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domingo, 15 de maio de 2016

A (falsa) oração de São Francisco: "Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz..."

A  "Preghiera semplice" ("Oração simples") de São Francisco: uma falsificação do Século XX. 



“Francisco prega às aves”, 
Predella de “As estigmas de São Francisco”, 
(1295-1300) Giotto (Louvre) 


É a mais célebre oração franciscana depois do "Cântico das Criaturas", homenageada por canções, santinhos, discursos solenes e expressões artísticas e religiosas de todo tipo. Pena que não tem nada a ver com São Francisco de Assis.

A Oração Simples é a mais clamorosa falsificação da espiritualidade contemporânea. Tanto mais clamoroso justamente porque contemporâneo. Não se trata, de fato, de uma antiga oração erroneamente atribuída ao santo de Assis, mas de um texto "juveníssimo", visto que foi escrito há apenas um século.

Permitiu que se "emboscasse" entre os escritos do Poverello, além da extraordinária beleza e o espírito – isso, sim  – autenticamente franciscano, também o fato de que as poesias de Francisco de Assis representam um universo tão povoado quanto diversificado e descontínuo. 


Como por exemplo o caso do "Lodi di Dio Altissimo" ("Louvores a Deus"), que o santo escreveu na volta da viagem ao Egito, no qual há inclusive a assinatura do próprio Francisco, guardado, hoje, no Sacro Convento di Assisi. Segundo o testemunho de frei Leão, Francisco escreveu a oração no Santuário do Monte Alverne, depois de receber os estigmas. No mesmo papel, no verso, Francisco traçou, depois, uma benção para frei Leão, que guardou a pergamena até sua morte dentro de um bolso costurado no hábito, à altura do coração.

A "Preghiera davanti al Crocifisso" ("Oração diante do Crucifixo"), ao contrário, nos foi transmitida por uma tradição antiquíssima, que a situa em 1206, ou seja, nos primeiríssimos tempos da conversão, quando o jovem Francisco se questionava ainda sobre o caminho a seguir, enquanto a paternidade do "Cantico delle creature" ("Cântico das Criaturas") é atestada por muitas fontes, entre as quais as memórias dos companheiros mais íntimos, como o próprio frei Leão.

A tradição que atribuiu a Oração Simples a São Francisco, ao invés, se formou mesmo no curso do Século XX, mas se arraigou de tal forma que é aceita também pelos guardiães das memórias Bufão de Deus. 




A "chartula fratri Leoni", 
com os "Louvores a Deus", 
guardada na capela das relíquias 
da Basílica de São Francisco. 


Uma verdadeira legenda contemporânea, portanto, cultivada no século do racionalismo e da ciência e que se formou nos mesmos anos em que os estudos sobre São Francisco davam passos de gigantes graças à descoberta, em Perúgia, em 1922, de um manuscrito que revolucionaria os estudos franciscanos: aquele que restou conhecido como "Legenda Perugina", e no qual – como demonstrou Raoul Manselli – se podem rastrear as lembranças dos companheiros mais próximos do Santo. 

Como nasceu, então, a tradição que deseja que a Oração Simples tenha sido composta por São Francisco de Assis?

“Na realidade, trata-se de uma história tão singular quanto bela”, explica Alfonso Marini, francescanista e docente de História Medieval na Universidade la Sapienza de Roma. Um acontecimento ao qual o historiador Christian Renoux dedicou um livro inteiro: "La prière pour la paix attribuée à saint François, une énigme à résoudre" ("A oração pela paz atribuída a São Francisco, um enigma a solucionar"), publicado por Edizioni francescane, Paris, 2001, e ainda inédito na Itália.

Tudo se inicia em dezembro de 1912, quando a poesia é publicada pela primeira vez na França, na revista eclesiástica "La Clochette", pelo padre Esther Bouquerel. O texto estava em francês, anônimo, e se intitulava "Belle prière à faire pendant la messe" ("Bela oração para fazer durante a missa").

