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terça-feira, 24 de julho de 2012

A Selva - QUINTA INSTRUÇÃO - Sobre a oração mental e ofício divino

         Santo Afonso Maria de Ligório
(27/09/1696 - 02/08/1787)
Bispo de Santa Àgata
Confessor
Doutor Zelosíssimo da Igreja
Fundador dos Missionários Redentoristas

A Selva



SEGUNDA PARTE - MATERIAIS PARA AS INSTRUÇÕES
QUINTA INSTRUÇÃO


Sobre a oração mental e ofício divino


I - Necessidade da oração mental para os padres

Se, moralmente falando, a oração mental é necessária para todos os fiéis, como observa o eminente sábio Pe. Suarez1, mais necessária ainda o é aos padres; por isso que necessitam de graças e socorros mais abundantes, obrigados como estão a aspirar a mais alta perfeição. O seu estado exige-lhes maior santidade, e estão obrigados a trabalhar na salvação das almas: assim se encontram na necessidade de tomar um duplo alimento espiritual, à semelhança das mães que precisam de alimentos corporais mais abundantes, para se sustentarem a si próprias, e aos seus filhos. O nosso salvador, diz Sto. Ambrósio, nenhuma necessidade tinha de se acolher à solidão para orar, por isso que a sua alma santíssima, gozando continuamente da visão intuitiva de Deus, o contemplava em todo o lugar e a todos os momentos, e orava por nós sem interrupção; no entanto, para nos fazer sentir a necessidade da oração mental, separava-se da multidão como refere S. Mateus, e retirava-se a sós para o monte a fim de orar: E, deixada a multidão, subiu para o monte a orar isolado2. E S. Lucas nos diz que ele passava as noites inteiras em oração3.
Sobre este texto, faz Sto. Ambrósio esta reflexão:
Se Jesus Cristo passou as noites a orar pela tua salvação, com quanta mais razão deves tu orar para te salvares 4! E noutro lugar acrescenta: Devemos orar dia e noite pelo povo que nos está confiado 5. O venerável João de Ávila punha na mesma linha as duas funções do padre: oferecer sacrifícios e oferecer incenso a Deus 6. Ora, sabe-se que o incenso é o símbolo da oração: Que a minha oração suba à vossa presença como o fumo do incenso 7. S.João viu os anjos a levar taças de ouro cheias de perfumes, que são as orações dos santos8. ajunta ele. Ó! quanto agradam a Deus as orações dos bons padres! S. Carlos Borromeu, considerando a necessidade, que têm os eclesiásticos de praticar a oração mental, fez decretar no Concílio de Milão 9 que, nos exames dos ordinandos, se lhes perguntasse em especial se sabiam fazer a meditação, se de fato a faziam, e quais os pontos das suas meditações.
E o venerável João de Ávila dissuadia de entrarem no sacerdócio os que não tivesse o hábito de se darem muito à oração.
Não quero alongar-me aqui sobre os motivos, que tornam moralmente necessária a todo o padre, o exercício da oração mental; basta dizer que, sem oração, tem o padre falta de luzes, porque aprecia pouco o grande negócio da salvação, e pensa pouco nos obstáculos que lhe põe, assim como nas obrigações que tem a cumprir para se salvar. Por isso o Salvador disse a seus discípulos: Tende cingidos os rins, e lâmpadas acesas nas vossas mãos 10.Estas lâmpadas, diz S. Boaventura11, são as piedosas meditações, em que o Senhor nos alumia: chegai-vos a ele e sereis alumiados12. Quem não faz oração tem pouca luz e pouca força. É no repouso da oração, diz S. Bernardo, que se adquirem as forças necessárias, para resistir aos inimigos e praticar as virtudes13. Quando se levou a noite sem dormir, de manhã não se pode uma pessoa ter de pé e cambaleia a cada passo.
