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terça-feira, 10 de maio de 2016

Sobre a Vida Solitária

A um amigo sobre a Vida Solitária



Carta de Guigo I


Ao Reverendo…, Guigo, o menor dos servos da Cruz que estão em Chartreuse: «Viver e morrer por Cristo» (Cf. Fl 1,21).

Um imagina feliz o outro. A meu ver, aquele que o é verdadeiramente não é o ambicioso que luta para conseguir honras altivas num palácio, mas aquele que escolhe levar uma vida simples e pobre no deserto, que gosta de aplicar-se à sabedoria no repouso 1, e deseja com ardor permanecer sentado e solitário no silêncio (Cf. Lm 3,28).

Porque, brilhar nas honras, estar elevado em dignidade, é, a meu ver, coisa pouco tranquila, exposta a perigos, sujeita a cuidados, suspeita para muitos, e para ninguém segura. Alegre no princípio, equívoca com a prática, é triste no seu termo. Aplaude os indignos, indigna-se contra os bons, e na maioria das vezes, zomba de uns e de outros. Fazendo muitos infelizes, não faz ninguém feliz, nem satisfeito.

Em compensação, a vida pobre e solitária, pesada no começo, fácil no seu curso, torna-se no fim celeste. Está firme nas provas, confiante nas incertezas, modesta no êxito. É frugal na alimentação, simples no vestir, reservada nas palavras, casta nos costumes, e objeto dos maiores desejos porque não deseja absolutamente nada. Sente muitas vezes o aguilhão do arrependimento pelos seus pecados passados, evita-os no presente e previne-se contra eles no futuro. Espera na Misericórdia, mas não conta com os seus (próprios) méritos. Aspirando vivamente aos bens celestiais, rejeita os da terra. Esforça-se por adquirir uma conduta provada, mantém-se nela com perseverança, e guarda-a para sempre. Entrega-se aos jejuns pelo hábito da Cruz, mas aceita alimentos por exigência do corpo. Dispõe uma e outra coisa com a mais perfeita medida; com efeito, domina a gula sempre que decide comer, e o orgulho, sempre que quer jejuar. Dedica-se ao estudo, mas sobretudo das Escrituras e de obras religiosas nas quais o miolo do sentido a mantém mais ocupada que a escuma das palavras. E, o que é mais surpreendente e mais admirável, permanece sem cessar no repouso, e, ao mesmo tempo, nunca está ociosa 2. Multiplica as suas ocupações, de modo a faltar-lhe a maioria das vezes o tempo mais que atividades diversas. E lamenta-se mais frequentemente da falta de tempo que do aborrecimento do trabalho.


E que mais dizer? É um belo tema aconselhar o repouso 3, mas semelhante exortação exige um espírito senhor de si que, cuidadoso com o seu próprio bem, desdenhe intrometer-se nos assuntos públicos ou alheios; um espírito que sirva sob Cristo, na paz, de forma a evitar ser simultaneamente soldado de Deus e defensor do mundo, e que saiba perfeitamente que não pode gozar aqui, com este século, e reinar no outro com o Senhor.

Mas estas coisas e outras semelhantes são muito pouco se te lembras do que bebeu sobre o patíbulo Aquele que te convida a reinar com Ele. De bom ou mal grado, importa-te seguir o exemplo de Cristo na Sua pobreza, se queres ter parte em Cristo nas Suas riquezas. «Se participamos nos seus sofrimentos», diz o Apóstolo, «reinaremos também com Ele» (Rm 8,17), «Se morremos com Cristo, viveremos também com Ele» (2Tim 2, 11-12). O próprio Mediador respondeu aos dois discípulos que Lhe pediam para se sentarem um à Sua direita e o outro à Sua esquerda: «Podeis beber o cálice que Eu vou beber?» (Mt. 20, 21-22) 4. Mostrava-nos, deste modo, que se chega aos festins prometidos dos Patriarcas e ao néctar das taças celestes através do cálices das amarguras terrestres.

