Dom Helder Câmara
uma retrospectiva de fatos
por Júlio Fleichman
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| J. Fleichman |
Tenho
sobre minha mesa 10 pastas cheias de recortes sobre D. Helder Câmara.
Cobrem o período que vai de 1964 até 1977. A simples existência dessas
pastas, cheias de recortes que nos informaram, aqui no Brasil [1]
de TODOS os pronunciamentos de D. Helder Câmara, muitos transcritos na
íntegra e em TODOS os jornais, desmentem por si só a alegação de que D.
Helder é aqui "totalement censuré", como costuma dizer contra nós o
jornal "La Croix" de Paris. Mas, como não pretendo ser democrata nem
partidário da liberdade de imprensa (no sentido em que esta expressão é
entendida nos Estados Unidos) acrescento que uma coisa D. Helder Câmara
tem sido e continua sendo, graças a Deus, impedido de fazer pelo Governo
brasileiro. Não que seus pensamentos sejam expressos e publicados mas,
sim, que ele faça CAMPANHAS públicas em que mistificaria a opinião
pública com sua condição de Arcebispo, fingindo que a Igreja Católica, a
que tem 20 séculos e é sempre a mesma, endossa suas atitudes. Isso sim,
graças a Deus, lhe é proibido.
Helder
Câmara nasceu em 7/12/1909. Tem hoje, portanto, 68 anos [2]. Foi feito
bispo auxiliar do Rio de Janeiro em março de 1952. Nomeado Arcebispo de
Olinda e Recife, no nordeste brasileiro, em março de 1964, dias antes
que eclodisse o levante militar que depôs seu amigo e companheiro, o
Presidente João Goulart, a quem ajudou como pôde.
Durante
a década de 1930/40, Helder Câmara, já um padre, era integralista
(partido fascista brasileiro, cujo "fuherer" era o escritor Plínio
Salgado e cujas camisas, à semelhança dos partidos fascistas europeus,
era não negra nem parda mas verde). O jornal "O Estado de São Paulo", de
25 de maio de 1968, publicou uma antiga fotografia do padre Helder
Câmara, em 1934, na cidade de Belém, capital do Estado do Pará, norte do
Brasil, cercado de "camisas verdes" e em plena arenga política com os
mesmos gestos dos braços e as caretas como hoje faz (hoje as caretas de
D. Helder Câmara são "bondosas"; naquele tempo eram ameaçadoras). Esta
fotografia foi também publicada no "Jornal do Comércio" de Recife, de
23/5/68 e reproduzida na revista francesa "Minute", de 4/10 de fevereiro
de 1971, página 5.
Durante
cerca de 12 anos, Helder Câmara foi assistente eclesiástico do nosso
Centro Dom Vital, a associação de escritores católicos presidida por
Alceu Amoroso Lima da qual saíram Gustavo Corção e a maioria dos sócios
em 1963, quando Alceu Amoroso Lima, juntamente com Helder Câmara, já
mostrava inequívocos sinais de progressismo e esquerdismo.
A
partir de 1955, Helder Câmara, já bispo auxiliar do Cardeal D. Jaime
Câmara, do Rio de Janeiro, e secretário-geral da CNBB ganhou fama de
organizador, por ter sido o responsável (segundo se dizia) pela boa
marcha dos trabalhos do Congresso Eucarístico Internacional. Por essa
época, o jornal "O Globo", de Roberto Marinho, possivelmente com boa
intenção, colocava jornalistas e fotógrafos à disposição de Helder
Câmara que não dava um passo sem ser muito fotografado e muito
noticiado. Sua paixão pela notoriedade, seu excessivo interesse pela
publicidade e auto-promoção, tiveram aí talvez um reforço irresistível e
avassalador. Dizem que ao dar comunhão, se pressente o "flash" de um
fotógrafo, pára com a hóstia no ar e compõe uma atitude fotogênica.
A
notoriedade que alcançou, sua influência junto a donos de jornais e
também a empresários que, por meio dele, procuravam, às vezes sem
intuitos subalternos, prestar algum auxílio à diocese ou a organizações
caritativas, fizeram de Helder Câmara (que não sopitava sua ânsia de
prestígio e influência) uma personalidade cada vez mais importante.
