via diplomática apenas por uma questão de boas maneiras. Não se trata de uma discussão em família sobre assuntos pequenos. Não se trata de simples boa vontade e bom senso de ambos os lados... É a Verdade que está em jogo, e isso se resolve apenas com a Verdade.  
GdA

É melhor que os lefebvrianos aceitem o acordo com Roma (para salvar Roma)



O acordo sai ou não sai? O diálogo entre a Santa Sé e a Fraternidade São Pio X, fundada por Monsenhor Marcel Lefebvre, entrou em uma fase decisiva. O êxito desse diálogo é do interesse antes de tudo de Bento XVI, que o promoveu e alimentou pessoalmente; é do interesse de todos os sacerdotes, os religiosos e os leigos que fazem parte da Fraternidade; e é do interesse de toda aquela mais ampla parte do mundo católico que lefebvriana não é, mas que se coloca na área da Tradição. 

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

XIX Congresso de Estudos Católicos - FSSPX

O Concílio Vaticano II: mito e realidade
Síntese do XIX Congresso dos Estudos Católicos - Rimini 28, 29 e 30 de Outubro de 2011

O XIX Congresso de Estudos Católicos foi realizado, como de costume, em Rimini[1], de 28 a 30 de outubro 2011. Foram três dias de trabalhos intensos, nos quais se enfrentou, a partir de várias perspectivas, o problema do Concílio Vaticano II, da sua interpretação e das consequências factuais produzidas em quase cinquenta anos passados desde a sua abertura. O nível dos palestrantes e a amplitude de cada intervenção individual tornam simples a obra de quem é chamado a sintetizar um material tão ingente.

Os trabalhos foram abertos na noite de sexta-feira, 28, com a exposição histórica da Dr.ª Elena Bianchini Braglia[2] (Dal Risorgimento rivoluzionario all'aggiornamento conciliare), uma sólida dissertação retrospectiva que evidenciou como muitas das raízes da crise pós-conciliar possam ser facilmente encontradas a partir da Revolução Francesa e, no que respeita a Itália, a partir do Ressurgimento. A Tomada de Roma[3], ocorrida em 20 de setembro de 1870, ao contrário do que sustenta a maioria dos historiadores católicos contemporâneos, tornou objetivamente mais fraco e inseguro o papado, facilitou as infiltrações maçônicas e, sem dúvida, favoreceu indubitavelmente a obra dos chamados ‘católicos liberais’. A apresentação, portanto, percorreu, desde a contraposição oitocentista entre ‘católicos intransigentes’ e ‘transigentes’, a luta, sempre mais fraca por causa, provavelmente, do irromper do socialismo na cena europeia, contra o catolicismo liberal; o choque terrível, ganho apenas por algumas décadas, graças a São Pio X, com os teólogos modernistas e, finalmente, a aniquilação da doutrina social da Igreja pela Democracia Cristã[4], fundada por Romolo Murri[4], e pelo Partido Popular[6] de Dom Sturzo[7]. No início dos anos 60, portanto, a orientação cultural prevalente entre os católicos, após um processo de desagregação que durou mais de um século, estava efetivamente pronta para receber o ‘aggiornamento’ que trará o Concílio Vaticano II.

A manhã de sábado foi aberta com a intervenção, realmente aprofundada e envolvente, do Prof. Matteo D’Amico[8] (Oltre il mito dell'ermeneutica della continuità . Il problema del rapporto fra fede cristiana e età moderna), uma presença constante nas últimas edições do congresso de Rimini. Ele se propôs de analisar em profundidade o famosíssimo discurso de Bento XVI à Cúria Romana em 22 de dezembro de 2005, a alocução universalmente conhecida como a origem do magistério da chamada ‘hermenêutica da continuidade’. Quatro perguntas abrem o documento:
1.  Qual foi o resultado do Concílio?
2.  O Concílio foi acolhido de modo justo?
3.  O que foi justo, o que foi errado?
4.  O que resta ainda a ser feito?
D’Amico faz notar como, diante de quatro perguntas, existam apenas três respostas. A primeira questão, que afinal é a questão fundamental, ‘Qual foi o resultado do Concílio?’ permanece pendente. Este elemento já demostra como a linguagem adotada não seja analítica e precisa. Usam-se, então, indiferentemente os termos ‘interpretação’ e ‘hermenêutica’, como se fossem sinônimos. Assim, entretanto, não é, mesmo se os dois substantivos apresentem alguns significados comuns, mas não todos: a palavra ‘hermenêutica’, pelo contrário, é a base da linguagem filosófica existencialista do século XX. Não é um termo da teologia clássica e tomista. D’Amico se pergunta, em seguida, quais seriam os destinatários do discurso. Os ‘técnicos’ são certamente os cardeais da Cúria Romana. Pelo contexto pode-se, no entanto, pensar que a exortação seja dirigida em geral aos teólogos. Mas... a quem cabe a tarefa de interpretar os textos normativos do Magistério se não ao próprio Magistério? Por qual motivo, se a interpretação a ser seguida é a da continuidade, nunca se fez nada e se continua a não fazer nada contra aqueles que seguem, imperturbados, uma via diametralmente oposta? O orador dá, a este respeito, numerosos exemplos, entre os quais um de estreita atualidade:
Por que - afirma - não se toma qualquer providencia contra o card. Ravasi que, nas colunas do Avvenire[9], apenas alguns dias atrás, afirmou que se faz necessário chegar a um 'mea culpa' por causa das ‘injustas perseguições adotadas contra os modernistas e contra o escritor Antonio Fogazzaro[10] em particular’?
Mas o próprio Bento XVI declara abertamente que o escopo do Concílio foi “a redefinição das relações entre a Igreja e o mundo moderno”. Se estas relações devem ser redefinidas significa que é necessária implicitamente uma ruptura com o Magistério precedente, o qual, pelo contrário, havia sempre condenado os erros da sociedade contemporânea. Mas D’Amico conclui, introduzindo assim o assunto seguinte, considerando como, embora cada texto necessite de qualquer modo de interpretação, o Magistério deveria ter uma sua força intrínseca, um valor em si, compreensível, pelo menos em termos gerais, por todos e imediatamente. Se o verdadeiro significado de um ato magisterial requer um longo processo hermenêutico e se, acima de tudo, tal processo levou quase todos os exegetas, por quase meio século, por uma estrada errônea, significa indubitavelmente que no próprio texto há algo que não se encaixa, no mínimo algo ambíguo e pouco claro.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Prof. Roberto de Mattei e o Prêmio Aqui Storia

