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terça-feira, 18 de agosto de 2015

A Rede conspiratória liderada por Dom Helder durante o Concílio Vaticano II

A Rede conspiratória liderada por Dom Helder durante o Concílio Vaticano II


 

Dom Helder líder da sociedade secreta
"Igreja dos pobres" criada com o fim
de
comunistizar a Igreja Católica
O renomado historiador Roberto de Mattei, autor de “Concílio Vaticano II , uma história nunca escrita” traz informações importantes sobre uma rede conspiratória que trabalhou pela eleição do Cardeal Montini ao Papado. 


Essa rede tinha como meta tornar Montini Papa da Igreja, para controlá-la por dentro pondo-a a serviço da revolução e da modernidade.

Isso ficou claro na medida em que, desde o começo do CVII, a ala modernista dos bispos franco-alemãos (nessa ala inclua-se a ala belga-holandesa) buscou frustrar os planos da Cúria Romana, de controle dos temas e dos conteúdos  que seriam discutidos no Concílio.

Para frustrar tais planos. o Cardeal Lienart, bispo de Lille, deu um golpe na primeira sessão exigindo do Cardeal Tisserant que paralisasse o processo de votação que iria decidir os membros das comissões. Lienart alegava que “é impossível votar desta maneira sem conhecer os candidatos mais qualificados”, ao que Tisserant disse “Eminência, a ordem do dia não prevê debates. Estamos reunidos apenas para votar”. Insatisfeito com a resposta, o bispo de Lille tomou o microfone e tentou convencer a assembleia a não votar. Os cardeais Konig, Frings e Dopfner apoiaram Lienart e conseguiram levar a assembleia a se dispersar.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Historiador levanta dúvidas sobre a santidade de João XXIII

Em entrevista à revista norte-americana Catholic Family News, de 22 de abril, largamente reproduzida por outros órgãos da mídia, o conceituado historiador italiano Roberto de Mattei (*) apresenta suas reservas com relação à santidade de João XXIII. Abaixo trechos importantes da entrevista.

Perguntado sobre as canonizações de João Paulo II e João XXIII, diz De Mattei:

"Eu posso exprimir uma opinião pessoal, sem pretender resolver esse complexo problema. O Primeiro Concílio do Vaticano definiu a primazia de jurisdição do Papa e a infalibilidade de seu Magistério, sob certas condições, mas certamente não a impecabilidade pessoal do Soberano Pontífice.

"Então, seja-me permitido exprimir-me sobre o Papa João XXIII, que eu conheço melhor como historiador. Estudando o Concílio Vaticano II pude aprofundar-me na biografia desse Papa e consultei as atas de seu processo de beatificação.

"No caso de um Papa, para ser considerado santo, ele deve ter praticado virtudes heroicas no cumprimento de seu múnus de Papa; é o caso, por exemplo, São Pio V ou São Pio X.

"Ora, no que se refere a João XXIII, cheguei à refletida convicção de que seu pontificado foi objetivamente prejudicial para a Igreja e que, portanto, é impossível falar de santidade no caso dele.

"Afirmou-o antes de mim, em um famoso artigo na "Revista de Ascética e Mistica"(Ascetical and Mystical Review) o sacerdote dominicano Inocêncio Colosio, especialista em santidade e considerado um dos maiores historiadores da espiritualidade nos tempos modernos.

"É falsa a premissa de que cada ato do Papa, ou quase cada ato, é infalível. A infalibilidade das canonizações não é um dogma de fé.

"Não é por acaso que a doutrina das canonizações não está contida nos Códigos de Direito Canônico de 1917 e de 1983, nem nos Catecismos da Igreja, quer o antigo, quer o novo.

"Quanto a este tema, além do estudo de Mons. Brunero Gherardini [o mais eminente representante vivo da Escola Romana de teologia], remeto também para o excelente artigo de José Antonio Ureta, publicado na edição de março/2014, da revista Catolicismo.

"Sinto que posso, em consciência, manter todas as minhas reservas quanto a este ato de canonização."

(*) Gregorio Vivanco Lopes é advogado e colaborador da ABIM

Fonte: Agência Boa Imprensa – (ABIM)


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domingo, 16 de fevereiro de 2014

A bola da vez em Radio Maria: Roberto de Mattei. Quem é o próximo?

Hoje começaram uns rumores e, agora, foi confirmado em um site acima de qualquer suspeita: “Corrispondenza Romana”: O Prof. Roberto de Mattei foi demitido hoje do programa “Radici Cristiane” que mantinha em Radio Maria, uma rádio que se diz católica. Foi demitido pelo diretor da rádio, Padre Livio Fanzaga, no dia 13 de fevereiro passado.

Bom, quem me havia enviado a primeira noticia (com um link em espanhol do artigo que causou sua demissão ), se felicitava por de Mattei.  Eu não entendi porque, será de Mattei mais um mártir da Fé?

Em primeiro lugar, ele não saiu, mas saíram com ele. Digamos a verdade! Qual o martírio nisso?

De depois, ele teria sido demitido por causa de um artigo que escreveu “avaliando” o primeiro ano do pontificado (?) de Francisco. Não li o artigo – nem pretendo fazê-lo, a menos que meus superiores me ordenem – mas não deve ter agradado a alguém. A alguém importante, não certamente a “algum ouvinte”, como diz pe. Livio, porque não faltam reclamações de ouvintes do de Mattei. Em um rápida busca na net por notícias oficiais sobre as demissões, descobri que a turma dos homens em cor-de-rosa tem feito abaixo-assinados, um atrás do outro, para demiti-lo, sem êxito. O que me leva a crer que as presentes demissões vem da reclamação de um ouvinte poderoso.