“La Clochette – explica padre Pietro Messa, reitor da "Scuola superiore di studi medievali e francescani" de Roma – era o órgão da "Ligue de la Sainte-Messe" ("Liga da Santa Missa"), uma pia associação que tinha a finalidade de difundit a participação à Missa, sobretudo dominical, entre os católicos”.

"La Clochette" contava com 8000 assinantes e entre estes estava o canônico Louis Boissey (1859-1932), que também editava um boletim, o "Annales de Notre-Dame de la Paix" ("Anais de Nossa Senhora da Paz"), em cujas páginas, em janeiro de 1913, publicou a oração deixando o mesmo título e indicando a origem. Através dessa segunda difusão, a oração chegou ao conhecimento do Marquês de Normandia, Stanislas de la Rochethulon et Grente, presidente do "Souvenir Normand", uma associação que ostentava ligações inclusive com o Vaticano.




Madre Teresa de Calcutá recebeu 
o Prêmio Nobel da Paz em 1979, 
e na ocasião pediu que 
fosse recitada a Oração Simples.  

Foi graças a essas ligações que, em dezembro de 1915 – em plena Primeira Guerra Mundial, definida por Bento XV como "um inútil massacre" – o Marquês enviou ao Secretário de Estado vaticano Pietro Cardeal Gasparri uma série de orações para transmitir ao Papa. Em 20 de janeiro de 1916, o "Osservatore Romano" publicou a oração, com uma tradução italiana.

A lenda começara, e certo Monsenhor Alexandre Pons a publicou definindo-a "une prière très ancienne" ("uma oração muito antiga").

A ligação com a figura de Francisco de Assis nasceu com o próprio padre Bouquerel (o provável autor da oração), o qual, na Normandia, desenvolvera sua atividade pastoral em uma  comunidade de Franciscanos; a sua primeira obra, havia sido uma homenagem a uma terciária francisca, publicada em 1889. "O que caracterizou a sua atividade – explica ainda Messa – foi o apostolado eucarístico e, sobretudo a partir de 1914, a oração em prol da paz". Uma obra em consonância com o pacifismo [???] de Papa Bento XV que havia condenado duramente a Primeira Guerra Mundial.

E é justamente no fronte da Grande Guerra que começam a circular folhetos com o texto destinado a se tornar célebre em todo o mundo. "É uma oração que fala de paz – observa Marini – transcrita, traduzia e difundida por homens que estavam vivendo o horror da guerra: isto a torna, então, mais bela e significativa do que se tivesse sido escrita pelo próprio Francisco" [???].

Depois de algum tempo, a oração apareceu em santinhos, ao lado da imagem do Santo de Assis: iniciou, assim, a identificação do Poverello como o autor daquela que se tornou, com o passar do tempo, um emblema do próprio Franciscanismo. Nos primeiros santinhos, é estampado que esta oração "maravilhosamente resume a fisionomia exterior do verdadeiro seguidor de S. Francisco", enquanto depois de 1920 a oração se difunde também nos ambientes protestantes, sobretudo na Suíça e na Bélgica, através de cartões postais com o título "Prière des Chevaliers de la paix" ("Oração dos Cavaleiros da Paz") e com a menção: "attribuée a St. François d’Assise" ("atribuída a S. Francisco de Assi").  

Entre os anos Vinte e Trinta, se difunde na Inglaterra e na Alemanha, enquanto em 1945 a igreja de Genebra a define "do século XIII e obra de Francisco de Assis". 

"A oração foi difundida inicialmente em francês, depois em inglês e alemão – acrescenta Marini – é, então, muito hilário o fato de que, para comprovar sua autenticidade tenha sido traduzida depois também em italiano antigo". 

