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quarta-feira, 19 de outubro de 2011

A Bela Adormecida

NA IDADE DA CONFUSÃO1, EIS UM LIVRO QUE ESCLARECE...


 

A primeira apresentação do livro de Gnocchi-Palmaro2, A Bela Adormecida. Porque depois do Vaticano II a Igreja entrou em crise. Porque despertará (Ed. Vallecchi), despertou um vivíssimo interesse entre as pessoas reunidas sábado, 15 de outubro, na maravilhosa e antiga Igreja de Todos os Santos dos Franciscanos da Imaculada, de Florença, onde foi celebrada, antes da conferência, a Santa Missa no rito tridentino oficiada pelo Pe. Serafino Lanzetta.

 

da esquerda: Pucci Cipriani, Mario Palmaro e Paolo Deotto

Estavam presentes, à mesa dos palestrantes, o próprio Pe. Lanzetta, o Prof. Pucci Cipriani, o Prof. Mario Palmaro e o Dr. Paolo Deotto, diretor de Riscossa Cristiana3. Este encontro foi melhor resposta para o artigo que Alberto Melloni4  havia escrito no ‘Corriere fiorentino’5 um dia antes; jornal que dedicou, no dia da reunião, uma página inteira ao evento. O expoente da Escola de Bologna6, que fez do Concílio Vaticano II um mito intocável, usou em seu artigo tons insolentes e rudes contra quem sustenta que a Igreja sofreu um trauma com seu XXI Concílio. A medicina nos ensina que dos traumas se consegue muitas vezes sarar somente descobrindo as causas que os geraram... Tampar o sol com a peneira7 ou repetir enfurecidamente que o Concílio não é o problema, mas que, quando muito, os problemas surgiram porque as diretrizes conciliares não foram executadas suficientemente (os progressistas) ou porque houve más interpretações deles (os neoconservadores) não é certamente um bom serviço à Igreja.
Melloni considera os católicos que amam toda a Igreja, portanto sua Tradição, como nostálgicos que ‘comovem’. Tem dó deles e deles se compadece como se se tratasse de frustrados que esperam uma revanche: “esperam uma desforra ao invés de compreender a sua posição por aquilo que é: um movimento que chama tradição e hábitos de sua própria juventude”; e, no entanto, a Igreja de Todos os Santos estava cheia de jovens e de estudantes, assim como esses mesmos jovens se interessam pela Tradição da Igreja através das ideias que livremente circulam na Internet. Não se trata absolutamente de nostálgicos. As estatísticas, por outro lado, falam por si. Melloni não sabe que nestas reuniões e nas missas tridentinas os mais velhos são sempre o percentual menor. Na realidade, todos estes católicos querem entender o que realmente aconteceu naquele Concílio Vaticano II que tantos problemas tem criado.
Ninguém, desprovido de má-fé, pode afirmar que a Igreja tenha se beneficiado das decisões pastorais do Concílio Vaticano II. Ninguém pode dizer que tenham aumentado as vocações, que tenha aumentado o zelo, que tenham se ampliado a Fé, a Esperança e a Caridade, que haja uma boa preparação catequética nas crianças e adolescentes, que a prática religiosa tenha aumentado, que as famílias tenham sido beneficiadas, que as leis dos Países ocidentais sejam respeitosas em relação à vida humana desde a sua concepção, que a evangelização, ordenada por Jesus Cristo aos seus Apóstolos, tenha assimilado linfa nova e vital... Nada disso. Então, realmente, como disse Ralph McInerny8, no Vaticano II algo deu errado, mas não deu errado porque, como argumentou o estudioso americano, os documentos não foram acolhidos corretamente e sua interpretação foi falsificada, mas porque o Concílio, seguindo a cultura da época, quis se desfazer, disse o padre Serafino Lanzetta, do princípio da Cruz e do sacrifício, sustentando uma tese heterodoxa “em nome da pastoralidade. Isso originou a ambiguidade, e, portanto, o Concílio se submeteu, por sua própria natureza, a múltiplas interpretações. Muitos, como resulta da análise de Melloni, pensaram que a doutrina deva adaptar-se aos tempos e não vice-versa. Hans Küng9 sustenta, em seu livro ‘Salvemos a Igreja’, que a Igreja está em crise não for falta de Fé e de correta pregação, mas deriva de um problema de caráter político dentro da Cúria romana, portanto da teologia romana, da teologia metafísica. Küng, como Alberigo e Melloni, argumenta que o Vaticano II queria recuperar a Igreja do primeiro milênio, considerando-o um período ideal porque a Igreja era unida e compacta: Ocidente e Oriente juntos, sem cismas, sem Protestantismo. Mas como é possível, na Igreja, não considerar o segundo milênio? Benvinda seja, então, a análise divulgadora de Gnocchi e Palmaro, que esclarece muitos pontos, gerando, no entanto, em alguns, turbamento, irritação, nervosismo”, e, sem argumentações sérias, procuram desacreditar com irreverência aqueles que consideram ‘inimigos’.

