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terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Luta Interior

Antologia de São João Crisóstomo


Luta Interior



Mal somos atingidos por uma doença corporal, não deixamos de tentar nada, até nos vermos livres da moléstia; estando, no entanto, a nossa alma doente, às vezes, tudo são vacilações e atrasos [...]: fazemos do necessário acessório, e do acessório necessário. Deixamos aberta a fonte dos males e desejamos secar os arroios. (Homilias sobre São Mateus, 14, 3)





terça-feira, 25 de junho de 2013

Homossexualismo: Pecado intolerável aos próprios demônios

Homossexualismo – Pecado intolerável aos próprios demônios


Palavras de Deus Nosso Senhor dirigidas a Santa Catarina de Sena:

“Filha querida, ao participar da Eucaristia, exijo de vós e dos sacerdotes toda a pureza que é possível nesta vida… sobretudo dos ministros. Mas eles fazem exatamente o contrário. Estão inteiramente imundos. E o pior é que não se trata apenas daquela fraqueza natural que a razão pode dominar quando a vontade o quer. Esses infelizes não somente não refreiam tal tendência, mas fazem algo de muito pior e caem no vício contra a natureza. São cegos e estúpidos, cuja inteligência obnubilada não percebe a baixeza em que vivem… Esse pecado, aliás, não desagrada somente a mim. É insuporável aos próprios demônios, que são tidos como patrões por aqueles infelizes ministros. Os demônios não toleram esse pecado. Não porque desejam a virtude; por sua origem angélica, recusam-se a ver tão hediondo vício. Eles atiram as fechas envenenadas da concupiscência, mas voltam-se no momento em que o pecado é cometido”.

Visto em: http://servusservorumdei.wordpress.com/2008/09/02/homossexualismo-pecado-intoleravel-aos-proprios-demonios



quarta-feira, 10 de abril de 2013

MEDITAÇÕES: Do Pecado Mortal

Sta Teresa D'Avila fala sobre o pecado mortal


Antes de passar adiante, quero dizer-vos que considereis o que será ver este castelo tão resplandecente e formoso (que é a alma), esta pérola oriental, esta árvore de vida que está plantada nas mesmas águas vivas da Vida, que é Deus, quando cai em pecado mortal. Não há trevas mais tenebrosas, nem coisa tão escura e negra que ela o não esteja muito mais. Basta saber que, estando até o mesmo Sol, que lhe dava tanto resplendor e formosura no centro de sua alma, todavia é como se ali não estivesse, para participar d'Ele, apesar de ser tão capaz de gozar de Sua Majestade, como o cristão o é para nele resplandecer o sol. Nenhuma coisa lhe aproveita; e daqui vem que todas as boas obras que fizer, estando assim em pecado mortal, são de nenhum fruto para alcançar glória; porque, não procedendo daquele princípio que é Deus, do qual vem que a nossa virtude é virtude, e apartando-nos d'Ele, não pode a obra ser agradável a Seus olhos; porque, enfim, o intento de quem faz um pecado mortal, não é contentar a Deus, senão dar prazer ao demônio o qual, como é as mesmas trevas, assim a pobre alma fica feita uma mesma treva.

Eu sei de uma pessoa a quem Nosso Senhor quis mostrar como ficava uma alma quando pecava mortalmente. Diz aquela pessoa que lhe parece que, se o entendessem, não seria possível que alguém pecasse, ainda que se pusesse nos maiores trabalhos que se possam pensar para fugir das ocasiões. E assim, deu-lhe um grande desejo de que todos o entendessem. Assim volo dê a vós, filhas, de rogar a Deus pelos que estão neste estado, todos feitos uma escuridão, e tais são suas obras; porque, assim como duma fonte muito clara, claros são os arroiozitos que dela manam, assim é uma alma que está em graça, pois daqui lhe vem serem suas obras tão agradáveis aos olhos de Deus e dos homens, porque procedem desta fonte de vida, onde a alma está como uma árvore plantada; nem ela teria frescura e fruto, se não lhe viesse dali; é isto que a sustenta e faz com que não seque, e que dê bom fruto. Assim a alma que, por sua culpa se aparta desta fonte e se transplanta a outra de uma negríssima água e de muito mau odor, tudo o que dela sai é a mesma desventura e sujidade.

É de considerar aqui que a fonte e aquele Sol resplandecente que está no centro da alma, não perde seu resplendor e formosura, que está sempre dentro dela, e não há coisa que lhe possa tirar a sua formosura. Mas, se sobre um cristão que está ao sol, se pusesse um pano muito negro, claro está que, embora o sol dê nele, a sua claridade não fará o seu efeito no cristal.

Ó almas remidas pelo Sangue de Jesus Cristo! Entendei-vos e tende dó de vós mesmas! Como é possível que, entendendo isto, não procureis tirar este pez deste cristal? Olhai que, se a vida se vos acaba, jamais tornareis a gozar desta luz. Ó Jesus! O que é ver uma alma apartada dela! Como ficam os pobres aposentos do castelo! Que perturbados andam os sentidos, que é a gente que vive neles! E as potências, que são os alcaides, mordomos e mestres-salas, com que cegueira, com que mau governo! Enfim, como onde está plantada a árvore é o demônio, que fruto pode dar?

Ouvi uma vez a um homem espiritual, que não se espantava do que fazia quem está em pecado mortal, mas sim do que não fazia. Deus, por Sua misericórdia, nos livre de tão grande mal, que não há outra coisa, enquanto vivemos, que mereça este nome de mal, senão esta; pois acarreta males eternos para sempre. É disto, filhas, que devemos andar temerosas e o que temos de pedir a Deus em nossas orações; porque, se Ele não guarda a cidade, em vão trabalharemos, pois somos a própria vaidade.