Tomai tempo para considerar que Eu sou Deus14. Se ao menos de quando em quando se não deixam os pensamentos do mundo, se não se busca o retiro para tratar com Deus, mal se conhecem, e pouca luz se tem das coisas eternas. Um dia dizia Jesus Cristo aos seus discípulos, que se tinham ocupado muito tempo a trabalhar na salvação do próximo: Vinde, acolhei-vos a um lugar solitário, e tomai um pouco de repouso15. Não falava o Senhor do repouso do corpo, mas do da alma; porque, se a alma se não retirar de tempos a tempos ao silêncio da oração, para só se entreter com Deus, não terá força para prosseguir no bem; em breve cairá no desalento e depois nas ocasiões fatais. Toda a nossa força está no socorro da graça: Tudo posso naquele que me conforta16. Mas esse não o dá Deus senão aos que o pedem. Tem ele o maior desejo de nos conceder as graças, mas quer, como diz S. Gregório, ser instado por nós, e dalgum modo forçado pelas nossas súplicas17. Quem nunca pratica a oração mental conhece mal os próprios defeitos, assim como os perigos em que se encontra de perder a graça de Deus, e os meios para vencer as tentações. Por conseqüência mal conhecerá a necessidade em que está de orar, e negligenciará fazê-lo; e, se não orar, certamente se perderá.Por isso Santa Teresa, grande mestra de oração, dizia que quem despreza a oração mental não precisa que os demônios o levem para o inferno; por si próprio se lança nele 18.
Pessoas há que recitam muitas orações vocais, mas essas orações, quando se não pratica a oração mental, dificilmente se fazem com atenção: dizem-se com o espírito distraído, e o Senhor pouco as escuta. Sobre o texto — Voce mea ad Dominum clamavi — faz Sto. Agostinho esta reflexão: Muitos há que clamam, não com a sua voz, mas com a voz do corpo19. O vosso apelo ao Senhor é o vosso pensamento. Clamai no interior, onde Deus escuta 20.Não basta pois orar com os lábios; é preciso orar em espírito, se se querem conseguir de Deus as graças que se pedem, conforme a expressão do Apóstolo: Orando a toda a hora em espírito21. É o que a experiência demonstra: vêem-se muitos que fazem diversas orações vocais, recitam o ofício, o rosário, e contudo caem no pecado e continuam a viver nele.
Pelo contrário, quem pratica a oração mental dificilmente cai no pecado, e se alguma vez tem a desgraça de cair, não se deixa permanecer nesse miserável estado: ou abandona a oração, ou deixa o pecado. Oração e pecado não podem subsistir juntos. “Por muito relaxada que se ache uma alma, dizia Sta. Teresa, se ela perseverar na oração, o Senhor acabará por conduzi-la ao porto da salvação”22. É pela oração mental que todos os santos se elevam à santidade. Segundo S. Lourenço Justiniano, a oração afugenta as tentações, dissipa a tristeza, repara as forças da alma, desperta-lhe o fervor e inflama-lhe a caridade divina23. Afirmava Santo Inácio de Loyola que não lhe sobrevinha nenhuma amargura, que ele não pudesse adoçar com um quarto de hora de oração 24. A meditação, dizia S. Bernardo, rege os afetos, governa as ações e corrige os excessos 25. S. João Crisóstomo olha como morta uma alma que não ora 26. No sentir de Rufino, é da meditação que está dependente o progresso espiritual duma alma 27. E Gerson chega a dizer que quem não medita só por milagre pode viver como cristão 28. S. Luís de Gonzaga, falando da perfeição, a que todo o padre está especialmente obrigado, tinha razão para dizer que, o que não se aplicar muito à oração mental jamais atingirá um alto grau de virtude 29.

II - Responde-se às desculpas

Nada mais direi aqui sobre a necessidade da oração mental; apenas me demorei a responder a três desculpas, que de ordinário costumam apresentar os padres avessos a este exercício.