Pe. Lanzetta, que aprecia neste livro o agradabilíssimo italiano, lembrou, como bem enfatizaram Gnocchi e Palmaro em seu livro, a formidável incidência da mídia sobre o mito do Vaticano II, e isto deriva de uma filosofia de matriz kantiana: a coisa existe se aparece. O ‘Avvenire d’Italia’10, no período do Concílio, registrava a crônica das assembleias conciliares: as realidades sagradas eram colocadas em praça pública, em uma espécie de mentalidade ‘democrática’ que satisfazia as necessidades liberais da cultura da época. E tais crônicas relatavam tudo o que parecia ‘novo’ e ‘revolucionário’, e não a essência da Fé. Emblemático resulta o fato de que o arcebispo brasileiro Helder Pessoa Câmara11 (conhecido como Dom Helder, 1909-1999) preferisse realizar coletivas de imprensa a falar no Concílio, pois o reputava, justamente, mais eficaz, uma vez que os Padres Conciliares se deixavam influenciar por tudo que aparecia nos meios de comunicação de massa, mais do que por aquilo que haviam ouvido nas Sessões.

“O livro de Gnocchi e Palmaro”, afirmou Pe. Lanzetta, “não é uma inquisição, um processo a Galileu12, mas simplesmente uma análise dos fatos; é tomar consciência de um problema real. Ocorre tomar consciência de que o Concílio não é o todo, não é o divisor de águas. A Fé católica não se origina em um Concílio”. A Fé não depende da adesão ao Concílio Vaticano II, porque este não é um dogma de Fé. A Bela Adormecida ajuda a perceber um problema que não pode mais ser negligenciado.

Paolo Deotto, então, declarou que ficou satisfeito de ler o livro de Gnocchi-Palmaro, porque há muito tempo recebe, em um ritmo insistente, correspondência dos leitores de Riscossa Cristiana, na qual se percebe o desejo de compreender as questões controversas do Concílio e “o desejo de ter uma Igreja próxima e respeitada”, que não se confunde com as outras realidades terrenas de consistência líquida ou gasosa. O fiel da primeira hora conciliar restava assombrado diante dos novos eventos eclesiásticos: padres trabalhadores, padres sindicalistas, padres sociólogos, padres politiqueiros, padres guerrilheiros... quando pelo contrário, ontem como hoje, precisamos de sacerdotes que sejam sacerdotes, “necessitamos deles”, afirmou Deotto, “como do ar que respiramos”.




A comunicação da época se apropriou da temática religiosa: o Concílio Vaticano II era uma grande novidade, e jornais e TV colocaram sob os holofotes uma Igreja que, através de alguns teólogos e alguns pastores, queria emancipar-se e estar nos salões da sociedade13. “A Igreja queria manter-se atualizada com os tempos”; sem antagonizar ninguém, quis agradar a todos para ser amiga de todos, não olhando mais para erros e heresias, mas apenas para as coisas que unem e não dividem, “bem distante de um santo Atanásio que permaneceu firma na Fé Católica e no Deus encarnado com todas as consequências que este Credo comporta”.

A intervenção do Prof. Palmaro foi, então, cheia de significado. Ele lembrou, antes de tudo, de ter nascido em 1968, e daqueles anos lembra, em particular, uma palavra que era sempre pronunciada e praticada: ‘debate’, continuamente invocado e reclamado. Desde então, se fazem debates sobre tudo e todos. “Todavia, hoje, há quem não queira mais os debates, embora os tenha apoiado muito. Daqui nasce a intolerância, a qual esconde uma grande fraqueza: não enfrentar a realidade. Eis, então, a idade do paradoxo: onde eu e Gnocchi pudemos expressar o nosso pensamento católico? Em jornais seculares e, em particular, no ‘Il Foglio’14, de Giuliano Ferrara. Aqui pudemos dar espaço a uma hermenêutica de fatos católicos. Estamos dentro do que, muito provavelmente, os historiadores do futuro definirão a ‘Idade da confusão’.

