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segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Vida de Santa Eufêmia, virgem e mártir

Hoje a Igreja celebra a memória de Santa Eufêmia, uma das patronas da família d'Amore di Ugento, junto com Santa Eulália e Santo Mango. Que Santa Eufêmia rogue por nós, para que nos mantenhamos fiéis ao compromisso assumido no Batismo e ao combate da Fé, para que, naquele dia que vem chegando inexorável, Deus nos encontre trabalhando para Ele. Viva Cristo Rei! Viva a Igreja Católica! 



Vida de Santa Eufêmia, culto e lenda


 


Restos mortais de Santa Eufêmia
Uma lenda muito antiga narra que Santa Eufêmia faz parte de um grupo de nove irmãs gémeas (Quitéria, Genebra, Vitória, Eufêmia, Marinha, Marciana, Germana, Basília e Liberata), que a mãe mandou afogar no rio Este (em Braga). Sita, a criada, toma as crianças e confia-as aos cuidados de Santo Ovídio, o Prelado bracarense. E, de acordo com a lenda, as nove irmãs teriam sido martirizadas no tempo do Imperador Adriano.

Não obstante haver muitas cidades a disputar o berço de Santa Eufêmia, e outras tantas lendas a propósito do seu miraculoso nascimento, sabe-se que há apenas uma Mártir com este nome: Santa Eufêmia de Calcedónia. Nasceu na Bitínia, em data ignorada, e foi martirizada em Calcedónia (Grécia) por volta dos anos 307 - 310 da era cristã, aquando das encarniçadas perseguições movidas pelo Imperador romano aos cristãos. Após as várias torturas a que foi sujeita para que renegasse a fé cristã, foi lançada aos leões, no circo. Mas estes pouparam-na. Irados, os seus algozes mataram-na com um golpe de espada.


Encontramos não poucas referências a Santa Eufêmia nos escritores antigos. Várias igrejas foram construídas em sua honra um pouco por todo o orbe cristão. Foi na igreja de Santa Eufêmia que reuniu o Concílio de Calcedónia, no ano 451.

O Concílio de Calcedónia – o IV Concílio Ecumênico – foi convocado pelo imperador Marciano, com assentimento do Papa São Leão, para definir o dogma cristológico. Participaram entre 500 a 600 bispos, quase todos orientais. Foi nessa altura proclamada uma importante fórmula de fé, que definiu a unidade da pessoa de Cristo em duas naturezas – homem e Deus – sem confusão nem mudança, sem divisão nem separação.

Neste Concílio foram também aprovados vários cânones disciplinares sobre os bispos, os clérigos, os monges e as paróquias.

A festa de Santa Eufêmia realiza-se no dia 16 de Setembro.



Santa Eufêmia de Calcedónia é representada iconograficamente de vários modos: com uma espada cravada no peito; com dois leões, deitados, a seus pés; com um lírio ou uma palma de martírio. É também representada com uma roda (alusão a um dos tormentos que lhe foram infligidos antes de ter sido atirada aos leões).

Atendendo a que Santa Eufêmia faz parte duma imensa multidão de mártires da primitiva Igreja, não são muitos os dados biográficos que dela chegaram até nós. Aliás, a escassez de dados biográficos contrasta com as muitas referências que são feitas à Santa de Calcedónia, cidade na qual teve lugar um dos grandes Concílios da Igreja. Infelizmente, abundam por aí as mais variadas lendas, sem o mínimo dos mínimos de credibilidade ao redor desta santa. Aqui e além, porém, podemos respigar alguns breves apontamentos biográficos fidedignos. Transcrevo um deles:

O procônsul Orisco enamora-se da virgem Eufêmia de Calcedónia, e a tinha atormentado já sem a vencer. Ameaçou-a de queimá-la viva, se não renunciasse à sua fé.

- Não temo esse fogo com que me ameaças, diz-lhe ela com ar intrépido; acende-se quando se quer e por si mesmo se apaga; tenho bastante coragem para não temer dores que não tem quase senão um momento de duração. O que me faz tremer é o pensamento do fogo eterno, que arde e arderá sempre nos infernos, esse fogo que arderá sempre cada vez mais sem nunca afrouxar; esse fogo que está preparado para aqueles que sacrificam aos ídolos e abandonam o verdadeiro Deus. (180) (1)

Há, no norte de Portugal, vários templos dedicados a Santa Eufêmia de Calcedónia. Citarei a título de exemplo, os seguintes: Arouca, Castelo de Paiva, Paranhos da Beira, Penela (Coimbra), Gerês… Também em Ovar, na igreja de Nossa Senhora do Parto, há um altar dedicado a Santa Eufêmia.

