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quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Fidelidade à Tradição da Igreja

Fidelidade à Tradição da Igreja


"Não devemos perder de vista a Tradição, a Doutrina e a Fé da Igreja Católica, tal como o Senhor ensinou, tal como os Apóstolos pregaram e os Santos Padres transmitiram. De fato, a Tradição constitui o alicerce da Igreja, e todo aquele que dela se afasta deixa de ser Cristão e não merece mais usar este nome.

Ora, a nossa Fé é esta: cremos na Trindade, Santa e Perfeita, que é o Pai, o Filho e o Espírito Santo; nEla não há mistura alguma de elemento estranho; não se compõe de Criador e criatura; mas toda Ela é potência e força operativa; uma só é a sua natureza, uma só é a sua eficiência e ação. O Pai cria todas as coisas por meio do Verbo, no Espírito Santo; e, deste modo, se afirma a unidade da Santíssima Trindade. Por isso, proclama-se na Igreja um só Deus, que reina sobre tudo, age em tudo e permanece em todas as coisas (cf. Ef 4,6). Reina sobre tudo como Pai, princípio e origem; age em tudo, isto é, por meio do Verbo; e permanece em todas as coisas no Espírito Santo.

São Paulo, escrevendo aos Coríntios acerca dos dons espirituais, tudo refere a Deus Pai como princípio de todas as coisas, dizendo: ‘Existem dons diferentes, mas o Espírito é o mesmo; diferentes serviços, mas o Senhor é o mesmo; diferentes modos de agir, mas é o mesmo Deus que realiza tudo em todos’ (lCor 12,4-6).

Os dons que o Espírito distribui a cada um vêm do Pai por meio do Verbo. De fato, tudo o que é do Pai é do Filho; por conseguinte, as graças concedidas pelo Filho, no Espírito Santo, são dons do Pai. Igualmente, quando o Espírito está em nós, está em nós o Verbo, de quem recebemos o Espírito; e, como o Verbo, está também o Pai. Assim se cumpre o que diz a Escritura: ‘Eu e meu Pai viremos e faremos nele a nossa morada’ (S. João 14,23). Pois onde está a luz, aí também está o esplendor da luz; e onde está o esplendor, aí também está a sua graça eficiente e esplendorosa.

São Paulo nos ensina tudo isto na Segunda Carta aos Coríntios, com as seguintes palavras: ‘Que a graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós’ (2Cor 13,13). Com efeito, toda a graça que nos é dada em nome da Santíssima Trindade, vem do Pai, pelo Filho, no Espírito Santo. Assim como toda a graça nos vem do Pai por meio do Filho, assim também não podemos receber nenhuma graça senão no Espírito Santo. Realmente, participantes do Espírito Santo, possuímos o amor do Pai, a graça do Filho e a comunhão do mesmo Espírito."

Das Cartas de Santo Atanásio, bispo (Ep. l ad Serapionem, 28-30: PG 26,594-595.599 -- Séc. IV)

Comunhão dos Santos
John Nava, 2001 [detalhe]
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quarta-feira, 1 de agosto de 2012

A vitória de Bento XVI

Eu tive a oportunidade de dizer isso, em alguns emails privados e coletivos, antes mesmo do Capítulo de Ecône. De qualquer forma, para mim, Roma já havia saído vitoriosa, tendo em vista a divisão interna que se operara por causa da proximidade com a Roma modernista e apóstata, colocando irmão contra irmão. O objetivo havia sido alcançado! Mas, após ler alguns textos, como os de Mons. lefebvre e o deste post, me convenci que Roma ainda não está satisfeita, quer mais: quer aniquilar a Tradição. Não basta que "parte da FSSPX" vá para junto dela. Ela quer todos, ela quer cada um dos "rebeldes" sob seu pé. Roma sabe que somente assim aniquilará a Tradição. 

GdA

Domingo, 29 de Julho de 2012, IX Domingo após o Pentecostes.

A vitória de Bento XVI


O Papa nunca quis um fazer um acordo com a FSSPX de forma que esta pudesse manter seus poderes de ação no conglomerado conciliar. Seu objetivo sempre foi e será o mesmo: a destruição absoluta da Fraternidade.

Poder-se-ia dizer que praticamente atingiu seu objetivo. Claro, a FSSPX ainda tem uma existência formal e legal, mas por dentro está dividida, minada, perturbada e irreconhecível! Três dos quatro Bispos que Mons. Lefebvre consagrou foram silenciados e desarmados! Os sacerdotes estão divididos, condenado ao silêncio e são punidos se diferirem um pouco da linha traçada por seu todo-poderoso Superior Geral. Os fiéis que se mantiveram “fiéis” estão desamparados. O belo Exército cavalheiresco que Mons. Lefebvre levantou foi atingido no coração! Avaliaremos, rapidamente, a gravidade dos danos colaterais gerados por uma iniciativa comprometida tão temerariamente, zombando-se das recomendações do nosso Venerável Arcebispo!

Eu li nestes dias, o sermão na consagração dos quatro bispos. Aqui está um trecho:
    “Constatando a firme vontade das autoridades romanas de aniquilar a Tradição e de conduzir a todos para o espírito do Vaticano II e para o espírito de Assis, preferimos nos retirarmos, evidentemente, e dizermos: não podemos! É impossível. Não era possível nos colocarmos sob a autoridade do Cardeal Ratzinger, presidente da comissão romana que deveria nos dirigir: ter-nos-íamos colocado em suas mãos e, consequentemente, nas mãos daqueles que querem nos levar de volta ao espírito do Concílio e ao espírito de Assis: isto não era possível” (Homilia das Sagrações Episcopais, Ecône, 30 de junho de 1988).

No entanto, somos obrigados a constatar que Mons. Fellay controla uma situação que caminha ao contrário da vontade de Mons. Lefebvre. Ele está prestes a colocar o que resta da Fraternidade sob a autoridade de Ratzinger, tão temida por seu pai espiritual... E com fatores agravantes, uma vez que o próprio Ratzinger ocupa a cátedra de Pedro e seu renovado espírito de Assis! Não poderia ser mais rebelde!

Citando, mais uma vez, Mons. Lefebvre:
    “O resultado do Concílio é muito pior do que o da Revolução: as execuções e os martírios são silenciosos; dezenas de milhares de sacerdotes, de religiosos e de religiosas abandonam os votos, outros se laicizam; as clausuras desaparecem; o vandalismo invadiu as igrejas: os altares são destruídos, as cruzes desaparecem; os seminários e os noviciados estão vazios.    As sociedades civis ainda católicas se laicizam sob a pressão das autoridades romanas: Nosso Senhor já não reina sobre a Terra! O ensino católico é ecumênico e liberal. Os Catecismos são modificados e não são mais católicos. A Universidade Gregoriana de Roma se tornou mista; Santo Tomás não é mais a base do ensino.
     (...) Essas autoridades romanas conciliares não podem, portanto, que se opor feroz e violentamente a qualquer reafirmação do Magistério tradicional. Os erros do Concílio e suas reformas restam a norma oficial consagrada pela profissão de Fé do Cardeal Ratzinger, em março de 1989” (Itinerário Espiritual, Mons. M. Lefebvre, Saint Michel en Brenne, 29 de janeiro de 1990).

Após estas afirmações – que datam de um ano antes de sua morte – como é possível que Mons. Fellay ainda esteja cortejando as “autoridades romanas”? Porque, veja: Mons. Fellay não fala como antes. Antes se condenava muito mais! Ele pretende fazer um acordo!... Que desprezo por aquele a quem ele deve tudo!... Por que Deus o permite, se não porque Ele quer uma vez mais assegurar-se da lealdade daqueles que Lhe permanecem fiéis?

O texto inteiro pode ser lido no original em francês: Le Courrier de Tychique n. 422 (PDF)
Tradução: Giulia d'Amore (da versão em espanhol)

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Os Doutores da Santa Igreja Católica Apostólica Romana

Do importantíssimo site Volta para Casa (infelizmente o link aqui é inútil, tendo em vista que o site parece estar fora do ar), uma excelente leitura sobre os 

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Doutores da Santa Igreja Católica Apostólica Romana

  
Na Santa Igreja Católica Apostólica Romana, há trinta santos doutores, os quais com seus escritos defenderam a Santa Igreja das perseguições heréticas. Alguns deles são religiosos e teólogos, outros são chamados também "Santos Padre da Igreja". Há doutores da Igreja segundo a Tradição, como por exemplo 4 doutores latinos e 4 doutores gregos; os outros são solenemente proclamados, com a indicação do ano da proclamação.

