Pesquisar este blog

Novidades!!!

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Consolações para os fiéis em tempo de perseguições, de cismas e de heresias

Festa de Cristo Rei – 2016

Queridos fiéis das Missões Cristo Rei, 

Um fiel da Missão de São Miguel de Tucumán (Argentina) me passou esta carta que um sacerdote francês, o Pe. Demarís(1), em plena Revolução Francesa, escreve da prisão em resposta a seus fiéis que lhe manifestaram sua preocupação ante a eventualidade de ficarem sem sacramentos e a tentação de recebê-los das mãos daqueles sacerdotes juramentados que apostataram.  

Bem, podemos fazer o paralelo com o que nos sucede hoje! ... Quantos são os fiéis que apostatam por receber sacramentos, seja de modernista, seja de conservadores ou tradicionalistas que estão, de fato ou de desejo, unidos à falsa igreja nascida do Concílio Vaticano II!... Estas reflexões vão como meditação e consolo para o que deve ser o vosso agir ante a dura prova a que o Bom Deus nos escolheu para melhor manifesta-Lhe nosso amor e fidelidade.

Quis elencá-la com números, dada sua extensão e a importância dos temas tratados. A mesma foi tomada do blog RC(2). Omito parte do prólogo, que não nos diz respeito: 

...Se a tirania liberal continua agindo, nos resta o consolo que nos deixou um grande Sacerdote francês, que não teve medo do martírio, o Padre Demarís. Envio-lhe a carta que ele mandou a seus fiéis, quando ficaram sem Missa, por culpa da Revolução, a mesma que hoje ocupa Roma, para que a aproveitem também todos os leitores dos comentários. 

(A caridade do Padre Demarís, que via os fiéis ameaçados de ficarem sem Sacerdotes, lhe fez escrever, ainda que aprisionado, a pedido deles e para seu consolo, a Regra de Conduta que segue). 



Consolações para os fiéis em tempo de perseguições, de cismas e de heresias 


Meus queridos filhos:

1) Postos no meio das vicissitudes humanas e do perigo próprio da explosão das paixões, vocês enviam mostras de caridade a seu padre e pedem uma regra de conduta. Vou mostrá-la a vocês e tentarei levar às suas almas o consolo de que necessitam: Jesus Cristo, o modelo dos cristãos, nos ensina com Sua conduta o que devemos fazer nos penosos momentos em que nos encontramos. Certos fariseus Lhe disseram um dia: “Sai daqui, porque Herodes quer te matar”. Ele respondeu: “Ide e dizei a essa raposa: Eis que eu lanço fora os demônios e faço curas: hoje e amanhã, e ao terceiro dia virá meu termo. Importa, contudo, que eu caminhe hoje, amanhã e no dia seguinte; porque não convém que um profeta morra fora de Jerusalém.” (Lucas 13,31-33.) 


2) Tremei, meus queridos filhos. Tudo o que veem, tudo o que ouvem é atemorizador. Mas se consolem: está se cumprindo a vontade de Deus. Vossos dias estão contados, Sua Providência gravita sobre vocês. Queiram bem a estes homens que a Humanidade lhes apresenta como feras selvagens. São instrumentos que o Céu utiliza para seus desígnios e, como um mar enfurecido, não transpassarão o limite determinado contra as ondas que oscilam, se agitam e ameaçam. 

O redemoinho tempestuoso da Revolução que golpeia à direita e à esquerda, e os ruídos que os alarmam, são as ameaças de Herodes. Que elas não os afastem das boas obras, que não alterem sua confiança e não manchem o brilho de suas virtudes que os unem a Jesus Cristo. Ele é vosso modelo, e as ameaças de Herodes não o desviam de forma alguma do curso do seu destino. 

3) Sei que correm risco de prisão, e inclusive de morte. Dir-lhe-eis, pois, o que São Pedro disse aos primeiros fiéis: É uma graça que, por consideração a Deus, se suportem dores injustamente padecidas. Pois que glória há em serem pacientes quando obram mal e são castigados? Mas se são pacientes quando obram bem e padecem, isso é agradável diante de Deus. A isso foram chamados, pois também Cristo padeceu por vocês, dando-lhes exemplo a fim de que sigam Seus passos. Ele não fez mal, nem se encontrou engano algum em sua boca; injuriado, não devolvia injúrias; padeceu e não ameaçava, e se entregou a Quem julga justamente” (I Pedro 2,19-24).

Os discípulos de Jesus Cristo, em sua fidelidade a Deus, são fiéis à sua pátria, e cheios de submissão e respeito para com as autoridades. Escudados em seus princípios, com uma consciência irrepreensível, adoram a vontade de Deus. Não hão de fugir covardemente da perseguição. Quando alguém ama a cruz, é audaz para abraçá-la, e o próprio amor nos regozija. A perseguição é necessária para nossa íntima união com Jesus Cristo. Pode desatar a cada instante, mas nem sempre tão meritória nem tão gloriosa. Se Deus não os chama ao martírio, vocês serão como estes ilustres confessores de quem São Cipriano diz: Sem que tivessem morrido nas mãos dos carrascos, receberam o mérito do martírio porque estavam preparados para ele

4) A conduta de São Paulo registrada nos Atos dos Apóstolos (Cap. 21) nos dá este belo modelo, tomado do modelo de Jesus Cristo. A caminho de Jerusalém, Paulo soube em Cesareia que lá estaria exposto à perseguição. Os fiéis lhe rogaram que evitasse Jerusalém, mas acreditava ele ser chamado a ser crucificado com Jesus Cristo, se essa fosse a Sua vontade. Em resposta lhes disse: “Que fazeis chorando e afligindo meu coração? Porque estou pronto não só para ser atado, mas até para morrer em Jerusalém pelo Nome do Senhor Jesus” (Atos 21,13).

Aqui estão, meus queridos filhos, quais devem ser suas disposições. O escudo da fé deve nos armar, a esperança nos sustentar, e a caridade nos dirigir em tudo. Se em tudo e sempre devemos ser simples como as pombas e prudentes como as serpentes, tanto mais quando somos afligidos por causa de Jesus Cristo. 

