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domingo, 11 de novembro de 2012

Um Santo, uma Missa mal celebrada e o sedevacantismo

Um texto, dois assuntos: o escândalo dos sacerdotes néscios e o sedevacantismo. Sto. Afonso, como se vê abaixo, não tinha receio - porque tinha fé - de dizer que um tal Papa como o do texto não tinha fé. Hoje, sobram prurídos farisáicos, e já se grita "sedevacantista!", "sedevacantista!". 

Mas... Sto. Afonso é Santo, não é? Ele pOOOde!


Dano causado por uma Missa celebrada sem o devido respeito


"Segundo o autor da Obra imperfeita, quando os infiéis viam os desregramentos dos sacerdotes, diziam que o Deus dos cristãos ou não existia, ou era um deus mau; porque, acrescentavam, se fosse bom, como poderia suportar tais desordens nos seus ministros?605 Na Instrução sobre a missa, mais de espaço nos havemos de referir ao caso de um herege que estava disposto a converter-se: tendo porém visto em Roma um padre a dizer missa com pouco respeito, desistiu de abjurar os seus erros, dizendo que nem o próprio papa tinha fé; de contrário, teria mandado queimar vivos tais padres, desde que os conhecesse.¹

(...)

Eis um fato passado em Roma e que me foi contado por um religioso de todo o crédito. Tinha um herege resolvido renunciar aos seus erros; mas, tendo visto celebrar a missa sem devoção, foi ter com o papa e disse-lhe que não queria abjurar, porque estava persuadido de que nem os padres nem o papa tinha na Igreja católica uma fé verdadeira: 'Se eu fosse papa, dizia ele, e soubesse que um padre celebrava a missa com tão pouco respeito, mandava-o queimar vivo; ao ver porém que os padres dizem assim a missa e não são castigados, persuado-me de que nem o próprio papa acredita nela'. Dito isto, retirou-se, e não consentiu que lhe falassem mais em abjuração."²
(Santo Afonso Maria de Ligório: A Selva, II Parte. III. Respeito e devoção com que se deve celebrar).

E a pergunta que não quer calar: terá sido Santo Afonso um sedevacantista?

Vale a pena ler o texto deste grande Santo!

¹ Busque com ControlF "abjurar".
² Busque com ControlF "abjuração".

terça-feira, 2 de outubro de 2012

A Selva - ADVERTÊNCIA: Aos jovens estudantes de ciências eclesiásticas e AVISO IMPORTANTE

   Santo Afonso Maria de Ligório
(27/09/1696 - 02/08/1787)
Bispo de Santa Àgata
Confessor
Doutor Zelosíssimo da Igreja
Fundador dos Missionários Redentoristas

A Selva


APÊNDICE

ADVERTÊNCIA
Aos jovens estudantes de ciências eclesiásticas


Devem eles acima de tudo progredir na ciência dos santos

Ao falar da ciência mundana, diz S. Paulo: A ciência incha, a caridade porém edifica. O que julga saber muito, ainda ignora como deve saber 4. Quando a ciência mundana anda associada ao amor de Deus, é de grande vantagem para nós e para os outros; mas, quando se acha desacompanhada da caridade, causa-nos grande dano, tornando-nos orgulhosos e levando-nos a desprezar os outros; porque, tanto o Senhor é pródigo das suas graças com os humildes, como avaro com os orgulhosos.

Ditoso o homem a quem Deus dá a ciência dos santos, como a deu a Jacó: Dedit illi scientiam sanctorum (Sap. 10, 10)! Deste dom, como do maior de todos, fala a Escritura. Ó! Quantos homens vivem cheios de si mesmos, pelos conhecimentos que têm das matemáticas, belas letras, línguas estrangeiras e antigüidades, que nada aproveitam ao bem da religião, nem aumenta as vantagens espirituais! De que serve possuir uma tal ciência, saber tão belas coisas, se não se sabe amar a Deus e praticar a virtude? Os sábios do mundo, que só procuram adquirir um grande nome, estão privados das luzes celestes, que o Senhor dispensa aos simples: Abscondisti haec a sapientibus et prudentibus (sábios e prudentes do século), et revelasti eo parvulis (Matth.11, 25). Os Parvuli são os espíritos simples, que põem todo o seu cuidado em agradar a Deus.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

A Selva - Máximas Espirituais para um padre


   Santo Afonso Maria de Ligório
(27/09/1696 - 02/08/1787)
Bispo de Santa Àgata
Confessor
Doutor Zelosíssimo da Igreja
Fundador dos Missionários Redentoristas

A Selva


APÊNDICE

Máximas Espirituais
Para um padre


Antes perder tudo, que perder a Deus.
Antes desagradar a todo o mundo, que desagradar a Deus.
Só é para temer o pecado, que nos deve causar horror.
Antes morrer do que cometer com advertência um só pecado, mesmo venial.
Tudo acaba; o mundo é uma cena, que passa depressa.
Cada momento vale um tesouro para a eternidade.
O que apraz a Deus é bom.
Fazei o que quereríeis ter feito à hora da morte.
Vivei como se no mundo só houvesse Deus e vós.
Só Deus contenta o homem.
Nenhum bem há senão Deus; nenhum mal senão o pecado.
Nada façais para vossa própria satisfação.
Quem mais se mortifica nesta vida, mais gozará na outra.
Para os amigos de Deus, o amargo é doce e o doce é amargo.
É nas doenças que se vê quem tem virtude.
Quem quer o que Deus quer, tem tudo quanto quer.
A vontade de Deus torna doce o que é amargo.
Quem nada deseja do mundo, de nada tem necessidade.
Não retardeis o cumprimento dos vossos bons propósitos, se não quereis atrasar.
Perturbar-se com as faltas cometidas não é humildade, mas orgulho.
Só somos o que somos diante de Deus.
Quem ama a Deus, mais deseja amar do que saber.
Quem quer santificar-se, deve banir do seu coração tudo quanto não é Deus.
Não é todo de Deus quem busca alguma coisa que não é Deus.
A dor, a pobreza e a humilhação foram as companheiras de Jesus Cristo; que sejam também as nossas.
Venha donde vier, nunca a perturbação vem de Deus.
O humilde crê-se indigno de toda a honra e digno de todo o desprezo.
Quando se pensa no inferno que se mereceu, sofrem-se com resignação todas as penas.
Esquecei-vos a vós mesmos, e Deus pensará em vós.
Amai os desprezos, e encontrareis a Deus.
Quem se contenta com um bem mínimo, não está longe do mal.
A quem procura ser estimado, estima Deus pouco.
Os santos falam sempre de Deus; sempre dizem mal de si próprios, e sempre bem dos outros.
Os curiosos são sempre dissipados.
Desgraçado de quem ama mais a saúde que a santidade!
Sempre o demônio anda à caça dos ociosos.
Um padre vaidoso é uma pela nas mãos do demônio.
Quem quer estar em paz, deve mortificar todas as suas paixões, sem excetuar uma só.
S. José Calasâncio dizia: “Um servo de Deus fala pouco, trabalha muito e sofre tudo”.
Cuidam os santos de ser santos, e não de o parecerem.
Quem não amar muito a oração, jamais chegará a um alto grau de perfeição.
Primeiro se há de ser reservatório para recolher, e depois canal para difundir.
Todo o apego impede de ser inteiramente de Deus.
É Jesus Cristo e o seu beneplácito que o padre deve trazer diante dos seus olhos, e nada mais.
Nas obras que falam à vista se esconde muitas vezes o orgulho.
Oferecer-se por completo a Deus é uma excelente preparação para a comunhão.
Quando andardes por lugares povoados, conservai os olhos baixos; pensai que sois padre e não pintor.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

A Selva - Regras Espirituais para um padre que aspire à perfeição

   Santo Afonso Maria de Ligório
(27/09/1696 - 02/08/1787)
Bispo de Santa Àgata
Confessor
Doutor Zelosíssimo da Igreja
Fundador dos Missionários Redentoristas

A Selva


APÊNDICE

Regras Espirituais
Para um padre que aspire à perfeição


1. Evitar o pecado e a perturbação depois do pecado

Um pecado que aspira à perfeição e deseja santificar-se, deve primeiro que tudo tomar a peito evitar antes o pecado que a morte, até o mínimo pecado venial deliberado. Depois do pecado de Adão, no estado atual da fragilidade humana, ninguém pode e nunca pôde — à exceção de Jesus Cristo e de sua Mãe santíssima — ser isento de todas as faltas veniais indeliberadas; mas podemos muito bem, com o auxílio de Deus, evitar todas as faltas deliberadas, isto é, cometidas com plena advertência e consentimento; é o que têm feito os santos. Quem aspira à perfeição deve estar bem decidido a deixar-se antes martirizar, do que dizer com advertência plena uma mentira, ou cometer qualquer outro pecado venial, por pequeno que seja.
Tal deve ser a sua resolução; mas, se tiver a desgraça de cair em alguma falta, deliberada ou indeliberada, não se perturbe nem inquiete. Nunca a inquietação vem de Deus, é um fumo que não pode sair senão do próprio abismo da inquietação, que é o inferno. Vem-nos de lá, porque, como dizia com razão S. Luís de Gonzaga, o demônio pesca sempre nas águas turvas.Quando uma pessoa, por exemplo, cometeu uma falta, perturba-se, e depois perturba-se por se haver perturbado: neste estado de inquietação, não só será incapaz de praticar o bem, mas até facilmente cometerá muitas outras faltas, quer de impaciência, quer doutra espécie.
Por isso, desde que a falta está cometida, é necessário humilhar-se e recorrer logo a Deus: faça um ato de amor ou de contrição, com o bom propósito de emenda, e peça com muita confiança a graça de que necessita, dizendo: Senhor! eis o que eu sei fazer e, se me retirardes a vossa mão, ainda farei pior! Amo-vos, arrependo-me do passado e não quero recair no futuro; dignai-vos conceder-me o socorro que da vossa bondade espero.Feito isto, ficai em paz, como se nenhuma falta houvésseis cometido. Se até no mesmo dia recairdes, procedei do mesmo modo. se tivésseis a desgraça de recair cem vezes, sempre deveríeis concluir assim: humilhe-se quem se exaltou, mas nunca se fique desalentado.
Importa observar que o perturbar-se depois de uma falta cometida, não é efeito da humildade, mas do orgulho: dói-se o pecador do que lhe aconteceu, menos por ser ofensa feita a Deus, do que pela vergonha que sente de se apresentar diante dele com tal mancha. Nunca o padre pois deve perturbar-se com as suas faltas, mas humilhe-se como capaz de cometer essas e ainda outras; faça depois um ato de amor de Deus.

2. Desejo eficaz de adiantar no amor de Deus

Esteja o padre animado do desejo de crescer cada vez mais no amor de Deus. Não querer adiantar na perfeição — que assenta por completo no amor de Deus — é querer atrasar. Non progredi, jam reverti est diz Sto. Agostinho ( Epist. 17. E. B. app.). Quem sobe a corrente dum rio, e não luta de contínuo contra o movimento das águas, será por elas arrastado. É o que nos acontece, desde que não lutemos contra a concupiscência da carne.
Os santos desejos adoçam-nos as dificuldades e fazem-nos caminhar para a frente; mas é necessário que sejam firmes e eficazes, isto é, que sejam quanto possível postos em prática. Não tenhamos a linguagem dos que, por exemplo, se limitam a dizer: Ó! se eu tivesse irmãos nem sobrinhos, entraria numa ordem religiosa; se eu tivesse saúde, faria tais penitências...Esses jamais dão um passo à frente no caminho de Deus; ao contrário, sempre se arrastam nos mesmos pecados, sempre conservam os mesmos apegos e animosidades, caminham de mal a pior.
Haja pois desejo de adiantar no amor de Deus, mas com a resolução firme de fazer todo o possível para chegar ao fim, desconfiando das próprias forças e pondo toda a confiança só em Deus; porque aquele que confia em si, priva-se do auxílio da graça.

3. Devoção à Paixão do Salvador e ao Santíssimo

Para adiantar na perfeição, é também necessário ser muito devoto da paixão de N. S. Jesus Cristo e do Santíssimo Sacramento. Quando se consideram estes grandes mistérios de amor, em que um Deus, para se fazer amar, sacrifica a sua vida e se dá em alimento a um verme da terra, criatura sua, não se pode deixar de arder em amor por Jesus Cristo. Charitas enin Christi urget nos, diz S. Paulo (2Cor 5,14). Quem pensa no amor do nosso Salvador, vê-se como que forçado a amá-lo. Às suas chagas sagradas chama S. Boaventura feridas, que ferem os mais duros corações, e inflamam no amor de Deus as almas mais geladas 2.
De ordinário pois, não deixe o padre de fazer todos os dias meia hora de meditação sobre a Paixão de Jesus Cristo. Faça além disto durante o dia freqüentes atos de amor para com o divino Mestre, começando desde o despertar e procurando adormecer num ato de amor. Dizia Sta. Teresa que os atos de amor são como lenha que entretém no coração o doce fogo do amor divino. Em particular, um ato de amor muito agradável a Deus é o oferecimento de si mesmo, dispondo-se para fazer e sofrer tudo quanto for do beneplácito divino. Santa Teresa repetia este ato pelo menos cinqüenta vezes cada dia.

4. Intenção de fazer tudo por Deus

Em todas as suas ações, deve o padre ter a intenção de tudo fazer só para Deus. Os mestres da vida espiritual chamam à reta intenção uma alquimia celeste, que converte em ouro todas as nossas ações, mesmo as que respeitam às necessidades corpóreas, como o repouso, o alimento e o recreio.Mas, em especial, é necessário que os exercícios de piedade se façam unicamente para agradar a Deus, e não por motivo de interesse, vanglória, ou gosto próprio; de contrário, tudo se perderá e, em vez de recompensa, se receberá castigo. Para com segurança pois, se fazer por Deus tudo quanto se fizer, convém que se obre sempre sob a dependência dum diretor.

