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quinta-feira, 23 de junho de 2011

Non Possum: sobre os colóquios.


Antes de ler este interessante artigo seria oportuno ouvir e ler o que Mons. Lefebvre disse ao Cardeal Ratzinger...
Trecho de homilia de Dom Lefebvre (com subtítulos em italiano), registrada no dia 04 de outubro de 1987. O fundador da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, falando do então Cardeal Ratzinger, diz claramente que com ele nunca se poderia chegar a um acordo, porque Ratzinger trabalha pela DESCRISTIANIZAÇÃO da Igreja.
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O bordão de junho

A regularização canônica da FSSPX

de Belvecchio
E chegamos perto da festa dos SS. Pedro e Paulo.
Em geral, a partir do final de junho, muitas estruturas eclesiásticas se concedem uma espécie de descanso. Prelados, funcionários e seminaristas saem de férias, ou quase. Uma espécie de desaceleração das incumbências anuais.
Bem próximo desta data aconteceram coisas notáveis. Como exemplo, recordamos a publicação do Motu Proprio Summorum Pontificum, ocorrida no dia 07 de julho, sem, porém, esquecer a data de 02 de julho, dia da “grande excomunhão” apressadamente imposta pela misericordiosa “Igreja do Concílio” a um dos seus bispos: Dom Marcel Lefebvre, culpado de cultivar “uma noção incompleta e contraditória de Tradição. Incompleta, porque não leva em conta suficientemente o carácter vivo da Tradição” e contraditória, pois “se opõe ao Magistério universal da Igreja, da qual é detentor o Bispo de Roma e o Corpo dos Bispos”. (Motu Proprio Ecclesia Dei, de 02 de julho de 1988).
Na ocasião, João Paulo II, referindo-se à consagração dos quatro novos bispos da FSSPX, sublinhou que “Não se pode permanecer fiel à Tradição rompendo o vínculo eclesial com aquele a quem o próprio Cristo, na pessoa do Apóstolo Pedro, confiou o ministério da unidade na sua Igreja”.
Uma declaração que centraliza o problema que, há anos, inflama as paixões de muitos católicos: o valor primário da unidade da Igreja.
Não se trata certamente de uma coisa trivial, mas muitas vezes tivemos que constatar que esta instância, não só legítima como sacrossanta, chegou a ter preferência sobre o que tem sido sempre a lei suprema da Igreja: a salvação das almas.
Quando a unidade da Igreja acaba sendo buscada mesmo à custa do bem das almas, é inevitável perguntar-se de qual igreja se está falando.
Neste Junho de 2011, eis que retorna outro motivo recorrente totalmente conexo com esta nossa premissa: a regularização canônica da FSSPX... Exige-o a unidade da Igreja.
Ora, esta questão, que parece pronta para ser afrontada agora que se concluem os conhecidos colóquios entre a Santa Sé e a Fraternidade, tem, na verdade, mais de 10 anos.
Estava-se no ano de 2000 quando mais de seis mil fieis católicos vindos dos cinco continentes se reuniram em Roma para ganhar as indulgências do Jubileu sob a égide da Fraternidade de São Pio X e acompanhando seus quatro bispos “cismáticos”. Naquela ocasião, para grande surpresa daqueles que sempre deram pouca importância aos “rebeldes de Lefebvre”, descobriu-se que havia bons católicos que rejeitavam o Concílio e, não obstante isso, rezavam pelo Papa e mostravam um decoro e uma dignidade já perdida nas costumeiras reuniões eclesiásticas do pós-concílio.
Tanta foi a surpresa que o então Prefeito da Congregação para o Clero, Cardeal. Castrillón, convidou para o almoço os quatro bispos “cismáticos” para conhecê-los melhor. Daí partiu a iniciativa do cardeal para ajudar a encontrar uma composição para a ruptura de 1988. E partiram as primeiras propostas de regularização, das quais se continua a falar até hoje.
Entre altos e baixos, desde então a Fraternidade manteve relações regulares com Roma, e é neste contexto que nasceram as famosas solicitações da Fraternidade pela liberalização do uso do Missal tradicional e pela revogação da excomunhão, tudo isso em conjunto com as reiteradas solicitações de Roma para que aceitasse uma regularização canônica.
