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quarta-feira, 14 de maio de 2014

Sentenças e avisos úteis para a direção da alma no caminho da perfeição cristã - VI

Sentenças e avisos úteis para a direção da alma no caminho da perfeição cristã


Não é minha intenção que este volume cresça nimiamente, e me acho já muito adiante, quando ainda restam doutrinas em outras matérias não menos importantes que as passadas. Pelo que, mudando de estilo, reduzirei a documentos breves os que podiam ser discursos mais difusos. Espero que assim seja mais grato e útil aos leitores, em razão da brevidade e variedade amigas da natureza humana. Por isso porventura seguiram esta forma de escrever S. Martinho Dumiense Arcebispo de Braga, S. Diadoco Bispo Foticense, João Bispo de Carpácia, S. Nilo Abade, S. Hesíquio, S. Isaac Siro, S. Hiperíquio Presbíteros, S. Simeão Júnior, S. Máximo Mártir Constantinopolitano, Talássio, Evágrio Monges, S. Marcos Eremita e outros Padres. Dos quais, e de outros autores espirituais famigerados são excertos pela maior parte os avisos que aqui damos, omitindo outros, cuja luz por ser muito alta e forte, poderia ofender os olhos menos puros. Vão distribuídos em seis classes


I – Dos que são mais especulativos ou teóricos. 09/04/2014
II — Algumas outras sentenças notáveis por sua brevidade e substância. 16/04/2014
III — Avisos e Documentos práticos que respeitam o trato da alma com Deus. 23/04/2014
IV — Os que respeitam o trato da alma consigo. 30/04/2014
V — Os que respeitam o trato da alma com os próximos. 07/05/2014
VI — Os que pertencem ao conflito da alma com o tentador. 14/05/2014




VI — Os que pertencem ao conflito da alma com o tentador. 



1. Persuade-te muito deveras que sem especial luz do Espírito Santo e auxílio de sua graça, impossível é conhecer e evitar as inumeráveis traições, astúcias e estratagemas dos inimigos invisíveis. Porque todos os estudos e vigilâncias de todos os homens do mundo juntos em consulta, comprando-se com a arte de fazer mal que sabe qualquer demônio, são como as prevenções de um menino contra os conselhos de um grande político estadista, ou forças de um poderoso monarca. Com esta certeza desenganado disse S. Lourenço Justiniano: Nam spiritualis quis, sine spirituali lumine effugit laqueos? Quis, inquam, aerarum potestatum insidias, et fallacias innumeras inimicorum invisibilium agnovit ad plenum, nisi sapientiae sit splendore perfusus? Non sufficit naturalis acumen ingenii, si non introrsus erudiatur a verbo [Lib. de Obedientia c. 16]. Portanto importa colocar toda nossa confiança no poder, fidelidade e misericórdia do Senhor, que modera e reprime os inimigos, e só permite na tentação quanto é conveniente para confusão deles, exercício nosso e glória do mesmo Deus.

2. Para escapar dos laços do demônio uma alma que trata da perfeição, e a quem ele não tenta senão com capa do seu bem, é necessário observar essas três cautelas: 1a. Que em tudo quanto lhe for possível se governe pela obediência dos Superiores, supondo nele o mesmo Cristo; ou ao menos pelo conselho de quem lho pode dar acertado 2a. Que de coração procure sempre humilhar-se no pensamento, palavra e obra; folgando que lhe anteponham a todos em todas as coisas e mais as daquele que menos lhe cai em graça; 3a. Que na direção interior e exterior do exercício de Oração, e dos mais fora dela, siga antes o norte e luz da Fé, que o da razão; nem faça fundamento algum em consolações sensíveis, ou apreensões imaginárias.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Sentenças e avisos úteis para a direção da alma no caminho da perfeição cristã - V

Sentenças e avisos úteis para a direção da alma no caminho da perfeição cristã


Não é minha intenção que este volume cresça nimiamente, e me acho já muito adiante, quando ainda restam doutrinas em outras matérias não menos importantes que as passadas. Pelo que, mudando de estilo, reduzirei a documentos breves os que podiam ser discursos mais difusos. Espero que assim seja mais grato e útil aos leitores, em razão da brevidade e variedade amigas da natureza humana. Por isso porventura seguiram esta forma de escrever S. Martinho Dumiense Arcebispo de Braga, S. Diadoco Bispo Foticense, João Bispo de Carpácia, S. Nilo Abade, S. Hesíquio, S. Isaac Siro, S. Hiperíquio Presbíteros, S. Simeão Júnior, S. Máximo Mártir Constantinopolitano, Talássio, Evágrio Monges, S. Marcos Eremita e outros Padres. Dos quais, e de outros autores espirituais famigerados são excertos pela maior parte os avisos que aqui damos, omitindo outros, cuja luz por ser muito alta e forte, poderia ofender os olhos menos puros. Vão distribuídos em seis classes


I – Dos que são mais especulativos ou teóricos. 09/04/2014
II — Algumas outras sentenças notáveis por sua brevidade e substância. 16/04/2014
III — Avisos e Documentos práticos que respeitam o trato da alma com Deus. 23/04/2014
IV — Os que respeitam o trato da alma consigo. 30/04/2014
V — Os que respeitam o trato da alma com os próximos. 07/05/2014
VI — Os que pertencem ao conflito da alma com o tentador. 14/05/2014



V — Os que respeitam o trato da alma com os próximos. 