Encontrei no Arquivo Paroquial de Alvarelhos uma carta, endereçada ao antigo pároco desta freguesia, Pe. Manuel Antônio Moreira, datada de 1955, que fala de uma imagem de Santa Eufêmia existente na capela de Miragaia, da freguesia de Travanca (concelho de Cinfães):

Estou prestes a concluir uns apontamentos monográficos (para publicação) acerca da freguesia de Travanca do concelho de Cinfães e não os queria dar por findos sem primeiro obter mais umas informações que, talvez, V. Reverência me possa fornecer.

(…) Tenho a informação que existe aí, nessa freguesia, uma velha imagem de Santa Eufêmia, a que ainda hoje há quem chame Santa Eufêmia de Miragaia, como recordação duma imagem de Santa Eufêmia que existiu na capela de Miragaia, da referida freguesia de Travanca do concelho de Cinfães.

Será assim? (2)


É já centenária a devoção a Santa Eufêmia, no Monte Grande, na freguesia de Alvarelhos. O mais antigo documento escrito no qual se faz referência ao “Monte de Santa Eufêmia” remonta ao ano de 1636, a propósito da delimitação das Terras da Maia que pagavam dízimos e primícias ao mosteiro beneditino de Vairão. A primitiva ermida em honra da Santa mártir de Calcedónia, que deu origem à capela e, mais tarde, ao Santuário, terá sido edificada em finais de 1500.

Havendo, como afirmei já, apenas uma Santa chamada Eufêmia (de Calcedónia), quero aqui transcrever a lenda de Santa Eufêmia e suas irmãs mártires – a lendária Santa Eufêmia portuguesa. Trata-se de uma lenda, sem qualquer fundamento histórico, como é óbvio. Todavia, atendendo a que não deixa de ser uma das mais curiosas lendas que li até hoje, acho oportuno citá-la.

Santa Eufêmia teve o seu berço em Calcedónia, cidade da Ásia Menor, junto ao Mar Negro.

Ali nasceu no último quartel do século II da era cristã, e ali sofreu também o martírio no ano 303, sob o império de Diocleciano. Porque era objeto de grande veneração em toda a cristandade, a partir da Idade Média várias cidades se atribuíram a glória de lhe terem servido de berço, entre as quais a de Braga. Este facto deu origem a várias lendas que os célebres “cronicões” se encarregaram de registrar e fazer acreditar através de muitas gerações. Porém, nos nossos dias, vários hagiógrafos de renome, depois de se terem debruçado pacientemente sobre os documentos autênticos da especialidade, puderam chegar á conclusão certa de que houve apenas uma comemorada na Igreja Católica no dia 16 de Setembro.

Segundo a velha tradição, é uma das oito irmãs gêmeas de Santa Quitéria. Viveu no século segundo da era cristã, tendo nascido, provavelmente, no ano 120.

Era filha de Lúcio Caio Atílio Severo, Régulo duma das províncias do Império Romano, a qual se compunha de parte da antiga Lusitânia e de parte da Galiza.

Lúcio Caio residia na cidade de Braga e era casado com D. Cálcia Lúcia, ambos de famílias muito ilustres, mas idólatras e gentios.

Lúcio Caio soube conquistar de tal maneira as boas graças do Senado Romano, que este o elegeu Cônsul, um dos mais elevados cargos do Império.

O imperador Adriano também depositava nele a maior confiança.


Encarregou-o, por isso, de fazer uma visita oficial á Galiza, para que o informasse das necessidades mais urgentes de seus povos, pois resolvera visitar todas as províncias do Império, e queria minorar a sorte de todos aqueles que se encontravam oprimidos pela tirania dos governadores.

Durante as longas ausências de Lúcio Caio em Roma, a rainha Cálcia ficava na cidade de Braga, onde tinham o seu palácio.

Partindo de Roma para se desempenhar da missão de que fora, encarregado pelo Imperador, veio por Braga, onde se demorou durante algum tempo junto da esposa. Esta, depois de ser estéril durante anos, concebeu nesta ocasião, e ficou grávida quando Lúcio Caio seguiu para a Galiza.

Chegado o tempo do parto, durante a ausência de Lúcio Caio, a rainha Cálcia deu á luz nove meninas duma beleza encantadora.

Abismada com tão estranho e raro acontecimento, e receosa de que seu marido viesse a suspeitar da sua fidelidade à vista duma prole tão numerosa, Cálcia concebeu um projeto que só lhe podiam inspirar os espíritos infernais: desfazer-se de todas as suas filhinhas, mandando-as afogar no rio Este, que passa junto da cidade de Braga.