Terceiro, eu realmente não posso admirar quem, como de Mattei, critica um superior e continua a segui-lo. Sobretudo em se tratando de questões de Fé! Não mesmo! 

sábado, 16 de fevereiro de 2013

DE MATTEI: A RENÚNCIA DE BENTO XVI

Considerações sobre o ato de renúncia de Bento XVI

por Roberto de Mattei (*)


Em 11 de fevereiro, dia da Festa de Nossa Senhora de Lourdes, o Santo Padre Bento XVI comunicou ao Consistório de cardeais e a todo o mundo sua decisão de renunciar ao Pontificado. O anúncio foi acolhido pelos cardeais, “quase inteiramente incrédulos”, “com sensação de confusão”, “como um raio em céu sereno”, segundo as palavras dirigidas em seguida ao Papa pelo cardeal decano Ângelo Sodano.

Se foi tão grande a confusão por parte dos cardeais, pode-se imaginar quão forte tem sido nesses dias a desorientação dos fieis, sobretudo daqueles que sempre viram em Bento XVI um ponto de referência, e agora se sentem de algum modo "órfãos", senão mesmo abandonados, em face das graves dificuldades que enfrenta a Igreja no momento presente.

No entanto, a hipótese da renúncia de um Papa ao sólio pontifício não é de todo inesperada. O presidente da Conferência Episcopal da Alemanha, Karl Lehmann, e o primaz da Bélgica, Godfried Danneels, haviam apresentado a hipótese da “renúncia” de João Paulo II, quando as condições de sua saúde haviam se deteriorado. O cardeal Ratzinger, no livro-entrevista de 2010, Luz do Mundo, havia dito ao jornalista alemão Peter Seewald que, se um Papa se dá conta de que não é mais capaz, “física, psicológica e espiritualmente, de cumprir os deveres de seu ofício, então ele tem o direito e, em certas circunstâncias, também a obrigação, de renunciar”. Ainda em 2010, cinquenta teólogos espanhóis haviam manifestado sua adesão à Carta Aberta aos bispos de todo o mundo do teólogo suíço Hans Küng, com estas palavras: “Acreditamos que o Pontificado de Bento XVI se tenha exaurido. O Papa não tem a idade nem a mentalidade para responder adequadamente aos graves e urgentes problemas com os quais a Igreja Católica se defronta. Pensamos, portanto, com o devido respeito por sua pessoa, que deve apresentar a demissão do seu cargo”. E quando, entre 2011 e 2012, alguns jornalistas como Giuliano Ferrara e Antonio Socci havia escrito sobre a possível renúncia do Papa, a hipótese havia suscitado entre os leitores mais desaprovação que consenso.

Não há dúvidas acerca do direito de um Papa de renunciar. O novo Código de Direito Canônico prevê a possibilidade de renúncia do Papa no cânon 332, parágrafo segundo, com estas palavras: “Se acontecer que o Romano Pontífice renuncie a seu múnus, para a validade se requer que a renúncia seja livremente feita e devidamente manifestada, mas não que seja aceita por alguém”. Nos artigos 1º e 3º da Constituição Apostólica Universi Dominicis Gregis, de 1996, sobre a vacância da Santa Sé, é prevista ademais a possibilidade de que a vacância da Sé Apostólica seja determinada não só pela morte do Papa, mas também por sua renúncia válida.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

de Mattei e a sua apologia à Tradição Católica

Mais uma obra de Roberto de Mattei sobre o Concílio Vaticano II. Desta vez é uma apologia escancarada e sem receios de repetir a Verdade: A Tradição é a resposta, desde sempre, aos problemas da Igreja. É quem a mantém sempre a mesma, no tempo e no espaço. Sua salvaguarda. E, por ser tão importante, é dever de todo cristão salvaguardar, por sua vez, a Tradição. Somos todos sentinelas. Resenha da brilhante Cristina Siccardi, que assina também as notas (NdAª. - notas da autora). A tradução e as respectivas notas (NdTª. - notas da tradutora) modestamente são minhas.

Giulia d'Amore di Ugento



‘Apologia da Tradição’, de Roberto de Mattei.





A TRADIÇÃO
É A RESPOSTA, DESDE SEMPRE,
AOS PROBLEMAS DA IGREJA


“O Concílio Vaticano II produziu documentos, mas não é, ele mesmo, um documento: como todo Concílio é, antes de tudo, um evento, um momento da história da Igreja que, como tal, se coloca em um nível factual e não veritativo1. Enquanto o dogma formula uma verdade que, uma vez formulada, transcende, por assim dizer, a história, o Concílio, ou melhor, os Concílios nascem e morrem na história, e pelos historiadores podem ser julgados”. (R. de Mattei)


Roberto de Mattei
Na capa do último livro de Roberto de Mattei2 está São Jerônimo3 (347-419/420); trata-se do célebre afresco ‘São Jerônimo em seu estúdio’ (c. 1480), de Domenico Ghirlandaio4 (1449-1494), guardado na Igreja de Todos os Santos, em Florença. Os livros abertos e os pergaminhos, com escritas em grego e hebraico, remetem à sua atividade: foi o primeiro tradutor da Bíblia do grego e do hebraico para o latim, conhecida como Vulgata. Ghirlandaio quis representá-lo absorto em pensamentos, enquanto dirige seu olhar para quem o observa. Este Doutor da Igreja, garante da Tradição Católica, olha para nós, nos perscruta e, com o rosto apoiado na mão esquerda, enquanto a outra mão está em atitude de escrever, parece dizer: “mas o que fizeram da Tradição que vós entregamos?”.