1. Vencer o mal com o bem, e dar retorno de benefícios por agravos, é doutrina Evangélica. Porém adverte, que alguns soberbos que a sabem, nem deste modo quererão que os venças; e ou presumirão não ser a tua caridade pura, senão misturada com apetite de levar-lhes vantagem; ou se poderão exasperar de que sejas mais espiritual que eles. Neste caso é necessário furtar a volta ainda mais por baixo, buscando ocasião em que te mostres necessitado, ou desejoso de algum benefício seu; ou que tu lhes fizeres seja tão oculto, que lhes chegue a utilidade despida da notícia do benfeitor. Pelo menos o benefício de orar a Deus por eles, nunca poderão, se tu quiseres, nem sabê-lo, nem evitá-lo.

2. Se aspiras ao recolhimento interior e paz de coração, importa-te precisamente ter igual amor a todos os próximos e igual esquecimento de todos, sejam ou não sejam parentes, ou conhecidos do mesmo, ou diferente estado, pátria, gênio, etc. Não ocupes o espírito em cuidar muito deles. Até do próprio Confessor é necessário um santo despego, não arrimando a ele a confiança de que te fará santo; porque nisto injurias a graça de Deus. Se observares bem este aviso, livrar-te-ás de muitas imperfeições, erros e perigos.

3. Toma o que o mundo deixa, e deixa o que o mundo toma; e terás paz com os próximos, contigo e com Deus. Honra, gosto e abundância é o que todos comumente buscam. Desprezo, dor e pobreza é o de que fogem. Em trocando tu estas bolas, acabou-se a guerra; e depois de acabada, virão buscar-te as honras, deleites e riquezas verdadeiras.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Sentenças e avisos úteis para a direção da alma no caminho da perfeição cristã - IV

Sentenças e avisos úteis para a direção da alma no caminho da perfeição cristã


Não é minha intenção que este volume cresça nimiamente, e me acho já muito adiante, quando ainda restam doutrinas em outras matérias não menos importantes que as passadas. Pelo que, mudando de estilo, reduzirei a documentos breves os que podiam ser discursos mais difusos. Espero que assim seja mais grato e útil aos leitores, em razão da brevidade e variedade amigas da natureza humana. Por isso porventura seguiram esta forma de escrever S. Martinho Dumiense Arcebispo de Braga, S. Diadoco Bispo Foticense, João Bispo de Carpácia, S. Nilo Abade, S. Hesíquio, S. Isaac Siro, S. Hiperíquio Presbíteros, S. Simeão Júnior, S. Máximo Mártir Constantinopolitano, Talássio, Evágrio Monges, S. Marcos Eremita e outros Padres. Dos quais, e de outros autores espirituais famigerados são excertos pela maior parte os avisos que aqui damos, omitindo outros, cuja luz por ser muito alta e forte, poderia ofender os olhos menos puros. Vão distribuídos em seis classes


I – Dos que são mais especulativos ou teóricos. 09/04/2014
II — Algumas outras sentenças notáveis por sua brevidade e substância. 16/04/2014
III — Avisos e Documentos práticos que respeitam o trato da alma com Deus. 23/04/2014
IV — Os que respeitam o trato da alma consigo. 30/04/2014
V — Os que respeitam o trato da alma com os próximos. 07/05/2014
VI — Os que pertencem ao conflito da alma com o tentador. 14/05/2014




IV — Os que respeitam o trato da alma consigo. 



1. Não te aflijas com cuidados do futuro; porque o tempo desmancha e baralha toda a ordem das coisas que propunhas na imaginação; e de hora para hora tomam os negócios muito diferente aspecto. Lança-te todo na Providência do Altíssimo; e basta ao dia presente a sua malícia. Especialmente se os negócios são de Deus, experimentarás que nunca estão mais ganhos que quando parecem estar perdidos.

2. Persuade-te muito deveras que, enquanto viveres, hás de ser miserável. Porque isto é condição própria e intrínseca do estado de peregrino neste mundo. E assim como seria pensamento néscio, e esperança vã, querer um condenado no inferno ter glória ou um Bem-aventurado no Céu ter pena, assim o é querer um peregrino no mundo ter satisfação e descanso. Bem podes pois fazer o ânimo, a que nunca te hão de faltar trabalhos, tristezas, tentações e moléstias; e deste modo te serão mais sofríveis e rendosas.

3. Se escorregaste em alguma impaciência, ou desabrimento com o próximo, não te assombres, nem aflijas, nem desmaies; que um vício não se remedeia com outro. Faz então estas três diligências: 1o. Volta logo sobre ti mesmo e dá fé de quão miserável és; 2o. Volta para Deus, e arrepende-te, confiando de sua bondade, que te perdoará; 3o. Não faças mais reflexão sobre o que passou, fazendo-te esquecido, como se por ti não passara. Deste modo fica outra vez temperado o instrumento do teu espírito.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Sentenças e avisos úteis para a direção da alma no caminho da perfeição cristã - II

Sentenças e avisos úteis para a direção da alma no caminho da perfeição cristã


Não é minha intenção que este volume cresça nimiamente, e me acho já muito adiante, quando ainda restam doutrinas em outras matérias não menos importantes que as passadas. Pelo que, mudando de estilo, reduzirei a documentos breves os que podiam ser discursos mais difusos. Espero que assim seja mais grato e útil aos leitores, em razão da brevidade e variedade amigas da natureza humana. Por isso porventura seguiram esta forma de escrever S. Martinho Dumiense Arcebispo de Braga, S. Diadoco Bispo Foticense, João Bispo de Carpácia, S. Nilo Abade, S. Hesíquio, S. Isaac Siro, S. Hiperíquio Presbíteros, S. Simeão Júnior, S. Máximo Mártir Constantinopolitano, Talássio, Evágrio Monges, S. Marcos Eremita e outros Padres. Dos quais, e de outros autores espirituais famigerados são excertos pela maior parte os avisos que aqui damos, omitindo outros, cuja luz por ser muito alta e forte, poderia ofender os olhos menos puros. Vão distribuídos em seis classes


I – Dos que são mais especulativos ou teóricos. 09/04/2014
II — Algumas outras sentenças notáveis por sua brevidade e substância. 16/04/2014
III — Avisos e Documentos práticos que respeitam o trato da alma com Deus. 23/04/2014
IV — Os que respeitam o trato da alma consigo. 30/04/2014
V — Os que respeitam o trato da alma com os próximos. 07/05/2014
VI — Os que pertencem ao conflito da alma com o tentador. 14/05/2014




II — Algumas outras sentenças notáveis por sua brevidade e substância. 




