Sentenças e avisos úteis para a direção da alma no caminho da perfeição cristã
Não é minha intenção que este volume cresça nimiamente, e me acho já muito adiante, quando ainda restam doutrinas em outras matérias não menos importantes que as passadas. Pelo que, mudando de estilo, reduzirei a documentos breves os que podiam ser discursos mais difusos. Espero que assim seja mais grato e útil aos leitores, em razão da brevidade e variedade amigas da natureza humana. Por isso porventura seguiram esta forma de escrever S. Martinho Dumiense Arcebispo de Braga, S. Diadoco Bispo Foticense, João Bispo de Carpácia, S. Nilo Abade, S. Hesíquio, S. Isaac Siro, S. Hiperíquio Presbíteros, S. Simeão Júnior, S. Máximo Mártir Constantinopolitano, Talássio, Evágrio Monges, S. Marcos Eremita e outros Padres. Dos quais, e de outros autores espirituais famigerados são excertos pela maior parte os avisos que aqui damos, omitindo outros, cuja luz por ser muito alta e forte, poderia ofender os olhos menos puros. Vão distribuídos em seis classes:
I – Dos que são mais especulativos ou teóricos. 09/04/2014
II — Algumas outras sentenças notáveis por sua brevidade e substância. 16/04/2014
III — Avisos e Documentos práticos que respeitam o trato da alma com Deus. 23/04/2014
IV — Os que respeitam o trato da alma consigo. 30/04/2014
V — Os que respeitam o trato da alma com os próximos. 07/05/2014
VI — Os que pertencem ao conflito da alma com o tentador. 14/05/2014
VI — Os que pertencem ao conflito da alma com o tentador.
1. Persuade-te muito deveras que sem especial luz do Espírito Santo e auxílio de sua graça, impossível é conhecer e evitar as inumeráveis traições, astúcias e estratagemas dos inimigos invisíveis. Porque todos os estudos e vigilâncias de todos os homens do mundo juntos em consulta, comprando-se com a arte de fazer mal que sabe qualquer demônio, são como as prevenções de um menino contra os conselhos de um grande político estadista, ou forças de um poderoso monarca. Com esta certeza desenganado disse S. Lourenço Justiniano: Nam spiritualis quis, sine spirituali lumine effugit laqueos? Quis, inquam, aerarum potestatum insidias, et fallacias innumeras inimicorum invisibilium agnovit ad plenum, nisi sapientiae sit splendore perfusus? Non sufficit naturalis acumen ingenii, si non introrsus erudiatur a verbo [Lib. de Obedientia c. 16]. Portanto importa colocar toda nossa confiança no poder, fidelidade e misericórdia do Senhor, que modera e reprime os inimigos, e só permite na tentação quanto é conveniente para confusão deles, exercício nosso e glória do mesmo Deus.
2. Para escapar dos laços do demônio uma alma que trata da perfeição, e a quem ele não tenta senão com capa do seu bem, é necessário observar essas três cautelas: 1a. Que em tudo quanto lhe for possível se governe pela obediência dos Superiores, supondo nele o mesmo Cristo; ou ao menos pelo conselho de quem lho pode dar acertado 2a. Que de coração procure sempre humilhar-se no pensamento, palavra e obra; folgando que lhe anteponham a todos em todas as coisas e mais as daquele que menos lhe cai em graça; 3a. Que na direção interior e exterior do exercício de Oração, e dos mais fora dela, siga antes o norte e luz da Fé, que o da razão; nem faça fundamento algum em consolações sensíveis, ou apreensões imaginárias.

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