O livro traz um título decididamente interessante: Apologia da Tradição. Pós-escrito a 'O Concílio Vaticano II. Uma história nunca escrita' (Lindau, pp 164, € 16,00). Com base na teologia mais segura, como o é aquela da Escolástica (e de São Tomás de Aquino em particular), da Contrarreforma e da Escola Romana dos séculos XIX e XX, a qual se estende até o XXI graças à extraordinária figura de Monsenhor Brunero Gherardini5, e com base no Magistério dos Sumos Pontífices, de Mattei se faz repetidor da posição da Tradição da Igreja, aquela que a torna Santa e Imaculada. Este estudo é a melhor resposta para aqueles que buscaram confutar, com argumentos pobres e às vezes mesquinhos, a obra O Concílio Vaticano II. Uma história nunca escrita (Lindau), que valeu ao seu autor o Prêmio Acqui Storia 2011.
Podem teólogos sérios e historiadores sérios observar os acontecimentos deletérios da e na Igreja? Ou devem ignorá-los e, por obsequio, não à Verdade, mas à autoridade, aceitar como sendo bom e eficaz tudo o que desta última deriva? “Splendore Veritatis gaudet Ecclesia” (“A Igreja se compraz do refulgir da Verdade”), isto afirmou Leão XIII6 (1810-1903), aos 04 de Maio de 1902, aos representantes de institutos históricos estrangeiros em Roma. A Igreja sempre homenageou, mais cedo ou mais tarde, quem lhe demonstrou amor, contribuindo a mantê-la como a quis o seu Fundador, isto é, pura de todo erro e heresia; até mesmo com a crítica, que o amor torna sempre construtiva.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Reflexões sobre Assis III pelo Prof. Roberto de Mattei

As observações do Prof. de Mattei sobre o encontro de Assis


Continuamos o 'balanço' sobre o encontro inter-religioso de Assis, com esta participação do Prof. de Mattei, a quem agradecemos pela contribuição analítica.
Enrico

Depois de Assis III. Algumas reflexões

por Roberto de Mattei

Como signatário de um apelo a Sua Santidade Bento XVI para que voltasse atrás da decisão de celebrar o 25º aniversário do primeiro encontro inter-religioso de Assis, havida a reunião, não posso deixar de manifestar algumas reflexões a respeito.

Seja qual for o juízo que se queira dar sobre a terceira reunião de Assis, deve-se enfatizar que esta representou uma objetiva correção de rota em relação às duas reuniões precedentes, especialmente quanto ao perigo de sincretismo. Deve ser lido, a este respeito, com atenção, o discurso do Cardeal Raymond Leo Burke ao 'Congresso Peregrinos da Verdade para Assis', realizado no dia 1º de outubro passado em Roma, o qual oferece uma confiável chave para a interpretação do evento.

Na 'jornada de reflexão, diálogo e oração pela paz e a justiça no mundo', que ocorreu em 27 de outubro, não houve nenhum momento de oração por parte dos presentes, nem em comum nem em paralelo, como ocorrera em 1986 com os vários grupos religiosos reunidos em diversos lugares da cidade de São Francisco. É sabido, em qualquer caso, que o então cardeal Ratzinger evitou participar da reunião, e a sua ausência foi interpretada como uma tomada de distância dos equívocos que a iniciativa era destinada a produzir.

Bento XVI quis dar à reunião de 27 de Outubro um rosto diverso das reuniões precedentes: não tanto aquele, explicou o cardeal Burke, "de um encontro inter-religioso quanto o de um diálogo intercultural na esteira da racionalidade, bem preciosos do homem enquanto tal". Dois textos nos ajudam a compreender o pensamento de Bento XVI em matéria de 'diálogo': o primeiro é a carta enviada ao filósofo Marcello Pera[1], ex-presidente do Senado, quando do lançamento de seu livro, Por que devemos nos dizer cristãos (Mondadori ed., Milão, 2008), na qual Bento XVI escrevia que "um diálogo inter-religioso no sentido estrito da palavra não é possível, enquanto é mais urgente o diálogo intercultural que aprofunda as consequências culturais das decisões religiosas fundamentais. Aqui, o diálogo e uma mútua correção e um enriquecimento mútuo são possíveis e necessários".

O segundo documento é também uma carta, endereçada no dia 4 de março de 2011 ao pastor luterano alemão Peter Beyerhaus[2], que lhe havia manifestado temor com a nova convocação da jornada de Assis. Bento XVI escreveu-lhe: "Eu bem compreendo a sua preocupação com relação à participação ao encontro de Assis. Mas esta comemoração tinha que ser festejada de qualquer maneira, e, afinal, me parecia a melhor coisa ir lá pessoalmente, para tentar de tal modo determinar a direção de tudo. No entanto, farei tudo ao meu alcance para que seja impossível uma interpretação sincretista do evento, e para que fique firme que sempre crerei e confessarei aquilo para o qual eu havia chamado a atenção da Igreja com a Dominus Iesus".

A interpretação sincretista ou relativista do evento efetivamente não houve, ou foi atenuada, e a mídia dedicou, até por causa disto, bem pouco espaço ao evento.

Outro aspecto de Assis III suscita, no entanto, algumas perplexidades que não podem ser omitidas. O diálogo intercultural pode ser estabelecido com crentes de outras religiões não sobre base teológica, mas sobre aquela racional da lei natural. A lei natural nada mais é do que o Decálogo, compêndio dos dois preceitos da caridade, o amor por Deus e o amor pelo próximo, expressos nas duas tábuas entregues a Moisés pelo próprio Senhor. É possível que, apesar das falsas religiões que professam, haja crentes de outras religiões que procurem respeitar aquela lei natural que é universal e imutável, porque comum a todo ser humano (coisa, contudo, muito difícil sem a ajuda de Graça). A lei natural pode constituir uma 'ponte' para trazer esses 'infiéis' à plenitude da verdade, até mesmo sobrenatural. Muito mais problemático é, ao contrário, o diálogo com aqueles que não acreditam em nenhuma religião, ou seja, os ateus convictos.

