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domingo, 17 de janeiro de 2016

O bispo D. Jeronimo pede ao Cid a honra de dar os primeiros golpes aos muçulmanos




O bispo Dom Jerônimo

A Santa Missa lhes canta,

E uma vez a Missa dita,

Esta alocução lhes dava:

"A quem na luta morre

Pelejando face a face,

Lhe perdoo os pecados

E Deus lhe colherá a alma.


E a vós, meu Cid dom Rodrigo,

Que cedo cingistes espada,

Pela Missa que cantei

Para vós esta manhã,

Peço-lhe me concedeis,

Em troca a seguinte graça:

Que as primeiras feridas

Sejam feitas por minha espada".

Disse-lhe o Campeador:

"Desde já lhe são outorgadas".


(Fonte: Cantares de Mio Cid – Estrofe 94)
  
 
  

El Cantar del Mio Cid é o poema épico espanhol mais antigo (epopeya), preservado, de autor desconhecido. Conta a história de Rodrigo Díaz de Vivar, chamado El Cid.
 
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quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Carta da Companhia de Jesus para o seráfico São Francisco

Carta da Companhia de Jesus para o seráfico São Francisco



Depois de tudo criado
por conto, peso e medida,
disse Deus: "Seja formado
o homem, como treslado
de nossa imagem subida"
.

E criou
a Adão, a quem dotou
da semelhança divina.
Mas foi tal sua morfina,
que mui depressa borrou
aquela imagem tão divina.

 

sábado, 29 de novembro de 2014

Um rèquiem para meu pai...

Neste 29 de novembro recorre o 25º aniversário da morte de meu pai, ou de seu natal para a outra vida: a vida eterna.  

Eu gosto muito de um poema que encontrei, apócrifo, em uma lixeira, dessas pequenas de escritório, ao lado da minha mesa de trabalho, na repartição pública onde trabalhava, décadas atrás. Não sei quem jogou aquele papel amassado bem ao lado de minha mesa. Também não sei quem foi o autor: será o mesmo que descartou o poema?. E rogo a quem saiba de me informar.  

Daquele poema, tomei a liberdade de alterar apenas uma palavra, ou melhor, um número, o ano da morte daquele desconhecido pai. No original, se bem me lembro, constava: "mil, novecentos e oitenta e cinco" (talvez, "noventa e cinco"; confesso que não lembro), que rimava com "afinco". Eu modifiquei para "mil, novecentos e oitenta e nove", ano em que meu pai partiu. Não mudei a rima. Não porque não pudesse encontrar uma, no abismo infinito de meu amor por meu pai. Apenas não quis abusar demais daquele belo poema.  

Por três vezes, publiquei aquele mesmo poema, neste blog, em memória dele, mas, este ano, caiu-me entre as mãos, quer dizer, diante dos olhos, pela tela do computador - que tempos profanos! - um outro poema, de um poeta, escritor e aforista italiano, Camillo Sbarbaro, de uma lembrança dos tempos de escola, creio eu. Ele tinha paixão pela Botânica, como meu pai...  

E vou publicar assim mesmo, em italiano, porque italiano era meu pai, em que pese o imenso amor pelo Brasil que ele nutria. Um dia, quem sabe traduzo. É até um pecado traduzi-lo, se diria na Itália, porque as traduções sempre matam um pouco da "alma" do texto. Quando se trata de poesia, então, é um massacre!  

Traduzo, contudo, o título, para abrir o apetite das almas mais sensíveis à poesia: "Pai, ainda que tu não fosses o meu (pai)".  

Vos convido, no final, a rezar comigo um Rèquiem pela alma de meu pai.

Giulia d'Amore

 
* * * 
 

PADRE, SE ANCHE TU NON FOSSI IL MIO 

quinta-feira, 29 de maio de 2014

CRISTO DE LA TARDE



En esta tarde, Cristo del Calvario,
vine a rogarte por mi carne enferma;
pero, al verte, mis ojos van y vienen
de Tu Cuerpo a mi cuerpo con vergüenza.

¿Cómo quejarme de mis pies cansados,
cuando veo los Tuyos destrozados?

¿Cómo mostrarte mis manos vacías,
cuando las Tuyas están llenas de heridas?

¿Cómo explicarte a ti mi soledad,
cuando en la Cruz alzado y solo estás?

¿Cómo explicarte que no tengo amor,
cuando tienes rasgado el Corazón?

Ahora ya no me acuerdo de nada,
huyeron de mí todas mis dolencias.

El ímpetu del ruego que traía
se me ahoga en la boca pedigüeña.

Y sólo pido no pedirte nada,
estar  aquí, junto a Tu Imagen muerta,
ir aprendiendo que el dolor es sólo
la llave santa de Tu Santa Puerta. Amén.


Diego Velázquez y Gabriela Mistral





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sexta-feira, 23 de maio de 2014

MIRO TU CRUZ

Miro Tu Cruz


Y pienso,

Y siento,

Y lloro,

Y me arrepiento,

Y me arrodillo,

Y me humillo,

Y me entristezco,

Y no encuentro paz por mis pecados.

¡Señor, Señor, sólo Tú puedes salvarme!

Por eso,

Tu Auxilio necesito,

Tu Amor imploro,

Tu Misericordia suplico,

Tu Bendición ruego,

Tu Cielo anhelo.

Exclamo afligido y desconsolado,

Por tanto daño que Te hice,

¡Perdóname, Mi Dios y Mi Señor, perdóname!


(Pecador arrepentido)
 
web

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sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Salve, de Teodoro Studita

São Teodoro Studita
 
Salve, Escala de la tierra al cielo, por la cual descendió el Señor hasta nosotros y volvió al cielo, como vio el patriarca Jacob.

