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Retiro

domingo, 12 de agosto de 2012

A superioridade de São José sobre todos os outros Santos

Termino mais uma tradução exaustiva, mas apaixonante. E redescubro um São José jamais imaginado: tão denso, tão grandioso, tão forte e tão sofrido e angustiado e aflito. Realmente, permaneceu oculto por séculos, mais meus modestos quase cinquenta anos! E uma devoção totalmente nova eis que surge em meu pequeno e sedento coração!!! Quem é, de fato, este homem, que possibilitou que o "fiat" não ficasse por isso mesmo, entregue à maldade e à ferocidade humana, e se realizasse completamente na Cruz? Será ele o "menor" de que falava Nosso Senhor Jesus Cristo? Bò! Isso só o saberemos naquele Dia em que tudo será revelado... Até lá procurarei recuperar o tempo perdido, aprofundando e intensificando está devoção inesperada e divulgando-a a quem quiser ouvir! E mais não digo...
Ah! Sim, digo: Após o texto, dois PDFs, um com as imagens e outro sem, este para facilitar a leitura, pois o texto é extenso e merece ser lido aos poucos... meditando-o! Além disso, procurei ilustrar o texto com imagens especias, que eu ainda não tivesse publicado em nenhum dos meus blogs. Ao longo do primeiro trecho, postei imagens de uma breve narração da vida de tão humilde e gigante homem. Depois, várias imagens de S. José com o Menino Jesus, em "poses" afetuosas, que revelassem o imenso amor e o imenso cuidado que S. José teve pelo Desejado das Nações que ele soube preservar do mal do mundo. A seguir, imagens diversas. No final, uma série de imagens (entre as quais as que estão neste post), que fazem parte do album online "Vida de São José". Espero que tudo isso e, particularmente, o texto - que peço que leiam aos poucos, pois é extenso, e talvez sejam melhor baixar o PDF sem imagens -, possam despertar em meus amáveis leitores o mesmo que despertou em mim.
E que venham as vertigens...

Gda


A superioridade de 

São José

sobre todos os outros Santos

de Fr. Reg. Garrigou-Lagrange O.P.
(em “La Vie Spirituelle”, 1929, t. 19, pp. 662-683)


“Quem dentre vós for o menor, esse será grande”
(Luc. 9,48)

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A doutrina pela qual S. José, depois de Maria, foi e ainda é mais unido a Nosso Senhor do que qualquer outro santo está cada vez mais se tornando a doutrina comum da Igreja. Esta não teme proclamar o humilde carpinteiro superior, em graças e beatitude, aos Patriarcas, a Mosés, o maior dos Profetas, a S. João Batista, e também aos Apóstolos, a S. Pedro, a S. João, a S. Paulo, e, enfim, a fortiori, superior em santidade aos maiores Mártires e aos máximos Doutores da Igreja. 

Esta doutrina foi ensinada por Gerson[1] e por S. Bernardino de Sena[2]. Torna-se cada vez mais difundida a partir do século XVI: é sustentada por S. Teresa, S. Francisco de Sales, Suarez[3], depois por S. Alfonso de Ligório[4] e muitos outros[5]. Finalmente, S.S. Leão XIII, na Encíclica Quamquam pluries, escreve: “É certo que a dignidade de Mãe de Deus é tão alta que nada pode haver de mais sublime; mas pelo fato de que entre a Beatíssima Virgem e José foi estreitado um vínculo conjugal, não há dúvida de que a essa altíssima dignidade, por força da qual a Mãe de Deus se eleva muitíssimos acima de todas as criaturas, Ele se aproximou mais do que ninguém. O matrimônio, de fato, é a forma mais elevada de sociedade e de amizade, à qual, por sua natureza, se une a comunhão de bens. Portanto, se Deus deu José em Esposo à Virgem, deu-Lho não só como companheiro de vida, testemunha da virgindade e tutor da honestidade, mas também como partícipe, em virtude do pacto conjugal, da excelsa grandeza dEla[6]. Pelo fato de que a dignidade de Maria “se eleva muitíssimos acima de todas as criaturas”, como é dito nesta encíclica, segue-se que o primado de S. José deve ser entendido não apenas no que diz respeito a todos os outros santos, mas também com relação aos Anjos? Não se o pode afirmar com certeza. Contentemo-nos de expor a doutrina, cada vez mais aceita na Igreja, que afirma que, entre todos os outros Santos, S. José é o mais elevado, no Céu, depois de Jesus e Maria. Ele está entre os Anjos e Arcanjos. Sua missão em relação à Sagrada Família fez dele o Patrono da Igreja universal, seu protetor e defensor. A ele, em certo sentido, é particularmente confiada a multidão dos cristãos de todas as gerações, como o provam a bela Ladainha que resume suas prerrogativas.  

Pretendemos lembrar, aqui, o princípio teológico sobre o qual se funda esta doutrina, cada vez mais aceita desde há cinco séculos, acerca do primado de S. José sobre todos os outros santos.


I. Uma missão divina excepcional requer uma santidade proporcional



O princípio geral pelo qual a teologia, explicando a Revelação, demonstra qual devia ser, aqui na terra, a plenitude da graça criada na santa alma do Salvador, qual, depois, tinha que ser a santidade de Maria e também a fé dos Apóstolos, repousa sobre a excepcional missão divina que eles receberam, missão que exigia uma santidade proporcional. Algo semelhante aconteceu também com S. José.