Comunica este seu execrando projeto a sua criada, Sita, que lhe assistira ao parto, e a única pessoa que tivera conhecimento do extraordinário fenômeno.

Depois de obrigá-lo a prometer-lhe que guardaria de tudo o maior segredo, ordena lhe que faça divulgar a noticia de que a rainha tivera infeliz sucesso no parto; e que aproveitando a escuridão da noite, tome em um cesto as nove criancinhas e vá lançá-las num dos pélagos mais profundos do rio Este.

Sita, porém, era cristã, embora ocultamente. Por isso, não podia colaborar em crime tão monstruoso. A sua reta consciência de cristã fervorosa não lho podia consentir.

Perplexa, sem atinar com o que devia fazer, recolhe-se por momentos em fervorosa oração, invocando o auxilio de céu em tão delicada conjuntura.

E, como sempre sucede àquele que bem ora, o socorro do Alto não se fez esperar.

Inspirada pela Divina Providência, Sita toma as nove inocentes criancinhas; e, em vez de se dirigir para o rio, como lhe ordenara a rainha, corre a levá-las ao arcebispo de Braga, Santo Ovídio, pedindo-lhe que as batize, a fim de assegurar, antes de tudo, a vida da alma, a quem corria tão grande risco de perder a do próprio Corpo.

O Santo Arcebispo, posto ao facto de tudo o que se passava, depois de louvar a santa solicitude de Sita, derrama sobre as cabeças das felizes meninas as águas lustrais do batismo, impondo-lhes os seguintes nomes: Quitéria, Genebra, Vitória, Eufêmia, Marinha, Marciana, Germana, Basilia e Liberata.

Radiante de alegria, ao ver as inocentes meninas livres da maior desgraça que as ameaçava, a de morrerem sem o santo batismo, Sita vai agora esforçar-se por lhes salvar também a vida do corpo.

Com esse fim, toma novamente as meninas, e vai procurar amas de leite, cristãs, que as criem e eduquem na Santa Religião de Cristo.

E como nesses tempos primitivos da Igreja já estava muito espalhada a Fé Cristã na cidade de Braga e seus arredores, foi-lhe fácil encontrá-las.

Santo Ovídio nunca mais deixou de se interessar pelas felizes meninas, e tomou mesmo à sua conta todos os encargos da sua criação e educação. A formação religiosa, que receberam, foi a mais completa possível; e produziu uma tão grande influência nos corações das santas meninas, que veio a informar por completo toda a sua vida.

Chegadas que foram ao uso da razão, foi-lhes revelado quem eram, qual o seu admirável nascimento, a bárbara determinação de sua ímpia mãe e o modo como a Divina Providência as livrara da morte, não só do corpo mas também da alma.

Não cessavam, por isso, de render graças a Deus, por as ter preservado da morte e sobretudo de morrerem sem o santo Batismo.

Foram crescendo em idade e em virtudes, consagrando um afeto verdadeiramente filial às suas mães espirituais, que, depois de lhes terem dado o leite, lhes ministravam também a ciência da virtude e da santidade, sob a direção do santo Arcebispo bracarense.

Aos dez anos de idade, as nove princesinhas foram recolhidas numa casa dos arrabaldes de Braga, numa espécie de comunidade religiosa.

Ali, depois de consagrarem a Deus a pureza da sua alma e do seu corpo pelo voto de castidade, exercitavam-se cada dia na prática de todas as virtudes cristãs.

Assim decorreram cerca de dez anos.

E as santas donzelas mais pareciam do céu do que da terra: eram anjos na pureza, querubins no fervor, serafins no amor!

Por este tempo, o imperador Adriano decretava uma nova perseguição contra os cristãos em todas as províncias do Império e encarregava Lúcio Caio de dar execução ao iníquo decreto na Lusitânia e na Galiza.

As santas donzelinhas, cujas virtudes cristãs já irradiavam o seu suave perfume por todas aquelas redondezas, foram, dentro em poucos denunciadas como cristãs, presas juntamente com Sita, e levadas à presença do Governador, sem que este suspeitasse que eram suas filhas.

O Régulo Bracarense ficou encantado com a beleza e a compostura das angélicas donzelas.

De aspecto severo, mas de coração bondoso, perguntou-lhes quem eram, que religião professavam e se estavam resolvidas a cumprir as ordens do Imperador, adorando os deuses do Império.