A lei natural não consta, de fato, de sete mandamentos que regem a vida dos homens, mas de um conjunto de dez mandamentos, dos quais os três primeiros impõem prestar culto a Deus. A verdade expressa pelo Decálogo é que o homem deve amar a Deus acima de todas as criaturas e amar estas segundo a ordem estabelecida por Ele. O ateu rejeita essa verdade e é privado daquela possibilidade de se salvar que é oferecida, até mesmo em via excepcional, aos crentes de outras religiões. E se é possível a ignorância inculpável da verdadeira religião católica, não é possível a ignorância inculpável do Decálogo, porque a sua lei está escrita "nas tábuas do coração humano com o próprio dedo do Criador" (Rm 2,14-15). Há, certamente, a possibilidade de uma pesquisa ou 'peregrinação' em direção à verdade até mesmo por parte dos não-crentes. Isso acontece quando o respeito pela segunda tábua da lei (o amor ao próximo) leva progressivamente a buscar o fundamento dele na primeira tábua (o amor a Deus). É a posição dos denominados 'ateus devotos', como Marcello Pera e Giuliano Ferrara[3], os quais – como observou corretamente Francesco Agnoli[4] (Eu católico pacelliano[5], digo ao card. Ravasi que em Assis errou os ateus, in 'Il Foglio', 29 de outubro 2011) – "um pouco de estrada junto aos crentes a fizeram e continuam fazendo, com o uso da razão". Eles, hoje, diante de alguns preceitos do Decálogo se mostram mais firmes e observantes do que muitos católicos. Mas os ateus chamados a Assis nada tem de "devoto": pertencem àquela categoria de não-crentes que desprezam não apenas os três primeiros mandamentos, mas todo o Decálogo.

É uma posição que a filósofa e psicanalista Julia Kristeva[6] reafirmou no 'Corriere della Sera' - que hospedou, na íntegra, seu discurso em Assis (Um Novo Humanismo em dez princípios, in 'Corriere della Sera', 28 de outubro de 2011). Ao contrário de alguns estudiosos laicos que redescobrem o fundamento metafísico da lei natural, a Kristeva reivindicou uma linha de pensamento que do Renascimento chega até ao Iluminismo de Diderot, Voltaire e Rousseau, incluindo o Marquês de Sade, Nietzsche e Sigmund Freud, ou seja, aquele itinerário que, como demonstrado por insignes estudiosos do ateísmo desde Cornelio Fabro[7] (Introdução ao ateísmo moderno, Studium, Roma, 1969) até Augusto Del Noce[8] (O problema do ateísmo, Il Mulino, Bologna, 2010), leva justamente àquele niilismo, que a psicanalista francesa, sem negar sua visão ateísta e permissiva da sociedade, gostaria de contrastar em nome de uma colaborativa "cumplicidade" entre o humanismo cristão e o humanismo secularizado. O êxito desta coexistência pacífica entre o princípio ateu da imanência e uma vaga referência à religiosidade cristã nada mais é do que o panteísmo, caro a todos os modernistas, antigos e contemporâneos.

O ponto no qual Assis III corre o risco de marcar um perigoso passo à frente na confusão que hoje domina a Igreja é exatamente este, enfatizado por toda a mídia: a extensão do convite não apenas aos representantes das religiões de todo o mundo, mas aos ateus e agnósticos, escolhidos entre os mais distantes da metafísica cristã. Perguntamo-nos qual diálogo seria possível com esses 'não-crentes' que negam, desde a raiz, o direito natural. A distinção entre ateus 'militantes' e ateus 'colaborativos' arrisca-se a ignorar a vis agressiva ínsita no ateísmo implícito, não expresso de maneira militante, mas exatamente por isso mais perigoso. Os ateus da UAAR[9] têm pelo menos alguma coisa para ensinar aos católicos: professam os seus erros com um espírito de militância da qual os católicos abdicaram ao defender suas verdades. Isso acontece, por exemplo, quando os próprios católicos criticam as Cruzadas, que não foram um desvio da fé, mas uma iniciativa oficialmente promovida pelos Papas, exaltada pelos santos, baseada na teologia e regulada, durante séculos, pelo direito canônico. Se naquela época a Igreja errou, não poderia estar errado quem, hoje, prega o buonismo[10] e o arrendismo[11] diante dos inimigos, externos e internos, que avançam? E se a Igreja, como sabemos, não erra naquilo que ela ensina, qual deve ser a regra de fé última do católico em tempos de confusão como o atual? São perguntas que todo simples fiel tem o direito de colocar, respeitosamente, às autoridades supremas da Igreja, no rescaldo do dia 27 de outubro de 2011.