Não entram, aqui, no quadro dos doutores da Igreja, Santa Teresa de Ávila, Santa Catarina de Sena e Santa Teresa de Lisieux (sendo que a primeira e a segunda foram proclamadas doutoras por Paulo VI e a última, por João Paulo II), pois esse título somente pode ser dado a homens, simplesmente pela palavra de São Paulo Apóstolo que diz: «A mulher ouça a instrução em silêncio, com espírito de submissão. Não permito à mulher que ensine nem que se arrogue autoridade sobre o homem, mas permaneça em silêncio» (I Tm 2,11-12). De Santa Teresa de Ávila, disse o Papa Bento XIV: «Ela escreve quase como uma doutora». Também pode-se dizer que, na Missa dos doutores, o intróito começa dizendo: «In médio Ecclésiæ», e as mulheres não podem ensinar, como disse São Paulo acima (I Tm 2,11-12).


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segunda-feira, 23 de julho de 2012

Sobre o atendimento pastoral às pessoas homossexuais

CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ

CARTA AOS BISPOS DA IGREJA CATÓLICA
SOBRE O ATENDIMENTO PASTORAL
DAS PESSOAS HOMOSSEXUAIS



1. O problema do homossexualismo e do juízo ético acerca dos atos homossexuais tornou-se cada vez mais objeto de debate público, mesmo em ambientes católicos. Em tal discussão, propõe-se muitas vezes argumentos e exprime-se posições não conformes com o ensinamento da Igreja Católica, que suscitam justa preocupação em todos aqueles que se dedicam ao ministério pastoral. Por esse motivo esta Congregação julga o problema tão grave e difuso que justifica a presente Carta sobre o atendimento pastoral às pessoas homossexuais, Carta dirigida a todos os Bispos da Igreja Católica.

2. Naturalmente, não se pretende elaborar neste texto um tratado exaustivo sobre um problema tão complexo. Prefere-se concentrar a atenção no contexto específico da perspectiva moral católica. Esta encontra apoio também nos resultados seguros das ciências humanas, as quais, também, possuem objeto e método que lhes são próprios e gozam de legítima autonomia.

A posição da moral católica baseia-se na razão humana iluminada pela fé e guiada conscientemente pela intenção de fazer a vontade de Deus, nosso Pai. Desta forma, a Igreja está em condições não somente de poder aprender das descobertas científicas, mas também de transcender-lhes o horizonte; ela tem a certeza de que a sua visão mais completa respeita a complexa realidade da pessoa humana que, nas suas dimensões espiritual e corpórea, foi criada por Deus e, por sua graça, é chamada a ser herdeira da vida eterna.

Somente em tal contexto poder-se-á compreender com clareza em que sentido o fenómeno do homossexualismo, em suas múltiplas dimensões e com seus efeitos sobre a sociedade e sobre a vida eclesial, é um problema que afeta propriamente a preocupação pastoral da Igreja. Por isto mesmo, requer-se dos seus ministros atento estudo, empenho concreto e reflexão honesta, teologicamente equilibrada.

3. Já na « Declaração acerca de algumas questões de ética sexual » de 29 de dezembro de 1975, a Congregação para a Doutrina da Fé tratava explicitamente deste problema. Naquela Declaração, salientava-se o dever de procurar compreender a condição homossexual e se observava que a culpabilidade dos atos homossexuais deve ser julgada com prudência. Ao mesmo tempo, a Congregação levava em consideração a distinção feita comumente entre a condição ou tendência homossexual, de um lado, e, do outro, os atos homossexuais. Estes últimos eram descritos como atos que, privados da sua finalidade essencial e indispensável, são « intrinsecamente desordenados » e, como tais, não podem ser aprovados em nenhum caso (cfr. n. 8, § 4).

Entretanto, na discussão que se seguiu à publicação da Declaração, foram propostas interpretações excessivamente benévolas da condição homossexual, tanto que houve quem chegasse a defini-la indiferente ou até mesmo boa. Ao invés, é necessário precisar que a particular inclinação da pessoa homossexual, embora não seja em si mesma um pecado, constitui, no entanto, uma tendência, mais ou menos acentuada, para um comportamento intrinsecamente mau do ponto de vista moral. Por este motivo, a própria inclinação deve ser considerada como objetivamente desordenada.

Aqueles que se encontram em tal condição deveriam, portanto, ser objeto de uma particular solicitude pastoral, para não serem levados a crer que a realização concreta de tal tendência nas relações homossexuais seja uma opção moralmente aceitável.

4. Uma das dimensões essenciais de um autêntico atendimento pastoral é a identificação das causas que provocaram confusão quanto ao ensinamento da Igreja. Entre elas, deve-se assinalar uma nova exegese da Sagrada Escritura, segundo a qual a Bíblia ou não teria nada a dizer acerca do problema do homossexualismo, ou até mesmo tacitamente o aprovaria, ou então ofereceria prescrições morais tão condicionadas cultural e historicamente, que afinal não mais poderiam ser aplicadas à vida contemporânea. Tais opiniões, gravemente erróneas e desorientadoras, requerem, portanto, uma especial vigilância.

5. É verdade que a literatura bíblica é tributária das várias épocas nas quais foi escrita, com relação a grande parte dos seus modelos de pensamento e de expressão (cfr. Dei Verbum, n. 12). Certamente, a Igreja de hoje proclama o Evangelho a um mundo bastante diferente do mundo antigo. Por outro lado, o mundo no qual foi escrito o Novo Testamento estava já consideravelmente mudado, por exemplo, quanto à situação na qual foram escritas ou redigidas as Sagradas Escrituras do povo judeu.

Deve-se ressaltar todavia que, embora no contexto de uma diversidade notável, existe uma evidente coerência no interior das mesmas Escrituras no que diz respeito ao comportamento homossexual. Por isto, a doutrina da Igreja acerca deste ponto não se baseia apenas em frases isoladas, das quais se podem deduzir argumentações teológicas discutíveis, e sim no sólido fundamento de um testemunho bíblico constante. A atual comunidade de fé, em ininterrupta continuidade com as comunidades judaicas e cristãs no seio das quais foram redigidas as antigas Escrituras, continua a alimentar-se com aquelas mesmas Escrituras e com o Espírito de Verdade do qual elas são a Palavra. É igualmente essencial reconhecer que os textos sagrados não são realmente compreendidos quando interpretados de um modo que contradiz a vigente Tradição da Igreja. Para ser correia, a interpretação da Escritura deve estar em acordo efetivo com esta Tradição.

A este respeito, assim se exprime o Concílio Vaticano II: « É claro, pois, que a Sagrada Tradição, a Sagrada Escritura e o Magistério da Igreja, por sapientíssima disposição de Deus, são entre si tão relacionados e unidos, que não podem subsistir independentemente, e todos juntos, segundo o modo próprio de cada um, sob a ação de um só Espírito Santo, contribuem eficazmente para a salvação das almas » (Dei Verbum, n. 10). À luz dessas afirmações aqui se delineia sucintamente o ensinamento da Bíblia sobre a matéria.

6. A teologia da criação, presente no livro do Génesis, fornece o ponto de vista fundamental para a adequada compreensão dos problemas suscitados pelo homossexualismo. Na sua infinita sabedoria e em seu amor onipotente, Deus chama à existência toda a criação, como reflexo da sua bondade. Cria o homem à sua imagem e semelhança, como varão e mulher. Por isto mesmo, os seres humanos são criaturas de Deus chamadas a refletir, na complementariedade dos sexos, a unidade interna do Criador. Eles realizam esta função, de modo singular, quando, mediante a recíproca doação esponsal, cooperam com Deus na transmissão da vida.

O capítulo 3 do Génesis mostra como esta verdade acerca da pessoa humana como imagem de Deus foi obscurecida pelo pecado original. Daí provém inevitavelmente uma perda da consciência acerca do caráter de aliança, próprio da união que as pessoas humanas mantinham com Deus e entre si. Embora o corpo humano conserve ainda o seu « significado esponsal », este, agora, é obscurecido pelo pecado. Assim, o deterioramento devido ao pecado continua a desenvolver-se na história dos homens de Sodoma (cfr. Gn 19, 1-11). Não pode haver dúvidas quanto ao julgamento moral aí expresso contra as relações homossexuais. Em Levítico 18, 22 e 20, 13, quando se indica as condições necessárias para se pertencer ao povo eleito, o Autor exclui do povo de Deus os que têm um comportamento homossexual.

Tendo como tela de fundo esta legislação teocrática, São Paulo desenvolve uma perspectiva escatológica, dentro da qual repropõe a mesma doutrina, elencando também entre aqueles que não entrarão no reino de Deus os que agem como homossexuais (cfr. 1 Cor 6, 9). Em outra passagem do seu epistolário, baseando-se nas tradições morais dos seus ancestrais, mas colocando-se no novo contexto do confronto entre o cristianismo e a sociedade pagã do seu tempo, ele apresenta o comportamento homossexual como um exemplo da cegueira em que caiu a humanidade. Tomando o lugar da harmonia original entre Criador e criatura, o grave desvio da idolatria levou a todo tipo de excessos no campo moral. São Paulo aponta o exemplo mais claro desta desarmonia exatamente nas relações homossexuais (cfr. Rm 1, 18-32). Enfim, em perfeita continuidade com o ensinamento bíblico, na lista dos que agem contrariamente à sã doutrina, são mencionados explicitamente como pecadores aqueles que praticam atos homossexuais (cfr. 1 Tm 1, 10).