E por que a amizade já alimenta a confiança e que tu, meu apreciado amigo em Cristo, sempre me foste caro desde o dia em que te conheci, exorto-te, animo-te e peço-te, visto que és prudente, ponderado, sábio e muito hábil, que subtraias ao mundo esse pouco da tua vida que ainda não foi consumido; não tardes em queimá-lo para Deus, como um sacrifício vespertino (Ps 140,2), depondo-o sobre o fogo da caridade (Cf. Lv 1,17), a fim de que, a exemplo de Cristo, sejas tu próprio Sacerdote e também «Vitima (em sacrifício de) agradável odor para Deus» (Ef 5,2) 5 e para os homens.

Mas, a fim de compreenderes mais plenamente para onde tende o ardor de todo este discurso, indico brevemente à prudência do teu juízo qual é o voto do meu coração e ao mesmo tempo o conselho dele: como homem de coração generoso e nobre, abraça o nosso gênero de vida, tendo em vista a tua salvação eterna, e, feito novo recruta de Cristo, vigiarás, fazendo uma guarda santa no campo da milícia celeste, depois de teres posto à cinta a tua espada (2Tm 2,11-12), por causa dos temores da noite (Ct 3,8).

Portanto, como se trata para ti duma coisa boa no seu empreendimento, fácil na sua realização e feliz no seu acabamento, peço-te que ponhas na consecução de um tão justo “negócio” tanta aplicação quanta a graça divina para tal te conceder. Onde e quando deves fazê-lo, deixo a escolha decisiva disso à tua sagacidade. Mas não creio de forma nenhuma que um prazo ou demora nisso seja algo vantajoso para ti.

Mas não me alongarei mais sobre tal assunto, receoso de que este discurso rude e deselegante te moleste como frequentador do Palácio e da Corte. Tenha, pois, esta carta um fim e uma medida, coisa que não terá nunca o meu grande afeto por ti.


Guigo I


Notas :
1. Como nos diz o estudioso do Monacato Primitivo dos Padres do Deserto, Dom García Colombás, osb (BAC nº. 588, p. 653 y 693), o ideal dos monges orientais que eles designavam com a palavra hesychía, apátheia, os monges ocidentais o traduziam com o vocábulo repouso, quies, puritas cordis, pax etc. Quando aqui nos fala Guigo do otium do contemplativo, se está referindo a esse ideal, ao qual já fazia referência São Bruno nas suas cartas (Cf., p.e.: Ad Radulphum., 4 e 7; Ad Fratres, 2), no qual já se tinha exercitado aos pés de Jesus Maria de Betânia, como o mesmo Guigo nos fala nos seus Consuetudines Cartusiæ, XX, 2.  
2. Guigo emprega nesta carta os mesmos termos utilizados por São Bruno ao dirigir-se a seu amigo Raul: Aqui se pratica um repouso bem ocupado, se repousa numa sossegada atividade (Ad Radulphum., 6).  
3. Ao aconselhar aqui Guigo a seu amigo o repouso, o otium contemplativo, devemos entender que o faz nas duas facetas que isso comporta. A este respeito, Dom G. Colombás fez notar que o ideal dos monges do Deserto levava consigo, por um lado, como estado de vida, a hésychia material, ou permanência repousada na solidão do ermo, e por outro lado, a hésychia interior, ou repouso silencioso, como estado da alma a que se ordena a primeira (Idem. Pág. 692). Tudo isso exige do solitário a séria ascese de negar-se a si mesmo e carregar a cruz de cada dia, como bom soldado de Cristo. 
4. Perante estas citações da Palavra de Deus, o quinto sucessor de Bruno centraliza a genuína milícia do monge, no deserto, em sua inserção no mistério pascal de Cristo.  
5. O apreço de Guigo pela dimensão sacerdotal da vida do monge (mas não do leigo!, como quer o CVII), como membro de Cristo pelo Batismo (Cf. 1Pd 2, 9), fica aqui uma vez mais patente com esta citação do Apóstolo (Cf. Ef 5,2).   


Fonte: http://www.chartreux.org/pt/textos/guigo_I-vida-solitaria.php






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