Adverte-se que estas sentenças não se põem aqui juntas, para que se leiam juntas; nem se escolheram breves, para se passarem brevemente; porque seria isso causa de que nenhuma se nos imprima, nem sirva de regra prática de nossas ações. Deve-se usar delas como de grãozinhos aromáticos, que se trazem na boca muito tempo e em pouca quantidade.

1. O Evangelho e as vidas dos Santos distinguem-se como a solfa escrita ou cantada. De S. Francisco de Sales.

2. Ser perseguido sem culpa é bocado sem osso. Do Padre Baltasar Álvares.

3. Quando chegares ao fim dos desejos, tens chegado ao princípio da paz. Do Padre Eusébio Nieremberg.

4. Quem vive bem, calando prega. De Kempis.

5. Só a caridade é o distintivo entre os filhos de Deus e os do diabo. De S. Agostinho.

6. Guarda o que Deus te deu, guarda-te do que proibiu, e espera o que prometeu. De S. Bernardo.

7. Quando o homem trata da eternidade, fala o cego da luz. De S. Gregório Magno.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Sentenças e avisos úteis para a direção da alma no caminho da perfeição cristã - III

Sentenças e avisos úteis para a direção da alma no caminho da perfeição cristã


Não é minha intenção que este volume cresça nimiamente, e me acho já muito adiante, quando ainda restam doutrinas em outras matérias não menos importantes que as passadas. Pelo que, mudando de estilo, reduzirei a documentos breves os que podiam ser discursos mais difusos. Espero que assim seja mais grato e útil aos leitores, em razão da brevidade e variedade amigas da natureza humana. Por isso porventura seguiram esta forma de escrever S. Martinho Dumiense Arcebispo de Braga, S. Diadoco Bispo Foticense, João Bispo de Carpácia, S. Nilo Abade, S. Hesíquio, S. Isaac Siro, S. Hiperíquio Presbíteros, S. Simeão Júnior, S. Máximo Mártir Constantinopolitano, Talássio, Evágrio Monges, S. Marcos Eremita e outros Padres. Dos quais, e de outros autores espirituais famigerados são excertos pela maior parte os avisos que aqui damos, omitindo outros, cuja luz por ser muito alta e forte, poderia ofender os olhos menos puros. Vão distribuídos em seis classes


I – Dos que são mais especulativos ou teóricos. 09/04/2014
II — Algumas outras sentenças notáveis por sua brevidade e substância. 16/04/2014
III — Avisos e Documentos práticos que respeitam o trato da alma com Deus. 23/04/2014
IV — Os que respeitam o trato da alma consigo. 30/04/2014
V — Os que respeitam o trato da alma com os próximos. 07/05/2014
VI — Os que pertencem ao conflito da alma com o tentador. 14/05/2014




III — Avisos e Documentos práticos que respeitam o trato da alma com Deus. 



1. Andar em presença de Deus, observar silêncio e não reparar em faltas alheias, desarraigam da alma inumeráveis imperfeições e lhe granjeiam grandes virtudes.

2. A mosca que se senta no mel, impede o seu vôo; e a alma que busca sabores do espírito, impede a sua contemplação.

3. Enquanto estás atribulado, e em desamparo, não busques consolação na criatura. Porque como essa tribulação é enviada da mão de Deus para prova, ou exercício, ou castigo teu, e não há de durar sempre: não a tirando a criatura, Deus a tirará. E como Deus quando vem, sempre deixa dons na alma; impedes estes dons, atalhando a sua visita. Portanto, importa ser forte e sustentar a Deus, até que ele mesmo nasça dentro em nós, e nos alegre e vivifique. "Sustine sustentationes Dei (diz o Espírito Santo pelo Eclesiastes) conjungere Deo, et sustine; ut crescat in novissimo vita tua. Omne quod tibi applicitum fuerit, accipe, et in dolore sustine, et in humilitate tua patientiam gabe. Quoniam in igne probatur aurum, et argentum: homines vero receptibiles in camino humiliationis" [Ecl. 2,v.3 e seg.]

4. Se conformes tens conhecimento da Majestade Divina e experiência de seus favores, não lhe tiveres sujeição e reverência, virão sobre ti pensamentos de blasfêmia. E se regares o corpo com muito comer e beber, até os pensamentos santos hão de degenerar em carnais: como as sementes boas, com a nímia chuva, dão em folhagens e espinhos, muito viço e pouco fruto.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Sentenças e avisos úteis para a direção da alma no caminho da perfeição cristã - I