Nos acusam de fazer recair todas as culpas sobre o Vaticano II, e que procuramos todas as causas dos males neste particular Concílio. Não é verdade, porque dizemos que muitos problemas doutrinais precederam o Vaticano II, como bem destaca o Prof. Roberto de Mattei15. De fato, aos meus alunos faço ler a encíclica do São Pio X, a Pascendi Dominici Gregis16, onde são evidenciados e condenados os erros dos modernistas. Esta tem um caráter de definição e jurídico, e há nela uma metafísica sólida, onde a teologia é acompanhada por um pragmatismo são, que não deixa espaço à imaginação ou às fantasias utópicas.

O católico é chamado a reagir: não pode salvaguardar o que a Igreja sempre renegou. No entanto, Melloni e alguns conservadores não querem que se fale. A acusação deles é forte, usam as armas da excomunhão, ou nos consideram pobres marinheiros que discutem em uma taberna. Outro paradoxo: não podemos mais dizer a alguém que é um herético, mas, contra os católicos que instauram um ‘debate’ sério, então se diz que eles são heréticos...”. Estamos diante do paradoxo de Epiménides17, que afirmou: ‘Todos os cretenses são mentirosos’. Mas os cretenses eram muito, supondo que todos fossem mentirosos: como Epiménides era um cretense, então Epiménides era um mentiroso. Sua afirmação era então verdadeira, mas isto é impossível porque um mentiroso não diz a verdade. Portanto, Epiménides é um mentiroso, e sua afirmação não é verdadeira. Negar uma asserção universal como ‘Todos os cretenses são mentirosos’ equivale a dizer que há pelo menos um cretense que diz a verdade. Da mesma forma, esses escritores e estudiosos católico têm que viver, portanto, o paradoxo de Epiménides.

Palmaro ressaltou, em fim, a importância da mudança da linguagem ocorrida durante o Concílio, e os documentos da Sessão estão embebidos de novas caracterizações linguísticas. Três foram as colunas da comunicação católica:

1. A língua latina. Esta deu uniformidade à linguagem e ao sentido das palavras. Tudo era definido em latim para evitar ambiguidades de expressão, oferecendo uma solidez sã ao longo do tempo.

2. A linguagem apologética. O latim não era compreendido por todos, por isso devia haver a transferência da comunicação por um clero preparado ao povo dos fiéis: narravam-se as vidas dos santos com os livros e com as homilias, defendiam-se as razões da Igreja, e nos sermões não se usavam as citações de um Rahner18, mas de São Jerônimo, de São Francisco... Em suma, alimentava-se a Fé.

3. A linguagem jurídica. Os conceitos eram expressos em modo de definição.






Tais cânones, no Concílio Vaticano II não os encontramos mais. De fato, explicou Palmaro, os esquemas conciliares preparados pela Cúria de Roma que contemplavam ainda estas três colunas foram descartados.

Muitos aspectos, então, presentes nos documentos conciliares são a esta altura antiquados e ultrapassados; por exemplo, a relação entre o homem e o ambiente ou o homem e a técnica, ambos caracterizados pelo irracional otimismo dos anos Sessenta. Portanto, estamos diante de outro paradoxo: há muito mais novidade em levantar tais questões do que em quem, pelo contrário, está ancorado ao ‘moderno’ de então. Portanto, enfrentar essas temáticas resulta um drama psicológico para aquela geração que cresceu no mito do Concílio. Estamos diante de um novo Muro de Berlim que cairá, inexoravelmente, como acontece com as ideologias. A Igreja não nasceu de novo com uma fictícia e almejada pentecostes, porque a Igreja teve e tem uma única Pentecostes, não decidida pelos homens. Então, devemos nos armar de santa paciência. Os tempos da Igreja são longos: levou quase 50 anos para levantar questões como as de hoje, e o encantamento da Bela Adormecida será quebrado também graças a obras como a de Gnocchi e Palmaro, que, como muitos outros católicos que amam a Igreja, se colocam interrogações lícitas para as quais desejam ter respostas não vagas, ambíguas, ou fugazes, mas resolutivas, e operam com o espírito de quem não quer servir-se da Igreja, mas deseja servi-la.

