As observações do Prof. de Mattei sobre o encontro de Assis
Continuamos
o 'balanço' sobre o encontro inter-religioso de Assis, com esta
participação do Prof. de Mattei, a quem agradecemos pela contribuição
analítica.
Enrico
Depois de Assis III. Algumas reflexões
por Roberto de Mattei
Como
signatário de um apelo a Sua Santidade Bento XVI para que voltasse
atrás da decisão de celebrar o 25º aniversário do primeiro encontro
inter-religioso de Assis, havida a reunião, não posso deixar de
manifestar algumas reflexões a respeito.
Seja
qual for o juízo que se queira dar sobre a terceira reunião de Assis,
deve-se enfatizar que esta representou uma objetiva correção de rota em
relação às duas reuniões precedentes, especialmente quanto ao perigo de
sincretismo. Deve ser lido, a este respeito, com atenção, o discurso do
Cardeal Raymond Leo Burke ao 'Congresso Peregrinos da Verdade para
Assis', realizado no dia 1º de outubro passado em Roma, o qual oferece
uma confiável chave para a interpretação do evento.
Na
'jornada de reflexão, diálogo e oração pela paz e a justiça no mundo',
que ocorreu em 27 de outubro, não houve nenhum momento de oração por
parte dos presentes, nem em comum nem em paralelo, como ocorrera em 1986
com os vários grupos religiosos reunidos em diversos lugares da cidade
de São Francisco. É sabido, em qualquer caso, que o então cardeal
Ratzinger evitou participar da reunião, e a sua ausência foi
interpretada como uma tomada de distância dos equívocos que a iniciativa
era destinada a produzir.
Bento
XVI quis dar à reunião de 27 de Outubro um rosto diverso das reuniões
precedentes: não tanto aquele, explicou o cardeal Burke, "de um encontro
inter-religioso quanto o de um diálogo intercultural na esteira da
racionalidade, bem preciosos do homem enquanto tal". Dois textos nos
ajudam a compreender o pensamento de Bento XVI em matéria de 'diálogo': o
primeiro é a carta enviada ao filósofo Marcello Pera, ex-presidente do Senado, quando do lançamento de seu livro, Por que devemos nos dizer cristãos
(Mondadori ed., Milão, 2008), na qual Bento XVI escrevia que "um
diálogo inter-religioso no sentido estrito da palavra não é possível,
enquanto é mais urgente o diálogo intercultural que aprofunda as
consequências culturais das decisões religiosas fundamentais. Aqui, o
diálogo e uma mútua correção e um enriquecimento mútuo são possíveis e
necessários".
O segundo documento é também uma carta, endereçada no dia 4 de março de 2011 ao pastor luterano alemão Peter Beyerhaus,
que lhe havia manifestado temor com a nova convocação da jornada de
Assis. Bento XVI escreveu-lhe: "Eu bem compreendo a sua preocupação com
relação à participação ao encontro de Assis. Mas esta comemoração tinha
que ser festejada de qualquer maneira, e, afinal, me parecia a melhor
coisa ir lá pessoalmente, para tentar de tal modo determinar a direção
de tudo. No entanto, farei tudo ao meu alcance para que seja impossível
uma interpretação sincretista do evento, e para que fique firme que
sempre crerei e confessarei aquilo para o qual eu havia chamado a
atenção da Igreja com a Dominus Iesus".
A
interpretação sincretista ou relativista do evento efetivamente não
houve, ou foi atenuada, e a mídia dedicou, até por causa disto, bem
pouco espaço ao evento.
Outro
aspecto de Assis III suscita, no entanto, algumas perplexidades que não
podem ser omitidas. O diálogo intercultural pode ser estabelecido com
crentes de outras religiões não sobre base teológica, mas sobre aquela
racional da lei natural. A lei natural nada mais é do que o Decálogo,
compêndio dos dois preceitos da caridade, o amor por Deus e o amor pelo
próximo, expressos nas duas tábuas entregues a Moisés pelo próprio
Senhor. É possível que, apesar das falsas religiões que professam, haja
crentes de outras religiões que procurem respeitar aquela lei natural
que é universal e imutável, porque comum a todo ser humano (coisa,
contudo, muito difícil sem a ajuda de Graça). A lei natural pode
constituir uma 'ponte' para trazer esses 'infiéis' à plenitude da
verdade, até mesmo sobrenatural. Muito mais problemático é, ao
contrário, o diálogo com aqueles que não acreditam em nenhuma religião,
ou seja, os ateus convictos.