Sentenças e avisos úteis para a direção da alma no caminho da perfeição cristã


Não é minha intenção que este volume cresça nimiamente, e me acho já muito adiante, quando ainda restam doutrinas em outras matérias não menos importantes que as passadas. Pelo que, mudando de estilo, reduzirei a documentos breves os que podiam ser discursos mais difusos. Espero que assim seja mais grato e útil aos leitores, em razão da brevidade e variedade amigas da natureza humana. Por isso porventura seguiram esta forma de escrever S. Martinho Dumiense Arcebispo de Braga, S. Diadoco Bispo Foticense, João Bispo de Carpácia, S. Nilo Abade, S. Hesíquio, S. Isaac Siro, S. Hiperíquio Presbíteros, S. Simeão Júnior, S. Máximo Mártir Constantinopolitano, Talássio, Evágrio Monges, S. Marcos Eremita e outros Padres. Dos quais, e de outros autores espirituais famigerados são excertos pela maior parte os avisos que aqui damos, omitindo outros, cuja luz por ser muito alta e forte, poderia ofender os olhos menos puros. Vão distribuídos em seis classes: 


I – Dos que são mais especulativos ou teóricos. 09/04/2014
II — Algumas outras sentenças notáveis por sua brevidade e substância. 16/04/2014
III — Avisos e Documentos práticos que respeitam o trato da alma com Deus. 23/04/2014
IV — Os que respeitam o trato da alma consigo. 30/04/2014
V — Os que respeitam o trato da alma com os próximos. 07/05/2014
VI — Os que pertencem ao conflito da alma com o tentador. 14/05/2014





I – Dos que são mais especulativos ou teóricos. 



1. Amar a Deus é grande ofício: só este basta para nos levar todo o tempo da vida e todas as forças da alma. Por certo não tem pouco que fazer quem tem a Deus que amar. E assim todas as mais ocupações e ofícios hão de ser ministros deste.

2. Só duas coisas merecem toda a admiração da criatura racional: a Bondade de Deus e a malícia do pecado. E uma com outra se exageram reciprocamente; pois vemos quão facilmente costuma o pecador agravar a Deus e Deus perdoar ao pecador.

3. Entre Deus e os homens se atravessa um mar imenso, que são nossos pecados. Porém ninguém desconfie de chegar a salvamento, porque o Salvador sobre este mar, fez de outro mar ponte para passar-mos; sobre o mar de nossas culpas, ponte do mar de suas penas; sobre a corrente de nossas maldades, caminho pleas correntes de seu sangue. Oh Piloto sábio, que no vosso naufrágio constituístes a nossa salvação; e na tempestade de poucas horas, a bonança de toda a eternidade!

4. Deixem embora os moços a consideração e temor da morte para os velhos, se se atrevem a conceder-me, que o vidro que hoje sai das mãos do Artífice não é tão frágil, como o que saiu há muitos anos. A hora, que a cada um toca, essa o quebra; e todas podem tocar a todos. Desde que o primeiro homem quebrou o preceito de Deus, tão sujeita a se quebrar é a vida de um Abel, como a de um Matusalém.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Meditaçõe do Pe. Bernardes sobre as Dores da Virgem Maria ao pé da Cruz - Exemplos

Da cruel espada de angústia que transpassou o coração da Virgem ao pé da Cruz e em sua solidão



MAGNA EST VELUT MARE CONTRITIO TUA.
(Lm 2, 13)

A espaçosa e profunda vastidão do mar Oceano, quem a pode medir ou avaliar, ainda que em partes o navegasse ou visse superficialmente? Assim também a grandeza e acerbidade das penas e angústias que atormentaram o piedosíssimo coração da Virgem Santíssima na Sagrada Paixão e Morte de seu Bendito Filho e nosso Salvador JESUS Cristo, são maiores que toda a explicação e conceito que deste objeto podem formar pessoas ainda muito espirituais e ilustradas. Não deve todavia ser isto causa para deixarmos de meditar e ponderar estas penas, desse curto e diminuto modo que alcançamos: assim porque a dignidade da matéria merece ao menos este ínfimo grão do nosso agradecimento, como pelo muito que a Deus e à Virgem é agradável, e a nós proveitosa esta devota memória. E porque o saber qualquer fiel sentir alguma parte destas penas é especial graça de Deus: implorando esta primeiro com humildes e fervorosos desejos, podemos ir discorrendo pelos seguintes princípios.


Exemplos


quarta-feira, 26 de março de 2014

Meditaçõe do Pe. Bernardes sobre as Dores da Virgem Maria ao pé da Cruz - IV

Da cruel espada de angústia que transpassou o coração da Virgem ao pé da Cruz e em sua solidão



MAGNA EST VELUT MARE CONTRITIO TUA.
(Lm 2, 13)

A espaçosa e profunda vastidão do mar Oceano, quem a pode medir ou avaliar, ainda que em partes o navegasse ou visse superficialmente? Assim também a grandeza e acerbidade das penas e angústias que atormentaram o piedosíssimo coração da Virgem Santíssima na Sagrada Paixão e Morte de seu Bendito Filho e nosso Salvador JESUS Cristo, são maiores que toda a explicação e conceito que deste objeto podem formar pessoas ainda muito espirituais e ilustradas. Não deve todavia ser isto causa para deixarmos de meditar e ponderar estas penas, desse curto e diminuto modo que alcançamos: assim porque a dignidade da matéria merece ao menos este ínfimo grão do nosso agradecimento, como pelo muito que a Deus e à Virgem é agradável, e a nós proveitosa esta devota memória. E porque o saber qualquer fiel sentir alguma parte destas penas é especial graça de Deus: implorando esta primeiro com humildes e fervorosos desejos, podemos ir discorrendo pelos seguintes princípios.