Esponsalício de Maria Santíssima e S. José
As obras de Deus são perfeitas, especialmente as que Lhe dizem respeito imediata e exclusivamente. Não se poderá encontrar nada de imperfeito ou desordenado, como, por exemplo, na obra divina como um todo, no momento da criação[7]. O mesmo pode se dizer dos grandes servos de Deus, por Ele suscitados direta e excepcionalmente para restaurar a obra divina desfigurada pelo pecado. “Deus criou o homem à Sua imagem” (Gen. 1,27). “Ele havia preestabelecido (...) de realizá-lo na plenitude dos tempos, de instaurar todas as coisas em Cristo” (Ef. I, 10).

Compreende-se melhor a verdade, a importância e a evidência deste princípio revelado, ao se considerar, por contraste, o que frequentemente ocorre na condução dos assuntos humanos. Não é raro que pessoas incapazes e inexperientes ocupem altos cargos, com grandes danos a seus subordinados. Isto será em certos momentos até particularmente irritante, a menos que pensemos que o Senhor compense esses inconvenientes com os atos muitas vezes heroicos da santidade escondida, e lembremos que cada um de nós deve fazer o próprio mea culpa pelas negligências no exercício dos cargos ou ofícios que lhe foram confiados. Essas faltas são tão frequentes que a partir de certo ponto ninguém mais se importa. A desordem, contudo, é, afinal, sempre desordem, a incapacidade é incapacidade, e não se encontrará nada disso naqueles que são escolhidos diretamente pelo próprio Deus e por Ele preparados imediatamente para serem seus ministros excepcionais na obra da Redenção. O Senhor lhes dá uma santidade proporcional, uma vez que Ele opera sempre com medida, e a desordem e a desproporção não podem ser encontradas nunca nas obras propriamente divinas, das quais só Ele é o autor.

A caminho de Belém - o censo
Por este motivo, sobretudo a santa alma de Jesus recebeu, desde o primeiro instante de sua criação, a plenitude absoluta da Graça, seja porque era tão intimamente unida ao Verbo de Deus, fonte de toda a vida sobrenatural, seja porque tinha que nos comunicar esta vida divina com a luz do Evangelho e pelos méritos infinitos do sacrifício da Cruz: “De sua plenitude nós todos recebemos (...). Deus ninguém jamais O viu. O Seu Filho Unigênito, que está no seio do Pai, ele no-lo revelou” (João 1,16-18). Santo Tomás de Aquino vê neste texto do Evangelho e em outros semelhantes não só a plenitude de graça, mas a glória, ou seja, a visão beatífica de que gozava na Terra o Salvador, para nos conduzir, como Mestre dos mestres, pelo caminho da salvação. “Cristo teve a plenitude da graça porque ele a teve em sumo grau, segundo o modo mais perfeito em que se pode ter. E isso aparece em primeiro lugar considerando a proximidade da alma de Cristo com a causa da graça. De fato, foi dito que, quanto mais uma coisa receptiva está próxima da causa influente, mais abundantemente a recebe. E, por isso, a alma de Cristo, a qual entre todas as criaturas racionais é a que se une mais conjuntamente a Deus, recebe a máxima influência de Graça. Em segundo lugar, pela comparação com o efeito. A alma de Cristo recebia, de fato, de tal forma a graça que a comunicava, de certo modo, dela para os outros. A graça lhe era conferida enquanto princípio geral no gênero daqueles que estavam destinados a tê-la. (...) O que é em potência passa ao ato graças àquilo que é no ato. É necessário, de fato, que uma coisa seja quente para aquecer os outros. O homem, porém, é em potência, em ordem à ciência dos beatos que consiste na visão de Deus, e é ordenado a ela como seu fim (...). Mas os homens são reconduzidos a este fim da beatitude através da humanidade de Cristo (...). Ocorre, portanto, que a cognição beata, que consiste na visão de Deus, convenha em modo excelentíssimo a Cristo homem: pois sempre ocorre que a causa seja mais poderosa que o efeito”[8]. Mestre de toda a humanidade para as coisas da vida eterna, Jesus Cristo devia, não apenas crer, mas ver a meta suprema à qual nos devia conduzir.

"Não temos vagas"!
Por causa do mesmo princípio, Maria, enquanto digna Mãe de Deus, devia ser “cheia de graça” (Lc. 1,28), preservada do pecado original, associada a todos os sofrimentos e a todas as glórias de Jesus. Por consequência de sua missão única como Mãe de Deus, devia aproximar-se do Verbo de Deus encarnado mais intimamente que qualquer outro, nos dois grandes mistérios da Encarnação e da Redenção. Mais próxima da fonte de toda a graça, devia receber, mais do que qualquer outra criatura, graça sobre graça, mais do que todos os santos e todos os Anjos. “Quanto mais algo se aproxima de seu princípio, em qualquer gênero, tanto mais participa do efeito daquele princípio (...). Cristo, porém, é o princípio da Graça, com autoridade segundo sua divindade, mas instrumentalmente segundo sua humanidade (...). A Beatíssima Virgem Maria foi muito próxima a Cristo segundo a sua humanidade, porque ele recebeu dEla a sua natureza humana. Motivo pelo qual, muito mais que qualquer outro teve que receber de Cristo a plenitude da graça (...). Não devemos duvidar que a Beata Virgem tenha recebido em modo excelente o dom da sabedoria e a graça da virtude e também a da profecia (...), segundo o que convinha a sua condição[9].