5) Recordar-lhes-ei, agora, uma máxima de São Cipriano, que, nesses momentos, deve ser a regra de vossa fé e vossa piedade: Não devemos buscar demasiadamente, diz este ilustre mártir, a ocasião do combate, e não a devemos demasiadamente evitar. Aguardemo-la a partir da ordem de Deus, e esperemos tudo de Sua misericórdia. Deus requer de nós antes uma humilde confissão do que um testemunho demasiadamente audaz

6) A humildade é toda a nossa força. Esta máxima nos convida a meditar sobre a força, a paciência e inclusive a alegria com que os santos sofreram. 

Vejam o que São Paulo diz. Convencer-se-ão de que, quando se está animado pela fé, os males não nos afetam mais do que exteriormente, e não são mais do que um instante de combate que a vitória coroa. Esta verdade consoladora só pode ser apreciada pelo justo. Assim, não se surpreendam que, em nossos dias, creiamos o que São Cipriano viu em seus tempos, durante a primeira perseguição: que a maior parte dos fiéis corria ao combate com alegria!  

7) Amar a Deus e não temer senão a Ele é patrimônio do pequeno número dos eleitos. Este amor e este temor é que formam os mártires, desapegando os fiéis do mundo e apegando-os a Deus e à Sua santa Lei. 

Para manter este amor e temor em seus corações, vigiem e rezem, incrementem suas boas obras, e unam a elas as instruções edificantes das quais os primeiros fiéis nos deram exemplo. Familiarizem-se com os confessores da Fé, e glorifiquem prontamente ao Senhor, como os primeiros cristãos, como é lembrado pelos Atos dos Apóstolos

8) Esta prática lhes será tanto mais salutar quanto mais privados estejam dos ministros do Senhor, que lhes alimentavam suas almas com o pão da Palavra. Chorem a esses homens preciosos para a vossa piedade. Eu avalio a perda que tiveram. Parecem abandonados a si mesmos, mas este abandono, aos olhos da Fé, não lhes poderia ser salutar? A Fé é o que une aos fiéis. Ao aprofundar esta verdade, reconhecemos que a ausência corporal não rompe esta união porque não rompe os vínculos da Fé, senão que mais a aumenta ao despojá-la de todo o sensível

Os cristãos que só vivem da Fé, não vivem senão por ela. Se este vínculo os uniu com ministros do Senhor que vocês respeitam, consolem-se: a ausência deles purifica e aviva a amizade que nos une. A Fé nos faz presentes aos que amamos em relação à nossa salvação, quaisquer que sejam, inclusive, as distâncias e as cadeias que os separem de nós. A Fé nos dá olhos tão perceptivos que podemos vê-los onde quer que estejam, ainda que estivessem nos confins da terra ou, inclusive, ainda que a morte os separasse de nós. Nada está alijado da Fé. Ela penetra no mais profundo da terra como no mais alto dos céus. A Fé está acima dos sentidos, e seu império está sobre o poder dos homens. Quem pode tirar-nos a lembrança? Quem pode impedir que nos apresentemos diante de Deus com os que amamos, e imploremos nosso pão cotidiano com orações unidas às orações dos que amamos? Não basta, meus filhos, apenas consolá-los pela ausência dos ministros do Senhor, e enxugar as lágrimas que derramam por suas cadeias. 

9) Como esta perda os priva dos sacramentos e das consolações espirituais, vossa piedade se alarma, se vê abandonada. Por legítima que seja a desolação de vocês, não esqueçam que Deus é seu Pai e que, se permite que careçam dos mediadores instituídos por Ele para dispensar seus mistérios, não fecha, por isso, os canais de Suas graças e de Suas misericórdias. Vou expô-las a vocês como os únicos recursos a que podemos recorrer para nos purificar. Leiam o que escreverei com as mesmas intenções que eu tive ao lhes escrever. Não busquemos mais do que a verdade e a nossa salvação na abnegação de nós mesmos, no nosso amor a Deus e em uma perfeita submissão à Sua vontade.

Vocês conhecem a eficácia dos sacramentos, sabem a obrigação que nos é imposta de recorrer ao sacramento da penitência para nos purificar de nossos pecados. Mas, para aproveitar destes canais de misericórdia, são necessários ministros do Senhor. Na situação em que estamos, sem culto, sem altar, sem sacrifício, sem Sacerdote, não vemos mais do que o Céu! E não temos mais mediadores entre os homens!... Que este abandono não os abata. A Fé nos oferece Jesus Cristo, esse mediador imortal. Ele vê nosso coração, ouve nossos desejos, coroa nossa fidelidade. Aos olhos de Sua misericórdia onipotente, somos aquele paralítico enfermo há trinta e oito anos (João, cap. 5) a quem, para curá-lo, lhe disse, não que fizesse vir alguém para atirá-lo na piscina, mas que tomasse sua maca e andasse. 

Se as circunstâncias da vida fazem variar a situação dos fiéis, também fazem variar nossas obrigações. Antes seríamos aqueles servos que haviam recebido cem talentos: tínhamos o exercício pacífico de nossa Religião.

Agora, temos um só talento, que é o nosso coração. Façamos que frutifique, e nossa recompensa será igual à que receberíamos se tivéssemos feito frutificar mais. Deus é justo. Não nos pede o impossível. Mas, porque é justo, nos pede fidelidade no que é possível. Com todo respeito pelas leis divinas e eclesiásticas que nos chamam ao sacramento da penitência, devo dizer-lhes que há circunstâncias em que estas leis não obrigam. É essencial para sua instrução e sua consolação que conheçam bem tais circunstâncias, a fim de que não tomem o seu próprio espírito pelo de Deus. 

10) As circunstâncias em que tais leis não obrigam são aquelas em que a vontade de Deus se manifesta para obrar nossa salvação sem a intermediação dos homens. Deus não necessita mais que de Si mesmo para nos salvar, quando quer. Ele é a fonte da vida e supre todos os meios ordinários que estabeleceu para realizar nossa salvação com os meios que Sua misericórdia nos dispensa segundo nossas necessidades. É um padre terno que, por meios inefáveis, socorre a seus filhos quando, crendo-se abandonados, só buscam a Ele e só suspiram por Ele

Se, durante nossa vida, tivéssemos negligenciado o menor dos recursos que Deus e Sua Igreja instituíram para nos santificar, teríamos sido filhos ingratos; mas, se tivessem chegado a crer que, em circunstâncias extraordinárias, não podemos prescindir também dos maiores desses recursos, esqueceríamos e insultaríamos à Sabedoria divina que nos põe à prova e que, querendo que nos vejamos privados deles, nos supre com Seu Espírito. 