Cercado de senhoras que o viam como uma espécie de São Vicente de Paulo
(mas que também sabiam que ele era um ambicioso político como pude
testemunhar pessoalmente) tinha a serviço da promoção de suas campanhas
mas também de sua auto-promoção, as esposas de muitos homens influentes e
poderosos na política, nos negócios, na alta finança. Durante os anos
em que governaram Juscelino Kubistchek e João Goulart (1956 a 1964), foi
uma das mais poderosas eminências pardas do mundo político no Brasil,
como se pode comprovar, entre outros, pelos seguintes exemplos
indiretos:
―
Em 1958 os jornais publicaram subitamente, com grande destaque, que o
presidente de uma organização governamental de âmbito municipal, ocupada
em obras públicas do Rio de Janeiro, chamada Sursan, denunciava como ladrão
o seu assistente imediato (cujo nome conheço mas deixo de publicar em
vista dos anos passados). Esse assistente era um protegido de Helder
Câmara, por ele nomeado para aquele posto através da condescendência do
Presidente Kubistchek para com o bispo. A acusação do Presidente da
Sursan, Sr. Maia Penido, era específica. O acusado roubava pagamentos a
serem feitos, para cada caminhão de transporte de terras usado no
desmonte do morro de Santo Antônio. O Sr. Maia Penido era, também ele,
um homem influente, e ordenara a abertura de um inquérito de apuração
dos fatos. No dia seguinte, 24 horas depois, o referido assistente da
Sursan foi transferido administrativamente para o Gabinete da
Presidência do Brasil, isto é, saíra do âmbito municipal para o federal e
além disso, para o gabinete presidencial. Escapava assim ao inquérito e
à punição. A prova de poder político de Helder Câmara que todos os
jornais disseram, na ocasião, ser o autor da transferência, era
evidente. Para nós, desnecessária. Todos, no Brasil, sabiam da
influência de D. Helder Câmara.
―
O que nem todos sabiam porém era até que ponto ia essa influência.
Quando houve o levante militar em 1964 e o governo da cidade do Rio de
Janeiro ficou livre das pressões do Presidente João Goulart, o novo
presidente nomeado pelo Governador do Estado da Guanabara, Carlos
Lacerda, para o Banco do Estado da Guanabara, Sr. Dario de Almeida
Magalhães, denunciou ao Governador que havia encontrado entre os
documentos importantes do Banco, uma nota promissória, vencida e não
paga, cujo devedor era o Sr. Dom Helder Câmara. O valor do dinheiro
levantado pelo referido bispo, no montante de um bilhão de cruzeiros
(cruzeiros de 1962) era igual ao do capital total do Banco. Esse
dinheiro foi usado por D. Helder Câmara para suas promoções demagógicas
irresponsáveis como, por exemplo, construir prédios de apartamentos para
favelados no meio de áreas residenciais mais abastadas como a Praia do
Pinto. O fato foi mais tarde tornado público pelo próprio Governador
Carlos Lacerda em depoimento publicado no jornal "O Estado de São
Paulo", de 17/6/77, já depois de sua morte, depoimento esse em que o
conhecido orador e político dizia de Dom Helder Câmara que ele era "a
humildade mais bem organizada do Brasil". O que nos lembra (como aliás
todas as caretas "bondosas" de Dom Helder) a figura de Uriah Heep de
"David Copperfield".
Estes
dois exemplos (há outros) são suficientes. Nessa época D. Helder Câmara
― freqüentador de ricaços, banqueiros e membros de "international set" ―
influia na eleição da diretoria do Jockey Club, na nomeação de
ministros, na composição de arranjos políticos e foi então que algumas
das senhoras ricas que o julgavam um São Vicente de Paulo descobriram
que Helder Câmara, como dizia o Dr. Zhivago dos comunistas, é um homem
que mente. Afirmo isso porque sou testemunha de tais descobertas e de
tais decepções.
