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quarta-feira, 12 de março de 2014

Meditaçõe do Pe. Bernardes sobre as Dores da Virgem Maria ao pé da Cruz - II

Da cruel espada de angústia que transpassou o coração da Virgem ao pé da Cruz e em sua solidão



MAGNA EST VELUT MARE CONTRITIO TUA.
(Lm 2, 13)

A espaçosa e profunda vastidão do mar Oceano, quem a pode medir ou avaliar, ainda que em partes o navegasse ou visse superficialmente? Assim também a grandeza e acerbidade das penas e angústias que atormentaram o piedosíssimo coração da Virgem Santíssima na Sagrada Paixão e Morte de seu Bendito Filho e nosso Salvador JESUS Cristo, são maiores que toda a explicação e conceito que deste objeto podem formar pessoas ainda muito espirituais e ilustradas. Não deve todavia ser isto causa para deixarmos de meditar e ponderar estas penas, desse curto e diminuto modo que alcançamos: assim porque a dignidade da matéria merece ao menos este ínfimo grão do nosso agradecimento, como pelo muito que a Deus e à Virgem é agradável, e a nós proveitosa esta devota memória. E porque o saber qualquer fiel sentir alguma parte destas penas é especial graça de Deus: implorando esta primeiro com humildes e fervorosos desejos, podemos ir discorrendo pelos seguintes princípios.

Meditação II

 

Outro princípio, pelo qual se pode formar algum conceito do excessivo das penas desta angustiada Mãe, é considerando o altíssimo e perfeitíssimo conhecimento que a Senhora tinha presente da infinita dignidade de seu Filho JESUS Cristo, a quem via desonrado, afrontado e crucificado. Porque acrescenta mais no seu trabalho, quem acrescenta na ciência (Ecle 1, 18): Quis addit scientiam, addit et laborem. De sorte que quando a Virgem Mãe via seu Bendito filho pendente da Cruz entre dois malfeitores, não perdia de vista que este Senhor era o mesmo que no Empíreo reina entre duas Pessoas Divinas; e quando cuspido e esbofeteado seu rosto, tinha presente como nesse mesmo rosto se espelham e são glorificados os Anjos; e assim dos mais tormentos e opróbrios da Paixão do Senhor. Por onde, assim como só a Senhora entre todas as criaturas capazes de sentimento sabia penetrar o abismo da excelentíssima e sempre adorável dignidade de Cristo, só ela por conseguinte podia dar fundo ao sensível e custoso de suas penas e afrontas. E todo aquele cálice de amarguíssima mirra que o Senhor não foi servido beber materialmente (Mc 15, 23): Dabant ei bibere myrrhatum vinum, et non accepit, esgotou a Virgem espiritualmente e lhe repassou toda sua alma. Ai, inocentíssima Virgem! Ai, afligida Mãe! Por isso eu, miserável pecador, não sinto em mim, nem em meus próximos, as ofensas de Deus, porque estou muito longe do conhecimento de que coisa é Deus? E se quem acrescenta a ciência, acrescenta o trabalho; quem, como eu, acrescentava a estultícia, e dobrava a cegueira, que lhe havia de suceder, senão perder o sentimento do mal que fazia, e cauterizar a minha consciência, endurecendo-me aos remorsos dela! Ó, se um pecador dos que o mundo chama honrados, e nele estimam tanto qualquer pontinho de sua vã e triste honrinha, soubesse quem é Deus, a quem tão de assento e tão sem susto nem reparo se põem a desonrar, e a pisar a sua lei, antepondo-lhe a do seu apetite, é certo que enlouquecera, ou rebentara de dor! E pecamos tão facilmente, e com tal repetição, porfia, ingratidão e impudência pecamos? É que perdemos a dor, porque nos sumimos na ignorância, e os pecados, que nos distanciaram do conhecimento de Deus, nos levaram também o pesar deles.