Para lhes expor, meus queridos filhos, sua regra de conduta com exatidão, relacionarei com vossa situação os princípios da Fé e alguns exemplos da História da Religião, que explicitarão seu sentido e os consolarão mediante a aplicação que deles possam fazer. 

11) É verdade de Fé (Dogma) que o primeiro e mais necessário dos sacramentos é o batismo: é a porta da salvação e da vida eterna. Contudo o desejo, o anseio do batismo é suficiente em certas circunstâncias. Os catecúmenos surpreendidos pelas perseguições não receberam o batismo senão no sangue que derramaram pela Religião. Eles encontraram a graça de todos os sacramentos na confissão livre de sua fé e eram incorporados à Igreja pelo Espírito Santo, vínculo que une todos os membros à Cabeça. 

Assim se salvaram os mártires. Seu sangue lhes serviu de Batismo. Assim se salvaram todos os instruídos em nossos mistérios que desejaram (segundo sua fé) recebê-los. Assim é a Fé da Igreja, fundada sobre o que São Pedro disse: que não se pode recusar a água do batismo àqueles que receberam o Espírito Santo (Atos 10,47).

Quando temos o Espírito de Jesus Cristo, quando por amor a Ele ficamos expostos à perseguição, privados de toda ajuda, oprimidos pelas correntes do cativeiro, quando somos conduzidos ao cadafalso, então temos na Cruz todos os sacramentos. Este instrumento de nossa redenção contém todo o necessário para nossa salvação.

12) A tradição da Igreja, em seus séculos mais belos, confirma esta verdade dogmática. Os fiéis que desejaram os sacramentos, os confessores e os mártires foram salvos sem o batismo e sem qualquer outro sacramento, quando não puderam recebê-los. Disso é fácil concluir que nenhum sacramento é necessário quando é impossível recebê-lo. E esta conclusão é a Fé da Igreja. 

Santo Ambrósio considerou santo o piedoso imperador Valentiniano, ainda que tenha morrido sem o batismo, que havia desejado sem poder recebê-lo. Em tal caso, diz este Santo Doutor da Igreja, quem não recebe o sacramento da mão dos homens, o recebe da mão de Deus. Aquele que não é batizado pelos homens, o é pela piedade, o é por Jesus Cristo”. O que nos diz do batismo este grande homem, digamo-lo de todos os sacramentos, de todas as cerimônias e todas as orações nos momentos atuais.

13) Quem não pode confessar-se a um Sacerdote, mas, tendo todas as disposições necessárias para o sacramento, o deseja e tem um desejo firme e constante dele, ouve a Jesus Cristo que, tocado por sua fé e testemunha dela, lhe diz o uma vez disse à mulher pecadora: “Vá, muito te foi perdoado porque muito amaste” (Lucas 7,36-48). 

São Leão diz que o amor à justiça contém em si toda a autoridade apostólica. Expressa com isso a Fé da Igreja. Esta máxima é aplicável a todos os que, como nós, estão privados do ministério apostólico pela perseguição que afasta ou aprisiona os verdadeiros ministros de Jesus Cristo, dignos da fé e da piedade dos fiéis. Aplica-se sobretudo se formos atingidos pela perseguição. A cruz de Jesus Cristo não deixa mácula alguma quando a abraçamos e a sustentamos como é devido. Mas, aqui, ao invés de raciocínios, ouçamos a linguagem dos santos. Os confessores e mártires da África, ao escrever a São Cipriano, audaciosamente lhe disseram que voltavam com uma consciência pura e límpida dos tribunais onde haviam confessado o Nome de Jesus Cristo. Não afirmavam que iam para lá com pura e límpida consciência, mas que de lá voltavam com ela. Nada faz calar os escrúpulos como a Cruz! 

Cercados por esses extremos que são as provas dos Santos, se não pudermos confessar nossos pecados aos sacerdotes, confessemo-los a Deus. Sinto, meus filhos, vossa delicadeza e vossos escrúpulos. Que cessem, e vossa fé e vosso amor pela Cruz aumentem. Digam a si mesmos, e com sua conduta digam a todos os que os veem, o mesmo que dizia São Paulo: “Quem me separará da caridade de Jesus Cristo?” (Romanos 8,35). 

São Paulo estava então na situação de vocês, e não dizia que a privação de todo ministro do Senhor em que fosse possível encontrar-se podia separá-lo de Jesus Cristo e alterar nele a caridade. Sabia que, despojado de todo socorro humano e privado de todo intermediário entre ele e o Céu, encontraria em seu amor, em seu zelo pelo Evangelho e na Cruz, todos os sacramentos e os meios de salvação necessários para chegar ao Céu

14) A partir do que acabo de dizer, fácil lhes será ver uma grande verdade, muito apropriada para consolá-los e confortá-los: que vossa conduta é uma verdadeira confissão diante de Deus e diante dos homens. Se a confissão deve preceder a absolvição, aqui sua conduta deve preceder as graças de santidade ou de justiça que Deus nos dispensa; e é esta uma confissão pública e contínua. A confissão é necessária, diz Santo Agostinho, porque inclui a condenação do pecado. Aqui o condenamos tão pública e solenemente que ela é conhecida em toda a terra. E esta condenação (pública e contínua), que é a causa do fato de que não podemos nos aproximar de um Sacerdote, não é muito mais meritória do que uma acusação de pecados particular e feita em segredo? Não é mais satisfatória e mais edificante? A confissão secreta de nossos pecados ao Sacerdote nos custava pouco. E a que fazemos hoje é sustentada pelo sacrifício geral de nossos bens, de nossa liberdade, de nosso repouso, de nossa reputação e talvez, até, de nossa vida! 

A confissão ao sacerdote quase não seria útil mais do que para nós, enquanto que a que hoje fazemos é útil para nossos irmãos, e pode servir para a Igreja inteira. Deus, por indignos que sejamos, nos faz a graça de querer servir-se de nós para mostrar que ofender a verdade e a justiça é um crime enorme, e nossa voz será tanto mais inteligível quanto maiores os males e maior a paciência com que os soframos. 