Nos
dias que antecederam o levante militar de 1964, quando a angústia
apertava a garganta de todos os homens de bem e pais de família do
Brasil; quando João Goulart e os comunistas que o cercavam já tinham
dado início a diversas providências para sovietizar o país, inclusive
criando "comissariados", ocupando fazendas e fábricas, mantendo um clima
de agitação permanente nas ruas, nas universidades e nos jornais e,
finalmente, começando a organizar comícios de "protesto" de marinheiros e
soldados e comícios "gigantes" como o da Central do Brasil em 13 de
março de 1964, Helder Câmara, já nomeado Arcebispo de Olinda e Recife,
juntamente com o Cardeal de São Paulo de então, procuravam ajudar a obra
de decomposição de João Goulart. No dia 24 de março, dias antes do
levante militar, quando já havia começado a reação das senhoras
católicas de Minas Gerais e São Paulo e já se programava a primeira
"Marcha da Família com Deus pela Liberdade", Helder Câmara, talvez pela
primeira e última vez, vestiu as mais solenes vestes vermelhas que um
bispo pode usar e foi, em companhia de Dom Carlos Mota, Cardeal de São
Paulo e conhecido simpatizante do Presidente Goulart, fazer a este uma
visita no Palácio. Com ele almoçaram. Foram fotografados e, com toda a
sua fapela, ambos e mais Goulart saíram nos jornais de esquerda do dia
25/3/64 em grandes fotografias. Na véspera do dia 31 de março, quando
eclodiu o levante, as estações de rádio favoráveis a Goulart repetiam o
dia inteiro: ― "O Presidente Goulart não é um comunista. Agora mesmo a
Igreja, na pessoa do Cardeal Mota e Arcebispo Helder Câmara foram
prestigiá-lo por suas reformas sociais etc".
Derrubado
Goulart, Helder Câmara, que era, não o esqueçamos, secretário-geral da
CNBB, onde já havia montado ― com o auxílio das senhoras que o cercavam,
as que ainda o consideravam um santo ― todo um "staff" de gente de sua
confiança, procurou entender-se com o Presidente Castelo Branco. Mas
este, homem inteligente, que conhecia muito bem quem era Helder Câmara,
não se deixou influir e não esqueceu os serviços prestador por Helder
Câmara aos presidentes da República que haviam corrompido, desonrado e
quase destruído o Brasil. Helder Câmara, segundo se dizia então,
compreendeu perfeitamente no encontro que teve, juntamente com outros
bispos ― com o general Castelo Branco, que as portas dos palácios
estavam fechadas para ele enquanto os militares governassem o Brasil.
Data dessa época sua "descoberta" da necessidade de empenhar-se em
campanhas difamatórias no exterior em que procurava sobretudo
estabelecer movimentos de "opinião" que acabassem influindo no país.
Ao
longo de todos esses anos, enquanto passamos lentamente, um após outro,
os numerosíssimos recortes de jornais, vemos que a trajetória de Helder
Câmara foi, evidentemente, facilitada por contatos no Vaticano, em
organizações suspeitas tipo "Associação dos Amigos da Democracia no
Brasil" com sede em Paris e outras com sede na Alemanha, muitas das
quais o próprio Helder Câmara relacionou com uma certa coragem impudente
na cínica resposta que deu a uma entrevista do então Governador Abreu
Sodré ― datada de outubro de 1970, assunto a que faremos alusão mais
adiante.
Apesar
de todas as aparências, apesar do caráter de muitas de suas declarações
― francamente marxistas, favoráveis a assassinos subversivos,
explicitamente socialistas, etc. ― a nosso ver o que temos diante de nós
é tão somente um espetáculo em que se misturam um oportunismo que não
recua diante de nada, uma insopitável ânsia de notoriedade e um grande
desejo de influir politicamente. Sabendo-se definitivamente afastado de
qualquer possibilidade de influência política e notoriedade fácil no
Brasil, Helder Câmara, como tantos outros homens públicos fizeram,
procurou usar o nome que já tinha de um modo que obrigaria os jornais,
as agências noticiosas, enfim, os órgãos de comunicação de prestígio a
ocupar-se dele. Como se sabe, é o "sensacional", o inusitado, o
conflitante, o escandaloso, que realmente interessa aos jornalistas. É
por isso que Helder Câmara dedicou-se a estes temas e o fez de um modo
que chega a absurdos como veremos mais adiante. Ele explora o que
pressente no ar, ele diz o que os temos corrompidos e perturbados
gostariam de ouvir, ele atende aos desejos que, antes de seus
pronunciamentos, eram para muitos apenas uma tentação; com tais
pronunciamentos passam a ser atos praticados. O caráter moral desses
atos tornar-se-á mais claro no dia do seu julgamento pessoal que não nos
compete. Mas compete-nos a impossibilidade de crer até mesmo no seu
comunismo. Ele não tem suficiente vigor para ser comunista. Quanto aos
seus pronunciamentos, são de índole comunista, é indiscutível, como
veremos adiante.