A
lei natural não consta, de fato, de sete mandamentos que regem a vida
dos homens, mas de um conjunto de dez mandamentos, dos quais os três
primeiros impõem prestar culto a Deus. A verdade expressa pelo Decálogo é
que o homem deve amar a Deus acima de todas as criaturas e amar estas
segundo a ordem estabelecida por Ele. O ateu rejeita essa verdade e é
privado daquela possibilidade de se salvar que é oferecida, até mesmo em
via excepcional, aos crentes de outras religiões. E se é possível a
ignorância inculpável da verdadeira religião católica, não é possível a
ignorância inculpável do Decálogo, porque a sua lei está escrita "nas tábuas do coração humano com o próprio dedo do Criador"
(Rm 2,14-15). Há, certamente, a possibilidade de uma pesquisa ou
'peregrinação' em direção à verdade até mesmo por parte dos não-crentes.
Isso acontece quando o respeito pela segunda tábua da lei (o amor ao
próximo) leva progressivamente a buscar o fundamento dele na primeira
tábua (o amor a Deus). É a posição dos denominados 'ateus devotos', como
Marcello Pera e Giuliano Ferrara, os quais – como observou corretamente Francesco Agnoli (Eu católico pacelliano[5], digo ao card. Ravasi que em Assis errou os ateus, in
'Il Foglio', 29 de outubro 2011) – "um pouco de estrada junto aos
crentes a fizeram e continuam fazendo, com o uso da razão". Eles, hoje,
diante de alguns preceitos do Decálogo se mostram mais firmes e
observantes do que muitos católicos. Mas os ateus chamados a Assis nada
tem de "devoto": pertencem àquela categoria de não-crentes que desprezam
não apenas os três primeiros mandamentos, mas todo o Decálogo.
É uma posição que a filósofa e psicanalista Julia Kristeva reafirmou no 'Corriere della Sera' - que hospedou, na íntegra, seu discurso em Assis (Um Novo Humanismo em dez princípios, in
'Corriere della Sera', 28 de outubro de 2011). Ao contrário de alguns
estudiosos laicos que redescobrem o fundamento metafísico da lei
natural, a Kristeva reivindicou uma linha de pensamento que do
Renascimento chega até ao Iluminismo de Diderot, Voltaire e Rousseau,
incluindo o Marquês de Sade, Nietzsche e Sigmund Freud, ou seja, aquele
itinerário que, como demonstrado por insignes estudiosos do ateísmo
desde Cornelio Fabro (Introdução ao ateísmo moderno, Studium, Roma, 1969) até Augusto Del Noce (O problema do ateísmo,
Il Mulino, Bologna, 2010), leva justamente àquele niilismo, que a
psicanalista francesa, sem negar sua visão ateísta e permissiva da
sociedade, gostaria de contrastar em nome de uma colaborativa
"cumplicidade" entre o humanismo cristão e o humanismo secularizado. O
êxito desta coexistência pacífica entre o princípio ateu da imanência e
uma vaga referência à religiosidade cristã nada mais é do que o
panteísmo, caro a todos os modernistas, antigos e contemporâneos.
O
ponto no qual Assis III corre o risco de marcar um perigoso passo à
frente na confusão que hoje domina a Igreja é exatamente este,
enfatizado por toda a mídia: a extensão do convite não apenas aos
representantes das religiões de todo o mundo, mas aos ateus e
agnósticos, escolhidos entre os mais distantes da metafísica cristã.
Perguntamo-nos qual diálogo seria possível com esses 'não-crentes' que
negam, desde a raiz, o direito natural. A distinção entre ateus
'militantes' e ateus 'colaborativos' arrisca-se a ignorar a vis agressiva
ínsita no ateísmo implícito, não expresso de maneira militante, mas
exatamente por isso mais perigoso. Os ateus da UAAR
têm pelo menos alguma coisa para ensinar aos católicos: professam os
seus erros com um espírito de militância da qual os católicos abdicaram
ao defender suas verdades. Isso acontece, por exemplo, quando os
próprios católicos criticam as Cruzadas, que não foram um desvio da fé,
mas uma iniciativa oficialmente promovida pelos Papas, exaltada pelos
santos, baseada na teologia e regulada, durante séculos, pelo direito
canônico. Se naquela época a Igreja errou, não poderia estar errado
quem, hoje, prega o buonismo e o arrendismo
diante dos inimigos, externos e internos, que avançam? E se a Igreja,
como sabemos, não erra naquilo que ela ensina, qual deve ser a regra de
fé última do católico em tempos de confusão como o atual? São perguntas
que todo simples fiel tem o direito de colocar, respeitosamente, às
autoridades supremas da Igreja, no rescaldo do dia 27 de outubro de
2011.
Tradução: Giulia d'Amore di Ugento