Tradução: Giulia d'Amore di Ugento



[1] Marcello Pera, filósofo e político italiano, ex-presidente do Senado italiano. Tido ora como um teocon (vide nota 3) ora como agnóstico, ou, ainda, como "um ateu devoto, ou de qualquer maneira um homem laico de ciência, que se converteu já maduro à civilização cristã, identificando-a com o Ocidente; fulgurado a caminho de Nova Iorque (parafraseando 'São Paulo a caminho de Damasco')" (Marcello Veneziani in Articolo su 'Libero').
[2] Peter Beyerhaus, ministro protestante alemão, teólogo e missionário. Ele cunhou a Teologia Moderna Alemã da Missão. Esta carta já é conhecida no Brasil.
[3] Giuliano Ferrara é um jornalista, apresentador de televisão e político italiano. Nos anos noventa, deixou a esquerda (PCI e PSI) para ir para o centro-direita e apoiar Silvio Berlusconi. Tornou-se, em fim, um dos intelectuais do 'Teocon' italiano.
'Teocon' (ou Theocon) é um neologismo derivante de Teo (Deus) e conservadorismo; criado pelos saxões, é bastante difundido na Europa, não raramente com um significado diferente do original. Nos EUA, geralmente é formado pelos protestantes conservadores. Na Itália, usado desde 2004, este termo reúne movimentos católicos ou pretenso-católicos, entre os quais Comunhão e Libertação, Opus Dei e Legionários de Cristo. Engloba personalidades do mundo político e cultural como Marcello Pera, o próprio Giuliano Ferrara, Oriana Fallaci – embora no começo fossem chamados de 'ateocon'. Este movimento às vezes se confunde com o 'neocon', de neoconservadores. Alguns politólogos consideram o neoconservadorismo uma variante de direita da ideia trotskista da revolução permanente, filha, por sua vez, do jacobinismo e da vontade de exportar a revolução francesa por parte de Robespierre e Napoleão: da mesma maneira, os neocon desejam "exportar a democracia e os direitos humanos", uma expressão tornada conhecida, até com conotações negativas, por parte da mídia para definir a ação de George W. Bush.
[4] Francesco Agnoli, professor, escritor e jornalista italiano.
[5] O adjetivo 'pacelliano', refere-se a Papa Pio XII, nascido Eugenio Maria Giuseppe Giovanni Pacelli.
[6] Julia Kristeva é uma filósofa búlgaro-francesa, crítica literária, psicanalista, feminista, e, mais recentemente, romancista. Foi convidada pelo Papa para a reunião de Assis III. Representando os 'não-crentes', participaram de Assis III, além dela, o filósofo italiano Remo Bodei, o economista austríaco Walter Baier, membro do Partido Comunista, e o filósofo mexicano Guillermo Hurtado. O filósofo britânico Anthony C. Grayling, que também fora convidado e pretendia participar, em um acesso de estrelismo, mudou de ideia e se recusou a tomar parte do evento.
[7] Cornelio Fabro foi um presbítero, teólogo e filósofo italiano, membro da Congregação das Sagradas Chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo. Insere-se na neoescolástica, mais precisamente no neotomismo. Traduziu, editou e comentou as obras de Søren Kierkegaard, expoente máximo do existencialismo.
[8] Augusto Del Noce foi um politólogo, filósofo e político italiano. Estudioso do racionalismo cartesiano e do pensamento moderno (Hegel, Marx), analisou as raízes filosóficas e teológicas da crise da modernidade, reconstruindo as contradições internas do imanentismo.
[9] UAAR: Unione degli Atei e degli Agnostici Razionalisti (União dos Ateus e dos Agnósticos Racionalistas) é uma associação (italiana) de ateus e agnósticos e se diz completamente independente dos partidos políticos: o adjetivo racionalista indica a confiança na razão como vínculo de referência entre os seres humanos. Desde 1991, a União promove na Itália a difusão das teorias do ateísmo e do agnosticismo, defende o caráter laico do Estado e luta contra todos os privilégios concedido ao Catolicismo e contra todas as discriminações aos não-crentes. Dedica-se a promover iniciativas legais pelo completo reconhecimento jurídico do ateísmo e dos direitos dos ateus. Tem como porta-voz na mídia a revista L'Ateo (O Ateu). UAAR á afiliada à IHEU (União Internacional Ética e Humanista) e à FHE (Federação Humanista Europeia). Entre as maiores metas do grupo está a abolição do artigo 7º da Constituição Italiana, que reconhece o Tratado de Latrão entre a Itália e o Vaticano.
[10] Buonismo é a atitude de quem, por palavras ou ações quer ser (ou parecer) bom, sempre e em todo lugar, mais preocupado em obter um reconhecimento positivo por parte dos outros. É aquela atitude de benévola abertura e compreensão de todas as posições, mas que não vai além dos genéricos apelos moralistas, capazes apenas de produzir compromissos confusos e de baixo nível. É um neologismo que está chegando aos poucos ao Brasil.
[11] Arrendismo é outro neologismo italiano (ainda quase desconhecido no Brasil): vem de render-se, é a atitude de ceder para resolver conflitos, típico dos pacifistas. Essa propensão não se confunde com a nobre aspiração comum a todos os espíritos elevados de preservar a paz por meio de negociações dignas e acordos razoáveis, que não comportem a renúncia aos princípios cristãos.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Prof. Roberto de Mattei e o Prêmio Aqui Storia

Prof. Roberto de Mattei, “… ‘regra da fé’ não é nem o Concílio Vaticano II, nem o Magistério vivo contemporâneo, mas a Tradição, ou seja, o Magistério perene”.

Entrevista com o professor Roberto de Mattei – Um docente católico é ‘indigno’ de ser premiado


Na atual cultura europeia, o conceito de liberdade de opinião adquiriu, também, infelizmente, em campo católico, matizes tipicamente iluministas e ideológicos. Em nome da defesa da liberdade “de todos” se procura impedir que aqueles que defendem ideias consideradas incompatíveis com esta liberdade as possam expressar. Isto tem uma inata valência antirreligiosa e principalmente anticatólica, já que a Fé romana tem a certeza das Verdades que proclama, e isto é percebido pelos relativistas como dogmatismo intolerante, a ser combatido em todas as suas expressões.

Neste quadro se insere o caso “de Mattei – Acqui Storia”, que apareceu nos principais jornais italianos: desde o “Corriere della Sera” ao “Il Giornale”, de “la República” ao “Libero”. O Prêmio Acqui Storia, chegado este ano à 44ª edição (a cerimônia de premiação será realizada em Acqui Terme, em 22 de outubro próximo), tornou-se o mais importante reconhecimento dedicado à História, não apenas em nível nacional, mas na Europa, e está dividido em três seções: histórico-científica, histórico-divulgadora e romance histórico. O Presidente do Prêmio, Guido Pescosolido, demitiu-se de forma polêmica contra a escolha de premiar o ensaio histórico-científico O Concílio Vaticano II. Uma história nunca escrita (Lindau Ed.) do Professor Roberto de Mattei, Católico com C maiúsculo e vice-presidente do CNR (Conselho Nacional de Pesquisas). Motivo: “Trata-se da obra de um militante”, no entanto havia declarado: “respeito todas as ideias”… Rocco Buttiglione, ex-ministro da Cultura, acusou Pescosolido de continuar uma ‘perseguição pessoal’ contra de Mattei. Cada estudioso lê e interpreta os eventos com base em sua própria bagagem cultural; mas isto não exclui de realizar obras sérias e rigorosas, sem manipulações, respeitando a objetividade dos fatos.

domingo, 9 de outubro de 2011

A Esposa desperta!

A Bela Adormecida  
de Gnocchi e Palmaro chega a Florença

Fonte: Fides Catholica...