7. A Igreja, obediente ao Senhor que a fundou e a enriqueceu com a dádiva da vida sacramental, celebra no sacramento do matrimónio o desígnio divino da união do homem e da mulher, união de amor e capaz de dar a vida. Somente na relação conjugal o uso da faculdade sexual pode ser moralmente reto. Portanto, uma pessoa que se comporta de modo homossexual, age imoralmente.

Optar por uma atividade sexual com uma pessoa do mesmo sexo equivale a anular o rico simbolismo e o significado, para não falar dos fins, do desígnio do Criador a respeito da realidade sexual. A atividade homossexual não exprime uma união complementar, capaz de transmitir a vida e, portanto, contradiz a vocação a uma existência vivida naquela forma de auto-doação que, segundo o Evangelho, é a essência mesma da vida cristã. Não quer dizer que as pessoas homossexuais não sejam frequentemente generosas e não se doem, mas quando se entregam a uma atividade homossexual, elas reforçam dentro delas mesmas uma inclinação sexual desordenada, caracterizada em si mesma pela auto-complacência.

Como acontece com qualquer outra desordem moral, a atividade homossexual impede a auto-realização e a felicidade porque contrária à sabedoria criadora de Deus. Refutando as doutrinas erróneas acerca do homossexualismo, a Igreja não limita, antes pelo contrário, defende a liberdade e a dignidade da pessoa, compreendidas de um modo realista e autêntico.

8. O ensinamento da Igreja de hoje encontra-se, portanto, em continuidade orgânica com a visão contida na Sagrada Escritura e com a constante tradição. Embora o mundo de hoje seja, sob diversos pontos de vista, realmente mudado, a comunidade cristã é consciente do vínculo profundo e duradouro que a une às gerações que a precederam « no sinal da fé ».

No entanto, um número cada vez mais largo de pessoas, mesmo dentro da Igreja, exerce fortíssima pressão para levá-la a aceitar a condição homossexual como se não fosse desordenada e a legitimar os atos homossexuais. Os que, no interior da Igreja, pressionam nesta direção, frequentemente mantêm estreita ligação com os que agem fora dela. Ora, tais grupos externos são movidos por uma visão oposta à verdade acerca da pessoa humana, verdade que nos foi revelada plenamente no mistério de Cristo. Embora de modo não de todo consciente, eles manifestam uma ideologia materialista, que nega a natureza transcendente da pessoa humana bem como a vocação sobrenatural de cada indivíduo.

Os ministros da Igreja devem agir de tal modo que as pessoas homossexuais confiadas aos seus cuidados não sejam desencaminhadas por estas opiniões, tão profundamente opostas ao ensino da Igreja. Contudo o risco é grande e existem muitos que procuram criar confusão quanto à posição da Igreja e aproveitar-se de tal confusão em favor de seus próprios objetivos.

9. Mesmo dentro da Igreja formou-se uma corrente, constituída por grupos de pressão com denominações diferentes e diferente amplitude, que tenta impôr-se como representante de todas as pessoas homossexuais que são católicas. Na realidade, seus adeptos são, na maioria dos casos, pessoas que, ou desconhecem o ensinamento da Igreja, ou procuram subvertê-lo de alguma maneira. Tenta-se reunir sob a égide do catolicismo pessoas homossexuais que não têm a mínima intenção de abandonar o seu comportamento homossexual. Uma das táticas usadas é a de afirmar, em tom de protesto, que qualquer crítica ou reserva às pessoas homossexuais, à sua atitude ou ao seu estilo de vida, é simplesmente uma forma de injusta discriminação.

Em algumas nações funciona, como consequência, uma tentativa de pura e simples manipulação da Igreja, conquistando-se o apoio dos pastores, frequentemente em boa fé, no esforço que visa mudar as normas da legislação civil. Finalidade de tal ação é ajustar esta legislação à concepção própria de tais grupos de pressão, para a qual o homossexualismo é, pelo menos, uma realidade perfeitamente inócua, quando não totalmente boa.

Embora a prática do homossexualismo esteja ameaçando seriamente a vida e o bem-estar de grande número de pessoas, os fautores desta corrente não desistem da sua ação e recusam levar em consideração as proporções do risco que ela implica.

A Igreja não pode despreocupar-se de tudo isto e por conseguinte mantém firme a sua posição clara a respeito, posição que não pode, certamente, modificar-se sob a pressão da legislação civil ou da moda do momento. Ela se preocupa também, sinceramente, pelos muitos que não se sentem representados pelos movimentos pró-homossexuais e por aqueles que poderiam ser tentados a crer em sua propaganda enganadora. Ela é consciente de que a opinião segundo a qual a atividade homossexual seria equivalente à expressão sexual do amor conjugal ou, pelo menos, igualmente aceitável, incide diretamente sobre a concepção que a sociedade tem da natureza e dos direitos da família, pondo-os seriamente em perigo.

10. É de se deplorar firmemente que as pessoas homossexuais tenham sido e sejam ainda hoje objeto de expressões malévolas e de ações violentas. Semelhantes comportamentos merecem a condenação dos pastores da Igreja, onde quer que aconteçam. Eles revelam uma falta de respeito pelos outros que fere os princípios elementares sobre os quais se alicerça uma sadia convivência civil. A dignidade própria de cada pessoa deve ser respeitada sempre, nas palavras, nas ações e nas legislações.

Todavia, a necessária reação diante das injustiças cometidas contra as pessoas homossexuais não pode levar, de forma alguma, à afirmação de que a condição homossexual não seja desordenada. Quando tal afirmação é aceita e, por conseguinte, a atividade homossexual é considerada boa, ou quando se adota uma legislação civil para tutelar um comportamento ao qual ninguém pode reivindicar direito algum, nem a Igreja nem a sociedade em seu conjunto deveriam surpreender-se se depois também outras opiniões e práticas distorcidas ganham terreno e se aumentam os comportamentos irracionais e violentos.

11. Alguns afirmam que a tendência homossexual, em certos casos, não é fruto de uma opção deliberada e que a pessoa homossexual não tem outra alternativa, sendo obrigada a se comportar de modo homossexual. Por conseguinte, afirma-se que, em tais casos, ela agiria sem culpa, não sendo realmente livre.

A este propósito, é necessário referir-se à sábia tradição moral da Igreja, que alerta para as generalizações no julgamento dos casos individuais. De fato, em um determinado caso, podem ter existido no passado, e podem subsistir ainda, circunstâncias tais que reduzem ou até mesmo eliminam a culpa do indivíduo; outras circunstâncias, ao contrário, podem agravá-la. Em todo caso, deve-se evitar a presunção infundada e humilhante de que o comportamento homossexual das pessoas homossexuais esteja sempre e totalmente submetido à coação e, portanto, seja sem culpa. Na realidade, também às pessoas com tendência homossexual deve ser reconhecida aquela liberdade fundamental que caracteriza a pessoa humana e lhe confere a sua particular dignidade. Como em toda conversão do mal, graças a tal liberdade, o esforço humano, iluminado e sustentado pela graça de Deus, poderá permitir-lhes evitar a atividade homossexual.

12. Que deve fazer, então, uma pessoa homossexual que procura seguir o Senhor? Substancialmente, tais pessoas são chamadas a realizar a vontade de Deus na sua vida, unindo ao sacrifício da cruz do Senhor todo sofrimento e dificuldade que possam experimentar por causa da sua condição. Para quem crê, a cruz é um sacrifício frutuoso, pois daquela morte derivam a vida e a redenção. Ainda que se possa prever que qualquer convite a carregar a cruz ou a compreender de tal forma o sofrimento do cristão será ridicularizado por alguns, é preciso recordar que é este o caminho da salvação para todos aqueles que seguem o Cristo.

Não é outro, na realidade, o ensinamento transmitido pelo apóstolo Paulo aos Gálatas, quando diz que o Espírito produz na vida do fiel « amor, alegria, paz, paciência, benevolência, bondade, fidelidade, mansidão e auto-domínio » e, mais adiante: «Não podeis pertencer a Cristo sem crucificar a carne com as suas paixões e os seus desejos » (Gal 5, 22. 24).

Todavia, este convite é facilmente mal interpretado, se é considerado apenas como um inútil esforço de auto-renegação. A cruz é, sem dúvida, renegação de si mesmo, mas no abandono à vontade daquele Deus que da morte faz brotar a vida e habilita os que nele depositam a sua confiança a praticarem a virtude em lugar do vício.

Só se celebra autenticamente o Mistério Pascoal quando se deixa que ele impregne o tecido da vida cotidiana. Recusar o sacrifício da própria vontade na obediência à vontade do Senhor é, de fato, opor obstáculo à salvação. Exatamente como a Cruz é o centro da manifestação do amor redentor que Deus tem por nós em Jesus, assim o fato de conformarem a negação de si mesmos ao sacrifício do Senhor constituirá para homens e mulheres homossexuais uma fonte de auto-doação que os salvará de uma forma de vida que continuamente ameaça destruí-los.

