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sexta-feira, 4 de março de 2016

Diferença entre as amizades vãs e as verdadeiras

"Vou te ensinar agora um aviso importantíssimo e uma regra geral. O mel de Heracléia, de que já falei, e que é um veneno muito destrutivo, assemelha-se muito ao mel ordinário, que é tão saudável, e há grande perigo de tomar um pelo outro ou de tomar uma mistura de ambos, porque a utilidade de um não impede a malignidade do outro. Também quanto às amizades é preciso muito cuidado, para não nos enganarmos, principalmente tratando-se de uma pessoa de sexo diverso, por melhores que sejam os princípios que nos unam a ela; pois o demônio tapa os olhos aos que se amam.

Começa-se por um amor virtuoso; mas, se não se tomarem precauções prudentes, o amor frívolo se vai misturando e depois vem o amor sensual e por fim o amor carnal. Sim, mesmo no amor espiritual não se está livre do perigo, se não se sabe premunir-se de desconfiança e vigilância, conquanto o engano aqui não seja tão fácil, porque a inocência perfeita do coração descobre imediatamente tudo o que se pode ajuntar aí de impuro, assim como as manchas aparecem muito mais sobre o branco.


Eis aí a razão porque, quando demônio quer corromper um amor todo espiritual, o faz com mais astúcia, tentando ver se pode sugerir primeiro algumas disposições menos favoráveis à pureza.

Para discernires bem entre a amizade santa e a amizade mundana, grava na memória as regras seguintes:


O mel de Heracléia é mais doce à língua que o mel vulgar, porque as abelhas o vão colher no acônito, que lhe dá esta doçura extraordinária, e a amizade mundana traz uma influência de palavras doces, langorosas, apaixonadas e cheias de adulação pela beleza, graça, e vã qualidades físicas. Mas a amizade santa tem uma linguagem simples, singela e sincera e só louva as virtudes e dons de Deus, único fundamento em que se apóia.

Quem comeu do mel maligno sente umas tonteiras de cabeça e muitas vertigens e a amizade falsa causa um desvio e desvairamento de espírito que faz titubear a pessoa na castidade e na devoção, levando a olhares afetados, lânguidos e imoderados, a carícias sensuais, a suspiros desordenados, a pequenas queixas de não ser correspondida, a certas meiguices levianas, afetadas e repetidas, a galantarias e beijos e a outras particularidades e fervores inconvenientes, presságios certos e infalíveis de iminente ruína da honestidade. Mas a amizade santa só tem olhos para o pudor, demonstrações para a pureza e sinceridade, suspiros para o céu, liberdade para o espiritual e queixas pelos interesses de Deus, que não é amado: sinais infalíveis de uma honestidade perfeita.

O mel de Heracléia ofusca a vista e a amizade vã ofusca tão fortemente, que já não se pode distinguir entre o bem e o mal, aceitando-se como verdadeiras razões os pretextos menos fundamentados, teme-se a luz e amam-se as trevas. Mas a amizade santa tem olhos clarividentes, não se esconde e gosta mesmo de mostrar-se às pessoas de bem.

[...] Por último, o mel envenenado deixa um grande amargor na boca. Da mesma sorte, as falsas amizades convertem-se e rematam em palavras e pedidos carnais e torpes; ou no caso da negativa, em injúrias, calúnias, imposturas, tristezas, confusões e ciúmes, que bem depressa vão parar em brutalidades e desvarios. Mas a amizade casta é sempre igualmente honesta, cortês e amigável. Nunca se converte senão numa união de espíritos mais perfeita e mais pura, imagem viva da amizade bem-aventurada que se pratica no céu.

S. Gregório Nazianzeno diz que o pavão, gritando quando faz sua roda, excita sobremaneira as fêmeas que o escutam. Quando vemos um homem pavonear-se, enfeitar-se, e vir assim dizer chocarrices, chistes e palavras doces aos ouvidos duma mulher ou duma moça sem intenção de justo matrimônio, ah! sem dúvida que não é senão para a arrastar a alguma desonestidade. A mulher séria e honrada tapará os ouvidos para não ouvir os gritos desse pavão e a voz do encantador, que a quer enfeitiçar e prender com finezas. E se ela der ouvidos, ó meu Deus, que mau prenúncio da futura perda de sua alma! Os jovens que fazem gestos, carícias e dizem palavras em que não gostariam de ser surpreendidos por seus pais, mães, maridos, esposas ou confessores, mostram com isso que tratam de coisa alheia à honra e à consciência. Nossa Senhora perturbou-se vendo um anjo em forma humana, porque estava só e ele lhe tecia elogios sublimados, embora celestiais. Ó Salvador do mundo, a pureza teme a um anjo em forma humana, e porque não há de a impureza temer um homem, ainda que lhe apareça em figura de anjo, quando a louva com louvores sensuais e humanos?

