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domingo, 9 de dezembro de 2012

NOM: O povo livre precisa de Deus

Dom Aquino de fibra: “Mais livre é o povo, e mais precisa de Deus.”

por Everth Queiroz Oliveira

Aos que querem excluir a religião da vida pública: sem Deus, as sociedades tendem inevitavelmente à ruína.

O Brasil, Senhores, como toda a América, justamente se ufana das conquistas democráticas do seu estatuto político. Mas não basta. Não são formas de governo o que faz grandes as nações. De que valem as leis, que montam constituições, se lhes não corresponde a moral dos costumes públicos? Quid leges sine moribus?

O de que, portanto, mais se deve gloriar um povo, é da sua educação no respeito à lei, na consciência do direito e na prática dos deveres. Ora, isto não se consegue, mormente nas democracias, sem o bafejo do espírito religioso. Mais livre é o povo, e mais precisa de Deus. Quanto menos sujeito a soberanias humanas, tanto mais deve depender da majestade divina. A religião é o contrapeso da liberdade: tirai aquela, e esta despenhará fatalmente no caos da anarquia.

Não são minhas, nem novas estas ideias: são velhas e revelhas, mas sempre dignas que se rememorem. E curioso é observar como aqueles mesmos, que zombam talvez do direito divino, em que afundam as monarquias as raízes da própria autoridade, se vejam forçados a apelar para esse mesmo direito, em se tratando de sofrear o abuso das liberdades populares.

Tratou quase ex professo do assunto, a eloquência de Ruy Barbosa, no seu famoso discurso do Colégio Anchieta. Aí dizia ele:
“Não é a soberania do povo o que salva as repúblicas. Não são as urnas eleitorais que melhoram os governos. Não é a liberdade política o que engrandece as nações. A soberania do povo constitui apenas uma força, a grande força moderna, entre as nações embebidas na justa aspiração de se regerem a si mesmas. Mas essa força popular há mister dirigida por uma alta moralidade social. (…) As formas políticas são vãs, sem o homem que as anima. É o vigor individual que faz as nações robustas. Mas o indivíduo não pode ter essa fibra, esse equilíbrio, essa energia, que compõem os fortes, senão pela consciência do seu destino moral, associada ao respeito desse destino nos seus semelhantes. Ora, eu não conheço nada capaz de produzir na criatura humana em geral esse estado interior, senão o influxo religioso. Nem o ateísmo reflexivo dos filósofos, nem o inconsciente ateísmo dos indiferentes são compatíveis com as qualidades de ação, resistência e disciplina essenciais aos povos livres. Os descrentes, em geral, são fracos e pessimistas, resignados ou rebeldes, agitados ou agitadores. Mas ainda não basta crer: é preciso crer definida e ativamente em Deus, isto é, confessá-lo com firmeza, e praticá-lo com perseverança.”

Assim filosofava Ruy Barbosa, citando ainda estas profundas sentenças de Tocqueville:
“O despotismo é que passará sem a fé: a liberdade não passa. A religião é muito mais necessária nas repúblicas do que nas monarquias, e muito mais ainda nas repúblicas democráticas do que em todas as demais. Como não houvera de perecer a sociedade, se, afroixando o laço político, não estreitasse o vínculo moral? E que será de um povo, senhor de si mesmo, se não for submisso a Deus?”

(Dom Aquino Corrêa, 30 de outubro de 1929. Discursos, vol. II, tomo II. Dom Bosco e a Democracia. pp. 43-44. Brasília, 1985).
Ecclesia Una

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sábado, 3 de dezembro de 2011

Infalibilidade, liberalismo, sedevacantismo...

Encontros entre o liberalismo e o sedevacantismo: considerações libertadoras sobre a infalibilidade


O erro comum aos dois

Depois de muito tempo, sabemos que os liberais1 e os sedevacantistas2 chegaram a exagerações, respectivamente à esquerda e à direita, partindo das mesmas premissas. Eis o raciocínio que eles fazem (mais ou menos conscientemente):

Maior3: o papa é infalível.
Menor: ora, os últimos papas são liberais.
Conclusões:
– (liberal) então é preciso fazer-se liberal
-(sedevacantista) então estes últimos “papas” não são verdadeiros papas.