Salve, Zarza maravillosa, desde la cual se apareció el Señor en la llama de fuego, que aun ardiendo no se consumía, como se le mostró a Moisés, que vio a Dios cara a cara.

Salve, Ciudad del gran rey, ensalzada por los soberanos llenos de estupor, como lo describe el salmista David.

Salve, mística Belén, Casa de Éfrata, de la que salió el rey de la gloria para convertirse en jefe de Israel, cuya generación se remonta al principio, a la eternidad, como dice Miqueas.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Onde não há ódio à heresia, não há santidade.

Ódio às falsas doutrinas

Pe. Frederick Willian Faber (1860)


A deslealdade suprema para com Deus é a heresia.

É o pecado dos pecados, a mais repugnante das coisas que Deus reprova neste mundo enfermo.

No entanto, quão pouco entendemos de sua odiosidade excessiva!

É a poluição da verdade de Deus, o que é a pior de todas as impurezas.

Porém, como somos quase indiferentes a ela!

Nós a fitamos e permanecemos calmos.

Encostamos nela e não trememos.

Misturamo-nos com seus fautores e não temos medo.

Nós a vemos tocar as coisas santas e não percebemos o sacrilégio.

Inalamos seu odor e não mostramos qualquer sinal de detestação ou desgosto.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Conversas sobre batina: À Minha Veste Negra.

Padre Ernesto Cardozo e Monsenhor Marcel Lefebvre - 1988
Uma homenagem aos heróis de batina, os mártires da Fé de hoje, que "insistem" em vergar essa veste santa e santificante, sem se preocupar com o clima, o falatório e principalmente a "opinião alheia", essa presença onipresente na internet e no mundo real. 
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Infelizmente, a vemos vestida nos "padres modernistas" apenas em eventos sociais, muitas vezes em ocasiões nada edificantes. O mundo a usa para atacar a Igreja sempre que pode! Falam de pedofilia? Publicam a notícia junto com a foto de um padre de batina, mesmo que tal padre não seja o sujeito da notícia. Querem debochar das instituições cristãs? Põe um padre de batina para fazer papel de tolo em uma propaganda de bebida ou de sapato, que seja! 
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Mons. Olgiati morreu e não deve saber que hoje a Igreja não "obriga" nenhum padre a usar a batina. Aquela dispensa "em casos particulares" se tornou regra e rotina. É quase um pecado usá-la. Que o digam os seminaristas que volta e meia confidenciam na internet que foram desencorajados a usá-la nos próprios Seminários que deveriam ensinar a amá-la! E que o digam os padres que deixam de usá-la para "obedecer" a ordens superiores. Deve ser um símbolo fortíssimo, para ser tão odiado pelo mundo, e até mesmo por aqueles que deveriam sentir orgulho por vergá-la! 
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Enfim, cada um sabe de si. Eu sei desses heroicos Sacerdotes que a vestem e a honram, todos os dias. A eles, este texto, que é também minha pessoal homenagem: 
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À Minha Veste Negra

(Mons. Francesco Olgiati, 1959)

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Mons. Olgiati
Ó cara veste negra,

Há algumas semanas, todo mundo está falando de ti. No livro sobre as atividades da Santa Sé, em 1958, foi dito: “atendendo às várias solicitações recebidas acerca da batina, foi iniciada uma ampla pesquisa sobre a questão da forma do hábito eclesiástico, e foi concedido aos ordinários diocesanos (ou seja, os Bispos) certo poder de dispensa, em casos particulares, mantendo-se a regra de sempre usar a batina no exercício do poder de ordem e jurisdição”.

Estas poucas linhas deram origem a muita discussão, até mesmo na nossa imprensa. E as fantasias galoparam.

Alguns apelaram para a história, do século V ao Concílio de Latrão IV (213) e de Viena (1312), que impuseram aos eclesiásticos um hábito diferente do comum; de Sisto V a Pio IX.
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Outros recorreram à moda dos países alemães e anglo-saxões, que concedem aos Sacerdotes o hábito assim chamado à “clergyman”, mesmo impondo a “batina” nas funções sacerdotais, conforme exigido pelo Código de Direito Canônico.

domingo, 12 de janeiro de 2014

Serenidad de corazón

Una palabra habló el Padre, que fue su Hijo, y ésta habla siempre en eterno silencia, y en silencio ha de ser oída de alma.

Lo que habléis sea de manera que no sea nadie ofendido, y que sea en cosas que no os pueda pesar que los sepan todos.

Callad lo que Dios os diere y acordaos de aquel dicho de la esposa: Mi secreto es para mi.

Procurad conservar el corazón en paz; no le desasosiegue ningún sucedo de este mundo; mirad que todo se ha de acabar.

No apacentéis el espíritu en otra cosa que en Dios. Desechad las advertencias de las cosas y traed paz y recogimiento en el corazón.

Traed sosiego espiritual en advertencia de Dios amorosa; y cuando fuere necesario hablar, sea con el mismo sosiego y paz.

Traed interior desasimiento de todas las cosas y no pongáis el gusto en alguna temporalidad, y recogerá vuestra alma a los bienes que no sabe.

El alma que anda en amor ni cansa ni se cansa.

El amor no consiste en sentir grandes cosas, sino en tener grande desnudez y padecer por el Amado (San Juan de la Cruz, selección de frases)

Tras el empacho electoral que hemos vivido en los últimos días, es muy sano hacer una cura de sosiego, profundidad y sentido. Tantas apariencias, tantos afanes, tantos poderes terrenales nos embaucan en mil proyecciones mentales, que nos arrastran a las esperanzas terrenales. El mundo no puede darnos más que Dios y la realidad nos se transforma más que por la Gracia de Dios.

Nuestro corazón, que es nuestro ser que se manifiesta por medio de emoción, entendimiento y voluntad, debe centrarse en Cristo y no tener cada dimensión en un lugar diferente.