O card. Castrillón conseguiu, em 2001, sanar a posição canônica do grupo de Campos, criando uma Administração Apostólica pessoal, e imediatamente pensou que poderia tomar uma decisão semelhante também com a Fraternidade: Administração Apostólica ou Prelazia Pessoa.
Ratziner, Bergoglio e JPII
Bergoglio foi eleito Papa no Conclave de 2013
Quando, em Abril de 2005, foi elevado ao Trono Pontifício o cardeal Ratzinger, Bento XVI apressou-se a convocar em Roma, em agosto, o Superior Geral da Fraternidade, Dom Fellay, para demonstrar que queria começar a resolver essa antiga questão da qual ele mesmo havia tratado, como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, diretamente com o saudoso Mons. Lefebvre.
Como é notório, o trabalho do card. Ratzinger e de Mons. Lefebvre não levou, na época, a nenhuma conclusão, apesar da assinatura do famoso “protocolo” de 1988, que Mons. Lefebvre de imediato denunciou como uma tentativa de Roma de encostá-lo à parede por meio de uma consagração episcopal pilotada.
Sabe-se que o card. Ratzinger sempre lamentou o malogrado acordo, assim como, por exemplo, o malogrado esclarecimento sobre o famoso “terceiro segredo” de Fátima, não obstante e talvez até por causa da conhecida declaração sobre a revelação do terceiro segredo em 2001.
O Card. Ratzinger, agora Bento XVI, estava familiarizado com o assunto e estava perfeitamente a par das exigências feitas pela Fraternidade desde 2000, assim como estava perfeitamente consciente do fato de que não bastava a excomunhão para definir uma questão tão complexa como aquela das muitas reservas expressas por muitos, e não apenas pela Fraternidade, em relação ao Concílio. Havia necessidade de achar uma solução, não apenas para ceder às exigências da Fraternidade, mas para colocar alguns pontos finais sobre essas antigas questões, tanto do injustificado abandono da liturgia tradicional, quanto do perigoso declínio a que tinha chegado a Igreja desde o Concílio.
Desde então, as propostas de composição canônica para a Fraternidade, apresentadas direta ou indiretamente, têm-se multiplicado, e quase todo ano parecia que já havia um esquema de acordo que bastava apenas assinar.
Enquanto isso, dois anos depois de se tornar Papa, Bento XVI desfez o primeiro nó importante: a Missa Tradicional nunca fora abolida, portanto qualquer sacerdote pode celebrá-la livremente. Houve o Motu Proprio Summorum Pontificum, e foi a solução de um incrível mal-entendido que durou quase 40 anos, como se não fosse sabido que a Igreja não poderia apagar dois mil anos de liturgia com um simples gesto, mesmo com o aval de um Concílio e de um Papa.
Era inevitável que alguém gritasse ao escândalo, pois pareceu que o Papa havia cedido à primeira das exigências da Fraternidade. Na verdade, o Papa sabia muito bem que Paulo VI havia permitido um abuso e o havia firmado, mas também sabia que, sem aquela solução, o problema da Missa Tradicional se tornaria o grande problema da Igreja. Que ato cismático de Lefebvre que nada - como havia escrito João Paulo II -, agora se corria o risco de se ver crescerem duas igrejas em uma... mais ainda: duas liturgias na mesma Igreja.
Obviamente, a publicação do Motu Proprio serviu para fazer outras pressões sobre a Fraternidade, porque, segundo aqueles, diante da perspicácia e magnanimidade do Papa, era inconcebível que esta ainda se obstinasse em não aceitar algum tipo de regularização canônica. E começou-se a contar aos milhares os que gritavam à incompreensão:... Mas como? Agora temos a Missa!
Fato é que, seja por preguiça mental, seja por um grande desejo de viver em paz, muitos clérigos e leigos fingiam não saber que a Igreja não estava em crise devido à falta da Missa Tradicional ou por causa da obstinação da Fraternidade, mas pelo desvio doutrinário que se alastra pela Igreja há mais de 40 anos, com base no Concílio e nos seus frutos.
Quando, então, esta admoestação era lançada pela Fraternidade... sai de baixo!
Mas que pretensão! Mas quem eles pensam que são!
