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sábado, 14 de julho de 2018

Os Mártires da Revolução Francesa

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Os Mártires da Revolução Francesa


“... É até um elenco tão vasto e tão admirável que hesitamos em destacar alguns dos episódios mais comoventes. Não será injusto dar sequer a impressão de que queremos fixar um palmares, um elenco de vencedores, quando em todas as páginas desse livro escrito com sangue brilham o heroísmo e a santidade? Padres, religiosos, religiosas, simples leigos, homens e mulheres, todas as condições sociais à mistura - mas certamente a maioria gente humilde, gente do povo -, foram às dezenas, às centenas, os que preferiram morrer a abjurar, apesar de, em muitos casos, abjurar fosse apenas um gesto exterior, mera formalidade. Como escolher entre eles? 


Vemos surgir, mais tarde tornadas ilustres pelo romance e pelo teatro, as dezesseis Carmelitas de Compiègne, que morreram a 17 de julho de 1794, dez dias antes da queda de Robespierre. Presas por terem continuado a viver juntas após a supressão do seu convento, levadas perante o Tribunal revolucionário, diz-se que uma delas teve a presença de espírito bastante para perguntar a Fouquier-Tinville o que é que ele entendia pelo termo ‘fanatismo’ com que as brindava. E que, tendo ele respondido: ‘O vosso fanatismo é a vossa tola paixão pelas estúpidas práticas religiosas’, replicou: ‘Ó irmãs, ouvistes bem? Somos condenadas pela nossa religião... Que felicidade morrer pelo nosso Deus!’. Exatamente: com essas palavras, o acusador acabava de fazer mártires. Ao pé do cadafalso, elas renovaram os votos e entoaram o ‘Veni Creator’, que só deixou de se ouvir quando a última foi morta... (85)[1] . Página grandiosa, digna de ser exaltada, como foi, por Gertrud von le Fort e por George Bernanos. Mas terão sido menos sublimes essas Sacramentinas de Bollene que, antes de morrer, agradeceram aos juízes e aos algozes, e uma das quais beijou o cadafalso antes de lá subir? Ou as Ursulinas de Valenciennes, que cantaram o ‘Te Deum’ e rezaram pelos carrascos? Ou as Irmãs da Caridade de Arras, que chegaram à guilhotina cingidas nos terços? E tantas outras que é impossível evocar sem emoção...

Entre os homens, quantos religiosos foram igualmente heroicos! Os beneditinos da Secção dos Gravilliers, que declararam com firmeza nunca terem deixado de celebrar missa clandestinamente... O pe. lmbert, dominicano de Castres, que, condenado à morte, se recusou a subir à carroça, dizendo: ‘O meu Senhor Jesus ia a pé; reclamo para mim ir a pé’... Os Recoletos e os Carmelitas de Arras, que marcharam para o suplício cantando as ‘Vésperas dos Defuntos’... O pe. Fraisse, prior da Ordem de Malta, que, tendo tido a fraqueza de prometer entregar o certificado de presbítero, reagiu e veio ele próprio oferecer-se ao Tribunal revolucionário, para morrer...

No clero secular, as figuras exemplares são inúmeras. Aqui vemos Cormaux, ‘o santo da Bretanha’, que, no decurso do interrogatório, se recusa a dissimular a mínima parcela de verdade, fornecendo ele próprio argumentos aos acusadores... E van Cleemputte, que, por ser ‘patriota’, não se deixa condenar como realista, mas se adianta a declarar que nunca parou de fazer um apostolado clandestino... E pe. Noel Pinot, que, conduzido para a morte, vestido de alva e casula por derrisão, recita ao pé do cadafalso o ‘lntroibo ad altare Dei’ da sua última missa... E o encantador pe. Salignac-Fénelon, fundador e diretor da Obra dos Padres Savoianos: condenado, ainda prega do alto da carroça que o leva ao suplício...

A lista seria interminável! E ainda teríamos de acrescentar dezenas de leigos que, com toda a evidência, morreram igualmente como testemunhas da fé. Em Lyon, é o comerciante Auroze, que, à pergunta ‘És fanático?’, responde: ‘Serei tudo o que quiserdes, mas o que sou é católico’, e por isso foi condenado. Em Anjou, é um senhor chamado De Valfons, que, no início do interrogatório para identificação, acrescenta ao sobrenome os adjetivos ‘católico, apostólico e romano’... Em Seine-et-Oise, é Marie Langlois, mocinha de vinte e dois anos, criada de lavoura, que, denunciada pelo pároco constitucional[2], troça visivelmente dos juízes e das suas perguntas ocas... Noutro lugar, é Elisabeth Minet, que reivindica altivamente a responsabilidade de uma enorme falta: durante todo o Terror, nunca deixou de distribuir estampas de Nossa Senhora... Alhures, é Genevieve Goyon, costureira de setenta e seis anos, que se recusa a entregar os dois dominicanos que tem escondidos em casa, e morre com eles...

No romance em que evocou o drama das Carmelitas de Compiégne (86)[3], Gertrud von le Fort põe na boca de uma das personagens estas palavras: ‘A França não bebeu apenas o sangue dos seus filhos. Derramou também o seu sangue por eles, o mais puro, o mais nobre’. Já de há muito a História registrou a eficácia sobrenatural do martírio, o seu misterioso poder de resgate.”

Daniel Rops, A Igreja das Revoluções (I). Quadrante, São Paulo, 2003, pp. 70, 71. 


Notas: 
1. (85) São Pio X beatificou-as em 1906.
2. São os religiosos que traíram a Cristo para salvar a pele, são os chamados padres juramentados, porque juraram à Constituição revolucionária e, portanto, contra Cristo e a sua Igreja. 

3. (86) ‘Die Lette am Schafott’ [traduzido pela Quadrante: ‘A última ao cadafalso’, São Paulo, 1998], de onde Georges Bernanos tirou os seus ‘Diálogos das Carmelitas’.


Vide a biografia do autor: https://farfalline.blogspot.com/2018/07/biografias-daniel-rops.html.   




Mártires da Revolução no Pale Ideas: 


2. Irmã Margarida Rutan: http://farfalline.blogspot.com/2014/04/beata-margarida-rutan-martir-da.html.


       

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