5. Amor da solidão e do silêncio

É preciso que o padre ame a solidão e o silêncio. Quem trata e fala demasiado com os homens, necessita de tomar cautela; se a não tiver, dificilmente evitará o pecado: In multiloquio non deerit peccatum (Prov. 10, 10). Por isso o Senhor disse: In silentio et in spe erit fortitudo vestra (Ps. 30, 15).Seremos fortes contra as tentações, na medida em que confiarmos em Deus, e nos afastarmos do comércio com as criaturas. De mais, quem fala muito com os homens, falará pouco com Deus. Na solidão fala e conversa familiarmente o Senhor com as almas, conforme esta exclamação de S.Jerônimo: O solitudo, in qua Deus cum suis familiariter loquilur ac conversatur!E o próprio Deus nos faz compreender que é na solidão que nos fala aos corações: Ducam eam in solitudinem, et loquar ad cor ejus (Os. 2, 14). As almas que ardem no amor de Deus sempre buscam a solidão: é o que se observa. Corriam os santos a esconder-se nas florestas e em espantosas cavernas, para não serem perturbados pelo ruído do mundo e poderem tratar a sós com Deus. O silêncio e a solidão forçam, por assim dizer, a alma a não pensar senão em Deus.
No entanto, não consiste a virtude em estar sempre calado, mas em falar quando convém. Um bom padre cala-se quando deve calar-se, e fala quando deve alar; mas fala somente de Deus, ou do que interessa à glória de Deus e ao bem das almas. Muitas vezes uma palavra de Deus, dita familiarmente em conversa ou a um amigo, produzirá mais fruto que muitos sermões.Deve-se pois ter cuidado em todos os entretenimentos, por indiferentes que sejam, de misturar alguma palavra edificante sobre as verdades eternas ou sobre o amor de Deus. Quando se ama uma pessoa, sempre se desejaria falar e ouvir falar dela; quando se ama a Deus, só se fala e quer ouvir falar de Deus.

6. Conformidade com a vontade de Deus

Consiste acima de tudo o amor de Deus na conformidade com a sua santa vontade, especialmente nas coisas que mais contrariam o amor próprio, como são as doenças, a pobreza, o desprezo, as perseguições e as securas espirituais. Devemos estar persuadidos de que tudo isso, que nos advém de Deus, nos é útil, por ser feito ou permitido para nosso bem; porque ninguém há que mais nos ame do que Deus. Se queremos santificar-nos, digamos em tudo quanto nos acontecer: Fiat voluntas tua. Sit nomen Domini benedictum. Domine, quid me vis facere? Sicut Domino placuit, ita factum est. Ita, Pater! quoniam sic fuit placitum ante te.
Em todas as eventualidades da vida, agradáveis ou desagradáveis, procuremos conservar essa paz contínua, essa tranqüilidade inalterável de que os santos nos dão exemplo, dizendo sempre: In pace in idipsum dormiam et requiescam. Uma alma que ama a Deus passa uma vida uniforme, sempre em união com o Senhor; era o que nos seus cânticos exprimia um grande servo de Deus, o cardeal Petrucci, sobre esta palavra do Espírito Santo: Non contristabit justum quidquid ei acciderit (Prov. 12, 21).Assim, um padre que ama a Deus jamais será abalado pela aflição. Só o pecado lhe deve causar dor; mas esta dor mesmo, como acima dissemos, deve ser uma dor calma, que não perturbe a paz da alma.

7. Desejo de morte

Deve o padre desejar muitas vezes o Paraíso, e por conseqüência a morte, para ir em breve para o Céu amar a Jesus Cristo, com todas as suas forças e por toda a eternidade, sem receito de jamais o perder. Entretanto, procederá sem reservas para com Deus, nada lhe recusando, do que souber que lhe é mais agradável, e estará sempre atento a afastar do seu coração tudo o que não é Deus nem para Deus.

8. Devoção à santíssima Virgem

Esforce-se por conceber uma grande confiança e terna devoção para com a santíssima Virgem. Sempre todos os santos têm alimentado em seus corações uma piedade filial para com a Mãe divina. Cuide de fazer todos os dias uma leitura nalgum livro, que trate das suas glórias e da confiança que devemos ter na sua poderosa proteção. Não deixe de jejuar aos sábados em sua honra, o melhor que possa, e em todas as suas novenas, pratique ao menos alguma abstinência e mortificação. Não deixe de visitar todos os dias alguma imagem sua. Quanto puder, falará da confiança que se deve ter na proteção de Maria, e procurará aos sábados fazer aos fiéis uma pequena instrução na igreja, para os afervorar na devoção a esta compassiva Soberana.Pelo menos, fale dela em cada um dos seus sermões, e recomende a mesma devoção a todos os seus penitentes, assim como a todas as demais pessoas que possa. Quanto mais se amar a Maria, tanto mais se amará a Deus; porque Maria atrai a Deus os que a amam. Quia tota ardens fuit, diz S.Boaventura, omnes se amantes, eamque languentes, incendit (De B. M. V. s.1).

9. Ser humilde do coração

Esforce-se por ser humilde do coração. Muitos há que são humildes de palavras, mas não do coração; dizem que são os maiores pecadores do mundo, que merecem mil infernos; apesar disso, querem ser preferidos, estimados e louvados. Quando ninguém os aplaude, a si próprios se louvam; ambicionam os empregos mais altos, e não podem sofrer uma palavra de desprezo.Não procedem assim os humildes de coração: nunca falam dos seus talentos, da sua nobreza, das suas riquezas, nem de coisa alguma que os distinga.
Amará pois os empregos e serviços mais humildes e obscuros. Receberá as afrontas sem se perturbar, e até interiormente se comprazerá nelas, por se tornar assim semelhante a Jesus Cristo, que foi saturado de opróbrios.Nas contradições que ferirem e irritarem o seu orgulho, faça-se violência para nada dizer nem fazer naquela ocasião, ainda mesmo que seja superior e como tal obrigado a reprimir a insolência de quem o ultraja. Enquanto sentir os nervos exaltados, deve calar-se até que eles acalmem. De contrário, o fumo da perturbação lhe ofuscará a vista; olhará como justo o que diz e faz, ao passo que tudo será falta e desordem. Além disto, quando a correção se faz no momento da exasperação, o inferior não a recebe como reprimenda merecida, mas como efeito da impaciência da parte do superior, o que a torna inútil ou pouco menos. Pela mesma razão, quando o superior conhece que o seu inferior está perturbado, deve diferir a admoestação, esperando que ele acalme; doutro modo, o inferior cego pela sua paixão, longe de receber a repreensão, romperá em maiores excessos.

10. Tornar bem por má

Será prestável a todos, e cuidará em especial de fazer bem a quem lhe tiver feito mal, pelo menos recomendando-o a Deus; é a vingança dos santos.

11. Mortificação interior e exterior

Esteja atento em praticar a mortificação interior e exterior. Jesus Cristo a recomendou, quando disse: Abneget semetipsum (Matth. 16, 24); o que é absolutamente necessário para chegar à santidade.Exige a mortificação interior que cada um se vença a si próprio, recusando ao amor próprio tudo quanto o possa contentar. Abstenha-se pois de toda a ação que não tenha outro objeto senão satisfazer a curiosidade, a ambição, ou a vontade própria.
Ame também a mortificação exterior: os jejuns, as abstinências, as disciplinas, e outras coisas semelhantes. Os santos maceraram a sua carne quanto puderam, isto é, quanto lhes permitia a obediência, que é a regra dos santos.Quanto àquele que, em razão da sua pouca saúde, não puder impor mortificasses exteriores, esse deve abraçar as dores e incômodos que tiver a sofrer, tomando a peito levar tudo com resignação e tranqüilidade. Deve abster-se até de dar a conhecer sem necessidade o que sofre, e de se queixar do pouco cuidado dos médicos ou das pessoas da casa.

12. Orar sempre

É necessário orar sempre e recomendar-se a Deus. Todas as nossas boas resoluções e propósitos se desvanecem como o fumo, se nos descuidarmos de orar; porque, sem a oração, ficamos privados das graças necessárias para os cumprir3. Devemos ter os lábios sempre abertos para orar, dizendo: Senhor, ajudai-me; Senhor, misericórdia; Senhor, tende compaixão de mim. — Assim o têm feito todos os santos, e assim se têm santificado.Acima de tudo, não cessemos de pedir a Jesus Cristo o dom do seu santo amor. Dizia S. Francisco de Sales que este dom encerra todos os outros; porque desde que se ama a Deus empregam-se todos os esforços para evitar quanto lhe possa desagradar, e fazer todo o possível para lhe agradar.Peçamos também sempre a graça de ter muita confiança na paixão de Jesus Cristo e na intercessão de Maria. Não cessemos de recomendar a Deus as santas almas do Purgatório e os pobres pecadores; porque estas orações são muito agradáveis a Deus.


Fonte: Volta para Casa
PDF do livro: www.redemptor.com.br
CONTINUA...

terça-feira, 11 de setembro de 2012

A Selva - Regulamento de vida para um padre secular


  Santo Afonso Maria de Ligório
(27/09/1696 - 02/08/1787)
Bispo de Santa Àgata
Confessor
Doutor Zelosíssimo da Igreja
Fundador dos Missionários Redentoristas

A Selva


APÊNDICE

Regulamento de vida para um padre secular


I - De manhã

1. Os primeiros atos ao levantar

De manhã, ao levantar, fará o sacerdote atos de agradecimento, amor e oferecimento de tudo quanto obrar e sofrer durante o dia. Terminará por uma súplica a Deus e à santíssima Virgem, para obter a graça de não cair em nenhum pecado.
Eis como estes atos podem ser formulados:
Meu Deus! Prostrado na vossa presença, adoro a vossa Majestade infinita, e submeto-me a vós inteiramente.
Creio em vós, espero em vós, e amo-vos de todo o meu coração.Dou-vos graças por todos os benefícios, e em especial por me haverdes conservado a vida durante esta noite. Ofereço-vos todos os meus pensamentos, palavras, ações e sofrimentos deste dia, em união com os de Jesus e Maria.Formo a intenção de ganhar todas as indulgências que puder, e de as aplicar pelas almas do Purgatório.
Meu Deus! Por amor de Jesus Cristo, livrai-me de todo o pecado. Meu Jesus! Pelos vossos merecimentos, fazei que viva unido a vós. Maria, minha Mãe! abençoai-me, e acolhei-me sob o vosso manto. Meu anjo da guarda e todos os meus santos patronos, intercedei por mim! Amém.
Recitam-se em seguida três A. M. em honra da pureza da santíssima Virgem

2. Oração mental

terça-feira, 4 de setembro de 2012

A Selva - DÉCIMA PRIMEIRA INSTRUÇÃO - Sobre a devoção à Virgem Santíssima

  Santo Afonso Maria de Ligório
(27/09/1696 - 02/08/1787)
Bispo de Santa Àgata
Confessor
Doutor Zelosíssimo da Igreja
Fundador dos Missionários Redentoristas

A Selva


SEGUNDA PARTE - MATERIAIS PARA AS INSTRUÇÕES
DÉCIMA PRIMEIRA INSTRUÇÃO


Sobre a devoção à Virgem Santíssima


Pode este assunto ser tratado nos sermões ou nas instruções, conforme se julgar preferível. Em todo o caso, quem dá os exercícios a sacerdotes, não deve passar em silêncio este ponto; porque este discurso é talvez mais útil que todos os outros. Sem a devoção a Maria, é moralmente impossível ser-se um bom padre.Vamos considerar, em primeiro lugar, que a intercessão da santíssima Virgem é moralmente necessária aos padres; veremos depois a confiança que eles devem ter na intercessão desta divina Mãe.

I - Necessidade moral da intercessão da santíssima Virgem

Quanto à necessidade da intercessão da Mãe de Deus, é verdade que o Concílio de Trento ( Sess. 25, De inv. Sanct.) declarou solenemente que a intercessão dos santos é útil, sem dizer que seja necessária. No entanto, a esta pergunta: “Somos nós obrigados a pedir aos santos que intercedam por nós?”1 Santo Tomás responde afirmativamente, porque a ordem da lei divina exige que, na condição de viadores, nos salvemos por meio dos santos, obtendo por sua mediação as graças necessárias à salvação. Eis as suas palavras: “Segundo S. Dionísio, a ordem dos seres exige que os últimos regressem a Deus por intermédio dos que estão mais próximos dele. E, como os santos que estão na pátria se acham muito próximos de Deus, exige a ordem da lei divina que nós, retidos longe do Senhor pelos laços do corpo, regressemos a ele por meio dos santos”. Depois ajunta: “Assim como os benefícios de Deus nos advém por meio dos sufrágios dos santos, assim também é necessário que por meio dos santos nos voltemos para Deus, para recebermos dele novos benefícios”2. O mesmo pensamento se encontra expresso noutros autores e especialmente no continuador de Tournely, que diz com Sílvio: Somos obrigados pela lei natural a observar a ordem estabelecida por Deus; ora Deus estabeleceu que os inferiores cheguem à salvação implorando o socorro dos superiores3.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

A Selva - DÉCIMA INSTRUÇÃO - Sobre o amor para com Deus

 Santo Afonso Maria de Ligório
(27/09/1696 - 02/08/1787)
Bispo de Santa Àgata
Confessor
Doutor Zelosíssimo da Igreja
Fundador dos Missionários Redentoristas

A Selva


SEGUNDA PARTE - MATERIAIS PARA AS INSTRUÇÕES
DÉCIMA INSTRUÇÃO


Sobre o amor para com Deus


I - O padre deve ser todo de Deus

Sem amardes a Deus, diz Pedro de Blois, bem podereis dizer-vos padre, mas não o sois1. Desde o dia da sua ordenação, o padre não é mais seu, mas de Deus, diz Sto. Ambrósio2. É o que o próprio Senhor declara na antiga Lei: Oferecerão o incenso do Senhor e o pão do seu Deus, e por isso mesmo serão santos3. Assim o padre é chamado por Orígenes, “Um espírito consagradoa Deus”4. Ao pôr o pé no santuário, o padre protestou que não queria outra herança senão Deus, dizendo: Domius pars hereditatis meae. Se pois o padre tem a Deus por sua herança, ajunta Sto. Ambrósio, não deve viver senão para Deus5. Por isso disse o Apóstolo que o que se devotou ao serviço da Majestade divina, não deve ingerir-se nos negócios do mundo, mas aplicar-se por completo a fazer o beneplácito do Senhor, a quem se consagrou6.Respondendo a um jovem que o queria seguir, Jesus Cristo nem ao menos lhe permitiu que voltasse a sua casa, para dar sepultura a seu pai: Segue-me e deixa aos mortos o cuidado de enterrarem os seus mortos7. Segundo a reflexão de Sto. Ambrósio foi uma lição dada a todos os eclesiásticos: mostrava-lhes assim que também eles devem antepor os interesses da glória de Deus a todas as coisas humanas, que os possam impedir de se darem a ele por inteiro8.