Prof. Roberto de Mattei, “… ‘regra da fé’ não é nem o Concílio Vaticano II, nem o Magistério vivo contemporâneo, mas a Tradição, ou seja, o Magistério perene”.

Entrevista com o professor Roberto de Mattei – Um docente católico é ‘indigno’ de ser premiado


Na atual cultura europeia, o conceito de liberdade de opinião adquiriu, também, infelizmente, em campo católico, matizes tipicamente iluministas e ideológicos. Em nome da defesa da liberdade “de todos” se procura impedir que aqueles que defendem ideias consideradas incompatíveis com esta liberdade as possam expressar. Isto tem uma inata valência antirreligiosa e principalmente anticatólica, já que a Fé romana tem a certeza das Verdades que proclama, e isto é percebido pelos relativistas como dogmatismo intolerante, a ser combatido em todas as suas expressões.

Neste quadro se insere o caso “de Mattei – Acqui Storia”, que apareceu nos principais jornais italianos: desde o “Corriere della Sera” ao “Il Giornale”, de “la República” ao “Libero”. O Prêmio Acqui Storia, chegado este ano à 44ª edição (a cerimônia de premiação será realizada em Acqui Terme, em 22 de outubro próximo), tornou-se o mais importante reconhecimento dedicado à História, não apenas em nível nacional, mas na Europa, e está dividido em três seções: histórico-científica, histórico-divulgadora e romance histórico. O Presidente do Prêmio, Guido Pescosolido, demitiu-se de forma polêmica contra a escolha de premiar o ensaio histórico-científico O Concílio Vaticano II. Uma história nunca escrita (Lindau Ed.) do Professor Roberto de Mattei, Católico com C maiúsculo e vice-presidente do CNR (Conselho Nacional de Pesquisas). Motivo: “Trata-se da obra de um militante”, no entanto havia declarado: “respeito todas as ideias”… Rocco Buttiglione, ex-ministro da Cultura, acusou Pescosolido de continuar uma ‘perseguição pessoal’ contra de Mattei. Cada estudioso lê e interpreta os eventos com base em sua própria bagagem cultural; mas isto não exclui de realizar obras sérias e rigorosas, sem manipulações, respeitando a objetividade dos fatos.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

A Bela Adormecida

NA IDADE DA CONFUSÃO1, EIS UM LIVRO QUE ESCLARECE...


 

A primeira apresentação do livro de Gnocchi-Palmaro2, A Bela Adormecida. Porque depois do Vaticano II a Igreja entrou em crise. Porque despertará (Ed. Vallecchi), despertou um vivíssimo interesse entre as pessoas reunidas sábado, 15 de outubro, na maravilhosa e antiga Igreja de Todos os Santos dos Franciscanos da Imaculada, de Florença, onde foi celebrada, antes da conferência, a Santa Missa no rito tridentino oficiada pelo Pe. Serafino Lanzetta.

 