I. Quanto a mim, diz um, não faço meditação, porque só experimento nela desolação, distração e tentação; o meu espírito, sempre vagabundo, não sabe fixar-se a meditar; é por isso que a ponto de parte.
A isto responde S. Francisco de Sales ( carta 629) que ainda que o que medita só cuidasse de repelir continuamente as distrações e as tentações, não deixaria a meditação de ser bem feita, contanto que as distrações não fossem voluntárias. Vê o Senhor com prazer a boa intenção que se tem, e o trabalho que se emprega para perseverar até ao fim, nada diminuindo ao tempo marcado; não deixa ele de recompensar os esforços com graças abundantes.Não se deve ir à meditação para encontrar nela prazer, mas para dar prazer a Deus. Também as almas santas experimentam securas na oração, mas o Senhor as enriquece dos seus dons, porque são perseverantes. Dizia S. Francisco de Sales que uma onça de oração, feita no meio de desolações, pesa mais diante do Deus, do que cem arráteis no meio de consolações. As estátuas imóveis, que adornam as galerias dum palácio, não deixam de prestar honra ao príncipe, ;e o Senhor pois quer que sejamos como estátuas na sua presença, contentemo-nos em o honrar como estátuas; então nos bastará dizer-lhe: Senhor, estou aqui para vos agradar!
Santo Isidoro nos assegura que nunca o demônio faz maiores esforços para nos tentar e distrair, do que quando fazemos oração30. Por quê? Porque, ao ver o grande fruto que se tira da oração, quer que a abandonemos: deixála pois, por causa da aridez que nos causa, é dar grande prazer ao demônio. Nesses momentos de secura, o que a alma deve fazer é humilhar-se e suplicar.Humilhar-se: nunca estamos em melhor situação para conhecermos a nossa miséria e insuficiência, do que no tempo de secura e desolação espiritual.Então vemos bem que de nós mesmos não podemos nada, e o que temos a fazer em tal estado é unirmo-nos a Jesus desolado na cruz, humilharmo-nos e implorar a misericórdia divina, repetindo sempre: Senhor, ajudai-me! Senhor, tende compaixão de mim! Meu Jesus, misericórdia! — Uma oração assim feita será mais vantajosa que todas as outras, porque Deus abre os tesouros das suas graças aos humildes31. Nessas ocasiões mais que nunca, apliquemo-nos a pedir misericórdia para nós e para os pecadores.Dum modo especial exige Deus dos padres que orem pelos pecadores: Os sacerdotes, os ministros do Senhor, estarão em lágrimas e clamarão: Perdoai, ó Senhor, perdoai ao vosso povo!32 — Para satisfazer a isso, dirse-á, basta recitar o ofício divino. — Mas Sto. Agostinho nos declara que o ladrar dos cães é mais agradável a Deus, do que as orações dos maus sacerdotes, como o são de ordinário os que nunca praticam a oração mental 33.
De fato, sem a oração mental é muito difícil ter o espírito eclesiástico.