Em 2012 recorrerá o 50º aniversário da abertura do Concílio Ecumênico Vaticano II, Alessandro Gnocchi e Mario Palmaro, dois dos nomes mais conhecidos e lutadores do panorama católico indagam sobre a crise sem precedentes que está atravessando a Igreja contemporânea, revelando a raiz do drama através de uma investigação apaixonante. Da silenciosa apostasia aos problemas morais, a Igreja católica está atravessando uma das crises mais graves de toda a sua história. O que haveria na origem de tal terremoto? Os autores evidenciam uma crise de Fé que se  manifesta em toda a sua força a partir dos anos '60 e que tem seu eixo na complexa estação do Concílio Concilio Vaticano II. Uma análise que causará polêmica, na qual, seguindo estas páginas apaixonadas e prementes, o leitor ascender às fontes do fenômeno até encontrar no banco dos acusados homens e eventos tidos até hoje intocáveis, quase verdadeiro mitos.

Os autores
Alessandro Gnocchi, estudioso das temáticas religiosas na literatura moderna e contemporânea, e Mario Palmaro, filósofo do direito, são dois dos nomes mais conhecidos e mais lutadores do panorama católico. Colaboram com vários jornais, entre os quais «il Foglio», «Libero» e a rivista de apologética «Il Timone». Entre os livros que escreveram juntos: "Cattivi maestri. Inchiesta sui nemici della Verità"; "Cronache da Babele. Viaggio nella crisi della modernità"; "Contro il logorio del laicismo moderno"; "Io speriamo che resto cattolico"; "Giovannino Guareschi: c'era una volta il padre di don Camillo e Peppone"; "Tradizione, il vero volto"; "Rapporto sulla tradizione". Com a editora Vallecchi, sempre na coletânea Avamposti "Viva il Papa!"(2010).

O livro será apresentado em Florença, na Igreja de Todos os Santos, sábado 15 de outubro de 2011, às 18:00. Às 16:30, será rezada a S. Missa em Rito Romano antigo. Para reservar o jantar que seguirá, enviar um e-mail para: ascarus@libero.it.

Análise do livro por Cristina Siccardi
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Ao ler o livro de Alessandro Gnocchi e Mario Palmaro, A Bela adormecida. Porque depois do Vaticano II a Igreja entrou em crise. Porque despertará, editado pela Vallecchi, não se pode não ficar desconcertados e pesarosos ao contatar que a Igreja foi sacudida em seus alicerces até arriscar a profanação de sua sacralidade. Mas a Bela, hoje adormecida, por quem foi insidiada? É ele, o grande inimigo de sempre, vigilante e rugindo, diabólico por essência, Satanás.
O texto explica em maneira linear e fácil de entender a patologia que atingiu a Igreja, fazendo um diagnóstico explicito e pontual. A crise eclesial há décadas que se manifesta, mas todos se calavam e as poucas vozes corajosas eram imediatamente silenciadas, como expoentes de um mundo tradicionalista para perseguir e demolir como algo de perigoso e sectário. Qual justificativa, então, os católicos davam às más chagas da Igreja? «imputava-se a origem de todos os males à não-aplicação do Concilio ou, quanto menos, à diluição de sua carga inovadora: em uma palavra, à traição» (1) e os traidores mais culpados tinha um rosto preciso por causa de sua marca de catolicidade: Monsenhor Marcel Lefebvre, Romano Amerio, padre Cornelio Fabro, dom Divo Barsotti, padre Pio da Pietrelcina…
Todavia, a Verdade é mais forte que a mentira. Gnocchi e Palmaro o demonstram com este compêndio deles que sintetiza, em maneira admirável, às vezes até com tons irônicos, às vezes com acentos graves, o que ocorreu nos últimos tempos: os estudos de grandes personalidades como o teólogo de Santa Romana Igreja, Monsenhor Brunero Gherardini (2), e do professor Roberto de Mattei (3) foram determinantes para romper, finalmente, a calota gélida, uma calota constituída pelo «superdogma» (4) do Concilio Vaticano II, tão compacta e tão dura que parecia infrangível. Mas diante da evidência de uma apostasia generalizada, de uma decadência dos costumes, de uma ignorância religiosa, sobre o abc da doutrina católica, que se tornou irremediavelmente crassa, de uma sede de Fé de crentes insatisfeitos ou, até, angustiados, os porquês e os pontos de interrogação, definitivamente, são não apenas de dever mas dados por certos. As vozes da geração passada que foram escandalosas e por causa das quais cobríamos nossos ouvidos para não ouvi-las foram substituídas providencialmente por aquelas de intelectuais contemporâneos. E, então, como diz dom Massimo Vacchetti: «À vigília dos cinquenta anos da convocação conciliar ocorre superar a estação ideológica que caracterizou seu recebimento, recompor as feridas infligidas nestes anos e devolver ao povo católico aquelas certezas de pensamento e de Fé sobre as quais, somente, é possível caminhar alegres por aquilo que nos espera, agradecidos por aquilo que nos precedeu» (cfr. http://www.libertaepersona.org/dblog/articolo.asp?articolo=2774).


A Igreja, e ninguém pode negá-lo, se secularizou progressivamente, e isto não é, segundo Gnocchi e Palmaro, um problema de interpretação do Concílio Vaticano II, mas um problema intrínseco àqueles documentos que a Assembleia produziu. Afirmou padre Serafino Lanzetta, teólogo dos Franciscanos da Imaculada: «Até pouco tempos atrás, o simples pensamento de poder-se colocar em modo crítico diante do Vaticano II parecia uma cripto-heresia para o manto de silêncio que necessariamente devia reinar, recobrindo-o apenas de louvores […]. O Vaticano II é um problema? Sim, no sentido de que as raízes do estro pós-conciliar não estão apenas no pós-concílio. O
pós-concílio não dá razão de si. Pelo amor à Igreja e pelo futuro da Fé no mundo, precisa examinar a raiz do problema» (5).
 