Ciertamente la crisis que vivimos nos invita al cambio, pero no a cambios externos que no son más que apariencias. Nos invita al cambio interior, que es el que realmente conlleva consecuencias ciertas y verdaderas en nuestra vida personal y social.

Quiera Dios darnos la fuerza y la templanza necesarias para no esperar del mundo lo que sólo de Dios puede provenir. Dios nos ayude.

Fonte: http://misteriocristiano.blogspot.com.br/2011/11/serenidad-de-corazon.html.

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segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

DESEJOS DE NATAL

 

DESEJOS DE NATAL


Dá de presente o que você não possui...
Ocupe-se dos aborrecimentos,
dos problemas de seu próximo.
Cuide das tribulações,
das exigências de quem está perto de você.

Dá de presente aos outros a luz que não possui,
a força que você não tem,
a esperança que você sente vacilar em si,
a confiança que lhe falta.
Ilumina-os com sua escuridão.
Enriquece-os com sua pobreza.

domingo, 15 de dezembro de 2013

Leão I, o Grande: Recomeçar sempre!

São Leão Magno, rogai por nós.
Memória: 10 de novembro

Recomeçar sempre!


Não desista nunca,
Nem quando o cansaço se fizer sentir,
Nem quando os teus pés tropeçarem,
Nem quando os teus olhos arderem,
Nem quando os teus esforços forem ignorados,
Nem quando a desilusão te abater,
Nem quando o erro te desencorajar,
Nem quando a traição te ferir,
Nem quando o sucesso te abandonar,
Nem quando a ingratidão te desconsertar,
Nem quando a incompreensão te rodear,
Nem quando a fadiga te prostrar,
Nem quando tudo tenha o aspecto do nada,
Nem quando o peso do pecado te esmagar…

Invoque Deus, cerre os punhos, sorria… E recomece!

Oremos: Ó Deus, que jamais permitis que as potências do mal prevaleçam contra a vossa Igreja, fundada sobre a rocha inabalável dos apóstolos, dai-lhe, pelos méritos do papa são Leão, permanecer firme na verdade e gozar paz para sempre. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho, na unidade do Espírito Santo. Amém.

São Leão Magno: rogai por nós!

Atribuído a Papa São Leão I, o Grande.

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domingo, 14 de abril de 2013

SÃO FRANCISCO DE ASSIS: O amor não é amado

O AMOR NÃO É AMADO


Um dia, Frei Leão, o fiel "secretário" do Poverello, sempre atento a tudo o que acontecia na vida do Pai e Irmão Francisco, o ouviu a chorar, a poucos metros desta Basílica, e, mesmo com certa dificuldade, conseguiu ouvir aquelas célebres palavras do “Estigmatizado da Verna”: “o amor não é amado”, “o amor não é amado”. Com muito respeito, como o que tem aquele que entra no santuário da mais profunda intimidade de um homem de Deus, Leão pergunta: “Porque choras, Frei Francisco?”. Francisco não responde, apenas continua a dizer: “o amor não é amado”, “o amor não é amado”…

Leão, talvez para consolá-lo, mas totalmente convencido do que dizia, interrompe o choro de Francisco e lhe diz: “Mas Francisco, não te parece que já fizeste o bastante por Jesus deixando o teu pai e a tua mãe, os teus amigos e um futuro de glória?” E Francisco responde: “Não, não é o bastante”.

“Mas Francisco” - continua dizendo Leão – “não te parece que já fizeste o bastante despindo-te de tuas vestes diante de todos, pedindo esmola pela estradas de tua [própria] cidade, abraçando um leproso... de tal forma a ser considerado um louco?”.  “Não, não é o bastante”, responde de novo Francisco.

Pela terceira vez, Leão insiste: “Francisco, não te parece suficiente sofrer como estás sofrendo por causa dos Estigmas, da rebelião dos Ministros, da enfermidade nos olhos?”. E, mais uma vez, Francisco, desta vez com voz forte, grita: “Não, não é o bastante, não é o bastante, não é o bastante!”. E conclui: “Escreva e guarde em teu coração, Frei Leão, Deus é o ‘nunca é o bastante’...”.


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Visto em:  http://www.facebook.com/notes/io-francesco/lamore-non-%C3%A8-amato/149077661801796.
Tradução: Giulia d'Amore



O POEMA


O Amor não é amado!



O camponês perguntou: Que aconteceu,
irmão, por que estás chorando?

O irmão respondeu:
Meu irmão,
o meu Senhor está na Cruz
e me perguntas por que choras?

Quisera ser neste momento
o maior oceano da terra,
para ter tudo isso de lágrimas.

Quisera que se abrissem
ao mesmo tempo todas
as comportas do mundo
e se soltassem
as cataratas
e os dilúvios
para me emprestarem
mais lágrimas.

Mas ainda que juntemos
todos os rios e mares,
não haverá lágrimas
suficientes para chorar
a dor e o amor
de meu Senhor crucificado.

Quisera ter as asas invencíveis
de uma águia para atravessar
as cordilheiras e gritar
sobre as cidades:

O Amor não é amado!
O Amor não é amado!

Como é que os homens podem amar
uns aos outros se não amam o Amor?


São Francisco de Assis (não comprovado)



Recebido por e-mail, de Thiago Maria 
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Fonte: http://precantur.blogspot.com/2013/04/o-amor-nao-e-amado.html.


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quinta-feira, 29 de novembro de 2012

REQUIEM: Recordando meu pai

Recordando meu pai

Esvai-se o tempo e mais e mais me lembro do que,
para olvidar, luto com afinco,
de um vinte e nove sinistro de novembro,
- mil novecentos e oitenta e nove!
Não consigo esquecer por um momento,
daquele dia que bem longe vai...
em que um vento de morte e de tormento,
para bem longe transportou meu pai!