da esquerda: Pucci Cipriani, Mario Palmaro e Paolo Deotto

Estavam presentes, à mesa dos palestrantes, o próprio Pe. Lanzetta, o Prof. Pucci Cipriani, o Prof. Mario Palmaro e o Dr. Paolo Deotto, diretor de Riscossa Cristiana3. Este encontro foi melhor resposta para o artigo que Alberto Melloni4  havia escrito no ‘Corriere fiorentino’5 um dia antes; jornal que dedicou, no dia da reunião, uma página inteira ao evento. O expoente da Escola de Bologna6, que fez do Concílio Vaticano II um mito intocável, usou em seu artigo tons insolentes e rudes contra quem sustenta que a Igreja sofreu um trauma com seu XXI Concílio. A medicina nos ensina que dos traumas se consegue muitas vezes sarar somente descobrindo as causas que os geraram... Tampar o sol com a peneira7 ou repetir enfurecidamente que o Concílio não é o problema, mas que, quando muito, os problemas surgiram porque as diretrizes conciliares não foram executadas suficientemente (os progressistas) ou porque houve más interpretações deles (os neoconservadores) não é certamente um bom serviço à Igreja.
Melloni considera os católicos que amam toda a Igreja, portanto sua Tradição, como nostálgicos que ‘comovem’. Tem dó deles e deles se compadece como se se tratasse de frustrados que esperam uma revanche: “esperam uma desforra ao invés de compreender a sua posição por aquilo que é: um movimento que chama tradição e hábitos de sua própria juventude”; e, no entanto, a Igreja de Todos os Santos estava cheia de jovens e de estudantes, assim como esses mesmos jovens se interessam pela Tradição da Igreja através das ideias que livremente circulam na Internet. Não se trata absolutamente de nostálgicos. As estatísticas, por outro lado, falam por si. Melloni não sabe que nestas reuniões e nas missas tridentinas os mais velhos são sempre o percentual menor. Na realidade, todos estes católicos querem entender o que realmente aconteceu naquele Concílio Vaticano II que tantos problemas tem criado.
Ninguém, desprovido de má-fé, pode afirmar que a Igreja tenha se beneficiado das decisões pastorais do Concílio Vaticano II. Ninguém pode dizer que tenham aumentado as vocações, que tenha aumentado o zelo, que tenham se ampliado a Fé, a Esperança e a Caridade, que haja uma boa preparação catequética nas crianças e adolescentes, que a prática religiosa tenha aumentado, que as famílias tenham sido beneficiadas, que as leis dos Países ocidentais sejam respeitosas em relação à vida humana desde a sua concepção, que a evangelização, ordenada por Jesus Cristo aos seus Apóstolos, tenha assimilado linfa nova e vital... Nada disso. Então, realmente, como disse Ralph McInerny8, no Vaticano II algo deu errado, mas não deu errado porque, como argumentou o estudioso americano, os documentos não foram acolhidos corretamente e sua interpretação foi falsificada, mas porque o Concílio, seguindo a cultura da época, quis se desfazer, disse o padre Serafino Lanzetta, do princípio da Cruz e do sacrifício, sustentando uma tese heterodoxa “em nome da pastoralidade. Isso originou a ambiguidade, e, portanto, o Concílio se submeteu, por sua própria natureza, a múltiplas interpretações. Muitos, como resulta da análise de Melloni, pensaram que a doutrina deva adaptar-se aos tempos e não vice-versa. Hans Küng9 sustenta, em seu livro ‘Salvemos a Igreja’, que a Igreja está em crise não for falta de Fé e de correta pregação, mas deriva de um problema de caráter político dentro da Cúria romana, portanto da teologia romana, da teologia metafísica. Küng, como Alberigo e Melloni, argumenta que o Vaticano II queria recuperar a Igreja do primeiro milênio, considerando-o um período ideal porque a Igreja era unida e compacta: Ocidente e Oriente juntos, sem cismas, sem Protestantismo. Mas como é possível, na Igreja, não considerar o segundo milênio? Benvinda seja, então, a análise divulgadora de Gnocchi e Palmaro, que esclarece muitos pontos, gerando, no entanto, em alguns, turbamento, irritação, nervosismo”, e, sem argumentações sérias, procuram desacreditar com irreverência aqueles que consideram ‘inimigos’.

Pe. Lanzetta, que aprecia neste livro o agradabilíssimo italiano, lembrou, como bem enfatizaram Gnocchi e Palmaro em seu livro, a formidável incidência da mídia sobre o mito do Vaticano II, e isto deriva de uma filosofia de matriz kantiana: a coisa existe se aparece. O ‘Avvenire d’Italia’10, no período do Concílio, registrava a crônica das assembleias conciliares: as realidades sagradas eram colocadas em praça pública, em uma espécie de mentalidade ‘democrática’ que satisfazia as necessidades liberais da cultura da época. E tais crônicas relatavam tudo o que parecia ‘novo’ e ‘revolucionário’, e não a essência da Fé. Emblemático resulta o fato de que o arcebispo brasileiro Helder Pessoa Câmara11 (conhecido como Dom Helder, 1909-1999) preferisse realizar coletivas de imprensa a falar no Concílio, pois o reputava, justamente, mais eficaz, uma vez que os Padres Conciliares se deixavam influenciar por tudo que aparecia nos meios de comunicação de massa, mais do que por aquilo que haviam ouvido nas Sessões.

“O livro de Gnocchi e Palmaro”, afirmou Pe. Lanzetta, “não é uma inquisição, um processo a Galileu12, mas simplesmente uma análise dos fatos; é tomar consciência de um problema real. Ocorre tomar consciência de que o Concílio não é o todo, não é o divisor de águas. A Fé católica não se origina em um Concílio”. A Fé não depende da adesão ao Concílio Vaticano II, porque este não é um dogma de Fé. A Bela Adormecida ajuda a perceber um problema que não pode mais ser negligenciado.

Paolo Deotto, então, declarou que ficou satisfeito de ler o livro de Gnocchi-Palmaro, porque há muito tempo recebe, em um ritmo insistente, correspondência dos leitores de Riscossa Cristiana, na qual se percebe o desejo de compreender as questões controversas do Concílio e “o desejo de ter uma Igreja próxima e respeitada”, que não se confunde com as outras realidades terrenas de consistência líquida ou gasosa. O fiel da primeira hora conciliar restava assombrado diante dos novos eventos eclesiásticos: padres trabalhadores, padres sindicalistas, padres sociólogos, padres politiqueiros, padres guerrilheiros... quando pelo contrário, ontem como hoje, precisamos de sacerdotes que sejam sacerdotes, “necessitamos deles”, afirmou Deotto, “como do ar que respiramos”.




A comunicação da época se apropriou da temática religiosa: o Concílio Vaticano II era uma grande novidade, e jornais e TV colocaram sob os holofotes uma Igreja que, através de alguns teólogos e alguns pastores, queria emancipar-se e estar nos salões da sociedade13. “A Igreja queria manter-se atualizada com os tempos”; sem antagonizar ninguém, quis agradar a todos para ser amiga de todos, não olhando mais para erros e heresias, mas apenas para as coisas que unem e não dividem, “bem distante de um santo Atanásio que permaneceu firma na Fé Católica e no Deus encarnado com todas as consequências que este Credo comporta”.