Meditação IV


quarta-feira, 19 de março de 2014

Meditaçõe do Pe. Bernardes sobre as Dores da Virgem Maria ao pé da Cruz - III

Da cruel espada de angústia que transpassou o coração da Virgem ao pé da Cruz e em sua solidão



MAGNA EST VELUT MARE CONTRITIO TUA.
(Lm 2, 13)

A espaçosa e profunda vastidão do mar Oceano, quem a pode medir ou avaliar, ainda que em partes o navegasse ou visse superficialmente? Assim também a grandeza e acerbidade das penas e angústias que atormentaram o piedosíssimo coração da Virgem Santíssima na Sagrada Paixão e Morte de seu Bendito Filho e nosso Salvador JESUS Cristo, são maiores que toda a explicação e conceito que deste objeto podem formar pessoas ainda muito espirituais e ilustradas. Não deve todavia ser isto causa para deixarmos de meditar e ponderar estas penas, desse curto e diminuto modo que alcançamos: assim porque a dignidade da matéria merece ao menos este ínfimo grão do nosso agradecimento, como pelo muito que a Deus e à Virgem é agradável, e a nós proveitosa esta devota memória. E porque o saber qualquer fiel sentir alguma parte destas penas é especial graça de Deus: implorando esta primeiro com humildes e fervorosos desejos, podemos ir discorrendo pelos seguintes princípios.

Meditação III


quarta-feira, 12 de março de 2014

Meditaçõe do Pe. Bernardes sobre as Dores da Virgem Maria ao pé da Cruz - II

Da cruel espada de angústia que transpassou o coração da Virgem ao pé da Cruz e em sua solidão



MAGNA EST VELUT MARE CONTRITIO TUA.
(Lm 2, 13)

A espaçosa e profunda vastidão do mar Oceano, quem a pode medir ou avaliar, ainda que em partes o navegasse ou visse superficialmente? Assim também a grandeza e acerbidade das penas e angústias que atormentaram o piedosíssimo coração da Virgem Santíssima na Sagrada Paixão e Morte de seu Bendito Filho e nosso Salvador JESUS Cristo, são maiores que toda a explicação e conceito que deste objeto podem formar pessoas ainda muito espirituais e ilustradas. Não deve todavia ser isto causa para deixarmos de meditar e ponderar estas penas, desse curto e diminuto modo que alcançamos: assim porque a dignidade da matéria merece ao menos este ínfimo grão do nosso agradecimento, como pelo muito que a Deus e à Virgem é agradável, e a nós proveitosa esta devota memória. E porque o saber qualquer fiel sentir alguma parte destas penas é especial graça de Deus: implorando esta primeiro com humildes e fervorosos desejos, podemos ir discorrendo pelos seguintes princípios.

Meditação II

 

Outro princípio, pelo qual se pode formar algum conceito do excessivo das penas desta angustiada Mãe, é considerando o altíssimo e perfeitíssimo conhecimento que a Senhora tinha presente da infinita dignidade de seu Filho JESUS Cristo, a quem via desonrado, afrontado e crucificado. Porque acrescenta mais no seu trabalho, quem acrescenta na ciência (Ecle 1, 18): Quis addit scientiam, addit et laborem. De sorte que quando a Virgem Mãe via seu Bendito filho pendente da Cruz entre dois malfeitores, não perdia de vista que este Senhor era o mesmo que no Empíreo reina entre duas Pessoas Divinas; e quando cuspido e esbofeteado seu rosto, tinha presente como nesse mesmo rosto se espelham e são glorificados os Anjos; e assim dos mais tormentos e opróbrios da Paixão do Senhor. Por onde, assim como só a Senhora entre todas as criaturas capazes de sentimento sabia penetrar o abismo da excelentíssima e sempre adorável dignidade de Cristo, só ela por conseguinte podia dar fundo ao sensível e custoso de suas penas e afrontas. E todo aquele cálice de amarguíssima mirra que o Senhor não foi servido beber materialmente (Mc 15, 23): Dabant ei bibere myrrhatum vinum, et non accepit, esgotou a Virgem espiritualmente e lhe repassou toda sua alma. Ai, inocentíssima Virgem! Ai, afligida Mãe! Por isso eu, miserável pecador, não sinto em mim, nem em meus próximos, as ofensas de Deus, porque estou muito longe do conhecimento de que coisa é Deus? E se quem acrescenta a ciência, acrescenta o trabalho; quem, como eu, acrescentava a estultícia, e dobrava a cegueira, que lhe havia de suceder, senão perder o sentimento do mal que fazia, e cauterizar a minha consciência, endurecendo-me aos remorsos dela! Ó, se um pecador dos que o mundo chama honrados, e nele estimam tanto qualquer pontinho de sua vã e triste honrinha, soubesse quem é Deus, a quem tão de assento e tão sem susto nem reparo se põem a desonrar, e a pisar a sua lei, antepondo-lhe a do seu apetite, é certo que enlouquecera, ou rebentara de dor! E pecamos tão facilmente, e com tal repetição, porfia, ingratidão e impudência pecamos? É que perdemos a dor, porque nos sumimos na ignorância, e os pecados, que nos distanciaram do conhecimento de Deus, nos levaram também o pesar deles.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Meditaçõe do Pe. Bernardes sobre as Dores da Virgem Maria ao pé da Cruz - I

Da cruel espada de angústia que transpassou o coração da Virgem ao pé da Cruz e em sua solidão



MAGNA EST VELUT MARE CONTRITIO TUA.
(Lm 2, 13)

A espaçosa e profunda vastidão do mar Oceano, quem a pode medir ou avaliar, ainda que em partes o navegasse ou visse superficialmente? Assim também a grandeza e acerbidade das penas e angústias que atormentaram o piedosíssimo coração da Virgem Santíssima na Sagrada Paixão e Morte de seu Bendito Filho e nosso Salvador JESUS Cristo, são maiores que toda a explicação e conceito que deste objeto podem formar pessoas ainda muito espirituais e ilustradas. Não deve todavia ser isto causa para deixarmos de meditar e ponderar estas penas, desse curto e diminuto modo que alcançamos: assim porque a dignidade da matéria merece ao menos este ínfimo grão do nosso agradecimento, como pelo muito que a Deus e à Virgem é agradável, e a nós proveitosa esta devota memória. E porque o saber qualquer fiel sentir alguma parte destas penas é especial graça de Deus: implorando esta primeiro com humildes e fervorosos desejos, podemos ir discorrendo pelos seguintes princípios.