É, enfim, pelo mesmo princípio que a teologia ensina que os Apóstolos, sendo mais próximos de Nosso Senhor que os Santos que vieram depois, conheceram mais perfeitamente as verdades da fé. “Aqueles que estavam mais próximos a Cristo, ou antes, como S. João Batista, ou depois, como os Apóstolos, conheceram mais plenamente os mistérios da fé”[10]. Aos olhos de Santo Tomás, então, seria temerário negar tal fato, mas ele compara os Apóstolos apenas aos santos que vieram depois deles, e não a S. José, nem a S. João Batista. Santo Tomás, comentando esta passagem de S. Paulo: “Nós mesmos que temos em nós as primícias do Espírito”, diz: “Os Apóstolos tiveram o Espírito Santo antes temporal e mais abundantemente que os outros[11].

Agora, a missão de S. José não é, por acaso, superior àquela dos Apóstolos e também à do Precursor [o Batista]? A sua vocação não é, porventura, única no mundo, como aquela de Maria? E, em previsão de seu destino excepcional, não se aproximou assaz da fonte de toda a graça, não foi unidos mais intimamente a Nosso Senhor?


II. A missão extraordinária de S. José


S. João Batista era encarregado de anunciar a vinda imediata do Messias. Pode-se até dizer que ele foi o maior precursor de Jesus no Antigo Testamento. É assim que S. Tomás entende as palavras de Jesus em S. Mateus 11,11: “Em verdade vos digo que, entre os filhos de uma mulher, não há ninguém maior do que João Batista”. Comenta S. Tomás: “Não é inconveniente que S. João Batista seja dito o maior de todos os Padres do Velho Testamento. Ele é o maior e o mais excelente, porque foi pré-escolhido para uma missão maior. Abraão é, de fato, a maior quanto à prova da fé; Moisés quanto ao ofício de Profeta, como se lê em Deut. 24,10: ‘Não surgiu um profeta maior em Israel do que Moisés’. Todos estes foram precursores do Senhor, mas nenhum como o Batista o foi com tamanha excelência e favor, e, portanto, foi elevado ao ofício maior: ‘Será, de fato, grande diante de Deus’ (Lc. 1,15)”. Ele é o precursor por excelência entre todos os Santos do Antigo Testamento, motivo pelo qual, na Ladainha dos Santos, ele vem imediatamente após Maria e os Anjos. Fecha o Velho Testamento e anuncia o Novo[12].

Fuga para o Egito
Mas Nosso Senhor imediatamente acrescenta: “No entanto, o menor no Reino dos céus é maior do que ele”. O Reino dos céus é a Igreja do céu e da terra; é o Novo Testamento, mais perfeito, como estado espiritual, do que o Velho, embora alguns justos do Velho tenham sido mais santos do que muitos do Novo. “Esta expressão, ‘No entanto, o menor no Reino dos céus é maior do que ele’ — diz S. Tomás — pode ser explicada de três maneiras. Em primeiro lugar, se por Reino dos céus se entende o estado dos beatos, quem é entre eles o menor é maior do qualquer um que ainda é um peregrino nesta terra (...). E isso, então, deve ser entendido como uma superioridade em ato: em ato, de fato, é maior quem é beato no céu. Diferentemente ocorre considerando a superioridade em potência, como uma pequena grama se diz maior em potência, conquanto uma outra seja, no momento, maior em quantidade. Então, em segundo lugar, podemos interpretar entendendo o Reino dos céus pela Igreja presente, e, nesse sentido, não se diz 'menor' em geral, mas em relação ao tempo. Então, aquilo que é menor é, na verdade, maior. Ou se pode expor em um outro modo, pelo qual alguém pode ser dito superior a outro: ou quanto ao mérito, e assim muitos Patriarcas são superiores a alguns do Novo Testamento, ou comparando um estado a outro: como os virgens são melhores que os casados, mas não que um virgem seja mais santo que um casado”[13]. Independentemente do mérito pessoal dos diferentes servos de Deus, o Novo Testamento, especialmente em sua realização ultraterrena, é evidentemente um estado espiritual mais perfeito respeito ao Velho. S. João Batista se encontra no limiar entre os dois[14].

Retorno a Nazareth
E quem foi na Igreja o menor? Palavras misteriosas, que foram interpretadas de maneiras diferentes. Elas remetem às outras palavras pronunciadas a seguir por Jesus: “Quem dentre vós é o menor, este é o maior” (Lc. 9,48). O menor, ou seja, o mais humilde, o servo de todos: “Mas quem é o maior entre vós seja como o menor, e quem governa seja como aquele que serve” (Lc. 22,26). É, portanto, segundo a proporção e a conexão das virtudes, aquele que possui a caridade mais alta: “Todas as virtudes — ensina S. Tomás — de um só homem são iguais por certa igualdade de proporção, enquanto crescem no homem de modo igual. Assim, os dedos de uma mão são desiguais em relação à sua quantidade, mas são iguais segundo a proporção, porque aumentam proporcionalmente[15]. E quem é na Igreja o mais humilde? Aquele que não foi nem apóstolo, nem evangelista, nem mártir — pelo menos exteriormente –, nem bispo, nem padre, mas que conheceu e amou Cristo Jesus certamente não menos que os Apóstolos, os evangelistas, os mártires, os bispos, os doutores: o humilde artesão de Nazaré, o humilde S. José.