Cristina Siccardi
 

Fonte: Approfondimenti di “Fides Catholica”
Tradução: Giulia d'Amore di Ugento

Cristina Siccardi
Cristina Siccardi: nascida em Turim (1966), é casada e mãe de dois filhos. Formada em Letras (Cum Laurea) com ênfase em História, é especializada em biografias. Escreveu para La stampa, La gazzetta del Piemonte, Il nostro tempo, Avvenire, L’Osservatore romano e colabora com diversos periódicos culturais e religiosos como il Timone, Radici Cristiane, Nova Historica. É membro das Academias Paestum, Costantiniana, Ferdinandea, Archeologica italiana, Bonifaciana. Em 26 de Novembro de 2010 recebu o Premio Bo­nifacio VIII, da cidade de Anagni (Itália). As suas obras foram traduzidas até no exterior e do livro dedicado à Princesa Mafalda foi produzido um filme para Canale 5: Mafalda di Savoia. A coragem de uma princesa, produzido por Angelo Rizzoli e dirigido por Maurizio Zaccaro. Website


 

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1 NdTª.: No original: Evo confusionale.
2 NdTª.: Alessandro Gnocchi e Mario Palmaro.
3 NdTª.: Riscossa Cristiana (Revanche Cristã): site católico de atualidades e cultura.
4 NdTª.: Alberto Melloni é um histórico italiano, dedicando-se à História da Igreja, em particular ao Concilio Vaticano II.
5 NdTª.: Corriere Fiorentino (Correio de Florença): jornal italiano online de crônica local, da cidade de Florença. Pertence ao célebre Corriere della Sera (Correio da Tarde), fundado em 1876.
6 NdTª.: A chamada Escola de Bologna ‘congrega’ os defensores da Hermenêutica da Ruptura: Giuseppe Alberigo, Giuseppe Ruggieri, Maria Teresa Fattori, Alberto Melloni, Yves Chiron, David Berger, John O'Malley, Gilles Routhier e Cristoph Theobald, entre os principais expoentes.
7 NdTª.: Foderarsi gli occhi: expressão que – originada da frase: ‘É inutile foderarsi gli occhi con la pancetta’, ou seja: ‘é inútil forrar os olhos com o bacon’ – quer dizer: fazer de conta que não é verdade. O nosso ‘tampar o sol com a peneira’.
8 NdTª.: Ralph M. McInerny. What Went Wrong with Vatican II?: The Catholic Crisis Explained (Vaticano II. O que deu errado?: A Crise Católica Explicada).
9 NdTª.: Hans Küng. é um teólogo suíço, filósofo, professor de teologia, escritor e sacerdote católico romano. No final da década de 1960, Küng iniciou uma reflexão rejeitando o dogma da Infalibilidade Papal, publicada no livro ‘Infallible? An Inquiry’ (‘Infalibilidade? Um inquérito’), em 18 de janeiro de 1970. Em consequência disso, em 18 de dezembro de 1979, foi revogada a sua licença pela Igreja Católica Apostólica Romana de oficialmente ensinar teologia em nome dela, mas permaneceu como sacerdote e professor em Tübingen até a sua aposentadoria em 1996. Küng defende o fim da obrigatoriedade do celibato clerical, maior participação laica e feminina na Igreja Católica, retorno da teologia baseada na mensagem da Bíblia.
10 NdTª.: Avvenire d’Italia (Porvir da Itália): foi o primeiro jornal diário nacional de inspiração católica que apareceu no Reino da Itália. Foi publicado de 1896 a 1968. Em 1961, o novo diretor, Raniero La Valle, lhe deu uma direção progressista, contra a Igreja Tradicional. No plano internacional, tornou-se um jornal pacifista e antiamericano. La Valle era ligado ao card. Giacomo Lercaro, de Bologna. O jornal pertencia à Santa Sé, à Democrazia Cristiana (partido italiano de centro) e a algumas dioceses da Toscana e de Emília-Romanha. Foi fechado por questões econômicas, não doutrinárias.
11 NdTª.: Helder Pessoa Câmara, OFS. Foi um bispo católico, arcebispo emérito de Olinda e Recife. Foi um dos fundadores da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e defensor dos direitos humanos durante o regime militar brasileiro. A Permanência faz uma boa e substancial biografia de dom Helder.
12 NdTª.: Sic. Esta colocação é estranha, tendo em vista que a ‘perseguição a Galileu’ é um mito.