A intervenção do Prof. Palmaro foi, então, cheia de significado. Ele lembrou, antes de tudo, de ter nascido em 1968, e daqueles anos lembra, em particular, uma palavra que era sempre pronunciada e praticada: ‘debate’, continuamente invocado e reclamado. Desde então, se fazem debates sobre tudo e todos. “Todavia, hoje, há quem não queira mais os debates, embora os tenha apoiado muito. Daqui nasce a intolerância, a qual esconde uma grande fraqueza: não enfrentar a realidade. Eis, então, a idade do paradoxo: onde eu e Gnocchi pudemos expressar o nosso pensamento católico? Em jornais seculares e, em particular, no ‘Il Foglio’14, de Giuliano Ferrara. Aqui pudemos dar espaço a uma hermenêutica de fatos católicos. Estamos dentro do que, muito provavelmente, os historiadores do futuro definirão a ‘Idade da confusão’.

Nos acusam de fazer recair todas as culpas sobre o Vaticano II, e que procuramos todas as causas dos males neste particular Concílio. Não é verdade, porque dizemos que muitos problemas doutrinais precederam o Vaticano II, como bem destaca o Prof. Roberto de Mattei15. De fato, aos meus alunos faço ler a encíclica do São Pio X, a Pascendi Dominici Gregis16, onde são evidenciados e condenados os erros dos modernistas. Esta tem um caráter de definição e jurídico, e há nela uma metafísica sólida, onde a teologia é acompanhada por um pragmatismo são, que não deixa espaço à imaginação ou às fantasias utópicas.

O católico é chamado a reagir: não pode salvaguardar o que a Igreja sempre renegou. No entanto, Melloni e alguns conservadores não querem que se fale. A acusação deles é forte, usam as armas da excomunhão, ou nos consideram pobres marinheiros que discutem em uma taberna. Outro paradoxo: não podemos mais dizer a alguém que é um herético, mas, contra os católicos que instauram um ‘debate’ sério, então se diz que eles são heréticos...”. Estamos diante do paradoxo de Epiménides17, que afirmou: ‘Todos os cretenses são mentirosos’. Mas os cretenses eram muito, supondo que todos fossem mentirosos: como Epiménides era um cretense, então Epiménides era um mentiroso. Sua afirmação era então verdadeira, mas isto é impossível porque um mentiroso não diz a verdade. Portanto, Epiménides é um mentiroso, e sua afirmação não é verdadeira. Negar uma asserção universal como ‘Todos os cretenses são mentirosos’ equivale a dizer que há pelo menos um cretense que diz a verdade. Da mesma forma, esses escritores e estudiosos católico têm que viver, portanto, o paradoxo de Epiménides.

Palmaro ressaltou, em fim, a importância da mudança da linguagem ocorrida durante o Concílio, e os documentos da Sessão estão embebidos de novas caracterizações linguísticas. Três foram as colunas da comunicação católica:

1. A língua latina. Esta deu uniformidade à linguagem e ao sentido das palavras. Tudo era definido em latim para evitar ambiguidades de expressão, oferecendo uma solidez sã ao longo do tempo.

2. A linguagem apologética. O latim não era compreendido por todos, por isso devia haver a transferência da comunicação por um clero preparado ao povo dos fiéis: narravam-se as vidas dos santos com os livros e com as homilias, defendiam-se as razões da Igreja, e nos sermões não se usavam as citações de um Rahner18, mas de São Jerônimo, de São Francisco... Em suma, alimentava-se a Fé.

3. A linguagem jurídica. Os conceitos eram expressos em modo de definição.






Tais cânones, no Concílio Vaticano II não os encontramos mais. De fato, explicou Palmaro, os esquemas conciliares preparados pela Cúria de Roma que contemplavam ainda estas três colunas foram descartados.

Muitos aspectos, então, presentes nos documentos conciliares são a esta altura antiquados e ultrapassados; por exemplo, a relação entre o homem e o ambiente ou o homem e a técnica, ambos caracterizados pelo irracional otimismo dos anos Sessenta. Portanto, estamos diante de outro paradoxo: há muito mais novidade em levantar tais questões do que em quem, pelo contrário, está ancorado ao ‘moderno’ de então. Portanto, enfrentar essas temáticas resulta um drama psicológico para aquela geração que cresceu no mito do Concílio. Estamos diante de um novo Muro de Berlim que cairá, inexoravelmente, como acontece com as ideologias. A Igreja não nasceu de novo com uma fictícia e almejada pentecostes, porque a Igreja teve e tem uma única Pentecostes, não decidida pelos homens. Então, devemos nos armar de santa paciência. Os tempos da Igreja são longos: levou quase 50 anos para levantar questões como as de hoje, e o encantamento da Bela Adormecida será quebrado também graças a obras como a de Gnocchi e Palmaro, que, como muitos outros católicos que amam a Igreja, se colocam interrogações lícitas para as quais desejam ter respostas não vagas, ambíguas, ou fugazes, mas resolutivas, e operam com o espírito de quem não quer servir-se da Igreja, mas deseja servi-la.