Vida em Nazareth
By Esteban Murillo
Os Apóstolos foram chamados para dar a conhecer aos homens o Salvador, para pregar o Evangelho para a salvação deles. A missão deles, como a de S. João Batista, está na ordem da graça necessária a todos para se salvar. Mas há uma ordem superior à da graça. É aquela constituída pelo próprio mistério da Encarnação: a ordem da União Hipostática ou Pessoal da Humanidade de Jesus ao Verbo de Deus. A esta ordem superior é contígua a missão única de Maria: a divina maternidade, e também, em certo sentido, a missão escondida de S. José. Esta explicação foi exposta de diferentes modos. 

S. Bernardo: “Foi — eu digo — o servo fiel e prudente que [Deus] constituiu Senhor, conforto de sua Mãe, nutrício de sua carne; o único, enfim, sobre a terra, coadjutor de grande conselho[16]

S. Bernardino de Sena: “A regra geral de todas as graças que serão comunicadas a cada criatura racional é a seguinte: que, quando a graça de Deus escolhe alguém para algum ofício singular, ou a uma condição mais elevada, lhe dá todo carisma que àquela pessoa assim pré-escolhida e à sua tarefa são necessárias e o adornam abundantemente. Isso se verificou sobretudo em S. José, Pai putativo de Nosso Senhor Jesus Cristo, e verdadeiro esposo da Rainha do mundo e Senhora dos Anjos, que foi escolhido desde a eternidade para ser o fiel nutrício e guardião de seus principais tesouros, ou seja seu Filho e sua Esposa; ofício que realizou de modo fidelíssimo (...). Se o comparar a toda a Igreja de Cristo, não é, porventura, este o homem especial e eleito, por quem e sob cuja autoridade Cristo foi introduzido ao mundo em modo ordenado e honesto? Se, portanto, toda a santa Igreja é devedora da Virgem Mãe, porque por meio dela foi feita digna de receber Cristo, assim, certamente, depois de Maria, deve uma graça e uma reverência singular a este (...) [que] Nutriu, com cuidado e muita solicitude, o Pão do Céu, que deu a todos os eleitos a vida celeste”[17]

O dominicano Isidoro De Isolanis: “São quatro as propriedades da dignidade apostólica: o anúncio (como no último capítulo de S. Mateus: ‘Ide e pregai o Evangelho a todas as criaturas’), a iluminação (S. Mateus, 5: ‘Vós sois a luz do mundo’), a reconciliação (‘A quem perdoardes os pecados serão perdoados’, último cap. de S. Marcos), e a locução do Espírito Santo (‘Não sois vós que falais, mas é o Espírito de meu Pai que fala em vós’, João 15). Estas propriedades são digníssimas, porque vêm imediatamente de Cristo, estão sob sua autoridade, e são por motivo dele. As propriedades de S. José, entretanto, foram o matrimônio com a Rainha dos Céus, o nome de Pai do Rei dos Anjos, a defesa do Messias prometido na lei dos Judeus, a educação do Salvador de todos. Estas propriedades lhe provêm imediatamente em relação e por causa de Cristo. Quem, então, sendo dotado de inteligência, considerada a verdade da Revelação divina, pode investigar, argumentar e tirar conclusões da comparação entre a majestade da vocação apostólica e a celeste dignidade de José, pode [portanto] compreender quanta seja a sua excelência, dignidade, santidade e inexplicável perfeição de virtude. Medita no fundo de teu coração e não encontrarás modo de depreciar ou abaixar para junto de ti a majestade do fastígio apostólico, todavia Deus será exaltado nos dons escondidos de seu Pai putativo[18]; do mesmo modo Suarez[19] e muitos outros autores, como Mons. Giacomo Sinibaldi, que admiravelmente desenvolve e especifica o argumento relativo à ordem da União Hipostática[20]

É o que Bossuet exprime admiravelmente no primeiro panegírico sobre o grande Santo, quando no terceiro ponto, diz: “De todas as vocações, enfatizo duas, que, nas Escrituras, parecem diretamente opostas: a primeira, a dos Apóstolos, a segunda, a de S. José. Jesus é revelado aos Apóstolos para que o anunciem em todo o mundo. Ele é revelado a José para calá-lo e escondê-lo. Os Apóstolos são luzes para mostrar Jesus ao mundo. José é um véu para cobri-lo. Sob este véu misterioso está escondida a virgindade de Maria e a grandeza do Salvador das almas (...). Quem glorifica os Apóstolos pela honra da pregação, glorifica José pela humildade do silêncio”. A hora da manifestação do mistério do Natal, de fato, ainda não chegara. Este momento deve ser preparado por trinta anos de vida encoberta.

A perfeição consiste em fazer a vontade de Deus, cada um segundo sua vocação, mas a vocação realmente extraordinária de S. José não supera, no silêncio e na escuridão, a dos maiores Apóstolos, não toca mais de perto o mistério da Encarnação redentora? José, depois de Maria, esteve mais perto do que qualquer outro ao próprio Autor da graça. Ele, no silêncio de Belém, durante a permanência no Egito e na pequena casa de Nazaré, recebeu mais graças do que poderá jamais receber qualquer outro santo.

Qual foi a sua missão especial em relação a Maria SS.? Consistiu, principalmente, em preservar a virgindade e a honra de Maria, em contrair com a futura Mãe de Deus um verdadeiro matrimônio, mas absolutamente santo. Como nos refere o Evangelho de S. Mateus 1,20, o Anjo do Senhor apareceu em sonho a José e lhe disse: “José, filho de Davi, não temas receber contigo Maria, tua esposa, porque aquele que está nEla vem do Espírito Santo”. Maria é sua esposa de verdade. 