13 NdTª.: No original: ‘salotti buoni’. Ou seja os salões da burguesia. Que todos, afinal, querem frequentar. Até os comunistas.
14 NdTª.: Il Foglio Quotidiano (conhecido como Il Foglio) é um jornal diário italiano de difusão nacional fundando em 1996 por Giuliano Ferrara. Este, em 2007, fez uma campanha por uma moratória contra o aborto, porque “Os mais de um bilhão de abortos praticados desde que as leis permitem a famosa interrupção voluntária da gravide diz respeito a pessoas legalmente inocentes, criadas e destruídas pelo mero poder do desejo, desejo de não tê-los e de odiar-se até o ponto de amputar-se do amor. É o escândalo supremo do nosso tempo, é uma ferida catastrófica que lacera em profundidade as fibras e o possível encanto da sociedade moderna. É, além de tudo, em muitas partes do mundo onde o aborto é seletivo por sexo, e torna-se seletivo por perfil genético, uma obra de arte ideológica de racismo em marcha com a força da eugenética. Alegremo-nos, portanto, para o alto os corações, e depois de termos promovido a Pequena Moratória, promovamos a Grande Moratória do massacre dos inocentes. Aceitam-se zombarias, porque as boas consciências sabem usar a arma do sarcasmo melhor que as más, mas também a adesão a um apelo que fala por si, iluministicamente, com a evidência absoluta e verídica dos fatos de experiência e de razão”. (Giuliano Ferrara, Il Foglio, 19 dezembro de 2007).
15 NdTª.: Roberto de Mattei. autor e historiados católico italiano, escreveu o ‘Il Concilio Vaticano II. Una storia mai scritta’ (‘Concílio Vaticano II. Uma história nunca escrita’), que ganhou a indicação a dois prêmios: ‘Pen Club Italiano’ e ‘XLIV Premio Acqui Storia’, sendo que ganhou este último.
16 NdTª.: Pascendi Dominici Gregis. É uma encíclica papal promulgada pelo Papa Pio X em setembro de 1907. Seu subtítulo diz: Carta Encíclica do Papa Pio X sobre os erros do modernismo. O documento, assim, condena o modernismo católico, considerado uma “síntese de todas as heresias”, com sua junção de evolucionismo, relativismo, cripto-marxismo, cientificismo e psicologismo. Como consequência da Encíclica, o papa formulou o ‘juramento antimodernista’, obrigatório para todos os padres, bispos e catequistas e que foi abolido em 1967, pelo Papa Paulo VI. Este fato levou os católicos tradicionalistas a acusarem que o outrora combatido modernismo tornou-se na doutrina subjacente da ‘nova Igreja’. Um dos mais influentes filósofos modernistas foi Teilhard de Chardin, que pretendia reunir catolicismo com darwinismo e marxismo. Os católicos tradicionais veem este documento como evidência de que a Igreja Católica e os papas anteriores ao Concílio Vaticano II já estavam atentos para a infiltração de inimigos da Tradição no seio da instituição. Muitos tradicionalistas consideram o Papa Paulo VI um modernista, como o norte-americano Rama Coomaraswamy, em ‘Ensaios sobre a Destruição da Tradição Cristã’ (São Paulo, 1990).
17 NdTª.: Trata-se do ‘Paradoxo do Mentiroso’.
18 NdTª.: Karl Rahner foi um sacerdote católico jesuíta de origem germânica e um dos mais influentes teólogos do século XX. Participou – a pedido de Papa João XXIII – como teólogo consultor do Concílio Vaticano II. Entrou na Comissão teológica e se tornou um personagem chave do Concílio, promovendo a “nova visão de uma ‘Igreja de todo o mundo’, não mais ‘fechada em trincheira’, mas ativa e positivamente aberta ao diálogo com as outras confissões cristãs e com as grandes religiões do mundo; Rahner contribuiu a transportar a teologia católica para o fim da neoescolástica, com a valorização do laicato na Igreja e com a concessão, aos bispos de todo o mundo, de uma maior liberdade de iniciativa dentro da própria Igreja”. [La fatica di credere (A fadiga de crer). 1986.] Criou a revista Concilium.

domingo, 9 de outubro de 2011

A Esposa desperta!

A Bela Adormecida  
de Gnocchi e Palmaro chega a Florença

Fonte: Fides Catholica...