Então Genebra tomou a palavra e em nome de todas respondeu:

“Senhor: se nos perguntas pela nossa linhagem, acredita que em nossas veias gira o sangue da principal nobreza desta província, porque somos todas tuas filhas e de Cálcia, tua esposa. Quanto à religião que professamos, adoramos Cristo, Filho de Deus vivo, com quem nos desposamos pelo batismo. Estamos prontas a dar o sangue das nossas veias pela confissão do seu Santo Nome, mesmo à custa dos maiores tormentos”.

Contou-lhe em seguida as circunstâncias do seu nascimento, e o modo como escaparam a morte a que a mãe as condenara. Fê-lo ciente da sua criação e educação e da resolução em que todas perseveravam de se manterem fiéis a Jesus Cristo, e concluiu com estas palavras: “Aqui estamos na tua presença; dispõe de nós como melhor te parecer”.

Lúcio Caio ficou passado de espanto.

Ele recorda-se de algumas coisas passadas, que o inclinam a acreditar o que ouvira. Muda de cor por diferentes vezes e não pode ocultar a inquietação que sente dentro do peito.

Suspende o ato judicial, e manda retirar os ministros, ficando só com as meninas e com Sita. Tira-lhes dos pulsos as algemas e, conduzindo-as ao interior do palácio, chama Cálcia e conta-lhe tudo o que acabava de ouvir.

Cálcia fica cheia de confusão e de medo, e ainda mais, quando Sita lhe explica o modo como salvara a vida daquelas inocentes meninas. Cálcia não se atreve a negar, antes confirma, envergonhada, a verdade de todo aquele mistério.

Sem ao menos deixar a esposa terminar a sua narração, logo que Lúcio Caio ouviu da rainha a confirmação das afirmações de Genebra e Sita, corre para junto de suas filhas, abraça-as uma a uma, com toda a ternura de pai, e diz-lhes que uma coisa lhes exigia para como filhas as receber no seu palácio: renegarem a fé Cristã e prestarem culto aos deuses do Império. De contrário, seriam sujeitas aos maiores tormentos, esperando-as a morte mais ignominiosa.

Mas, nem as promessas nem as ameaças conseguiram demover as santas donzelas. Ao contrário com o mais nobre desprendimento das riquezas e glórias do mundo, protestaram inteira fidelidade ao divino Esposo de suas almas, afirmando todas que preferiam a morte a renegarem a sua fé.

Lúcio Caio ficou atônito com esta unânime constância. Mas não desanimou.

Confiado em que refletindo melhor, as filhas acabariam por ceder, mandou encerrá-las numa dependência do palácio, até que o resto se rendessem.

Encerradas, pois, todo o resto daquele dia e parte da noite, as santas virgens perseveraram em humilde e fervorosa oração, pedindo ao Senhor que lhes inspirasse a melhor forma de em tudo fazerem a sua Santíssima Vontade e lhes concedesse a virtude da Fortaleza.

Porém, no silêncio da noite, quando todas lamentavam, não a morte que as esperava, mas o verem que seu pai ia manchar as mãos no sangue das próprias filhas, eis que Deus lhes envia um Anjo Consolador a ordenar-lhes que fujam dali em direção aos montes das cercanias, onde deviam separar-se, tomando cada uma o rumo que o Senhor ia inspirar-lhe. E, como o Anjo lhes facilitou a saída, deixaram o palácio sem que ninguém as pressentisse.

Dirigiram-se às montanhas mais próximas, como lhes ordenara o Anjo, e ai, estreitando-se num abraço derradeiro, tomou cada qual o caminho que o Senhor lhe inspirou.

Lúcio Caio, logo que teve conhecimento da misteriosa fuga de suas filhas, ficou furioso e mandou emissários em perseguição delas, para as prenderem e reconduzirem ao palácio. Mas, apesar de todos os esforços feitos, apenas conseguiram reaver Quitéria, que foi a primeira a sofrer o martírio, como adiante se verá.

Santa Eufêmia na dispersão das nove irmãs foi guiada pelo seu Anjo para a extinta cidade de Obóbriga, que ficava não muito distante de Braga. Foi ali recebida por uma família cristã junto da qual se conservou durante algum tempo, levando sempre uma vida recolhida, de intensa piedade e de continua mortificação.

Deus, porém, ainda a chamava a uma vida de maior penitência e recolhimento, em que ia preparar-se para as glórias do martírio. Por isso, obedecendo às inspirações da graça e sempre guiada pelo Anjo, deixou a cidade de Obóbriga e dirigiu-se para a Serra do Gerez, onde permaneceu durante dois anos entregue aos rigores da mais austera penitência. Numa espécie de gruta que ali encontrou na concavidade de um rochedo, ela se abrigava das inclemências do tempo. Alimentava-se de ervas e frutos bravios e, de longe, de em longe, de algum bocado de pão que lhe ofereciam os pastores que por ali apascentavam seus rebanhos.