Assim é a vida: um báratro profundo,
onde o homem se afoga e,
quase louco, se perde nas mentiras deste mundo,
que tanto nos promete e dá tão pouco!
E neste mundo assim, de falso brilho,
guardo a lembrança que de mim não sai:
- de um homem bom que me chamou de filho e,
enternecido, eu o chamei de Pai!


Desconheço o autor deste poema que eu achei em um papel velho, no meio de outros tantos, enviado para descarte. Tomei a liberdade de mudar a data - está em vermelho - pela do ano em que meu pai faleceu. Quem souber o autor, por favor, me informe!
Por gentileza, leitor que por aqui passa no dia de hoje, 29 de Novembro, reze comigo uma oração (abaixo) pela alma de meu querido e amado pai. Muito obrigada. 

Giulia d'Amore di Ugento

  Rèquiem aetèrnam,
dona eis, Domine,
et lux perpètua lùceat eis.
Requiéscant in pace.
Amen.

(Latim)

L'eterno riposo, 
dona loro, o Signore,
e splenda ad essi la Luce Perpetua.
Riposino in pace.
Amen.
(Italiano)

Dai-lhes, Senhor, 
o descanso eterno
E a luz perpétua os ilumine
Descansem em paz.
Amém.
(Português)

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Lope de Vega: A Cristo en la Cruz

A CRISTO EN LA CRUZ


¿Quién es aquel Caballero
herido por tantas partes,
que está de expirar tan cerca,
y no le socorre nadie?

«Jesús Nazareno» dice
aquel rétulo notable.
¡Ay Dios, que tan dulce nombre
no promete muerte infame!

Después del nombre y la patria,
Rey dice más adelante,
pues si es rey, ¿cuándo de espinas
han usado coronarse?

Dos cetros tiene en las manos,
mas nunca he visto que claven
a los reyes en los cetros
los vasallos desleales.

Unos dicen que si es Rey,
de la cruz descienda y baje;
y otros, que salvando a muchos,
a sí no puede salvarse.

De luto se cubre el cielo,
y el sol de sangriento esmalte,
o padece Dios, o el mundo
se disuelve y se deshace.

Al pie de la cruz, María
está en dolor constante,
mirando al Sol que se pone
entre arreboles de sangre.

Con ella su amado primo
haciendo sus ojos mares,
Cristo los pone en los dos,
más tierno porque se parte.

¡Oh lo que sienten los tres!
Juan, como primo y amante,
como madre la de Dios,
y lo que Dios, Dios lo sabe.

Alma, mirad cómo Cristo,
para partirse a su Padre,
viendo que a su Madre deja,
le dice palabras tales:

Mujer, ves ahí a tu hijo
y a Juan: Ves ahí tu Madre.
Juan queda en lugar de Cristo,
¡ay Dios, qué favor tan grande!

Viendo, pues, Jesús que todo
ya comenzaba a acabarse,
Sed tengo, dijo, que tiene
sed de que el hombre se salve.

Corrió un hombre y puso luego
a sus labios celestiales
en una caña una esponja
llena de hiel y vinagre.

¿En la boca de Jesús
pones hiel?, hombre, ¿qué haces?
Mira que por ese cielo
de Dios las palabras salen.

Advierte que en ella puso
con sus pechos virginales
una ave su blanca leche
a cuya dulzura sabe.

Alma, sus labios divinos,
cuando vamos a rogarle,
¿cómo con vinagre y hiel
darán respuesta süave?

Llegad a la Virgen bella,
y decirle con el ángel:
«Ave, quitad su amargura,
pues que de gracia sois Ave».

Sepa al vientre el fruto santo,
y a la dulce palma el dátil;
si tiene el alma a la puerta
no tengan hiel los umbrales.

Y si dais leche a Bernardo,
porque de madre os alabe,
mejor Jesús la merece,
pues Madre de Dios os hace.

Dulcísimo Cristo mío,
aunque esos labios se bañen
en hiel de mis graves culpas,
Dios sois, como Dios habladme.

Habladme, dulce Jesús,
antes que la lengua os falte,
no os desciendan de la cruz
sin hablarme y perdonarme.

Lope de Vega
_


Biografia:

