DA MODÉSTIA E DA HUMILDADE
VÍCIO OPOSTO: O ORGULHO — PECADO DOS NOSSOS PRIMEIROS PAIS — NATURALISMO E LAICISMO
A modéstia (CLX, CLXX).
Que entendeis por modéstia?
Uma virtude que serve para refrear e moderar o apetite em matérias mais fáceis do que as da temperança, da continência, da clemência e da mansidão (CLX, 1, 2).
Logo, sobre que coisas exerce o seu influxo?
Sobre o desejo imoderado de grandezas, de saber e aprender; sobre os ademanes e movimentos do corpo e a maneira de vestir (CLX, 2).
Que nomes têm as virtudes deputadas para regular os movimentos afetivos relacionados com cada uma destas matérias?
As de humildade, estudiosidade e modéstia (Ibid).
I - Que entendeis por humildade?
Uma virtude que inclina o homem a reprimir e disciplinar a ambição de honras e grandezas, de forma que não queira nem procure senão as correspondentes à hierarquia em que Deus o colocou (CLXI, 1, 2).
Que consequências práticas devemos tirar desta definição?
A convicção íntima de que, prescindindo dos dotes que Deus graciosamente nos concedeu, a nada temos direito, já que, de colheita própria, só recolhemos como frutos, pecados; e, pelo contrário, todas as honras e excelências pertencem aos outros, na proporção da medida com que a Deus aprouve fazê-los participantes das Suas perfeições; além disso, ao reconhecermos em nós mesmos as boas qualidades e dons de Deus, devemos procurar que os outros homens honrem em nós a Deus, como neles nós O honramos (CLXI, 3).
Logo, a humildade é inseparável da verdade, e apoiado na verdade, pode um homem considerar-se inferior a todos os outros?
Com as preditas delimitações, sim, senhor (Ibid).
Que nome tem o vício oposto à humildade?
O de soberba ou orgulho (CLXII).
I.1 - Que entendeis por soberba?
Um vício especial e, em certo modo, também geral, por cujo impulso, esquecendo e desprezando a Lei, o homem se inclina a dominar e submeter tudo ao seu capricho, considerando-se superior a tudo quanto o rodeia (CLXII, 1, 2).
Por que dizeis que, sendo um vício especial, também é de alguma maneira geral?
É especial porque tem como fim próprio o desejo de dominar e sobressair-se, sem levar em consideração a subordinação e o respeito devidos a Deus; e é geral, porque este mesmo desejo é aproveitado por todos os outros pecados.
É muito grave o pecado da soberba?
É o mais grave de todos os pecados, porque envolve desprezo direto de Deus e, neste conceito, aumenta a gravidade de todos os outros, qualquer que seja a que tenham por si mesmos (CLXII, 6).
É e tem sido sempre a soberba o primeiro pecado?
Sim, senhor; porque envolve primária e essencialmente desprezo, aversão e separação de Deus, que nos outros pecados não é elemento constitutivo, mas simplesmente resultado; portanto, não pode existir pecado mortal que não pressuponha o da soberba ainda que dele se distinga (CLXII, 7).
É pecado capital?
É mais do que pecado capital; é o chefe e rei de todos os vícios e pecados (CLXII, 8).
Qual foi o pecado dos nossos primeiros pais?
O da soberba, como antes o tinha sido dos anjos rebeldes (CLXIII, 1).
Não seria antes o pecado da gula, da desobediência, da curiosidade ou da falta de fé na palavra de Deus?
Todos estes pecados, que, com efeito, acompanharam a primeira falta, foram consequência do pecado de soberba, antes do qual não podiam ter-se cometido (CLXIII, 1).
Por que dizeis que, antes de se ter cometido o pecado de soberba, não se podia cometer nenhum outro?
Porque o estado de inocência era acompanhado do dom da integridade, em virtude do qual todas as potências e faculdades guardavam perfeita subordinação, enquanto o espírito permanecesse sujeito a Deus; logo, para romper o equilíbrio foi necessário que a razão sacudisse o jugo divino, obtendo uma independência que não lhe pertencia, e nisto consiste o pecado da soberba (CLXIII, 1, 2).
Os pecados do naturalismo e laicismo, tão difundidos depois da reforma protestante, da renascença pagã e da revolução francesa, são pecados de soberba?
Sim, senhor; e daí provém a sua gravidade, por serem a reprodução do grito de rebelião que proferiram, primeiro, Satanás e os seus anjos, e, depois, os nossos primeiros pais.




