E todos acham apropriado jogar para a Fraternidade a responsabilidade de uma crítica que, de fato, estava no coração de muitos, inclusive prelados.
Então, alternando-se entre uma oferta de Roma e uma recusa de Ecône, chegou-se, há apenas um ano e meio do Motu Proprio, ao levantamento das excomunhões.
E já vieram especulações, suposições, hipóteses e ainda pressões, solicitações e projetos. Agora sim... a Fraternidade não tem mais desculpas, a generosidade do Papa é tal que anula qualquer tergiversação... que neste momento torna-se culpa grave!
Eis aqui o acordo, assinem-no!
Pena que o Papa, naquela ocasião, apressou-se, imediatamente, em esclarecer que, sim eles não têm mais a excomunhão, mas aqueles bispos não podem exercer legitimamente o seu ministério por causa de sua posição canônica irregular, derivada de suas críticas ao caminho doutrinal surgido com o Concílio.
Em outras palavras: cuidado! Eles são bispos da Igreja Católica, estão em comunhão comigo que sou o Papa, mas não podem exercer o episcopado.
A quem parecer excessivo tal modo de apresentar as coisas, e considerando que este não é o lugar para se fazer um discurso “técnico”, lembramos apenas que a reserva expressa pelo Papa se baseia no fato de que esses bispos, embora não mais cismáticos, não têm jurisdição formal, isto é não possuem canonicamente um âmbito próprio no qual exercer o ministério que é próprio do bispo. Cada bispo é bispo enquanto chefe de um pedaço da Igreja, e a Fraternidade não seria ainda, canonicamente, um pedaço da Igreja. Quem entende um pouco de jurisprudência compreende que não estamos falando de coisas sérias, mas de coisas de advogados, o que diz tudo.
Permita-nos a ingenuidade de uma pergunta: mas quantos bispos há na Igreja, e particularmente em Roma, que não estão no comando de um pedaço da Igreja e ninguém lhes diz que não podem exercer legitimamente o seu ministério? Falemos daqueles que têm uma jurisdição apenas no papel, uma jurisdição pró-forma, mas na realidade são bispos de nada e de ninguém, contrariamente aos quatro bispos da Fraternidade, que são bispos de uma estrutura eclesiástica com sacerdotes e religiosos e que têm sob seus cuidados as almas de alguns milhões de fieis.
A Igreja tem tantos mistérios, mas às vezes os curas exageram!
Não se passam nem mesmo três meses e eis que é anunciado que a Santa Sé abrirá uma mesa de discussão com a Fraternidade, a partir de outubro de 2009, para tentar por em evidência toda a problemática provocada pelo Concílio.
O comunicado emitido pela Pontifícia Comissão Ecclesia Dei, logo após a realização do primeiro colóquio, dizia: “analisaremos as questões relativas ao conceito de Tradição, ao Missal de Paulo VI, à interpretação do Concílio Vaticano II em continuidade com a Tradição doutrinária católica, aos temas da unidade da Igreja e dos princípios católicos do ecumenismo, da relação entre o Cristianismo e as religiões não-cristãs e da liberdade religiosa.”
Que “incompleta e contraditória noção de Tradição” que nada, como pensava João Paulo II! Aqui se trata de outra coisa, diz Roma; trata-se de lançar luz sobre uma maré de questões obscuras surgidas a partir do Concílio e que dizem respeito a aspectos essenciais da vida da Igreja e da fidelidade à doutrina católica.
Todas as opiniões podem até ser expressas, mas o fato permanece: a Santa Sé não desautoriza a Fraternidade, vinte anos após o suposto “cisma”, mas a convoca para discutir sobre o Concílio e os seus frutos.
Finalmente cai a máscara da hipocrisia: não se tratava de irregularidade canônica, nem de disciplina eclesiástica ou de desobediência ao Papa, mas de problemas reais, de problemas sérios, de problemas relacionados à liturgia e à doutrina católica. Problemas que exigem um sério confronto entre a Congregação para a Doutrina da Fé, sob a direção do Papa, e a tão destratada Fraternidade, acusada por 40 anos de todo tipo de rebelião. Problemas que tocam a suprema lei da Igreja: a salvação das almas.
E a regularização canônica?