Já na antiga Lei, dizia Deus aos sacerdotes que os tinha escolhido dentre todos, para que fossem dele por completo. Nesse sentido lhes declarou que não teriam entre os seculares nem bens nem patrimônio: que ele próprio era sua propriedade e herança9. Oleastro faz esta reflexão: Ó padre, grande é esse benefício, se o o compreendes: Deus quer fazer-te herança sua! Que te poderá faltar, se possuíres a Deus?10 Deve pois o padre dizer com Sto.Agostinho: Que os outros escolham entre os bens terrenos os que mais lhes aprazem, a partilha dos santos é o Senhor, que é eterno; que os outros bebam da taça dos prazeres envenenados; a fonte em que quero saciar-me é o Senhor11.

Que queremos nós amar, se não amamos a Deus? Assim fala Sto.Anselmo, dirigindo-se ao Senhor12. Fez o imperador Dioclesiano apresentar diante de Clemente de Ancira ouro, prata e pedras preciosas, para o mover a abjurar a fé; mas o santo soltou um gemido de dor, ao ver que os homens punham o seu Deus em confronto com um pouco de barro. Ter tudo sem Deus é nada ter; mas ter Deus é ter tudo, embora nenhuma coisa se tenha 13.Assim pensava com razão S. Francisco, que passou uma noite inteira a repetir estas palavras: Deus meus, et omnia! Ditoso pois o que pode dizer com Davi: Meu Deus, só a vós vejo no Céu e na terra; sois e sempre sereis o único Senhor do meu coração e o meu único tesouro14.

Por isso mesmo merece Deus ser amado, — porque é objeto digno dum amor infinito; mas nós devemos amá-lo, ao menos por motivo de reconhecimento, em razão do amor imenso que nos testemunhou no benefício da redenção.Que mais poderia fazer um Deus do que fazer-se homem e morrer por nós? Ninguém pode mostrar mais amor do que dando a vida pelos seus amigos15. Antes da redenção, podia o homem duvidar se Deus o amava com ternura; mas poderá restar-lhe alguma dúvida, depois de o ter visto numa cruz, morto por seu amor? Conforme a expressão de Moisés e Elias no Tabor 16, foi isso um excesso de amor, que nem os anjos todos poderão compreender por toda a eternidade. Quem dentre os homens, pergunta Sto. Anselmo, podia merecer que um Deus morresse por ele?17 E contudo é certo que o Filho de Deus morreu por cada um de nós. O Apóstolo no-lo assegura18, e ajunta que a morte do nosso Salvador, pregada aos Gentios, lhes parecia uma loucura 19.

E por certo não era nem uma loucura nem uma mentira: era uma verdade de fé, verdade tal que, no dizer de S. Lourenço Justiniano, nos faz ver Deus — que é a própria Sabedoria — tornado como que louco por amor do homem20. Ai! Se Jesus Cristo tivesse querido testemunhar o seu amor a seu eterno Pai, teria podido dar-lhe uma prova mais certa do que morrer crucificado, como morreu por cada um de nós? Vou mais longe: se um dos nossos servos tivesse morrido por nós, poderíamos não o amar? Apesar de tudo, onde está o nosso amor e reconhecimento para com Jesus Cristo? Se ao menos recordássemos muitas vezes o que o nosso divino Redentor fez e sofreu por nós! Dá-se muito gosto a Jesus Cristo, quando se pensa com freqüência na sua paixão. Se uma pessoa tivesse sofrido ultrajes, blasfêmias, cadeias por um amigo, quanto não gostaria que esse amigo se lembras-se dele e pensasse muitas vezes em tais sacrifícios! Desde que uma alma pense muitas vezes na paixão de Jesus Cristo, e no amor que este Deus tão bom nos há testemunhado, é impossível que não se sinta impelida por uma força irresistível a amá-lo: O amor de Jesus Cristo, insta conosco 21, exclama o Apóstolo. Mas, se todos os homens devem arder em amor por Jesus Cristo, dum modo mais especial nós os padres, porque ele morreu especialmente para nos fazer sacerdotes. De fato, como ponderamos no princípio (pág. 24), sem a morte de Jesus Cristo, não teríamos a Vítima santa e sem mancha, que agora oferecemos a Deus. É o que nota com razão Sto.Ambrósio e ajunta: Quem mais recebe, mais deve; demos-lhe portanto o nosso amor em troca do seu sangue22.

Cuidemos de compreender o amor que Jesus Cristo nos mostrou na sua paixão, e desse modo por certo se extinguirá no nosso coração o amor das criaturas. Ó! si scires mysterium crucis! exclamava o apóstolo Sto. André, dirigindo-se ao tirano, que tentava forçá-lo a renegar a Jesus Cristo! Queria dizer: Ó tirano! Se soubesses até onde chegou o amor do teu Deus para te salvar, é certo que, longe de me quereres tentar, te devotarias a amá-lo, para lhe testemunhares o teu reconhecimento, por um tal extremo de amor.Ditosos pois os que sempre têm presentes a seus olhos as chagas de Jesus Cristo! Caminhareis radiantes de alegria, a colher água nas fontes do Salvador23. Ó! que preciosa abundância de luzes e sentimentos de devoção colhem os santos nesses mananciais salutares! Dizia o Pe. Alvarez que a desgraça dos cristãos está em ignorarem os tesouros que temos em Jesus Cristo. Gloriam-se os sábios da sua ciência; o Apóstolo só se gloriava de saber Jesus crucificado24. De que servem todas as ciências quando se não sabe amar a Jesus Cristo? Ainda que eu possuísse todas as ciências, dizia o Apóstolo, se não tivesse caridade, não seria nada25. Noutro lugar escreveu que, para ganhar a Jesus Cristo, olharia como nada todos os outros bens 26. E gloriava-se de estar na prisão27 por amor de Jesus Cristo.

Ó! feliz o padre que, ligado por tão doces cadeias, se dá todo a Jesus Cristo! Mais vale para Deus uma só alma, que se lhe dá por completo, do que cem outras que permanecem imperfeitas. Se um príncipe tivesse cem criados, dos quais noventa e nove o servissem com pouca dedicação e sempre lhe causassem alguns desgostos, ao passo que um só o servisse unicamente por amor, atento em lhe fazer sempre e em tudo a vontade, por certo esse príncipe amaria mais este único servo fiel, do que a todos os outros juntos. São inumeráveis as donzelas; a minha pomba, a minha perfeita é uma só28. A tal ponto ama o Senhor uma alma que o serve perfeitamente, que não a amaria mais, ainda mesmo que não tivesse nenhum outro objeto a amar. Daí este aviso de S. Bernardo: Aprendei de Jesus como deveis amar a Jesus 29.Jesus Cristo deu-se todo a nós desde o seu nascimento: Nasceu para nós um menino, foi-nos dado um filho30. Ele próprio se nos deu por amor: Amou-nos a ponto de se entregar por nós31. É portanto justo que também por amor nos demos inteiramente a Jesus Cristo. Deu-se-nos sem reserva este divino Salvador, diz S. João Crisóstomo: Totum tibi dedit, nihil sibi reliquit.Deu-vos o seu sangue, a sua vida, os seus merecimentos; exige a justiça que também vos entregueis a ele sem reserva. Dai-lhe tudo quanto sois, diz S.Bernardo, visto que ele se entregou todo para vos salvar32.

Se esta obrigação porém incumbe a todos os homens, com melhoria de razão aos padres. Por isso S. Francisco de Assis, reconhecendo o dever especial que tem um padre de ser todo de Jesus Cristo, escrevia aos sacerdotes da sua Ordem: Nada retenhais para vós do que é vosso; que Jesus Cristo vos receba por inteiro, como inteiro se deu a vós33. Por todos morreu o Redentor, para que todos vivam, não para si mesmos, mas unicamente para aquele Deus, que por eles deu a sua vida34. Ó! Como não teremos sempre com Deus a mesma linguagem de Sto. Agostinho: Morra eu a mim, para que só vos vivais em mim! Mas, para sermos de Deus por inteiro, é necessário que lhe demos o nosso coração, sem o repartirmos. Ama-vos pouco, dizia ainda Sto. Agostinho, quem ama algum outro objeto e não o ama por vós35.

Não se pode ser todo de Deus, quando se ama alguma coisa que não é Deus, e não se ama por Deus. Anima, exclama S. Bernardo, sola esto, ut soli te serves36. Ó alma resgatada por Jesus Cristo! Não repartas o teu coração pelas criaturas; conserva-te só, desprendida de tudo, para seres toda desse Deus, que é o único que merece todo o amor. — Tal é também o sentido do bem-aventurado Gilles: Una uni. Esta alma única que temos devemos dá-la, não em parte, mas por inteiro, a esse Deus que nos ama mais ele só, e merece ser mais amado, que todas as criaturas juntas.

II - Meios a empregar para ser todo de Deus

1. Desejo da perfeição

O padre que aspira a dar-se todo a Deus, deve começar a conceber um grande desejo da santidade. Os santos desejos são como asas, que alevantam as almas para Deus; Porque o começo da sabedoria é um desejo muito sincero de a possuir37. Conforme o Sábio, o progresso dos justos é como a luz do sol, que desde a manhã vai subindo mais e mais à medida que avança38.A luz dos pecadores, ao contrário, é esse crepúsculo da tarde, que vai decrescendo até de todo se desvanecer, de modo que os desgraçados não vêem mais para onde caminham: É tenebrosa a via dos ímpios, que não sabem onde irão parar39.

Desgraçado pois o que está satisfeito com a sua vida e não procura torná-la melhor! Não adiantar é recuar40, diz Sto. Agostinho. Quem se encontra no meio dum rio, ajunta S. Gregório41, e não se esforça por vencer a corrente, infalivelmente será levado por ela. Daqui a censura que S. Bernardo dirige ao tíbio: Se não queres adiantar, queres então retroceder42. — Não, responde o tíbio: quero permanecer tal qual estou, nem melhor nem pior. — Mas isso é impossível, replica o santo43. Não pode dar-se esse caso, porque o homem nunca permanece no mesmo estado44. Para ganhar o prêmio, isto é, a coroa eterna, é necessário, diz o Apóstolo, não afrouxar o passo até que se consiga atingi-la45. O que cessa de correr perde a coroa e tudo quanto tinha feito.

Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça46. Com efeito, como a divina Mãe disse no seu Cântico, cumula Deus de graças os que desejam santificar-se: Esurientes implevit bonis. Note-se porém esta expressão: Esuriunt, esurientes; significa ela que para nos santificarmos não basta um simples desejo; requere-se um grande desejo, uma certa fome de santidade.Aquele que tem esta fome ditosa, não caminha, corre na estrada da virtude, diz o Salmista, como a chama da lenha seca47. Quem se santificará pois? Quem quiser santificar-se: Se queres ser perfeito, vai...48 Mas é necessário querer com uma vontade resoluta: o tíbio, no dizer do Sábio, também quer, mas não com uma vontade eficaz; deseja, deseja sempre, e os seus desejos o perdem, porque se contenta com eles, e vai caminhando de mal a pior: O preguiçoso quer e não quer... Os seus próprios desejos o matam49.

A sabedoria, ou a santidade, facilmente se deixa encontrar por quem a procura50. Mas não basta desejá-la para a encontrar; é preciso desejá-la com uma resolução firme de a adquirir: Se a procurais, procurai-a51. Quem deseja a santidade com a resolução de chegar a ela, há-de possuí-la. Diz S. Bernardo que não é com os pés, mas com os desejos do coração que se procura a Deus52. E Sta. Teresa escreveu: “Sejam grandes os nossos pensamentos, que deles nos advirá o bem”. — “Não devemos pôr limites aos nossos desejos; devemos ao contrário esperar que, apoiando-nos em Deus, poderemos com a sua graça chegar pouco a pouco aonde muitos santos chegaram”53.

Abre a boca, nos diz o Salvador, e eu a encherei54. Não pode a mãe alimentar o seu filho, se ele não abrir os lábios para lhe sugar o leite. Abre a boca, isto é, segundo a expressão de Sto. Atanásio: dá largas aos teus desejos. Assim, mediante os bons desejos, alguns santos chegaram em pouco tempo à perfeição: Consumado em pouco tempo, efetuou uma longa carreira 55. Em S. Luís de Gonzaga encontramos um exemplo a propósito: em poucos anos chegou a uma santidade tal, que Sta. Maria Madalena de Pazi, tendo-o visto na glória, lhe parecia, dizia ela, que não havia no Céu nenhum santo, que se avantajasse a Luís em felicidade. Soube ela que esse alto grau de glória lhe fôra devido pelo desejo ardente, que tinha alimentado durante a sua vida, de chegar a amar a Deus tanto quanto ele o merece ser. O desejo, diz S. Lourenço Justiniano, dá forças e adoça a pena56. Por isso acrescentava que desejar vencer é quase ter já vencido57. E Sto. Agostinho exprime assim o mesmo pensamento: Quem ama pouco a santidade, acha o caminho apertado, e não o trilha senão a muito custo; quem ama verdadeiramente, encontra-o largo e percorre-o sem dificuldade58. A largura do caminho pois não está no próprio caminho, mas no coração, isto é, na vontade firme de agradar a Deus: Desde que me dilatastes o coração, caminhei a passos largos na via dos vossos mandamentos59. E Luís de Blois afirma que os santos desejos não são menos agradáveis ao Senhor, que um amor ardente60.

