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quarta-feira, 21 de agosto de 2013

As características do estilo Gótico na Arquitetura


Cruzamento de arcos quebrados
Para muitos de nossos contemporâneos, o caráter essencial do estilo gótico reside no emprego da ogiva. A ogiva foi empregada no Oriente, mas a encontraremos em diversos outros lugares, e nada se opõe a que ela tenha nascido espontaneamente na França. Em todo caso, a estrutura dos monumentos góticos é bem diferente daquelas dos edifícios árabes. Por outro lado, ela não é essencialmente a arte gótica. É verdade que nenhum sistema da arquitetura fez uso tão aberto e, sobretudo, tão judicioso deste elemento: o arco quebrado, sendo o mais poderoso e, por consequência, o mais econômico de todos os arcos, impunha seu emprego na construção de edifícios que tendiam a realizar a suprema riqueza das formas no meio de uma grande penúria de meios econômicos. 


Mas o arco quebrado não fez o gótico; em vão perceberemos ogivas nos pesados monumentos da Renascença; eles não seriam góticos por isso. 


Saint-Eustache - Paris
O gótico não é subserviente à ogiva: ele admite todos os demais arcos, o semi-circular, o abatido, o arco asa de padeiro, e mesmo o arco em ferradura, se bem que este aqui seja um absurdo em seu princípio e de um efeito ridículo. Tomemos, por exemplo, Saint-Eustache de Paris, tirando o portal, que é uma infâmia moderna, observemos o corpo da igreja. Ali se procurará em vão o traço da ogiva: as grandes baies[1] laterais são arcos abatidos com reforços, como os do gótico flamejante. Todo o resto está em semi-circulares graciosos, sobretudo no coroamento dos pilares de uma maravilhosa leveza, que suportam uma rica abóbada. Quem poderia duvidar por um instante que tudo isso não seja gótico?

Em Saint-Sulpice, tirando o portal, que tem somente o mérito de ser monumental, apesar da infeliz fisionomia das torres. O corpo do edifício, em belo semi-circulo, é uma construção do sistema gótico, como o plano primitivo da própria igreja, que lhe dá sua leveza de construção e sua perfeita adaptação ao serviço. Em Saint-Nicolas-des-Champs, há outra coisa: o ante-corpo é ogival, mas o coro e a abside são em semi-circulo com colunas unidas ou embutidas. Isso não impede o monumento de ser gótico em seu conjunto.

A ogiva é, portanto, uma característica do estilo gótico. O plano geral da catedral com sua alta e longa nave, seus corredores e suas capelas tão favoráveis ao exercício do culto e ao desenvolvimento do sentimento religioso, é um dos méritos dos edifícios góticos. Notre-Dame não serviu de modelo para a maior parte das outras catedrais. Há exceções. No início, não se faziam capelas laterais; o Midi possui belíssimas catedrais sem corredores, a de Beauvais é um segmento em círculo: Essas diferenças não suprimem o caráter gótico da obra. É verdade, portanto, que o gótico levou a mais alta perfeição o plano da catedral, mas ele recebeu do românico tal princípio, e por isso ele achega ao bizantino.

Uma igreja românica ou bizantina, grega ou romana, pode adotar o plano das catedrais góticas: o Sagrado-Coração de Montmartre será uma prova desta verdade.

Uma característica mais especial, e que o gótico inventou, é o arcobotante, que é tão somente um membro, mas personificado em um novo sistema. O contraforte das igrejas românicas, esse pilar massivo engajado na parte exterior da muralha, poderia bastar para manter construções de uma elevação medíocre; contudo, para resistir à pressão proveniente da prodigiosa elevação das abóbadas da nave gótica que ele apoiava, o contraforte deveria tomar uma grande distância, se constituindo em massas enormes, deselegantes, cujo peso teria contrastado com o aspecto elegante e leve do edifício; eles teriam terminado, diz Viollet-Leduc, por custar mais caro que o próprio edifício. Essa combinação engenhosa (arcobotante) deve ser vista como a obra-prima da arte nova: ela é de tal poder que, se ela não fosse sabiamente manejada, ela produziria a ruína em sentido inverso e lançaria o muro no interior, no coro e na nave; seu emprego exigia, portanto, uma grande habilidade, bem como a perfeita apreciação das leis do equilíbrio. Entretanto, é preciso remarcar que o arcobotante só era um expediente, pouco constituindo o caráter essencial do estilo.

