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quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Estada de Jesus no Egito.


Estada de Jesus no Egito


Consugens (Ioseph), accepit puerum et matrem eius nocte, et secessit In Aegyptum – "Levantando-se (José) tomou consigo, ainda de noite, o Menino e sua Mãe, e retirou-se para o Egito" (Matth. 2, 14).

Sumário. Durante a sua estada no Egito, a sagrada Família se nos mostra modelo perfeitíssimo de uma família cristã e de uma comunidade religiosa. Quão bem ordenadas estavam todas as ocupações dessas santas pessoas, quão bem dividido o tempo entre o trabalho e a oração! Com o seu trabalho José ganha o pão para si e para os outros; Maria cuida principalmente de seu Filho; e Jesus começa a prestar a seus pais os primeiros leves serviços. Lancemos um olhar sobre nós mesmos e examinemos como temos imitado esses grandes modelos.

I. Jesus quis passar a sua infância no Egito, a fim de levar uma vida mais dura e desprezada. Segundo a opinião de Santo Anselmo e de outros escritores, a sagrada Família morou em Heliópolis. Contemplemos, com São Boaventura, a vida que Jesus levou no Egito, durante os sete anos que, conforme à revelação feita a Santa Maria Madalena de Pazzi, ali passou. A casa é muito pobre, porque São José só pode pagar um aluguel muito baixo; pobre é a cama, pobre a alimentação, pobre, em uma palavra, é toda a sua vida, porque, com o trabalho de suas mãos, só conseguem ganhar o necessário de dia em dia, e vivem num país onde são desconhecidos e desprezados, sem parentes nem amigos.

A sagrada Família vive, pois, em grande pobreza, mas como são bem ordenadas as ocupações desses três moradores! O santo Menino não fala com a boca, mas fala continuamente e eloquentemente com o coração a seu Pai celestial, oferendo-Lhe todos os seus padecimentos e todos os instantes de sua vida para nossa salvação. Maria tampouco fala, mas, vendo o seu caro Filhinho, contempla o amor divino e a graça que lhe fez escolhendo-a para sua Mãe. José trabalha igualmente em silêncio, mas vendo o divino Menino agradece-Lhe por tê-lo escolhido para companheiro e guarda de sua vida.

Foi naquela casa que Maria desabituou o menino Jesus de alimentar-se só com o leite e começou a alimentá-Lo com suas próprias mãos. Põe o Filho no colo, toma da tigelinha um pouco de pão amolecido em água e põe-Lho na sagrada boca. Naquela casa faz Maria para seu Filhinho o primeiro vestido, e chegado o tempo de lhe tirar as faixas, começa a vesti-lo. Naquela mesma casa ainda começa Jesus a dar os primeiros passos e a falar. Começa ali a fazer o ofício de aprendiz, ocupando-se com os pequenos serviços que pode prestar uma criança.

Ó desmame! Ó vestidinho! Ó primeiros passos! Ó palavras balbuciadas! Ó pequenos serviços de Jesus Menino! Vós demasiadamente feris e abrasais os corações daqueles que amam Jesus e vos contemplam! Um Deus a andar vacilando e caindo! Um Deus a balbuciar! Um Deus feito tão débil, que não pode ocupar-se senão em pequenas coisinhas de casa, que não pode levantar um pão cujo peso excede as forças de uma criança. Ó santa fé, ilumina-nos a fim de que amemos um Senhor tão bom, que por nosso amor se sujeitou a tantas misérias.

II. Dizem que, quando Jesus entrou no Egito, caíram por terra todos os ídolos daquele povo. Roguemos a Deus que nos faça amar Jesus de todo o coração, porque, quando o amor de Jesus entra numa alma, caem todos os ídolos de afetos terrestres.

Ó Menino santo, que viveis nessa terra de bárbaros, pobre, desconhecido e desprezado, eu Vos reconheço por meu Deus e Salvador, e Vos dou graças por todas as humilhações e dores que sofrestes no Egito por meu amor. Com essa vossa vida ensinastes-me a viver como peregrino nesta terra, fazendo-me compreender que a minha pátria não é este mundo, senão o paraíso, que Vós viestes adquirir-me com a vossa morte. Ah, Jesus meu! Tenho pensado no que fizestes e padecestes por meu amor. Quando me lembro que Vós, ó Filho de Deus, tivestes nesta terra uma vida tão atribulada, pobre e desprezada, como é possível que eu ande à procura de prazeres e bens terrestres?

Ó meu amado Redentor, permiti que me associe convosco, admiti-me a viver nesta terra sempre unido a Vós para que unido a Vós chegue um dia a amar-Vos no céu, gozando de vossa companhia para sempre. Dai-me luz, aumentai a minha fé. Que bens e prazeres! Que dignidades e honras! Tudo é vaidade e loucura. A única riqueza, o único bem é possuir-Vos, ó meu Jesus, e a ninguém quero senão a Vós. Vós me quereis e eu Vos quero. Se possuísse mil reinos, renunciá-los-ia todos para Vos dar gosto: Deus meus et omnia – "Meu Deus e meu tudo!" Se em outros tempos corri atrás das vaidades e prazeres do mundo, agora detesto-os e estou arrependido. Meu Salvador amado, de hoje em diante, Vós sereis o meu único Bem, o meu único Amor, o meu único Tesouro. Maria Santíssima, rogai a Jesus por mim; rogai-lhe que me faça rico de seu amor, e nada mais desejo. (II 388.)

