Carta a umas servas de Deus perseguidas¹
Por Santo Afonso Rodrigues, Sj.
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Ó minhas caríssimas, eu tenho alguma inveja de seus trabalhos e
perseguições e se são falsos testemunhos e sem culpa nenhuma como
aconteceu com alguns dos santos. Ó feliz a alma que Deus a leva por esse
caminho tão ditoso, mas mal conhecido de todos, conheçamos a condição
de Deus, porque a eles honra a Deus a seu tempo no céu e na terra; como a
inocentes servos seus que andam diante Dele em verdade e a esses visita
altamente e faz grandes mercês na terra e com grande silencio e amor
não volvendo por si, o sofrem tudo com o seu amor e lhe desejam toda a
causa para que a julgue com aquele que a conhece e Ele a defende e dá a
sentença em favor do inocente e então a alma devota diz a si mesma:
“Agora estou em um bom negócio, porque está tudo nas mãos de meu Deus”.
E assim, o que eu quereria é que com silencio e resignação acolhessem
logo contudo a seu Deus, dando-Lhe graça por essa mercê que lhe faz
embora ter algo em que padecer por seu amor, e ter por grande dita o
ser perseguidas para imitar em algo ao Filho de Deus e de que lhe servia
algo de trabalho do que Ele passou. Lhe falem e lhe digam assim: “Ó
doce Jesus e amores de minha alma. Donde a mim tanto bem e que me façais
em algo imitadora vossa?”, alegrando muito o coração com atos
interiores exercitando nessa imitação sua. E se foram menosprezadas
alegrar-se disso porque são menosprezadas com o Jesus. E se tiverem dores
como Ele, as teve, alegra-se interiormente padecendo por Ele, como Ele
por mim. Se for pobreza, fome, frio, calor, como Ele alegrava-se com
todas as coisas contrárias que vinham. Porque aposte, envia a Deus os
trabalhos para que nos aproveitemos disso e com grande alegria os
abracemos como coisa muito preciosa vinda de Suas mãos, para grande cora
nossa. Para o qual o que devemos fazer é calar e com grande silencio
abrasarmos muito apertadamente, porque se não sejam ou no que se tem com
nossa indignidade como acontece algumas vez que dá Deus a almas
trabalhos para enriquecê-la, com eles e ela como desagradecida os
rejeita e não os querendo e algumas vezes com impaciência; e Deus como
vê o seu pouco agradecimento os tira dela e assim os deixa de merecer e
lá dentro a alma é repreendida por Deus, porque usou mal da mercê que
lhe tinha feito em dar-lhe trabalhos, voltando-se sobre si clama a seu
Deus pedindo-lhe trabalhos em que padeça algo por seu amor com grande
instancia conhecendo a sua falta e o Senhor não os dá, mas lá dentro tem
alguma voz escondida dizendo-lhe seu Deus, seu Deus, assim. “Quando eu
queria lhe dar para que os merecesse, não os quisesse, agora que tu o
queres, não te darei Eu”. E fica burlada sem o tesouro e o mérito, para
que aprendamos amar as tribulações e perseguições por Deus, que tanto
ele amou e abraçou por nós. O qual é grande castigo de Deus, quando por
nossa culpa
no-los tira e assim fica a alma sem eles. Corre, e envergonhada e sem o
mérito que com eles tão grande podia ter.
Assim, pois, minhas caríssimas, com grande silencio e resignação
deixem-se pisar e maltratar e gostem dos que a tenham muito mais,
mandando elas ocasião para isso de que as tinha mesmo como indignas de
estar entre as gentes senão para serem perseguidas, gostando de ser
humilhadas e que todos digam mal delas, e as pisem como a lama nas
praças procurando em todos esses trabalhos acharem descanso como se tal
coisa não se passe por elas, mas por outras.