A construção desses membros é muito custosa, bem como sua manutenção. Além disso, eles encobrem o entorno da construção, e até mesmo servem como separação das capelas laterais. Disso, perguntamos: qual é então o caráter essencial do gótico? Residiria ele, por acaso, nos ornamentos graciosos dos decoradores? Contudo, esses ornamentos vieram de todas as partes: do grego, do árabe, do romano e da imaginação frequentemente licenciosa dos artistas. O suporte é redondo, quadrado, em losango, entrelaçado; os capitéis são planos, cúbicos, cilíndricos; os baixos relevos de todas os tipos, ou podem não existir; as nervuras, a pedra angular, os tímpanos[2], as gárgulas, tomando as formas mais bizarras. Mas o que importa? É outra coisa que dá ao estilo gótico o aspecto elegante e grave, leve e solene, que faz dele o tipo sem rival do monumento religioso.

O caráter incontestável do estilo gótico reside nos procedimentos de sua estrutura, em seu próprio princípio: é o equilíbrio artificial resultante da oposição calculada das forças e dos elementos. Qual que seja o tipo da abóbada, ogiva ou semi-círculo; a forma dos suportes interiores e exteriores, coluna ou pilar, o equilíbrio calculado é seu meio, e a tal ponto que as abóbadas e os membros suportados reforcem os suportes que os sustentam. 

É por aí que o estilo gótico obtém sua ousadia inacreditável, sua leveza, sua superioridade. Os outros estilos originaram este princípio de construção, e quando eles o adotaram, desde então, eles praticaram do gótico sem sabê-lo.

A proporção do vácuo é realmente considerável, a nave e o coro tão elevados, os suportes tão reduzidos à sua mais simples expressão. O romano exagerou a largura, o gótico buscou a elevação; em um, a impulsão religiosa está em proporção com a massa de materiais e do peso dos membros; em outro, o efeito religioso cresce em razão de sua graça e de sua leveza.

No gótico, tudo concorre à trazer, ao extremo, o sentimento do respeito e do entusiasmo divino. É verdade que o que chamamos a arte do triunfo vê-se ali de certa maneira. Contudo, não é esse um dos méritos do estilo grego?

Esse não é o único ponto de contato do grego e do gótico. Essas longas colunatas que, saindo do solo nu, parecem querer escalar o céu, essas grandes aberturas e mil outros artifícios engenhosos desenvolvem a admiração e geram as sensações mais elevadas. Nenhuma proporção entre o conjunto e os acessórios consagrados ao serviço é resultado da ignorância, ou do desprezo pela harmonia; ao contrário, tudo isso é sabiamente calculado.

O arquiteto fez duas partes de sua obra: uma, a parte inspirada pelo sentimento divino, tem por objeto levar ao extremo a proporção do vácuo e de elevá-lo ao céu. A outra, que é a porção humana, se apropria absolutamente nas necessidades diárias. 

Deus e o homem estão, assim, constantemente em presença: a fé pode fazer seu ato de humildade diante o símbolo material do poder superior ao qual ela rende homenagem: é um hino silencioso à glória do Eterno.

Tudo o que está a serviço do homem se mede por sua escala de proporções: as grades e os pontos de apoio, os altares e as bacias de água benta, as escadas e as próprias portas de serviço não ultrapassam as dimensões que lhe são dadas em edifícios privados. Rendido à essas impressões habituais, o espectador as compara aos membros essenciais do monumento, ele acha-os imensos, gigantescos, e se vê confundido em sua pequenez, na presença de um conjunto tão imponente. Quando entrardes por uma porta de três metros de elevação, sob uma abóbada que sobe à trinta metros, será difícil não se surpreender.



[1] Baies, fr.: abertura que se deixa nas paredes para ali colocar uma porta ou uma janela, ou qualquer outro objeto.
[2] Tímpanos: espaço geralmente triangular ou em arco, liso ou ornado com esculturas, limitado pelos três lados do frontão.


Alph. Castaing. Le style gothique, ses origines, sa supériorité matérielle et morale. Revue du monde catholique, 1er novembre 1886.

Visto em Annales Historiæ: http://catolicosribeiraoarteehistoria.blogspot.com.br/2012/07/as-caracteristicas-do-estilo-gotico.html

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