Trata-se de um verdadeiro matrimônio[21], mas todo celeste, e que devia ter uma fecundidade divina[22]: “A prole não é chamada bem do matrimônio — escreve S. Tomás — só porque gerada por meio do matrimônio, mas porque no matrimônio é acolhida e educada; e, assim, o bem daquele matrimônio foi aquela prole, mas não no primeiro modo. O que nasceu de um adultério, ou um filho adotivo, que é educado no matrimônio, não são bem do matrimônio, porque este não é ordenado à educação daqueles, como, ao invés, este matrimônio (de Maria e José) foi especialmente ordenado a este fim, ou seja, que aquela prole fosse acolhida e educada neste”. A plenitude inicial de graça dada à Virgem em vista da divina maternidade lembrava, em certo sentido, o mistério da Encarnação. “A Beata Virgem (...) mereceu, pela graça que lhe foi dada, aquele grau de santidade e de pureza que fosse côngruo à sua condição de Mãe de Deus (...) como também os Santos Padres (do Velho Testamento) mereceram, por suas orações e desejos, em modo côngruo, a Encarnação[23]. Como diz Bossuet: “É a virgindade de Maria, que atrai Jesus do céu (...). Se é esta pureza que a torna fecunda, e não temo afirmar que José tem sua parte neste grande milagre. Porque, se essa pureza angélica é o bem da divina Maria, é também o depósito do justo José[24].

Tratava-se, sem dúvida, da união mais respeitosa com a criatura mais perfeita que jamais existiu, no quadro mais simples, o de um pobre artesão de aldeia. José aproximou de si, assim, do modo mais íntimo em relação a qualquer outro santo, aquela que é a Mãe de Deus, aquela que é também a Mãe espiritual de todos os homens, do próprio S. José, que é a Corredentora, a Mediadora universal, a dispensadora de todas as graças. S. José, a todos esses títulos, amou Maria com o amor mais puro e mais devoto. Era também um amor teologal, porque amava a Virgem em Deus, por toda a glória que lhe havia doado. A beleza de todo o universo era nada comparada à sublime união dessas duas almas, uma união criada pelo Altíssimo, que encantava os Anjos, e deliciava o próprio Senhor.

Qual foi a missão excepcional de S. José em relação ao Senhor? Em toda verdade, o Verbo de Deus encarnado foi confiado a ele, José, ao invés que a outro justo, entre os homens de todas as gerações. Se o santo velho Simeão segurou o pequeno Jesus por alguns instantes e viu nEle a salvação dos povos, “luz para a revelação das gentes”, José velou sempre, noite e dia, sobre a infância de Nosso Senhor. Muitas vezes, segurou em suas mãos aquele que sabia ser seu Criador e Salvador. Recebeu dEle graças sobre graças, durante os longos anos em que viveu com ele na maior intimidade cotidiana. Viu-o crescer, contribuiu à sua educação humana. Jesus lhe foi submisso: “Era submisso a eles” (Lc. 2,5). É comumente chamado de “pai nutrício do Salvador”, mas o foi em um sentido mais elevado, porque, como sublinha S. Tomás[25], é apenas acidentalmente que tal homem, depois do seu matrimônio, se torna “pai nutrício” ou “pai adotivo” do Menino, exatamente porque não foi mesmo de modo acidental que S. José foi encarregado de cuidar de Jesus. Ele foi criado e veio ao mundo exatamente para este desígnio. Foi uma predestinação. É em vista desta missão totalmente divina que a Providência lhe concedeu toda espécie de graça desde sua infância: graça de piedade profunda, de virgindade, de perfeita fidelidade. No desenho eterno de Deus, a razão de ser da união de S. José com Maria foi, sobretudo, a proteção e a educação do Salvador; e ele recebeu de Deus um coração de Pai para velar sobre o Menino Jesus. Esta é a missão principal de S. José, aquela pela qual ele recebeu uma santidade proporcional; proporcional, de certa forma, à sua condição [status], ao mistério da Encarnação, que domina a ordem da graça e cujas perspectivas são infinitas[26].

O Trânsito de S. José
Este último ponto foi bem iluminado por Mons. Sinibaldi, em sua recente obra, La Grandezza di San José [A Grandeza de S. José], pp. 33-36, onde mostra que S. José foi predestinado desde a eternidade a se tornar o esposo da S. Virgem, e explica com S. Tomás a tríplice conveniência desta predestinação: “O ministério de S. José e a ordem da União Hipostática (...). Por Ministério (...) se deve entender um ofício, uma função que impõe e produz uma série de atos dirigidos a alcançar um escopo determinado (...): Maria nasceu para ser a Mãe de Deus (...). Mas o esponsalício virginal de Maria depende de José (...). Por isso, o ministério de José tem uma estreita relação com a constituição da ordem da União Hipostática (...). Celebrando seu conúbio virginal com Maria, José prepara a Mãe de Deus como Deus a quer; e nisso consiste a sua cooperação na atuação do grande mistério. Disso surge que a cooperação de José não é igual à de Maria. Enquanto a cooperação de Maria é intrínseca, física, imediata, a de José é extrínseca, moral, mediata (para Maria); mas é verdadeira cooperação[27].