O que não tem desejo de se santificar, peça-o ao menos a Deus, e Deus lho dará. Persuadamo-nos bem de que a santificação não é obra difícil para quem a quer. No mundo é difícil a um súdito conseguir a amizade do seu príncipe, quando a deseja; mas — dizia um cortesão dum imperador, de quem fala Sto. Agostinho — se eu quero a amizade de Deus, esta vontade me basta para me tornar amigo seu61. E S. Bernardo assegura que se não pode ter nenhuma prova mais certa da amizade de Deus e da sua graça, que o desejo duma graça maior, para mais lhe agradar62. E acrescenta que pouco importa o caso de no passado se ter sido pecador; porque Deus não examina o que o homem foi no passado, mas o que quer ser de futuro63.

2. Intenção de agradar a Deus em tudo

Em segundo lugar, o padre que se quer santificar, deve fazer todas as suas ações no intuito de agradar a Deus. Todas as suas palavras, todos os seus pensamentos, todos os seus desejos, todos os seus atos, devem ser apenas um exercício de amor para com Deus. A Esposa dos Cânticos umas vezes se fazia caçadora ou guerreira; outras se aplicava à cultura da vinha ou dos jardins; mas sempre, nesses diversos exercícios, se mostrava amante fiel, porque tudo fazia por amor do seu Esposo. Tal é o modelo do padre: quanto diz, quanto pensa, quanto sofre e opera, ou celebre, ou confesse ou pregue, se assiste aos enfermos, faz oração e se mortifica, faça o que fizer, tudo deve derivar do mesmo princípio, porque deve fazer tudo para agradar a Deus.

Jesus Cristo disse: Se o vosso olhar for simples, todo o vosso corpo será alumiado64. Por olhar, entendem os santos Padres a intenção. Assim, diz Sto.Agostinho, é a intenção que torna boa a obra65. A Samuel fez o Senhor ouvir esta palavra: Vê o homem as coisas quanto ao exterior, mas o Senhor penetra o coração66. Contentam-se os homens, com as obras exteriores que vêm; mas Deus, que vê o coração, não se contenta com a obra, se ela não for praticada com a reta intenção de lhe agradar. Eu vos oferecerei holocaustos cheios de medula, dizia Davi67. As ações feitas, sem uma intenção reta, são vítimas sem substância, que Deus rejeita. Nas oferendas que se lhe apresentam, diz Salviano, não é o valor da coisa que ele aprecia, mas a afeição do coração68. Com razão está escrito do nosso Salvador: Ele fez bem todas as coisas69. De fato, em tudo quanto fez, só procurou o beneplácito de seu eterno Pai, como ele próprio declarou70.

Mas, ai! Poucas obras são plenamente agradáveis a Deus, porque poucas há que nós façamos sem algum desejo da nossa própria glória!71 No dia do juízo, quantos padres dirão a Jesus Cristo: Senhor, não é verdade que em vosso nome profetizamos, em vosso nome expulsamos os demônios, e em vosso nome fizemos muitas coisas prodigiosas!72 Senhor, nós pregamos, celebramos missas, ouvimos confissões, convertemos almas, assistimos a moribundos! — Mas o Senhor lhes dirá: Retirai-vos; nunca vos conheci como ministros meus, porque não foi por mim que trabalhastes; foi antes pela vossa glória, pelo vosso interesse!

Tal a razão por que Jesus Cristo nos adverte que conservemos em segredo as boas obras que fizermos73. Segundo Sto. Agostinho, é para que a vaidade não venha destruir o que temos feito por Deus74. Tem Deus horror ao roubo no holocausto75. Roubo quer aqui dizer a procura da própria glória, ou do interesse nas obras de Deus. Quem ama a Deus verdadeiramente, diz S.Bernardo, merece bem a recompensa, mas não a procura; a recompensa única que ambiciona é agradar a Deus, a quem ama. Numa palavra, ajunta ele, o amor verdadeiro contenta-se com ser amor, com amar, e nada quer76.Por que sinais se poderá reconhecer se um padre obra com intenção reta? — Ei-los:

1.º - Se ama as obras que mais lhe custam e menos brilho têm.
2.º - Se fica em paz, quando os seus projetos fracassam; porque o que trabalha por Deus consegue sempre o seu fim, que é agradar a Deus. Se não se perturba, quando se vê mal sucedido, mostra que só trabalha com os olhos em Deus.
3.º - Se se alegra com o bem que os outros fazem, como se fosse ele mesmo, e vê sem inveja que outros abracem empresas como a sua, desejando que todas sejam para glória de Deus e dizendo com Moisés: Prouvera a Deus que todo o povo fosse composto de profetas77.
O padre que faz tudo por Deus tem dias cheios78. Não acontece o mesmo com os que trabalham por interesse pessoa; desses se diz que nem chegam a meio nos seus dias79. Nesse sentido, segundo Sto. Euquério de Lion, devemos dizer que não temos vivido senão os dias, em que temos renunciado à nossa própria vontade80. Uma pequena lembrança que nos é dada por amizade, dizia Sêneca, penhora-nos mais do que ricos presentes dados por interesse81. Certamente fica o Senhor mais satisfeito com uma pequena obra feita em seu beneplácito, que com todas as ações mais brilhantes efetuadas por gosto próprio. Da pobre viúva que no gazofilácio do templo lançara apenas duas pequenas moedas, disse o Senhor que tinha dado mais que todos os outros82; o que S. Cipriano comenta assim: Considerava o Senhor, não o valor da moeda, mas o amor com que era oferecida83.

Ao ver passar uma dama luxuosamente vestida, começou o abade Pambon a derramar lágrimas; e, perguntado porque chorava, respondeu: “Ai!Quanto mais faz esta mulher para agradar aos homens, do que eu para agradar a Deus!” Lê-se na Vida do Rei S. Luís que em certa ocasião se vira uma mulher, que numa mão levava uma tocha acesa e na outra um vaso cheio de água. Um padre dominicano, que exercia o seu ministério na corte do piedoso monarca, aproximou-se dela e perguntou-lhe o que queria fazer; ela respondeu: “Com o fogo quero queimar o Paraíso, e com a água apagar o inferno, para que Deus seja amado só porque o merece”. Ó! Feliz padre que não procura em tudo senão agradar a Deus! É imitar as almas santas do Paraíso, que, como diz o Doutor angélico, sentem mais alegria da felicidade de Deus, que da sua própria, porque amam mais a Deus do que se amam a si mesmos 84.

3. Paciência nas dores e humilhações

Em terceiro lugar, o padre que se quer santificar, deve estar pronto a sofrer em paz por Deus todos os males desta vida: pobreza, humilhações, doenças e morte. O Apóstolo diz: Glorificai e trazei a Deus no vosso corpo 85.Gilberto comenta assim estas palavras: Quer S. Paulo que tragamos Jesus Cristo de bom grado e com alegria; quem o traz descontente ou com lamentações, não o traz, antes o arrasta como que à força 86. — Não é a receber consolações que uma alma prova a Deus o seu amor; é abraçando os desprezos e as penas. Foi o nosso próprio Salvador que o disse, quando caminhou ao encontro dos soldados, que vinham prendê-lo para o conduzirem à morte: Para que o mundo saiba que amo meu Pai... levantai-vos, vamonos daqui87. Também, a exemplo de Jesus Cristo, iam os santos com alegria ao encontro dos tormentos e da morte. Tendo S. José de Leonissa de sofrer certo dia uma operação muito dolorosa, queriam ligá-lo com cordas, mas ele tomando o seu crucifixo exclamou: “Como! Cordas, cordas!...À! eis os meus laços: o meu Senhor, atravessado de cravos por meu amor, me prende e obriga a suportar todas as penas por seu amor”. Sofreu assim a operação sem se lamentar. Quem poderia, dizia Santa Teresa, considerar o Salvador coberto de chagas, aflito e perseguido, sem aceitar como ele os sofrimentos, ou até desejá-los?88” E S. Bernardo: Para quem ama a Jesus crucificado, nada há mais caro que os desprezos e as penas 89.

O Apóstolo diz — dum modo especial para nós padres — que é pela paciência que devemos fazer-nos reconhecer como verdadeiros ministros de Jesus Cristo: Mostremos que somos ministros de Deus pela nossa paciência nas tribulações, nas necessidades, nas angústias... nos trabalhos90. E Tomás de Kempis faz esta reflexão: No dia do juízo, não teremos que prestar contas do que lemos, mas do que fizemos91. Muitas coisas sabem os homens de ciência, mas não sabem ver quanto a sua falta de paciência os prejudica 92.Que aproveita a ciência sem a caridade. Ainda que eu conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, diz S. Paulo, sem a caridade nada sou. E ajunta: a caridade sofre tudo93. Todo aquele que se quer santificar, deve ser perseguido 94.Foi o que o nosso Salvador declarou: Perseguiram-me a mim, também vos perseguirão a vós95. A vida dos santos, escreveu Sto. Hilário, não podia ser tranqüila; é necessário que seja enredada de contradições e provada pela paciência96. Aflige o Senhor os que admite no número dos seus filhos97.— Aqueles a quem amo, repreendo-os e castigo-os98. E porquê? Porque a prova do amor e da perfeita fidelidade duma alma é a paciência99. A Tobias disse o arcanjo Rafael: Era necessário que fosses provado pela tentação, porque eras agradável a Deus 100.

Que importa, diz Sto. Agostinho, que por vezes soframos o castigo por uma falta que não cometemos? Devemos aceitar essa mortificação, ao menos para expiarmos outras culpas de que somos réus101. Estejamos persuadidos do aviso que nos dá Judith: que se Deus nos castiga neste mundo, não é para nos perder, mas para nos corrigir e preservar do castigo eterno102.Desde que, pelos nossos pecados passados, somos devedores à Justiça divina, importa-nos suportar com paciência as tribulações que nos advierem, e dizer até ao Senhor, com Sto. Agostinho: Queimai, cortai, não me poupeis neste mundo, para me poupardes na eternidade103.

Jó dizia: Se temos recebido das mãos de Deus os bens, porque não havemos de receber os males?104 Falava assim, porque sabia bem que, nos males, isto é, nas tribulações desta vida, levadas com paciência, há muito mais a ganhar, que nas vantagens temporais. Demais, as penas da vida presente, têm de se sofrer ou por vontade ou por força: sofrendo-as com paciência, adquirem-se merecimentos para o Céu; levando-as contra vontade, não se sofre menos e trabalha-se para o inferno. Os mesmos golpes, diz Sto.Agostinho, que servem para fazer bons vasos de glória, reduzem os maus a cinza105. Falando do bom e do mau ladrão, diz o santo Doutor: Unidos no mesmo suplício, estavam separados pelo modo de sofrer106. Ambos sofriam a morte, mas um, aceitando-a com resignação, salvou-se; o outro ao sofrê-la blasfemou e condenou-se. — Na visão que o apóstolo S. João teve da felicidade dos eleitos, viu ele que os que gozavam assim da vista de Deus não vinham do meio das delícias da terra, mas do seio das tribulações: Vieram de grande tribulação... por isso estão diante do trono de Deus107.

4. Conformidade com a vontade de Deus

Enfim, quem deseja santificar-se, só deve querer o que Deus quiser.Todo o nosso bem consiste em nos unirmos à vontade de Deus108. Dizia Sta.Teresa: “O que é preciso procurar no exercício da oração, é conformar a própria vontade com a de Deus; e deve-se estar bem persuadido de que é nisso que consiste a mais alta perfeição”109. Tudo quanto o Senhor pede de nós é que lhe entreguemos o nosso coração, ou a nossa vontade110. E no dizer de Sto. Anselmo, é como que mendigando que Deus nos pede o nosso coração; ainda que repelido, não desiste, redobra de instâncias: “Não sois vós, Deus meu, que tantas vezes bateis à nossa porta, mendigando e dizendo: Meu filho, dá-me o teu coração; e ainda que muitas vezes vo-lo recusemos, sempre voltais de novo!”111

Nenhuma coisa, pois, podemos oferecer a Deus, que lhe seja mais agradável que a nossa vontade, dizendo-lhe com o Apóstolo: Senhor, que quereis que eu faça?112 Daqui este pensamento de Sto. Agostinho: Nada podemos fazer mais agradável a Deus do que dizer-lhe: Tomai posse de nós113. Falando de Davi, disse o Senhor, que tinha encontrado um homem segundo o seu coração. E porquê? Porque Davi estava disposto a fazer por inteiro as divinas vontades114. Cuidemos pois de dizer sempre com Davi: Ensinai-me, Senhor, a fazer em tudo a vossa vontade115. Neste intuito nos devemos oferecer muitas vezes a Deus, repetindo com o Rei-Profeta: O meu coração está preparado, ó Deus, o meu coração está preparado116.