Durante anos, a Fraternidade afirmou publicamente que não era uma questão canônico-logística que a incomodava, mas uma questão doutrinária, diante da qual ficava em segundo plano até mesmo a própria vida da Fraternidade, o reconhecimento de seus bispos, a tranquilidade pastoral de seus sacerdotes, a paz religiosa de seus fiéis. A fidelidade à Tradição da Igreja, a fidelidade à Verdade, vale bem todo sacrifício, toda renúncia, toda humilhação, todo ostracismo... toda condenação.
Não se trata de regularização canônica, portanto, mas do reconhecimento por parte de Roma de que o problema não está na Fraternidade, mas dentro da própria Igreja hodierna.
Apesar disso, no entanto, se insiste: liberalizado o uso do Missal tradicional, levantada a excomunhão, acontecidos os colóquios... nada mais resta que concluir um acordo pela regularização canônica da Fraternidade.
Vamos ver o porquê.
Primeiro ponto: o Papa demonstrou uma generosidade e uma coragem inigualáveis no atendimento às demandas da Fraternidade, liberalizando o uso da Missa tradicional, levantando a excomunhão e promovendo os colóquios com uma ostentação e uma exposição impensável e, para muitos, inconcebível.
Mas é realmente assim?
O temos escrito várias vezes. Se o Papa tivesse feito tudo isso apenas para atender às exigências da Fraternidade não teria se mostrado valente e generoso, mas temerário e superficial, porque é óbvio que nenhuma Fraternidade, ainda que de boa fé, pode forçar o Papa a fazer o bem de um grupo ao invés do bem da Igreja e das almas. Se o Papa fez o que fez pelo bem da Igreja, como é lógico e justo que seja, então temerários e superficiais são os que falam de coragem e generosidade do Papa, porque o que pode fazer um Papa a não ser buscar o bem das almas?
Segundo ponto: o Papa tinha primariamente em vista a unidade da Igreja. Mas se pode buscar a unidade da Igreja liberalizando o uso do Missal tradicional e sancionando, pela primeira vez em dois mil anos, um bi-ritualismo precursor de confusão e divisão? Pode-se buscar a unidade da Igreja anulando uma excomunhão sacrossanta contra um grupo de rebeldes que rejeitam o Concílio e contestam as decisões do Papa? Pode-se buscar a unidade da Igreja declarando publicamente que o Concílio, os seus documentos, a sua liturgia, a sua pastoral são passíveis de discussão, de reexame, de redefinição e justo com base nas reivindicações partidárias do mesmo grupo de rebeldes?
Sobre isto também temos escrito muitas vezes. Se o Papa tivesse feito tudo isso para salvaguardar a unidade da Igreja, mesmo à custa da confusão, do reconhecimento do aberto dissenso e do questionamento de tudo o que foi dito e feito pelo Magistério desde o Concílio, teria provado buscar não o bem das almas, mas a consecução de um fim prático, mais ideológico que teológico, porque é evidente que seguindo essa lógica esboçar-se-ia uma Igreja multiforme e prometeica[1], que seria, sim, unida, mas tendo juntado tudo e o contrário de tudo, com o mais grave dano possível para o bem das almas. Se, ao contrário, o Papa fez o que fez pelo bem da Igreja e das almas, o que é lógico e justo que seja, então não se poderá mais falar de prioridade da unidade, mas de necessidade de se fazer clareza mesmo à custa da colocação em mora da liturgia reformada, do afastamento dos bispos que causaram dano à Igreja, da revisão de todas as ambiguidades e desvios decorrentes do Concílio e desenvolvidos no período pós-conciliar.
E se deverá admitir que, em tudo isso a Fraternidade, não é importante se não pela função de estímulo que tem providencialmente desenvolvido ao longo dos anos.
Terceiro ponto: a legitimidade canônica da Fraternidade permitiria à Igreja de servir-se regularmente e proficuamente do apostolado de seus clérigos e de seus leigos, que poderiam ser desenvolvido sem aqueles impedimentos formais e psicológicos que o tem limitado até agora.
Repetimos-nos, mas somos forçados a convidar a reler o que escrevemos sobre o assunto nos últimos anos, bem conscientes de que nossas considerações são o resultado de um ponto de vista particular que não pode reivindicar o direito de valer para tudo e para todos.