II. Pela minha parte, diz um segundo, se não faço a oração mental, nem por isso perco o meu tempo, porque o consagro ao estudo.
Mais eis o que o Apóstolo, escrevia a Timóteo: Atende a ti e à doutrina 34.E primeiramente diz Tibi, isto é, aplica-te à oração, na qual o padre trabalha para si. Em segundo lugar diz Doctrinae, isto é, aplica-te ao estudo, para conseguires a salvação do próximo. — Como poderemos santificar os outros, se não formos santos? “Ditoso, ó Senhor, o que vos conhece, embora ignore tudo o mais”! Assim fala Sto. Agostinho 35. Nada nos aproveitaria para a salvação eterna, possuir todas as ciências, se não soubéramos amar a Jesus Cristo; se pelo contrário soubermos amá-lo, saberemos tudo e gozaremos duma felicidade sem fim. Felizes pois aqueles a quem é dada a ciência dos santos, que consiste em saber amar a Deus 36. Além disto, uma só palavra, saída da boca dum padre que ama a Deus verdadeiramente, fará maior bem aos outros que mil sermões de sacerdotes sábios, que lhe têm pouco amor.
Ora, esta ciência dos santos não se adquire pelo estudo dos livros, mas pela oração, em que o crucifixo é ao mesmo tempo o mestre que ensina, e o livro que se lê. Um dia perguntava a S. Boaventura Santo Tomás em que livro tinha haurido tantos conhecimentos; o Doutor Seráfico apontou-lhe o crucifixo, dizendo-lhe que era o livro em que havia aprendido tudo quanto sabia.Por vezes se aprenderá mais num instante, na oração, do que em dez anos de estudo nos livros. É o que afirma S. Boaventura: Os anseios de amor divino, diz ele, deixam na alma uma ciência mais perfeita que tudo o que se pode conseguir pelo estudo 37.
Para adquirir as ciências humanas, precisa-se de muita inteligência; para a ciência dos santos, basta a boa vontade. Quem mais ama a Deus, melhor o conhece, conforme esta máxima de S. Gregório: O próprio amor é ciência38.E o mesmo disse Sto. Agostinho: Amar é ver39. Por isso Davi exortava assim todos os homens: Gostai e vêde como o Senhor é doce 40.
Quanto mais se toma o gosto a Deus pelo amor, melhor se vê, melhor se conhece a grandeza da sua bondade. Quem saboreia o mel conhece-o melhor que os filósofos, que estudam e explicam a sua natureza. Daqui a sentença de Sto. Agostinho: É Deus a própria sabedoria; donde se segue que o verdadeiro filósofos, ou amigo da sabedoria, é o que ama a Deus verdadeiramente41.Para aprender as ciências do mundo, é preciso muito tempo e trabalho; para aprender a ciência dos santos, basta pedi-la. Eis como fala o Sábio: “A sabedoria divina facilmente se deixa encontrar, mesmo antes de ser procurada.Quem a procura com diligência, não terá dificuldade em a encontrar; porque a verá sentada à sua porta, à espera”42. Depois de ter assim encontrado a verdadeira sabedoria, que é o amor de Deus, dizia Salomão que todos os bens lhe tinham advindo com ela 43.
Tal é a ciência dos santos. Ó! Quanto S. Filipe de Néri aprendeu nas catacumbas de S. Sebastião, onde passava noites inteiras em oração! Encontrou lá a que não tinha encontrado na leitura dos livros. Quanto mais aprendeu S. Jerônimo na gruta de Belém, do que em todos os estudos que havia feito! Dizia o Pe. Suarez que antes quereria perder toda a sua ciência do que uma hora de oração. Que os sábios do mundo se gloriem de sua sabedoria, dizia S. Paulino44, os ricos das suas riquezas, os reis dos seus reinos; quanto a nós, que a nossa sabedoria, riqueza e reino seja Jesus Cristo! Digamos com S. Francisco de Assis: Meu Deus e meu tudo! É pois esta a verdadeira sabedoria que principalmente devemos pedir a Deus, — que não deixa de a conceder a quem lha pede 45.
Que o estudo seja útil e até necessário aos padres, não se nega; mas o estudo mais necessário é o do crucifixo. Dava-se com ardor ao estudo dos livros filosóficos um certo Jovio, e pouco se importava da vida espiritual, sob o pretexto da falta de tempo. S. Paulino, numa carta, repreendo-o assim: Tens tempo para ser filósofo e não o tens para ser cristão!46 Há sacerdotes que gastam muito tempo a estuar matemática, geometria, astronomia e história profana. — Se ao menos se aplicassem a estudos próprios do seu estado! E depois disto desculpam-se, dizendo que não têm tempo para a oração! Seria a propósito fazer-lhes esta censura: Vacat tibi ut eruditus sis; non vacat ut sacerdos sis? Como diz Sêneca, se temos pouco tempo, é porque perdemos muito 47. E mais: Ignoramos as coisas necessárias, porque aprendemos coisas inúteis 48.