sábado, 1 de abril de 2017

SOLIDÃO DO COMBATE DA FÉ

Aleluia! Finalmente o Gnocchi chegou lá. Que ele é um dos meus escritores preferidos, junto com o finado Mario Palmari, os meus leitores já sabem (veja a tag), mas eu havia parado de ler o que escreviam, mais ou menos quando Palmari faleceu, porque eles estavam “quase lá”, e eu já estava cansada dos “quase lá”, como eles, o Socci e o Mastino, por exemplo. Quem ainda está sub CVII ou crê que Bento XVI é tradicionalista... me dá nos nervos e ponho de lado mesmo, com toda a genialidade que possam indiscutivelmente ter. Mas Gnocchi reacende minhas esperanças, e quiçá Socci e os demais também possam alcançar essa clareza e tomada de posição que vejo, agora, neste texto, que assino embaixo como se meu fosse. Contudo... ainda sinto um cheiro de respeitos humanos em suas palavras. Aceitável, porque a conversão pode ser assim mesmo, aos poucos, ainda que seja desejável que fosse de um sopetão, como tive oportunidade de testemunhar algumas poucas vezes: uma mudada de rota definitiva e instantânea. Sobretudo em se tratando de um formador de opinião. E isso também é uma atividade solitária

Não sei se é porque sempre fui autossuficiente, desde menina; nunca precisei “do outro”, de grupos, de estar com a maioria; sempre fui “eu & Deus” – o que me parece hoje uma grande e bela graça, pois sempre me soou como um defeito meu, o de não precisar pertencer – mas o fato é que a perspectiva de ficar só nesse mundo, sem sacramentos, já não me preocupa há algum tempo. Bom, só para registro: quando falo “só” não me refiro à minha família, meu marido e minha filha, mas em sentido maior. Preciso desenhar? 

E é verdade que, desde que redescobri a Tradição, e percebi que estava de volta à Casa Paterna, passei a ter a boa sensação de não estar mais só, de pertencer a algo. Mas, graças ao estudo da doutrina e a uma boa orientação por parte do meu diretor espiritual, hoje não tenho mais medo (Lucas 12,7) de estar só, de não ter os Sacramentos, de vivenciar a experiência japonesa de quase 3 séculos sem padres e, portanto, sem Missa e sem Sacramento. Minh'alma custou o Sangue de um Deus bom, e não vou expô-la a riscos em missas juramentadas – ou em vias de – ao CVII só “porque sou pecador e preciso dos Sacramentos”, como ouço muito por aí, e que é de uma arrogância sem par! Eu não. Eu me confio nas mãos de Deus e aceito de bom grado tudo que Ele me mandar, inclusive o castigo que o mundo merece. Ainda que ele me mate, nele esperarei, dizia o bom Jó (13,15). 

I - Ir à missa “em latim” de qualquer sacerdote que está sub (ou em vias de) Concílio Vaticano II, mesmo que ele o critique de manhã, de tarde e de noite, é ir a uma missa juramentada. A mesma dos tempos da revolução maçônica francesa. 

II - ir à missa juramentada “pelos sacramentos” mostra falta de catecismo e de confiança em Deus. 

Raça de víboras. Homens de pouca fé. Não tenhais medo! Deus dá as graças. 

 


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SOLIDÃO DO COMBATE DA FÉ




 

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Pode-se transigir em religião?

Gustavo Corção

Pode-se transigir em religião?


O tema que me foi dado, nesta série de conferências, é o da transigência ou dos limites de tolerância em matéria religiosa. Antes porém de aplicá-lo à religião, creio que será útil esclarecer o próprio conceito de tolerância ou transigência, porque, pelo que tenho ouvido, muita gente atribui a esses vocábulos um sentido absoluto e simplificado. A maioria das pessoas, ou melhor, a maioria dos brasileiros, considera a tolerância uma virtude moral, e às vezes a maior das virtudes. Diz-se que Fulano de Tal é tolerante, em tom de elogio, como se diz de outro que é honesto, justo ou temperante. E acusa-se Cicrano de intolerante em tom repreensivo, como se diz de alguém que é injusto ou desonesto. 

Há outra raça de gente que inverte o tom daquelas proposições, e que vêem a virtude na intolerância. Para começar devo dizer — e nisto conto com a simpatia dos ouvintes — que não simpatizo de modo algum com o intolerante absoluto. Acho-o desagradável e enfatuado. Digo melhor: acho que esse tipo de intolerante é intolerável. Mas sou forçado a acrescentar — e nisto certamente desagradarei a muitos ouvintes — que o tolerante sistemático não é menos errado do que o outro, embora seja mais simpático. Diria até que é simpático demais. E em certas circunstâncias, quando por exemplo reclama a intransigência de alguém, o tolerante é incoerente com seu credo, porque, sendo intolerante em tudo, deveria tolerar também a intolerância; e se não tolera é porque sabe que nem tudo se tolera, e por conseguinte em alguma coisa é intolerante.

É preciso, pois, estabelecer que aqueles termos têm valor moral relativo e que ora designam virtude ora vício. A dificuldade em que se encontra o homem de reto agir é a de distinguir bem o caso em que se aplica a transigência e o caso em que se obriga a intransigência. A educação da prudência ou do senso moral consiste precisamente na fina discriminação da atitude que se deve tomar diante da atitude dos outros; ou, no caso vertente, consiste no discernimento da reação diante do erro dos outros. Que fazer ou que dizer quando esbarramos no erro alheio? Corrigir? Nem sempre é recomendável. Silenciar? Nem sempre é generoso.

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