Quando, desde 2000, o Cardeal Castrillón inaugurou a nova fase das relações entre a Santa Sé e a Fraternidade, uma das justificações avançadas por muitos, na verdade mais murmurada do que declarada, foi mesmo esta do grande bem que poderia vir para todos da imissão formal no corpo eclesial de tropas frescas, belicosas e bem armadas para opor às fileiras dos modernistas.
Esse raciocínio, que ouvimos repetidamente em vários níveis, revela no entanto um grande problema, inteiramente dentro do corpo da Igreja. Problema que surgiu logo após a conclusão do Concílio, que assumiu proporções inquietantes após a entrada em vigor da liturgia reformada e que explodiu com a implementação generalizada das disposições conciliares através dos ensinamentos e das pastorais das Congregação e Conferências Episcopais.
Excluindo-se o caso do Mons. Lefebvre e de sua Fraternidade, e ignorando os muitos sacerdotes que sofreram o ostracismo e os muitos fiéis que foram tratados durante anos como leprosos... pessoas impedidas e “ideologizadas”, é claro! Quantos bispos e cardeais, quantos sacerdotes e quantos fiéis se levantaram para denunciar em voz alta o escândalo da crise da Igreja gerada pelo desvio doutrinal e pelo desastre litúrgico? Quantos se expuseram à discriminação e à condenação a fim de dizer a verdade? Quantos pensaram mais à preservação do seu estado que ao seu dever de estado? E quantos se industriaram para justificar o injustificável? E ainda quantos se entrincheiraram atrás da obediência ao Papa e aos bispos? E ainda quantos se contentaram de ter o benefício exclusivo de algumas Missas semanais e até mensais? E, finalmente, quantos chegaram até a se apressar a se arvorarem a juízes para condenar a suposta desobediência arrogante de Mons. Lefebvre e de toda a Fraternidade?
Neste contexto, torna-se realmente críptica[2] a perspectiva do grande bem que poderia advir para a Igreja da passagem da Fraternidade à legitimidade canônica. A menos que não se queira pensar que o que os “outros não fizeram em 45 anos” eis que milagrosamente o poderiam fazer os herdeiros do Mons. Lefebvre.
Em vez disso, dever-se-ia considerar seriamente se esta visão otimista é fundada em dados objetivos e em uma série de precedentes capazes de apoiá-la.
Em 1988, com base nas mesmas instâncias da Fraternidade, mas em desacordo com a ruptura com o Papa decidida por Mons. Lefebvre com a consagração episcopal, nasceu a Fraternidade Sacerdotal São Pedro. Em 2001, surgiu a Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney, de Campos, convencida de que tinha chegado a hora de conduzir à luta por dentro. Seguida, em 2006, pelo Instituto do Bom Pastor, já certo de que se houvesse produzido um talho no muro modernista pelo qual se poderia invadir a estrutura católica pós-conciliar e derrotar o inimigo. Sem contar outras pequenas realidades, chamadas “Ecclesia Dei”, entre as quais se destaca por vários motivos aquela dos beneditinos do Le Barroux.
Bem, examinando o trabalho realizado por estas instituições que balanço pode-se extrair, de molde a justificar a validade da referida perspectiva?
Ignorando o parêntese da agitação de 2000, quista por Roma para reprimir qualquer desejo de fidelidade aos propósitos de sua fundação, a Fraternidade São Pedro acabou por limitar-se à propagação da Missa tradicional, onde e como podia, talvez seguindo as limitadas instâncias de uma parte do mundo tradicional anglo-saxão.
À exceção dos primeiros anos de super-ativismo internacional de seu bispo, a Administração Apostólica de Campos não produziu qualquer reflexão minimamente comparável àquelas de seu pai espiritual, o saudoso Mons. De Castro Mayer, nem resulta que tenha minimamente tido um impacto sobre o desenvolvimento das dioceses do Brasil, nem tampouco sobre a própria diocese de Campos.
O Instituto do Bom Pastor, embora ainda muito jovem para que se possa fazer um balanço, dá a impressão de que ainda não decidiu bem o que quer ser quando crescer, vista a alternância de hesitações e decisões, talvez devidas à pressão dos acontecimentos mundiais.