Em 2012 recorrerá o 50º aniversário da abertura do Concílio Ecumênico Vaticano II, Alessandro Gnocchi e Mario Palmaro, dois dos nomes mais conhecidos e lutadores do panorama católico indagam sobre a crise sem precedentes que está atravessando a Igreja contemporânea, revelando a raiz do drama através de uma investigação apaixonante. Da silenciosa apostasia aos problemas morais, a Igreja católica está atravessando uma das crises mais graves de toda a sua história. O que haveria na origem de tal terremoto? Os autores evidenciam uma crise de Fé que se  manifesta em toda a sua força a partir dos anos '60 e que tem seu eixo na complexa estação do Concílio Concilio Vaticano II. Uma análise que causará polêmica, na qual, seguindo estas páginas apaixonadas e prementes, o leitor ascender às fontes do fenômeno até encontrar no banco dos acusados homens e eventos tidos até hoje intocáveis, quase verdadeiro mitos.

Os autores
Alessandro Gnocchi, estudioso das temáticas religiosas na literatura moderna e contemporânea, e Mario Palmaro, filósofo do direito, são dois dos nomes mais conhecidos e mais lutadores do panorama católico. Colaboram com vários jornais, entre os quais «il Foglio», «Libero» e a rivista de apologética «Il Timone». Entre os livros que escreveram juntos: "Cattivi maestri. Inchiesta sui nemici della Verità"; "Cronache da Babele. Viaggio nella crisi della modernità"; "Contro il logorio del laicismo moderno"; "Io speriamo che resto cattolico"; "Giovannino Guareschi: c'era una volta il padre di don Camillo e Peppone"; "Tradizione, il vero volto"; "Rapporto sulla tradizione". Com a editora Vallecchi, sempre na coletânea Avamposti "Viva il Papa!"(2010).

O livro será apresentado em Florença, na Igreja de Todos os Santos, sábado 15 de outubro de 2011, às 18:00. Às 16:30, será rezada a S. Missa em Rito Romano antigo. Para reservar o jantar que seguirá, enviar um e-mail para: ascarus@libero.it.

Análise do livro por Cristina Siccardi
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Ao ler o livro de Alessandro Gnocchi e Mario Palmaro, A Bela adormecida. Porque depois do Vaticano II a Igreja entrou em crise. Porque despertará, editado pela Vallecchi, não se pode não ficar desconcertados e pesarosos ao contatar que a Igreja foi sacudida em seus alicerces até arriscar a profanação de sua sacralidade. Mas a Bela, hoje adormecida, por quem foi insidiada? É ele, o grande inimigo de sempre, vigilante e rugindo, diabólico por essência, Satanás.
O texto explica em maneira linear e fácil de entender a patologia que atingiu a Igreja, fazendo um diagnóstico explicito e pontual. A crise eclesial há décadas que se manifesta, mas todos se calavam e as poucas vozes corajosas eram imediatamente silenciadas, como expoentes de um mundo tradicionalista para perseguir e demolir como algo de perigoso e sectário. Qual justificativa, então, os católicos davam às más chagas da Igreja? «imputava-se a origem de todos os males à não-aplicação do Concilio ou, quanto menos, à diluição de sua carga inovadora: em uma palavra, à traição» (1) e os traidores mais culpados tinha um rosto preciso por causa de sua marca de catolicidade: Monsenhor Marcel Lefebvre, Romano Amerio, padre Cornelio Fabro, dom Divo Barsotti, padre Pio da Pietrelcina…
Todavia, a Verdade é mais forte que a mentira. Gnocchi e Palmaro o demonstram com este compêndio deles que sintetiza, em maneira admirável, às vezes até com tons irônicos, às vezes com acentos graves, o que ocorreu nos últimos tempos: os estudos de grandes personalidades como o teólogo de Santa Romana Igreja, Monsenhor Brunero Gherardini (2), e do professor Roberto de Mattei (3) foram determinantes para romper, finalmente, a calota gélida, uma calota constituída pelo «superdogma» (4) do Concilio Vaticano II, tão compacta e tão dura que parecia infrangível. Mas diante da evidência de uma apostasia generalizada, de uma decadência dos costumes, de uma ignorância religiosa, sobre o abc da doutrina católica, que se tornou irremediavelmente crassa, de uma sede de Fé de crentes insatisfeitos ou, até, angustiados, os porquês e os pontos de interrogação, definitivamente, são não apenas de dever mas dados por certos. As vozes da geração passada que foram escandalosas e por causa das quais cobríamos nossos ouvidos para não ouvi-las foram substituídas providencialmente por aquelas de intelectuais contemporâneos. E, então, como diz dom Massimo Vacchetti: «À vigília dos cinquenta anos da convocação conciliar ocorre superar a estação ideológica que caracterizou seu recebimento, recompor as feridas infligidas nestes anos e devolver ao povo católico aquelas certezas de pensamento e de Fé sobre as quais, somente, é possível caminhar alegres por aquilo que nos espera, agradecidos por aquilo que nos precedeu» (cfr. http://www.libertaepersona.org/dblog/articolo.asp?articolo=2774).


