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segunda-feira, 19 de agosto de 2013

A penitência que fez florir o galho seco

Catedral de Sens, imagem da fachada
Catedral de Sens, imagem da fachada
São Bond foi um rico mercador espanhol que se estabeleceu na cidade francesa de Sens há bem mais de 13 séculos.

Os espanhóis têm fama de serem muito ciumentos e ele o era em excesso.

Não se saberia descrever o sofrimento de sua mulher pelos ciúmes do marido. Esses foram tais que acabaram virando doença.

O comerciante viajava com muita frequência e deixava sua casa para fazer os negócios, os quais, aliás, ele conduzia perfeitamente.

Porém, durante toda a sua ausência, devoram-no a desconfiança e a dúvida.

E quando voltava à casa já chegava com os nervos na flor de pele, prestes a explodir numa cólera tão violenta quanto injustificada.

Sua infeliz esposa era a que menos justificava esse tratamento.

Ela não recebia ninguém na ausência do marido, nunca saía e vivia sozinha na companhia de seus filhos e de algumas domésticas.


No fim de uma viagem de mais de uma semana, o mercador voltou a Sens bem tarde da noite. 


Início Salmos Penitenciais, Plimpton MS 037
Início Salmos Penitenciais, Plimpton MS 037
Abriu então a porta sem fazer barulho e entrou como um ladrão, não por medo de acordar os seus, mas consumido pelo temor de surpreender sua mulher numa improvável infidelidade.

Naquela noite, contudo, ele acreditou ter encontrado a prova de suas suspeitas ao perceber duas sombras dormindo em sua cama.

A cólera o impediu de verificar melhor: puxou a espada e feriu sem piedade duas vezes.

Agindo assim, num segundo de loucura ele destruiu toda sua vida: acabara de matar seu pai e sua mãe, a quem em sinal de hospitalidade sua esposa havia oferecido seu próprio quarto por ser o dormitório mais confortável da casa.

O desespero de Bond foi tão insensato como seu ciúme.

Ele disse adeus a uma esposa que havia tido em conta de tão pouco e saiu para encontrar o perdão e o esquecimento na pobreza e na poeira das estradas.

Essa via o levou junto com outros peregrinos até Jerusalém. 

 

Salmos penitenciais, Gar 08, 38r
Salmos penitenciais, Gar 08, 38r
Mas a ferida do remorso era tão cruel que ele pegou a estrada de Roma e foi implorar ao Papa a remissão de seus pecados.

Olhando tudo com sabedoria, o Papa por sua vez viu que a hora do perdão ainda não tinha chegado e encaminhou-o de novo a Sens para falar com seu bispo.

O bispo de Sens recebeu o penitente, entregou-lhe o galho de uma árvore morta e fez-lhe uma promessa:

“Teu perdão será concedido no dia em que desta madeira morta plantada no monte Paron nasçam folhas, flores e frutos”.

Bond fez o que o bispo mandou. Durante dias e mais dias ele ia procurar água no rio Yonne, no fundo do vale, carregando-a até o topo do monte Paron onde plantara o galho seco.

Ia e voltava por uma trilha abrupta que ele acabou criando com seus próprios pés.

Ele regou o galho com a água fresca do rio, mas também com suas amargas lágrimas.

Só Deus saberia dizer quantas viagens fez o penitente, e quantas foram as suas orações.

Numa manhã, porém, um tenro broto verde apareceu na cortiça enegrecida.




Passaram-se ainda muitas outras madrugadas antes que ele visse o galho morto transfigurado: folhas imensas proporcionavam uma doce sombra e suntuosas flores geravam frutos cuja simples vista saciava a alma mais sedenta de perdão.

Em lembrança desse milagre, a trilha que leva ao monte Paron se chama “A trilha de São Bond”.

A árvore está sempre lá, sem se incomodar com as estações. Mas só é visível pelos corações puros.


(Fonte: Sophie e Béatrix Leroy d’Harbonville, “Au rendez-vous de la Légende Bourguignonne”, ed. S.A.E.P., Ingersheim 68000, Colmar, França)

P.S.: As relíquias de São Bond foram recuperadas 486 anos após sua morte por Dom Richier († 1096), Arcebispo de Sens, e transladadas para igrejas dessa cidade. A capela erigida sobre o túmulo do santo, por disposição do mesmo Dom Richier, foi confiada à abadia de Saint-Rémy. 
 

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