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domingo, 24 de janeiro de 2016

O TEMPO MEDIEVAL



O tempo é um fragmento da eternidade. Portanto, pertence a Deus. E, por conseguinte, à sua Igreja. O sol dita o ritmo das horas com o alternar-se dos anos e das estações, do dia e da noite. Aquele “branco manto de igrejas” que, como escreveu Roberto, o Glabro, recobriu de repente a Europa a partir do ano Mil, envolve também a vida cotidiana do homem medieval (na foto acima, o relógio da catedral de Wells).

As festas litúrgicas marcam o passar dos vários períodos do ano. Assim, os sinos, entre o amanhecer e o pôr-do-sol, sinalizam aos fiéis os ordenados fragmentos que compõem o dia, interrompido e recomposto três vezes pelo Ângelus, a prece católica que recorda o mistério da Encarnação.


Como escreveu Jacques Le Goff, existe o tempo imposto pelos sinos, pelas trombetas e pelos olifantes[1]. O clérigo, o cavaleiro e o agricultor obedecem a tempos diferentes.

O tempo do senhor é regulado pelas obrigações exigidas pelo ofício das armas, ou pelo seu status de comandante ou de vassalo. A luz e a escuridão, junto com a colheita e o plantio, marcam o tempo do agricultor. As orações acompanham o dia e as obrigações dos homens de fé.

As horas se contam e não se leem. Assim, o som inelutável e tranquilizador que chega dos campanários dita os deveres, os descansos e o alternar-se das tarefas cotidianas.

Permanece o costume das horas romanas. As 24 horas da jornada são divididas em duas partes de 12 horas, aquelas do dia e aquelas da noite.

O dia vai das atuais 6 às atuais 18 horas. A noite inicia às atuais 18 e se conclui às atuais 6 horas da manhã.

As horas do dia são divididas em quatro partes de três horas cada: terça (9h), sexta (12h), nona (15h) e duodécima (18h).

Também as horas da noite são divididas em quatro partes, chamadas “vigílias”, do nome que os soldados romanos davam aos turnos de guarda: prima (das 19 às 21h), segunda (das 21 às 24h), terça (das 24 às 3h) e quarta (das 3 às 6h). 




  
As horas eram ligadas ao ciclo solar e, portanto, dependendo das estações, tinham uma duração desigual: no verão, as horas diurnas eram mais longas em relação às noturnas. No inverno, ao invés, acontecia o contrário. Entre equinócio e solstício, de fato, as horas aumentavam ou diminuíam: eram, assim, iguais entre elas, em modo aproximado, somente no curso de um mesmo dia (na foto acima, o relógio em uma parede da catedral de Chartres).

Este fenômeno pode ser constatado observando um quadrante solar medieval: uma agulha perpendicular ao quadrante projeta a sua sombra sobre as linhas incisas em base aos cálculos das horas. Aquela central indica o meio-dia, isto é, a passagem exata do sol pelo meridiano do local. Cinco líneas à esquerda e seis à direita, numeradas de 1 a 12, indicavam as outras horas: a primeira corresponde ao surgir do sol, a última ao pôr-do-sol. Mas são linhas divergentes, que respeitam a duração não igual das horas dependendo do comprimento dos dias.

Nos conventos, o ritmo das horas era controlado por um monge que, através do sino, anunciava os momentos exatos da prece. Horas, portanto, canônicas, que logo se tornaram importantes para todos. Eram a matina, a prima (ou laudes), a terça, a sexta, a nona (ou noa), a véspera e a completa.

A véspera era o ofício recitado às 18h, após o pôr-do-sol. A completa, último momento de oração, sinalizava o fim do dia. Era chamada assim exatamente porque chegava à conclusão (“ao fechamento”) das horas canônicas.

Com a difusão em toda a Europa do monasticismo beneditino, assumiu uma particular importância a hora nona, correspondente às 15h, aproximadamente. Sinalizava a pausa principal do dia, aquela na qual o monge parava de trabalhar e se dirigia ao refeitório.

Entre o trabalho e a oração (“Ora et labora”), em todas as latitudes, a hora da refeição era esperada pelos monges com compreensível impaciência, sobretudo em tempo de Quaresma, o período de penitências e jejuns que precede a Páscoa. Tanto que chegou a antecipar aquele momento crucial que se tornou uma hora diferente, como nos lembra o inglês moderno, através dos termos “noon” e “afternoon”.

Fonte: http://www.festivaldelmedioevo.it/portal/il-tempo-medievale.
Tradução e nota: Giulia d’Amore.

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Nota:
1.  Olifante é o nome de um instrumento sonoro da Idade Média, uma espécie de corneta feita de marfim de elefantes, donde provém seu nome. Era usado no exército e em caçadas para emitir sinais e chamados sonoros simples, uma vez que não possui orifícios para produção de escalas (Wikipedia). 
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