A Igreja, e ninguém pode negá-lo, se secularizou progressivamente, e isto não é, segundo Gnocchi e Palmaro, um problema de interpretação do Concílio Vaticano II, mas um problema intrínseco àqueles documentos que a Assembleia produziu. Afirmou padre Serafino Lanzetta, teólogo dos Franciscanos da Imaculada: «Até pouco tempos atrás, o simples pensamento de poder-se colocar em modo crítico diante do Vaticano II parecia uma cripto-heresia para o manto de silêncio que necessariamente devia reinar, recobrindo-o apenas de louvores […]. O Vaticano II é um problema? Sim, no sentido de que as raízes do estro pós-conciliar não estão apenas no pós-concílio. O
pós-concílio não dá razão de si. Pelo amor à Igreja e pelo futuro da Fé no mundo, precisa examinar a raiz do problema» (5).
 

A se admirar, no cenário intelectual, não são mais os que seguem a chamada Escola de Bolonha, onde se aclama a "benéfica" revolução amadurecida na Igreja graças ao Concilio Vaticano II, mas também a «Baleia Branca eclesial devotada a um conservadorismo enfatuado pelo presente» (6), trata-se de uma leitura neo-centrista segundo a qual as razões da crise da Igreja e, portanto, da Fé, teriam surgido sucessivamente ao Concilio por causa da interpretação revolucionária dos documentos. Portanto, a solução consistiria em separar o Concilio do pós-concílio. Trata-se, em definitivo, de uma posição de compromisso, um escamoteio para enganar, negando a evidência dos fatos. Se escolhe, na prática, a linha do Peppone de Dom Camilo, que, ouvindo as aterradoras narrativas do pároco sobre a Rússia soviética, afirma: «Deixai-nos em paz, prefiro ficar com minha ideia de Rússia, vós ficai com a vossa» (7).
Fenômenos que na Igreja nunca se viram, como a revolta litúrgica ou o ecumenismo, são frutos claro do jacobinismo conciliar. Ambos são devido às exigências protestantizantes: a assembleia, a Palavra e o memorial da ceia no que diz respeito à Missa, excluindo o Santo Sacrifício, enquanto a instância ecumênica nasceu da ação de alguns missionários protestantes do início do Novecentos, os quais promoveram iniciativas de diálogo entre as incontáveis confissões reformadas.
O Vaticano II foi o primeiro Concilio a ser exclusivamente pastoral e não dogmático, desviando a atenção da Fé e de sua ortodoxia, um efeito que reconduz, inevitavelmente, ao clima cultural progressista dos anos Sessenta, quando a ortopráxis tomou o lugar da filosofia autêntica, ou seja, quando nos colocamos questões não mais sobre a existência (Quem chamo? De onde viemos? Para Quem iremos?), mas sobre a contingência vivencial, pessoal e terrena.
Foi assim que muitos, na Igreja, «pensaram que aquele trem, veloz e moderno, não deveria ser perdido: precisava subir nele a todo custo» (8). Um trem que hoje descarrilhou, mas que, na época, ninguém queria perder porque demasiado tentador era o pensamento daqueles teólogos que queriam, como estilista de vanguarda, desenhar e confeccionar uma veste à moda para a Esposa de Cristo, uma veste nova e com ela uma linguagem à la page. Os inovadores eram tão voluntariosos e arrogantes de suas ideias que colocaram em dúvida até mesmo o poder do Papa. Foi assim que adquiriram um poder totalmente extraordinário e doutrinariamente injustificado as Conferências episcopais, que nasceram os conselhos pastorais, as assembleias paroquiais…
O livro de Gnocchi e Palmaro oferece também uma interessante análise sobre o poder que a mídia teve dentro da Assembleia conciliar: foi ela, além dos teólogos modernistas, a ter influência sobre aqueles bispos que não eram nem progressistas, nem fortemente ligados à Tradição. Assim ocorreu que padre Antoine Wenger do «La Croix», Raniero La Valle do «Avvenire d'Italia», Henri Fesquet do «Le Monde», don René Laurentin do «Le Figaro», o redentorista americano Francis X. Murphy do «New Yorker Magazine» e outros tiveram influência nas decisões conciliares. E foi assim que no Concilio não se falou dos problemas e dos erros do mundo (por exemplo, o comunismo, o indiferentismo religioso, a secularização ou o modernismo na Igreja), mas de como a Igreja poderia aproximar os i «distantes», como poderia escancarar a própria porta ao mundo... e a imprudência foi imensa, visto que a fumaça de Satanás (como o definiu Paulo VI em 1972) pôde entrar por ela com toda sua virulência. 