Importa porém observar que o mérito para nós consiste em nos conformarmos com a vontade de Deus, não nas coisas que nos agradam, mas nas que repugnam ao nosso amor próprio; é esta a pedra de toque do nosso amor para com Deus. O venerável João de Ávila dizia: “Um Deus seja louvado!nas contrariedades, vale mais que mil ações de graças, quando as coisas nos sorriem”. Estejamos bem persuadidos, diz Santo Agostinho, de que tudo quanto cá nos acontecer contra a nossa vontade, nos acontece por vontade de Deus117. Tal é o sentido das palavras do Eclesiástico: Os bens e os males, a vida e a morte, a pobreza e a riqueza vem de Deus118. Assim, quando recebemos uma injúria, não quer Deus o pecado de quem no-la faz, mas quer que soframos essa ofensa. Quando pois nos despojam da nossa reputação ou dos nossos bens, devemos dizer com Jó: O Senhor me deu, o Senhor me tirou; fez-se como aprouve ao Senhor; seja bendito o nome do Senhor!119

Quem ama a vontade de Deus, goza duma paz constante, mesmo neste mundo. Ponde a vossa alegria no Senhor, nos diz Davi, e ele satisfará os desejos do vosso coração120. Como o nosso coração foi criado para um bem infinito, nem todas as criaturas juntas, por isso que são finitas e limitadas, poderiam satisfazê-lo. Podemos possuir muitos bens, se não possuirmos a Deus, o nosso coração não se aquietará e sempre desejará mais. Desde que encontra a Deus, encontra tudo, e Deus satisfaz todos os seus desejos. É a palavra do Salvador à Samaritana: Quem beber da água que eu lhe der, não terá mais sede121. E ainda noutro lugar: Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão saciados122. Por isso quem ama a Deus, nunca se deixa cair no desalento, aconteça o que acontecer123.

É que o justo sabe que tudo quando acontece é efeito da vontade de Deus. Quando os santos são humilhados, diz Salviano, têm o que desejam: se sofrem a pobreza, alegram-se por serem pobres; só querem o que Deus quer, e assim gozam duma paz inalterável 124. É-nos permitido, nas angústias, pedir ao Senhor que nos livre delas, como o fez Jesus Cristo no jardim das Oliveiras: Meu Pai, se é possível, afaste-se de mim este cálice; mas é necessário ajuntar logo com o divino Mestre: Contudo, não se faça a minha vontade, mas sim a vossa 125.

É certo que Deus quer, é o que há de melhor para nós. A um padre enfermo escrevia o venerável João de Ávila: “Meu amigo, não vos detenhais a pensar no que faríeis em estado de saúde; contentai-vos com estar doente o tempo que aprouver a Deus. Se quereis fazer a vontade de Deus, que vos importa estar de saúde ou doente?”126. É preciso que nos resignemos a tudo, até a ser assaltados de tentações, que nos excitem a ofender a Deus. Pedia o Apóstolo ao Senhor que o livrasse duma multidão de tentações impuras que o atormentavam: Tenho estado entregue aos insultos do demônio da minha carne... em razão disso, por três vezes pedi ao Senhor que me livrasse dele. E que lhe respondeu Deus? A minha graça te basta127. Estejamos certos de que Deus, não só deseja, mas toma cuidado do nosso bem128. Visto pois que tanto se interessa por nós, entreguemo-nos nas suas mãos 129.

E na morte, ó! que felicidade para uma alma encontrar-se então em perfeita conformidade com a vontade de Deus! Quem deseja porém morrer neste ditoso estado, deve primeiro durante a sua vida conformar-se em tudo com a vontade divina. Procuremos pois acostumar-nos à resignação em tudo quanto nos contrariar, e a repetir sempre esta grande palavra dos santos, que Jesus Cristo nos ensinou: Seja feita a vossa vontade! ou a dizer como o nosso Salvador: Seja assim, Pai, visto que assim vos aprouve130. Ofereçamonos também continuamente a Deus, dizendo-lhe com a divina Mãe: Senhor! eis aqui o vosso servo131: disponde de mim e de tudo quanto me pertence como vos aprouver; sou todo vosso. — Santa Teresa oferecia-se a Deus cinqüenta vezes por dia. Digamos-lhe ainda com o Apóstolo: Senhor, que quereis que eu faça? Meu Deus, fazei-me conhecer o que quereis de mim: estou pronto para tudo.

Grandes coisas fizeram os santos, para cumprirem a vontade de Deus: uns refugiaram-se nos desertos, outros encerram-se nos claustros; outros sacrificaram a sua vida no meio dos tormentos. Nós que somos padres e temos maior obrigação de nos sacrificarmos, unamo-nos também à vontade de Deus, para chegarmos à santidade. Não nos desanimemos com as nossas faltas passadas; recordemos as palavras de S. Bernardo acima citadas: “Não examina Deus o que o homem fez no passado, mas o que quer ser de futuro”. Uma vontade firme, com o auxílio de Deus, triunfa de tudo.Oremos sempre: quem pede recebe132. Conseguiremos quando pedirmos pela oração133. Amemos dum modo particular e não cessemos de repetir a oração de Sto. Inácio: Senhor! dai-me o vosso amor e a vossa graça; nada mais desejo134. Mas, este dom do amor divino é necessário que o peçamos continuamente e com instância, como o pedia Sto. Agostinho135 nesta oração: Ouvi-me, ouvi-me, meu Deus, meu Rei, meu Pai, vós que sois a minha honra, a minha salvação, a minha luz, a minha vida! ouvi-me, ouvi-me, ouvi-me. Ao presente só a vós amo, só a vós procuro. Curai e abri os meus olhos. Recebei um escravo que tinha fugido da vossa casa; já bastante servi aos vossos inimigos. Fazei que me torne um puro e perfeito amante da vossa sabedoria.

E quanto pedirmos graças — ajuntarei com S. Bernardo — peçamo-las sempre por intercessão de Maria, que obtém para os seus servos tudo quanto pede a Deus. Procuremos a graça, e procuremo-la por Maria; porque ela encontra o que procura, e não pode sofrer nenhuma recusa 136.
 
Notas:
1. Sacerdos dici potes, esse non potes (Serm. 41).
2. Verus minister altaris, Deo, non sibi, natus est (In Ps. 118. s. 8).
3. Incensum enim Domini et panes Dei sui offerent, et ideo sancti erunt (Levit. 21, 6).
4. Mens consecrata Deo (In Lev. hom. 15).
5. Cui Deus portio est, nihil debet curare, nisi Deum (De Esau. c. 2).
6. Nemo militans Deo, implicat se negotiis secularibus, ut ei placeat, cui se probavit (2. Tim. 2,4).
7. Sequere me, et dimitte mortuos sepelire mortuos suos (Matth. 8, 22).
8. Hic paterni funeris sepultura prohibetur, ut intelligas humana posthabenda divinis (In Luc.c. 9).
9. In terra eorum nihil possidebitis, nec habebitis partem inter eos; ego pars et hereditas tua in medio filiorum Israel (Num. 18, 20).
10. Magna dignatio Domini, si eam, sacerdos cognoscas: quod velit Deus esse pars tua.Quod non habebis, si Deum habeas?
11. Eligant sibi alii partes, quibus fruantur, terrenas et temporales; portio sanctorum, Dominus aeternus est. Bibant alii mortiferas voluptates; portio calicis mei, Dominus est (Enarr. in Ps.15).
12. Si non amavero te, quid amabo? (Medit. 13).
13. Unum est necessarium (Luc. 10, 42).
14. Quid enim mihi est in coelo, et a te quid volui super terram?... Deus cordis mei, et pars mea Deus in aeternum (Ps. 72, 25).
15. Majorem dilectionem nemo habet, ut animam suam ponat quis pro amicis suis (Jo 15,13).
16. Dicebant excessum ejus, quem completurus erat in Jerusalem (Luc. 9, 31).
17. Quis dignus erat ut Filius Dei mortem pro eo pateretur (De Mensura Cruc. c. 2).
18. Pro omnibus mortuus est Christus (2. Cor. 5, 15).
19. Praedicamus Christum crucifixum, Judaeis quidem scandalum, Gentibus autem stultitiam (1. Cor. 1, 23).
20. Vidimus sapientiam amoris nimietate infatuatam (Serm. de Nat. D.).
21. Charitas enim Christi urget nos (2. Cor. 5, 14).
22. Etsi Christus pro omnibus mortuus est, pro nobis tamen specialiter passus est. — Plus debet, qui plus accepit; reddamus ergo amorem pro sanguinis pretio (In Luc. c. 7).
23. Haurietis aquas in gaudio de fontibus Salvatoris (Is 12, 3).
24. Non enim judicavi me scire aliquid inter vos, nisi Jesum Christum, et hunc cricifixum (1.Cor. 2, 2).
25. Et si... noverim... omnem scientiam, charitatem autem non habuero nihil sum (1. Cor. 13,2).
26. Omnia detrimentum feci, et arbitror ut stercora, ut Christum lucrifaciam (Phil. 3, 8).
27. Ego Paulus, vinctus Christi Jesu (Eph. 3, 1).
28. Adolescentularum non est numerus; una est columba mea, perfecta mea (Cant. 6, 7).
29. Disce a Christo quemadmodum diligas Christum (In Cant. s. 20).
30. Parvulus enim natus est nobis, et filius datus est nobis (Is. 9, 6).
31. Dilexit nos, et tradidit semetipsum pro nobis (Eph. 5, 2).
32. Integrum te da illi, quia ille, ut te salvaret, integrum se tradidit (De Modo bene viv. c. 8).
33. Nihil de vobis retineatis vobis, ut totos vos recipiat, qui se vobis exhibet totum.
34. Pro omnibus mortuus est Christus, ut et qui vivunt, jam non sibi vivant, sed ei qui pro ipsis mortuus est (2. Cor. 5, 15).
35. Moriar mihi, ut tu solus in me vivas! — Minus te amat, qui tecum aliquid amat, quod non propter te amat (Cant. l. 10. c. 29).
36. In Cant. s. 40.
37. Initium enim illius verissima est disciplinae concupiscentiae (Sap. 6,18).
38. Justorum autem semita, quasi lux splendens, procedit et crescit usque ad perfectam diem (Prov. 4, 18).
39. Via impiorum tenebrosa; nesciunt ubi corruant (Prov. 4, 19).
40. Non progredi, reverti est (Ep. 17. E. B. app.).
41. Past. p. 3. c. 1.
42. Non vis proficere; vis ergo deficere.
43. Hoc ergo vis, quod esse non potest (Epist. 254).
44. Nunquam in eodem statu permanet (Job. 14, 2).
45. Sic currite, ut comprehendatis (1. Cor. 9, 24).
46. Beati, qui esuriunt et sitiunt justitiam (Matth. 5, 6).
47. Fulgebunt justi, et, tamquam scintillae in arundineto, discurrent (Sap. 3, 7).
48. Si vis perfectus esse, vade... (Matth. 19, 21).
49. Vult et non vult piger... Desideria occidunt pigrum (Prov. 13, 4. — 21, 25)
50. Invenitur ab his qui quaerunt illam (Sap. 6, 13).
51. Si quaeritis, quaerite (Is. 21, 12).
52. Non pedum passibus, sed desideriis quaeritur Deus (In Cont. s. 84).
53. Vie, ch. 13.
54. Dilata os tuum, et implebo illud (Ps. 80, 11).
55. Consummatus in brevi, explevit tempora multa (Sap. 4, 13).
56. Vires subministrat, poenam exhibet leviorem (De Disc. mon. c. 6).
57. Magna victoriae pars est vincendi desiderium (De Canto Conn. . c. 3).
58. Laboranti augusta via est, amanti lata (In Ps. 30. en. 2).
59. Viam mandatorum tuorum cucurri, cum dilatisti cor meum (Ps. 118, 32).
60. Deus non minus sancto desiderio laetatur, quam si anima amore liquefiat.
61. Amicus Dei, si voluero, ecce nunc fio (Conf. l. 8. c. 6).
62. Nullum omnino praesentiae ejus certius testimonium est, quam desiderium gratiae amplioris (De S. Andr. s. 2).
63. Non attendit Deus quid fecerit homo, sed quid velit esse.
64. Si oculus tuus fuerit simplex, totum corpus tuum lucidum erit (Matth. 6, 22).
65. Bonum opus intentio facit (In Ps. 21, en. 2).
66. Homo enim videt ea quae parent; Dominus autem intuetur cor (1. Reg. 16, 7).
67. Holocausta medullata offeram tibi (Ps. 65, 15).
68. Oblata Deo, non pretio, sed affectu placent (Adv. Avarit. l. 1).
69. Bene omnia fecit (Marc. 7, 37).
70. Non quaero voluntatem meam, sed voluntatem ejus qui misit me (Jo. 5, 30).
71. Rarum est, fidelem animam inveniri, ut nihil ob gloriae cupiditatem faciat (Dial. adv.Luciferianos).
72. Domine, nonne in nomine tuo prophetavimus, et in nomine tuo daemonia ejecimus, et in nomine tuo virtudes multas fecimus? — Nunquam novi vos; discedite a me, qui operamini iniquitatem (Matth. 7, 22).
73. Nesciat sinistra tua quid faciat dextera tua (Matth. 6, 3).
74. Quod facit amor Dei, non corrumpat vanitas (Serm. 63. E. B. app.).
75. Ego Dominus... odio habens rapinam in holocausto (Is. 61, 8).
76. Verus amor praemium non requirit, sed meretur; habet praemium, sed id quod amatur. — Verus amor seipso contentus est (De dil. Deo c. 7).
77. Quis tribuat ut omnis populus prophetet! (Num. 11, 29).
78. Et dies pleni invenientur in eis (Ps. 72, 10).
79. Dolosi non dimidiabunt dies suos (Ps. 54, 24).
80. Illum tantum diem vixisse te computa, in quo voluntates proprias abnegasti (Ad Monach. hom. 9).
81. Magis nos obligat, qui exiguum dedit libenter, quam qui non voluntatem tantum juvandi habuit, sed cupiditatem (De Benefic. l. 1. c. 7).
82. Vidua haec pauper plus omnibus misit (Marc. 12, 43).
83. Considerans, no quantum, sed ex quanto dedisset (De Ope et Eleem.).
84. Anima potius vult ipsum esse beatum, quam seipsam esse beatam (De Beatit. c. 7).
85. Glorificat et portate Deum in corpore vestro (1. Cor. 6, 20).
86. Portari vult a nobis Christum, sed gloriose, non cum taedio, non cum murmure; portari, non trahi; trahenti enim onerosus est Christus (In Cant. s. 17).
87. Ut cognoscat mundus quia diligo Patrem... surgite, eamus hinc (Jo. 14, 31).
88. Vie ch. 26.
89. Grata ignominia crucis ei qui Crucifixo ingratus non est (In Cant. s. 25).
90. Exhibeamus nosmetipsos sicut Dei ministros in multa patientia in tribulationibus, in necessitatibus, in angustiis... in laboribus... (2. Cor. 6, 4).
91. Adveniente die judicii, non quaeretur quid legimus (si mala non legimus), sed quid fecimus (De Imit. l. 1. c. 3).
92. Habentes oculos, non videtis (Jer. 5, 21).
93. Et si... noverim mysteria omnia et omnem scientiam, charitatem autem non habuero, nihil sum. — Charitas... omnia suffert (1. Cor. 13, 2).
94. Et omnes qui pie volunt vivere in Christo Jesu, persecutionem patientur (2. Tim. 3, 12).
95. Si me persecuti sunt, et vos persequentur (Jo. 15, 20).
96. Non otiosa aetas religiosi viri est, neque quietam exigit vitam; impugnatur saepe, et haec sunt quae fidem probant (In Ps. 128).
97. Quem enim diligit Dominus, castigat; flagellat autem omnem filium quem recipit (Hebr. 12,6).
98. Ego, quos amo, arguo et castigo (Apoc. 3, 19).
99. Patientia autem opus perfectum habet (Jac. 1, 4).
100. Quia acceptus eras Deo, necesse fuit ut tentatio probaret te (Tob. 12, 13).
101. Etsi non habemus peccatum quod nobis objicit inimicus, habemus tamen alterum, quod digne in nobis flagelletur (In Ps. 68, s. 1).
102. Ad emendationem, et non ad perditionem nostram, evenisse credamus (Judith 8, 27).
103. Hic ure, hic seca; hic non parcas, ut in aeternum parcas.
104. Si bona suscepimus de manu Dei, mala quare non suscipiamus? (Job 2, 10).
105. Una eademque tunsio, bonos producit ad gloriam, malos redigit in favillam (Serm. 52. E. B. app.).
106. Quos passio jungebat, causa separabat (Epist. 185. E. B.).
107. Hi sunt qui venerunt de tribulatione magna... ideo sunt ante thronum Dei (Apoc. 7, 14).
108. Et vita in voluntate ejus (Ps. 29, 6).
109. Chât, int. d. 2. ch. 1.
110. Praebe, fili mi, cor tuum mihi (Prov. 23, 26).
111. Nonne tu es Deus meus, qui tam crebro pulsas et mendicas ad ostium nostrum, dicens: Praebe, fili mi, cor tuum mihi? — imo, et saepe repulsus, te iterum ingeris! (De Mens. cruc. c.5).
112. Domine, quid me vis facere? (Act. 9, 6).
113. Nihil gratius Deo possumus offerre, quam ut dicamus ei Posside nos (In Ps. 131).
114. Inveni David, filium Jesse, virum secundum cor meum, qui faciet omnes voluntates meas (Act. 13, 22).
115. Doce me facere voluntatem tuam (Ps. 142, 9).
116. Paratum cor meum, Deus, paratum cor meum (Ps. 56, 8).
117. Quidquid accidit contra voluntatem nostram, noveritis non accidere nisi de voluntate Dei (In Ps. 148).
118. Bona et mala, vita et mors, paupertas et honestas, a Deo sunt (Eccli. 11, 14).
119. Dominus dedit, Dominus abstulit; sicut Domino placuit, ita factum est; sit nomen Domini benedictum (Job. 1, 21).
120. Delectare in Domino, et dabit tibi petitiones cordis tui (Ps. 36, 1).
121. Qui autem biberit ex aqua quam ego dabo ei, non sitiet in aeternum (Jo. 4, 13).
122. Beati qui esuriunt et sitiunt justitiam, quoniam ipsi saturabuntur (Matth. 5, 6).
123. Non contristabit justum, quidquid ei acciderit (Prov. 12, 21).
124. Humiles sunt, hoc volunt; pauperes sunt, pauperie delectantur; itaque beati dicendi sunt (De Gub. Dei, l. 1).
125. Pater mi, si possibile est, transeat a me calix iste; — Verumtamen, non sicut ego volo, sed sicut tu (Matth. 26, 39).
126. Partie 2. Ep. 54.
127. Datus est mihi stimulus carnis meae... propter quod ter Dominum rogavi, ut discederet a me. — Sufficit tibi gratia mea (2. Cor. 12, 7).
128. Dominus sollicitus est mei (Ps. 39, 18).
129. Omnem sollicitudinem vestram projicientes in eum, quoniam ipsi cura est de vobis (1. Petr. 5, 7).
130. Ita, Pater! quoniam sic fuit placitum ante te (Matth. 11, 26).
131. Ecce ancilla Domini.
132. Omnis enin qui petit, accipit (Matth. 7, 8).
133. Quodcumque volueritis, petetis, et fiet vobis (Jo 15, 7).
134. Amorem tui solum cum gratia tua mihi dones, et dives sum satis.
135. Exaudi, exaudi, exaudi me, Deus meus, Rex meus, Pater meus, Honor meus, Salus mea, Lux mea, Vita mea! exaudi, exaudi, exaudi me. Jam te solum amo, te solum quaero.Sana et aperi oculos meos. Recipe fugitivum tuum; satis inimicis tuis servierim. Jubeas me purum perfectumque amatorem esse sapientiae tuae (Solil. l. 1. c. 1).
136. Quaeramus gratiam, et per Mariam quaeramus; quia, quod quaerit, invenit, et frustrari non potest (De Aquaed).