Lope de Vega

Poeta dramático espanhol que nasceu em 1562, em Madrid. Morreu em 1635, igualmente em Madrid, depois da morte da última mulher da sua vida, da morte do filho no mar e do rapto da filha mais nova. Foi um dramaturgo marcante da "idade de ouro" espanhola, autor de mais de 1800 peças de teatro, das quais apenas sobreviveram 431, e de algumas centenas de autos, tendo chegado somente 50 aos nossos dias. Foi educado pelos jesuítas e logo se fez notar pela grande facilidade de composição em verso e pela imaginação romanesca.Em 1583, seguiu para Lisboa, onde embarcou na esquadra espanhola que Álvaro de Bazán preparou para tomar parte na expedição aos Açores, contra os portugueses que resistiam a Castela. Cinco anos depois, tornou a embarcar em Lisboa, na Armada Invencível. Depois de a esquadra ter sido desfeita pelos vendavais e pelos ingleses, Lope regressou a Espanha juntamente com os poucos navios intactos. Pouco depois escreveu Arcádia, uma novela pastoral cheia de alusões a pessoas e a factos do seu tempo. Depois de ter enviuvado, de ter casado segunda vez e de ter vivido vários escândalos amorosos, ingressou na Congregação dos Escravos do Santíssimo Sacramento, em 1608. Em 1611, integrou a Ordem Terceira de S. Francisco. Três anos depois, recebeu as ordens sacras. Em 1627, doutorou-se em Teologia no Collegium Sapientiae e recebeu a Cruz da Ordem de Malta. A partir desse momento passou a utilizar o título de frei.
Os temas das suas obras foram inspirados na tradição nacional. O cunho dramático assenta, sobretudo, no choque das paixões tipicamente espanholas, como o sentimento de honra, a dedicação cavalheiresca, a realeza, a justiça e o contraste entre as sociedades aristocrata e popular. O mais importante na sua obra não é o carácter individual, mas sim o atrito pessoal com a sociedade e o contraste entre o ambiente e a mentalidade. Exemplo disso são obras como El Último Godo, Las Famosas Asturianas, El Mejor Alcalde el Rey, La Desdichada Estefania, La Estrella de Sevilla, Lo Cierto por lo Doduso, El Rey Don Pedro en Madrid, Porfiar Hasta Morir, Peribáñez y el Comendador de Ocaña, Fuente Ovejuna, El Remedio en la Desdicha, Los Comendadores de Córdoba, La Serrana de la Vera, El Marquez de las Navas, El Mejor Mozo de España, e muitas outras.
Para além do género dramático, Lope também se dedicou a novelas em prosa, muitas vezes com versos intercalados - como é o caso de Arcádia. Dentro deste género também escreveu Dorotea e El Peregrino en su Patria (1603) e Las Fortunas de Diana e La Filomena (1621). Escreveu poemas como La Hermosura de Angelica e La Dragóntea (1602), Circe (1624), Mañana de S. Juan, La Corona Tragica, St. Isidoro Labrador e Romancero Espiritual (1625), Rimas Sacras, Laurel de Apolo (1630), e numerosas poesias líricas. Entre as suas obras, existem algumas que se referem a assuntos portugueses, como La Tragedia de Doña Ignez de Castro (1613), El Bastardo de Ceuta (1615), El Duque de Vizeo (1615), El Más Galan Portugués, Duque de Braganza (1615), La Tragedia del Rey Don Sebastian, y Bautismo del Principe de Marruecos (1618), Segunda Parte del Principe Perfecto (1623), D. Juan de Castro, Fernan Mendes Pinto, Comedia Famosa e El Nuevo Mundo Descubierto, uma comédia em verso que narra, em três atos, a viagem de Cristóvão Colombo e a recusa do rei de Portugal em patrocinar a viagem.Lope de Vega escreveu também romances pastorais, versos históricos de acontecimentos da sua época, versos biográficos de santos espanhóis, longos poemas épicos e burlescos e contos em prosa, "imitando" ou adaptando os trabalhos de Ariosto e de Cervantes. As suas composições líricas - baladas, elegias, epístolas e sonetos - são inúmeras.

Como referenciar este artigo:
Lope de Vega. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2012. [Consult. 2012-11-12].
Disponível na www: <URL: http://www.infopedia.pt/$lope-de-vega>.

Ler ainda: Para que nasci?

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Lutero e João Paulo II

Lutero e João Paulo II


Reencontrei recentemente um artigo do poeta Bruno Tolentino na extinta revista Manchete, à época da última visita (creio) de João Paulo II ao Brasil, em 1997. Nele, Tolentino fala sobre os poemas que o papa escrevera em polonês, e que o poeta traduzira para o inglês. Este trecho é muito interessante:

"O pontífice-autor talvez não goste de ouvir isto, mas sua visão da participação de todos na escalada de cada um rumo ao Calvário é curiosamente luterana. O grande Reformador dizia que a Cruz não se escolhe nunca, é sempre imposta. Ninguém gosta, todos preferimos a nossa versão pessoal de auto-sacrifício, mas como diriam a uma só voz Lutero e Wojtyla:
Eu queria carregar ladeira acima uma Cruz que escolhesse, compatível com o orgulho e a auto-estima. Só que esse tipo de Cruz não faz sentido! Na crucificação tudo é possível, menos não ser um pária, um poltrão, um bandido..."

sábado, 10 de novembro de 2012

Considerações sobre a morte, em poesia

EU TAMBÉM MORREREI!

 

Eu morrerei!

Deixarei tudo, sem exceção; deixarei meus pais, meus amigos, minha família; e eu lhes direi um adeus eterno... Deixarei minha casa, meus móveis, minha terra, tudo o que me pertence. ... Deixarei absolutamente tudo. E essas coisas das quais eu gosto mais? ... Eu as deixarei como todo o resto. Que abandono universal ... isso será portanto.

Ai de mim! Que loucura se apegar àquilo que se deve em breve deixar! Eu tive muito trabalho para adquirir ou conservar o que possuo; e tudo isso irá acabar! ... Por que não me separar de antemão para um completo destacamento?

Minha alma deixará meu corpo; e, portanto, o corpo será um objeto inoportuno, do qual meus próprios pais e meus amigos não procurarão que se livrar, um cadáver infecto, capaz de tudo envenenar se não for enterrado no solo; e o enterrarão, então, e o que será desse corpo de que me ocupei tanto? O que será destes pés, destas mãos, desta cabeça? Que insensato sou, portanto, de embelezar e adornar aquilo que em breve não será mais do que podridão e cinzas! Que insensato eu sou de por em risco, por causa deste corpo e seus prazeres, a minha alma, a minha eternidade!…

Então, pensarão muito em mim, entre os homens? Ai de mim! Nós pensamos tão pouco nos mortos! Quem se lembra agora de tal e tal pessoa que eu conhecia, que eu vi morrer! Oh! A estima dos homens é pouca coisa!

Eu morrerei!

Minh'alma irá comparecer diante do tribunal de Deus! Ó momento temível! Encontrar-me sozinho na presença de Deus ... e responder por toda a minha vida diante de um Deus soberanamente justo, soberanamente iluminado, soberanamente inimigo do pecado!

Para escapar desse julgamento, eu não tenho que um caminho: julgar a mim mesmo severamente aqui na terra, e então eu não serei julgado.


segunda-feira, 18 de junho de 2012

Poema: Monsenhor Lefebvre, o rebelde!

