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segunda-feira, 23 de abril de 2012

O manual de instruções do ser humano

Constanza Miriano é uma católica italiana, 41 anos, casada, mãe de quatro filhos (dois de cada tipo, como ela diz), autora do livro Case-se e seja submissa, formada em Letras Clássicas, mas é jornalista da RAI (tg3 nazionale) e colabora com Avvenire e Il Timone. Em suas próprias palavras: "É católica fervorosa e, convencida de que o Céu se alcança apenas por Q.I. [quem indica], procura sempre canais preferenciais para chegar ao Chefe Supremo. Particularmente, acredita que a Missa e o terço sejam os canais que melhor funcionam". Ela costuma ir à Missa todos os dias, sem ser, contudo, 'alinhada com a Tradição'. Os textos dela são leves, mas há certa profundidade, que, para mim, ela mais 'intui' do que 'sabe': como todo contemporâneo que se apercebe que há algo errado, mas não liga o nome à pessoa. Este texto, lido com o devido cuidado e reserva, prova justamente o que eu digo. Lendo-o, cheguei a ficar animada e esperei por um gran finale... que não veio. A conclusão lógica está ali, pronta para desabrochar das premissas quase que pressentidas, mas... ficou a desejar. Acabou de forma 'conciliar'. Nem é culpa dela. A percepção das coisas é também uma graça.



O manual de instruções do ser humano (replay)


por Costanza Miriano

As leituras da Missa eu as compreendo em parcelas, como nas piadas do meu amigo Paulo: eu sempre rio depois. E ainda bem que eu tenho o missal, porque, de manhã, ou chego tarde ou durmo; depois releio. 

O Evangelho de ontem, no início, não me pareceu tão perigoso. Há passagens que te incomodam – Lázaro que está no inferno[1], as bem-aventuranças, apartai-vos de mim ó malditos[2], e muitos outros – mas este parecia, afinal, inofensivo. Particularmente, tenho a minha playlist de páginas evangélicas preferidas, ouço com alegria as que me dão menos trabalho. As outras as ignoro com elegante negligência. Dou uma de João sem braços. 

No entanto, o Evangelho de ontem dizia: "até que passem o céu e a terra, não passará um só iota, uma só vírgula da Lei, sem que tudo seja cumprido"[3]

Suspiro de alívio, posso ir tranquilamente ao trabalho, aliás, voltar a vagar com a mente (não há nada melhor para fazer lembrar de todas as coisas atrasadas por fazer do que sentar em um desconfortável banco de madeira pela manhã: a mente voa como um foguete em direção às listas de compras a fazer, amigos a visitar, telefonemas a dar, transferências bancárias e contas atrasadas de todo tipo). 

Depois, porém, começo a pensar que, se nem mesmo um iota será mudado, não posso ignorar tantas páginas antipáticas. O iota é um sinalzinho minúsculo, que na época de Jesus nem se usava, porque o texto, em hebraico, não tinha vogal. E, se nem mesmo algo que nem está escrito pode ser mudado, estamos bem arranjados!

E se alguém se ativer à lógica da lei, estaremos mesmo encrencados! Mas uma solução nos é dada pela primeira leitura, o Deuteronômio, que diz: "esta grande nação é o único povo sábio e inteligente"[4].

Afinal, a Bíblia não é uma lista de prescrições, mas sabedoria e inteligência: o manual de instruções do ser humano. Quem procura segui-las não é melhor ou mais santo, apenas funciona melhor. 

Romano Amerio[5], um grande estudioso católico do século XX – autor do Iota unum, que é uma crítica "tradicionalista" de alguns aspectos da Igreja contemporânea – diz que a Igreja não deve trair o seu mandato de anunciar a Verdade inteira, exatamente sem mudar uma vírgula sequer, e diz, também (sempre se eu entendi direito, entre uma lista de compras e uma escapadela), que este dever vem antes ainda do amor. Em Deus vem antes a inteligência, depois o amor: não sou eu quem o diz, e nem Romano Amerio, mas o Evangelho e São Paulo e Santo Agostinho.