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terça-feira, 21 de agosto de 2012

A Selva - NONA INSTRUÇÃO - Sobre a mortificação exterior

 Santo Afonso Maria de Ligório
(27/09/1696 - 02/08/1787)
Bispo de Santa Àgata
Confessor
Doutor Zelosíssimo da Igreja
Fundador dos Missionários Redentoristas

A Selva


SEGUNDA PARTE - MATERIAIS PARA AS INSTRUÇÕES
NONA INSTRUÇÃO


Sobre a mortificação exterior


I - Necessidade da mortificação exterior

Ensina S. Gregório de Nazianzo que ninguém é digno de ser ministro de Deus e de oferecer o sacrifício do altar, se não começar por se sacrifica a Deus por completo1. Tal é também a linguagem de Sto. Ambrósio: É verdadeiramente agradável a Deus o sacrifício, quando começamos por nos oferecermos como hóstias, para depois sermos dignos de apresentar as nossas oferendas2. E o próprio Redentor disse: Se o grão de trigo não cair na terra e nela não morrer, permanecerá só; mas, se morrer, produzirá muito fruto 3.Assim, quem quer produzir frutos de vida eterna, deve morrer a si próprio, isto é, nada desejar para sua própria satisfação, e aceitar tudo quanto mortifique a carne4. Quem está morto para si mesmo, diz Lansperge, deve viver neste mundo como se não visse nem ouvisse nada, como se nada lhe pudesse causar dor ou prazer, senão Deus.
Quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas quem a perder por mim, tornará a readquiri-la5. Ó ditosa perda, exclama Sto. Hilário, perder todos os bens deste mundo, e até a vida para seguir a Jesus Cristo e alcançar a vida eterna!6 No sentir de S. Bernardo, se outra razão não tivéramos para nos darmos inteiramente a Deus, deveria bastar-nos o saber que ele se deu todo a nós7. Ora, para nos darmos por completo a Deus, temos que desapegarnos de todas as afeições terrenas. Quanto menos desejarmos os bens da terra, diz Sto. Agostinho, mais amaremos a Deus; ama-o perfeitamente quem nada deseja8.

Na instrução procedente, falamos da mortificação interior; falaremos agora da exterior que consiste na mortificação dos sentidos. Também esta é necessária, porque, em conseqüência do pecado, temos conosco uma carne inimiga, que combate contra a razão. Era dessa luta que o Apóstolo9 se lamentava: Sinto nos meus membros outra lei contrária à lei do meu espírito; quer dizer, segundo Santo Tomás: a concupiscência da carne, que contraria a razão10. Se a alma não dominar o corpo, será dominada por ele. Deu-nos Deus os sentidos para que nos sirvamos deles, não segundo os nossos caprichos, mas segundo a sua vontade. Devemos pois mortificar os nossos apetites, que são contrários à lei de Deus.

Os que pertencem a Jesus Cristo, têm crucificado a sua carne com os seus vícios e concupiscências11. Tal a razão por que os santos se têm dado com tanto ardor a macerar a sua carne. S. Pedro de Alcântara tomou a resolução de jamais conceder ao seu corpo satisfação alguma, e cumpriu-a até à morte. S. Bernardo de tal modo, maltratava o seu, que lhe pediu perdão ao expirar. “É um erro pensar, dizia Sta. Teresa, que Deus admita na sua amizade pessoas que procuram as suas comodidades 12. — As almas que amam verdadeiramente a Deus, não sabem pedir-lhe descanso13”. E segundo Sto.Ambrósio, quem não renuncia à satisfação do seu corpo, não pode agradar a Deus14. Quem sujeita o espírito à carne, diz Sto. Agostinho, é um monstro que caminha com a cabeça para baixo e os pés para cima15. Nascemos para coisas mais altas, do que para sermos escravos da nossa carne; era16 Sêneca, um pagão, que assim falava. Quanta mais razão temos nós para falar esta linguagem, nós que, alumiados pela fé, sabemos que fomos criados para gozar de Deus eternamente! S. Gregório diz que transigir com os apetites da carne, outra coisa não é que alimentar inimigos17.

Santo Ambrósio deplora a desgraça de Salomão, que teve a glória de edificar o templo de Deus, mas melhor tinha feito se conservasse para Deus o templo do seu corpo; porque deixou perder o seu corpo, a sua alma e o seu Deus, para contentar as suas inclinações18. Devemos tratar o nosso corpo como um cavalo fogoso, ao qual nunca se afrouxa o freio. De mais, segundo S. Bernardo, devemos opor-nos aos apetites do nosso corpo, como o médico aos desejos do doente, quando este lhe pede o que não convém, e recusa fazer o que lhe é útil para a saúde. Não seria cruel o médico se, por condescendência com o doente, lhe permitisse arriscar a vida? Do mesmo modo, não é lisonjeando a nossa carne que temos caridade com ela; entendamos bem que nunca fomos tão cruéis para conosco próprios como quando, por um momento de prazer, dado aos sentidos, condenamos a nossa alma a um suplício eterno; é assim que fala S. Bernardo19. Numa palavra, é necessário que mudemos de gostos e pratiquemos o que N. Senhor dizia um dia a S.Francisco de Assis: “Se me desejas, toma as coisas amargas por doces, e as doces por amargas”.


Vejamos os frutos da mortificação exterior.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

A Selva - OITAVA INSTRUÇÃO - Sobre a mortificação, e especialmente sobre a mortificação interior

 Santo Afonso Maria de Ligório
(27/09/1696 - 02/08/1787)
Bispo de Santa Àgata
Confessor
Doutor Zelosíssimo da Igreja
Fundador dos Missionários Redentoristas

A Selva



SEGUNDA PARTE - MATERIAIS PARA AS INSTRUÇÕES
OITAVA INSTRUÇÃO


Sobre a mortificação, e especialmente sobre a mortificação interior


I - Necessidade da mortificação em geral

Deus criou o homem reto 1 e justo, de modo que a carne obedecia sem repugnância ao espírito e o espírito a Deus. Sobreveio o pecado, e transtornou esta bela ordem. Desde esse momento, começou a vida do homem a ser uma guerra contínua: Porque a carne tem apetites contrários ao espírito, e o espírito tem desejos contrários à carne 2. Era o que arrancava gemidos ao Apóstolo: Sinto nos meus membros uma outra lei, que está em oposição com a lei do meu espírito, e me sujeita à lei do pecado3. Donde deriva que há no homem duas vidas: a dos anjos que só aspiram a fazer a vontade de Deus, e a dos irracionais, que só tendem a satisfazer os seus apetites. Se o homem cuida de fazer a vontade de Deus, torna-se anjo; se procura lisonjear os sentidos, brutaliza-se. Por isso o Senhor incumbiu a Jeremias esta missão: Eu te estabeleci para que arranques e destruas, para que edifiques e plantes4. É o que temos a praticar: devemos plantar em nós a virtudes; mas é necessário que primeiro arranquemos as ervas más. Para isso precisamos de ter sempre na mão a foice da mortificação, para cortar os apetites desordenados, que as raízes corrompidas da concupiscência, sem cessar fazem nascer em nós. Sem isso, a nossa alma se tornará um matagal de vícios.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

A Selva - SÉTIMA INSTRUÇÃO - Sobre a doçura

           Santo Afonso Maria de Ligório
(27/09/1696 - 02/08/1787)
Bispo de Santa Àgata
Confessor
Doutor Zelosíssimo da Igreja
Fundador dos Missionários Redentoristas

A Selva



SEGUNDA PARTE - MATERIAIS PARA AS INSTRUÇÕES
SÉTIMA INSTRUÇÃO


Sobre a doçura


Aprendei de mim que sou doce e humilde do coração

1. A doçura é chamada a virtude do Cordeiro, isto é, de Jesus Cristo, que sob este nome quis ser designado: Eis o Cordeiro de Deus2. Enviai, ó Senhor, o Cordeiro dominador da terra3. E foi predito que ele na sua paixão se comportaria como um cordeiro: Permanecerá mudo como um cordeiro diante do tosquiador, e não abrirá a boca4. Sou como um cordeiro cheio de mansidão, que levam a imolar no altar5. Assim a doçura foi a virtude predileta do nosso Salvador. Mostrou ele quanto era doce, beneficiando os ingratos, respondendo com bondade aos seus contraditores, e suportando sem se queixar os que o injuriavam e maltratavam:Quando o maldiziam, não amaldiçoava; quando o maltratavam, não fazia ameaças6. Tendo sido flagelado, coroado de espinhos, cuspido, pregado na cruz e coberto de opróbrios, tudo esqueceu, e orou pelos que o tinham tratado tão indignamente. É propondo-nos um tal exemplo que nos exorta sobretudo à prática da humildade e da doçura.
De todas as virtudes, diz S. João Crisóstomo, é a doçura que nos torna mais semelhantes a Deus7. Na verdade, é próprio de Deus tornar bem por mal, conforme a palavra do Redentor: Fazei bem aos que vos odeiam... para serdes verdadeiros filhos do vosso Pai que está nos céus, e faz nascer o sol sobre os bons e os maus8. E é o que ainda faz dizer a S. João Crisóstomo — que são apenas os homens doces, que Jesus Cristo apelida imitadores de Deus9.
Aos que são doces é prometido o Paraíso10. “A doçura, diz S. Francisco de Sales, é a flor da caridade”11. E o Eclesiástico declara que um coração doce e fiel faz as delícias do Senhor12. Os que são doces não sabe Deus repeli-los13. Sempre lhe são extremamente agradáveis as orações dos humildes e doces14.
Ora, a virtude da doçura consiste em duas coisas: 1.ª em reprimir os movimentos de cólera contra os que os provocam; 2.ª em suportar os desprezos.