Nosso exemplo diz aos fiéis que fazer o que exigem de nós é um mal pior do que se pensa. Nós não nos confessamos por causa de um pecado, mas confessamos a verdade; a confissão mais nobre e necessária nas circunstâncias presentes. Não confessamos nossos pecados em segredo: confessamos a verdade em público! Somos perseguidos, mas a verdade não está cativa, e, na injustiça que sofremos, temos o consolo de não reter a verdade de Deus dentro da injustiça, como diz o Apóstolo das Nações, e também temos o consolo de que ensinamos a nossos irmãos a também não a reter lá. Enfim, se não confessamos nossos pecados, a Igreja os confessa por nós. 

15) Tais são as regras admiráveis da Providência, que permite estas provas para nosso mérito e para que reflitamos seriamente sobre o uso que temos feito dos sacramentos. 

O hábito e a facilidade que tínhamos para nos confessar nos deixava frequentemente na tibieza, enquanto que, hoje, privados de confessores, nós nos recolhemos em nós mesmos, e o fervor aumenta. Consideremos esta privação como um jejum para nossas almas e uma preparação para receber o batismo da penitência, que, vivamente desejado, se converterá em um alimento mais salutar. Tentemos separar de nossa conduta, que é nossa confissão diante dos homens e nossa acusação diante de Deus, todos os defeitos que possam ter se introduzido em nossas confissões ordinárias; sobretudo a pouca humildade interior. 

O que eu disse é mais do que suficiente. Não obstante, não sei se consegui tranquilizar-lhes as ansiedades e escrúpulos que a delicadeza suscita em almas reduzidas a julgar a si mesmas e a conduzir-se segundo seus próprios movimentos. 

16) Sinto, meus filhos, toda a importância de vossa solicitude; mas quando alguém confia em Deus não o deve fazer pela metade, seria falta de confiança considerar que os recursos com os quais Deus chama e conserva são incompletos e deixam a desejar na ordem da graça. Na sabedoria, maturidade e experiência dos ministros do Senhor vocês encontravam conselhos e práticas eficazes para evitar o mal, fazer o bem e avançar na virtude. Nada disso depende do caráter sacramental, mas das luzes particulares. Um amigo virtuoso, zeloso e caridoso pode ser nisto vosso juiz e vosso diretor. As pessoas piedosas não iam ao tribunal de Deus apenas para buscar instruções e luzes; elas se abriam às pessoas conhecidas por sua santa vida em conversações familiares. Façam o mesmo. Mas que a caridade mais reta reine nesse comércio mútuo de suas almas e seus desejos. Deus os abençoará, e encontrarão as luzes de que necessitam. Se este recurso lhes for impossível, descansem sobre as misericórdias de Deus. Ele não os abandonará. O Seu Espírito falará Ele próprio a vossos corações com santas inspirações que os inflamarão e os dirigirão em direção aos nobres objetivos de seus destinos. 

Eu lhes parecerei conciso neste tema. Seus desejos vão muito mais além, mas tenham um pouco de paciência. O resto de minha carta responderá por completo às suas expectativas. Não se pode dizer tudo de uma vez, sobretudo em tema tão delicado e que exige maior exatidão. Continuarei falando-lhes como eu falo a mim mesmo.

17) Afastados dos recursos do santuário, e privados de todo exercício do Sacerdócio, não nos resta outro mediador que Jesus Cristo; a Ele devemos recorrer para nossas necessidades. Temos que rasgar sem titubear o véu de nossas consciências diante de Sua Majestade Suprema, e, na auto-indagação do bem e mal que fizemos, devemos agradecê-lO por suas graças, nos reconhecer culpados de nossas ofensas... e rogar em seguida que nos perdoe e nos indique as sendas de Sua santa vontade (tendo no coração o desejo sincero de fazê-lo a seu ministro quando e tão prontamente o pudermos). Eis, meus filhos, o que chamo confessar-se a Deus. Com tal confissão bem feita, Deus mesmo vos absolverá! É o Evangelho quem no-lo ensina ao nos propor o exemplo do publicano que, humilhado diante de Deus, voltou justificado (Lucas 18,9-14)¸ porque o melhor sinal da absolvição é a justiça, que não pode ser atada porque ela é a que desata. Isto é o que devemos fazer, no isolamento total em que estamos. A Sagrada Escritura nos traça aqui os nossos deveres. 

18) Tudo o que diz respeito a Deus é santo. Quando sofremos pela verdade, nossos sofrimentos são os de Jesus Cristo, que nos honra com um tipo particular de semelhança com Ele e com a Sua Cruz. Esta graça é a maior felicidade que pode chegar a um mortal durante sua vida. 

É assim que, em todas as situações penosas que nos privam dos sacramentos, a cruz levada cristãmente é a fonte da remissão de nossas faltas, tal como, levada uma vez por Jesus Cristo, o foi das faltas de todo o gênero humano. Duvidar desta verdade é injuriar o nosso Salvador crucificado, é não reconhecer suficientemente a virtude e o mérito da Cruz. 

Digam-me, seria possível que o bom ladrão tenha recebido o perdão de suas faltas e que o fiel que abandona tudo por seu Deus não receba o perdão das suas? 

Alguns Santos Padres observam que o bom ladrão foi criminoso até a cruz, para mostrar aos fiéis o que devem esperar desta cruz quando a abraçam e permanecem ligados a ela pela justiça e a verdade. Jesus Cristo, ao terminar Seus sofrimentos, entrou no Céu através da Cruz. Nós somos seus discípulos; Ele é nosso modelo. 

Soframos como Ele e entraremos na herança que nos preparou por meio da Cruz. 

19) Mas, para ser santificado pela cruz, não se pode pertencer a si mesmo, é necessário ser por inteiro de Deus. É necessário que nossa conduta reproduza as virtudes de Jesus Cristo. Não basta, nestes tempos, que, animados por Seu amor, repousem sobre Seu peito como São João. É necessário que O sirvam com firmeza e constância, sobre o Calvário e sobre a Cruz. Lá, confessando-se a Deus, se sua confissão não é coroada pela imposição das mãos dos Sacerdotes, o será pela imposição das mãos de Jesus Cristo. Olhem Suas mãos adoráveis que parecem tão pesadas por natureza e são tão leves para os que O amam!... Elas estão distendidas sobre vocês, desde a manhã até a noite, para enchê-los com toda sorte de bênçãos, se por vocês mesmos não as rejeitarem. Não há nenhuma bênção semelhante à de Cristo crucificado quando abençoa a seus filhos sobre a Cruz. 