Atualmente, apelar para um amor universal e geral e indistinto está na moda, mas a Verdade deve vir antes.

Vem antes porque da Verdade deriva tudo, inclusive o amor, a fraternidade entre nós e as obras. Muitas vezes, as paroquias são autênticas agências de animação social, e se esquecem do anúncio.

A Verdade nos diz quem nós realmente somos – filhos amadíssimos do Todo Poderoso (prefiro em espanhol[6]) – e qual é a nossa verdadeira felicidade. 

Nós, contemporâneos, somos agora, de fato, intolerantes a qualquer tipo de gaiola, de restrição, de limite à nossa determinação totalmente arbitrária. 

Se quisermos conquistar alguém para Deus, devemos lhe falar não da lei, mas de felicidade, de alegria, de sucesso. De como somos feitos nós, todos nós, dAquilo pelo qual nosso coração inquieto é feito.


[1] Na verdade, Lázaro está no seio de Abrão e o rico está no inferno (Lucas, 16.19).
[2] "Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos"(Mateus 25,41).
[3] Mateus 5,17-19.
[4] Deuteronômio, 4,6.
[5] Romano Amerio (1905-1997) foi o mais renomado teólogo, filólogo e filósofo suíço-italiano (Lugano). As suas posições fortemente críticas sobre os desenvolvimentos pós-conciliares na liturgia e na eclesiologia católica o levaram, em vida, a um longo período de isolamento e de ostracismo cultural, sobretudo por causa da questão lefebvriana, que colocou em lados opostos o Arcebispo tradicionalista da Fraternidade São Pio X, Mons. Marcel Lefebvre, e o Papa João Paulo II, fazendo com que sua obra fosse, em grande parte, ignorada ou esquecida. No Concílio Vaticano II, ele foi um dos peritos e foi também consulente do Card. Siri. Em seus escritos, Amerio individua três documentos do Magistério que foram, implícita e intelectualmente, negados nos trabalhos conciliares: a encíclica ‘Quanta cura’ de Papa Pio IX; o decreto ‘Lamentabili Sane Exitu’ de Papa Pio X; e a encíclica ‘Humani Generis’ de Papa Pio XII. Amerio criticou também a nova criatividade litúrgica pós-conciliar, por ele estar mais alinhado com o pensamento da Encíclica ‘Mediator Dei’ de Papa Pio XII. Nas modificações institucionais do Santo Ofício, defendeu que o abandono formal do termo ‘heresia’ nas investigações oficiais e nos procedimentos levaria a consequências dramáticas, tanto na vida da Igreja quanto nos estudos acadêmicos cristãos. Promotor da apologética, ele continuou fortemente ligado à tradição tomística e agostiniana, desaprovando profundamente o corriqueiro recorrer, por parte dos intelectuais católicos, ao kantismo, ao hegelianismo e ao espinozismo. Traduzida em seis línguas, a sua obra é reconhecida como o contributo maior à individuação da crise da Igreja no último século e à conservação da grade tradição filosófica tomista. Foi um dos sócios fundadores da primeira associação de católicos tradicionalistas: Una Voce (Foederatio Internationalis Una Voce). Durante o pontificado de Bento XVI, começou uma lenta obra de revalorização e de parcial reabilitação do teólogo suíço. Diz-se que foi ele o secreto (e involuntário) inspirador da Encíclica ‘Caritas in Veritate’. E, por causa da publicação do Motu Proprio Summorum Pontificum, o pensamento de Amerio foi surpreendentemente redescoberto, em 2007, pela revista dos Jesuítas, La Civiltà Cattolica
[6] A autora preferiu escrever Todo Poderoso (Espanhol) do que Onnipotente (Italiano). 

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