Meditação I

stabat
E seja o primeiro considerar algumas graves sentenças que os Santos disseram nesta matéria, para que, se a luz não chega a nossos olhos direta, chegue ao menos por reflexos. S. Agostinho e S. Bernardo, alegorizando aquilo de Isaías (Is 33, 7): Angeli pacis amare flebunt: consideram aos mesmos Anjos tomando corpos visíveis para chorarem a Sagrada Paixão e morte do Filho de Deus e, por conseguinte, a paixão e morte espiritual e mística da Mãe de Deus; pois esta com aquela estava intimamente conjunta. Ó alma minha, para e pondera: é possível que os Anjos tomem semelhança de homens para chorarem, e que os homens tomemos semelhança de brutos ou de pedras para não chorarmos! De que vai isto? O javali, revolvendo-se primeiro no lodo grosso, fica impenetrável aos venábulos ou lanças dos monteiros. Estamos tão imersos nos gostos ou pesares das coisas terrenas do mundo que ficamos duros para o sentimento das espirituais e invisíveis que nos propõem a Fé e Piedade (2 Cor 2, 34): Animalis homo non percipit ea, quae sunt spiritus Dei.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Gemidos da alma penitente

Gemidos da alma penitente 


O Padre Manuel Bernardes, oratoriano, nasceu em Lisboa. São de Mendes dos Remédios as palavras seguintes: “Vieira e Bernardes [...] distanciaram-se na pregação como na vida. Vieira foi um lutador; a sua vida prende-se por mais de um laço à história política de Portugal; Bernardes viveu o melhor e maior tempo da sua vida — 36 anos — entregue à meditação e à redação dos seus livros na pobre cela da Congregação do Oratório. Lendo-os com atenção, escreve Antônio Feliciano de Castilho, sente-se que Vieira, ainda falando do Céu, tinha os olhos nos seus ouvintes; Bernardes, ainda falando das criaturas, estava absorto no Criador. Vieira vivia para fora, para a cidade, para a corte, para o mundo; Bernardes, para a cela, para si, para o seu coração. Vieira estudava galas e louçainhas de estilo. Bernardes era como estas formosas de seu natural, que se não cansam com alindamentos, a quem tudo fica bem, que brilham mais com uma flor apanhada ao acaso do que outras com pedrarias de grande custo.”

A coleção das obras do Padre Manuel Bernardes compreende dezenove volumes, entre os quais se contam os Sermões e Práticas (tem no Estante Virtual), os Exercícios Espirituais e Meditações da Vida Purgativa, Os Últimos fins do Homem, os Tratados Vários, em cujo 2º tomo entra o Pão Partido em Pequeninos (tem no Estante Virtual), alguns opúsculos e as suas melhores obras, Luz e Calor (1696 e 1871 - tem no Estante Virtual) e a Nova Floresta (tem no Estante Virtual). Durante o largo período em que viveu na Congregação do Oratório, o Padre Bernardes não cessou de trabalhar, até perder a vista e a lucidez dois anos antes de morrer.

As Jaculatórias que transcrevemos a seguir se encontram no fim da Segunda Parte de "Luz e Calor".


OPÚSCULO V - ORAÇÕES JACULATÓRIAS, OU SETAS ESPIRITUAIS PARA ATIRAR AO CÉU E FERIR O CORAÇÃO DE DEUS


O modo de exercitar esta Oração dissemos acima na Doutrina VII. Agora damos alguns exemplos, ou fórmulas das Jaculatórias; não para que a alma devota se ate a palavras certas, e as profira mais como lição decorada na memória do que como parto afetuoso da vontade; senão para que, à vista destes exemplos, conheça melhor o modo de as fazer, e adestre o seu arco. Vão repartidas em três como aljavas, conforme as três vias do Espírito, Purgativa, Iluminativa e Unitiva (que Molinos impiamente chamava o maior disparate da Mística); e assim podemos dizer que as primeiras são de ferro, as segundas de prata, e as terceiras de ouro; se bem aquelas ferirão mais altamente o coração de Deus que procederem de maior auxílio de sua graça, e maior intenção da nossa caridade. Se o Leitor achar em alguma aljava seta que parece pertencer mais propriamente a outra, não forme disso reparo, porque estas coisas morais pouco importa se não pesem ouro fio com os escrúpulos da balança Teológica.


1º — GEMIDOS DA ALMA PENITENTE PARA OS PRINCIPIANTES


DÉCADA I

405 — Senhor Deus: eu sou a miséria, a ingratidão, a indignidade; sou um pecador vilíssimo, a quem não devia cobrir o Céu nem sustentar a Terra. Havei de mim misericórdia, e salvai-me por amor de vossa bondade.

Pai: pequei contra o Céu, e em vossa presença; não sou digno de me chamar filho vosso; fazei-me como qualquer de vossos mercenários.

Lavai-me, meu Senhor Jesus Cristo, nas correntes de Vosso precioso Sangue; e limpai minha alma das manchas de todo o pecado.

Desgarrei-me como ovelha perdida. Que fora de mim, ó bom Pastor, se me não buscásseis, e tomásseis sobre vossos ombros?