O Doutor Angélico o estabeleceu, questionando-se (III, q, 29, a. 1) se Cristo devia nascer de uma Virgem que havia contraído um verdadeiro matrimônio. Respondeu afirmativamente: que devia nascer assim, seja por Cristo, seja por sua Mãe, seja por nós.

Isso era demasiado conveniente para o próprio Nosso Senhor, para que não fosse considerado, antes de manifestar o mistério do seu nascimento, como um filho ilegítimo, e porque devia ser protegido na sua infância. Para a Virgem não era menos conveniente, para que não fosse considerada culpada de adultério e, por isso, apedrejada pelos hebreus, como observou S. Jerônimo, e para que ela também fosse protegida no meio das dificuldades e das perseguições que deveriam iniciar com o nascimento do Salvador. Isso, como acrescenta S. Tomás, foi também muito conveniente para nós, porque, graças ao testemunho insuspeito de S. José, apreendemos a concepção virginal de Cristo. Segundo a ordem dos assuntos humanos, o seu testemunho admiravelmente confirma para nós o de Nossa Senhora. Finalmente, era soberanamente conveniente porque em Maria encontramos, ao mesmo tempo, seja o perfeito modelo dos Virgens, seja o das esposas e das mães cristãs.

Assim se explica que, de acordo com muitos autores, o decreto eterno da Encarnação, em relação ao fato que devia se realizar hic et nunc, naquelas determinadas circunstâncias, compreendeu não só Maria e Jesus, mas também o próprio S. José. Desde toda a eternidade havia sido decidido, de fato, que o Verbo de Deus encarnado nasceria milagrosamente de Maria sempre Virgem, unida ao justo José pelos laços de um verdadeiro matrimônio. A execução deste decreto providencial é assim expresso por S. Lucas 1,27: “O anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um homem chamado José, da casa de David, e o nome da Virgem era Maria”.

S. Bernardo chama S. José de fidelíssimo cooperador de grande conselho. É por isso que Mons. Sinibaldi, depois de Suarez e muitos outros, afirma que o ministério de S. José é contíguo, de certa forma, à ordem da União Hipostática. Não porque S. José tenha cooperado intrinsecamente, como instrumento físico do Espírito Santo, à realização do Mistério da Encarnação. Deste ponto de vista, seu papel é muito inferior ao de Nossa Senhora, Mãe de Deus. Mas ele foi predestinado a ser, na ordem das causas morais, o guardião da virgindade e da honra de Maria e, ao mesmo tempo, o protetor do Menino Jesus. Qualquer cooperação física, mesmo instrumental, é excluída em S. José. As palavras do Credo “concebido do Espírito Santo” sempre foram entendidas no sentido de “unicamente do Espírito Santo[28]

Escreve S. Efrem: “Filho de Davi, José desposou uma filha de David, de quem teve uma prole sem intervenção humana (...). Teria sido certamente algo torpe que Cristo tivesse sido concebido de semente de homem, e tampouco honesto (...). Maria deu à luz um filho que, não com seu nome, mas com o de José foi contado[29], embora não derivasse de sua semente. Nasceu sem José o filho de José, que foi ao mesmo tempo filho e pai de David (...). O Evangelho chama Maria com o nome de Mãe, não de nutriz. Mas também chama José de pai, embora não tenha tido parte alguma na geração de Jesus (...). Mas o simples nome não nos torna tais por natureza; assim, de fato, muitas vezes, chamamos de pais não os genitores, mas aqueles que são dignos de reverência por causa de sua idade. Todavia, a natureza tributou a José o nome de pai; um pai, no entanto, que não gerou[30]. Os termos “sem intervenção humana” e “sem José” excluem totalmente uma ação física, mesmo que apenas instrumental, por parte de S. José. Por sua vez, diz S. Agostinho: “O Senhor, portanto, não nasceu da semente de José, embora assim se pensasse, e, todavia, o filho de Maria Virgem nasceu por causa da caridade e da piedade de José[31]. O verdadeiro sentimento da Igreja é expresso de modo admirável por S. Francisco de Sales, sob o símbolo (do palmeiral) que se encontra em S. Efrem: “S. José foi, então, como uma palmeira, que é uma planta infrutífera, mas que não é por isso infrutuoso (...). S. José, de fato, não contribuiu de modo algum para este santo e glorioso nascimento, a não ser com a mera sombra do matrimônio, que preservou a Nossa gloriosa Senhora e Mestra de toda a calúnia[32]

O culto devido a S. José não supera especificamente aquele de dulia dos outros santos, mas tudo leva a crer que ele mereça[33] receber este culto de dulia mais do que todos os outros santos[34]. Por isso, a Igreja, em suas orações, diz seu nome imediatamente após a Virgem e antes dos Apóstolos, como, por exemplo, na oração A cunctis[35]. Se S. José não é nomeado no Cânon da Missa[36], tem, todavia um Prefácio especial, e o mês de março lhe é consagrado.