Em certa ocasião veio a saber, pelos mesmos pastores da serra, que em Obóbriga começara uma violenta perseguição contra os cristãos, para se dar execução ao decreto do Imperador. Inflamadas de zelo pela glória de Deus, e temendo que os cristãos perseguidos vacilassem na Fé e acabassem por renegar a Jesus Cristo, Eufêmia decidiu-se a abandonar a serra e regressar à cidade, a fim de dar ânimo e constância às vitimas da perseguição.

Foi então verdadeiramente incansável no seu heroico apostolado. Ela acorria a toda a parte onde houvesse cristãos perseguidos.

Era admirável vê-la, transbordante de zelo pela salvação das almas, reunir os cristãos nas casas particulares e até nas praças públicas, a falar-lhes dos sublimes mistérios da nossa fé, da caducidade dos bens da terra, e de como é desprezível a vida terrena se, para conservá-la, for necessário renunciar à felicidade do céu.

Observando, porém, os gentios que Eufêmia com sua palavra inflamada não só tornava mais fortes na fé os cristãos, ainda convertia inúmeros pagãos à mesma Fé, arrebataram-na violentamente de entre a multidão que a escutava e levaram-na, algemada, no meio de uma algazarra infernal, à presença do governador da cidade. 


Este, julgando mais fácil persuadi-la pela brandura do que por ameaças e torturas, procurou insinuar-se-lhe no ânimo, tratando-a com afabilidade e dirigindo-lhe palavras de carinho.

Lamentou em termos de refinada hipocrisia o engano em que vivia, adorando e seguindo a Cristo, com desprezo dos deuses do Império.

Por isso lhe rogava que renegasse a sua fé, bastando uma só palavra para recuperar a liberdade.

Se persistisse, porém, na sua louca teimosia, esperavam-na a desonra, os tormentos e a morte mais ignominiosa.

Eufêmia, inspirada pelo Espírito Santo, respondeu, de angélico sorrir a aflorar-lhe nos lábios e com toda a serenidade, que nada havia no mundo capaz de a separar do amor de Jesus Cristo. Se para o provar fosse preciso verter todo o seu sangue, não hesitaria um só momento e julgar-se-ia imensamente feliz.

O governador, enfurecido com tão ousada resposta, mandou submetê-la aos bárbaros e desumanos açoutes, que a reduziram a uma chaga viva, gotejando sangue por todos os poros do seu corpo virginal.

Em seguida ordenou que a metessem numa masmorra escura e imunda, onde em breve deveria exalar o último suspiro.

Eufêmia suportava sorridente aqueles bárbaros suplícios e não cessava de agradecer ao Céu o tê-la julgado digna de sofrer pela sua Fé.

Mas Deus, querendo reservá-la para maiores batalhas, enviou à prisão um Anjo que miraculosamente a curou de todas as suas chagas e lhe deu alento para as duras pelejas que a esperavam ainda.

O governador, informado de que Eufêmia aparecera repentinamente curada, ordenou que a retirassem do calabouço e a cercassem de todas as comodidades e atenções.

Mais: por satânica inspiração, ordenou que lhe proporcionassem um encontro com jovens libertinos e corruptos que com promessas e seduções a amolecessem na sua constância, esperando que Eufêmia acabasse por ceder à tentação da impureza, a que logo se seguiria a apostasia da Fé.

O estratagema era deveras diabólico; mas enganou-se mais uma vez o iníquo governador.

Eufêmia repetiu, energicamente, com uma santa indignação, os infames sedutores, de tal modo que os convenceu da inutilidade de seus perversos esforços.

Desiludido e enfurecido, o governador ordenou que a atormentassem num cavalete de ferro, o que prontamente se executou. Insatisfeito ainda, mandou acender uma fogueira e suspender pelos cabelos sobre ela a nossa Santa.

Mas Eufêmia, amparada por uma graça especial de Deus, longe de desfalecer, não cessava de cantar os louvores do Senhor, no meio destes tormentos.

Envergonhado por tantas derrotas, o iníquo governador, cego pelo seu fanatismo pagão, ordenou que a levassem à Serra do Gerez e aí a precipitassem do alto dum elevado rochedo, para que morresse despedaçada no fundo do abismo.

Porém, ó prodígio!

Mais uma vez o Senhor veio em socorro da sua fiel serva, mandando-lhe um Anjo que a suspendeu no ar, e, de mansinho, a depôs no fundo do vale, sã e salva, sem a mais leve arranhadura!