As pessoas homossexuais, como os demais cristãos, são chamadas a viver a castidade. Dedicando-se com assiduidade a compreender a natureza do chamado pessoal que Deus lhes dirige, serão aptas a celebrar mais fielmente o sacramento da Penitência e a receber a graça do Senhor que, neste mesmo sacramento, se oferece para generosamente poderem converter-se mais plenamente ao seu seguimento.

13. É evidente, por outro lado, que uma clara e eficaz transmissão da doutrina da Igreja a todos os fiéis e à sociedade no seu conjunto depende em grande parte do ensinamento correto e da fidelidade daqueles que exercem o ministério pastoral. Os Bispos têm a responsabilidade particularmente grave de preocupar-se que seus colaboradores no ministério e, sobretudo, os sacerdotes, sejam corretamente informados e pessoalmente bem dispostos a comunicar a todos a doutrina da Igreja na sua integridade.

São dignas de admiração a particular solicitude e a boa vontade demonstradas por muitos sacerdotes e religiosos, no atendimento pastoral às pessoas homossexuais; esta Congregação espera que tal solicitude e boa vontade não diminuam. Estes zelosos ministros devem nutrir a certeza de que estão seguindo fielmente a vontade do Senhor quando encorajam a pessoa homossexual a levar uma vida casta e relembram a dignidade incomparável que Deus lhe deu também.

14. Considerando tudo o que precede, esta Congregação deseja pedir aos Bispos que sejam particularmente vigilantes com relação aos programas que, de fato, tentam exercer pressão sobre a Igreja a fim de que ela mude a sua doutrina, embora às vezes, verbalmente neguem que seja assim. Um estudo atento das declarações públicas neles contidas e das atividades que promovem revela uma calculada ambiguidade, através da qual procuram desviar pastores e fiéis. Por exemplo, costumam citar o ensinamento do Magistério, mas somente como uma fonte facultativa na formação da consciência; sua autoridade peculiar não é reconhecida. Alguns grupos costumam até mesmo qualificar de « católicas » as suas organizações ou as pessoas às quais pretendem dirigir-se, mas, na realidade, não defendem nem promovem o ensinamento do Magistério; ao contrário, às vezes, atacam-no abertamente. Mesmo reafirmando a vontade de conformar sua vida ao ensinamento de Jesus, de fato os membros desses grupos abandonam o ensinamento da Sua Igreja. Este comportamento contraditório de forma alguma pode receber o apoio dos Bispos.

15. Esta Congregação encoraja, pois, os Bispos a promoverem, nas suas dioceses, uma pastoral para as pessoas homossexuais, plenamente concorde com o ensinamento da Igreja. Nenhum programa pastoral autêntico poderá incluir organizações em que pessoas homossexuais se associem entre si, sem que fique claramente estabelecido que a atividade homossexual é imoral. Uma atitude verdadeiramente pastoral incluirá a necessidade de evitar, para as pessoas homossexuais, as ocasiões próximas de pecado.

Devem ser encorajados os programas em que tais perigos sejam evitados. Mas é necessário deixar bem claro que afastar-se do ensino da Igreja ou fazer silêncio em torno dele, sob o pretexto de oferecer um atendimento pastoral, não é forma legítima nem de autêntica atenção nem de pastoral válida. Em última análise, somente aquilo que é verdadeiro pode ser também pastoral. Quando não se tem presente a posição da Igreja, impede-se a homens e mulheres homossexuais de receberem o atendimento de que necessitam e ao qual têm direito.

Um programa pastoral autêntico ajudará as pessoas homossexuais em todos os níveis da sua vida espiritual, mediante os sacramentos e, particularmente, a frequente e sincera confissão sacramental, como também através da oração, do testemunho, do aconselhamento e da atenção individual. Desta forma, a comunidade cristã na sua totalidade pode chegar a reconhecer sua vocação de assistir estes seus irmãos e irmãs, evitando-lhes tanto a desilusão como o isolamento.

16. Desta abordagem diversificada podem advir muitas vantagens, entre as quais não menos importante é a constatação de que uma pessoa homossexual, como, de resto, qualquer ser humano, tem uma profunda exigência de ser ajudada contemporaneamente em vários níveis.

A pessoa humana, criada à imagem e semelhança de Deus, não pode definir-se cabalmente por uma simples e redutiva referência à sua orientação sexual. Toda e qualquer pessoa que vive sobre a face da terra conhece problemas e dificuldades pessoais, mas possui também oportunidades de crescimento, recursos, talentos e dons próprios. A Igreja oferece ao atendimento da pessoa humana aquele contexto de que hoje se sente a exigência extrema, e o faz exatamente quando se recusa a considerar a pessoa meramente como um « heterossexual » ou um « homossexual », sublinhando que todos têm uma mesma identidade fundamental: ser criatura e, pela graça, filho de Deus, herdeiro da vida eterna.

17 Apresentando à atenção dos Bispos esses esclarecimentos e orientações pastorais, esta Congregação deseja ajudar os seus esforços no sentido de assegurar que o ensinamento do Senhor e da Sua Igreja acerca deste importante tema seja transmitido integralmente a todos os fiéis.

À luz do que se acaba de expor, os Ordinários locais são convidados a avaliar, no âmbito da própria competência, a necessidade de particulares iniciativas. Além disso, se julgarem útil, poder-se-á recorrer a uma ação mais extensa, coordenada a nível das Conferências episcopais nacionais.

Os Bispos serão particularmente solícitos em apoiar com todos os meios à sua disposição, o desenvolvimento de formas especializadas de atendimento pastoral às pessoas homossexuais. Isso poderia incluir a colaboração das ciências psicológicas, sociológicas e médicas, mantendo-se sempre na plena fidelidade à doutrina da Igreja.

Os Bispos, sobretudo, não deixarão de solicitar a colaboração de todos os teólogos católicos, os quais, ensinando o que a Igreja ensina e aprofundando com as suas reflexões o significado autêntico da sexualidade humana e do matrimônio cristão no plano divino, como também das virtudes que este comporta, poderão desta forma oferecer um válido auxílio neste campo específico da atividade pastoral.

Particular atenção deverão ter os Bispos, além disso, ao escolher os ministros a serem encarregados desta delicada tarefa, de modo que estes, graças à sua fidelidade ao Magistério e ao seu elevado grau de maturidade espiritual e psicológica, possam ser de real ajuda às pessoas homossexuais, de forma que elas alcancem o seu bem integral. Tais ministros rechaçarão as opiniões teológicas que são contrárias ao ensinamento da Igreja e que, portanto, não podem servir como diretrizes no campo pastoral.

Será conveniente além disso promover adequados programas de catequese, baseados na verdade acerca da sexualidade humana, na sua relação com a vida da família, tal como é ensinada pela Igreja. Tais programas, com efeito, fornecem um ótimo contexto, dentro do qual pode ser abordada também a questão do homossexualismo.

Esta catequese poderá ajudar inclusive as famílias em que se encontrem pessoas homossexuais, a enfrentar um problema que as atinge tão profundamente.

Deve ser retirado todo apoio a qualquer organização que procure subverter o ensinamento da Igreja, que seja ambígua quanto a ele ou que o transcure completamente. Tal apoio, mesmo só aparente, pode dar origem a malentendidos graves. Uma atenção especial deveria ser dedicada à programação de celebrações religiosas e ao uso, por parte desses grupos, de edifícios de propriedade da Igreja, inclusive a possibilidade de dispor das escolas e dos institutos católicos de estudos superiores. Para alguns, tal permissão de utilizar uma propriedade da Igreja pode parecer apenas um gesto de justiça e de caridade, mas, na realidade, ela contradiz as finalidades mesmas para as quais aquelas instituições foram fundadas, e pode ser fonte de malentendidos e de escândalo.

Ao avaliar eventuais projetos legislativos, dever-se-á pôr em primeiro plano o empenho na defesa e promoção da vida da família.

18. O Senhor Jesus disse: « Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará » (Jo 8, 32). A Sagrada Escritura manda-nos realizar a verdade na caridade (cfr. Ef 4, 15). Deus, que é ao mesmo tempo verdade e amor, chama a Igreja a pôr-se ao serviço de cada homem, mulher e criança, com a solicitude pastoral do nosso Senhor misericordioso. É com este espírito que a Congregação para a Doutrina da Fé endereça a presente Carta aos Bispos da Igreja, na esperança de que lhes sirva de ajuda no atendimento pastoral a pessoas cujos sofrimentos só poderão agravar-se por doutrinas erróneas, enquanto que a palavra da verdade os aliviará.

O Sumo Pontífice João Paulo II, no decurso da Audiência concedida ao Prefeito abaixo-assinado, aprovou e ordenou a publicação da presente Carta, decidida em reunião ordinária desta Congregação.