Já
em junho de 1964 o jornal "La Croix", órgão da Arquidiocese de Paris,
em editorial de primeira página transcrito no "Jornal do Brasil" e
outros jornais de 6/6/64, examina um Manifesto de Bispos brasileiros,
movidos pelo então secretário-geral da CNBB que, embora reconhecendo o
perigo comunista que ameaçava o Brasil e que justificava o levante
militar, já começavam a se referir a uma inquietação pela depuração e
prisão de comunistas, aliados do Presidente Goulart. "La Croix" não
hesita em ir mais longe do que os bispos brasileiros, ainda muito
tímidos. Nega que os comunistas estivessem a ponto de tomar o poder
apesar do que os próprios bispos dizem. E logo aproveita o que os bispos
dizem para estender seu sentido: "Com suas fórmulas gerais parece que
os bispos visam não só alguns fatos concretos mas também as próprias
disposições da lei constitucional provisória promulgada pelo poder
revolucionário".
Mais
tarde, no seu afã de movimentar "opiniões públicas" fabricadas pela
máquina que se montava na Europa, com a ajuda daquelas "Associações",
Helder Câmara funda, um atrás do outro, inúmeros movimentos de pressão,
esperando, da iniciativa da fundação de cada um (e da repercussão que a
fundação tem, habitualmente, nos órgãos de difusão) que o impacto deles
exercesse alguma influência aqui. Cito ao acaso: Em 1968, funda o
Movimento "Ação, Justiça e Paz"; nesse mesmo ano, outro movimento:
"Pressão Moral Libertadora"; em 20/8/69, outro movimento, ainda sem
nome, prometido para ser fundado no dia 12/10/1969, data do centenário
de nascimento de Gandhi, "para libertação de todos os povos da América
Latina e do Terceiro Mundo, de qualquer tipo de imperialismo", como
disse em entrevista ao jornal "Avvenire" de Milão. E vários outros. É
claro que esses "movimentos" logo desapareciam, para outros serem
fundados depois.
D.
Helder voa ao redor do mundo. Londres, Paris, Milão, Roma, Nova York,
Montreal, Pekin etc. Em Liverpool prega a atividade política para a
Igreja: "Todas as igrejas devem mobilizar a força moral que lhes resta
(sic) para trabalhar pela libertação do homem, mesmo se para isso devem
sair do terreno religioso para entrar no político". Alemanha, Japão,
Austrália, Suécia. A toda parte leva ele a difamação contra o governo do
seu país alegando que seus pronunciamentos não são publicados em sua
pátria. O que é uma mentira, como mostram meus recortes. Mas, como
disse, é verdade que não lhe é permitido mistificar um povo humilde,
simples e ainda dotado, em grande parte, de uma certa religiosidade
católica, enganando-o com sua condição de Arcebispo que pretende
misturar (e mistura, no exterior) com suas opiniões (muitas vezes
falsas) a respeito de temas políticos, fazendo constar que é a própria
Igreja que estaria contra o Governo militar do Brasil.
Em
1968, o Papa Paulo VI dirige-se a Medellin, Colombia. Helder Câmara
encarrega um assessor, o padre belga Joseph Comblin, de preparar o que
ele (e seus cúmplices da CNBB) chamam "um documento-base". É uma visão
marxista da sociedade e uma análise preparatória para a guerra
revolucionária que se iria organizar no Brasil.
Cito alguns trechos:
"A
Igreja Falha ― A Igreja realiza o milagre de ser mais tradicionalista
na cultura que transmite do que as próprias classes que controlam o
ensino do Estado".
....................................................................................................
"A
Igreja adotou e continua adotando a mesma atitude dos grandes
proprietários: desconhece a existência das massas rurais e seu caráter
humano... Nunca a Igreja fez tão pouco por uma categoria social... O
clero é formado exclusivamente por pessoas assimiladas às classes altas.
....................................................................................................
"A religião que se ensina ao povo é freqüentemente uma religião primitiva, medieval, tipicamente sub-desenvolvida".