Vendo os ímpios ministros da execução que Eufêmia escapara mais uma vez às suas mãos iníquas, levaram-na de rastos à presença do governador, o qual, num acesso de furor, puxou da própria espada e, apontando-a ao seu angélico peito, lhe atravessou o coração.

Assim se desprendeu esta bela alma de seu corpo mortal, para desferir o seu voo em direção ao céu.

Assim findou a sua peregrinação na terra esta grande heroica da Santidade.

Foi no dia 13 de Abril do ano de 140 da era cristã.

Tinha então 20 anos de idade. No mesmo dia foram também martirizados dois confessores da Fé, cujos nomes se ignoram, e seus corpos lançados a um valado juntamente com o de Santa Eufêmia. Os cristãos daquele lugar foram de noite buscar as venerandas relíquias e deram-lhes piedosa sepultura junto dos muros da cidade de Obóbriga. Com as invasões dos bárbaros, que se deram nos séculos seguintes, desapareceu a tradição do lugar da sepultura de Santa Eufêmia.

Passaram-se séculos.

Só no ano de 1090 se dignou Deus revelar ao mundo o corpo de Santa Eufêmia, para sua pública veneração.

Certo dia, pastoreando o seu rebanho naqueles sítios uma inocente e piedosa rapariga, em dado momento observou uma mão que emergia da terra e se agitava, tendo num dos dedos um anel de ouro com uma resplandecente pedra preciosa. A rapariga aproxima-se da mão misteriosa, toma-lhe o anel, e larga em desabrida correria para sua casa, a mostrar aos pais o precioso achado e a contar-lhe o estranho fenômeno.

Mas, ó prodígio! A rapariga ficara muda, só podendo por sinais informá-los do sucedido.

O pai acompanha-a, sobressaltado, ao miraculoso local, e, vendo a mão misteriosa, toma o anel e coloca-o no seu lugar.

Imediatamente a rapariga recupera a fala e começa a relatar ao pai tudo o que se havia passado. Ao mesmo tempo ouviram uma voz que dizia:

“Aqui está o corpo de Santa Eufêmia; tratai de o levar para a igreja de Santa Marinha para ai ser venerado”.

Confuso e alegre ao mesmo tempo, o lavrador volta a casa e conta aos vizinhos e amigos o sucedido.

Dirigem-se ao local, mas já não se vê ali a mão misteriosa. Cavam; e com admiração de todos, aparecem os corpos de Santa Eufêmia e dos dois mártires que com ela morreram pela Fé.

Estas relíquias foram encerradas religiosamente numa urna e trasladadas para a capela de Santa Marinha, que distava dali um quarto de légua.

Crescendo a devoção dos cristãos para com Santa Eufêmia e Santa Marinha, a pequena capela foi, dentro em pouco, transformada em Igreja paroquial com o título de Santa Marinha de Covide, e o corpo de Santa Eufêmia foi depositado numa capela anexa.

Porém, 60 anos mais tarde, ou seja, em 1158, o bispo de Orense (Galiza), muito devoto de Santa Eufêmia, desejando possuir na sua Sé as veneradas relíquias e invocando direitos que desconhecemos, veio a Covide acompanhado dum grande séquito de sacerdotes e de povo; e, colocando o Santo corpo numa urna nova, o fazia transportar com toda a pompa e solenidade para a sua Sé, quando lhe sai ao encontro o Arcebispo de Braga, com os sacerdotes e o povo da cidade, a protestarem contra a usurpação dos venerandos despojos, e a oporem-se à sua trasladação.

Para solucionar a questão, os dois bispos concordaram em entregar o caso à Providência, colocando a urna de Santa Eufêmia num carro tirado por uma junta de touros que nunca tivessem trabalhado, aos quais deixariam encaminhar-se para onde os guiasse o seu instinto.

Assim se fez; mas, com grande mágoa para o Arcebispo de Braga e seu povo, os touros tomaram o caminho de Ourense e, sem que ninguém os tangesse, foram quedar-se às portas desta cidade.

Conhecida assim a vontade de Deus, a veneranda relíquia foi levada numa procissão majestosa através das ruas de Orense até à Sé Catedral, onde ficou depositada e ainda hoje se encontra em grande veneração.

Orense celebra a festa de Santa Eufêmia no dia 16 de Agosto com um rito particular.

Portugal, embora privado do precioso corpo de Santa Eufêmia, nem por isso afrouxou a sua devoção por ela. Pelo contrário, tantos séculos são passados sobre a sua morte e até sobre a perda de suas relíquias, e, apesar disso, é cada vez maior a devoção popular pela simpática Santa Portuguesa.