A TI MONSEÑOR LEFEBVRE



A ti, Monseñor Lefebvre,

que en la Iglesia aún hoy día

se te acusa de rebelde,

porque con gran valentía

sostuviste entre huracanes

la gran promesa que un día, 

postrado ante Dios le hiciste,

ser fiel toda tu vida

a su Doctrina Sagrada

¡y a su Iglesia tan querida!

Si resultaste hoy rebelde

por rechazar la herejía, 

porque hiciste se comulgue

con respeto y de rodillas.

Y porque siendo Pastor, 

con profundo celo guiaste

todas las almas que Dios

a tu cuidado confió.

Si resultaste rebelde, 

porque no materializas 

ni alteraste el Evangelio.

Porque en el Templo o Capilla,

conservaste el santo altar

y la verdadera Misa.

Misa en latín que celebraste, 

porque es la lengua que unía

a todos los sacerdotes

que ante Dios, y cada día,

sin la Torre de Babel,

¡sin fronteras, se entendían!

Y así la Iglesia de Cristo

¡unida permanecía!

Si resultaste rebelde

por no tener tu "guerrilla",

por no mediar en secuestros,

por no ser contrabandista

de armas que aumentan Caínes.

Y si hoy es gran rebeldía

defender la Obra de Dios,

y condenar la herejía,

el crimen, y el sacrilegio

y toda inmoral doctrina,

como antes así lo hicieron

fieles Papas, fieles guías;

entonces, ¡Bendita sea,

Lefebvre, tu rebeldía!

Fonte: Ecce Christianus

quinta-feira, 29 de março de 2012

A mão de Deus

A mão de Deus

Um trecho do ROSÁRIO RECITADO COM SANTA TERESA DE ÁVILA que está em fase de tradução: 

"Quando se tratava de cair, eu tinha muito amigos dispostos a me ajudar, mas quando procurava me reerguer me encontrava tão sozinha que provo, agora, certa admiração por não ter permanecido sempre no chão e sinto-me obrigada a louvar a misericórdia de Deus, o único que me estendia a mão" (Vida, 7,22).


E por falar em tão divinas e amadas mãos... aqui o poema dela: Nas mãos de Deus.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Gemidos da alma penitente

Gemidos da alma penitente 


O Padre Manuel Bernardes, oratoriano, nasceu em Lisboa. São de Mendes dos Remédios as palavras seguintes: “Vieira e Bernardes [...] distanciaram-se na pregação como na vida. Vieira foi um lutador; a sua vida prende-se por mais de um laço à história política de Portugal; Bernardes viveu o melhor e maior tempo da sua vida — 36 anos — entregue à meditação e à redação dos seus livros na pobre cela da Congregação do Oratório. Lendo-os com atenção, escreve Antônio Feliciano de Castilho, sente-se que Vieira, ainda falando do Céu, tinha os olhos nos seus ouvintes; Bernardes, ainda falando das criaturas, estava absorto no Criador. Vieira vivia para fora, para a cidade, para a corte, para o mundo; Bernardes, para a cela, para si, para o seu coração. Vieira estudava galas e louçainhas de estilo. Bernardes era como estas formosas de seu natural, que se não cansam com alindamentos, a quem tudo fica bem, que brilham mais com uma flor apanhada ao acaso do que outras com pedrarias de grande custo.”

A coleção das obras do Padre Manuel Bernardes compreende dezenove volumes, entre os quais se contam os Sermões e Práticas (tem no Estante Virtual), os Exercícios Espirituais e Meditações da Vida Purgativa, Os Últimos fins do Homem, os Tratados Vários, em cujo 2º tomo entra o Pão Partido em Pequeninos (tem no Estante Virtual), alguns opúsculos e as suas melhores obras, Luz e Calor (1696 e 1871 - tem no Estante Virtual) e a Nova Floresta (tem no Estante Virtual). Durante o largo período em que viveu na Congregação do Oratório, o Padre Bernardes não cessou de trabalhar, até perder a vista e a lucidez dois anos antes de morrer.

As Jaculatórias que transcrevemos a seguir se encontram no fim da Segunda Parte de "Luz e Calor".


OPÚSCULO V - ORAÇÕES JACULATÓRIAS, OU SETAS ESPIRITUAIS PARA ATIRAR AO CÉU E FERIR O CORAÇÃO DE DEUS


O modo de exercitar esta Oração dissemos acima na Doutrina VII. Agora damos alguns exemplos, ou fórmulas das Jaculatórias; não para que a alma devota se ate a palavras certas, e as profira mais como lição decorada na memória do que como parto afetuoso da vontade; senão para que, à vista destes exemplos, conheça melhor o modo de as fazer, e adestre o seu arco. Vão repartidas em três como aljavas, conforme as três vias do Espírito, Purgativa, Iluminativa e Unitiva (que Molinos impiamente chamava o maior disparate da Mística); e assim podemos dizer que as primeiras são de ferro, as segundas de prata, e as terceiras de ouro; se bem aquelas ferirão mais altamente o coração de Deus que procederem de maior auxílio de sua graça, e maior intenção da nossa caridade. Se o Leitor achar em alguma aljava seta que parece pertencer mais propriamente a outra, não forme disso reparo, porque estas coisas morais pouco importa se não pesem ouro fio com os escrúpulos da balança Teológica.


1º — GEMIDOS DA ALMA PENITENTE PARA OS PRINCIPIANTES


DÉCADA I

405 — Senhor Deus: eu sou a miséria, a ingratidão, a indignidade; sou um pecador vilíssimo, a quem não devia cobrir o Céu nem sustentar a Terra. Havei de mim misericórdia, e salvai-me por amor de vossa bondade.

Pai: pequei contra o Céu, e em vossa presença; não sou digno de me chamar filho vosso; fazei-me como qualquer de vossos mercenários.