Se, depois, voltarmos o olhar para o Barroux, fica-se impressionado pela força com que os beneditinos tradicionais defendem e propagam a liturgia tradicional, mas continuamos perplexos ao ver com que força alguns deles defendem a liturgia moderna e pregam e praticam as novidades doutrinais paridas pelo Concílio e criadas pelo pós-concílio.
Mas este é um discurso que, se Deus quiser, vamos voltar a fazer.
No geral, portanto, fora os casos pessoais de clérigos que falaram com coragem e determinação, o exemplo dessas instituições leva a desmentir todo otimismo acerca da perspectiva em questão. Tudo fala contra, quase que certificando que a legitimidade canônica dentro de uma Igreja que ainda não sarou da infecção conciliar não produz qualquer efeito positivo, pelo contrário leva essas instituições a uma espécie de homologação, a sofrer um tipo de osmose perigosa, pela qual as infecções do modernismo que circulam pelos diferentes institutos são muito mais numerosas e virulentas que os anticorpos que eles injetam na atual estrutura eclesial.
A estas considerações deve-se acrescentar que, de repente, logo após o famoso discurso à Cúria de 22 de dezembro de 2005, na qual Bento XVI lança o salva-vidas das hermenêuticas contrapostas - aquela justa “da renovação na continuidade” e aquela errada “da descontinuidade e da ruptura” – eis que se abrem os olhos de todos, eis que se entende onde estava o truque. Na hermenêutica... Na hermenêutica que até hoje ninguém sabe dizer quem a tenha desenvolvido e feito afirmar-se, tanto a justa, quanto a errada.
Outro mistério da Igreja moderna!
E eis que surgem cardeais e bispos, até agora cuidadosamente protegidos, para defender esta explicação, como se eles, por 40 anos, tivessem sido forçados a um retiro sabático.
Eis surgirem centenas de teólogos profissionais e adventícios que nos explicam como esta teoria é o que de mais inteligente seja possível, e que é exatamente isso que eles têm feito em 40 anos, através dos vários pronunciamentos do Magistério, dos quais nunca resultou nenhuma reparação somente por culpa daqueles desconhecidos hermeneutas da ruptura que, coincidentemente, têm prevalecido, talvez pelo apoio dado a eles por aquela “mídia” de que fala Bento XVI no mesmo discurso.
Querem apostar que a terrível crise na qual a Igreja se debate há 45 anos é tudo culpa dos jornais?
E eis que surgem milhares de clérigos e leigos que se declaram prontos para levantar a bandeira da defesa da Tradição da Igreja, empunhando as armas do Concílio azeitadas e polidas com a milagrosa hermenêutica da reforma na continuidade. Milhares de católicos que, depois de praticar por 45 anos os ensinamentos de seus bispos, descobrem que basta apenas relê-los segundo a hermenêutica da continuidade para fazê-los coincidirem com toda a Tradição, como se nestes quase 45 anos não tivesse acontecido nada de estranho, exceto um certo e remediável quid pro quo.
Até a explosão da bomba da liberalização do uso do Missal de 1962. Uma iluminação! O Missal tradicional nunca foi revogado! Todos os problemas estão resolvidos!
E avia-se a corrida à Missa tradicional. Quem por anos havia esnobado e até mesmo denegrido os arqueologizantes cultores do “antigo”, se descobre, repentinamente, defensor de um “patrimônio a se preservar”, em fiel obediência à “vontade do Santo Padre”.
A mesma demasiado humana metamorfose do alinhamento com o comandante de plantão.
Fieis ao Papa... sempre... Seja quando marginaliza e praticamente proíbe a liturgia bimilenária da Igreja, seja quando, ao grito de “contraordem... camaradas!”, relança e defende o uso universal da mesma liturgia.
O disse o Papa!
Ainda bem que as vias do Senhor são insondáveis e que Ele vê e provê... não obstante as fraquezas dos homens... até tirar sempre o bem do mal. Ainda bem!
Porque é somente por isso que a liberalização do uso do Missal tradicional tem dado tantos bons frutos no mundo católico todo.
Agora, quando dizem que a Igreja tirará um grande benefício da regularização canônica da FSSPX, além da subestimação dos elementos que descrevemos aqui, parece que esquecem o estado objetivo em que se encontra hoje a Igreja, nas pessoas de milhares de bispos, teólogos e leigos “competentes” que importam.