A este claro conhecimento que a Virgem Mãe tinha da dignidade de Cristo, se ajuntava outro particular que tinha dos corações danados e intenções malignas de seus perseguidores. Porque da Senhora se verificou o que o Profeta Evangélico dissera de seu Bendito Filho (Is 11, 38): Tu Domine demonstrasti mihi et cognovi, tunc ostendisti mihi studia eorum. De sorte que via a Senhora alongar no madeiro da Cruz os furos para os cravos; e juntamente entendia que isto se fazia de propósito, para que os braços do Senhor à pura violência fossem obrigados a chegar aos tais furos. Via que crucificavam ao Senhor com um pé sobre o outro; e conhecia que intentavam nisto seus inimigos multiplicar as marteladas do segundo, pois o pregavam não só na Cruz, mas também no primeiro; e com tanto maior rasgadura quanto o cravo, para abranger a ambos os pés, metia maior grossura. Via que ao despirem o Senhor para os açoites, lhe tiravam a túnica, sem lhe tirarem primeiro a coroa de espinhos; e conhecia que era para que a mesma túnica levasse consigo a coroa e lha tornassem a cravar com feridas novas. Via que alugavam o Cirineu para levar a Cruz no restante do caminho até o Calvário; e penetrava como aqueles lobos carniceiros sôfregos da matança do inocentíssimo Cordeiro receavam que lhes espirasse no caminho, e ficassem perdendo o saboroso bocado de o crucificarem vivo. Via que suposto que aqueles verdugos estavam conhecendo a sua aflição ao pé da Cruz, no desfigurado do seu rosto e no contínuo de suas lágrimas, com tudo a não apartaram daquele lugar: e penetrava muito bem que era para dobrarem as penas do Filho com a vista da Mãe, e as da Mãe com a presença do Filho. Estes, e outros muitos intentos da malícia e crueldade judaica, não encobria Deus do espírito da Virgem: Tu autem Domine demonstrasti mihi et cognovi, tunc ostendisti mihi studia eorum, para que o seu padecer se assemelhasse mais com o de seu Filho, e depois os tesouros de seus merecimentos fossem quase infinitos. Vê tu agora, alma minha, se vás por caminho acertado, recusando o padecer, e fugindo de tudo o que é Cruz. Vê se quando Deus te oferece ocasiões de imitação de Cristo em seus trabalhos, tens razão de se queixar ou se julgar por desamparado. E vê, se considerando tu com espírito de compunção nas penas da Virgem, deixará de lhe ser grata esta memória, e mui proveitosa para entrares também na parte de suas consolações.

Para este conceito que vamos formar do excessivo das penas da Senhora, maior luz se nos descobre ainda se consideramos o amor que tinha a seu santíssimo Filho. Certíssimo é que quanto maior é o amor com que uma alma está unida a outra, tanto mais próprias e íntimas faz as penas ou as glórias dela; porque a força da Caridade quase identificando os corações, comunica a qualquer deles o que goza ou padece o outro, assim como duas folhas de um livro juntas repassam entre si a sua umidade; ou duas lâminas de metal unidas repassam o seu calor; ou em uma cítara, duas cordas igualmente intensas, tocada uma faz estremecer a outra. Quem pois puder explicar o íntimo e o imediato e o semelhante e bem temperado do coração da Virgem com o de Cristo, este poderá entender quanto participou de suas penas. O amor de MARIA Santíssima a Cristo seu Bendito Filho excede incomparavelmente o de todos os Anjos e Santos; e somente é excedido pelo amor infinito com que seu Eterno Pai o ama. Se o amor de S. Paulo a este Senhor bastou para que dissesse que não era o que vivia, mas Cristo o que vivia nele (Gl 2, 10): Vivo autem jam no ego, vivit vero in me Christus, que seria o amor da Rainha e Mestra de todos os Apóstolos? É indubitável que todas as gotas do mar Oceano, e todos os átomos do Sol, não chegam a igualar os grãos da intenção do amor que a Virgem tinha por Cristo. Vendo pois a este Senhor afrontado, escarnecido, blasfemado, crucificado: a que auge de dor chegaria a sua dor! Que profundo e amargo seria o mar de angústias que recolhia em seu coração piedoso! Eis aqui porque S. Bernardo dizia que se a dor da Virgem se repartisse com todos os viventes, bastava para os matar juntos de súbito.

