Não me lembro de alguém ter-me perguntado, quando eu frequentava o grupo escolar, em qual profissão eu gostaria de trabalhar quando crescesse. Mas se algum curioso quisesse saber a resposta, provavelmente ouviria algo assim: Quero trabalhar em qualquer coisa que não dê trabalho.
Esta introdução pouco autoelogiosa poderia levar alguns a imaginar-me um preguiçoso incorrigível, vagabundo. Bem longe da verdade estaria essa impressão. Nunca fui preguiçoso, mas aquela minha provável resposta explicava-se pelos meus escassos conhecimentos sobre trabalho, limitados então ao uso de instrumentos como enxada, machado, picareta, serrote, foice. Numa visão retrospectiva, posso confirmar que nunca me entusiasmariam trabalhos movidos a músculos, suor, calos, mas era quase só isso que eu via por lá. Conheci depois trabalhos mais importantes e menos hercúleos, como o de manusear minha caneta enquanto escrevo uma crônica.
A importância do trabalho raramente é proporcional ao suor que ele produz. Mesmo sendo o instrumento uma leve caneta, pode ser até mais cansativo. Com a tecnologia moderna, o trabalho pesadão foi transferido para as máquinas; e o que já podemos lamentar, neste nosso mundo desequilibrado, é o excesso de redução do trabalho. Parece contraditório isso, mas vou explicar-lhe.
Começo por lembrar que as máquinas, geralmente fabricadas para substituir ou reduzir o trabalho humano, vêm assumindo papel cada vez mais importante. Muitas censuras se poderiam fazer ao modo como elas realizam essa substituição, mas quero apenas mostrar que há limites para isso. Difíceis de estabelecer, mas existem. Farei uma tentativa de exemplificação, sem a pretensão de esgotar o assunto.