III. Um terceiro dirá: Eu bem queria fazer oração, mas o confessionário, e os sermões não me deixam um instante livre.
Respondo-lhe: Visto que sois padre, é muito louvável que trabalheis na salvação das almas, mas não posso aprovar que, para serdes útil aos outros, vos esqueçais de vós mesmo. É preciso que nos ocupemos de nós mesmos, fazendo oração; depois cuidaremos de socorrer o próximo.Foram os apóstolos, sem contestação, os obreiros mais infatigáveis do Evangelho; apesar disso, ao verem que os cuidados prodigalizados ao próximo lhes não deixavam tempo para se darem à oração, instituíram diáconos que os ajudassem nas obras exteriores, para se poderem aplicar à oração e à pregação. Irmãos, disseram eles, escolhei homens, em quem possamos delegar este cuidado; pela nossa parte, temos que dar-nos por inteiro à oração e ao ministério da palavra 49.
Note-se bem: quem eles dar-se primeiro à oração e depois à pregação, porque os discursos sem a oração produzem pouco fruto. Foi precisamente o que Sta. Teresa escreveu ao bispo de Osma, que trabalhava com zelo no bem das suas ovelhas, mas descurava a oração: “Nosso Senhor me fez conhecer, lhe diz ela, que nos falta o mais necessário, o que é basilar, e desde que os alicerces faltam o edifício desaba. Ora, o que vos falta é a oração e a perseverança na oração; daí procede a aridez que a alma experimenta50. S.Bernardo advertiu igualmente o papa Eugênio III: que não abandonasse a oração por causa dos negócios exteriores; que os que abandonam a oração podem cair numa tal dureza de coração, que percam os remorsos dos seus pecados e não sintam horror de os haverem cometido. “Temo, ó Eugênio, que a multidão dos negócios te impeça de te dares à oração e à meditação, e te leve a uma tal dureza de coração, que não tenhas horror ao teu estado, por não o sentires 51.
Sem a doce contemplação de Maria, diz S. Lourenço Justiniano, não poderiam as obras de Marta atingir a perfeição 52. Engana-se, acrescenta ele, quem pensa em levar a bom termo o negócio da salvação, sem o socorro da oração. Quanto mais uma empresa é nobre, tanto mais arriscada é; quem não cuidar de se alimentar da oração, cairá a meio de caminho 53. A seus discípulos mandou nosso Senhor que pregassem o que tivessem aprendido na oração: O que vos digo ao ouvido, publicai-o dos telhados 54. Trata-se aqui do ouvido do coração, ao qual Deus promete falar no retiro da oração: Levála-ei ao retiro e lhe falarei ao coração55. É na oração, escrevia S. Paulino, quese recebe o espírito que se tem de comunicar aos outros56. Assim, gemia S.Bernardo ao ver nos padres tantos canais e tão poucos reservatórios, devendo o padre ser primeiramente reservatório, que se encha de santas luzes e piedosos afetos, bebidos na oração, para depois ser canal benéfico do seu próximo 57. É necessário, diz S. Lourenço Justiniano, que o padre antes de trabalhar na salvação do próximo se aplique à oração58. S. Bernardo parafraseando esta passagem dos Cânticos — Dignai-vos atrair-me; atrás de vós correremos, ao odor dos vossos perfumes — faz assim falar a Esposa sagrada, ou a Igreja: Não serei só eu a correr, comigo correrão também as jovens; correremos ao mesmo tempo, eu movida pelo odor dos vossos perfumes, elas excitadas pelo meu exemplo59.
Tal é a linguagem que deve ter um padre zeloso da salvação das almas, dirigindo-se a Deus: Atraí-me a vós, Senhor, e eu correrei para vós, e os outros correrão comigo: eu correrei atraído pelo odor dos vossos perfumes, isto é, pelas inspirações e graças que de vós receber na oração, e os outros correrão ao impulso do meu bom exemplo.
Para poder pois atrair muitas almas a Deus, é necessário que o padre comece por se fazer atrair de Deus. Assim o têm feito os santos obreiros do Evangelho, tais como S. Domingos, S. Filipe de Néri, S. Francisco Xavier, S.João Francisco Regis, que gastavam o dia inteiro a trabalhar para o povo, e consagravam a noite à oração, até que fossem acabrunhados pelo sono. Um só padre mediocremente instruído, mas possuído dum grande zelo, ganhará mais almas para Deus, que muitos outros superiores em sabedoria, mas tíbios. Um só abrasado em zelo, diz S. João Crisóstomo, basta para reformar um povo inteiro60. Uma palavra dum pregador, inflamado no santo amor, fará mais efeito que cem sermões cuidadosamente preparados por um teólogo, que ame pouco a Deus. Diz S. Tomás de Vilanova que, para ferir os corações e abrasá-lo no amor divino, se requerem palavras ardentes, que sejam como dardos de fogo. Mas, ajunta ele, — como poderão sair dum coração de gelo esses dardos de fogo? É a oração que abrasa os corações dos santos padres, e de gelados os torna ardentes. Ao falar especialmente do amor que Jesus Cristo nos testemunhou, o Apóstolo exclama: O amor de Jesus Cristo insta conosco61. Assim nos faz compreender que é impossível meditar os sofrimentos e ignomínias, que o nosso Redentor suportou por nosso amor, e não nos sentirmos animados a procurar que todos se abrasem no seu amor.
Foi o que o profeta Isaías predisse no seu Cântico: Haveis de ir cheios de alegria beber nas fontes do Salvador, e direis naquele dia: Louvai ao Senhor e invocai o seu nome62. As fontes do Salvador são os exemplos da vida de Jesus Cristo. Ó! que fontes de luz e de santos afetos encontram neles as almas que os contemplam! Acende-se nos seus corações o fogo do amor divino, que elas depois comunicam aos outros, exortando-os a reconhecer, amar e louvar a bondade do nosso Deus.


