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quarta-feira, 26 de março de 2014

Meditaçõe do Pe. Bernardes sobre as Dores da Virgem Maria ao pé da Cruz - IV

Da cruel espada de angústia que transpassou o coração da Virgem ao pé da Cruz e em sua solidão



MAGNA EST VELUT MARE CONTRITIO TUA.
(Lm 2, 13)

A espaçosa e profunda vastidão do mar Oceano, quem a pode medir ou avaliar, ainda que em partes o navegasse ou visse superficialmente? Assim também a grandeza e acerbidade das penas e angústias que atormentaram o piedosíssimo coração da Virgem Santíssima na Sagrada Paixão e Morte de seu Bendito Filho e nosso Salvador JESUS Cristo, são maiores que toda a explicação e conceito que deste objeto podem formar pessoas ainda muito espirituais e ilustradas. Não deve todavia ser isto causa para deixarmos de meditar e ponderar estas penas, desse curto e diminuto modo que alcançamos: assim porque a dignidade da matéria merece ao menos este ínfimo grão do nosso agradecimento, como pelo muito que a Deus e à Virgem é agradável, e a nós proveitosa esta devota memória. E porque o saber qualquer fiel sentir alguma parte destas penas é especial graça de Deus: implorando esta primeiro com humildes e fervorosos desejos, podemos ir discorrendo pelos seguintes princípios.


Meditação IV


 
Ultimamente considera a solidão profundíssima da Virgem Mãe, quando deixando sepultado o Corpo de seu diletíssimo Filho, e Filho que era juntamente pai e esposo da sua alma, se retirou a acompanhar-se só com as dolorosíssimas memórias de sua Paixão sagrada. Então se cumpriu aquele lamento de Jeremias (Jr 1): Lapsa est in lacum vita mea, et posuerunt lapidem super me - Caiu no lago a minha vida, e puseram uma campa sobre mim. Lago, nas divinas letras, também significa sepulcro, conforme aquilo do Salmo (Sl 8): Aestimatus sum com descendentibus in lacum. E neste lago, caindo a vida de Cristo (como se fora qualquer das outras vidas mortais de quem diz outra Escritura: Omnes morimur et quasi aqua dilabimur in terram) caiu juntamente a vida da Senhora, pois Cristo era a sua vida. E sendo posta no Corpo do Senhor uma grande pedra, também outra grande pedra foi posta sobre o coração da Virgem, que foi sob a solidão encerrada no retiro: Posuerunt lapidem super me - pedra verdadeiramente pesadíssima e duríssima pela gravidade de seu pezar; e que lhe não faltaram nem o selo do silêncio inviolável nem as guardas do desvelo contínuo. Tendo os Monges de Claraval estendido sobre uma pedra o corpo defundo de seu Patriarca S. Bernardo, imprimiu-se nela a sua sombra de tal modo, que, dizem, ainda hoje se vê manifestamente; e que procurando os hereges apagar este milagre, cavaram a pedra, mas a sombra ficava sempre mais abaixo. Na pedra, que a virgem na sua solidão tinha posta sobre o coração, estava gravada a sombra ou memória da Paixão e morte de Cristo. Cava tu, alma minha, com a consideração, não porque a possas nem devas apagar; senão para que mais apareça quem altamente ficou gravada.

Recordava esta saudosa e divina solitária (e recorda tu com ela juntamente) uma por uma as circunstâncias que teve a sagrada Paixão e Morte de Cristo, e as fazia suas próprias pelo amor e sentimento que ficou sempre vivo. Padeceu o bom JESUS entregue aleivosamente por um discípulo e negado por outro, e desamparado de todos; e isto havendo acabado de lhes lavar os pés e entregar seu Corpo e Sangue verdadeiro no Sacramento. Padeceu o bom JESUS, não violentado contra sua vontade, mas por puro amor e vontade livre, leal, constante, desinteressada. E padeceu morte não só cruel, mas afrontosa; não só afrontosa, mas pública, e em véspera da Páscoa, e reputado por malfeitor, por blasfemo, por hipócrita e por inimigo da paz pública e amotinador do povo. E padeceu como mais digno da morte que os homicidas, o que ressuscitava os mortos; e como mais merecedor de açoites que os escravos, o que deu liberdade aos que o éramos do demônio.

Recordavam a Virgem piedosa como foi provado o seu JESUS, que no livro da vida eterna escreve todos os escolhidos, e reprovado pelo seu povo, a quem amara, e honrara, e doutrinara, enchera de benefícios; e concorrendo para esta sentença iniquíssima, os Pontífices, os Reis, os Magistrados, os Sacerdotes, os Letrados, os mais velhos, os soldados, a gente vulgar e plebéia.

Recordava também como padeceu irrisões, e bofetadas, e testemunhos falsos, e mofas, e apupadas, e tormentos, em tanto número, de tantos modos, com tal pressa, com tanta fúria, como se chovessem balas ao bater alguma muralha inimiga, ou como se temessem que a vida do Senhor fugindo-lhes antes de examinada em todas as questões da sua crueldade, era culpa de que daria má conta; porém, aparelhada estava a caridade e paciência do Cordeiro de Deus para tolerar muito mais por qualquer alma, se para salvar-se fosse necessário, e para fazer mais copiosa a nossa redenção, mais empenhado e provocado o nosso amor, e mui destruída a potência de nossos tentadores.