A Fraternidade continua a declarar - através de seu Superior Geral, Mons. Fellay e através de outros clérigos e leigos que, embora sequer façam texto, fazem de qualquer maneira contexto, coisa que muitos negligentemente descuidam - ...continua a declarar que a crise não acabou, pelo contrário, sob certos aspectos sequer acena acabar. Que somente o bom Deus poderá sanar as chagas sangrentas do seu Corpo Místico.
Exagera? É obrigada por seus preconceitos?
Talvez... mas!
Há mais de um ano, se levantam vozes no mundo católico que, partindo do discurso de Bento XVI, tentaram “fazer um discurso” sério sobre a necessidade de uma revisão de tantos ensinamentos e de tantas pastorais modernas. Além dos aplausos e das concordâncias que vieram de toda parte, como era natural que fosse, e além dos gritos de “escândalo” que imediatamente saíram das bocas contorcidas dos ainda muitos e irredutíveis “modernistas”, o que aconteceu com o restante do quadro católico?
Com calma, mas com força cada vez mais crescente, diversos expoentes do clero e dos leigos “que fazem a diferença” ergueram uma barricada em defesa de tudo o que os primeiros chamaram em causa. Foram escritas centenas de páginas, utilizadas todas as manchetes autorizadas e, coisa que hoje conta muito, se mobilizaram dezenas de websites - alguns surgidos pela necessidade, para explicar, com dados litúrgicos e teológicos em mãos, é claro!, - que tais vozes estão teologicamente e historicamente erradas, seja pela escassez de argumentos, seja pela informação relativa dos autores, seja também... coisa realmente inédita... pela indevida interferência dos mesmos em campos que não são de competência deles. E todas essas pessoas concordaram, e não por acaso, com uma espécie de refrão que repetem de que nem o Concílio nem o Papa podem errar porque são assistidos pelo Espírito Santo. Portanto, se o Papa diz que o único erro está na hermenêutica, deveria ser óbvio para qualquer católico que é o Espírito Santo quem diz isso. Todas as outras considerações, por mais que ilustres, seriam privas do necessário apoio sobrenatural e, portanto, sem valor, exceto aquelas da mera opinião pessoal. Pela simples propriedades transitiva, é igualmente evidente que somente aqueles que defendem tudo na base da hermenêutica da continuidade estão certos, porque se beneficiariam indiretamente da mesma assistência de que se beneficia o Papa.
O fogo de supressão[3] contra Mons. Gherardini e, ultimamente, também contra o professor de Mattei, é apenas o exemplo atualizado de uma técnica de persuasão oculta e de chantagem disciplinar e teológica que há 45 anos tem sido usada em relação aos fiéis católicos.
Esta técnica, depois, refinada pela particular competência e pela específica preparação, é a mesma usada pela Congregação para a Doutrina da Fé por ocasião dos colóquios com a Fraternidade.
Cortesia, educação, disponibilidade, caridade, ... mas uma coisa é indiscutível: não há erro no Concílio, nem em suas aplicações, desde a liturgia moderna ao ecumenismo, da colegialidade à liberdade religiosa, da dignidade do homem ao imperativo pela unidade da Igreja. Todos os desvios doutrinários produzidos são filhos da hermenêutica da ruptura, já parcialmente corrigidos pelos últimos magistérios dos Papas e, desde 2005, mais ainda pelo magistério de Bento XVI. Não entender essa evidência elementar significa apenas ter “uma incompleta e contraditória noção de Tradição. Incompleta, porque não leva em conta suficientemente o carácter vivo da Tradição”; contraditória porque “se opõe ao Magistério universal da Igreja, do qual é detentor o Bispo de Roma e o Corpo dos Bispos”.
Depois de mais de 20 anos estamos ainda parados no mesmo ponto, com a única e sutil adição da hermenêutica.
A crise ainda continua.
Delineado este mosaico, surgem algumas questões: como poderia operar neste contexto, a Fraternidade, depois de aceitar uma legítima posição canônica?
Com qual eficácia?
Com o que e com quem poderia contar a Fraternidade para conduzir a necessária batalha da Verdade?
Quantos fieis católicos viriam a lhe dar uma mão?