Roma, da sede da Congregação para a Doutrina da Fé, 1º de outubro de 1986.



Joseph Card. Ratzinger
Prefeito


+ Alberto Bovone
Arcebispo Tit. de Cesaréia de Numídia
Secr

vaticano

domingo, 15 de julho de 2012

A verdadeira Esposa

Só para relembrar:


A Igreja Católica e A Outra

Dom Lourenço Fleichman OSB

A leitura do debate em torno das Cartas do Concílio, do Padre Berto, teólogo de Mons. Marcel Lefebvre no Concílio, publicado na revista dos dominicanos franceses Le Sel de la Terre nº 45 mostrou-me, ainda uma vez o quanto a crise atual joga as almas em todas as direções no meio desta névoa espessa que cobre a Igreja.[1]
Parece evidente que, quarenta anos após o Concílio, é necessário trabalhar mais a fundo a questão da natureza exata da crise modernista, sua essência, a base teológica explicativa de tal situação, sem esquecer os apoios nas Sagradas Escrituras e nos Padres da Igreja, também importantes. Assim, como conseqüência desta análise, devemos procurar estabelecer de modo mais sólido, até que medida um católico é obrigado a seguir a Roma modernista, seus textos, seus ritos, seus acordos.
Devemos estar sempre disponíveis para fazer acordos, sempre de boa vontade e acolhedores para os textos do Papa ou dos cardeais, para em seguida criticá-los ou, ao contrário, devemos nos afastar de verdade das autoridades romanas e levar nossa crítica ao conjunto de textos da Roma conciliar, mesmo reconhecendo, aqui ou ali, algumas frases mais tradicionais? A questão não é nova. A novidade está nas circunstâncias atuais, quarenta anos depois do concílio e quinze depois das sagrações episcopais de 1988.
É um fato que cada vez que nos aproximamos dessa espécie de máquina, de mecânica que se estabeleceu nas congregações romanas, voltamos machucados, deixando presos nas rodas padres amigos, fiéis engolidos nos meandros da nova religião; um pedaço de nossas vidas.
Em 1988 foram os padres que partiram para a Fraternidade S. Pedro, Dom Gérard etc. Em 2001, os padres de Campos.
Por outro lado, esta recusa de se examinar com boa vontade os textos ou propostas vindas de Roma não seria um constante perigo de se cair no sede-vacantismo? Eis o impasse onde podemos entrar se nossas considerações sobre a crise da Igreja seguirem o caminho das opiniões pessoais mais do que a busca da verdade. Porém, a crise atual é de tal sorte que temos necessidade de uma sabedoria toda sobrenatural: “É aqui que é preciso um espírito dotado de sabedoria”[2], nos diz São João no seu Apocalipse, nos capítulos 17 e 18 que tratam desta “Babilônia”, a cidade das sete colinas, fornicando furiosamente com todos os reis da terra, que carrega em si o seu nome: Mistério. Esta prostituta montada na besta, que fez o apóstolo ficar “em extremo admirado”. Apenas os dados da teologia da Igreja não são suficientes.
Devemos constatar que todos os que partiram com os acordos com o Vaticano, bem longe de continuar o mesmo combate de antes, como todos proclamaram em alta voz que fariam, foram contaminados profundamente pelo espírito do Vaticano II. E eu pergunto: - de onde vem esta unanimidade? Porque razão todos passam a aceitar até mesmo a missa nova que sempre foi considerada como o principal mal de Vaticano II?
Antes mesmo de ser uma questão de doutrina, ela é uma questão de ordem espiritual. Os padres não começam a aceitar Vaticano II devido a um estudo aprofundado da Nova Missa ou dos textos do Concílio, mas sim por uma mudança de orientação da alma, olhares que exprimem dois momentos diferentes. Antes, eles tinham uma graça, uma luz espiritual que penso estar presente em cada alma fiel, mesmo nas mais ignorantes, em cada um dos que seguiram o mesmo caminho traçado por Dom Lefebvre e por Dom Antônio de Castro Mayer. Em seguida, quando eles perdem esta graça, seguem às apalpadelas no escuro e se agarram na única realidade que encontram ao alcance, ou seja, a hierarquia. Esta será expressa de modo diverso: para uns será o “perímetro visível”, como queria Dom Gerard; para outros uma “administração apostólica”, como foi oferecido aos padres de Campos; ou ainda a Comissão Ecclesia Dei, como foi o caso da Fraternidade São Pedro[3]. Quanto ao resto, os quarenta anos de perseguição, de escândalos, de heresias, não levam mais em conta devido à cegueira dos seus corações.
Para nós, que queremos ficar fiéis ao combate, mesmo nesta marginalização não desejada, como poderemos conciliar este estado de coisas com a necessidade real de nos submetermos à hierarquia da Igreja? Eis a questão delicada que se impõe. Por vezes esta questão é deixada na sombra para que a alma possa seguir seu caminho no combate pela fé, que é o essencial da vida católica. Aparentemente tudo segue seu curso. Mas desde que ela começa a ser colocada, aparece o temor e a angústia diante da possibilidade de se estar fora da Igreja, provocando o impasse, estas diferentes formas de se encarar a crise, um certo estado de alma que se manifesta por diferentes métodos de combate. É necessário achar uma explicação que seja ao mesmo tempo verdadeira teologicamente e pacificadora dessas angústias da alma católica, antes que ela perca a graça e se deixe levar pelas águas agitadas da Roma modernista.
Ora, esta explicação existe. Ela foi formulada pela primeira vez, que eu saiba, por Gustavo Corção, em 1976 e mesmo antes, em 1974. Corção mostrava que no cisma do Ocidente, no séc. XIV, os católicos se encontravam diante de uma única Igreja mas tendo dois papas, sem saber qual o verdadeiro. Hoje, ao contrário, estamos diante de um só papa, uma só hierarquia, mas que governa duas igrejas: a verdadeira Igreja Católica e A Outra. Vejamos como Corção entendeu a coisa:
“minha sofrida e firme convicção, tantas vezes sustentada aqui, ali e acolá é que existe, entre a Religião Católica professada em todo o mundo católico até poucos anos atrás e a religião ostensivamente  apresentada como "nova", "progressista", "evoluída", uma diferença de espécie ou diferença por alteridade. São portanto duas as Igrejas atualmente governadas e servidas pela mesma hierarquia: a Igreja Católica de sempre, e a Outra.”[4]
 
A idéia já lhe viera em 1974. Num artigo chamado Estranhos Contrastes, sobre o comunismo no Chile e no mundo, Corção fala, talvez pela primeira vez, das duas Igrejas:
O que me parece difícil é fugir à evidência de um cisma, não do governo da Igreja, mas na sua própria personalidade: o que há no mundo moderno são duas Igrejas com parte da hierarquia comum ou alternante. E mais do que nunca tornou-se importante para todos bem demarcar a Igreja a que pertence... Tentarei trabalhar nesta idéia que me parece verdadeira e saudável.”[5]
Sublinhei acima a “diferença por alteridade” para mostrar que o autor explica esta questão pela citação da ep. aos Gálatas, 1,6 – Se um anjo do céu vem vos ensinar um outro evangelho, que seja anátema – De onde se conclui que não é necessário que se ensinem heresias, doutrinas opostas, basta que se ensine outra coisa. Que os modernistas não venham nos dizer que os textos do Concílio não são heréticos. Não precisam ser para que sejam rechaçados pela Igreja de sempre e por todos os fiéis católicos. Eles são outra coisa. Basta. Mons. Tissier de Mallerais, um dos bispos sagrados por Mons. Lefebvre, dizia também isso:
Para ser heterodoxo, hoje em dia, não é mais preciso negar verdades de fé, como outrora, basta mudar o sentido das palavras... Assim, não é mais necessário para ser herético, contradizer as verdades ensinadas pelo magistério tradicional, basta deslocar o enfoque, retirando-o do essencial para colocá-lo no secundário ou no acessório.[6]
 
A questão principal é a identidade da Igreja Católica. Qualquer estudo da teologia desta crise deverá levar isso em conta.
São Paulo só pôde dar este preceito aos Gálatas por saber que, mesmo sem serem filósofos com ciência adquirida, todos têm no nível do senso comum a capacidade de distinguir o   mesmo   e   o  outro.[7]
 