Tinha a piedosa Virgem estampada vivamente em seu coração a dolorosa memória de algumas circunstâncias de crueldades com que os inimigos do Senhor exercitaram sua mansidão admirável; e foram depois reveladas a S. Brígida, e a outras almas devotas e contemplativas. Tal foi a invenção dos ganchos ou revites, com que estavam rematados os cordéis com que foi açoitado, que, ao retrair o açoite, deixavam sulco em sua delicada carne. O sair do Senhor deste tormento da coluna tão ensopado de sangue, que se conheciam distintas pelo rastro dele suas pegadas. O comprimir o Senhor as pestanas para escorrer o sangue que lhe encobria a vista dos olhos. O não deixarem os algozes acabar-se de vestir, quando ao sair da coluna, o obrigaram a andar, e o Senhor juntamente ia vestindo as mangas da túnica inconsútil. O limpar-se o Senhor com a mesma túnica, do sangue que lhe entrava pelos ouvidos. O revoltarem a Cruz para a terra depois de estar o Senhor já pregado nela, para revirarem as pontas dos cravos. O deixá-la cair de salto na cova, onde lhe firmaram o pé e a arvoraram ao alto. O valerem-se para este arvorar a Cruz, das lanças e contos, metendo-os pelos sovacos dos braços. O ser a última lançada tão penetrante que chegou até as costas. Todas estas eram como sonoras vozes que formavam lastimoso eco no solitário vale do coração da Virgem, e o devem fazer no teu, se a queres acompanhar meditando seriamente estas mesmas memórias, que tanto proveito deixam na alma.

Porém, entre todas estas dolorosíssimas memórias, as que mais lhe transpassavam o coração, e o fazia sair líquido pelos olhos em continuas lágrimas, parece foram estas três. Primeira, quando o Senhor desde a Cruz se despediu dela dizendo-lhe: Mulher, eis o teu filho, Mulier ecce filius tuus, e substituindo em seu lugar o discípulo. O commutationem! (exclama neste lugar S. Bernardo) Joanes tibi pro JESU traditur, servus pro domino, discipulus pro magistro, filius Zebedaei pro Filio Dei, homo purus pro Deo vero! Ó troca! Dasse-vos a João por Jesus, ao servo pelo Senhor, ao discípulo pelo Mestre, ao filho de Zebedeu pelo Filho de Deus, ao homem puro por um Deus verdadeiro. Quomodo non tuam affectuosissimam animam pertransiret haec auditio, quando et nostra licet saxea, licet ferrea pectora, sola recordatio scindit? Como não transpassaria vossa alma afetuosíssima ouvir isto, quando só o recordá-lo basta para romper ainda peitos de pedernal ou de ferro?

Segunda, quando o viu dar o último arranco, e, inclinada a cabeça, espirar entregando a mais preciosa vida às mãos da mais afrontosa e cruel morte. Terceira, quando deposto da Cruz, e assentada a Virgem ao pé dela, lho entregaram nos braços, e contemplou de mais perto aquele estrago de penas, espetáculo de horrores, e mar de mistérios. Quem poderia aqui (se souber contemplar este passo) deixar, ou de perigar na vida, ou ao menos de suspender-se em pasmo? A B. Batista Varona, Religiosa Menor, sendo-lhe mostrado em espírito, ficou tal que por espaço de quinze dias contínuos parecia haver saído de uma sepultura, sem forças, sem cores, sem fala, desfalecida, palida e quase muda.

De toda a sobredita Meditação colhe, e recapacita os seguintes frutos, não te esquecendo de ir fiada na graça de Deus, que é só quem pode converter e reformar o coração humano; e de que a ciência do espírito é especulativa, senão prática, e por isso se faltamos ao exercício das suas lições, nunca se aprende.

Primeiro, louvar a Deus que tão compassiva e poderosa Mãe de misericórdia foi servido dar-nos em MARIA Santíssima.

Segundo, agradecer a esta soberana Senhora o haver suprido por nós perfeitamente o espírito de compaixão, de graças e oferecimento que devíamos à Paixão de seu Bendito Filho.

Terceiro, aborrecer de todo coração o pecado e o amor carnal e mundano, que deram causa às penas de Cristo e da Virgem, e malogram os seus frutos.

Quarto, amar o retiro e silêncio, e meditação na Paixão do Senhor, que geram o seguro e sólido espírito de oração e mortificação.

Quinto, observar geral caridade com todos os próximos ainda inimigos, e perseguidores; e particularmente consolar os tristes e atribulados..

Pe. Manuel Bernardes


CONTINUA...

Meditação I - dia 05/03/2014
Meditação II - dia 12/03/2014
Meditação III - dia 19/03/2014
Meditação IV - dia 26/03/2014
Exemplos - dia  02/04/2014

Fonte: http://www.permanencia.org.br/drupal/node/1286

Obras do Pe. Bernardes no Estante Virtual: aqui e aqui. Clique na tag Pe. Manuel Bernardes, depois do texto, e veja o que mais o Pale Ideas publicou deste piedoso Sacerdote.

Padre Manuel Bernardes (1644-1710) professou em 1674 na Congregação do Oratório de S. Filipe de Néri. Escreveu diversos tratados de espiritualidade e vários guias morais, como Exercícios Espirituais (1686), Luz e Calor (1696) e Pão Partido em Pequeninos (1696); dois volumes de Sermões e Práticas (1711) e a Nova Floresta ou Silva de Vários Apotegmas em cinco volumes publicados entre 1706 e 1728. Esta última obra é uma coleção de «ditos bons e sentenciosos de varões ilustres» que apresenta por ordem alfabética o comentário a um pecado ou virtude. O autor não chegou a ir além da letra J e da virtude «Justiça», pois falecera entretanto.

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