....................................................................................................
"Quanto
à doutrina social o que falta na "Gaudium et Spes" e na encíclica
"Populorum Progressio" é a consideração dos problemas relacionados com a
"arrancada" do desenvolvimento..."
"Ninguém
pode acreditar que as reformas fundamentais que exige o desenvolvimento
poderão ser promovidas por uma evolução política normal dentro dos
princípios que regem a sociedade ocidental. Esses princípios se aplicam
somente em situações de calma e sem problemas. As reformas não se farão
pela persuasão nem pelas discussões platônicas em assembléias
legislativas, nem por via de eleições segundo os moldes do sistema
ocidental moderno".
....................................................................................................
"Bastaria
a Igreja armar um grupo (ficaria muito mais barato do que os gastos das
obras assistenciais) e tudo ficaria resolvido...".
Compreenda-se
que quem fala assim (e há muito mais e muito pior no longo documento) é
um Padre, sustentado pelo seu bispo, D. Helder Câmara, que levou
este documento e o ofereceu à consideração dos demais participantes do
Congresso Eucarístico de Medellin, Colombia, na presença do Papa Paulo
VI. O Padre Joseph Comblin foi expulso do Brasil (é claro) debaixo da
feroz oposição de Helder Câmara e seus companheiros da CNBB o que
mostra, para nós evidentemente, que a CNBB não é uma instituição idônea.
Resta acrescentar que apesar do caráter francamente subversivo desse
documento ele foi publicado em todos os jornais do país, e em vários
deles, como no "O Estado de São Paulo", o jornal de maior circulação
daquele Estado e um dos mais divulgados do Brasil, foi publicado na íntegra,
ocupando páginas inteiras dos dias 14, 15 e 16 de junho de 1968. Como
se vê, o jornal "La Croix", que afirma sempre que, no Brasil, esses
assuntos são "totalement censurés", é um jornal que não diz a verdade.
Em
abril de 1968, na Europa, Helder Câmara começa a incluir nas afirmações
com que compõe a figura que quer impor aos jornalistas (o que consegue
tendo em vista o que os jornalistas gostam de publicar) a nota do
"ameaçado". O "heróico" bispo dos pobres está com sua vida ameaçada pela
"camarilha militar" que, com o dedo no gatilho das armas, ocupa-se em
pesar sobre os pobres e enriquecer os ricos. No dia 26/4/68 os jornais
publicam: "Dom Helder diz que vai ser morto". Diz que vai ter a sorte de
Martin Luther King, a quem admira. O "Jornal do Brasil" acrescenta por
sua conta, "essa afirmação vem preocupando os fiéis brasileiros porque
estes sabem que o Prelado não fala sem ter razões para isso...". Mas o
sociólogo e famoso escritor brasileiro Gilberto Freyre, declara aos
jornais, quando interrogado a respeito, que o Dom Helder, se corre o
risco de morrer, é atropelado porque o trânsito em Recife é 'realmente
infernal'". Os fatos posteriores desmentiram, como tantas outras
mentiras, a afirmação do "Prelado que só fala quando tem razões para
isso".
No
dia 24/5/1970 o jornal "O Estado de São Paulo" publica notas pessoais a
respeito de Dom Helder Câmara encontradas entre os papéis privados de
um dos mais eminentes e conhecidos escritores católicos brasileiros, um
dos mais eminentes e respeitados sacerdotes, recentemente falecido, o
Padre Alvaro Negromonte, cuja "verve", ironia, sabor da linguagem,
grangearam-lhe fama ainda durante sua vida. Diz que Helder Câmara, que
considera inteligente, tem enorme capacidade de trabalho e sabe ser
insinuante, fazendo-se estimar "em vista da aparente bondade e
tolerância que emprega com excepcional esperteza".