III - Sobre a recitação do Ofício divino

Convém ajuntar aqui algumas palavras sobre a recitação do ofício divino.Eis os frutos do ofício divino: honrar a Deus, resistir ao furor dos nossos inimigos e obter misericórdia para os pecadores; mas, para isso, é necessário que se recite como convém, e como o exige o 5.º Concílio de Latrão63, isto é, studiose et devote. Explicam-se assim estas duas palavras studiose, quer dizer pronunciar bem; devote, com atenção, segundo a palavra de Santo Agostinho, — que o vosso coração se ocupe do que os vossos lábios proferem 64.Como quereis vós, pergunta S. Cipriano, que Deus vos ouça se a vós mesmos vos não ouvis?
Feita com atenção, é a oração esse incenso de suave odor que tanto agrada a Deus e nos obtém tesouros de graças; ao contrário, se for feita com distrações voluntárias, torna-se como um fumo infecto, que irrita o Senhor e atrai castigos. Por isso, ao recitarmos o ofício, o demônio se empenha em nos tentar com distrações e defeitos. Então nos importa redobrar de esforços para o recitarmos dum modo conveniente. Eis para isto alguns avisos práticos:
1.º - Avivemos então a nossa fé, com a lembrança de que a vossa voz se une à dos anjos para louvar a Deus. Diz Tertuliano: Estamos a fazer ensaio do que havemos de praticar na glória65; fazemos na terra o que fazem os bem-aventurados na pátria celeste, onde cantam sem cessar e cantarão eternamente os louvores do Senhor66. Assim, antes de entrarmos na igreja, ou de lançarmos mão do breviário, devemos deixar à porta e despedir todos os pensamentos do mundo, segundo o aviso de S. João Crisóstomo: Ninguém entre no templo com o fardo dos cuidados terrenos; tais coisas deixam-se à porta 67.
2.º - É necessário que os afetos do nosso coração acompanhem os sentimentos que à nossa boca exprime, segundo o que ensina Sto. Agostinho: Se o salmo ora, orai; se geme, gemei; se inculca esperança, esperai 68.
3.º - É bom que renovemos a nossa intenção de tempos a tempos, por exemplo no começo de cada salmo.
4.º - Finalmente, deve-se evitar tudo quanto possa ocasionar distração ao nosso espírito. Que atenção e devoção poderia ter no ofício quem o recitasse num lugar transitado, ou em presença de pessoas que soltassem risadas e grilos?