Acrescentemos agora que este amor da Senhor era não só natural, mas sobrenatural, não só infuso, mas também adquirido, e além disso continuado com incessantes aumentos por toda a vida: e os títulos de amar ao Senhor eram muitos, e muito poderosos; pois a Virgem pela criação e redenção e batismo era Filha de Cristo; pela Encarnação do Verbo era sua Mãe e sua irmã; e pela união mística era sua Esposa, como se apelida repetidas vezes nos Cantares, e S. Agostinho disse: Haec est, quae sola meruit Mater et Sponsa vocari. Acrescenta-se mais, que o amor natural procedido da geração corporal de seu Filho não se dividiu com pai na terra (como se divide o das outras mães); pois uma só linha, que foi a materna, fechou circularmente a Humanidade toda de Cristo: (Jr 21, 22) Femina circumdabit virum. Enfim, este amor não tem explicação, nem no modo, nem na intenção, nem na extensão: é incogitável, é indefinível, é admirável. E todo este amor na alma da Virgem se achava inteiro quando sobreveio a sua compunção e desconsolação, vendo padecer o seu amado. E as potências, sentidos e membros em que esta pena, imediata ou mediatamente, se recebia, não eram naturalmente grosseiros e embotados, mas finíssimos e perfeitíssimos, para saber mais sentir e padecer: de sorte que para toda esta sensibilidade tinha a Senhora em seu corpo e alma, órgãos por onde soasse; e para todo este mar imenso de angústias, tinha concavidades por onde mais altamente insinuar-se.

Formado já, do modo que te foi possível, algum conceito das penas da Virgem Mãe (ainda que mui diminuto e inferior à realidade) colhe dele três principais frutos. Primeiro, louvar a misericórdia e caridade de Deus, que foi servido dar ao mundo em tão inocente e atribulada Virgem, tão fiel Corredentora; e em sua piedade, e intercessão à Igreja, tão poderosa Mãe, que nos abrigue e ampare, e se compadeça de nossas tribulações. Segundo, chorar os teus pecados, pois foram verdadeiramente a causa da Paixão de Cristo, e por conseguinte, das penas de sua Mãe Santíssima; do que deves confundir-te, e não levantar os olhos para este retabulo de aflições e angústias, sem envergonhar-te sumamente. Terceiro, uma determinação firme de seguir e prosseguir o real caminho da cruz, aborrecendo todo o gênero de deleites terrenos e consolações mundanas; pois, na verdade, o amor de si próprio e do mundo, a par deste espetáculo de penas, e desta certeza da verdade do que nos convém para salvar-nos, parece coisa de escárnio ou de infidelidade, negando o mesmo que já cremos.


Pe. Manuel Bernardes


CONTINUA...

Meditação I - dia 05/03/2014
Meditação II - dia 12/03/2014
Meditação III - dia 19/03/2014
Meditação IV - dia 26/03/2014
Exemplos - dia  02/04/2014

Fonte: http://www.permanencia.org.br/drupal/node/1286

Obras do Pe. Bernardes no Estante Virtual: aqui e aqui. Clique na tag Pe. Manuel Bernardes, depois do texto, e veja o que mais o Pale Ideas publicou deste piedoso Sacerdote.

Padre Manuel Bernardes (1644-1710) professou em 1674 na Congregação do Oratório de S. Filipe de Néri. Escreveu diversos tratados de espiritualidade e vários guias morais, como Exercícios Espirituais (1686), Luz e Calor (1696) e Pão Partido em Pequeninos (1696); dois volumes de Sermões e Práticas (1711) e a Nova Floresta ou Silva de Vários Apotegmas em cinco volumes publicados entre 1706 e 1728. Esta última obra é uma coleção de «ditos bons e sentenciosos de varões ilustres» que apresenta por ordem alfabética o comentário a um pecado ou virtude. O autor não chegou a ir além da letra J e da virtude «Justiça», pois falecera entretanto.


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