Não se pode pensar que o problema diga respeito somente aos fiéis,
aqueles que vão à Missa regularmente e em breve encontrarão uma catedral sem
uma imagem do Cristo crucificado, substituída por uma “Cruz gloriosa” realizada
pelo japonês Hidetoshi Nagasawa,
filho de uma cultura xintoísta, um sujeito que, às vésperas do famigerado
sessenta e oito,
mudou-se para a vermelha
e operária Sesto San Giovanni.
A questão diz respeito à cultura e à tradição de qualquer um que more neste
País. Em
Reggio Emilia,
por ocasião da restauração da catedral — que é o símbolo da mais alta
autoridade religiosa na cidade, o bispo — alguns artistas contemporâneos foram contratados
para “renovar” o interior da igreja.
A modificação mais marcante e desconcertante diz respeito
justamente à
cruz de Nagasawa, confiada à mente e às mãos de um criador que nem
cristão é, e, de fato, eliminou Jesus, preferindo inspirar-se em um barco do
qual se desenvolve uma árvore estilizada (este desenho virado permite de obter precisamente
a forma de uma cruz). No entanto, a imagem de Cristo serve justamente para
estimular a oração. Para nós, homens insignificantes, é reconfortante lembrar
que naquele pedaço de madeira foi pregado um homem de carne e osso, com quem podemos
partilhar alegrias e tormentos. Pensem ao Cristo
de Don Camillo
,
que lhe fala, que o aconselha e o repreende. Imaginem a igreja do “Pequeno Mundo” de Giovannino Guareschi sem aquele Jesus, imaginem-na com a cruz do
xintoísta Nagasawa. Com quem deve dialogar Don Camillo, com uma arvorezinha?
Mas, dentre as intervenções — supervisionadas pelo consultor
para a adequação litúrgica, Mons. Giancarlo Santi —, há também um maravilhoso porta-círio
pascal, obra do escultor Ettore
Spalletti. Quanto mais olho para ele, mais me parece um tubo. Uma chaminé,
um mastro. A sensação que me dá é de uma extrema frieza, de distância. Parece
uma arquitetura industrial. Não quero dizer que não tenha seu charme, mas
parece mais adequado para abrigar uma bela vela em um restaurante
etno-chic de Milão, onde se possa
degustar algum refinado prato
fusion, com um
fundo musical
lounge.
Idem para o altar-mor. Removido o do século XVIII, foi inserido
um provisório de forma cúbica. Depois, foi encomendada a outro artista, Claudio Parmiggiani, uma mesa para altar
em pedra, que parece muito fora de contexto. Ao célebre criador Jannis Kounellis foi encomendada a realização
da cátedra episcopal, que será colocada na nave central e, portanto, fora do
presbitério. Todos os bancos de madeira, do século XIX, foram substituídos por cadeiras
dobráveis pretas, estas também extraordinárias para um coquetel à beira da
piscina, mas questionáveis em uma catedral.
“Falta o altar-mor”, escreveu em um recente artigo Elio Garzillo, ex-superintendente para
os bens arquitetônicos e diretor regional na Sardenha e Emilia Romagna,
observando como se produziu “a impressão de uma sala de aula longa quanto um vagão
de trem; faltam os bancos, os confessionários, os castiçais de madeira em cornucópia,
as suspensões”. Um grupo de intelectuais e cidadãos de Reggio Emilia se mobilizou
contra as “inovações” na Catedral. Explicou-me Stefano Maccarini Foscolo, animador dos críticos, que a administração
municipal e o Bispo Adriano Caprioli
não foram sequer levados em consideração. Além disso, agora a Catedral está
fechada, então ninguém ainda viu o que estão aprontando lá dentro. Deverá ser
reaberta ao público no dia de
ferragosto.
Ainda Maccarini faz observar a enésima estranheza: “A cripta
foi reinterpretada como um espaço ‘luminescente’, com escadas de vidro e aço, refletores
encaixados e painéis expositivos, removendo tudo que tinha ligação com a antiga
tradição”. Quem sabe, talvez farão uma boate subterrânea. Algumas das novidades
deverão servir para “democratizar” a função religiosa, para permitir uma maior
participação dos fiéis, mas a sensação é que se trata de modificações de cima
para baixo, sem levar em conta nem a comunidade nem a tradição. É por isso que
dizemos que a preocupação não diz respeito apenas aos cristãos, mas a todos.
Há tempos tornou-se moda nas cidades italianas — grandes e
pequenas – encomendar obras importantes a artistas contemporâneos famosos. Em
Reggio Emilia, foi confiada ao arquiteto Santiago
Calatrava a construção de uma ponte enorme, certamente não feia, mas anônima,
totalmente alheia ao lugar onde surgiu. A mesma coisa aconteceu em Veneza, onde
o mesmo Calatrava projetou uma ponte onde os transeuntes se arriscam a quebrar o
pescoço. Mas há também os arranha-céus retorcidos de City Life em Milão, as torres
de Babel criadas pelo arqui-star Daniel
Libeskind. Edifícios que poderiam ser encontrados em Tóquio ou Nova York, mais
do que na Lombardia, e nada mudaria. Trata-se da arte da moda, perfeita para
exportação e produção em série, fria e impessoal, como o interior da Catedral de
Reggio Emilia que os (poucos) projetos visíveis fazem perceber. Quanto provincianismo
há em uma escolha dessas. Opta-se pela assinatura do artista mais cool, sem levar em conta as arquiteturas
precedentes, a urbanística e a história.
“A coisa mais impressionante é a ruptura com a tradição”,
diz o teólogo Monsenhor Nicola Bux. “Não
da para entender por que não se deve pedir, àqueles que são chamados a
construir igrejas ou a propor mobília sacra, de terem fé. Os orientais, antes
de confeccionar um ícone, jejuam e rezam. Mas nós somos prisioneiros dos
grandes nomes, a mentalidade secular penetrou na Igreja. Queremos promover os
artistas não-crentes ou não-cristãos? Bem, deixemo-los expor no espaço em
frente ao templo, onde poderão refletir olhando o que acontece dentro. Muitas
vezes, estes artistas não sabem nem ao mesmo o que seja a liturgia católica.
Como podem projetar um elemento tão importante quanto a Cruz?”. Podem criá-lo
sim, como não? Nagasawa, por exemplo, inventou uma belíssima cruz zen. A ser exposta
em uma igreja católica. Tudo muito
fusion...