O sacramento da penitência é para nós, neste momento, o poço de Jacó, cuja água é excelente e salutar. Mas o poço é profundo. Desprovidos de tudo, não podemos abeberar nele e nos saciarmos (João, cap. 4). Há inclusive guardas que impedem a entrada... Este é o quadro de nossa situação. Observemos a conduta de nossos perseguidores como um castigo de nossos pecados! É certo que se pudéssemos nos aproximar deste poço com Fé, encontraríamos ali a Jesus Cristo falando com a Samaritana. Mas não nos acovardemos! Desçamos até o vale de Betúlia, onde encontraremos muitas fontes não vigiadas, em que poderemos saciar tranquilamente nossa sede. Que Jesus Cristo habite em nossos corações! Que o Seu Santo Espírito os inflame, e encontraremos em nós mesmos a fonte de água viva que suprirá o poço de Jacó. Jesus Cristo, como Sumo Pontífice, cumpre Ele mesmo, de modo inefável, na confissão que fazemos a Deus, o que teria cumprido em qualquer outro tempo por meio do ministério dos Seus Sacerdotes. E esta confissão tem uma vantagem que os homens não podem nos roubar: há, contudo, em nós, Jesus Cristo, que se ocupa continuamente de nós! Devemos fazê-la o tempo todo, em todo lugar e em todas as situações possíveis. É uma coisa digna de admiração e de reconhecimento ver que aquilo que mundo faz para nos afastar de Deus e de Sua Igreja nos aproxima ainda mais deles. 

20) A confissão não deve ser unicamente um remédio para todos os pecados passado; deve nos preservar de todos os pecados por vir. Se refletíssemos seriamente sobre esta dupla eficácia do sacramento da penitência, muito teríamos que nos humilhar e chorar! E tanto mais abatidos estaríamos então quanto mais lento tiver sido nosso avanço na virtude e mais tivermos seguido sendo os mesmos antes e depois de nossas confissões. 

Agora podemos reparar todas essas faltas, que vêm de uma confiança demasiado grande na absolvição e de não haver aprofundado o suficiente em Suas chagas! Obrigada agora a gemer diante de Deus, a alma fiel se ocupa em considerar todas suas próprias deformidades. Lá, aos pés do Salvador, e penetrada pela dor e o arrependimento, permanece, então, em silêncio, sem Lhe falar, a não ser por suas lágrimas, como a pecadora do Evangelho, enquanto vê, de um lado, suas misérias e, do outro, a bondade de Deus. Aniquila-se diante de Sua Majestade, até que Esta dissipe seus males com um de Seus olhares. Então, a luz divina esclarece seu coração contrito e humilhado e lhe descobre até os átomos que poderiam obscurecê-la. Que esta confissão a Deus seja para vocês uma prática cotidiana, breve mas vivaz, e a façam de tanto em tanto, de tempo em tempo, como fazem cotidianamente a confissão do dia (em seu exame noturno). 

O primeiro fruto que tirarão disso, além da remissão dos pecados, será aprender a se conhecer e a conhecer a Deus. O segundo, apresentar-se sempre diante dos Sacerdotes, se lhes for possível, ornados com o carácter das misericórdias do Senhor. 

21) Creio ter-lhes dito o que devia, meus filhos, sobre a sua conduta acerca do sacramento da penitência. Vou lhes falar, agora, sobre a privação da Eucaristia, e, sucessivamente, de todos os temas que me comentam em sua carta. A Eucaristia, o sacramento do amor, lhes proporcionou muitas doçuras e vantagens quando podiam participar dela. Mas agora que dela foram privados por defender a verdade e a justiça, as vantagens de vocês são as mesmas. Pois, quem haveria ousado aproximar-se desta mesa se Jesus Cristo não houvesse feito disso um preceito, e se a Igreja, que deseja nos fortificar com este pão de vida, não nos houvesse convidado a comê-lo, através da voz de seus ministros que nos revestiam com a veste nupcial? Mas, se comparamos a obediência por causa da qual fomos privados dela com aquela que a ela nos conduzia, será fácil lhe julgar o mérito. 

Abraão obedece quando imola seu filho e quando não o imola, mas sua obediência foi muito maior quando ele empunhou a espada do que quando a guardou em sua bainha. Nós obedecemos ao nos aproximarmos da Eucaristia, mas, ao nos afastar deste sacrifício, nos imolamos a nós mesmos. Alterados pela sede de justiça e nos privando do Sangue do Cordeiro, que é o único que pode saciá-la, sacrificamos nossa própria vida na medida em que está em nós. O sacrifício de Abraão foi de um instante, um anjo deteve a espada. O nosso é cotidiano, e se renova todas as vezes que adoramos com submissão a mão de Deus que nos afasta dos altares; e este sacrifício é voluntário.

22) É ser vantajosamente privados da Eucaristia o levar o estandarte da cruz pela causa de Jesus Cristo e a glória e Sua Igreja. Observem, filhos meus, que Jesus Cristo, depois de nos haver dado Seu Corpo Eucarístico, não opôs dificuldade alguma à Sua morte por nós. Eis aqui a conduta do cristão em suas perseguições: a Cruz segue a Eucaristia. Que o amor pela Eucaristia não nos afaste, pois, da cruz! Mostramos e fazemos um glorioso progresso na glória do Evangelho quando saímos do Cenáculo para subir ao Calvário. Sim, não temo dizê-lo: quando a tempestade da malícia humana troveja contra a verdade e a justiça, é mais vantajoso para os fiéis sofrer por Jesus Cristo do que participar de Seu Corpo Sagrado na Comunhão. 

Parece-me ouvir o Salvador dizendo-nos: “Oh! Não temam ser separados de minha mesa pela confissão de meu Nome! É uma graça que lhes faço, que é um bem raro. Reparem com esta humilhação – uma privação que Me glorifica – todas as comunhões que me desonraram. Sejam conscientes desta graça: nada podem fazer sem Mim, e Eu ponho em suas mãos um recurso para que façam o que Eu fiz por vocês, e para me devolverem com magnificência o que vos dei de mais precioso! Eu vo-lo dei: quando dele se separaram para serem fiéis ao meu serviço, rendei à minha verdade o que de minha caridade teriam recebido. Nada maior pude vos dar, e nada maior vocês têm para Me dar. Vosso reconhecimento iguala, pela graça que lhes fiz, a grandeza do dom que lhes fiz. Consolem-se se não os chamo a derramar seu sangue como os mártires; eis o Meu para supri-los. Toda vez que serão impedidos de bebê-lO, os considerarei como se tivessem derramado o sangue de vocês. E o meu é infinitamente mais precioso...”. 