I - É necessário reprimir a cólera

Diz Sto. Ambrósio que a cólera é uma paixão que se deve prevenir ou reprimir15. Quem se sente inclinado a este vício deve ser diligente em fugir às ocasiões; e, se tiver de encontrar-se nelas, deve estar na firme resolução de se calar, ou de responder com doçura, e prevenir-se com a oração, pedindo ao Senhor a força para resistir e conter-se. Alguns, para se desculparem, dizem que tal pessoal é insuportável, que ninguém a satisfaz... A virtude da doçura, observa S. João Crisóstomo, não consiste em usar de doçura com os doces; exige que se seja doce com os que não sabem o que é a doçura16. Em especial, quando o próximo está irritado, não há melhor meio para o acalmar, do que responder-lhe com doçura: Uma resposta doce quebrando a cólera17.
Assim como a água apaga o fogo, assim, diz S. João Crisóstomo, uma resposta doce abranda a cólera dum nosso irmão, por muito exasperado que ele esteja18. Isto está de acordo está de acordo com o dizer do Eclesiástico: A linguagem doce concilia muitos amigos, e pacifica os inimigos19. E o santo Doutor acrescenta: Nem o fogo se apaga com fogo, nem o furor com furor20.Mesmo com os pecadores mais pervertidos, obstinados e insolentes, é necessário que nós, os padres, usemos da máxima doçura possível, para os atrairmos a Deus. Não estais constituídos juízes de crimes, para castigardes, diz Hugo de S. Vitor, mas de enfermos para os curardes21.
Quando nos sentimos agitados por algum impulso de cólera, o único remédio é calarmo-nos e pedir ao Senhor que nos dê força para não respondermos.O melhor remédio para a cólera, diz Sêneca, é esperar22. De fato, se falarmos no fogo da paixão, o que dissermos nos parecerá justo, embora seja de todo o ponto injusto e censurável; porque a paixão é como um véu diante dos olhos; impede-nos de ver o alcance das nossas palavras, conforme o pensamento de S. Bernardo: O olho perturbado pela cólera vê claro23.
Por vezes nos parece justo, necessário até, reprimir a audácia dum insolvente, dum inferior, por exemplo, que nos falta ao respeito. Então, sem dúvida, rigorosamente falando, conviria entrar numa cólera moderada, como ensina o Doutor angélico24, mas seria necessário que isso se fizesse sem pecar, como diz Davi: Irai-vos, mas não pequeis25. Eis a dificuldade. É muito arriscado o estado de cólera: é como que montar um cavalo fogoso, que não obedece ao freio; não se sabe até onde ele nos levará. Por isso mesmo S.Francisco de Sales nos assegura que é sempre conveniente reprimir os movimentos da cólera, por mais justa que nos pareça a causa dela: “Mais vale, acrescenta ele, que digam de vós que nunca vos irais, do que dizerem que vos irais com justiça”26. E, segundo Sto. Agostinho27, desde que se deixa entrar a cólera na alma, com dificuldade se consegue lançá-la fora; por isso nos aconselha que de todo lhe fechemos a porta, logo que ela se apresente. De mais, se o repreendido vir que o seu superior está irado, pouco proveito colherá da correção, olhando-a antes como efeito da cólera que da caridade.Uma repreensão feita com doçura e rosto sereno é mais útil que mil censuras, por justas que sejam, em estado de arrebatamento.
De resto, não exige a virtude da doçura que, para usarmos de indulgência e não desagradarmos ao próximo, deixemos de repreender com severidade, quando é necessário; não seria isso virtude, antes uma falta, uma negligência indesculpável. Ali daquele, diz o profeta que reclina os pecadores em almofadas, para que adormeçam em paz num sono mortal!28 Esta complacência culpável, diz Sto. Agostinho, não é caridade nem doçura, mas negligência29.
Proceder assim é ser cruel para com essas pobres almas, que se perdem à falta de quem as avise da sua desgraça. Ao tempo de ser operado, observa S. Cipriano, queixa-se um doente do cirurgião; mas depois de curado dá-lhe os seus agradecimentos30. Quer pois a doçura que, quando o dever nos obriga a repreender o próximo, o façamos sempre com firmeza, sim, mas também com mansidão. Para chegarmos a este resultado, o Apóstolo nos previne de que, antes de repreendermos os outros, consideremos os nossos próprios defeitos, para concebermos pelo próximo toda a compaixão, que temos para conosco: Meus irmãos, se algum pecar, vós que sois espirituais repreendei-o com espírito de doçura, atendendo a vós mesmos, para não serdes tentados31. No dizer de Paulo de Blois, é uma coisa vergonhosa ver um superior a corrigir com ira e azedume32. Tão vil é a cólera, diz Sêneca, que até os rostos mais belos torna horríveis33.
Necessário é pois que neste ponto nos conformemos sempre com a máxima de S. Gregório: Que o amor nada tenha de mole; que o rigor não vá até exasperar o culpado; que a doçura seja indulgente, mas não ultrapasse os limites da convenitência34.Não devem os médicos, diz S. Basílio, irritar os doentes; o que devem é curar-lhes as doenças35. Conta Cassiano36 que um jovem religioso, assaltado por tentações violentas contra a castidade, foi ter com outro religioso de avançada idade, para que lhe prestasse algum auxílio; mas este, em vez de o ajudar e reanimar, mais o afligiu, fazendo-lhe censuras. Que aconteceu porém?O Senhor permitiu que esse velho de tal modo fosse atormentado pelo espírito impuro, que andasse pelo mosteiro a correr como um louco. O abade Sto. Apolônio, informado do seu procedimento indiscreto, disse-lhe então: “Fica sabendo, irmão meu, que Deus te permitiu esta prova, para que aprendas a ter compaixão dos outros”.
Quando pois virmos as fraquezas e quedas dos outros, longe de os invectivarmos com assomos de vaidade pessoal, devemos ajudá-los quanto possível e humilharmo-nos. De contrário, Deus permitirá que caiamos nas mesmas faltas que lhes censuramos. Sobre este assunto, refere ainda Cassiano que um abade chamado Macheta confessava ter caído miseravelmente em três faltas, que primeiro tinha condenado em seus irmãos. Razão por que Sto. Agostinho ensina que a correção sempre deve ser precedida, não de indignação, mas de compaixão para com o próximo37. E S. Gregório 38 ajunta que a consideração dos nossos próprios defeitos não deixará de nos tornar compassivos e indulgentes com as faltas dos outros.
Nada aproveitamos pois, nem para nós nem para os outros, com a cólera; ou melhor, sempre ela nos prejudica; quando nos não cause outros danos, pelo menos tira-nos a paz. Ao saber que tinha perdido uma parte dos seus bens, o filósofo Agripino contentou-se com dizer: “Se perdi a minha propriedade, não quero perder também a paz”. Como dizia Sêneca39, as injúrias por si mesmo não nos podem causar tamanho mal, como a cólera em que caímos ao recebê-las. Quem se irrita com os ultrajes que o recebe, a si próprio se atormenta, segundo o pensamento de Sto. Agostinho, que assim fala ao Senhor: Vós ordenastes que toda a alma que sai da ordem seja o algoz de si mesma40.
O mestre da doçura, S. Francisco de Sales41, ensina que devemos ser doces não só com os outros, mas conosco próprios. Pessoas há que, tendo cometido alguma falta, se irritam contra si mesmas, caiem na inquietação e depois em mil outras faltas. O demônio, dizia S. Luís de Gonzaga, pesca sempre nas águas turvas. Não devemos perturbar-nos à vista dos nossos defeitos, porque a perturbação nesse caso é efeito do nosso orgulho e da alta idéia que tínhamos da nossa virtude. O que então temos a fazer é humilharmo-nos, e detestar em paz o pecado cometido, recorrendo ao mesmo tempo a Deus, e esperando dele a força para não mais recairmos.Em resumo: os que são verdadeiramente humildes e doces vivem sempre em paz, e sempre conservam a tranqüilidade no coração, aconteça o que acontecer. Foi o que Jesus Cristo42 lhes prometeu: Aprendei de mim que sou doce e humilde do coração e encontrareis a paz para as vossas almas (Matth.11, 29).
E Davi tinha dito: Os que são doces possuirão a terra, e gozarão duma paz deliciosa e profunda43. Assim, S. Leão nos dá esta segurança: Não há injúria, nem perda, nem desgosto, qualquer que seja, que perturbe a paz dum coração, em que reine a doçura44. Se por desgraça nos acontecer cair em estado de cólera, esforcemo-nos então, conforme o conselho de S. Francisco de Sales, por conter os nossos ímpetos, de pronto, sem nos demorarmos a deliberar se convirá ou não fazê-lo. E depois de termos tido qualquer contestação com alguém, não deixemos prolongar a perturbação dela resultante; pratiquemos o ensino do Apóstolo: Que o sol se não ponha sobre o vosso ressentimento; não abrais a porta ao demônio45. Cuidemos primeiro de nos pormos em paz conosco, e reconciliemo-nos depois com a pessoa contra quem nos iramos, para que o demônio não possa com essa centelha acender em nós alguma chama mortal, que nos faça perecer.