E se já estás presa nas redes destes amores loucos, oh! Deus, como te será difícil soltares-te! Põe-te diante da sua divina Majestade, reconhece na sua presença a enormidade da tua miséria, a tua fraqueza e vaidade; depois, com o maior esforço de coração que te for possível, detesta estes amores começados, abjura a vã profissão que deles fizeste, renuncia a todas as promessas recebidas e, com um grande e mui decidida vontade, põe prazo ao teu coração, e resolve nunca mais entrar nestes jogos e diversões de amor.

Se te podes afastar do objeto deles, sem restrições o aprovo; porque, como os que foram mordidos pelas serpentes não podem facilmente sarar na presença dos que noutra ocasião foram feridos pela mesma mordedura; assim também a pessoa que está picada do amor dificilmente sarará desta paixão, enquanto estiver perto da outra que tiver sido atingida pela mesma picadura. A mudança de lugar serve sobremaneira para abrandar os ardores e inquietações, quer da dor, quer do amor. O mancebo de quem fala Santo Ambrósio no segundo livro da Penitência, tendo feito uma longa viagem, tornou-se em absoluto liberto dos loucos amores a que se entregava, e ficou de tal sorte mudado, que a louca namorada, encontando-o, e dizendo-lhe: não me conheces? eu sou a mesma, — ele respondeu: sim, mas eu não sou o mesmo. A ausência tinha operado nele esta feliz mudança. E Santo Agostinho testifica que, para mitigar a dor que teve com a morte do seu amigo, se retirou de Tagaste, onde ele morrera, e foi para Cartago.

Mas quem não pode afastar-se, que deve fazer? É preciso a todo custo cortar por toda a conversa particular, por todo entretimento secreto, por toda meiguice e requebro no olhar, por todos os sorrisos, e em geral por toda a espécie de comunicações e incentivos, que podem alimentar este fogo que tão mau cheiro exala e tanto fumo despende. O quando muito, se é forçoso falar ao cúmplice, que seja apenas para declarar, por uma audaciosa, curta e severa protestação, o eterno divórcio que se jurou. Eu grito bem alto a todos os que caíram nestes laços dos namoros: cortai, despedaçai, quebrai; é preciso não perder tempo e descoser estas amizades loucas, é preciso rasgá-las e despedaçá-las; não se há de desatar os nós, é preciso parti-los ou cortá-los, pois afinal de contas esses cordões e ligaduras para nada servem. Não há razão para fazer caso de um amor que é tão contrário ao amor de Deus.

– Mas depois de eu ter assim quebrado os grilhões desta infame escravidão, ainda me ficará dela algum sentimento e saudade, e as marcas e os sinais dos ferros ainda ficarão gravados em meus pés, isto é, nas minhas afeições. — Não o farão, se conceberes tamanho ódio e aversão pelo mal, como ele merece: porque, se isto for assim, nunca mais serás agitada por nenhum movimento, afora o de um extremo horror por este amor infame e por tudo o que dele depende; e ficarás livre de toda afeição pelo objeto abandonado, e só com uma caridade puríssima para com Deus; mas, se pela imperfeição do teu arrependimento te ficam ainda algumas inclinações más, procura para a tua alma uma solidão mental, conforme mais acima te indiquei, e acolhe-te a ela o mais que possas, e por meio de repetidas aspirações renuncia a todas as tuas inclinações: detesta-as com todas as tuas forças; lê, com mais frequência do que costumas, livros de devoção, confessa-te mais amiúde do que é teu costume, e comunga; trata humilde e francamente de todas as sugestões e tentações, que neste ponto te saltearem, com teu Diretor, e senão, ao menos com alguma alma fiel e prudente, e não duvides de que Deus te livrará de todas as paixões, contanto que perseveres fielmente nestes exercícios.

Ah! me dirás tu, mas não será ingratidão romper tão desapiedadamente com uma amizade? Oh! que ditosa é a ingratidão que nos torna agradáveis a Deus! Não, podes crer-me, não será ingratidão, será até um grande benefício que farás ao amante; porque, quebrando as tuas cadeias, quebrarás as suas, pois vos eram comuns e, embora ele por enquanto não fique ciente e inteirado da sua felicidade, há de reconhecê-la sem muita tardança e convosco cantará em ação de graças: Ó Senhor! vós quebrastes as minhas cadeias, eu vos sacrificarei a hóstia de louvor, e invocarei o vosso santo nome".

São Franscisco de Sales - Filoteia -  Introdução à Vida devota. 


  

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