Recentemente, em um discurso proferido na sala Consistorial, no dia da festa de S. José, em 19 de março de 1928, Papa Pio XI comparava a vocação de S. José à de S. João Batista e à de S. Pedro: “É sugestivo ver surgir tão próximas e brilhar, quase simultaneamente, certas figuras tão magnífica: S. João Batista que se ergue do deserto, com sua voz tão poderosa e ao mesmo tempo suave, como o leão que ruge e como o amigo do Esposo que se alegra com a glória do Esposo, para oferecer, enfim, aos olhos do mundo a maravilhosa glória do mártir. São Pedro, que ouve do divino Mestre estas sublimes palavras, que também foram pronunciadas diante do mundo e dos séculos: ‘Tu és Pedro, e sobre esta pedra Eu edificarei a minha igreja’, ‘ide e pregai ao mundo todo’; missão grandiosa, divinamente resplandecente. Entre estas duas missões, surge a de S. José, que, ao contrário, passa recolhida, tácita, quase despercebida, desconhecida, na humildade, no silêncio; um silêncio que viria a se iluminar apenas alguns séculos depois e que viria a suceder, mas depois de séculos, um retumbante canto de glória. E, de fato, onde mais profundo é o mistério e mais densa a noite que o cobre, onde mais profundo o silêncio, justamente ali é mais alta a missão e mais rico o conjunto de virtudes que lhe são necessárias, e do mérito que devia, por feliz necessidade, lhe corresponder. Missão única, grandiosa, a missão de guardar o Filho de Deus, o Rei do mundo; a missão da custodiar a virgindade, a santidade de Maria; a missão única de entrar em participação do grande mistério escondido [aos olhos] dos séculos, e de cooperar também à Encarnação e à Redenção. Toda a santidade de José está, precisamente, na realização fiel até o escrúpulo dessa missão tão grande e tão humilde, tão alta e tão escondida, tão esplêndida e tão envolta em escuridão[37]

Ainda Pio XI, por ocasião de um discurso de exaltação à Veneravel Andrea Fournet e às Ven. Lucia Filippini e Antida Thouret, em 21 de abril de 1926: “Eis um Santo que entra na vida, e a vida transcorre no cumprimento do mais alto mandato divino, no mandato incomparável de vigiar a pureza de Maria, de proteger a divindade de Jesus Cristo, de tutelar, consciente cooperador, o mistério, o segredo a todos ignoto, exceto à Santíssima Trindade, o da Redenção do gênero humano. É na magnitude deste mandato que está a singular e absolutamente incomparável santidade de S. José; porque realmente a nenhuma outra alma, a nenhum outro santo tal mandato foi confiado, e entre S. José e Deus não vemos, nem podemos ver nada mais do que Maria Santíssima com a Sua divina Maternidade. É evidente que este Santo na altura de tal mandato já possuía o título daquela glória que é Sua, a glória de Patrono da Igreja Universal. Toda a Igreja, na verdade, já estava lá, resumida junto dele, como uma semente em germe já fecunda, na humanidade e no Sangue de Jesus Cristo; toda a Igreja já estava lá na virginal maternidade de Maria Santíssima Mãe de Jesus e Mãe de todos os fieis, que aos pés da Cruz viria a herdar no Sangue do Seu primeiro Filho Jesus. Tão pequena à vista dos olhos, mas tão grande ao olhar do Espírito, a Igreja já estava lá junto de S. José, quando Ele era, na Sagrada Família, o Guardião e o Pai tutelar dEla[38]. 

III. As virtudes sobrenaturais e os dons de S. José 


Estas são, sobretudo, as virtudes da vida oculta e em um grau a ele correspondente da graça santificante: uma profunda humildade; uma fé penetrante, que nunca se desanima; uma esperança inabalável; e, sobretudo, uma caridade imensa, que aumenta sem cessar em contato com Jesus; a bondade mais delicada para com os pobres, rica em sua pobreza dos maiores dons de Deus, dos sete dons do Espírito Santo, no mesmo grau de sua caridade[39]. A Ladainha diz: “José justíssimo, castíssimo, prudentíssimo, fortíssimo, obedientíssimo, fidelíssimo, espelho da paciência, amante da pobreza, exemplo dos trabalhadores, honra da vida doméstica...”. 

A sua fé viva foi, em alguns dias, dolorosa por causa da escuridão na qual pressentia algo grande demais para ele, especialmente quando ignorava ainda o segredo da concepção virginal, que a humildade de Maria mantinha escondida: “José não quis repudiar Maria para desposar outra mulher ou por alguma suspeita, mas porque temia, por reverência, de coabitar com tão grande santidade, motivo pelo qual lhe foi dito: ‘Não tema’ (...)[40]. As palavras de Deus transmitidas pelo Anjo lançam luz e anunciam o nascimento milagroso do Salvador. José poderia ter hesitado em acreditar em algo tão extraordinário, mas ele acreditou firmemente na simplicidade do seu coração, e esta graça insigne, longe de ensoberbecê-lo, o confirma para sempre na humildade. Por que, se diz, logo a mim, José, ao invés de qualquer outro homem, o Todo-Poderoso confiou esse infinito tesouro a guardar? Ele vê claramente que não poderia merecer um dom semelhante. Compreende toda a gratuidade da predileção divina a seu respeito. É o beneplácito divino soberanamente livre que tem em si mesmo a sua razão. Esclarecem-se, ao mesmo tempo, as profecias, e a fé do carpinteiro se engrandece em proporções prodigiosas.

A escuridão, no entanto, não demorou a reaparecer. José teve que caminhar através de luzes e sombras. Ele já era pobre antes de ser o objeto das divinas predileções, antes de receber o segredo de Deus. Torna-se ainda mais pobre, diz Bossuet, quando Jesus vem ao mundo. Não há lugar para a Salvador no último hotel de Belém, é necessário abrigar-se em um estábulo. Na delicadeza do seu coração José, teve que sofrer por não poder dar nada a Maria e a seu Filho. Quando Jesus entra em uma alma, dizem os santos, Ele entra com a sua Cruz, e a separa de tudo para uni-la a Ele. José e Maria o compreendem desde os primeiros dias, e a profecia do velho Simeão confirma o pressentimento deles. 