Não deveríamos temer os trabalhos, mas não os ter, porque aquele que
mais e maiores os padecer por Cristo será mais imitador e amigo de
Cristo, pois quem fugirá deles e não temerá os ter? Encontramo-lo neles
com grande silêncio com as criaturas e o nosso falar seja com Deus
dizendo-lhe: “Passai Deus meu, passai adiante com as vossas mostras de
amor e do Céu, pois em tudo buscai o meu bem e de vossa mão vem tudo”.
Imitando a alma o madeiro que toma o empalhador quem lhe está lavrando e
golpeando e ele sempre cala e não se queixa e nem ele foge o corpo aos
golpes, deixando-se lavrar por ele, assim sai de suas mãos a imagem
perfeitamente formosa e acabada tanto quanto o artífice é mais perfeito,
pois se o artífice do céu, nosso Deus, sabedoria infinita nos lavra com
golpes de amor e com trabalhos, senão fugimos, quer formosas lavrar
essas imagens de nossas almas com grande amor que nos tem, pois é tão
sábio e amoroso, isto com as virtudes. Se o madeiro do qual o artífice
quer lavrar a imagem, ela fugisse quando a golpeia, jamais faria a
imagem. Assim nem mais nem menos, se a alma foge de seu Deus, quando a
lavra, jamais será santa e nem imitadora de Cristo nos trabalhos, porque
não se deixa lavrar de seu Deus, nem formosiar Dele. Por isso há tão
pouco perfeitos e santos, pois fugimos de ser lavrados do mesmo Deus. E
buscando-nos a nós mesmo, fugimos de ser lavrados do mesmo Deus. E assim
vivemos em suma pobreza de virtudes, por estamos cheios de nós mesmo.
Pois exercite a alma a que padeça tudo o adverso com alegria e tenha a
perseguição por presente de Deus e deixem que se cumpram os Seus
desígnios não pondo impedimento, repugnando. Mas com amor e alegria,
alegre-se para que se cumpram. Porque resultem em glória de Deus e bem
para suas almas. E se o Senhor o começou a remediar, tema que não faça
por si, acaso fogem do parecer e as castigues, como que tirar o mérito
do parecer. Olhem por si e esqueçam-se de tudo. Pondo-se em suas mãos
que se convém mais para glória sua, se por elas nem outros por elas, Ele
o saberá remediar. Deixem tudo pondo-se em suas mãos e fiam-se Nele. Não
as enganem, o amor próprio, não seja sobre cor de virtude, fugir da
cruz. Estejam mortas para tudo, para que Deus viva nelas, convém a todos
fazer-se modestas e deixar a Deus que faça de tudo a seu gosto.
Não faça instância que se descubra a verdade. Seja lhe suficiente, o não
haver culpa e seja falso o que delas dizem; pois que Deus tomara a seu
cargo disso. E, entretanto abracem a cruz amando aqueles que a dão com
mais amor que antes, como a grandes benfeitores. Isto é o que eu
quereria que fizessem. E que se deixem governar sempre em tudo pelo
superior e reitor da casa.
Dizem que quereriam saber em que é que são encolhidas no próspero e no
adverso, digo que o incorrimento no próspero é receito sem conturbação e
inquietude, nasce da humildade e é dom de Deus. E se é turbação deve-se
fugir desta turbação e inquietação, mas no adverso esse encolhimento
também é humildade quando não enfraquece a alma. Mas senão que a
adversidade a dá a conhecer, sua fraqueza e não conhecendo
espiritualmente esse mesmo desenganando se sua estima e assim se conhece
o próspero por ciência do seu que na oração a da a Deus e por
experiência que tem de si que tirou dos trabalhos. E assim se a comunica
Deus luz dos trabalhos e oração, as quais essas duas luzes concordam
uma com a outra e a alma humilha-se de verdade.
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1- Parecem ser suas irmãs, Juliana e Antônia.
Traduzido do espanhol para o português pelo Ir. André, O.S.B.
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