Aqui, a lógica é boa e a “menor” também é; então, se as conclusões deixam a desejar, devemos buscar o problema na premissa maior, raiz comum das duas conclusões opostas, e que explica como um fiel liberal do Novus Ordo ao chegar à Tradição pode ser tentado de se tornar sedevacantista, e como um sedevacantista feroz, depois de anos defendendo a sua posição, pode de um dia para o outro tornar-se liberal. Isso é porque os liberais compartem com os sedevacantistas uma noção da infalibilidade muito difundida a partir de 1870 (concílio Vaticano I), noção, no entanto, falsa.

Não é que a definição do magistério solene ou extraordinário infalível do Papa fosse uma coisa má per se, ao contrário; mas per accidens4, pela malícia dos homens, ela contribuiu muito a uma desvalorização da Tradição no sentido usado por São Paulo dizendo aos Gálatas: “Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie um Evangelho diferente daquele que vos temos anunciado, seja anátema!” (Gal 1, 8). Quem compreende, ainda hoje, todo o alcance desta impressionante exclamação!

A definição de 1870 foi boa per se, porque ela permitiu ancorar os espíritos católicos naquilo onde os liberais faziam tudo o possível para deixá-los à deriva. Mas, depois que a definição foi realizada, os maliciosos liberais mudaram imediatamente a sua tática: “Sim, de acordo, sem dúvida, nós sempre acreditamos (hipócritas!) que existe um magistério a priori infalível no cume do ensino da Igreja, mas, abaixo desse cume quem não vê agora que nada é absolutamente seguro?” E assim os liberais deliberadamente começaram a pôr em dúvida toda verdade abaixo deste cume constituído pelo corpo de verdades definidas infalivelmente segundo as quatro condições da nova definição de 1870.

E os católicos a partir desse tempo, mesmo dizendo que não, que a definição não cria a verdade, que o cume não faz a montanha, que existe no magistério da Igreja todo um conjunto – uma montanha – de verdades certas abaixo daquele cume, mesmo assim nada mudou. A partir de 1870, no espírito das pessoas, pouco a pouco era o cume que criava cada vez mais a montanha e não era mais a montanha que criava o cume.

Mas reflitamos um momento. Não é a definição que faz a verdade. Ela não causa senão a nossa certeza da verdade. A ordem real é a seguinte: 1º) O objeto real, a realidade. 2º) A verdade da proposição que enuncia essa realidade. 3º) A definição que vem reforçar o nosso conhecimento dessa verdade. 4º) A certeza no espírito do católico piedoso a partir de quando ele sabe que tal verdade é objeto de uma definição.

Repito: 1º) Objeto. 2º) Verdade. 3º) Definição. 4º) Certeza.

Mas o efeito acidental da definição de 1870 foi de inverter esta ordem no espírito dos católicos e de colocar a definição antes da verdade, como se fosse a definição que criasse a verdade. É evidentemente falso, por pouco que pensemos, mas a prova que os católicos chegaram a pensar assim são os livros de teologia escritos entre 1870 em 1950, que para estabelecer uma verdade não solenemente definida, se sentem – visivelmente – na necessidade de construir como um magistério ordinário infalível a priori, copiado do magistério extraordinário infalível a priori, somente com três condições, ou três condições e meia, no lugar de quatro5. Mas precisamente não é assim! São necessárias quatro condições e não somente três e meia para que haja a priori uma infalibilidade. Mas este magistério com três condições e meia era como necessário para assentar uma verdade católica nos espíritos falsamente deslumbrados pelo magistério solene com quatro condições.

Expliquemos a nossa comparação: (1) a montanha cria (2) o cume, ao qual (3) a neve acrescenta só (4) a visibilidade. Quem pensaria em dizer que é a neve que cria o cume, ou que é o cume que cria a montanha? Do mesmo modo, é a Tradição que no momento da morte do último dos apóstolos, constituía já todo o corpo da doutrina revelada da Igreja; as diversas definições de várias verdades neste corpo de doutrina não acrescentaram nada mais a essas verdades que a sua certeza para os católicos. No entanto, à medida que a caridade se resfria, a camada de neve no cume avança cada vez mais.