Foi esta devoção popular que fez construir, aqui e além, Santuários em sua honra.

Na serra do Gerez há um que fica, segundo a tradição, no próprio lugar donde a Santa foi lançada ao fundo do precipício.

Este Santuário está situado junto do parque das famosas águas termais do Gerez e é frequentado pelos fiéis que ali vão à busca de melhoras para a saúde.

O do Monte da Carriça é, sem dúvida, o mais frequentado de Portugal, e o povo tem uma devoção verdadeiramente singular pela bela e milagrosa imagem que nele se venera. Ao longo dos tempos, multidões de crentes têm ajoelhado aos pés desta imagem, quanto deles derramando lágrimas de sentida gratidão pelos benefícios recebidos.

É esta melhor prova de como Santa Eufêmia se compraz em repartir, deste seu trono de misericórdia, graças e bênçãos sem conta a favor dos seus devotos.

Bendita seja, por isso, este Monte de maravilha e de milagre, Solar Sagrado da grande Santa que o escolheu para trono das suas benemerências.









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Santa Quitéria

Santa Quitéria – Foi a primeira a receber a coroa do martírio. Já ficou dito que a única que os emissários do pai puderam encontrar e reconduzir ao palácio. Embora ocultamente, pode continuar ali a sua vida de penitência e de intima união com Deus. Um dia, porém um jovem fidalgo bracarense chamado Germano, cativado pela sua rara formosura e outros encantos naturais, pediu-a em casamento a Lúcio Caio. Mas Quitéria já havia escolhido há muito a Jesus para seu esposo de sua alma. Por isso receando que seus pais quisessem obriga-la a aceitar a proposta, fugiu novamente do palácio e, na companhia de outras donzelas cristãs, dirigiu-se para o sul e foi fixar-se no Monte Pombeiro, em Felgueiras, onde operou muitas curas e conversões. Germano, despeitado e furioso, havia-se lançado em sua perseguição; e tendo-a encontrado naquele monte ajoelhada em fervorosa oração, desembainhou a espada e vibrou-lhe no pescoço um golpe tão violento, que lhe decepou a cabeça. Pombeiro é hoje o célebre Monte de Santa Quitéria, a que alguém já chamou o “Monte das maravilhas”. No rico Santuário que ali existe há um lindo altar onde se veneram as imagens de todas as irmãs de Santa Quitéria, dispostas num trono em forma de pinha, à frente das quais se destaca a de Santa Eufêmia. Este Santuário merece bem uma visita. O autor destas páginas já o visitou várias vezes e sempre com o maior enlevo e prazer espiritual. Fica a cerca de um quilómetro da igreja paroquial da vila de Margaride, a que pertence. O acesso é excelente e do alto da torre do Santuário pode admirar-se um panorama deslumbrante. 

Santa Marinha

Santa Marinha – Dirigiu-se para a Galiza, onde foi perseguida e presa por ser cristã. Foi açoitada e descarnada com pentes de ferro. Queimaram-lhe depois os seios e as costas com ferros em brasa; e, depois de outros tormentos de que escapou milagrosamente, foi finalmente degolada junto à cidade de Orense, na Galiza. É muito venerada em Portugal, onde muitas freguesias a escolheram para padroeiro.
Santa Vitória
 
Santa Vitória – Esta Santa foi martirizada em Espanha, na cidade de Córdova. Foi lançada numa fogueira, de que saiu miraculosamente ilesa. Também foi metida numa roda de navalhas que nenhum mal lhe fizeram. Foi por fim crivada de setas que lhe conquistaram a palma do martírio. É padroeira da cidade de Córdova.


Santa Genebra – Nada se sabe quanto ao modo como foi martirizada. Sabe-se apenas que sofreu o martírio na extinta cidade de Tide que existiu perto de Valença do Minho, e fora a capital de entre Lima e Minho.


 Santa Liberata – Desta Santa apenas se sabe que sofreu martírio da Cruz. Não são concordes os autores quanto ao local do martírio, mas o autor do “Dicionário Geográfico” é de opinião que foi na freguesia de Águas Santas do Conselho da Maia.
Santa Marciana

Santa Marciana – Crê-se que foi martirizada na cidade de Toledo, na Espanha. D. Rodrigo da Cunha diz que a martirizaram por ela fazer em pedaços um ídolo que estava sobre uma fonte jorrando água pelos pés. Foi por isso levada para a arena para ser devorada pelas feras. Veio primeiro um leão que se prostrou e lhe beijou os pés. Depois veio um touro que a feriu no peito e por fim um leopardo que a lançou por terra e a matou.