Lavai-me, meu Senhor Jesus Cristo, nas correntes de Vosso precioso Sangue; e limpai minha alma das manchas de todo o pecado.

Desgarrei-me como ovelha perdida. Que fora de mim, ó bom Pastor, se me não buscásseis, e tomásseis sobre vossos ombros?

Eis aqui está à vossa porta o pobre: eis aqui o leproso e cego, e tolhido, e coberto de inumeráveis chagas. Não necessitam de médico os sãos, mas os enfermos; vinde, e curai-me com a vossa palavra, para glória de vosso nome.

Que era eu, Senhor, no meio de meus vícios, e fora de vossa graça, senão um cão morto, coberto das moscas dos demônios, que em minha podridão se cevavam. Vistes minha miséria, e vos apiedastes. Destes-me vida e misericórdia. Oh, bendito seja tal amor!

Inclinai, Senhor, para mim vossos amorosos olhos, e apagai meus pecados. Concedei-me a graça da renovação de meu espírito, com uma vida totalmente conforme à vossa lei.

Deus meu: proponho firmemente, com o auxílio de vossa graça, não admitir jamais ofensa vossa. Oh! não mais pecar, não mais desprezar vossos preceitos; guardá-los, sim, mais que as meninas dos meus olhos.

Senhor: alcance eu de vós esta mercê; que, no ponto em que certamente hei de cair de vossa graça, antes caia morto de repente; porque viver com injúria vossa pior morte é que a mesma morte, e maior desgraça que o inferno.

Jesus amorosíssimo, Jesus minha Redenção e remédio: de tantas lágrimas que andando neste mundo chorastes, dai-me uma para que amoleça este coração, e o derreta pelos olhos. Dai-me uma lágrima vossa, para que a apresente a vosso Eterno Padre em remissão de meus pecados. 


DÉCADA II

406 — Não entreis, Senhor, em juízo com vosso servo; porque nenhum vivente se justificará diante de vós. De mil cargos que me fizerdes, não poderei responder a um só. Todo me entrego nos braços de vossa misericórdia.

Que maldade há no mundo tão execrável, que eu não esteja pronto para a cometer? Senhor, amarrai com as cadeias de vosso santo temor as fúrias de minha liberdade; porque sou capaz de tornar a crucificar-vos.

Isto me pasma, Senhor: como não respeitei vossa presença! Como não temi vossa indignação! Como me não compadeci de vossas dores! Como pisei vosso Sangue! Como não correspondi a tanto amor! Não pode haver maior cegueira.

Pecaste, alma minha: diz-me, agora, que fruto tiraste do teu pecado? Amaste as criaturas mais que ao Criador: que te ficou rendendo esta desordem? Perda da amizade de Deus, e do direito à sua glória, remorso de consciência, costume de tornar a pecar, escravidão ao demônio, reato da culpa, dívida da pena eterna. Oh, quem dera rios de lágrimas a meus olhos, para lamentar tão grave desgraça!

Vinde, vinde, Senhor, ao meu coração; formai um azorrague das cordas de vosso amor e temor, e lançai daqui todos os maus afetos que profanam a vossa casa.

Rogo-vos, meu Jesus, por aquele primeiro leite que bebeste nos peitos virginais de vossa Mãe Santíssima; e por aquelas sagradas primícias de vosso Sangue, que derramastes na Circuncisão, que não permitais que jamais caia de vossa graça nem esteja um ponto fora dela.

Pequei mais que o número das areias do mar. Porém, Senhor, as vossas misericórdias não têm número. Em vós ponho toda a minha esperança: não padecerei confusão eterna.

Eu a pecar; vós, Senhor, a perdoar-me. Eu a fazer-vos injúrias; vós a fazer-me benefícios. O certo é, Senhor, que cada um obra como quem é. Bendita seja vossa paciência, que tanto me esperou.

Muito agravado estais de mim, e vos sobra razão. Oh, quem para aplacar-vos tivera as lágrimas de uma Madalena, as penitências de uma Egipcíaca, os gemidos de um Agostinho, a compunção de um S. Pedro!

Ah, pecador atrevido e infame! Tu foste o que açoutaste a JESUS, tu o que o coroaste de espinhos; o que lhe lançaste salivas no rosto, o que o pregaste na Cruz. Como te não confundes?


DÉCADA III

407 — Lembrai-vos, Senhor, que sou obra de vossas mãos; lembrai-vos que vos custei muito na Cruz. Não entregueis às bestas infernais as almas que vos confessam.

Não me dirás, alma minha, que males te fez teu Deus, para que assim o ofendesses? Acaso foi crime o morrer por ti de amor em uma Cruz? Porventura te agravou em querer salvar-te, e dar-te o Reino de sua Glória? Que razão posso dar, Senhor, do pecado, que é a mesma sem-razão? Misericórdia.

Ora pazes, Senhor; pazes para sempre; fiz mal, assim o confesso diante do Céu e da Terra. Não farei mais; perdoai-me por quem sois.

Vaidade de vaidades, e tudo vaidade. Que me pode render o amor do mundo, e todas as suas coisas, senão deleite falso, que em um momento passa; tormento verdadeiro, que em uma eternidade não passa?

Que fará um desgraçado a quem a morte colheu em pecado mortal e sepultou nas profundezas? Oh, que gemidos! Oh, que ânsias! Oh, que remorsos! Oh, que desesperações! Oh, que incêndios! Tu não puderas já ser este? Quanto devo, Senhor, à vossa paciência! Bendita seja eternamente.

Não dissestes vós, Senhor, que havia grande festa e alegria no Céu quando algum pecador se convertia? Eia, amorosíssimo Jesus, fazei com vossa graça que seja eu o assunto desta alegria e festa.