A se admirar, no cenário intelectual, não são mais os que seguem a chamada Escola de Bolonha, onde se aclama a "benéfica" revolução amadurecida na Igreja graças ao Concilio Vaticano II, mas também a «Baleia Branca eclesial devotada a um conservadorismo enfatuado pelo presente» (6), trata-se de uma leitura neo-centrista segundo a qual as razões da crise da Igreja e, portanto, da Fé, teriam surgido sucessivamente ao Concilio por causa da interpretação revolucionária dos documentos. Portanto, a solução consistiria em separar o Concilio do pós-concílio. Trata-se, em definitivo, de uma posição de compromisso, um escamoteio para enganar, negando a evidência dos fatos. Se escolhe, na prática, a linha do Peppone de Dom Camilo, que, ouvindo as aterradoras narrativas do pároco sobre a Rússia soviética, afirma: «Deixai-nos em paz, prefiro ficar com minha ideia de Rússia, vós ficai com a vossa» (7).
Fenômenos que na Igreja nunca se viram, como a revolta litúrgica ou o ecumenismo, são frutos claro do jacobinismo conciliar. Ambos são devido às exigências protestantizantes: a assembleia, a Palavra e o memorial da ceia no que diz respeito à Missa, excluindo o Santo Sacrifício, enquanto a instância ecumênica nasceu da ação de alguns missionários protestantes do início do Novecentos, os quais promoveram iniciativas de diálogo entre as incontáveis confissões reformadas.
O Vaticano II foi o primeiro Concilio a ser exclusivamente pastoral e não dogmático, desviando a atenção da Fé e de sua ortodoxia, um efeito que reconduz, inevitavelmente, ao clima cultural progressista dos anos Sessenta, quando a ortopráxis tomou o lugar da filosofia autêntica, ou seja, quando nos colocamos questões não mais sobre a existência (Quem chamo? De onde viemos? Para Quem iremos?), mas sobre a contingência vivencial, pessoal e terrena.
Foi assim que muitos, na Igreja, «pensaram que aquele trem, veloz e moderno, não deveria ser perdido: precisava subir nele a todo custo» (8). Um trem que hoje descarrilhou, mas que, na época, ninguém queria perder porque demasiado tentador era o pensamento daqueles teólogos que queriam, como estilista de vanguarda, desenhar e confeccionar uma veste à moda para a Esposa de Cristo, uma veste nova e com ela uma linguagem à la page. Os inovadores eram tão voluntariosos e arrogantes de suas ideias que colocaram em dúvida até mesmo o poder do Papa. Foi assim que adquiriram um poder totalmente extraordinário e doutrinariamente injustificado as Conferências episcopais, que nasceram os conselhos pastorais, as assembleias paroquiais…
O livro de Gnocchi e Palmaro oferece também uma interessante análise sobre o poder que a mídia teve dentro da Assembleia conciliar: foi ela, além dos teólogos modernistas, a ter influência sobre aqueles bispos que não eram nem progressistas, nem fortemente ligados à Tradição. Assim ocorreu que padre Antoine Wenger do «La Croix», Raniero La Valle do «Avvenire d'Italia», Henri Fesquet do «Le Monde», don René Laurentin do «Le Figaro», o redentorista americano Francis X. Murphy do «New Yorker Magazine» e outros tiveram influência nas decisões conciliares. E foi assim que no Concilio não se falou dos problemas e dos erros do mundo (por exemplo, o comunismo, o indiferentismo religioso, a secularização ou o modernismo na Igreja), mas de como a Igreja poderia aproximar os i «distantes», como poderia escancarar a própria porta ao mundo... e a imprudência foi imensa, visto que a fumaça de Satanás (como o definiu Paulo VI em 1972) pôde entrar por ela com toda sua virulência. 

De outro lado, os êxitos do Concilio foram objetivamente vistos pelos vencedores daquela Assembleia conciliar: «De algum modo, contribuímos com a nossa ação precedente também ao êxito do Concilio», deixa escrito o «partisão» (9), Giuseppe Dossetti, «Pôde-se fazer alguma coisa no Concílio em função de uma experiência histórica vivida no mundo político, até mesmo de um ponto de vista técnico de uma assembleia que de alguma forma fez a diferença. Porque no momento decisivo justamente minha experiência com assembleias […] reverteu a sorte do próprio Concilio» (10). Diante dessas declarações não se pode restar indiferentes. Mas foi dai que tomaram a iniciativa personagens como Enzo Bianchi, que fundo a Comunidade de Bose [Itália, NdTª] em 8 de dezembro de 1965, coincidentemente, o dia do encerramento do Concilio. No entanto, a realidade ecumênica de Bose, que ultrapassou as mais róseas esperanças dos primeiros missionários protestantes dos quais falamos, não obstante o amplo sucesso mediático, até hoje não tem nenhum reconhecimento eclesiástico. O fato de que a comunidade do "profeta" Bianchi «não possa ser contemplada com uma estrutura dentro da Igreja significa apenas que a estrutura desta Igreja tem que mudar: demasiado hierárquica, costantiniana, fundada sobre o poder, velha» (11).
O leitor verá desenrolarem-se, página após página, as razões de uma problemática conciliar clara e evidente, tão simples que, se o católico é seriamente intencionado em compreender a realidade dos fatos, não poderá que chegar a uma convicção tão crua quanto amarga: a Igreja foi enganada e, então, como disse Paulo VI, o Papa que viu a desgraça, mas não a parou: «Acreditava-se que depois do Concilio viria uma jornada de sol para a história da Igreja. Veio, ao invés disso, uma jornada de nuvens, de tempestade, de escuridão, de busca, de incerteza» (29 junho 1972). Todavia, a Esposa de Cristo encontrará a força de despertar do longo letargo causado pelo sonífero conciliar e a despertá-la serão os que não usam a Igreja para os próprios fins, sejam esses materiais ou ideológicos, mas os que a amam verdadeiramente, perdidamente, prontos até a perder a si mesmo por Ela.