Mas, acrescenta ele:
"...
pertenceu a todos os Movimentos que o podiam projetar enquanto tiveram
projeção, mas logo os abandonou quando caíram na rotina do trabalho
humilde... Como as obras materiais no plano social dão glória fácil,
orientou-se para elas. Realiza-as com verbas do governo e com dinheiro
tirado dos ricos por processos demagógicos... Daí ser cortejador de
todos os governos com um oportunismo exagerado... Para atingir o
episcopado insinuou-se na confiança de D. Jaime Câmara... Tornou-se
amigo íntimo do núncio Chiarlo e do atual núncio (na época Dom Lombardi)
através de régios presentes, logrando assim o cargo de secretário-geral
da CNBB... Os seus planos notáveis redundam em fracassos porque é
desorganizado e sem perseverança. Desbarata o dinheiro que recebe, do
qual jamais prestou contas a ninguém... Não cumpre seus compromissos com
notável facilidade... Não tem amigos, tem interesses. Por esse seu mau
caráter é que consegue numerosas amizades e dedicação, distribuindo
verbas... Chegou a falsificar um documento da Conferência dos Bispos
para agradar o governo João Goulart, fato público denunciado pelo
Cardeal Silva da Bahia. O Cardeal Silva declarou à imprensa que aquele
não era o documento que ele assinara e que não o assinaria naqueles
termos... Suas ligações com esquerdistas são públicas... Os que com ele
trabalham de perto participam dessas idéias... Seu "vedetismo" não
irrita só os católicos...".
No
dia 16/8/1968, o jornal "O Globo" publicou cinco perguntas que o
Arcebispo de Diamantina, Dom Geraldo Sigaud fez a Dom Helder Câmara a
respeito de sua pregação por uma nova sociedade no Brasil.
As perguntas são as seguintes:
1a. ― Se nessa sociedade ele, Helder Câmara, admitiria a iniciativa particular.
2a. ― Se admitira a propriedade, por particulares, de meios de produção.
3a.
― Se o Estado deveria ter uma função supletiva ou a direção e a
exclusiva responsabilidade nas questões econômicas e sociais.
4a. ― Se seria lícita a economia de mercado livre.
5a. ― Se admitiria a propriedade particular de bens pessoais.
Essas
perguntas foram feitas de viva voz a D. Helder Câmara durante a reunião
de bispos em que foi lançado um dos movimentos criados por D. Helder
para sua promoção pessoal. A resposta dada por D. Helder foi a de que
deixaria o assunto para as universidades. Diante da insistência de D.
Sigaud, Helder propôs a nomeação de uma comissão de peritos para
responder. Diante da insistência repetida, disse que qualquer aluno de
sociologia católica sabe qual a posição da Igreja a respeito. Dias
depois da publicação de todo esse debate, o "Jornal do Brasil" (de
28/8/1968) publicou a irritação de D. Helder que não conseguiu deixar de
se mostrar "touché". O próprio jornal é que informa que ele ficou
irritado. O que, somado a sua recusa de responder, é bastante
significativo.
Pulando
um pouco no tempo (do contrário esse trabalho não acabaria mais),
chegamos à famosa entrevista dada por D. Helder Câmara à revista
"L´Express", publicada por esta revista no princípio de junho de 1970 e
aqui reproduzida em todos os jornais (na íntegra, no "O Estado de São
Paulo", de 5 de julho de 1970. Como sempre, tudo "totalement censuré"
segundo o jornal "La Croix" de Paris). Essa entrevista é um modelo de
impudência em que até sua vida de seminarista é apresentada por D.
Helder, provavelmente mentindo, segundo as cores que na época são
apreciadas pelos que o ouvem com gosto. É assim que menciona, certamente
sem saber o que está dizendo e por isso provavelmente mentindo, que um
"grande padre" que não nomeia o livrou do temor de Deus e lhe deu uma
"visão muito confiante da vida da qual o pecado está excluído". "Eu não
tinha medo de Deus. Eu tinha confiança nele". Diz que "não era
obediente" e que não se fez "filho de Maria" porque "eu ria, eu falava,
eu zombava, eu era normal". Dá um exemplo: era proibido, no seminário,
falar nos corredores, "mas eu não aceitava essa proibição, eu falava". ―
Sozinho? Pergunta o entrevistador. ― "Não", responde, "eu procurava
corromper os outros". Nessa entrevista ele afirma que deixou o
integralismo (o fascismo brasileiro) porque o Cardeal do Rio de Janeiro
assim lho pedira. Afirma textualmente: "O que eu acatei sem grande
dificuldade pois começara a ter dúvidas quanto à ascensão do nazismo e
do fascismo". Ele parece não perceber o que, subrepticiamente, confessa
com frases assim.