Eis aqui está à vossa porta o pobre: eis aqui o leproso e cego, e tolhido, e coberto de inumeráveis chagas. Não necessitam de médico os sãos, mas os enfermos; vinde, e curai-me com a vossa palavra, para glória de vosso nome.

Que era eu, Senhor, no meio de meus vícios, e fora de vossa graça, senão um cão morto, coberto das moscas dos demônios, que em minha podridão se cevavam. Vistes minha miséria, e vos apiedastes. Destes-me vida e misericórdia. Oh, bendito seja tal amor!

Inclinai, Senhor, para mim vossos amorosos olhos, e apagai meus pecados. Concedei-me a graça da renovação de meu espírito, com uma vida totalmente conforme à vossa lei.

Deus meu: proponho firmemente, com o auxílio de vossa graça, não admitir jamais ofensa vossa. Oh! não mais pecar, não mais desprezar vossos preceitos; guardá-los, sim, mais que as meninas dos meus olhos.

Senhor: alcance eu de vós esta mercê; que, no ponto em que certamente hei de cair de vossa graça, antes caia morto de repente; porque viver com injúria vossa pior morte é que a mesma morte, e maior desgraça que o inferno.

Jesus amorosíssimo, Jesus minha Redenção e remédio: de tantas lágrimas que andando neste mundo chorastes, dai-me uma para que amoleça este coração, e o derreta pelos olhos. Dai-me uma lágrima vossa, para que a apresente a vosso Eterno Padre em remissão de meus pecados. 


DÉCADA II

406 — Não entreis, Senhor, em juízo com vosso servo; porque nenhum vivente se justificará diante de vós. De mil cargos que me fizerdes, não poderei responder a um só. Todo me entrego nos braços de vossa misericórdia.

Que maldade há no mundo tão execrável, que eu não esteja pronto para a cometer? Senhor, amarrai com as cadeias de vosso santo temor as fúrias de minha liberdade; porque sou capaz de tornar a crucificar-vos.

Isto me pasma, Senhor: como não respeitei vossa presença! Como não temi vossa indignação! Como me não compadeci de vossas dores! Como pisei vosso Sangue! Como não correspondi a tanto amor! Não pode haver maior cegueira.

Pecaste, alma minha: diz-me, agora, que fruto tiraste do teu pecado? Amaste as criaturas mais que ao Criador: que te ficou rendendo esta desordem? Perda da amizade de Deus, e do direito à sua glória, remorso de consciência, costume de tornar a pecar, escravidão ao demônio, reato da culpa, dívida da pena eterna. Oh, quem dera rios de lágrimas a meus olhos, para lamentar tão grave desgraça!

Vinde, vinde, Senhor, ao meu coração; formai um azorrague das cordas de vosso amor e temor, e lançai daqui todos os maus afetos que profanam a vossa casa.

Rogo-vos, meu Jesus, por aquele primeiro leite que bebeste nos peitos virginais de vossa Mãe Santíssima; e por aquelas sagradas primícias de vosso Sangue, que derramastes na Circuncisão, que não permitais que jamais caia de vossa graça nem esteja um ponto fora dela.

Pequei mais que o número das areias do mar. Porém, Senhor, as vossas misericórdias não têm número. Em vós ponho toda a minha esperança: não padecerei confusão eterna.

Eu a pecar; vós, Senhor, a perdoar-me. Eu a fazer-vos injúrias; vós a fazer-me benefícios. O certo é, Senhor, que cada um obra como quem é. Bendita seja vossa paciência, que tanto me esperou.

Muito agravado estais de mim, e vos sobra razão. Oh, quem para aplacar-vos tivera as lágrimas de uma Madalena, as penitências de uma Egipcíaca, os gemidos de um Agostinho, a compunção de um S. Pedro!

Ah, pecador atrevido e infame! Tu foste o que açoutaste a JESUS, tu o que o coroaste de espinhos; o que lhe lançaste salivas no rosto, o que o pregaste na Cruz. Como te não confundes?


DÉCADA III

407 — Lembrai-vos, Senhor, que sou obra de vossas mãos; lembrai-vos que vos custei muito na Cruz. Não entregueis às bestas infernais as almas que vos confessam.

Não me dirás, alma minha, que males te fez teu Deus, para que assim o ofendesses? Acaso foi crime o morrer por ti de amor em uma Cruz? Porventura te agravou em querer salvar-te, e dar-te o Reino de sua Glória? Que razão posso dar, Senhor, do pecado, que é a mesma sem-razão? Misericórdia.

Ora pazes, Senhor; pazes para sempre; fiz mal, assim o confesso diante do Céu e da Terra. Não farei mais; perdoai-me por quem sois.

Vaidade de vaidades, e tudo vaidade. Que me pode render o amor do mundo, e todas as suas coisas, senão deleite falso, que em um momento passa; tormento verdadeiro, que em uma eternidade não passa?

Que fará um desgraçado a quem a morte colheu em pecado mortal e sepultou nas profundezas? Oh, que gemidos! Oh, que ânsias! Oh, que remorsos! Oh, que desesperações! Oh, que incêndios! Tu não puderas já ser este? Quanto devo, Senhor, à vossa paciência! Bendita seja eternamente.

Não dissestes vós, Senhor, que havia grande festa e alegria no Céu quando algum pecador se convertia? Eia, amorosíssimo Jesus, fazei com vossa graça que seja eu o assunto desta alegria e festa.

Eis-me, aqui Senhor, que sou o filho pródigo, e dissipei a substância de vossa graça, e andei na região remota de vossa presença, apascentando os animais imundos de meus apetites; já torno para vossa graça, lançai-me os braços de vossa caridade.