Em outro lugar Corção escreveu: “Nenhuma reforma pode prevalecer sobre a identidade e sobre a continuidade dessa identidade."
Mons. Lefebvre, na famosa conferência de retiro espiritual dada em Ecône, em 1989, mostrou muito bem que a visibilidade da Igreja não pode se encontrar na “igreja oficial” porque esta não possui mais a unidade da fé necessária para estabelecer as quatro notas essenciais da verdadeira Igreja Católica.[8]
A coisa não pára por aí. Precisamos tentar identificar esta falsa igreja que se faz passar pela Igreja militante com tal audácia que conseguiu ter em seu comando os próprios chefes da verdadeira Igreja católica. É ainda Gustavo Corção que nos mostra o caminho do nosso estudo:
Estamos evidentemente diante de alguma Coisa alterada, ou adulterada, que em vários sinais difere profundamente da Igreja Unam et Sanctam. Não podendo crer que a própria Igreja se alterou e se adulterou, como pretendem os que começam por duvidar de sua perseverante identidade, só nos resta pensar que outra substância está nos meios católicos sem ser católica. E faz questão de se inculcar como católica, pelos sinais exteriores e pelos títulos, não fazendo porém nenhuma questão de ser católica pelas idéias que difunde: “decifra-me ou devoro-te”[9]
Corção compreendeu que a crise da Igreja ia bem além de uma questão de reformas mais ou menos revolucionárias. Quando Jean Madiran, na revista Itinéraires, pedia ao papa que nos devolvesse ... “a missa, o catecismo e as Sagradas Escrituras”, Corção completava:
Eu diria que, em vez de escolher os três pontos: a missa, o catecismo e as Escrituras, prefiro um só grito, uma única súplica dirigida ao papa para pedir a expulsão do espírito que anima todas essas reformas, que anima todas estas aberrações, estas demolições dentro da Igreja. Eu gritaria: “Devolva-nos o Catolicismo!” Sim, é a Igreja Católica, enquanto Católica que passa por um processo de auto-demolição. É a catolicidade maternal e virginal da única Igreja de Cristo que é atacada, sitiada, invadida, em favor de um cristianismo vago, achatado, ressecado e exangue.[10]
 
Esta palavra de Paulo VI – auto-demolição da Igreja – é utilizada freqüentemente por todos os defensores da Tradição, inclusive Mons. Lefebvre, como um argumento ad hominem. Ela não pode exprimir a realidade teológica da vida da Igreja e deve ser rechaçada. Não somente a Igreja não pode se auto-demolir como não há nenhuma necessidade para nós de recorrer a este argumento. O papa Paulo VI que nada mais fez do que acelerar o trem do modernismo, se não gerou a Outra, é responsável por tê-la levado à maturidade. Não, a natureza desta crise só pode estar em outra coisa, acha-se na tentativa de demolição da verdadeira Igreja católica pelo câncer espiritual que a agarrou pela garganta, a sufoca e crucifica-a. É a Outra que procura destruir a Igreja, o que difere muito de uma auto-demolição.
Penso poder dizer que esta argumentação baseada em duas igrejas mortalmente opostas é a única a proteger todos os dados da teologia da Igreja diante da avalanche que tudo carregou. Tive, por duas vezes, a oportunidade de usar esta argumentação, em situações parecidas: no Barroux, em 1988, diante do Dom Basile, quando este foi indicado por Dom Gérard para responder às minhas questões sobre os acordos com Roma. Era a época do sofisma do “perímetro visível”[11]. Dom Basile achou que a existência real da Outra conduziria ao sede-vacantismo, isso porque ele não quis raciocinar na possibilidade de haver um só papa para duas igrejas, pois não encontrava nada sobre isso nos manuais de teologia ou nos exemplos da história da Igreja (lógico). A segunda vez foi em 2001, diante de um dos padres de Campos que afirmou que esta doutrina significaria que as portas do inferno teriam prevalecido sobre a Igreja, como se a presença da Outra destruísse a verdadeira Igreja. Ora, nem um nem outro quiseram examinar a questão até o fim.
Não me parece possível que alguém negue o caráter excepcional, surpreendente e inesperado da crise atual. Uma crise que dura já quarenta anos, tendo à sua frente já três papas com praticamente todo o episcopado. Como não considerar o grande mistério de vermos o corpo da Igreja trabalhando ativamente para a destruição da Esposa de Cristo? Pode-se afirmar sem temeridade que esta crise nada tem a ver com o mistério de iniqüidade anunciado por S. Paulo aos Tessalonicenses, quando percebemos claramente que a grande apostasia que o acompanha já está generalizada? Não estaria aí, justamente, a causa do enorme espanto que sentiu São João quando viu a prostituta do Apocalipse que carregava em si seu nome: Mistério?
A natureza da crise começa a ser melhor estabelecida pela denominação de uma Outra substância, de uma Outra sociedade de bispos tendo o próprio papa como chefe, de uma Outra religião que nos faz pensar nesta abominação da desolação posta no lugar santo, vista pelo profeta Daniel e lembrada por Nosso Senhor em circunstâncias que nos fazem tremer. Já podemos considerar com certo recuo nossas relações com Roma, antes mesmo de aprofundarmos nossas considerações sobre A Outra.
Antes de tudo, desaparece a questão mais delicada:
- Vocês são sede-vacantistas? – Não, é justamente o que não somos.
- Então, para vocês, o papa é verdadeiramente o Vigário de Cristo? – Sim, ele é, ele tem todos os sinais. Ele ocupa a sede de Roma, é reconhecido por todo o mundo como papa, e exerce atos de governo próprios ao Pontífice Romano. Esta questão já não se coloca por diversas razões: não há resposta possível porque só um papa futuro poderá julgar o papa atual.[12] Enquanto a Igreja não declarar este juízo solene nossa consideração deve se limitar aos sinais visíveis do pontificado, e nesse caso devemos afirmar que João Paulo II é o Vigário de Cristo.
- Como pode o papa ensinar tantos erros gravíssimos, fazer gestos tão escandalosos, sem perder o carisma papal? – porque ele é, ao mesmo tempo, o chefe de uma falsa religião fundada em Vaticano II, quando os bispos do mundo todo estabeleceram A Outra. Daí a necessidade de refletir sem medos sobre os fundamentos dessa Anti-Igreja para estabelecer que, efetivamente, ela se constitui como uma falsa religião, com um clero, ritos próprios, um corpo de doutrina e leis específicas.
- Como explicar que a existência dessa Outra não seja a derrota total da verdadeira Igreja Católica? – Aqui o mistério aumenta, sem dúvida. A Santa Igreja Católica está sempre viva, mas sitiada e invadida, como nos dizia Corção acima. Eu não usaria a imagem de uma invasão militar, com um governo ilegítimo esmagando o rei, ou a imagem da Aids espiritual usada por Mons. Lefebvre, mas a invasão de um câncer espiritual, como uma pele, uma fina película transparente e, sobretudo, viva, que engole a Igreja católica tornando-a prisioneira, sem movimentos próprios, sem palavra, sem rito nem lei. Como todo câncer, ela nasce de dentro e se desenvolve sem controle do organismo, levando-o por um caminho de morte. A transparência desse câncer vem do fato que o governo da Outra é feito pelos mesmos homens, a mesma hierarquia que deveria governar a Igreja católica. Assim, quando um Mons. Lefebvre, por exemplo, ousava se levantar contra o papa, este, ou os bispos lhe apontavam o dedo: atenção, é o papa, são os bispos, obedeça!  É claro que nosso bispo, sendo perfeitamente católico, queria obedecer e demonstrar seu apego à Santa Sé, como tantas vezes ele exprimiu, mas desde que ele se aproximava, a voz que ouvia não era a da Mãe, mas uma voz estranha, desconhecida e mesmo monstruosa. Foi diferente em 1988? E em 2001, com Mons. Fellay? As exigências impostas a Mons. Lefebvre de pedir desculpas, em 6 de maio de 1988, ou a recusa de liberar a missa tradicional a todos os padres porque seria um ultraje a Vaticano II, em 2001, são sinais impressionantes de que as autoridades falavam antes como representantes da Outra e não como chefes católicos.
Será que um papa, enquanto papa, representando a verdadeira Igreja, podia recusar-se a um gesto como este em favor de uma missa santa, perfeitamente legítima e ortodoxa?
- Alguém poderia ainda objetar que a missa de uma tal igreja diabólica não poderia ser válida, enquanto que o próprio Mons. Lefebvre e tantos outros sempre afirmaram que a nova missa é válida. – Ainda aqui, a única resposta que mantém intactos todos os dados da teologia vem dessa usurpação. O câncer que cobre a Igreja não é apenas uma metáfora. É uma realidade analógica, um verdadeiro câncer espiritual. Como tal, ele lança seus tentáculos mórbidos no interior do Corpo Místico de Cristo para sugar sua vida e a eficácia de seus ritos. Ele domina de tal modo a Esposa de Cristo, ele a mantém em tal controle que esta vê as conseqüências terríveis dessa usurpação de sua vida sem poder nada fazer, impotente para vir em auxílio de seus filhos cegos e conduzidos à morte da heresia, do sacrilégio, do pecado.
Todos os sacramentos e sacramentais, tudo o que dependerá de um rito, será assim sugado do coração mesmo da Igreja. E os fiéis serão enganados quando, assistindo a um rito novo, pensarão ver nele algo de ainda católico.
Que esperteza do demônio! Quanta audácia! E que diabólica satisfação não deve ele sentir quando nos vê batendo cabeça uns contra os outros, sem saber muito bem como nos posicionar diante dessa nova versão do William Wilson do conto de Edgar Allan Poe.
Se Mons. Lefebvre compreendeu que era necessário resistir até o fim, até ser “excomungado” – e ele disse bem que era excomungado pela Roma modernista, logo pela Outra – foi em razão da essência não-católica de todo esse mundo de Vaticano II. A famosa Carta que ele escreveu aos quatro bispos sagrados em 30 de junho de 1988 não deixa dúvidas: estes novos bispos deverão depositar aos pés do Santo Padre seu episcopado quando Roma será convertida à Tradição. Não antes, porque eles teriam que tratar com uma outra coisa, uma outra igreja, tendo as mesmas autoridades humanas. Se nós recusamos admitir que trata-se de Outra coisa, cairemos facilmente na armadilha onde caíram os padres de Campos: eles pretenderam que não era possível Deus permitir que toda a hierarquia se enganasse de caminho durante um tempo tão longo. Com a presença do câncer espiritual a questão do tempo não se coloca mais. Pode durar enquanto Deus quiser, como uma purificação necessária, ou como a Paixão da Igreja, seguindo a Paixão do seu Mestre.
Eis, então, a paz que começa a se fazer presente na alma católica libertada de seus escrúpulos, compreensíveis mas tão perigosos. Não será mais preciso ficar como que mal acomodado na cadeira, sem poder aceitar os erros e sem querer lançar para longe a hierarquia constituída. Firmemos nossos pés nesta terra da salvação que é a verdadeira Igreja de sempre. Se ela está prisioneira da Outra, sejamos nós também prisioneiros, excomungados, marginalizados, crucificados, como ela, nossa Mãe, está crucificada e se aproxima desta morte mística própria ao Corpo Místico de Cristo, o que, bem longe de ser uma derrota é o início da vitória.
As duas tentações presentes em nossos meios já existiam no tempo de Nosso Senhor. Os sede-vacantistas se parecem com os apóstolos escandalizados com a Cruz, que fugiram, um após outro, até que só ficou um, São João, o único que tinha atingido, antes mesmo de Pentecostes, um grau particular da Sabedoria. Já os que se inclinam para os acordos com Roma se parecem com os discípulos que abandonaram Jesus em troca da “legalidade” farisaica, porque as apóstrofes do Mestre contra as autoridades eram para eles insuportáveis. –“E vós, quereis também partir?....Para onde iríamos, Senhor, só Vós tendes palavras de vida eterna”.
Esta paz da alma só pode existir com a graça. Esta graça nada mais é do que um ato de fé sobrenatural continuamente em ação na alma. É um pecado contra a fé que fez cair todos os que partiram, por medo, por escrúpulos ou por excesso de rigorismo. Atraídos irresistivelmente por uma armadilha armada pela Outra, caíram os que fizeram acordos com Roma, nesta falta contra a Fé que responde a nossa questão do início: porque todos, unanimemente, acabam aceitando todo o Vaticano II? Faltando a fé, eles não conseguem mais enxergar nada além do câncer que esgana a verdadeira Igreja.
No outro pólo, os sede-vacantistas não são atraídos, mas antes empurrados por uma estranha força que os afasta da Igreja por não suportarem a idéia de que ela possa estar crucificada sobre o Gólgota da religião pluralista de um mundo maçonicamente globalizado.
O ato de fé de que se trata aqui não é uma coisa fácil e evidente. A graça deve ser renovada todos os dias numa constante oração, numa profunda humildade, numa confiança total. Não na confiança nesses homens da hierarquia visto serem verdadeiros traidores que preferem governar A Outra em vez de governar a Católica. Confiança em Deus, uma fé sem reservas no governo que a Cabeça, o Chefe, Jesus Cristo, exerce sobre sua Esposa mesmo no momento mais doloroso da crucifixão e da morte. Do Gólgota místico onde certamente ela se encontra, desta crucifixão que a torna mais unida e mais semelhante a seu Esposo divino, ou do túmulo onde ela há de passar seus três dias, ela ressurgirá na glória, como Nosso Senhor, para nos deixar a marca do seu Corpo visível, mais belo que nunca, mais santo, desta Esposa sem manchas nem rugas que será para nós a vida do Reino do Céu. Ressurrexit sicut dixit, Allelúia!