II - É necessário suportar os desprezos

A segunda coisa, em que principalmente consiste a doçura, é na paciência em sofrer os desprezos. Dizia S. Francisco de Assis que muitas pessoas fazem consistir a sua perfeição em recitar muitas orações, ou fazer muitas mortificasses corporais, ao passo que não podem suportar uma palavra injuriosa.Não compreendem elas, ajuntava o santo, quanto lhes é mais proveitoso suportar as afrontas46. Maior mérito haverá em receber em paz uma injúria, que em jejuar dez dias a pão e água.
Segundo S. Bernardo, há três graus de virtude a que deve aspirar quem quer santificar-se: o primeiro é não querer dominar sobre os outros; o segundo querer estar sujeito a todos; o terceiro sofrer com paciência as injúrias47.
Vereis, por exemplo, que se concede aos outros o que a vós se recusa; que o que os outros dizem é escutado; e o que vós dizeis escarnecido; que os outros são louvados, escolhidos para empregos honrosos e negócios importantes, e que de vós se não faz caso. Tudo quanto fazeis vos atrai censuras e remoques; então, diz S. Doroteu48, sereis verdadeiramente humildes, se aceitardes em paz todas estas humilhações, e se recomendardes a Deus, como vossos maiores benfeitores, os que assim vos tratam, curando o vosso orgulho, — a mais perigosa moléstia, capaz de vos dar a morte.
Sêde pacientes na humilhação49. Eis o que nessas circunstâncias é necessário fazer: não se irritar nem se queixar, mas receber esses desprezos como justos castigos dos próprios pecados. Maiores humilhações se mereciam, ofendendo a Deus: merecia-se estar sob os pés dos demônios. S. Francisco de Borja, numa viagem, teve de se deitar no mesmo leito com o seu companheiro, o Pe. Bustamanto, que sofria de asma, e levou a noite a tossir e a escarrar; julgava porém que escarrava para o lado da parede, e era sobre o santo que o fazia, e por vezes até sobre o seu rosto. Chegado o dia, ficou muito aflito ao ver que tinha feito, mas S. Francisco disse-lhe tranqüilamente: “Meu padre, não vos aflijais com isso; porque em todo este quarto não havia por certo lugar mais próprio para receber os vossos escarros que o meu rosto”.
Os orgulhosos crêem-se dignos de todas as honras, e as humilhações que recebem fazem-nos exasperar na sua soberba; os humildes, ao contrário, julgam-se dignos de todas as ignomínias, e aproveitam-nas para mais se humilharem. É-se humilde, diz S. Bernardo, quando se demuda a humilhação em humildade50. Nota o Pe. Rodrigues que os orgulhosos, ao serem repreendidos, fazem como o ouriço cacheiro: tornam-se espinhos em todo o exterior, isto é, irritam-se, irrompem em queixas, censuras e murmurações contra os outros. Repreendei porém um homem humilde, e ele se humilhará ainda mais, confessará os seus erros e vos agradecerá sem se perturbar. Perturbar-se uma pessoa ao receber uma correção, é dar sinal de que ainda está sob o jugo do orgulho. Assim, o que em tal caso se sente perturbado, deve humilhar-se mais profundamente diante de Deus, e suplicar-lhe que o liberte do orgulho, que ainda reina no seu coração.
O meu nardo exalou o seu odor51. É o nardo uma pequena planta odorífera, mas que só derrama o seu perfume quando se aperta ou esmaga. Ó! que suave perfume derrama diante de Deus uma alma humilde, quando sofre em paz nas humilhações, folgando de se ver desprezada e maltratada pelos outros! Interrogado o monge Zacarias sobre o que era necessário fazer para adquirir a verdadeira humildade, tomou o seu capuz, lançou-o ao chão, calcou-o aos pés e disse: “Quem se compraz em ser tratado como este farrapo, é verdadeiramente humilde”. Dizia o Pe. Alvarez que o tempo das humilhações é o de sairmos das nossas misérias e fazermos larga colheita de merecimentos. Tanto o Senhor é avaro com os orgulhosos, diz S. Tiago, como liberal com os humildes52.
As palavras lisonjeiras de quem louva, diz Sto. Agostinho, podem curar uma consciência culpada, e as palavras grosseiras de quem insulta não podem ferir uma boa consciência53. Tal era também o pensamento de S. Francisco de Assis, quando dizia: “Só somos de fato o que somos diante de Deus”.Pouco importa pois que os homens nos louvem ou nos censurem, contanto que Deus nos aprove, — e certamente aprova de bom grado os que por seu amor sofrem injúrias.
Os que são doces são queridos de Deus e dos homens. Nada há mais edificante para o próximo, nem mais próprio para ganhar corações para Deus, do que a doçura duma pessoa que, desprezada, escarnecida e injuriada, se não irrita, antes recebe tudo com rosto calmo e sereno. Nada torna os domésticos, diz S. João Crisóstomo, tão amantes do seu senhor, como veremno sempre doce e afável 54. Segundo Sto. Ambrósio, era Moisés mais amado dos hebreus por causa da doçura, que havia mostrado no meio dos ultrajes, do que pelos prodígios que tinha operado55. Quem possui a doçura, diz ainda S. João Crisóstomo, é útil a si próprio e aos outros56. Refere o Pe. Mafei que um religioso da Cia. de Jesus, pregando no Japão, recebeu da parte dum insolente um escarro no rosto; enxugou-o com o lenço e continuou o seu discurso, como se nada lhe tivesse acontecido. Ao ver isto, um dos assistentes converteu-se à Fé: “Uma religião que ensina uma tal humildade, disse ele, não pode deixar de ser verdadeira e divina”. Do mesmo modo, converteu grande número de hereges a doçura de S. Francisco de Sales que, sem se perturbar, sofria todas as afrontas que lhe faziam. A doçura é uma pedra de toque: segundo S. João Crisóstomo ( In. Gen. hom. 34), o meio mais seguro para se conhecer se há virtude numa alma, é ver se ela conserva a doçura nas contrariedades. O Pe. Crasset também conta, na sua História da Igreja do Japão, que, durante a última perseguição, um missionário agostinho, que viajava disfarçado, recebera uma bofetada sem se abalar. Ao verem isso, reconheceram que era cristão e prenderam-no, porque os idólatras julgaram que uma tal virtude só num cristão podia existir.
Ó! como à vista de Jesus desprezado é fácil suportar todos os desprezos!A bem-aventurada Maria da Encarnação, ao contemplar um dia o seu crucifixo, disse às suas religiosas: “É possível, minhas irmãs, que nos recusemos a abraçar os desprezos, vendo Jesus Cristo tão desprezado?” Quando Sto. Inácio Mártir foi levado a Roma para ser lançado as feras, ao ser maltratado pelos soldados, estava cheio de consolação: É agora, dizia ele, que começo a ser discípulo de Jesus Cristo57. Pois! Que sabe fazer um cristão, se não sabe suportar alguma humilhação por amor de Jesus Cristo? Sem dúvida, ser desprezado e injuriado, sem se mostrar magoado e sem responder, é uma coisa muito dura para o nosso orgulho; mas é em nos fazermos violência que está o nosso mérito, como ensina Tomás de Kempis: “Segundo a violência que vos fizerdes assim adiantareis”58. Tinha de costume uma boa religiosa, quando lhe faziam alguma afronta, ir à presença ao SS. Sacramento e dizer: “Senhor, sou demasiado pobre para ter alguma coisa preciosa a oferecer-vos, mas ofereço-vos este pequeno presente que acabo de receber”. Ó! Como Jesus Cristo acolhe com amor uma alma na humilhação! Como se apressa a consolá-la e a enchê-la de graças!
Uma alma verdadeiramente amante de Jesus Cristo sofre os ultrajes, não só com resignação, mas com prazer e alegria. Vêde os santos apóstolos: Retiravam-se da presença do Conselho, cheios de alegria por serem julgados dignos de sofrer desprezos pelo nome de Jesus Cristo59. A segunda parte deste texto, dizia S. José Calasâncio, tem aplicação a um grande número: “São julgados dignos de sofrer pelo nome de Jesus”; mas o mesmo não acontece com a primeira parte: “Iam cheios de alegria”. No entanto, quem se quer santificar deve pelos menos aspirar a esta perfeição. Não é humilde, dizia o mesmo santo, quem não deseja os desprezos60. O venerável Luís du Pont não compreendia a princípio, como pudesse um homem encontrar prazer em se ver desprezado; mas, desde que chegou a maior perfeição, compreendeu muito bem e fez a experiência disso. Foi o que Sto. Inácio de Loyola, descendo do Céu depois da sua morte, veio ensinar a Sta. Maria Madalena de Pazi, dizendo-lhe que a verdadeira humildade consiste em encontrar um prazer contínuo em tudo quanto nos possa levar ao desprezo de nós mesmos.Não gozam tanto os mundanos em serem honrados, como os santos em serem desprezados. Quando o irmão Junípero, franciscano, recebia injúrias, estendia a sua túnica, como para recolher pérolas. S. Francisco Régis, na sua conversação, era por vezes objeto de riso para os seus companheiros, e não só tomava nisso prazer, mas até provocava as zombarias deles.
Um dia apareceu nosso Senhor a S. João da Cruz e disse-lhe: João pede-me o que desejas. E o santo respondeu: Senhor, sofrer e ser desprezado por amor de vós61. Era o mesmo que dizer: Senhor, ao ver que tanto sofrestes e tão desprezado fostes por meu amor, que posso eu pedir-vos senão sofrimentos e desprezos?
Numa palavra, para concluirmos: quem quer ser todo de Deus, e tornar-se semelhante a Jesus Cristo, deve gostar de ser desconhecido e tido por nada. Este grande preceito de S. Boaventura, sem cessar o repetia S. Filipe de Néri aos seus filhos espirituais62. Quer Jesus Cristo que nos julguemos felizes e exultemos de alegria quando por seu amor nos virmos odiados, repelidos e ridicularizados dos homens. Dá-nos a segurança duma recompensa do Céu, proporcionada aos desprezos que tivermos levado com alegria: Bem-aventurados sereis quando os homens vos aborrecerem, repelirem, carregarem de afrontas, e abominarem o vosso nome, por causa do Filho do homem63. — Regozijai-vos nesse dia e exultai de alegria, porque é grande a vossa recompensa no Céu64. Que maior alegria pode ter uma alma, do que ver-se desprezada por amor de Jesus Cristo? Então, diz S. Pedro, obtém ela a maior honra a que pode aspirar, por isso que Deus a trata como tratou o seu próprio Filho: Se fordes injuriados por causa do nome de Jesus Cristo, sereis ditosos, porque então repousarão sobre vós a verdadeira honra, a verdadeira glória e a verdadeira virtude que vem de Deus, assim como o seu Espírito65.
 
Notas:
1. Discite a me quia mitis sum et humilis corde (Matth. 11, 29)
2. Ecce Agnus Dei (Jo. 1, 29).
3. Emitte Agnum, Domine, dominatorem terrae (Is. 16, 1).
4. Quasi agnus coram tondente se, obmutescet, et non aperiet os suum (Is. 53, 7).
5. Quasi agnus mansuetus qui portatur ad victimam (Jer. 11, 19).
6. Qui, cum malediceretur, non maledicebat; cum pateretur non comminabatur (1. Pet. 2, 23).
7. Mansuetudo prae caeteris virtutibus nos Deo conformes facit (In Rom. hom. 19).
8. Benefacite his qui oderunt vos... ut sitis filii Patris vestri qui in coelis est, qui solem oriri facit super bonos et malos (Matth. 5, 44).
9. Eos solos qui mansuetudine conspicui sunt, Dei imitatores Christus nominat (Serm. de Mansuetudine).
10. Beati mites, quoniam ipsi possidebunt terram (Matth. 5, 4).
11. Introd. p. 3. ch. 8.
12. Quod beneplacitum est illi, fides et mansuetudo (Eccli. 1, 34).
13. Suscipiens mansuetos Dominus (Ps. 146, 6).
14. Humilium et mansuetorum semper tibi placuit deprecatio (Judith, 9, 16).
15. Caveatur iracundia, aut cohibeatur (Offic. l. 1. c. 21).
16. Cum his qui sunt a mansuetudine alienissimi, tunc virtus ostenditur (In Ps. 119).
17. Responsio mollis frangit iram (Prov. 15, 1).
18. Sicut rogum accensum aqua exstinguit, ita animam ira aestuantem verbum cum mansuetudine prolatum mitigat (In Gen. hom. 58).
19. Verbum dulce multiplicat amicos, et mitigat inimicos (Eccli. 6, 5).
20. Igne non potest ignis extingui, nec furor furore.
21. Vos non, quasi judices criminum, ad percutiendum positi estis, sed, quasi judices morborum, ad sanandum (Misc. l. 1. tit. 49).
22. Maximum remedium est irae, mora (De Ira, l. 2. c. 28).
23. Turbatus prae ira oculus rectum non videt (De Consid. l. 2. c. 11).
24. Secundum rectam rationem irasci (2. 2. q. 158. a. 1).
25. Irascimini et nolite peccare (Ps. 4. 5).
26. Introd. p. 3. chap. 8.
27. Epist. 38. E. B.
28. Vae, quae consuunt pulvillos sub omni cubito manus, et faciunt cervicalia sub capite universae aetatis, ad capiendas animas...! Et confortastis manus impii, ut non reverteretur a via sua mala, et viveret (Ezechi. 13, 18).
29. Non est ista charitas, sed languor (In 1. Jo. tr. 7).
30. Licet conqueratur aeger impatiens per dolorem, gratias aget postmodum, cum senserit sanitatem (De Lapsis).
31. Fratres, et si praeoccupatus fuerit homo in aliquo delicto, vos qui spirituales estis, hujusmodi instruite in spiritu lenitatis, considerans teipsum, ne et tu tenteris (Gal. 6, 1).
32. Turpe quidem est in praelato, cum ira et austeritate corripere (Epist. 100).
33. Facies turbatior, pulcherrima ora foedavit (De Ira, l. 2. c. 35).
34. Sit amor, sed non emolliens; sit rigor, sed non exansperans; sit pietas, sed non plus quam expediat, parcens (Mor. l. 20. c. 6).
35. Reg. fus. disp. int. 51.
36. Collat. 2. c. 13.
37. Reprehensionem, non odium, sed misericordia praecedat (De Serm. D. in monte l. 2. c.19).
38. Considerata infirmitas propria, mala nobis excusat aliena (Mor. l. 5. c. 33).
39. Plus mihi nocitura est ira, quam injuria (De Ira, l. 3. c. 25).
40. Iussisti ut poena sua sibi sit omnis inordinatus animus (Conf. l. 1. c. 12).
41. Introd. p. 3. ch. 9.
42. Discite a me quia mitis sum et humilis corde, et invenietis requiem animabus vestris.
43. Mansueti autem hereditabunt terram, et delectabuntur in multitudine pacis (Ps. 36, 11).
44. Nihil asperum mitibus (De Epiph. s. 5).
45. Sol non occidat super iracundiam vestram; nolite locum dare diabolo (Ephes. 4, 26).
46. Non intelligentes, quanto majus sit lucrum in tolerantia injuriarum.
47. Primus profectus, nolle dominare; secundas, velle subjici; tertius, injurias aequanimiter pati (De Divers. s. 60).
48. Doctr. 20.
49. In humilitate tua, patientiam habe (Eccli. 2, 4).
50. Est humilis qui humiliationem convertit in humilitatem (In Cant. s. 34).
51. Nardus mea dedit odorem suum (Cant. 1, 11).
52. Deus superbis resistit; humilibus autem dat gratiam (Jac. 11, 6).
53. Nec malam conscientiam sanat laudantis praeconium, nec bonam vulnerat conviciantis opprobrium (Contra Petit. l. 3. c. 7).
54. Nihil ita conciliat domino familiares, ut quod illum vident mansuetudine jucundum (S. de Mansuet.).
55. Ut plus eum pro mansuetudine diligerent, quam pro factis admirarentur (Offic. l. 2. c. 7).
56. Mansuetus utilis sibi et aliis (In Act. hom. 6).
57. Nunc incipio esse Christi discipulus (Ep. ad. Rom.).
58. Tantum proficies, quantum tibi ipsi vim intuleris (De Imit. l. 1 c. 25).
59. Ibant gaudentes a conspectu concilii, quoniam digni habiti sunt pro nomine Jesu contumeliam pati (Act. 5, 41).
60. Non est humilis qui non optat sperni.
61. Joannes, pete quid vis a me. — Domine, pati et contemni pro te.
62. Ama nesciri et pro nihilo reputari (Alpab. rel.).
63. Beati eritis, cum vos oderint homines, et cum separaverint vos, et exprobaverint, et ejecerint nomen vestrum tamquam malum, propter Filium hominis.
64. Gaudete in illa die, et exsultate; ecce enim merces vestra multa est in coelo (Luc. 6, 22).
65. Si exprobramini in nomine Christi, beati eritis, quoniam quod est honoris, gloriae, et virtutis Dei, et qui est ejus Spiritus, super vos requiescit (1. Pet. 4, 14).


Fonte: Volta para Casa
PDF do livro: www.redemptor.com.br
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