É tradição antiquíssima de piedade rezar o Rosário durante a Missa. Como sabemos, o protagonismo dos leigos é inovação pós-conciliar, típica da visão protestante de que o leigo é participante ativo da Missa, uma ideia deformada do Sacerdócio. Tenhamos presente que um Padre sozinho pode rezar a Missa sem que ninguém o ajude ou responda às orações, e que, por outro lado, nenhum leigo tem o poder de celebrar uma Missa, de consagrar uma hóstia ou de ministrar a Comunhão...
São Leonardo de Porto Maurício, grande apóstolo da Santa Missa e da Eucaristia, assim se expressou sobre o tema em seu extraordinário “O Tesouro Oculto, Méritos e Excelências da Santa Missa”:
“Eis o meio mais adequado para assistir com fruto à Santa Missa: consiste em irdes à igreja como se fôsseis ao Calvário, e de vos comportardes diante do altar como o faríeis diante do Trono de Deus, em companhia dos santos Anjos. Vede, por conseguinte, que modéstia, que respeito, que recolhimento são necessários para receber o fruto e as graças que Deus costuma conceder àqueles que honram, com sua piedosa atitude, mistérios tão santos”.
Ir à Missa é ir ao Calvário. Estar diante do altar é estar diante da Cruz no alto do Gólgota. E quem estava com Nosso Senhor nesses eventos compartilhando o Seu sofrimento? A Corredentora: “Stabat Mater Dolorosa iuxta Crux lacrimosa”... Em prece e lágrimas, Maria meditava.
Recorrer a Ela, para melhor participar dos frutos da Santa Missa, não só é útil, como sábio. Então, pode-se com Ela meditar “piamente os mistérios de Jesus Cristo”, no simples e humilde papel de leigo.
É de se notar, ainda, que a Santa Missa e o Rosário guardam certas semelhanças sutis: ambos contêm repetições que não são as que Nosso Senhor proibia, as vazias de sentido e razão, e que os modernistas pretenderam cortar, por “inúteis” (SIC!).
Na Missa, repetem-se os beijos no altar, o Confiteor, os Kyrie, os “Dominus Vobiscum” sucedidos pelos “Et cum spiritu tuo”, os inúmeros "Amen", o triplo “Domine, non sum dignus” dito pelo Sacerdote e, depois, pelos fiéis, e os diversos sinais da Cruz, e o ajoelhar/sentar/levantar respeitoso, e o Sacerdote que se vira para o povo e para o altar de novo... Há, nessas repetições todas, a solenidade do culto que se deve a Deus. Já no Rosário, as Ave-Marias se sucedem, uma após a outra, e ainda os Padre-Nossos e os Glórias; não mecanicamente, soltando palavras ocas pela boca, mas harmoniosamente, quase como um canto, um hino, uma poesia. Outra semelhança que guardam, a Missa e o Rosário, é a concentração mental e espiritual nos mistérios que estão se desenvolvendo (na Missa) ou meditando (Rosário), mirando em Nosso Senhor e sua Santa Mãe, e não na plateia eventual. Ambos requerem também método e disciplina, do corpo e da alma. São um exercício de virtudes, sobretudo para vencer a distração, arma do diabo para nos desestimular e afastar nosso pensamento e coração de Cristo. Em ambos também há a parte sensível, física: na Missa, temos o pão, o vinho, a água, o missal... No Rosário, temos as contas e continhas que rolam pelos nossos dedos, e nossos olhos eventualmente se fixam em alguma imagem para vencer a distração. A Missa e o Rosário, de igual maneira, atravessaram séculos quase que inalterados, e são de origem sobrenatural: dádivas dos Céus para nosso bem. Em ambos, Nossa Senhora é lembrada e honrada: na Missa, mesmo nos dias que não Lhe são particularmente dedicados, Seu Nome é pronunciado algumas vezes. No Rosário, nem se fala... Na Missa, há inúmeras orações, há uma cadência harmônica, repetida, há pausas, há meditações, como no Rosário. E estas semelhanças não são um motivo a mais para, querendo, se rezar o Rosário durante a Missa?
Não se trata de decretar que seja o melhor modo, mas, certamente, é um modo frutuoso de assistir à Santa Missa. Em diversos devocionários e em alguns missais, os autores listam os métodos ou modos de assistir à Missa, como no Manual do Cristão, do Padre Leonard Goffinè, o qual listou sete métodos proveitosos de "ouvir Missa", e o Rosário é um deles, ou, como disse São Leonardo, o "mais adequado".