Fonte

[1] Veja algumas dessas cartas em www.capela.org.br/Crise/Vaticano2/berto1.htm. A publicação dessas cartas na revista citada provocou certa polêmica, rebatida pelos dominicanos no nº 45.
[2] Apoc. 17, 9
[3] Veja detalhes no nosso livro Tradição versus Vaticano, Ed Permanência, 2001
[4] O Globo, 29/12/1977
[5] O Globo, 30/03/1974
[6] Revista Le Sel de la Terre, nº 42, 2002 – Apresentação ao Sermão das ordenações
[7] O Globo, artigo Trabalhemos com Jesus, 7 de junho 1975
[9] O Globo, artigo Decifra-me ou devoro-te, 21 de fevereiro 1976
[10] Itinéraires, 181, março 1974 – artigo  Mon désir est-il de plaire aux hommes? – Seria meu desejo agradar aos homens?
[11] Dom Gérard Calvet dizia que nós não estávamos fora da Igreja mas sim fora do perímetro visível da Igreja, confundindo visibilidade da Igreja com oficialidade legal do Vaticano.
[12] Mons. Tissier de Mallerais mostrou bem isso no seu sermão de 2002. cf. www.capela.org.br/Crise/Vaticano2/tissier2002.htm

terça-feira, 10 de julho de 2012

Sobre sedevacantismo, infalibilidade e excomunhão

Três coelhos com uma cajadada só: sedevacantismo, infalibilidade e excomunhão!

«O Card. Ratzinger é contra a infalibilidade, o Papa é contra a infalibilidade, por sua formação filosófica. Que nos compreendam bem: nós não somos contra o Papa até o ponto em que representa todos os valores da Sé Apostólica, que são imutáveis, a Sé de Pedro; mas somos contra o Papa que é um modernista que não crê em sua infalibilidade, que pratica o ecumenismo. Em toda evidência, nós somos contra a Igreja conciliar que praticamente é cismática, mesmo que eles não o aceitem. Na prática, trata-se de uma Igreja virtualmente excomungada, porque é uma Igreja modernista. Eles são aqueles que nos excomungam, enquanto que nós queremos permanecer católicos. Nós queremos permanecer com o Papa católico e com a Igreja católica». (Mons. Lefebvre in Fideliter n° 70-1989, p. 8).

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quinta-feira, 10 de maio de 2012

Sobre a não discriminação aos homossexuais

PARA OS LEGISLADORES CATÓLICOS BRASILEIROS

CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ

Algumas reflexões acerca da resposta a propostas legislativas sobre a não-discriminação das pessoas homossexuais*


INTRODUÇÃO

Recentemente, foi proposta uma legislação em vários lugares, que tornaria ilegal uma discriminação baseada num orientamento sexual. Nalgumas cidades, as Autoridades municipais puseram habitações públicas à disposição de casais homossexuais (e heterossexuais solteiros) – normalmente reservadas a famílias. Estas iniciativas, mesmo onde parecem mais dirigidas a defender os direitos civis básicos do que a tolerar a actividade homossexual ou um estilo de vida homossexual, podem, com efeito, ter um impacto negativo na família e na sociedade. Os casos, por exemplo, da adopção de crianças, dó trabalho dos professores, das necessidades habitacionais de famílias verdadeiras, das legítimas preocupações do proprietário, no que se refere aos eventuais inquilinos, são com frequência postos em discussão.

Ao mesmo tempo que seria impossível prever todas as eventualidades, em relação às propostas legislativas neste sector, tais observações procurarão identificar alguns princípios e distinções de natureza geral, os quais deveriam ser tomados em consideração pelo legislador, eleitor ou Autoridade eclesiástica consciente, no momento de enfrentar estes problemas.

A primeira secção recordará as passagens relevantes da «Carta aos Bispos da Igreja Católica sobre o Atendimento Pastoral das Pessoas Homossexuais», da Congregação para a Doutrina de Fé, de 1986. A segunda secção tratará a sua aplicação.

I.

PASSAGENS RELEVANTES DA «CARTA»
DA CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ

1. A Carta recorda a «Declaração sobre alguns Pontos de Ética Sexual», da Congregação para a Doutrina da Fé, de 1975, a qual «levava em consideração a distinção feita comummente entre a condição ou tendência homossexual, de um lado, e, do outro, os actos homossexuais»; os últimos são «intrinsecamente desordenados» e «não podem ser aprovados em caso algum» (n. 3).