Ó! quanto aproveitam os que todos os dias recitam o ofício com devoção!Implentur Spirictu Sancto, diz S. João Crisóstomo. Os que, ao contrário, o rezam com negligência, perdem muitos merecimentos, e hão de prestar a Deus rigorosas contas.
 
Notas:
1. De Orat. l. 2. c. 4.
2. Et dimissa turba, ascendit in montem solus orare (Matth. 14, 23).
3. Erat pernoctans in oratione (Luc. 6, 12).
4. Quid enim te pro salute tua facere oportet, quando pro te Christus in oratione pernoctat!
5. Sacerdotes die noctuque pro plebe sibi commissa oportet orare (In 1. Tim. 3).
6. Incensum enim Domini et panes Dei sui offerunt.
7. Dirigatur oratio mea sicut incensum in conspectu tuo (Ps. 140, 2).
8. Phialas aureas plenas odoramentorum, quae sunt orationes sanctorum (Apoc. 5, 8).
9. Anno 1579 (Const. p. 3. n. 2).
10. Sint lumbi vestri praecincti, et lucernae ardentes in manibus vestris (Luc. 12, 35).
11. Dieta sal. t. 2. c. 5.
12. Accedite ad eum, et illuminamini (Ps. 33, 6).
13. Ex hoc otio vires proveniunt.
14. Vacate, et videte quoniam ego sum Deus (Ps. 45, 11).
15. Venite seorsum in desertum locum, et requiescite pusillum (Marc. 6, 31).
16. Omnia possum in eo qui me confortat (Phil. 4, 13).
17. Vult Deus rogari, vult cogi, vult quadam importunitate vinci (In Ps. poenit. 6).
18. Vie, chap. 19.
19. Multi clamant, non in voce sua, sed corporis. Cogitatio tua clamor est ad Dominum (In Ps.41).
20. Clama intus, ubi Deus audit (In Ps. 30, en. 4).
21. Orantes omni tempore in spiritu (Eph. 6,18).
22. Vie, chap. 8.
23. Ex oratione fungatur tentatio, abscedit tristitia, virtus reparatur, excitatur fervor, et divini amoris flamma succrescit (De Casto Conn. c. 22).
24. Ribadeneira, l. 5. c. 1.
25. Consideratio regit affectus, dirigit actus, corrigit excessus (De Cons. l. 1. c. 7).
26. Quisquis non orat Deum, nec divino ejus colloquio cupit assidue frui, is mortuus est...Animae mors est, non provolvi coram Deo (De or. Deo. l. 1).
27. Omnis profectus spiritualis ex meditatione procedit (In Ps. 36).
28. Absque meditationis exercitio, nullus, secluso mimiraculo Dei, ad christianae religionis normam attingit (De Med. cons. 7).
29. Cepari, l. 2. c. 3.
30. Tunc magis diabolus cogitationes curarum saecularium ingerit, quando orantem aspexerit (Sent. l. 3. c. 7).
31. Deus superbis resistit, humilibus autem dat gratiam (Jac. 4, 6).
32. Plorabunt sacerdotes, ministri Domini, et dicent: Parce, Domine, parce populo tuo (Joel 2, 17).
33. Plus placet Deo latratus canum, quam oratio talium clericorum (Corn. A-Lap. In. Levit. 1.17).
34. 1. Tim. 4, 16.
35. Beatus qui te scit, etiamsi illa nesciat! (Conf. l. 5. c. 4).
36. Et dedit scientiam sanctorum (Sap. 10, 10).
37. In anima incomparabiliter, per amoris unitivi desideria, perfectio amplioris cognitionis relinquitur, quam studendo requiratur (Myst. theol. c. 3. p. 2).
38. Amor ipse notitia est (In Evang. hom. 27).
39. Amare videre est.
40. Gustate et videte quoniam suavis est Dominus (Ps. 33, 9).