A
entrevista ocupa duas páginas do jornal. Ele confessa que o Governo
Kubistchek era "muito simpatizante" com as suas obras. Depois entra na
parte política em que afirma que: a "Igreja era uma força alienada, que
se alienava a si mesma. "Convencemo-nos de que era preciso
'conscientizar' as massas". Mais adiante explica o que entende por
"conscientizar": "É fazer tomar consciência da injustiça e da
necessidade de fazer pressão para a libertação". Afirma que "Che
Guevara" era um gênio que ele admira:
"Eu
respeito todos aqueles que, em consciência, escolhem a violência ativa:
Che Guevara ou os jovens que fizeram a mesma opção entre nós. Porque
eles se sacrificam pela justiça". O entrevistador do L´Express pergunta:
― Já não acredita na guerrilha urbana? D. Helder responde: "Já não
acredito. Eu não digo isso para desanimar esses jovens que tentam
alcançar a libertação de nosso povo. Eu os amo e persigo o mesmo fim.
Eles são extraordinários esses guerrilheiros urbanos. Eles têm coragem.
Eles assaltam bancos para obter dinheiro, a fim de comprar armas. Mas
quando se conhece um pouco o preço das armas sabe-se perfeitamente que
eles nunca terão o suficiente... O sr. há de dizer que eles têm êxito
com o seqüestro de personalidades. Mas alguns são apanhados. Eles são
torturados e por vezes falam. É muito difícil resistir quando eles
arrancam as suas unhas e esmagam seus testículos".
Quando
nos lembramos que quem assim fala é um Arcebispo que nunca foi punido
como devia por Roma; que essas palavras constam de uma publicação
francesa muito conhecida e portanto não podem ser postas em dúvida; que o
criminoso que ousa dizê-las não tem uma palavra de piedade pelas
vítimas inocentes dos "jovens" que ele "ama" os quais lançam bombas em
supermercados, escolas e hospitais e seqüestram personalidades que
ameaçam de morte e muitas vezes matam, como mataram Dan Mitrione, Pedro
Aramburu, Carlo Sacheri, Capitão Chandler e tantos outros, sem falar nos
soldados e policiais mortos no cumprimento do dever; que suas alegadas
"torturas" se realmente ocorressem, como ele diz, teriam por objetivo
não roubar dinheiro de bancos ou adquirir armas para impor o terror
comunista a uma sociedade estuprada mas obter informações para prender
outros criminosos como esses que ele apóia e cujo fim também ele
persegue como diz; quando nos lembramos disso tudo, é difícil manter o
equilíbrio. Este homem que ousa falar assim e o Papa que o sustenta,
Deus não permitirá que deixem de responder pelo que fizeram e fazem.
Repugnado
por tudo isso, em fins de setembro de 1970, o então Governador do
Estado de São Paulo concedeu candente entrevista aos jornais em que
acusa D. Helder Câmara de estar a serviço da máquina de propaganda do
Partido Comunista, chamando-o de "Fidel Castro brasileiro". Essa
entrevista, que causou grande repercussão no país, não bastou,
juntamente com as declarações do próprio Helder Câmara que acabamos de
transcrever, para ao menos reduzir ao silêncio os demais membros do
episcopado que, por suas omissões e declarações, antes e depois, assumem
a responsabilidade de cúmplices das manobras políticas de baixo nível
que Helder Câmara executava e continua executando. Ao contrário, premido
pela evidente repercussão causada na opinião pública do país, o então
presidente da CNBB, Cardeal Agnelo Rossi, hoje prefeito da Sagrada
Congregação para Evangelização dos Povos em Roma, teve a audácia de vir a
público pedir "provas" ao Governador Sodré. Possivelmente esperava
recibos assinados por Kruschev ou Brejnev. Em carta que entregou a Dom
Agnelo e fez publicar na íntegra nos jornais de 24 de outubro de 1970,
Sodré responde com argumentos, principalmente com o princípio latino
"Cui prodest?", a quem aproveitam suas campanhas?, e mais de 55
documentos e citações, dentre as quais algumas transcritas acima e
outras, especialmente um franco elogio ao Partido Comunista, publicado
no jornal clandestino do Partido chamado "Missão Operária", no. 4, ano
II, pág. 48, bastante comprometedoras.