2. Todavia, «na discussão que se seguiu à publicação da Declaração, foram propostas interpretações excessivamente benévolas da condição homossexual, tanto que houve quem chegasse a defini-la indiferente ou até mesmo boa». A Carta continua e esclarece: «... a particular inclinação da pessoa homossexual, embora não seja em si mesma um pecado, constitui, no entanto, uma tendência, mais ou menos acentuada, para um comportamento intrinsecamente mau do ponto de vista moral. Por este motivo, a própria inclinação deve ser considerada objectivamente desordenada. Aqueles que se encontram em tal condição deveriam, portanto, ser objecto de uma particular solicitude pastoral, para não serem levados a crer que a realização concreta desta tendência nas relações homossexuais seja uma opção meramente aceitável» (n. 3). Não o é!

3. «Como acontece com qualquer outra desordem moral, a actividade homossexual impede a auto-realização e a felicidade, porque é contrária à sabedoria criadora de Deus. Refutando as doutrinas erróneas acerca do homossexualismo, a Igreja não limita, antes, pelo contrário, defende a liberdade e a dignidade da pessoa, compreendidas de um modo realista e autêntico» (n. 7).

4. No que se refere à tendência homossexual, a Carta afirma: «uma das tácticas usadas é a de afirmar, em tom de protesto, que qualquer crítica ou reserva às pessoas homossexuais, à sua atitude ou ao seu estilo de vida, é simplesmente uma forma de injusta discriminação» (n. 9).

5. «Em algumas Nações funciona, como consequência, uma tentativa de pura e simples manipulação da Igreja, conquistando-se o apoio dos Pastores, frequentemente em boa fé, no esforço que visa mudar as normas da legislação civil. Finalidade de tal acção é ajustar esta legislação à concepção própria destes grupos de pressão, para a qual o homossexualismo é, pelo menos, uma realidade perfeitamente inócua, quando não totalmente boa.

Embora a prática do homossexualismo esteja ameaçando seriamente a vida e o bem-estar de um grande número de pessoas, os fautores desta corrente não desistem da sua acção e recusam levar em consideração as proporções do risco que ela implica» (n. 9).

6. «Ela (a Igreja) é consciente de que a opinião, segundo a qual a actividade homossexual seria equivalente à expressão sexual do amor conjugal ou, pelo menos, igualmente aceitável, incide directamente sobre a concepção que a sociedade tem da natureza e dos direitos da família, pondo-os seriamente em perigo» (n. 9).

7. «É de se deplorar firmemente que as pessoas homossexuais tenham sido e sejam ainda hoje objecto de expressões malévolas e de acções violentas. Semelhantes comportamentos merecem a condenação dos Pastores da Igreja, onde quer que aconteçam. Eles revelam uma falta de respeito pelos outros, que fere os princípios elementares sobre os quais se alicerça uma sadia convivência civil. A dignidade própria de cada pessoa deve ser respeitada sempre, nas palavras, nas acções e nas legislações.

Todavia, a necessária reacção diante das injustiças cometidas contra as pessoas homossexuais não pode levar, de forma alguma, à afirmação de que a condição homossexual não seja desordenada. Quando tal afirmação é aceita e, por conseguinte, a actividade homossexual é considerada boa, ou quando se adopta uma legislação civil para tutelar um comportamento, ao qual ninguém pode reivindicar direito algum, nem a Igreja nem a sociedade no seu conjunto deveriam surpreender-se se depois também outras opiniões e práticas distorcidas ganharem terreno e se aumentarem os comportamentos irracionais e violentos» (n. 10).

8. «Em todo o caso, deve-se evitar a presunção infundada e humilhante de que o comportamento homossexual das pessoas homossexuais esteja sempre e totalmente submetido à coacção e, portanto, seja sem culpa. Na realidade, também às pessoas com tendência homossexual deve ser reconhecida aquela liberdade fundamental, que caracteriza a pessoa humana e lhe confere a sua particular dignidade» (n. 11).

9. «Ao avaliar eventuais projectos legislativos, (os Bispos) deverão pôr em primeiro plano o empenho na defesa e na promoção da vida familiar» (n. 17).

II.

APLICAÇÕES

10. «A tendência sexual» não constitui uma qualidade comparável à raça, à origem étnica, etc. no que se refere à não-discriminação. Diferentemente destas, a tendência homossexual é uma desordem objectiva (cf. Carta, 3) e requer solicitude moral.

11. Existem sectores onde não se trata de discriminação injusta tomar em consideração a tendência sexual, por exemplo, na adopção ou no cuidado das crianças, nó trabalho dos professores ou dos treinadores atléticos e no recrutamento militar.

12. As pessoas homossexuais, como seres humanos, têm os mesmos direitos de todas as pessoas, inclusivamente o direito de não serem tratadas de maneira que ofenda a sua dignidade pessoal (cf. Ibid., 10). Entre outros direitos, todas as pessoas têm o direito de trabalhar, de ter uma habitação, etc. Todavia, estes direitos não são absolutos. Podem ser legitimamente limitados por motivos de conduta externa desordenada. Isto, às vezes, é não só lícito, mas obrigatório. Além disso, não se trata apenas de casos de comportamento culpável, mas até mesmo de casos de acções de pessoas física ou mentalmente doentes. Assim, aceita-se que o Estado limite o exercício dos direitos, por exemplo, no caso de pessoas contagiadas ou mentalmente deficientes, para proteger o bem comum.

13. Incluir a «tendência homossexual» entre as reflexões, na base das quais é ilegal discriminar, pode facilmente levar a afirmar que a homossexualidade é uma fonte positiva de direitos humanos, por exemplo, no que se refere aos chamados direitos de acção afirmativa ou ao tratamento preferencial no que se refere à admissão ao trabalho. Isto é ainda mais deletério se considerarmos que não existe um direito à homossexualidade (cf. Ibid., 10), o que não deveria, portanto, constituir a base para reivindicações jurídicas. A passagem do reconhecimento da homossexualidade como factor, na base do qual é ilegal discriminar, pode facilmente levar, se não de modo automático, à protecção legislativa e à promoção da homossexualidade. A homossexualidade de uma pessoa seria invocada em oposição a uma discriminação declarada e, assim, o exercício dos direitos seria defendido exactamente mediante a afirmação da condição homossexual, em vez de em termos de uma violação dos direitos humanos básicos.

14. A «tendência homossexual» de uma pessoa não pode ser comparada com a raça, o sexo, a idade, etc., também por outro motivo, além do supracitado, que merece atenção. A tendência sexual de uma pessoa individualmente não é, de modo geral, conhecida pelos outros, a não ser que ela se identifique em público como alguém que tem esta tendência ou com a manifestação de comportamento exterior. Geralmente, a maioria das pessoas com tendências homossexuais, que procuram viver uma vida casta, não tornam pública a sua tendência sexual. Por conseguinte, o problema da discriminação, em termos de trabalho, de habitação, etc., normalmente não se apresenta.

As pessoas homossexuais que manifestam a própria homossexualidade, tendem a considerar o comportamento ou o estilo de vida homossexual «indiferente ou até mesmo bom» (cf. n. 3) e, portanto, digno de aprovação pública. Muito provavelmente, é no âmbito destas pessoas que se encontram aqueles que tentam «manipular a Igreja, conquistando-se o apoio dos Pastores, frequentemente em boa fé, no esforço que visa mudar as normas da legislação civil» (cf. n. 9), aqueles que usam a táctica de afirmar, em tom de protesto, «que qualquer crítica ou reserva às pessoas homossexuais... é simplesmente uma forma de injusta discriminação» (cf. n. 9).

Além disso, existe o perigo de a legislação, que faz da homossexualidade uma base para certos direitos, encorajar deveras uma pessoa tendencialmente homossexual a declarar a sua homossexualidade ou até mesmo a procurar um parceiro, aproveitando-se assim das disposições da lei.

15. Já que na avaliação de uma proposta legislativa deve ser dada a máxima importância à responsabilidade da defesa e da promoção da vida familiar (cf. Ibid., n. 17), é fundamental prestar atenção a cada uma das intervenções propostas separadamente. Como é que terão influência na adopção das crianças e no acto de as confiar à sua responsabilidade? Constituirão uma defesa dos actos homossexuais, públicos e privados? Conferirão às uniões homossexuais uma condição equivalente à da família, por exemplo, no que se refere à habitação, ou concedendo ao parceiro homossexual os privilégios que derivam do trabalho e que incluem, entre outras coisas, a participação «familiar» nos benefícios hospitalares concedidos aos trabalhadores? (cf. Ibid., n. 9).

16. Por fim, quando a questão do bem comum entra em jogo, não é conveniente que as Autoridades eclesiásticas apoiem, nem que permaneçam neutrais perante legislações adversas, mesmo que elas admitam exceções às Organizações e Instituições da Igreja (Olha a Marta Suplicy aí!). A Igreja tem a responsabilidade de promover a vida familiar e a moralidade pública da sociedade civil inteira, com base nos valores morais fundamentais, e não unicamente de se defender a si mesma das aplicações de leis nocivas (cf. Ibid., n. 17).
 
* L’Osservatore Romano, Edição semanal, N. 32, 9 de Agosto de 1992, Pág. 6 (418).

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