Cristina Siccardi
 

Fonte: Approfondimenti di “Fides Catholica”
Tradução: Giulia d'Amore di Ugento

Cristina Siccardi
Cristina Siccardi: nascida em Turim (1966), é casada e mãe de dois filhos. Formada em Letras (Cum Laurea) com ênfase em História, é especializada em biografias. Escreveu para La stampa, La gazzetta del Piemonte, Il nostro tempo, Avvenire, L’Osservatore romano e colabora com diversos periódicos culturais e religiosos como il Timone, Radici Cristiane, Nova Historica. É membro das Academias Paestum, Costantiniana, Ferdinandea, Archeologica italiana, Bonifaciana. Em 26 de Novembro de 2010 recebu o Premio Bo­nifacio VIII, da cidade de Anagni (Itália). As suas obras foram traduzidas até no exterior e do livro dedicado à Princesa Mafalda foi produzido um filme para Canale 5: Mafalda di Savoia. A coragem de uma princesa, produzido por Angelo Rizzoli e dirigido por Maurizio Zaccaro. Website


 

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1 NdTª.: No original: Evo confusionale.
2 NdTª.: Alessandro Gnocchi e Mario Palmaro.
3 NdTª.: Riscossa Cristiana (Revanche Cristã): site católico de atualidades e cultura.
4 NdTª.: Alberto Melloni é um histórico italiano, dedicando-se à História da Igreja, em particular ao Concilio Vaticano II.
5 NdTª.: Corriere Fiorentino (Correio de Florença): jornal italiano online de crônica local, da cidade de Florença. Pertence ao célebre Corriere della Sera (Correio da Tarde), fundado em 1876.
6 NdTª.: A chamada Escola de Bologna ‘congrega’ os defensores da Hermenêutica da Ruptura: Giuseppe Alberigo, Giuseppe Ruggieri, Maria Teresa Fattori, Alberto Melloni, Yves Chiron, David Berger, John O'Malley, Gilles Routhier e Cristoph Theobald, entre os principais expoentes.
7 NdTª.: Foderarsi gli occhi: expressão que – originada da frase: ‘É inutile foderarsi gli occhi con la pancetta’, ou seja: ‘é inútil forrar os olhos com o bacon’ – quer dizer: fazer de conta que não é verdade. O nosso ‘tampar o sol com a peneira’.
8 NdTª.: Ralph M. McInerny. What Went Wrong with Vatican II?: The Catholic Crisis Explained (Vaticano II. O que deu errado?: A Crise Católica Explicada).
9 NdTª.: Hans Küng. é um teólogo suíço, filósofo, professor de teologia, escritor e sacerdote católico romano. No final da década de 1960, Küng iniciou uma reflexão rejeitando o dogma da Infalibilidade Papal, publicada no livro ‘Infallible? An Inquiry’ (‘Infalibilidade? Um inquérito’), em 18 de janeiro de 1970. Em consequência disso, em 18 de dezembro de 1979, foi revogada a sua licença pela Igreja Católica Apostólica Romana de oficialmente ensinar teologia em nome dela, mas permaneceu como sacerdote e professor em Tübingen até a sua aposentadoria em 1996. Küng defende o fim da obrigatoriedade do celibato clerical, maior participação laica e feminina na Igreja Católica, retorno da teologia baseada na mensagem da Bíblia.
10 NdTª.: Avvenire d’Italia (Porvir da Itália): foi o primeiro jornal diário nacional de inspiração católica que apareceu no Reino da Itália. Foi publicado de 1896 a 1968. Em 1961, o novo diretor, Raniero La Valle, lhe deu uma direção progressista, contra a Igreja Tradicional. No plano internacional, tornou-se um jornal pacifista e antiamericano. La Valle era ligado ao card. Giacomo Lercaro, de Bologna. O jornal pertencia à Santa Sé, à Democrazia Cristiana (partido italiano de centro) e a algumas dioceses da Toscana e de Emília-Romanha. Foi fechado por questões econômicas, não doutrinárias.
11 NdTª.: Helder Pessoa Câmara, OFS. Foi um bispo católico, arcebispo emérito de Olinda e Recife. Foi um dos fundadores da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e defensor dos direitos humanos durante o regime militar brasileiro. A Permanência faz uma boa e substancial biografia de dom Helder.
12 NdTª.: Sic. Esta colocação é estranha, tendo em vista que a ‘perseguição a Galileu’ é um mito.
13 NdTª.: No original: ‘salotti buoni’. Ou seja os salões da burguesia. Que todos, afinal, querem frequentar. Até os comunistas.
14 NdTª.: Il Foglio Quotidiano (conhecido como Il Foglio) é um jornal diário italiano de difusão nacional fundando em 1996 por Giuliano Ferrara. Este, em 2007, fez uma campanha por uma moratória contra o aborto, porque “Os mais de um bilhão de abortos praticados desde que as leis permitem a famosa interrupção voluntária da gravide diz respeito a pessoas legalmente inocentes, criadas e destruídas pelo mero poder do desejo, desejo de não tê-los e de odiar-se até o ponto de amputar-se do amor. É o escândalo supremo do nosso tempo, é uma ferida catastrófica que lacera em profundidade as fibras e o possível encanto da sociedade moderna. É, além de tudo, em muitas partes do mundo onde o aborto é seletivo por sexo, e torna-se seletivo por perfil genético, uma obra de arte ideológica de racismo em marcha com a força da eugenética. Alegremo-nos, portanto, para o alto os corações, e depois de termos promovido a Pequena Moratória, promovamos a Grande Moratória do massacre dos inocentes. Aceitam-se zombarias, porque as boas consciências sabem usar a arma do sarcasmo melhor que as más, mas também a adesão a um apelo que fala por si, iluministicamente, com a evidência absoluta e verídica dos fatos de experiência e de razão”. (Giuliano Ferrara, Il Foglio, 19 dezembro de 2007).
15 NdTª.: Roberto de Mattei. autor e historiados católico italiano, escreveu o ‘Il Concilio Vaticano II. Una storia mai scritta’ (‘Concílio Vaticano II. Uma história nunca escrita’), que ganhou a indicação a dois prêmios: ‘Pen Club Italiano’ e ‘XLIV Premio Acqui Storia’, sendo que ganhou este último.
16 NdTª.: Pascendi Dominici Gregis. É uma encíclica papal promulgada pelo Papa Pio X em setembro de 1907. Seu subtítulo diz: Carta Encíclica do Papa Pio X sobre os erros do modernismo. O documento, assim, condena o modernismo católico, considerado uma “síntese de todas as heresias”, com sua junção de evolucionismo, relativismo, cripto-marxismo, cientificismo e psicologismo. Como consequência da Encíclica, o papa formulou o ‘juramento antimodernista’, obrigatório para todos os padres, bispos e catequistas e que foi abolido em 1967, pelo Papa Paulo VI. Este fato levou os católicos tradicionalistas a acusarem que o outrora combatido modernismo tornou-se na doutrina subjacente da ‘nova Igreja’. Um dos mais influentes filósofos modernistas foi Teilhard de Chardin, que pretendia reunir catolicismo com darwinismo e marxismo. Os católicos tradicionais veem este documento como evidência de que a Igreja Católica e os papas anteriores ao Concílio Vaticano II já estavam atentos para a infiltração de inimigos da Tradição no seio da instituição. Muitos tradicionalistas consideram o Papa Paulo VI um modernista, como o norte-americano Rama Coomaraswamy, em ‘Ensaios sobre a Destruição da Tradição Cristã’ (São Paulo, 1990).
17 NdTª.: Trata-se do ‘Paradoxo do Mentiroso’.
18 NdTª.: Karl Rahner foi um sacerdote católico jesuíta de origem germânica e um dos mais influentes teólogos do século XX. Participou – a pedido de Papa João XXIII – como teólogo consultor do Concílio Vaticano II. Entrou na Comissão teológica e se tornou um personagem chave do Concílio, promovendo a “nova visão de uma ‘Igreja de todo o mundo’, não mais ‘fechada em trincheira’, mas ativa e positivamente aberta ao diálogo com as outras confissões cristãs e com as grandes religiões do mundo; Rahner contribuiu a transportar a teologia católica para o fim da neoescolástica, com a valorização do laicato na Igreja e com a concessão, aos bispos de todo o mundo, de uma maior liberdade de iniciativa dentro da própria Igreja”. [La fatica di credere (A fadiga de crer). 1986.] Criou a revista Concilium.

