Traduzi este artigo sobre a
festa da uva que tem se transformado a 'adequação litúrgica' inclusive na Arte Sacra Católica. Com a desculpa de implementar a
reforma benedetiana13, as nossas belíssimas igrejas estão sendo sistematicamente despidas de toda sua beleza, a qual, em última análise, é também uma forma de adoração a Deus. Como estão adorando Deus os 'modernos', os que, rompendo com uma Tradição bimilenar, querem estar na moda e no mundo? Esta pia nem é uma aberração, em termos artísticos, porque os detalhes em si, cada folhinha, o tronco, as raízes, o sol... são de uma beleza única, sem contar que se trata de uma peça em ouro de 24 quilates! Não é pouca coisa e deve ter custado caríssimo. Sim, esta pia não é uma aberração, das que vemos comumente sair das mentes e mãos dos
açogueiros da Fé. Trata-se de arte, e poderia até se tratar de Arte Sacra - e católica - se não estivesse inequivocadamente ligada a crenças supesticiosas e heréticas, até. Eu a veria muito bem representando o encontro de Moisés com seu Amigo: a
Sarça Ardente... embora esta esfera esteja completamente fora da narração sacra desse encontro entre amigos (este é!). Mas, definitivamente, não há como fazer uma ligação - emocional, doutrinária, teológica, filósofica etc. - entre esta peça e o Batismo. Parece-me estar diante daquelas telas em que há uma figura abstrata e você fica se perguntando o que deveria estar vendo; no fim, nem mesmo lendo o título da
obra você consegue enxergar a
mensagem. Tem razão o articulista, essa é uma peça de ourivesaria que poderia ser aproveitada de outra forma, como, por exemplo, em lembranças de casamento típicas da Apúlia, minha cara terra: as belíssimas
bombonières recheadas de confeitos de amêndoas que eu aprecio demais. Não aprecio a feiura artística. Não é o caso em tela, mas me pergunto o que Sua Santidade pensou ao ver a obra e se ele soube enxergar a ligação com o Batismo. Eu, confesso, tenho dificuldades.
Tive dificuldades também com as notas sobre
vestimentas e paramentos litúrgicos porque não há, em Português (pelo menos na Net), sites que tragam material completo ou pelo menos abrangente. Tive que
garimpar pela Net, em sites italianos e espanhois. Se há algum erro, por gentileza, me
avise. E fica ao leitor a sugestão para escrever um artigo - ou quiçá um livro - sobre o assunto.
GdA
ACERCA DA NOVA PIA BATISMAL DA CAPELA SISTINA
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| A nova pia da Capela Sistina |
Eu conheço Padre Salvatore Vitiello
e o considero um amigo. Eu aprecio e estimo Monsenhor Guido Marini.
Conheço menos o arquiteto Angelo Molfetta e não conheço o artista e arquiteto Alberto Cicerone (que, aliás, assinou o
Apelo ao Papa em 2009).
No entanto, acredito que, com relação a questões fundamentais, tais como as
relativas à arte sacra, a conversa direta é o melhor remédio para evitar que
iniciativas cheias de boas intenções acabem por ladrilhar o caminho para o
inferno...
Refiro-me à operação ‘nova pia batismal da Capela Sistina’. A
pia foi encomendada por Mons. Marini, como indicado no site do artista
Cicerone, em 08 de Agosto de 2011. O curador teológico da obra foi Padre
Vitiello, enquanto o mentor artístico de Cicerone é o arquiteto Angelo
Molfetta, que este ano o associou à sua cátedra na Universidade Europeia
(informação também contida no site do artista) e o envolveu em uma série de
adaptações litúrgicas nos Abruzos.
A obra é exibida hoje [08/01/12] na Capela Sistina, por ocasião dos
batismos ministrados pelo Santo Padre. De que se trata? Em minha opinião, de
uma excelente peça de ourivesaria que não tem relação alguma com uma obra de
arte sacra e menos ainda com uma pia batismal. Mas antes de passarmos à crítica
da obra, faço questão de esclarecer alguns pontos.
1. A seleção do artista
A responsabilidade pelo sucesso ou fracasso das obras de
arte sacra é toda de quem as encomenda. Neste caso, o Ofício das Celebrações
Litúrgicas do Sumo Pontífice.