É assim que encontramos a Eucaristia na própria privação da Eucaristia. Ademais, quem pode nos separar de Jesus Cristo e de Sua Igreja na comunhão, quando, por meio da fé, nos aproximamos de Seus altares de modo tanto mais eficaz quanto mais espiritual e mais afastado dos sentidos?

23) Isto é o que chamo comungar espiritualmente, unindo-se aos fiéis que podem fazê-lo nos diversos lugares da terra. Esta comunhão lhes era familiar nos tempos em que podiam aproximar-se da Santa Mesa: conhecem dela as vantagens e o modo; é por isso que não vos falo. 

Vou a lhes expor o que a Santa Escritura e os Anais da Igreja me oferecem como reflexões sobre a privação da Missa e a necessidade, para os fiéis, de um sacrifício contínuo para eles em tempo de perseguição, e o farei brevemente. Prestem, meus filhos, uma atenção particular aos princípios que lhes recordarei; são inerentes à vossa edificação.

24) Nada acontece sem a vontade de Deus: que tenhamos um culto que nos permita assistir à Missa ou que sejamos privados dele, devemos submeter-nos igualmente à Sua santa vontade, e, em qualquer circunstância, sermos dignos do Deus que servimos! 

O culto que devemos a Jesus Cristo se funda sobre a assistência que nos dá e sobre a necessidade que temos de Sua ajuda. Este culto nos aponta deveres como fiéis isolados, da mesma forma como nos apontava antes no exercício público de nossa Santa Religião. 

Como filhos de Deus, segundo o testemunho de São Pedro e de São João, participamos no Sacerdócio de Jesus Cristo para oferecer orações e votos. Se não temos o caráter da Ordem sagrada para sacrificarmos sobre os altares visíveis, não estamos contudo sem hóstias, porque podemos oferecê-las no culto de nosso amor, sacrificando nós mesmos Jesus Cristo a Seu Pai, sobre o altar invisível dos nossos corações. Fiéis a este princípio, recolheremos todas as graças que poderíamos ter recolhido se tivéssemos assistido ao Santo Sacrifício da Missa. 

A caridade nos une a todos os fiéis do Universo que oferecem este Divino Sacrifício ou que lhe assistem. Se o altar material ou as espécies sensíveis nos faltam, tampouco os há no Céu, onde Jesus Cristo é oferecido de maneira mais perfeita. 

25) Sim, meus filhos, os fiéis que estão sem Sacerdotes, por serem eles mesmos Sacerdotes e reis, segundo São Pedro, oferecem seus sacrifícios sem templo, sem ministros e sem algo de sensível. Não há necessidade que de Jesus Cristo para oferecê-lo, pelo sacrifício do coração, onde a vítima deve ser consumida pelo fogo do amor do Espírito Santo. Isto significa estar unidos a Jesus Cristo, diz São Clemente de Alexandria, por meio das palavras, das ações e do coração. Estamos unidos a Ele por nossas palavras, quando estas são verdadeiras; por nossas ações, quando elas são justas; e pelo coração, quando a caridade o inflama. Então, digamos a verdade, não amemos mais do que a verdade, e assim renderemos a Deus a glória que Lhe é devida. Quando somos verdadeiros em nossas palavras, justos em nossas ações, submetidos a Deus em nossos desejos e nossos pensamentos, falando somente por meio Dele, louvando-O por Seus dons e nos humilhando por nossas infidelidades, oferecemos um sacrifício agradável a Deus, que não nos pode ser tirado. “O sacrifício que Deus reclama é um espírito penetrado de dor”, diz o santo rei Davi: Vós não desprezai, ó meu Deus, um coração contrito e humilhado (Salmo 50).

26) Resta-me considerar a Eucaristia como viático; pois vocês podem ser privados dele na hora da morte. Devo esclarecê-los e preveni-los contra uma privação tão sensível. Deus, que nos ama e nos protege, quis nos dar Seu Corpo, na proximidade da morte, para nos fortificar nesta perigosa passagem. Quando vocês lançam seus olhares ao porvir, onde se veem em agonia, sem viático, sem Extrema Unção, sem assistência alguma por parte dos ministros do Senhor, se creem no mais triste e mais doloroso dos abandonos! 

Consolem-se, meus filhos, na confiança que devem a Deus. Este terno Pai derramará sobre vocês Suas graças, Suas bênçãos e Suas misericórdias, nesses momentos terríveis que temem, com mais abundância do que se pudessem ser assistidos por Seus ministros, dos quais estão privados somente porque vocês mesmos não quiseram abandoná-lO

27) O abandono e o desamparo em que tememos nos encontrar assemelham-se aos do Salvador sobre a Cruz, quando dizia a Seu Pai: “Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste”: Ah! Quão instrutivas são estas palavras! As penas e o desamparo os conduzem a seus gloriosos destinos, fazendo que terminem sua carreira como Jesus Cristo terminou a Sua. Jesus nos sofrimentos, em Seu abandono e em Sua morte, se mantinha na mais íntima união com o Seu Pai. Em suas penas e desamparo, mantenham a mesma união com Ele, e seja vosso último suspiro como o d’Ele: que a vontade de Deus se cumpra

28) O que disse sobre a privação do viático na hora da morte, dilo-ei também sobre a Extrema Unção. Se morro entre as mãos de pessoas que não só não me assistem, como me insultam, tanto mais feliz serei quanto mais minha morte tiver conformidade com a de Jesus Cristo, que foi um espetáculo de opróbrios para toda a terra!... Crucificado pelas mãos de seus inimigos, é tratado como um delinquente, e morre entre dois ladrões! Ele era a própria Sabedoria, e passa por um insensato; era a Verdade, e passa por um embusteiro e sedutor. Os fariseus e os escribas triunfaram sobre Ele em Sua presença! No final, se saciaram com Seu sangue! Jesus Cristo morreu na infâmia do suplício mais vergonhoso, e nas dores mais atrozes! Cristãos, se vossa agonia e vossa morte são para vossos inimigos ocasião para vos insultar e vos tratar com opróbrios, qual foi a de Jesus Cristo? Não sei se o anjo que Lhe foi enviado para suprir a dureza e a insensibilidade dos homens, não o foi justamente para nos ensinar que, em uma ocasião assim, recebemos consolação do Céu, quando as terrenas nos faltam. Não foi de forma alguma sem um desígnio particular de Deus que os Apóstolos, que deveriam ter consolado Jesus Cristo, caíram em um sono profundo. 