domingo, 9 de outubro de 2011

A Esposa desperta!

A Bela Adormecida  
de Gnocchi e Palmaro chega a Florença

Fonte: Fides Catholica...


Em 2012 recorrerá o 50º aniversário da abertura do Concílio Ecumênico Vaticano II, Alessandro Gnocchi e Mario Palmaro, dois dos nomes mais conhecidos e lutadores do panorama católico indagam sobre a crise sem precedentes que está atravessando a Igreja contemporânea, revelando a raiz do drama através de uma investigação apaixonante. Da silenciosa apostasia aos problemas morais, a Igreja católica está atravessando uma das crises mais graves de toda a sua história. O que haveria na origem de tal terremoto? Os autores evidenciam uma crise de Fé que se  manifesta em toda a sua força a partir dos anos '60 e que tem seu eixo na complexa estação do Concílio Concilio Vaticano II. Uma análise que causará polêmica, na qual, seguindo estas páginas apaixonadas e prementes, o leitor ascender às fontes do fenômeno até encontrar no banco dos acusados homens e eventos tidos até hoje intocáveis, quase verdadeiro mitos.

Os autores
Alessandro Gnocchi, estudioso das temáticas religiosas na literatura moderna e contemporânea, e Mario Palmaro, filósofo do direito, são dois dos nomes mais conhecidos e mais lutadores do panorama católico. Colaboram com vários jornais, entre os quais «il Foglio», «Libero» e a rivista de apologética «Il Timone». Entre os livros que escreveram juntos: "Cattivi maestri. Inchiesta sui nemici della Verità"; "Cronache da Babele. Viaggio nella crisi della modernità"; "Contro il logorio del laicismo moderno"; "Io speriamo che resto cattolico"; "Giovannino Guareschi: c'era una volta il padre di don Camillo e Peppone"; "Tradizione, il vero volto"; "Rapporto sulla tradizione". Com a editora Vallecchi, sempre na coletânea Avamposti "Viva il Papa!"(2010).

O livro será apresentado em Florença, na Igreja de Todos os Santos, sábado 15 de outubro de 2011, às 18:00. Às 16:30, será rezada a S. Missa em Rito Romano antigo. Para reservar o jantar que seguirá, enviar um e-mail para: ascarus@libero.it.

