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domingo, 26 de março de 2017

Sermão do Quarto Domingo da Quaresma



Exórdio. Sermão aos pregadores. 

1.  Com cinco pães e dois peixes saciou o Senhor cinco mil homens etc1.

Aos pregadores fala Salomão no Eclesiastes2: Lança o teu pão sobre as águas que passam, e depois de muito tempo o acharás. "As águas que passam" são os povos a correr para a morte3. Por isso, diz a mulher de Técua no segundo livro dos Reis4: Todos corremos como água. Escreve Isaías5: Este povo rejeitou as águas de Siloé, que correm em silêncio, e preferiu apoiar-se em Rasim e em Face, filho de Romélia. "Siloé" interpreta-se "enviado"; portanto, as águas de Siloé são a doutrina de Jesus Cristo6, enviado do Pai. Rejeitam esta água os que se perdem em desejos terrenos e se apoiam em "Rasim", isto é, "no espírito soberbo", e em "Face", ou seja, "na imundície da luxúria". E por esta razão correm como água para o profundo da Geena. Portanto, sobre as águas que passam, ó pregador, lança o teu pão, o pão da palavra de Deus, do qual se diz: Não só de pão7etc. E Isaías8: Foi-lhe, isto é, ao justo, dado o pão; depois de muito tempo, no dia do juízo, achá-lo-ás, ou seja,encontrarás o que te dará em troca dele. Em nome do Senhor, lançarei o pão sobre as águas, compondo por vosso amor, sobre os cinco pães e dois peixes, um pequeno sermão.

Os cinco pães e os dois peixes.

2. Digamos, portanto: Com cinco pães e dois peixes etc. Os cinco pães são os cinco livros de Moisés9, em que se encontram as cinco refeições da alma. O primeiro pão é detestar o pecado na contrição; o segundo é revelá-lo na confissão; o terceiro é a miséria e humilhação de si mesmo na satisfação; o quarto é o zelo das almas na pregação; o quinto é a doçura da Pátria celeste na contemplação. 

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

São João Evangelista: Na Solidão, Encontrarás o Senhor





São João Evangelista

27 de Dezembro 


Leia a vida de São João.  



Na Solidão, Encontrarás o Senhor




1. Naquele tempo, disse Jesus a Pedro: “Segue-me” (Jo 21,19). Neste passo do Evangelho, podem-se observar duas coisas: a imitação de Cristo e seu amor para com seu fiel discípulo.

I - A Imitação de Cristo. 


2. A imitação de Cristo está expressa nas palavras: “Segue-me”. Sim, isso Ele o diz a Pedro, mas também a todo cristão: “segue-me, tu também, nu como nu o sou, livre de todo apego como livre o sou”. Por isso é que Jeremias afirma: “Chamar-me-ás de Pai e não te cansarás de andar atrás de mim” (3,19). Segue-me, portanto, e joga fora o peso que levas, pois, carregado como estás, não podes andar atrás de mim que corro. “Corri”, diz o salmista, “tendo sede” (Sal 61,5); por “sede”, entende-se, de salvar a Humanidade. E para onde Ele corre? Na direção da Cruz. Por isso, corre também tu atrás de Cristo, para que, assim como Ele tomou sua Cruz por ti, tu também tomes a tua cruz por ti. Lê-se no Evangelho de Lucas: “Se alguém quer vir após mim, renegue a si mesmo” (9,23), quer dizer, sacrifique a própria vontade, tome sua cruz mortificando a carne, todos os dias, isto é, continuamente, e assim me siga. Portanto: segue-me! Ou, então, se quiseres vir a mim e me encontrar, segue-me, isto é, procura-me à parte. Ele diz aos discípulos: “Vinde à parte, a um lugar deserto, e descansai um pouco. Com efeito, tão grande era a multidão que ia e vinha que Ele não tinha nem mesmo o tempo para comer” (Mc 6,31). Que coisa! Quantas paixões da carne, que multidão de pensamentos vão e vêm pelo nosso coração! E, assim, não temos nem o tempo de nos alimentar com o alimento da eterna doçura, nem de sentir o sabor da contemplação interior. Eis porque o bondoso Mestre diz ainda: “Vinde à parte, para longe da multidão; vinde a um lugar apartado, isto é, à solidão interior, da mente e do corpo, e descansai um pouco
”. Sim, “um pouco”, porque como diz o Apocalipse: “Fez-se silêncio no céu por mais ou menos uma meia hora” (8,1); e o Salmo 54,7: “Quem me dará asas de pomba para voar e encontrar repouso?”. E o profeta Oséias também diz: “Eis que eu a amamentarei e conduzi-la-ei ao deserto e lhe falarei ao coração” (2,16). Nestas três expressões (amamentarei/conduzirei/falarei ao coração) se podem notar também três situações: aquela de quem está no começo, aquela de quem está progredindo e aquela de quem já está na perfeição. É a graça que amamenta quem está no começo e o ilumina para que cresça e progrida de virtude em virtude; e, por isso, o conduz do barulho dos vícios, do tumulto dos pensamentos à solidão, isto é, à quietude interior da mente. Aí, então, torna-o perfeito, fala-lhe ao coração e ele sente a doçura da inspiração divina e pode elevar-se de corpo e alma à alegria do espírito. E, então, como é grande em seu coração a devoção! E como são grandes também a contemplação e o êxtase! Através da grandeza da devoção, a pessoa eleva-se acima de si mesma. Através da sublime contemplação, ela se sente como que transportada ainda acima de si mesma; e, através do êxtase, ela é levada como para fora de si mesma. Por isso: “segue-me”. O Senhor fala como uma mãe carinhosa que, quando está ensinando seu nenê a caminhar, mostra-lhe o pão ou uma maçã e lhe diz: “Vem, vem, eu vou te dar!”. E quando a criança está pertinho, pronta para pegar, a mãe, devagarinho, vai se afastando e lhe dizendo, mostrando o pão e a maçã: “Vem, vem, pega!”. Existem também pássaros que tiram do ninho seus filhotes e, voando, os ensina a voar e segui-los. Assim faz Cristo: Ele mesmo se coloca como exemplo para que o sigamos, e promete o prêmio no Reino dos Céus. 



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