Ao se encomendar uma nova pia baptismal para a Capela Sistina deveria se levar
em conta: o seu uso, o contexto no qual é inserida, a continuidade ou
descontinuidade com a pia precedente, alguns critérios estéticos fundamentais
(basta ater-se ao Catecismo) e o significado teológico da obra. Neste caso, foi
encomendada uma obra que não estivesse ligada à tradição das pias batismais
(bacias octogonais com cenas sacras tiradas do Antigo e do Novo Testamento,
apoiadas sobre uma coluna e encimada por uma cobertura que termina com uma
cruz). Agora, eu me pergunto: é possível – graciosamente – fazer ostentação de
roquetes cheios
de pizzi e merletti, de
dalmáticas e
tunicelas,
de casulas
borromeas
ou não, em suma de todo esse arsenal barroco e, depois, encomendar uma obra sem
ligação alguma com a tradição artística precedente?
Evidentemente, a obra foi mal encomendada. E o foi também
porque não foi feito um concurso internacional para a realização de um pia
batismal benedetiana.
Não se envolveram artistas de todo o mundo, na tentativa de oferecer à Capela
Sistina uma pia digna de seu altíssimo contexto artístico. Em vez disso,
recorreu-se à designação direta, em cujos mecanismos não nos foi dado entrar.
2. O contexto
A pia batismal anterior foi obra de Mario Toffetti, que a doou a João Paulo II em 1994, por ocasião do 50º aniversário de seu
sacerdócio. A obra tinha alguns méritos indiscutíveis, se comparada com a nova
pia: Cristo dominava a pia; um Cristo que ressuscita para nossa salvação. E
logo acima da bacia havia uma pequena escultura de Jesus batizado no Rio Jordão
por S. João. Em suma, a narração sacra era evidente. E o véu movido pelo vento
que envolve Cristo piscava explicitamente para o Juízo Universal de Michelangelo.
Se essa obra não era mais considerada digna de estar na Capela Sistina,
poderia ter sido feita uma profícua pesquisa para manter uma continuidade
estilística com o resto da Capela. Em vez disso, recorreu-se a uma obra
naturalista, mas sem relação alguma com a tradição artística das pias
batismais, desprovida de qualquer sinal narrativo (não há uma cruz ou um Cristo
ou qualquer outro elemento que vá além da mera representação da natureza).
Dessa maneira, Monsenhor Marini pregou uma peça aos defensores da reforma
beneditiana, reforçando os argumentos da CEI
(na nota pastoral de 1996) que defendem a ‘descontinuidade estilística’ nos
casos de adequação litúrgica.
Simplificando: se devo reconstruir um altar voltado para o povo, este deve ser
criado em descontinuidade com o anterior (talvez até barroco). Do mesmo modo, a
nova pia baptismal não tem qualquer relação com as demais obras da Capela
Sistina. É inadequada ao seu contexto. E, veja bem, não creio que colocar na
Capela Sistina uma obra muda
e descontinuada seja um sinal de ‘humildade’, uma renúncia a confrontar-se com
os grandes mestres do século XVI. Creio, ao contrário, que é presunçoso dar a
entender que os mestres do século XVI são extraordinários, mas que nós, no
século XXI, realizamos obras diferentes no estilo e nos conteúdos.
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| A nova pia aberta... |
3. A obra em si e o substrato teológico
A obra representa ‘a árvore da vida’. Um tema desafiador
que, de qualquer modo – por ser profano – não me parece tenha alguma ligação
com o batismo. Tem apenas se interpretado simbolicamente. Reporto-me, assim, a
uma obra, ‘O Simbolismo de Templo Cristão’, de Jean Hani,
que expressou esse gênero de elucubrações simbólico-esotéricas: “Se no templo
natural a pedra representava a duração, a árvore e a pia anunciavam, cada uma de
seu modo, a vida e a regeneração: de fato, a árvore se renova a cada primavera,
e a água é a condição necessária de toda vida” (p. 86). A partir dessas
associações simbólicas nasce uma obra constituída por uma pedra, uma oliveira e
uma esfera de ouro que representa o sol. Mas o que faz o sol sobre a árvore da
vida? Para entender isso, temos que recuperar a mitologia assíria, os
baixos-relevos que nos mostram a árvore da vida encimada pelo disco solar. E
temos que tomar a Cabala
e a doutrina dos sefirot
ligados à árvore da vida.