41. Si sapientia Deus est, verus philosophus est amator Dei (Civit. D. l. 8. c. 1).
42. Sapientia... facile videtur ab his qui diligunt eam, et invenitur ab his qui quaerunt illam.Praeoccupat qui se concupiscunt, ut illis se prior ostendat. — Qui de luce vigilaverit ad illam,non laborabit, assidentem enim illam foribus suis iuveniet (Sap. 6, 13).
43. Venerunt autem mihi omnia bona pariter cum illa (Sap. 7, 11).
44. Sibi habeant sapientiam suam philosophi, sibi divitias suas divites, sibi regna sua reges; nobis gloria, et possessio, et regnum, Christus est (Ep. ad Aprun.).
45. Si quis autem vestrum indiget sapientia, postulet a Deo, qui dat omnibus affluenter, et non improperat (Jacob. 1, 5).
46. Vacat tibi ut philosophus sis; non vacat ut christianus sis? (Ep. ad Jovium).
47. Non exiguum tempus habemus, sed multum perdimus (De Brev. v. c. 1).
48. Necessaria ignoramus, quia superflua addiscimus.
49. Fratres, viros... constituamus super hoc opus. Nos vero orationi et ministerio verbi instantes erimus (Act. 6, 3).
50. Lettre 8.
51. Timeo tibi, Eugeni, ne multitudo negotiorum, intermissa oratione et consideratione, te ad cor durum perducat; quod se ipsum no exhorret, quia nec sentit (De Cons. 1. 1. c. 2).
52. Marthae studium, absque Mariae gustu, non potest esse perfectum.
53. Fallitur quisquis opus hoc periculosum, absque orationis praesidio, consummare se posse putat; in via deficit, si ab interna maneat reflectione jejunus (De Inst. proel. c. 11).
54. Quod in aure auditis, praedicate super tecta (Matth. 10, 27).
55. Ducam eam in solitudinem, et loquar ad cor ejus (Os. 2, 14).
56. In oratione fit conceptio spiritualis (Ep. ad Severium).
57. Concham te exhibebis, non canalem. Canales hodie in Ecclesia multos habemus, conchas vero perpaucas (In Cant. 18).
58. Difficile est proximorum lucris insistere. Priusquam hujusmodi studiis se tradat, orationi intendat (De Tr. Ag. c. 7).
59. Trahe me: post te curremus in odorem unguentorum tuorum (Cant. 1, 3). — Non curram ego sola, current et adolescentulae mecum; curremus simul, ego odore unguentorum tuorum, illae meo excitatae exemplo (In Cant. s. 21).
60. Sufficit unus homo zelo succensus, totum corrigere populum (2. Cor. 5, 14).
61. Charitas enin Christi urget nos (Ad pop. Antio. hom. 1).
62. Haurietis aquas in gaudio de fontibus Salvatoris; et dicetis in die illa: Confitemini Domino, et invocate nomen ejus (Is. 12, 3).
63. Cap. Dolentes de Cel. Missar.
64. Hoc versetur in corde, quod profertur in voce (Epist. 211. E. B.).
65. Officium futurae claritatis ediscimus (De Orat.).
66. In saecula saeculorum laudabunt te (Ps. 83, 5).
67. Ne quis ingrediatur templus curis onustus mundanis; haec ante ostium deponamus (In Is.hom. 2).
68. Si orat psalmus, orate; si gemit, gemite; si sperat, sperate (In Ps. 30).


Fonte: Volta para Casa
PDF do livro: www.redemptor.com.br
CONTINUA...

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