Pesquisar este blog

CALENDÁRIO 2019

CALENDÁRIO 2019
CLIQUE AQUI

sábado, 14 de julho de 2018

Os Mártires da Revolução Francesa

Clique para ver mais imagens 

Os Mártires da Revolução Francesa


“... É até um elenco tão vasto e tão admirável que hesitamos em destacar alguns dos episódios mais comoventes. Não será injusto dar sequer a impressão de que queremos fixar um palmares, um elenco de vencedores, quando em todas as páginas desse livro escrito com sangue brilham o heroísmo e a santidade? Padres, religiosos, religiosas, simples leigos, homens e mulheres, todas as condições sociais à mistura - mas certamente a maioria gente humilde, gente do povo -, foram às dezenas, às centenas, os que preferiram morrer a abjurar, apesar de, em muitos casos, abjurar fosse apenas um gesto exterior, mera formalidade. Como escolher entre eles? 


Vemos surgir, mais tarde tornadas ilustres pelo romance e pelo teatro, as dezesseis Carmelitas de Compiègne, que morreram a 17 de julho de 1794, dez dias antes da queda de Robespierre. Presas por terem continuado a viver juntas após a supressão do seu convento, levadas perante o Tribunal revolucionário, diz-se que uma delas teve a presença de espírito bastante para perguntar a Fouquier-Tinville o que é que ele entendia pelo termo ‘fanatismo’ com que as brindava. E que, tendo ele respondido: ‘O vosso fanatismo é a vossa tola paixão pelas estúpidas práticas religiosas’, replicou: ‘Ó irmãs, ouvistes bem? Somos condenadas pela nossa religião... Que felicidade morrer pelo nosso Deus!’. Exatamente: com essas palavras, o acusador acabava de fazer mártires. Ao pé do cadafalso, elas renovaram os votos e entoaram o ‘Veni Creator’, que só deixou de se ouvir quando a última foi morta... (85)[1] . Página grandiosa, digna de ser exaltada, como foi, por Gertrud von le Fort e por George Bernanos. Mas terão sido menos sublimes essas Sacramentinas de Bollene que, antes de morrer, agradeceram aos juízes e aos algozes, e uma das quais beijou o cadafalso antes de lá subir? Ou as Ursulinas de Valenciennes, que cantaram o ‘Te Deum’ e rezaram pelos carrascos? Ou as Irmãs da Caridade de Arras, que chegaram à guilhotina cingidas nos terços? E tantas outras que é impossível evocar sem emoção...

Entre os homens, quantos religiosos foram igualmente heroicos! Os beneditinos da Secção dos Gravilliers, que declararam com firmeza nunca terem deixado de celebrar missa clandestinamente... O pe. lmbert, dominicano de Castres, que, condenado à morte, se recusou a subir à carroça, dizendo: ‘O meu Senhor Jesus ia a pé; reclamo para mim ir a pé’... Os Recoletos e os Carmelitas de Arras, que marcharam para o suplício cantando as ‘Vésperas dos Defuntos’... O pe. Fraisse, prior da Ordem de Malta, que, tendo tido a fraqueza de prometer entregar o certificado de presbítero, reagiu e veio ele próprio oferecer-se ao Tribunal revolucionário, para morrer...

No clero secular, as figuras exemplares são inúmeras. Aqui vemos Cormaux, ‘o santo da Bretanha’, que, no decurso do interrogatório, se recusa a dissimular a mínima parcela de verdade, fornecendo ele próprio argumentos aos acusadores... E van Cleemputte, que, por ser ‘patriota’, não se deixa condenar como realista, mas se adianta a declarar que nunca parou de fazer um apostolado clandestino... E pe. Noel Pinot, que, conduzido para a morte, vestido de alva e casula por derrisão, recita ao pé do cadafalso o ‘lntroibo ad altare Dei’ da sua última missa... E o encantador pe. Salignac-Fénelon, fundador e diretor da Obra dos Padres Savoianos: condenado, ainda prega do alto da carroça que o leva ao suplício...

A lista seria interminável! E ainda teríamos de acrescentar dezenas de leigos que, com toda a evidência, morreram igualmente como testemunhas da fé. Em Lyon, é o comerciante Auroze, que, à pergunta ‘És fanático?’, responde: ‘Serei tudo o que quiserdes, mas o que sou é católico’, e por isso foi condenado. Em Anjou, é um senhor chamado De Valfons, que, no início do interrogatório para identificação, acrescenta ao sobrenome os adjetivos ‘católico, apostólico e romano’... Em Seine-et-Oise, é Marie Langlois, mocinha de vinte e dois anos, criada de lavoura, que, denunciada pelo pároco constitucional[2], troça visivelmente dos juízes e das suas perguntas ocas... Noutro lugar, é Elisabeth Minet, que reivindica altivamente a responsabilidade de uma enorme falta: durante todo o Terror, nunca deixou de distribuir estampas de Nossa Senhora... Alhures, é Genevieve Goyon, costureira de setenta e seis anos, que se recusa a entregar os dois dominicanos que tem escondidos em casa, e morre com eles...

No romance em que evocou o drama das Carmelitas de Compiégne (86)[3], Gertrud von le Fort põe na boca de uma das personagens estas palavras: ‘A França não bebeu apenas o sangue dos seus filhos. Derramou também o seu sangue por eles, o mais puro, o mais nobre’. Já de há muito a História registrou a eficácia sobrenatural do martírio, o seu misterioso poder de resgate.”

Daniel Rops, A Igreja das Revoluções (I). Quadrante, São Paulo, 2003, pp. 70, 71. 


Notas: 
1. (85) São Pio X beatificou-as em 1906.
2. São os religiosos que traíram a Cristo para salvar a pele, são os chamados padres juramentados, porque juraram à Constituição revolucionária e, portanto, contra Cristo e a sua Igreja. 

3. (86) ‘Die Lette am Schafott’ [traduzido pela Quadrante: ‘A última ao cadafalso’, São Paulo, 1998], de onde Georges Bernanos tirou os seus ‘Diálogos das Carmelitas’.


Vide a biografia do autor: https://farfalline.blogspot.com/2018/07/biografias-daniel-rops.html.   




Mártires da Revolução no Pale Ideas: 


2. Irmã Margarida Rutan: http://farfalline.blogspot.com/2014/04/beata-margarida-rutan-martir-da.html.


       

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Este blog é CATÓLICO. Ao comentar, tenha ciência de que os editores se reservam o direito de publicar ou não.

COMENTE aqui. Para outros assuntos, use o formulário no menu lateral. Gratos.

ABORTO - O GRITO SILENCIOSO

CONHEÇA O NOVO SITE DA EDITORA

Se vc é das Missões Cristo Rei, cadastre-se aqui