Descobriremos, assim, que o sefirot que representa o sol é aquele de onde se
desenvolve a vida, é Keter, a Coroa. A árvore da vida é, em suma, um tema
fascinante; está presente em várias culturas e também no Apocalipse de S. João.
Mas temos certeza de que era o tema ideal para uma pia batismal?
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Cristo ‘Árvore da Vida’ na Basílica de San Clemente:
Símbolo e Narração sacra não podem estar separados! |
Vou articular melhor a pergunta: temos certeza de que, tendo
escolhido a árvore da vida como tema da pia, a sua mera representação
naturalista era o melhor caminho? Vivemos aqui a mesma ambiguidade da arte
simbólica do santuário de Padre Pio, em San Giovanni Rotondo. O problema é que
o símbolo não é cristão se [é apenas] posto dentro de uma Igreja. O símbolo é
sacralizado pela narração sacra dentro da qual está retratado. Torna-se, dessa
forma, mais uma forma de interpretar a narração sacra. Mas se eliminamos toda e
qualquer narração sacra e deixamos apenas um símbolo – além do mais não próprio
do Catolicismo, mas presente em numerosas outras culturas –, como podemos
esperar de ter avançado em direção àquela reforma benedetiana que, mesmo na
arte sacra, deve se exprimir em continuidade com o passado e a Tradição da Igreja?
Como podemos esperar de cumprir o que diz o Catecismo: “A arte sacra verdadeira
leva o homem à adoração, à oração e ao amor de Deus Criador e Salvador, Santo e
Santificador”?
A adoração, a oração e o amor de Deus não resultam certamente de um processo de
evocações simbólicas, de uma série de raciocínios intelectuais, mas a partir da
evidência da narração sacra. Da empatia com a história da salvação. Para
entender isso, bastava olhar para cima e dar uma olhada ao redor da Capela
Sistina...
Conclusões
Mesmo apreciando o esforço, o resultado da operação é
medíocre, e, sob certo aspecto, até mesmo preocupante. Esta obra representa um
contratempo nos esforços para melhorar a arte sacra católica em continuidade
com a Tradição. É uma vitória de Ravasi,
da CEI e até mesmo daquele simbolismo ambíguo exaltado por Crispino Valenziano.
Em resumo, é um retrocesso e um gol contra. Francamente, ainda uma
vez me escapam as razões que levaram Mons. Marini a encomendar uma obra para um contexto
tão importante por meio da simples atribuição direta, sem anunciar um concurso,
sem se expor com coragem, sem proclamar a beleza de uma arte sacra alinhada com
a Tradição da Igreja.
Entenderia se quisessem realizar uma obra ‘tradicional’ na
surdina, sem levantar poeira. Na verdade, não foi assim. Portanto, continuo a
me perguntar por que pizzi e merletti caem
bem nas celebrações pontifícias, mas não uma pia batismal digna desse nome na
Capela Sistina. Mistério!
A obra é, ademais, repito, mais uma bela peça de ourivesaria
que uma obra de arte sacra. Há algum tempo, poderia vir a calhar, em miniatura,
para as bombonières matrimoniais, aqui na Apúlia, mas hoje temos certeza que
pode ser digna de instalar-se na Capela Sistina?
Última questão: quanto custou a obra e quem pagou por ela?
Em tempos de austeridade não vejo porque até mesmo o Ofício das Celebrações
Litúrgicas do Sumo Pontífice não deva se adequar à sobriedade, evitando
encomendar obras de ouro de 24 quilates... Especialmente se uma pia batismal
digna desse nome já estava à disposição do Papa.
Em suma, uma oportunidade perdida e um sinal inequívoco da
falta de coragem e de vontade por parte dos mais próximos colaboradores do Papa
de ir adiante no caminho da reforma beneditiana. Melhor o
fácil conformismo ravasiano, que gera consensos e abre caminhos a novas encomendas.
Jornalista italiano de renome, nasceu em Roma (1980). Diplomado
com láurea em Letras Clássicas (2004) pela Universidade dos Estudos de Bari.
Imagens de Pias Batismais
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| Catedral de Palermo (Italia) - Pia Batismal |
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| Siena - Battistero - 1416-1434 |