Cristina Siccardi


Notas
1. A. Gnocchi - M. Palmaro,
A Bela adormecida. Porque depois do Vaticano II a Igreja entrou em crise. Porque despertará, Vallecchi, Florença, 2011, p. 15.
2. B. Ghereradini, Concílio Ecumenico Vaticano II. Um discurso a ser feito, Casa Mariana Editora, Frigento 2009. B. Gherardini, Concilio Vaticano II. O discurso que faltou, Lindau, Torino 2011.
3. R. de Mattei, O Concilio Vaticano II. Uma história nunca escrita, Lindau, Torino 2010.
4. "A verdade é que este particular Concilio [Vaticano II] não definiu dogma algum, e deliberadamente escolheu permanecer em um nível modesto, como um concilio meramente pastoral; no entanto, muitos o consideram quase fosse um super-dogma, que priva de significado todos os outros concílios" (Cardeal Joseph Ratzinger, Santiago do Chile, 1988).
5. A. Gnocchi - M. Palmaro, op. cit., p. 16-17.
6. A. Gnocchi - M. Palmaro, op. cit., p. 20.
7. A. Gnocchi - M. Palmaro, op. cit., pp. 30-31.
8. A. Gnocchi - M. Palmaro, op. cit., p. 57.
9. A. Gnocchi - M. Palmaro, op. cit., p. 109.
10. A. Gnocchi - M. Palmaro, op. cit., p. 110.
11. A. Gnocchi - M. Palmaro, op. cit., pp. 120-121. 



A. Gnocchi - M. Palmaro, A Bela adormecida. Porque depois do Vaticano II a Igreja entrou em crise. Porque despertará, Vallecchi, Florença, 2011, pp. 243, € 12,50.


Fonte: NON POSSUMUS 06/10/11 
Tradução: Giulia d'Amore di Ugento

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Non Possum: sobre os colóquios


 
Antes de ler este interessante artigo, seria oportuno ouvir e ler o que Mons. Lefebvre disse ao Cardeal Ratzinger... 

Trecho de homilia de Dom Lefebvre (com subtítulos em italiano), registrada no dia 04 de outubro de 1987. O fundador da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, falando do então Cardeal Ratzinger, diz claramente que com ele nunca se poderia chegar a um acordo, porque Ratzinger trabalha pela DESCRISTIANIZAÇÃO da Igreja. 


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O bordão de junho: A regularização canônica da FSSPX

de Belvecchio 

E chegamos perto da festa dos SS. Pedro e Paulo.
 
Em geral, a partir do final de junho, muitas estruturas eclesiásticas se concedem uma espécie de descanso. Prelados, funcionários e seminaristas saem de férias, ou quase. Uma espécie de desaceleração das incumbências anuais.
 

terça-feira, 24 de maio de 2011

O elogio involuntário ao Mosenhor Lefebvre por um padre modernista

Para Ecône! Para o mundo! Para a glória!

Nas livrarias francesas, atualmente, pode-se encontrar um livro muito interessante e explicativo, é o trabalho realizado por Don Philippe Béguerie, intitulado Vers Écône. Mgr Lefebvre et les Pères du Saint-Esprit. Chronique des événements 1960-1968 (Desclée de Brouwer, Parigi 2010, € 36,00), ou seja, Rumo a Écone. Monsenhor Lefebvre e os Padres do Espírito Santo. Crônica dos eventos 1960-1968. A originalidade do livro se deve não tanto aos acontecimentos narrados, que já eram suficientemente conhecidos, quanto ao fato de que o autor, em uma tentativa de “fazer a ‘exegese’ do pensamento de Marcel Lefebvre” (1), com intuito de crítica e controvérsia, acaba enfatizando, contra sua vontade, tanto a coerência de pensamento e de ação do prelado francês, quanto o efervescente clima existente em muitos ambientes e institutos religiosos católicos mesmo antes da convocação do Concílio Vaticano II. Pode-se, então, respirar todo o sibilante vento da rebelião a métodos considerados já ultrapassados e antigos, chatos e superados, que deviam ser substituídos por regras e políticas, usos e costumes em sintonia com a modernidade. Essas aspirações já haviam penetrado, como dissemos antes, em muitas instituições religiosas e até mesmo na Congregação dos Padres do Espírito Santo.
Esses sistemas, que até então haviam garantido a ordem de ideias e de práticas, pareciam não ser mais adequados à mentalidade autoproclamada moderna das almas mais inovadoras, mesmo dentro da Igreja. Parecia que se estava às vésperas do triunfo — mesmo dentro dos Edifícios Sagrados — daquela modernidade contra a qual Papas e santos haviam se levantado por mais de um século e meio e que agora infectava as consciências com o liberalismo, o positivismo, o subjetivismo e modernismo (a perigosa e perniciosa tentativa de casar a Igreja com o mundo). Diante de tais revoltas e subversões, Dom Marcel Lefebvre (1905-1991) reagiu de imediato, primeiro em África, como arcebispo de Dakar, em seguida como candidato a diretor do Instituto do Espírito Santo e, finalmente, como superior geral da própria congregação missionária.
Foi assim que Lefebvre se expôs imediatamente, sem prudência por si mesmo e indiferente a qualquer tipo de prejuízo à sua carreira eclesiástica, isso aconteceu desde a mudança de direção da Igreja sob o Papa João XXIII (1958-1963; Angelo Roncalli 1881-1963), que não deixou de deixar-lhe claros, pessoalmente, os riscos que enfrentava. O Bispo intervinha com vigor e determinação, com as palavras, os escritos, os artigos... Mas aquela força e aquela consistência incomodavam extremamente: “C’est la méthode Lefebvre!” (2), isto é, um método “politicamente incorreto”, certamente não “fashion” e imune a qualquer tipo de compromisso; em suma, poder-se-ia dizer, em síntese, punível e punido por “excesso de fé”, como disse o Cardeal Silvio Angelo Pio Oddi (1910-2001).

As ameaças modernas

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