Depois
dessa época, Helder Câmara prossegue seus giros internacionais cujos
financiadores reais nunca foram conhecidos. Sua tecla é insistir na
idéia de "torturas" no Brasil e durante algum tempo empenha-se,
especialmente com parlamentares socialistas alemães e suecos e com
membros luteranos do Conselho Mundial de Igrejas, tentando obter o
Prêmio Nobel da Paz. A princípio, essa visível intenção de um farsante
que se auto-promove, sabendo que os militares católicos brasileiros
jamais o molestarão fisicamente, causava-nos enorme indignação. Depois, a
verificação de que o Parlamento Norueguês e a Academia Sueca premiaram
personalidades indignas como Sean Mac Bride, Jean Paul Sartre e o
"pelego" russo Mikkail Cholokov ― perseguidor de Boris Pasternak, da
mulher de Pasternak quando este morreu e de Soljenitzin, por ser cunhado
de Kruschev, conforme denúncia publicada em 21 de novembro de 1970 pelo
presidente da Associação Européia de Escritores, o italiano Giancarlo
Vigorelli ― tudo isso nos livrou da nossa indignação. Se Dom Helder
Câmara não merecia o Prêmio Nobel, a instituição Nobel que àqueles
premiou, merece Dom Helder. É de sua laia. Cabe dar-lhe o prêmio, agora.
A
repercussão internacional dos giros de Helder Câmara, entretanto,
diminuiu. Ele cansa. Apesar das tentativas que se fizeram recentemente
no sentido de injetar novo alento nesse "mito" de repugnante contorno,
como por exemplo uma entrevista promovida pelo "Jornal do Brasil" que
ocupou duas páginas, com várias fotografias do prelado, em 24 de abril
de 1977, o interesse por sua pessoa parecia diminuir. Em princípios de
outubro de 1977, em Atenas, num simpósio internacional sobre a
"democracia", fez o processo e moveu a condenação das "multinacionais"
conforme a moda da época, juntamente com outros esquerdistas como o
ex-Presidente do México, Echeverria, o economista Galbraith, etc.
Reitero
o que disse. Não consigo acreditar no comunismo, nas convicções
comunistas de Helder Câmara, coisa que, aliás, foi dita por várias
outras pessoas, dentre as quais, citado acima, o falecido Padre
Negromonte. O escritor Gustavo Corção, que também não crê nisso, costuma
dizer que Helder Câmara não tem nem sequer caráter bastante para ser
comunista.
O
que é terrível, a nosso ver, é pensar na ousadia com que um sacerdote,
arcebispo, visivelmente para obter resultados políticos em manobras com
que busca prestígio pessoal, que esse Arcebispo ouse espalhar pelo mundo
e sobretudo pelos humildes, que utiliza demagogicamente como massa de
manobra, idéias que corrompem as almas, que incitam ao ressentimento,
que prestigiam a maldade mais horrenda que nos tempos modernos se
expandiu em assassinatos, seqüestros e atentados cruéis, que, em suma,
favorecem o Partido Comunista Internacional. Esse Arcebispo envenena os
que o escutam, reforça também a crescente e pérfida corrupção do mundo
em que vivemos, mundo apóstata, paganizado e ateu que já construiu
sombrias câmaras de tortura nos países socialistas e que se prepara para
estender o sinistro império que já exerce sobre metade da humanidade,
aos restos de uma sociedade que já foi cristã. São Pio X tremia de
horror constatando, já no seu tempo, o quanto se afasta o mundo em que
vivemos, da fé que o poderia salvar. Que dizer da situação do mundo de
hoje que o Concílio Vaticano II pretende ser palco de um "novo
humanismo" encorajador e que o Papa Paulo VI vê como um mundo que ama a
Paz, porque se multiplicam os congressos pró-paz etc. (ver seus Discurso
de 1o. de janeiro de 1975). É possível que esse mundo ame a paz, mas
não a paz que vem do Cristo. Amará a paz que dá o mundo, ele mesmo.
Que
o Senhor todo-poderoso nos venha socorrer diante da abominação que se
instalou em nossa época. Roguemos para que sejam abreviados os dias,
como Ele mesmo nos disse. E repitamos, como no Apocalipse: "Vem, Senhor
Jesus".
[1] Texto escrito para ser publicado na França.
[2] Este artigo foi escrito em 1977.