29) Que o fiel não se assombre, pois, por se encontrar sem Sacerdote em sua última hora. Jesus Cristo repreendeu seus Apóstolos porque dormiam, não porque o deixaram sem consolação, apenas para nos ensinar que, se entramos no Horto das Oliveiras, se subimos ao Calvário, se expiramos sozinhos e sem socorros humanos, Deus vela por nós, nos consola e abastece todas nossas necessidades

Vocês fiéis que temem as consequências do momento atual, olhem para Jesus: foquem n’Ele, contemplem-nO: Ele é o seu modelo. Nada mais tenho a lhes dizer sobre este tema. 

30) Depois de havê-lO contemplado, vocês temem ainda a privação das orações e das cerimônias que a Igreja estabeleceu para honrar vossa agonia, a morte e o sepulcro? Pensem que a causa pela qual sofrem e morrem converte esta privação em uma nova glória e lhes dá o mérito do último traço de semelhança que podem ter com Jesus Cristo. A Providência permitiu e quis, para nossa instrução, que os fariseus pusessem guardas no Sepulcro para custodiar o Corpo de Jesus crucificado; e Ela quis também que, depois da Sua morte, o Seu Corpo ficasse nas mãos dos inimigos, para nos ensinar que, por mais longa que possa ser a dominação de nossos inimigos, devemos sofrê-la com paciência e rezar por eles. 

31) Santo Inácio mártir(3) que, com tanto ardor ansiava ser devorado pelas feras, não teria preferido tê-las como sepulcro no lugar do mais belo dos mausoléus? Os primeiros cristãos enviados aos carrascos acaso se afligiam por sua agonia e por sua sepultura? Ninguém se inquietou pelo que se faria com seus corpos. Sim, meus filhos, quando alguém se confia a Jesus Cristo durante a vida, bem se confia a Ele depois da morte. 

Jesus Cristo, sobre a Cruz e próximo de expirar, viu como as mulheres que o haviam seguido desde a Galileia se mantinham afastadas. Sua Mãe, Maria Madalena e o Discípulo muito amado, no entanto, estavam junto à Cruz no abatimento, no silêncio e na dor!...  

Eis, meus filhos, a imagem do que verão: a maior parte dos cristãos chora os fiéis entregues à perseguição, mas se mantêm afastados destes. Alguns, como a Mãe de Jesus, se aproximam da vítima inocente que a iniquidade imola. 

32) Destaco, com São Ambrósio, que a Mãe de Jesus sabia, ao pé da Cruz, que Seu Filho morria pela redenção dos homens, e, desejando expirar com Ele para o cumprimento desta magna obra, não temia irritar os judeus com Sua presença e morrer com Seu divino Filho. Quando virem, meus queridos filhos, alguém morrer no desamparo ou debaixo da espada da perseguição, imitem a Mãe de Jesus e não as mulheres que O haviam seguido desde a Galileia. Sejam penetrados por esta verdade: que o momento mais glorioso e mais salutar para morrer se dá quando a virtude é mais forte em nosso coração. Não se deve temer pelos membros de Jesus Cristo que estejam no sofrimento! Assistamo-los, ainda que seja só com nossos olhares e as nossas lágrimas. 

Eis, meus filhos, o que acreditei ser meu dever lhes dizer. Considero-o suficiente para responder a seus questionamentos e tranquilizar sua piedade. Coloquei os princípios sem entrar em detalhes: parece-me inútil fazê-lo. Suas firmes reflexões os suprirão facilmente, e suas conversações, se é que a Providência o permite, terão novos desejos. Devo acrescentar, meus filhos, que não devem mesmo se afligir com o assombroso espetáculo de que somos testemunhas. A Fé não se compadece com tais terrores: o número dos eleitos é sempre muito pequeno. Somente temam que Deus lhes reprove sua pouca fé e por não haver conseguido velar uma hora apenas com Ele. Admitirei, entretanto, que a humanidade pode se afligir, mas, ao reconhecer isso, direi que a Fé deve se regozijar. 

33) Deus faz bem todas as coisas. Guardai este juízo, meus filhos: é o único que é digno de vocês. Os próprios fiéis o formulavam quando o Salvador fazia curas milagrosas. O que Ele faz hoje é muito maior. Durante Sua vida mortal, curava os corpos; atualmente, cura as almas e completa, mediante a tribulação, o pequeno número dos eleitos

Quaisquer que sejam os desígnios de Deus sobre nós, adoremos a profundidade de Seus juízos e coloquemos n’Ele toda nossa confiança. Se Ele quiser nos liberar, o momento está próximo. Todos se levantam contra nós:

34) Nossos amigos nos oprimem, nossos parentes nos tratam como estrangeiros! Os fiéis que participam dos santos mistérios conosco são desviados à nossa simples vista. Não somente temem dizer que, como nós, são fiéis à sua pátria; submetidos às suas leis, mas fiéis a Deus: temem dizer que nos querem bem e até que nos conhecem. Se ficamos privados de ajuda por parte dos homens, eis-nos do lado de Deus, que, segundo o profeta rei, livrará ao pobre do poderoso e ao fraco que não tinha ajuda alguma. O Universo é a obra de Deus. Ele o rege, e tudo o que acontece está nos desígnios de Sua Providência. Quando acreditamos que a deserção está para se tornar geral, esquecemos que basta um pouco de Fé para render a Fé à família de Jesus Cristo, como um pouco do fermento faz fermentar toda a massa.

Estes acontecimentos extraordinários, em que a multidão levanta o machado para abater a obra de Deus, servem maravilhosamente para manifestar a Sua Onipotência. 