Oh, banhe-me esse precioso Sangue, que com tanto amor derramastes pelos pecadores! Banhe-me todo com um perfeito batismo, e ficarei mais alvo que a neve.

Senhor Deus: aqui nesta vida me castigai, aqui me abrasai, contanto que me perdoeis eternamente. Não queirais, Senhor, entesourar contra mim vossa ira; não me guardeis para a outra vida a satisfação de vossa justiça.

Oh, horas preciosas dadas para servir e amar a Deus, e empregadas em ofendê-lo! Quem nunca houvera nascido para tanto mal! Ou quem de novo tornara a nascer, para o emendar!


DÉCADA IV

408 — Oh, que cego andava eu Senhor, pois estava sem vós, e vós sois Luz! Oh, como ia errado, pois estava fora de vós, e vós sois Caminho! Oh, que nesciamente procedia, pois estava sem vós, e vós sois Sabedoria! Oh, como estava morto, pois estava sem vós, e vós sois vida!

Nada sou, nada valho, nada posso senão ofender-vos, e precipitar-me no inferno. Esta mesma verdade que agora conheço, se afastares vossa luz, me ficará oculta; e sobre tantas misérias minhas se acrescentará outra, de as não conhecer.

Oh, alma minha, em que te ocupas, em que te enredas? O teu Jesus coroado de espinhos, e tu de flores? Ele suando Sangue, e tu buscando refrigérios? Ele farto de opróbrios, tu faminta de honras? Oh, confusão! Mudemos de vida; tomemos a Cruz; sigamos os passos de Cristo.

De quantos bens me destes, Senhor, usei mal, e em ofensa vossa. Se me fizésseis Anjo, creio que já também fora demônio. Oh, quem tivera digno sentimento de tão enormes excessos, verdadeira dor de pecados tão graves!

O ofício que tomei, Senhor, foi o de pecar; e neste me exercitei com toda a diligência, estudando muito de propósito na maldade. Oh, que bem concordava isto com o fim para que vós me criastes, que é amar-vos, e gozar-vos eternamente! Só vós, que sois infinito em bondade, podereis sofrer tanto.

Onde me esconderei, Senhor, até que passe a vossa ira? Fugirei de vós para vós mesmo; de vós, reto Juiz, para vós, Pai clementíssimo. Em vossas chagas me recolho, que este é o sagrado que vale aos que vão fugindo à vossa justiça.

Oh, quanta foi até agora minha negligência e descuido! O tempo que me concedestes para a penitência, desperdicei-o; os auxílios de vossa graça, rejeitei-os; às vozes com que me chamáveis me fiz surdo. E agora, Senhor, que hei de fazer? Pesa-me de haver pecado; havei de mim misericórdia, misericórdia.

Que dormisse eu tão seguro sobre a vossa ofensa, pendurado do fio da vida sobre a boca do inferno! Grande temeridade a minha! Senhor, dai-me entendimento, e viverei amando-vos e servindo-vos.

Oh, se eu já desprezasse o mundo como ele merece! Oh, se metera debaixo dos pés todas as coisas terrenas! Oh, se somente fizera estimação das eternas!

Afastai, Senhor, vosso rosto de meus pecados; e apagai e extingui todas as minhas iniqüidades. Criai em mim um coração novo; e renovai o espírito reto em minhas entranhas.


DÉCADA V

409 — Sei que hei de aparecer em vosso tribunal; sei que hei de dar-vos estreita conta de toda a minha vida. Não me atrevo, Senhor, a suportar vossos olhos irados. Ordenai agora minha vida, de modo que não desmereça então vê-los benignos.

Aqui vos mostro, Senhor, todas as minhas chagas. Vede como são muitas, como são profundas, como são envelhecidas? Ó médico Divino, sarai as minhas chagas com as vossas; que, para os filhos de Adão estarem sãos, quis o Filho de Deus estar chagado.

Não te desalentes, Alma minha, com a enormidade e multidão de teus pecados. Espera sempre em Deus até à noite cerrada da tua morte; que em Deus há infinita misericórdia e redenção copiosa.

Ajudai-me, Deus Salvador meu; livrai-me por amor da glória do vosso nome. Não vos lembreis de minhas maldades; submergi-as no mar de vossa bondade imensa.

Olha, Alma minha, olha para teu Deus posto por ti em uma Cruz, eis ali o que perdoa, e apaga os teus pecados. Vê quanto padeceu por te salvar; vê com que fina caridade te ama. Guarda-te de jamais tornar a ofendê-lo.

A vós, Senhor, que sois dulcíssimo Esposo de minha alma, desprezei-vos; ao demônio, que é adúltero, fiz-lhe a vontade. Tomara morrer de sentimento de tão feia desordem. Tomara chorar de dia e de noite tão execranda maldade.

Que tenho eu com o mundo, que passa como figura? Que tenho eu com a carne, que murcha como flor? Que tenho com as coisas transitórias, que tudo é engano, perigo, trabalho, vaidade? Eia, eia, salvemos a alma nas tabuas da Cruz, fazendo penitência.

Oh, momento do qual pende a eternidade! Só quem te não considera te não teme. Abri-me, Senhor, os olhos da alma, não me suceda adormecer no letargo da morte eterna.

Senhor, aqui venho fugindo de meus inimigos: abri-me as portas de vossa misericórdia. Recolhei o vosso fugitivo, meu Deus; recolhei-me depressa, que meus inimigos me vêm ao alcance.

Dulcíssimo Jesus: o vosso soberano nome quer dizer Salvador; obrai em mim conforme vosso nome e salvai-me.


PADRE MANUEL BERNARDES (1644-1710)


 
Fonte: Permanência
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