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| Gustavo Corção |
Pode-se transigir em religião?
O
tema que me foi dado, nesta série de conferências, é o da transigência
ou dos limites de tolerância em matéria religiosa. Antes porém de
aplicá-lo à religião, creio que será útil esclarecer o próprio conceito
de tolerância ou transigência, porque, pelo que tenho ouvido, muita
gente atribui a esses vocábulos um sentido absoluto e simplificado. A
maioria das pessoas, ou melhor, a maioria dos brasileiros, considera a
tolerância uma virtude moral, e às vezes a maior das virtudes. Diz-se
que Fulano de Tal é tolerante, em tom de elogio, como se diz de outro
que é honesto, justo ou temperante. E acusa-se Cicrano de intolerante em
tom repreensivo, como se diz de alguém que é injusto ou desonesto.
Há
outra raça de gente que inverte o tom daquelas proposições, e que vêem a
virtude na intolerância. Para começar devo dizer — e nisto conto com a
simpatia dos ouvintes — que não simpatizo de modo algum com o
intolerante absoluto. Acho-o desagradável e enfatuado. Digo melhor: acho
que esse tipo de intolerante é intolerável. Mas sou forçado a
acrescentar — e nisto certamente desagradarei a muitos ouvintes — que o
tolerante sistemático não é menos errado do que o outro, embora seja
mais simpático. Diria até que é simpático demais. E em certas
circunstâncias, quando por exemplo reclama a intransigência de alguém, o
tolerante é incoerente com seu credo, porque, sendo intolerante em
tudo, deveria tolerar também a intolerância; e se não tolera é porque
sabe que nem tudo se tolera, e por conseguinte em alguma coisa é
intolerante.
É
preciso, pois, estabelecer que aqueles termos têm valor moral relativo e
que ora designam virtude ora vício. A dificuldade em que se encontra o
homem de reto agir é a de distinguir bem o caso em que se aplica a
transigência e o caso em que se obriga a intransigência. A educação da
prudência ou do senso moral consiste precisamente na fina discriminação
da atitude que se deve tomar diante da atitude dos outros; ou, no caso
vertente, consiste no discernimento da reação diante do erro dos outros.
Que fazer ou que dizer quando esbarramos no erro alheio? Corrigir? Nem
sempre é recomendável. Silenciar? Nem sempre é generoso.