35) Por todos os séculos se verá o que viu o povo de Deus quando o Senhor quis, através de Gedeão, manifestar Sua Onipotência contra os madianitas (Juízes 5). Deus o fez mandar de volta quase todo seu exército. Trezentos homens somente foram mantidos, inclusive sem armas, a fim de que se reconhecesse visivelmente que a vitória provinha de Deus. Aquele pequeno número de soldados de Gedeão é a figura do pequeno número dos eleitos que vivem neste século. Vocês viram, meus filhos, com o mais doloroso assombro, como da multidão dos que foram chamados (já que toda a França era cristã), a maioria, como no exército de Gedeão, permaneceu débil, tímida, temerosa de perder o próprio interesse temporal. Deus os devolve. Deus não quer se servir, em Sua justiça, que daqueles quem se doam inteiramente a Ele. Não nos assombremos, pois, do grande número daqueles que O abandonam. A verdade triunfa, por pequeno que seja o número daqueles que a amam e lhe permanecem afeiçoados. Quanto a mim, só tenho um anseio: é o desejo de São Paulo. Como filho da Igreja, anseio a paz da Igreja; como soldado de Jesus Cristo, anseio morrer sob Seus estandartes.

36) Se vocês têm as obras de São Cipriano, leiam-nas, meus queridos filhos. É sobretudo aos primeiros séculos da Igreja que se deve remontar para encontrar exemplos dignos de nos servir como modelo. É nos Livros Santos e naqueles dos primeiros defensores da Fé que se deve formar uma ideia precisa do objeto do martírio e da confissão do Nome de Jesus Cristo: são a verdade e a justiça, os objetos nobres, eternos, imutáveis da Fé que ocorre confessar. É o Evangelho, pois as instruções humanas, quaisquer que sejam, são variáveis e temporais; mas o Evangelho e a Lei de Deus são inerentes à eternidade. Será meditando esta distinção que verão claramente o que é próprio de Deus e o que é próprio de César, porque, segundo o exemplo de Jesus Cristo, devem render com respeito, a um e a outro, o que lhes devem. 

37) Todas as igrejas e todos os séculos concordam: não pode haver nada tão santo e tão glorioso como confessar o Nome de Jesus Cristo. Mas lembrem-se, meus filhos, que, para confessá-lO de modo digno da coroa que desejamos, ocorre manifestar uma maior santidade no tempo em que mais sofremos. Não há nada mais belo do que essas palavras de São Cipriano quando louva todas as virtudes cristãs nos confessores de Jesus Cristo: “Vocês sempre observaram, lhes disse, o mandamento de Nosso Senhor com um vigor digno de vossa firmeza; vocês conservaram a simplicidade, a inocência, a caridade, a concórdia, a modéstia e a humildade; vocês cumpriram o seu ministério com grande cuidado e exatidão; diligenciaram para ajudar aos que tinham necessidade de ajuda, compaixão para com os pobres, constância ao defender a virtude, coragem para manter a severidade da disciplina; e, a fim de que nada faltasse aos grandes exemplos de virtude que haviam dado, eis que, por uma confissão de Fé e dos sofrimentos generosos, vocês extremadamente animam seus irmãos ao martírio e lhes traçam o caminho”.

Meus queridos filhos, ainda que Deus não lhes chame ao martírio, nem a uma confissão dolorosa de Seu Nome, espero poder um dia lhes falar como Ele falava aos confessores Celerino e Aurélio, e louvar em vocês mais a sua humildade que a sua constância; e glorificá-los mais pela santidade de seus costumes que pelas suas penas e suas chagas... 

38) Na espera desse feliz momento, façam proveito de meus conselhos e sustentem-se sozinhos com meu exemplo. Deus vela sobre vocês. A nossa esperança tem fundamento; ela nos mostra ou a perseguição que termina ou a perseguição que nos coroa. Na alternativa entre uma ou outra, vejo o cumprimento do nosso destino. 

Faça-se a vontade de Deus, pois, qualquer que seja o modo com que nos libere, as Suas misericórdias eternas se derramam sobre nós. 

Termino, meus queridos filhos, abraçando-os e rogando a Deus por vocês. Roguem-nO por mim, e recebam minha bênção paternal, como penhor de meu afeto por vocês, de minha Fé e de minha resignação sincera de não ter outra vontade que a de Deus. 

Padre Demarís

__________________ 
Notas de tradução/edição: 
(1) Rev. Pe. Demaris. Padre católico, professor de teologia junto à Casa dos Missionários de São José, em Lyon, exilado por volta de 1803, e morto pela Fé de Jesus Cristo (Cf. http://www.einsicht-aktuell.de/index.php?svar=5&artikel_id=3855 e http://www.lasapiniere.info/archives/2758#more-2758).  
(2) Originalmente, neste link: http://usuarios.lycos.es/nacionalalternativa/consolaciones.htm, que está quebrado, porque o site informado não existe mais. Vide os links abaixo. 
(3) O mártir São Inácio foi um Padre apostólico do Século I, que morreu devorado pelos leões (leia a vida dele).   

Observação: A carta é seguida por uma breve carta de Mons. de Marbœuf, Arcebispo legítimo de Lyon, aos fiéis de sua diocese, em 6 de dezembro de 1796. O livreto foi reimpresso em Beauchêne - Imprimerie R. Fazilleau, 1969, trad. Alberto Fontan. 

Tradução: Carla d'Amore.  

Fontes: 
 

3 comentários:

  1. Nunca li nada igual. Edificante! Louvado seja Nosso Senhor JESUS CRISTO!

    ResponderExcluir
  2. Muito boa essa carta. Esclareceu uma dúvida muito antiga que eu tinha. Salve Maria! Deus te pague!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Agradeçamos sempre a Jesus, como dizia Padre Pio. Nada sou, nada sei, apenas repercuto o que chega até mim. É preciso compartilhar o pão.

      Essa carta é uma das preciosidades do tesouro da Igreja para nos consolar em tempos de crise. Não há nada de novo debaixo do sol (inclusive tudo que testemunhamos), mas quando acontece conosco... parece que é original e inusitado. E pesado. Graças a Deus, a História da Igreja, além das tribulações, também tem dessas consolações.

      Penso que o Rev. Padre Demarís nem imaginou, ao escrever essa carta, o bem que nos faria. E às gerações que nos sucederão. Rezemos para que Deus recompense a esse bom pastor de almas. E rezemos uns pelos outros. Fique com Deus.

      Excluir

Este blog é CATÓLICO. Ao comentar, tenha ciência de que os editores se reservam o direito de publicar ou não.

COMENTE aqui. Para outros assuntos, use o formulário no menu lateral. Gratos.

ABORTO - O GRITO SILENCIOSO

CONHEÇA O NOVO SITE DA EDITORA