Análise do livro por Cristina Siccardi
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Ao ler o livro de Alessandro Gnocchi e Mario Palmaro, A Bela adormecida. Porque depois do Vaticano II a Igreja entrou em crise. Porque despertará, editado pela Vallecchi, não se pode não ficar desconcertados e pesarosos ao contatar que a Igreja foi sacudida em seus alicerces até arriscar a profanação de sua sacralidade. Mas a Bela, hoje adormecida, por quem foi insidiada? É ele, o grande inimigo de sempre, vigilante e rugindo, diabólico por essência, Satanás.
O texto explica em maneira linear e fácil de entender a patologia que atingiu a Igreja, fazendo um diagnóstico explicito e pontual. A crise eclesial há décadas que se manifesta, mas todos se calavam e as poucas vozes corajosas eram imediatamente silenciadas, como expoentes de um mundo tradicionalista para perseguir e demolir como algo de perigoso e sectário. Qual justificativa, então, os católicos davam às más chagas da Igreja? «imputava-se a origem de todos os males à não-aplicação do Concilio ou, quanto menos, à diluição de sua carga inovadora: em uma palavra, à traição» (1) e os traidores mais culpados tinha um rosto preciso por causa de sua marca de catolicidade: Monsenhor Marcel Lefebvre, Romano Amerio, padre Cornelio Fabro, dom Divo Barsotti, padre Pio da Pietrelcina…
Todavia, a Verdade é mais forte que a mentira. Gnocchi e Palmaro o demonstram com este compêndio deles que sintetiza, em maneira admirável, às vezes até com tons irônicos, às vezes com acentos graves, o que ocorreu nos últimos tempos: os estudos de grandes personalidades como o teólogo de Santa Romana Igreja, Monsenhor Brunero Gherardini (2), e do professor Roberto de Mattei (3) foram determinantes para romper, finalmente, a calota gélida, uma calota constituída pelo «superdogma» (4) do Concilio Vaticano II, tão compacta e tão dura que parecia infrangível. Mas diante da evidência de uma apostasia generalizada, de uma decadência dos costumes, de uma ignorância religiosa, sobre o abc da doutrina católica, que se tornou irremediavelmente crassa, de uma sede de Fé de crentes insatisfeitos ou, até, angustiados, os porquês e os pontos de interrogação, definitivamente, são não apenas de dever mas dados por certos. As vozes da geração passada que foram escandalosas e por causa das quais cobríamos nossos ouvidos para não ouvi-las foram substituídas providencialmente por aquelas de intelectuais contemporâneos. E, então, como diz dom Massimo Vacchetti: «À vigília dos cinquenta anos da convocação conciliar ocorre superar a estação ideológica que caracterizou seu recebimento, recompor as feridas infligidas nestes anos e devolver ao povo católico aquelas certezas de pensamento e de Fé sobre as quais, somente, é possível caminhar alegres por aquilo que nos espera, agradecidos por aquilo que nos precedeu» (cfr. http://www.libertaepersona.org/dblog/articolo.asp?articolo=2774).


A Igreja, e ninguém pode negá-lo, se secularizou progressivamente, e isto não é, segundo Gnocchi e Palmaro, um problema de interpretação do Concílio Vaticano II, mas um problema intrínseco àqueles documentos que a Assembleia produziu. Afirmou padre Serafino Lanzetta, teólogo dos Franciscanos da Imaculada: «Até pouco tempos atrás, o simples pensamento de poder-se colocar em modo crítico diante do Vaticano II parecia uma cripto-heresia para o manto de silêncio que necessariamente devia reinar, recobrindo-o apenas de louvores […]. O Vaticano II é um problema? Sim, no sentido de que as raízes do estro pós-conciliar não estão apenas no pós-concílio. O
pós-concílio não dá razão de si. Pelo amor à Igreja e pelo futuro da Fé no mundo, precisa examinar a raiz do problema» (5).
 

A se admirar, no cenário intelectual, não são mais os que seguem a chamada Escola de Bolonha, onde se aclama a "benéfica" revolução amadurecida na Igreja graças ao Concilio Vaticano II, mas também a «Baleia Branca eclesial devotada a um conservadorismo enfatuado pelo presente» (6), trata-se de uma leitura neo-centrista segundo a qual as razões da crise da Igreja e, portanto, da Fé, teriam surgido sucessivamente ao Concilio por causa da interpretação revolucionária dos documentos. Portanto, a solução consistiria em separar o Concilio do pós-concílio. Trata-se, em definitivo, de uma posição de compromisso, um escamoteio para enganar, negando a evidência dos fatos. Se escolhe, na prática, a linha do Peppone de Dom Camilo, que, ouvindo as aterradoras narrativas do pároco sobre a Rússia soviética, afirma: «Deixai-nos em paz, prefiro ficar com minha ideia de Rússia, vós ficai com a vossa» (7).
Fenômenos que na Igreja nunca se viram, como a revolta litúrgica ou o ecumenismo, são frutos claro do jacobinismo conciliar. Ambos são devido às exigências protestantizantes: a assembleia, a Palavra e o memorial da ceia no que diz respeito à Missa, excluindo o Santo Sacrifício, enquanto a instância ecumênica nasceu da ação de alguns missionários protestantes do início do Novecentos, os quais promoveram iniciativas de diálogo entre as incontáveis confissões reformadas.
O Vaticano II foi o primeiro Concilio a ser exclusivamente pastoral e não dogmático, desviando a atenção da Fé e de sua ortodoxia, um efeito que reconduz, inevitavelmente, ao clima cultural progressista dos anos Sessenta, quando a ortopráxis tomou o lugar da filosofia autêntica, ou seja, quando nos colocamos questões não mais sobre a existência (Quem chamo? De onde viemos? Para Quem iremos?), mas sobre a contingência vivencial, pessoal e terrena.
Foi assim que muitos, na Igreja, «pensaram que aquele trem, veloz e moderno, não deveria ser perdido: precisava subir nele a todo custo» (8). Um trem que hoje descarrilhou, mas que, na época, ninguém queria perder porque demasiado tentador era o pensamento daqueles teólogos que queriam, como estilista de vanguarda, desenhar e confeccionar uma veste à moda para a Esposa de Cristo, uma veste nova e com ela uma linguagem à la page. Os inovadores eram tão voluntariosos e arrogantes de suas ideias que colocaram em dúvida até mesmo o poder do Papa. Foi assim que adquiriram um poder totalmente extraordinário e doutrinariamente injustificado as Conferências episcopais, que nasceram os conselhos pastorais, as assembleias paroquiais…
O livro de Gnocchi e Palmaro oferece também uma interessante análise sobre o poder que a mídia teve dentro da Assembleia conciliar: foi ela, além dos teólogos modernistas, a ter influência sobre aqueles bispos que não eram nem progressistas, nem fortemente ligados à Tradição. Assim ocorreu que padre Antoine Wenger do «La Croix», Raniero La Valle do «Avvenire d'Italia», Henri Fesquet do «Le Monde», don René Laurentin do «Le Figaro», o redentorista americano Francis X. Murphy do «New Yorker Magazine» e outros tiveram influência nas decisões conciliares. E foi assim que no Concilio não se falou dos problemas e dos erros do mundo (por exemplo, o comunismo, o indiferentismo religioso, a secularização ou o modernismo na Igreja), mas de como a Igreja poderia aproximar os i «distantes», como poderia escancarar a própria porta ao mundo... e a imprudência foi imensa, visto que a fumaça de Satanás (como o definiu Paulo VI em 1972) pôde entrar por ela com toda sua virulência. 