“Nos Estados Unidos e em Canadá, conheceu grande difusão – narra Messa – e alguns franciscanos canadenses afirmam que teria sido lida, em 1945, no momento da conferência de São Francisco da qual nasceu a ONU. No dia primeiro de fevereiro de 1946, foi apresentada ao Senado de Washington definindo-a como uma "oração de São Francisco" escrita em 1226. A esta altura, todos os textos atribuem a oração a São Francisco, e em 1952 a peregrinação "Pax Christi' a Roma e Assis adota a tal oração". "A partir dos anos Cinquenta – acrescenta o frei menor – as edições franciscanas e Daca, em Assis, iniciam a difundir a nossa oração em várias línguas em cartões postais, e desse modo se espalhou literalmente por todo o mundo, sem que os franciscanos ficassem alarmados com a falsa atribuição".



O disco de vinil da trilha sonora 
do filme "Irmão Sol, Irmã Lua" 
de Franco Zeffirelli (1972). 


Entre as muitas versões, há aquela de Sebastian Temple (1967), executada aos 6 de setembro de 1997, na abadia londrina de Westminster, nos funerais da Princesa Diana e aquela escrita por Riz Ortolani e Jean-Marie Benjamin (padre, músico, funcionário da ONU e enviado do Vaticnao no Iraque) para o filme "Fratello sole, sorella luna" ("Irmão Sol, Irmã Lua), cantada por Claudio Baglioni.

“Definitivamente, ela se tornou a oração universal de que tomaram posse o movimento gandhiano de Lanza del Vasto, o bispo brasileiro [comunista] Helder Câmara, o Conselho Ecumênico das Igrejas. Madre Teresa de Calcutá a considerava como um programa espiritual dos Missionários da Caridade, e a fez recitar em 1979 quando recebeu em Oslo o prêmio Novem da paz, enquanro o bispo [sic] anglicano sul-africano Desmond Tutu a considera parte integrante de sua devoção. Também houve políticos que a citaram, como a Primeira Ministra inglesa, Margaret Thacher, no dia 4 de maio de 1979, e o presidente Bill Clinton, em 1995, quando recebeu a visita de João Paulo II nos Estados Unidos". [pelos nomes ligados a essa oração, talvez seja prudente manter distância. É bonita, foi feita antes do CVII, mas a Maçonaria já implementava nessa época seu plano maligno contra a Fé. Prudência e caldo de galinha não fazem mal a ninguém.]

E, se é verdade – como observa Messa – que em 27 de outubro de 1986 João Paulo II a citou durante a jornada com todos os representantes das religiões (Assis I), "é também verdade que a escolha de Assis para aquela reunião foi determinada em parte também à atribuição a São Francisco dessa oração pela paz". 

De outro lado, se com certeza a oração não foi escrita por Francisco de Assis, o texto parece fazer eco a uma fonte franciscana como os Ditos do beato Egídio de Assis: “Beato aquele que ama e não deseja ser amado, beato aquele que teme e não quer ser temido, beato aquele que cuida dos outros e não quer cuidados para si”.

Obviamente, a Oração Simples não cabe nas coleções oficiais das Fontes Franciscanas; contudo, sua difusão popular é tamanha que Kajetan Esser, autor da mais importante edição crítica dos escritos de Francisco, sentiu a exigência de fazer, em seu livro, pelo menos uma breve menção ao célebre apócrifo, com estas palavras: "Forma huius orazioni, hodie per totum ordem terrarum diffusae, paulatim initio saeculi XX exorta posteas Francisco erronee attributa est" ("A forma dessa oração, hoje em todo o mundo difundida, surgiu gradativamente no início do século XX depois de erroneamente atribuída a Francisco").

Arnaldo Casali


Nota do Pale Ideas: No Brasil mais antiga versão conhecida desta oração é publicada enos "Anais da Câmara dos Deputados do Brasil" em 1957 (Cf. "Anais da Câmara dos Deputados", Congresso Nacional. Câmara dos Deputados, Centro de Documentação e Informação, Sessão em 7 de outubro de 1957, 1957, p. 464.)


Texto da Oração Simples

Fonte: http://www.festivaldelmedioevo.it/portal/la-preghiera-semplice-di-san-francesco-un-falso-del-novecento/
Tradução, links e notas: Giulia d'Amore. 

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