Quantos clérigos se colocariam à disposição para acompanhá-la no apostolado e na pregação?
Temos em mente não apenas os muitos católicos que hoje parecem engrossar aquela área que poderia ser chamada de “conservadora”, mas também os católicos que, até recentemente, olhavam com alguma simpatia para a Fraternidade e que, há três anos, a olham com uma mínima valoração positiva, pois é evidente que, para estes, a pré-condição para que possam amanhã apoiar a tão sonhada batalha “interna” da Fraternidade é que esta compartilhe plenamente seus hosanas ao Papa e à hermenêutica da reforma na continuidade.
Em outras palavras, todos auspicam hoje que a Fraternidade aceite a regularização canônica porque a Fraternidade deveria tirar as castanhas que “eles” deixaram no fogo por 45 anos, e isto a Fraternidade deveria fazê-lo: ou por si só ou com a ajuda de tantas boas vontades que desde já a convidam a abraçar suas posições e suas convicções. Porque o que importa não são as motivações da batalha de quarenta anos pela Tradição - que é, no fim, aquela que tem permitido a tantos até mesmo de existirem - mas as atualizadas exigências da tão auspicada “paz litúrgica”, as evidentes urgências da releitura da Tradição à luz da hermenêutica da reforma na continuidade, as imperiosas instâncias de uma maior unidade da Igreja que finalmente abarque todos os que creem em Cristo: os católicos tradicionais, os católicos modernistas, os católicos mais ou menos, os movimentos eclesiais, os fiéis devotos, os cristãos separados e todos aqueles que quererão compartilhar esse esplêndido tempo de reconciliação e de amor sob a liderança iluminada do Papa.
Fonte: NON POSSUMUS de gianluca cruccas em 16/06/11.
Tradução: Giulia d'Amore di Ugento

[1] Referência a Prometeu, personagem mitológico grego, que pratica em sua trajetória mitológica a arte de tramar antecipadamente seus planos ardilosos, com a intenção de enganar os deuses olímpicos. Isto é: uma Igreja multiforme e enganosa.
[2] enigmatica, incomprensibile, misteriosa, oscura, sibillina.
[3] Na terminologia militar, o fogo de supressão é o fogo desencadeado contra posições inimigas com intuito principal não de causar baixas diretas, mas de forçar o oponente em permanecer em posições cobertas, dificultando a defesa. Seu objetivo mais frequente é “dar cobertura” ao movimento de forças amigas, que de outra forma ficariam vulneráveis aos disparos das tropas hostis.
Editado em 22/08/11. Um leitor anônimo enviou um comentário que não vou publicar porque não aprecio o anonimado, sobretudo porque as considerações que fez não são polêmicas ou que possam torná-lo alvo de críticas por parte de algum outro leitor. Mas, por uma questão de educaçãom vou responder aqui, visto que não tenho outro meio de fazê-lo. 
Ele faz algumas considerações sobre os "Bispos residentes em Roma", de que fala o artigo - que não é meu, como fica evidente no verbete "Fonte", logo após o texto, onde consta, em seguida, que eu apenas o traduzi - que deveriam ser postas ao autor, que mora em Roma, conhece o ambiente Vaticano e certamente sabe mais do que eu e o ilustre anonimo como as coisas são por lá. 
A menos que o anônimo seja um reverendo padre que mora ou morou em Roma e teria, sim, autoridade para falar do assunto... O que tornaria o anonimado mais estranho ainda. 
Assim, sugiro ao leitor anônimo seguir o link do site original e compartilhar em italiano sua opinião - porque, tendo em vista o status de anônimo, é disto que se trata - com quem pode lhe responder à altura e, dependendo do caso, corrigir o artigo ou corrigir o anônimo. 
Se fosse um artigo meu e se eu realmente tivesse cometido um erro, teria o prazer de corrigi-lo, como aconteceu ainda hoje em outro post. Como o artigo não é meu, e trata-se de uma intervenção anônima, por prudência não vou postar aqui as correções feitas pelo sr. Anônimo, nem a título de conhecimento, pois, não sabendo a fonte, não sei também a veracidade das informações.  
Convido, contudo, o querido leitor anônimo a me escrever em particular, se o quiser.
GdA
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