De outro lado, os êxitos do Concilio foram objetivamente vistos pelos vencedores daquela Assembleia conciliar: «De algum modo, contribuímos com a nossa ação precedente também ao êxito do Concilio», deixa escrito o «partisão» (9), Giuseppe Dossetti, «Pôde-se fazer alguma coisa no Concílio em função de uma experiência histórica vivida no mundo político, até mesmo de um ponto de vista técnico de uma assembleia que de alguma forma fez a diferença. Porque no momento decisivo justamente minha experiência com assembleias […] reverteu a sorte do próprio Concilio» (10). Diante dessas declarações não se pode restar indiferentes. Mas foi dai que tomaram a iniciativa personagens como Enzo Bianchi, que fundo a Comunidade de Bose [Itália, NdTª] em 8 de dezembro de 1965, coincidentemente, o dia do encerramento do Concilio. No entanto, a realidade ecumênica de Bose, que ultrapassou as mais róseas esperanças dos primeiros missionários protestantes dos quais falamos, não obstante o amplo sucesso mediático, até hoje não tem nenhum reconhecimento eclesiástico. O fato de que a comunidade do "profeta" Bianchi «não possa ser contemplada com uma estrutura dentro da Igreja significa apenas que a estrutura desta Igreja tem que mudar: demasiado hierárquica, costantiniana, fundada sobre o poder, velha» (11).
O leitor verá desenrolarem-se, página após página, as razões de uma problemática conciliar clara e evidente, tão simples que, se o católico é seriamente intencionado em compreender a realidade dos fatos, não poderá que chegar a uma convicção tão crua quanto amarga: a Igreja foi enganada e, então, como disse Paulo VI, o Papa que viu a desgraça, mas não a parou: «Acreditava-se que depois do Concilio viria uma jornada de sol para a história da Igreja. Veio, ao invés disso, uma jornada de nuvens, de tempestade, de escuridão, de busca, de incerteza» (29 junho 1972). Todavia, a Esposa de Cristo encontrará a força de despertar do longo letargo causado pelo sonífero conciliar e a despertá-la serão os que não usam a Igreja para os próprios fins, sejam esses materiais ou ideológicos, mas os que a amam verdadeiramente, perdidamente, prontos até a perder a si mesmo por Ela.



Cristina Siccardi


Notas
1. A. Gnocchi - M. Palmaro,
A Bela adormecida. Porque depois do Vaticano II a Igreja entrou em crise. Porque despertará, Vallecchi, Florença, 2011, p. 15.
2. B. Ghereradini, Concílio Ecumenico Vaticano II. Um discurso a ser feito, Casa Mariana Editora, Frigento 2009. B. Gherardini, Concilio Vaticano II. O discurso que faltou, Lindau, Torino 2011.
3. R. de Mattei, O Concilio Vaticano II. Uma história nunca escrita, Lindau, Torino 2010.
4. "A verdade é que este particular Concilio [Vaticano II] não definiu dogma algum, e deliberadamente escolheu permanecer em um nível modesto, como um concilio meramente pastoral; no entanto, muitos o consideram quase fosse um super-dogma, que priva de significado todos os outros concílios" (Cardeal Joseph Ratzinger, Santiago do Chile, 1988).
5. A. Gnocchi - M. Palmaro, op. cit., p. 16-17.
6. A. Gnocchi - M. Palmaro, op. cit., p. 20.
7. A. Gnocchi - M. Palmaro, op. cit., pp. 30-31.
8. A. Gnocchi - M. Palmaro, op. cit., p. 57.
9. A. Gnocchi - M. Palmaro, op. cit., p. 109.
10. A. Gnocchi - M. Palmaro, op. cit., p. 110.
11. A. Gnocchi - M. Palmaro, op. cit., pp. 120-121. 



A. Gnocchi - M. Palmaro, A Bela adormecida. Porque depois do Vaticano II a Igreja entrou em crise. Porque despertará, Vallecchi, Florença, 2011, pp. 243, € 12,50.


Fonte: NON POSSUMUS 06/10/11 
Tradução: Giulia d'Amore di Ugento

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