Eis-me, aqui Senhor, que sou o filho pródigo, e dissipei a substância de vossa graça, e andei na região remota de vossa presença, apascentando os animais imundos de meus apetites; já torno para vossa graça, lançai-me os braços de vossa caridade.

Oh, banhe-me esse precioso Sangue, que com tanto amor derramastes pelos pecadores! Banhe-me todo com um perfeito batismo, e ficarei mais alvo que a neve.

Senhor Deus: aqui nesta vida me castigai, aqui me abrasai, contanto que me perdoeis eternamente. Não queirais, Senhor, entesourar contra mim vossa ira; não me guardeis para a outra vida a satisfação de vossa justiça.

Oh, horas preciosas dadas para servir e amar a Deus, e empregadas em ofendê-lo! Quem nunca houvera nascido para tanto mal! Ou quem de novo tornara a nascer, para o emendar!


DÉCADA IV

408 — Oh, que cego andava eu Senhor, pois estava sem vós, e vós sois Luz! Oh, como ia errado, pois estava fora de vós, e vós sois Caminho! Oh, que nesciamente procedia, pois estava sem vós, e vós sois Sabedoria! Oh, como estava morto, pois estava sem vós, e vós sois vida!

Nada sou, nada valho, nada posso senão ofender-vos, e precipitar-me no inferno. Esta mesma verdade que agora conheço, se afastares vossa luz, me ficará oculta; e sobre tantas misérias minhas se acrescentará outra, de as não conhecer.

Oh, alma minha, em que te ocupas, em que te enredas? O teu Jesus coroado de espinhos, e tu de flores? Ele suando Sangue, e tu buscando refrigérios? Ele farto de opróbrios, tu faminta de honras? Oh, confusão! Mudemos de vida; tomemos a Cruz; sigamos os passos de Cristo.

De quantos bens me destes, Senhor, usei mal, e em ofensa vossa. Se me fizésseis Anjo, creio que já também fora demônio. Oh, quem tivera digno sentimento de tão enormes excessos, verdadeira dor de pecados tão graves!

O ofício que tomei, Senhor, foi o de pecar; e neste me exercitei com toda a diligência, estudando muito de propósito na maldade. Oh, que bem concordava isto com o fim para que vós me criastes, que é amar-vos, e gozar-vos eternamente! Só vós, que sois infinito em bondade, podereis sofrer tanto.

Onde me esconderei, Senhor, até que passe a vossa ira? Fugirei de vós para vós mesmo; de vós, reto Juiz, para vós, Pai clementíssimo. Em vossas chagas me recolho, que este é o sagrado que vale aos que vão fugindo à vossa justiça.

Oh, quanta foi até agora minha negligência e descuido! O tempo que me concedestes para a penitência, desperdicei-o; os auxílios de vossa graça, rejeitei-os; às vozes com que me chamáveis me fiz surdo. E agora, Senhor, que hei de fazer? Pesa-me de haver pecado; havei de mim misericórdia, misericórdia.

Que dormisse eu tão seguro sobre a vossa ofensa, pendurado do fio da vida sobre a boca do inferno! Grande temeridade a minha! Senhor, dai-me entendimento, e viverei amando-vos e servindo-vos.

Oh, se eu já desprezasse o mundo como ele merece! Oh, se metera debaixo dos pés todas as coisas terrenas! Oh, se somente fizera estimação das eternas!

Afastai, Senhor, vosso rosto de meus pecados; e apagai e extingui todas as minhas iniqüidades. Criai em mim um coração novo; e renovai o espírito reto em minhas entranhas.


DÉCADA V

409 — Sei que hei de aparecer em vosso tribunal; sei que hei de dar-vos estreita conta de toda a minha vida. Não me atrevo, Senhor, a suportar vossos olhos irados. Ordenai agora minha vida, de modo que não desmereça então vê-los benignos.

Aqui vos mostro, Senhor, todas as minhas chagas. Vede como são muitas, como são profundas, como são envelhecidas? Ó médico Divino, sarai as minhas chagas com as vossas; que, para os filhos de Adão estarem sãos, quis o Filho de Deus estar chagado.

Não te desalentes, Alma minha, com a enormidade e multidão de teus pecados. Espera sempre em Deus até à noite cerrada da tua morte; que em Deus há infinita misericórdia e redenção copiosa.

Ajudai-me, Deus Salvador meu; livrai-me por amor da glória do vosso nome. Não vos lembreis de minhas maldades; submergi-as no mar de vossa bondade imensa.

Olha, Alma minha, olha para teu Deus posto por ti em uma Cruz, eis ali o que perdoa, e apaga os teus pecados. Vê quanto padeceu por te salvar; vê com que fina caridade te ama. Guarda-te de jamais tornar a ofendê-lo.

A vós, Senhor, que sois dulcíssimo Esposo de minha alma, desprezei-vos; ao demônio, que é adúltero, fiz-lhe a vontade. Tomara morrer de sentimento de tão feia desordem. Tomara chorar de dia e de noite tão execranda maldade.

Que tenho eu com o mundo, que passa como figura? Que tenho eu com a carne, que murcha como flor? Que tenho com as coisas transitórias, que tudo é engano, perigo, trabalho, vaidade? Eia, eia, salvemos a alma nas tabuas da Cruz, fazendo penitência.

Oh, momento do qual pende a eternidade! Só quem te não considera te não teme. Abri-me, Senhor, os olhos da alma, não me suceda adormecer no letargo da morte eterna.

Senhor, aqui venho fugindo de meus inimigos: abri-me as portas de vossa misericórdia. Recolhei o vosso fugitivo, meu Deus; recolhei-me depressa, que meus inimigos me vêm ao alcance.

Dulcíssimo Jesus: o vosso soberano nome quer dizer Salvador; obrai em mim conforme vosso nome e salvai-me.


PADRE MANUEL BERNARDES (1644-1710)


 
Fonte: Permanência
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