Já a perseguição começa. Herodes tenta matar o Messias. O Chefe da Sagrada Família, avisado por um anjo, é forçado a fugir para o Egito, com Maria e o Menino Jesus. Pobre artesão, sem outro recurso que o seu trabalho, parte para esse país distante, onde ninguém o conhece. Parte, forte na fé no Verbo de Deus transmitida pelo Anjo. É a sua missão: deve esconder Nosso Senhor, subtrai-lo de seus perseguidores, e voltará a Nazaré apenas quando o perigo tiver cessado. José é o ministro e o protetor da vida oculta de Jesus, como os Apóstolos são os ministros de sua vida pública. 

Nesta vida oculta, bem no meio das provações, a noite escura da fé se ilumina à luz mais radiante e sempre mais doce que emana da santa alma do Verbo Encarnado. De volta a Nazaré, durante os anos em que a Sagrada Família permaneceu lá, o recolhimento e o silêncio reinaram na pequena casa do carpinteiro, verdadeiro santuário, mais sagrado do que o Santo dos Santos do templo de Jerusalém. É um silêncio cheio de doçura, a contemplação totalmente amante do mistério infinito de Deus que veio no meio de nós, mas ainda ignorado por todos. Às vezes, algumas palavras lançam luz sobre o estado profundo das almas. Mas, nesta atmosfera de inocência e de amor, as almas eram transparentes umas para com as outras e se compreendiam com o olhar, sem precisar de palavras. 

Após a contemplação da Beatíssima Virgem, não teríamos, talvez, aqui na terra, nada semelhante à contemplação simples e amante do humilde carpinteiro, quando olhava para Jesus. Por graça, havia recebido os sentimentos do mais devoto e delicado pai e protetor, e era amado por Jesus, menino e adolescente, com uma ternura, uma gratidão e uma intensidade que se poderia encontrar apenas no coração de Deus. Um olhar de S. José sobre Jesus lembrava ao humilde artesão o mistério de Belém, o exílio no Egito, o grande mistério da salvação do mundo. A ação incessante do Verbo Encarnado sobre José era a ação criadora, que conserva a vida depois de tê-la dado: “o amor de Deus, que infunde e conserva a bondade nas coisas”, como diz S. Tomás[41], a ação sobrenatural, fecunda de graças sempre novas. É impossível encontrar maior magnitude em uma simplicidade tão perfeita. 

Tal como no profeta José do Velho Testamento, vendido por seus irmãos e figura de Cristo, havia nele [José] a mais alta contemplação na forma mais simples, a contemplação divina, toda penetrada pelo puro amor da caridade. Levava no coração o maior segredo, o da Encarnação redentora. O momento de revelá-lo ainda não havia chegado. Os Judeus não teriam compreendido, não teriam acreditado, e a maior parte deles esperava um Messias temporal, carregado de glória, e não um Messias pobre e sofredor como nós. A presença de S. José cobre este mistério: Jesus era chamado o filho do carpinteiro. O pobre artesão tinha em sua casa o Verbo de Deus encarnado, possuía o Desejado das nações, anunciado pelos profetas, mas não dizia nada. Era testemunha deste mistério, regozijava-se em segredo e silenciava.

Esta contemplação muito amorosa era muito doce para S. José, mas exigia dele também a maior abnegação; abnegação que chegava até o mais doloroso sacrifício, quando lhe voltavam à mente as palavras de S. Simeão: “Esse menino será um sinal de contradição”, e aquelas ditas a Maria, “e uma espada vos traspassará a alma”. A aceitação do mistério da Redenção através do sofrimento parecia a S. José como a consumação dolorosa do mistério da Encarnação, e exigia toda a generosidade do seu amor para oferecer a Deus, em sacrifício supremo, o Menino Jesus e a Sua santa Mãe, que ele amava incomparavelmente mais do que sua própria vida. Ele não ofereceu o Sacrifício eucarístico, mas muitas vezes ofereceu o Menino Jesus ao Pai Eterno por nós. Como disse o Abade Sauvé: “Não vendo que a vontade de Deus, S. José recebeu dela, com a mesma simplicidade, seja as alegrias mais profundas, seja as provas mais cruéis”.

Podemos male mal imaginar os que foram na alma de S. José os progressos da fé, da contemplação e do amor. Da mesma forma que o humilde carpinteiro viveu uma vida escondida na terra, assim ele foi glorificado no Céu. Aquele a quem o Verbo de Deus obedeceu aqui na terra conserva no céu sobre o Sagrado Coração de Jesus um incomparável poder de intercessão. Como velava sobre a casa de Nazaré, vela hoje sobre os lares cristãos, sobre as comunidades religiosas, sobre as virgens consagradas a Deus; é o seu guia, diz S. Teresa, nos caminhos da oração. É, portanto, como se diz na Ladainha, a consolação dos míseros, a esperança dos doentes, o patrono dos moribundos, o terror dos demônios, o Protetor da Santa Igreja, grande família de Nosso Senhor. Peçamos-lhe de nos fazer conhecer o valor da vida oculta, o esplendor dos mistérios de Cristo e a infinita bondade de Deus, tal qual Ele a viu na Encarnação Redentora.

Roma. Angélico. 1929.




ABORTO - O GRITO SILENCIOSO

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