Santa Basília – Nada se sabe quanto ao martírio que sofreu, sabendo-se apenas que derramou o sangue por não renegar a fé cristã. Também divergem os autores quanto ao lugar em que foi martirizada; mas Cerqueira Pinto é de opinião que foi em Águas Santas, na Maia.


Santa Germana – Desconhece-se também o martírio que sofreu. Quanto ao lugar da sua morte não são concordes os autores, mas parece mais aceitável a opinião daqueles que afirmam que foi também em Águas Santas, juntamente com as Santas Basília e Liberata.



* * *

Ao encerrarmos esta singela exposição sobre a vida de Santa Eufêmia e suas irmãs, sai-nos do fundo da alma esta exclamação: “Ó! Como Deus é admirável nos seus Santos! Como são insondáveis os desígnios do Senhor!”

Quando estas meninas vieram ao mundo, duma mão pagã que as enjeitou e as quis matar, quem diria que ainda viriam a ser estrelas fulgurantes nos esplendores do céu? Mas a Providência de Deus velou por elas. Fê-las compreender e sentir quão desprezáveis são as grandezas da terra, quando para as alcançar é preciso renunciar às do céu.

Conduziu-as pelo caminho da Santidade! E elas foram fiéis à graça do Senhor. Deixaram-se guiar pelas inspirações do Alto e foram constantes na luta contra os inimigos da alma. (3)

O relato citado pelo Pe. Manuel António Moreira no primeiro estudo (e nas edições seguintes) sobre a devoção a Santa Eufêmia e o Santuário do “Alto da Carriça” rigorosamente nada tem de histórico-biográfico. Trata-se apenas e tão somente de uma lenda… e nada mais!

Há, no Arquivo Paroquial de Alvarelhos, entre o vasto espólio literário do Pe. Manuel António Moreira, quatro sermões a Santa Eufêmia (1938, 1939, 9/91956 e 8/9/1957 (Santa Eufêmia “pequena”). Em todos eles, a pregação gira inteiramente em torno da vida da Santa Eufêmia “portuguesa”, centrando o seu autor a atenção na lenda, e nunca falando da única cristã inscrita no calendário dos santos com esse nome – Santa Eufêmia de Calcedónia.

Oração a Santa Eufêmia de Calcedónia:



Eis-me aqui, gloriosa Santa Eufêmia de Calcedónia,
diante da vossa centenária imagem,
na presença da qual oraram tantas gerações
que a vossos pés colocaram as suas aflições,
desfiaram o seu rosário de amarguras e angústias
e, comovidas e gratas,
deixaram cair dos seus olhos
lágrimas de mudo e sentido agradecimento.
Concedei-me a força necessária para amar a vida.
Ajudai-me a viver na cidade dos homens
o que, na Jerusalém do alto, receberemos multiplicado.
Guiai-me na procura da verdade, da paz,
da justiça e da liberdade.
Que, guiado pelo vosso exemplo,
eu encontre em Cristo o verdadeiro e único Caminho
que me conduz à Verdade plena.
Que, ao contemplar a vossa firmeza na hora do martírio,
eu grave, bem vivas, no meu coração, as palavras do Mestre:
“somente aquele que perseverar até ao fim será salvo”.
Ajudai-me a anunciar Cristo e a revelar
“o poder e a sabedoria de Deus escondidos na cruz”.
Amparai-me, para que eu possa superar
as grandes ameaças morais
que abalam as áreas fundamentais da vida e do amor.
Que, através da beleza do testemunho dado
na cruz e ressurreição de Cristo,
possa eu renovar-me interiormente e, assim,
em mim se realize o “Evangelho das Bem-Aventuranças”.
Deste modo, serei contado
entre aqueles que possuirão o “Reino dos Céus”,
entre os que herdarão para sempre a terra da morada de Deus,
entre os que serão saciados definitivamente pela justiça,
entre os que encontrarão misericórdia,
entre aqueles cuja recompensa é o Reino de Deus.
AMEN.

(Autor: Pe. José Ramos)

Notas:
1 A Virgem Euphemia, in Boletim Popular, nº 1 (Janeiro de 1915), 10.
2 Documento existente no Arquivo Paroquial de Alvarelhos, na pasta “Pe. Manuel António Moreira”.
3 MANUEL ANTÓNIO MOREIRA, Vida de Santa Eufêmia, Alvarelhos, s/ d, 5ª edição, 25 – 48.

PDF: http://paroquia-alvarelhos.com/pdf/Vida_de_Santa_Eufemia.pdf.


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