Mas daí a dizer que, posto que não há neve, não há montanha, ou que, onde não existe definição com as quatro condições, não há verdades certas, seria perder todo o sentido da montanha, todo o sentido da verdade, é a doença do subjetivismo que não pode conceber nenhuma verdade objetiva sem certeza subjetiva.

Então os “bons” autores dos livros começaram a entrar em certo modo no jogo dos liberais, sem dúvida inconscientemente, eclipsando a verdade objetiva atrás da certeza subjetiva, e dessa forma eles contribuíram a preparar a catástrofe do Vaticano II, e deste “magistério ordinário supremo”6 de Paulo VI graças ao qual, de fato, ele agrediu gravemente a Igreja! Eis aqui o problema de Michael Davies7, por exemplo, que nega toda nocividade intrínseca ao missal da missa nova, pelo fato que teria sido promulgado “solenemente” pelo supremo Legislador.

Bem ao contrário, eis aqui a grandeza de Dom Lefebvre, que soube guardar o sentido católico da montanha, como São Paulo na sua epístola aos Gálatas, quando quase todo o universo católico se deixou cegar pelo brilho da neve.
Kyrie eleison!


Dom Richard Williamson
Winona, 09 de Agosto de 1997.
Fonte

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Notas:
1 O liberalismo tende a exagerar o lugar da liberdade humana. Veja o livro de Don Sardá y Salvani, O Liberalismo é pecado.
2 O sedevacantismo consiste em pensar que os Papas atuais não são verdadeiramente Papas e que, por conseguinte, não se deve rezar por eles no Cânon da Missa nem publicamente, como acontece no período de Sé vacante (sede vacante).
3 Num raciocínio em forma escolástica, chamamos maior à primeira proposição, menor à segunda. A maior e a menor são as “premissas”.
4 As expressões per se e per accidens significam aqui que, no primeiro caso, a consequência deriva da essência da coisa, e no segundo caso, esta mesma consequência se origina por causa de circunstâncias em si independentes da coisa (aqui, a circunstância determinante é a “malícia dos homens” atuais).
5 O Concílio Vaticano I definiu que o Papa é infalível quando fala ex cathedra, ou seja, quando cumpre as quatro condições:
- no seu cargo de ensinar à Igreja (portanto, não como doutor privado), com a sua autoridade suprema,
- definindo,
- uma doutrina sobre a fé e os costumes,
- devendo de ser sustentada por toda a Igreja (DS 3074).
O Concílio Vaticano I expôs também que os católicos devem crer, além dos juízos solenes, no ensino do magistério ordinário universal (DS 3011). Mas não precisou as condições em que esse magistério ordinário é infalível.
6 Expressão empregada pelo Papa Paulo VI em audiência no dia 12/01/1966 para qualificar o magistério do Concílio: “Há quem se pergunte que autoridade, que qualificação teológica o Concílio quis atribuir aos seus ensinamentos, pois bem se sabe que ele evitou dar solenes definições dogmáticas envolventes da infalibilidade do Magistério Eclesiástico. A resposta é conhecida, se nos lembrarmos da declaração conciliar de 6 de março de 1964, confirmada a 16 de novembro desse mesmo ano: dado o caráter pastoral do Concílio, evitou este proclamar em forma extraordinária dogmas dotados da nota de infalibilidade. Todavia, conferiu a seus ensinamentos a autoridade do supremo Magistério ordinário” (cf. Frei Boaventura Kloppenburg, OFM, Compêndio do Vaticano II, Petrópolis, Vozes, 18° edição, 1986).
7 Michael Davies é um autor inglês que escreveu muitos livros para defender a Tradição e particularmente Dom Lefebvre. Porém, não seguia completamente todas as suas posições, especialmente sobre a missa nova.

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