De outro lado, os êxitos do Concilio foram objetivamente vistos pelos vencedores daquela Assembleia conciliar: «De algum modo, contribuímos com a nossa ação precedente também ao êxito do Concilio», deixa escrito o «partisão» (9), Giuseppe Dossetti, «Pôde-se fazer alguma coisa no Concílio em função de uma experiência histórica vivida no mundo político, até mesmo de um ponto de vista técnico de uma assembleia que de alguma forma fez a diferença. Porque no momento decisivo justamente minha experiência com assembleias […] reverteu a sorte do próprio Concilio» (10). Diante dessas declarações não se pode restar indiferentes. Mas foi dai que tomaram a iniciativa personagens como Enzo Bianchi, que fundo a Comunidade de Bose [Itália, NdTª] em 8 de dezembro de 1965, coincidentemente, o dia do encerramento do Concilio. No entanto, a realidade ecumênica de Bose, que ultrapassou as mais róseas esperanças dos primeiros missionários protestantes dos quais falamos, não obstante o amplo sucesso mediático, até hoje não tem nenhum reconhecimento eclesiástico. O fato de que a comunidade do "profeta" Bianchi «não possa ser contemplada com uma estrutura dentro da Igreja significa apenas que a estrutura desta Igreja tem que mudar: demasiado hierárquica, costantiniana, fundada sobre o poder, velha» (11).
O leitor verá desenrolarem-se, página após página, as razões de uma problemática conciliar clara e evidente, tão simples que, se o católico é seriamente intencionado em compreender a realidade dos fatos, não poderá que chegar a uma convicção tão crua quanto amarga: a Igreja foi enganada e, então, como disse Paulo VI, o Papa que viu a desgraça, mas não a parou: «Acreditava-se que depois do Concilio viria uma jornada de sol para a história da Igreja. Veio, ao invés disso, uma jornada de nuvens, de tempestade, de escuridão, de busca, de incerteza» (29 junho 1972). Todavia, a Esposa de Cristo encontrará a força de despertar do longo letargo causado pelo sonífero conciliar e a despertá-la serão os que não usam a Igreja para os próprios fins, sejam esses materiais ou ideológicos, mas os que a amam verdadeiramente, perdidamente, prontos até a perder a si mesmo por Ela.



Cristina Siccardi


Notas
1. A. Gnocchi - M. Palmaro,
A Bela adormecida. Porque depois do Vaticano II a Igreja entrou em crise. Porque despertará, Vallecchi, Florença, 2011, p. 15.
2. B. Ghereradini, Concílio Ecumenico Vaticano II. Um discurso a ser feito, Casa Mariana Editora, Frigento 2009. B. Gherardini, Concilio Vaticano II. O discurso que faltou, Lindau, Torino 2011.
3. R. de Mattei, O Concilio Vaticano II. Uma história nunca escrita, Lindau, Torino 2010.
4. "A verdade é que este particular Concilio [Vaticano II] não definiu dogma algum, e deliberadamente escolheu permanecer em um nível modesto, como um concilio meramente pastoral; no entanto, muitos o consideram quase fosse um super-dogma, que priva de significado todos os outros concílios" (Cardeal Joseph Ratzinger, Santiago do Chile, 1988).
5. A. Gnocchi - M. Palmaro, op. cit., p. 16-17.
6. A. Gnocchi - M. Palmaro, op. cit., p. 20.
7. A. Gnocchi - M. Palmaro, op. cit., pp. 30-31.
8. A. Gnocchi - M. Palmaro, op. cit., p. 57.
9. A. Gnocchi - M. Palmaro, op. cit., p. 109.
10. A. Gnocchi - M. Palmaro, op. cit., p. 110.
11. A. Gnocchi - M. Palmaro, op. cit., pp. 120-121. 



A. Gnocchi - M. Palmaro, A Bela adormecida. Porque depois do Vaticano II a Igreja entrou em crise. Porque despertará, Vallecchi, Florença, 2011, pp. 243, € 12,50.


Fonte: NON POSSUMUS 06/10/11 
Tradução: Giulia d'Amore di Ugento

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