Dizia aquela pessoa que tinha aproveitado duas coisas da mercê que Deus lhe fez: uma, um temor grandíssimo de O ofender, e assim sempre Lhe andava suplicando que não a deixasse cair, vendo tão terríveis danos; a segunda, um espelho para a humildade, vendo que, coisa boa que façamos, não tem seu princípio em nós mesmos, mas naquela fonte onde está plantada esta árvore das nossas almas, e neste Sol que dá calor às nossas obras. Disse que se lhe representou isto tão calr que, em fazendo alguma coisa boa ou vendo-a fazer, acudia ao seu princípio e entendia como, sem esta ajuda, não podíamos nada; e daqui lhe procedia ir logo a louvar a Deus, e, habitualmente, não se lembrava de si em coisa boa que fizesse.

Santa Teresa D'Avila, Mística e Doutora da Igreja, Castelo Interior.


Fonte: http://anjosdeadoracao.blogspot.com.br

Não revisado pelo blog!

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segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Da caridade fraterna

Caridade Fraterna 


Social por natureza, o homem sente necessidade de amar a seu semelhante. Sem isto, a vida em sociedade seria intolerável. Sem isto, a vida em sociedade seria intolerável.
A unidade da espécie humana nos obriga a este amor: somos todos irmãos.
Outra fraternidade ainda mais estreita é a dos filhos de Deus e membros do Corpo de que Cristo é a cabeça e o primogênito entre muitos irmãos (Rom. 8, 29).

Amor do próximo
s1. A lei mosaica mandava: “Amarás a teu próximo como a ti mesmo” (Lv. 19, 18). Mas os judeus não compreendiam os inimigos, escravos e estrangeiros como próximos.
2. Jesus Cristo equiparou o amor do próximo ao amor de Deus (Mt. 22, 39) e lhe deu verdadeira interpretação na parábola do samaritano (Lc. 10, 25-37), estendendo a caridade a todos os homens, mesmo ao inimigos (Mt. 5, 43-45).
3. A caridade fraterna é sinal de amor a Deus.

“Se alguém disser que ama a Deus, e odiar o seu irmão, é mentiroso. Porque aquele que não ama o seu irmão, a quem vê, como amará a Deus a quem não vê?” (1 Jo. 4, 20).

4. É o sinal do cristianismo. Jesus indicou o amor do próximo como o sinal para se conhecerem os seus discípulos: “Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros” (Jo. 13, 35).
5. Por isto Deus exige de quem o ama que ame também o próximo (1 Jo. 4, 21). Não aceita as oferendas dos que primeiro não se reconciliarem com o seu irmão (Mt. 5, 23-24).


Por amor de Deus

1. Devemos amar ao próximo primeiramente por amor de Deus. A caridade é uma virtude sobrenatural. No próximo vemos:
a) a imagem de Deus (Gn. 1, 26);
b) um filho de Deus (Mt. 23, 9), participante da bondade divina;
c) um membro de Jesus Cristo. O próprio Jesus Cristo reputa feito a si o que foi feito ao mínimo de seus irmãos (Mt. 25, 40);
d) um nosso irmão. Fomos todos criados por Deus e remidos pelo sangue de Cristo, que nos ensinou a verdadeira fraternidade, na qual chamamos a Deus de Pai: “Padre nosso, que estais no céu”.
2. Não é caridade o que se baseia na simples compaixão natural ou em meras considerações humanas.


Amar os inimigos

1. Somos obrigados a amar até os próprios inimigos. É doutrina expressa de Jesus:
“Tendes ouvido o que foi dito: Amarás a teu próximo e odiarás a teu inimigo. Mas eu vos digo: Amai a vossos inimigos, fazei bem a quem vos odeia, orai pelos que vos perseguem e caluniam” (Mt. 5, 43-44).

2. Isto fazemos:
a) não guardando ódio. “Todo o que tem ódio a seu irmão é homicida” (1 Jo. 3, 15).
b) perdoando de coração: “Se não perdoardes aos homens, também vosso Pai celeste não vos perdoará vossos pecados” (Mt. 6, 15).
c) não querendo vingar-se.
d) fazendo por eles o bem que queremos que nos façam.

3. O amor aos inimigos não é impossível. De fato:
a) Jesus fez dele um preceito: “Eu, porém, vos digo: Amai os vossos inimigos” (Mt. 5, 44). E ele não nos iria dar um preceito impossível.
b) Deu-nos o exemplo, perdoando a seus algozes (Lc. 23. 34), o que tem sido seguido pelos santos: Sto. Estêvão (At. 7, 59), São João Gualberto (dia 12 de julho), Santa Joana de Chantal (21 de agosto).



ORDEM NA CARIDADE

1. Há na caridade uma ordem de pessoas. Se devemos amar o próximo como a nós mesmos, somos o padrão de nosso amor ao próximo. A caridade bem ordenada começa por si mesma.

A ordem de pessoas é a seguinte: cônjuge, filhos, pais, irmãos, parentes, amigos, benfeitores, correligionários (Gl. 6, 10), conhecidos, concidadãos, estrangeiros.

2. Há uma ordem de necessidade: espiritual e corporal. Mesmo em nós, amar de preferência o que vale mais.
A salvação vale mais do que a vida – e somos obrigados a dar a vida pela salvação eterna.
A alma vale mais do que o corpo: “Se o teu olho te escandaliza, arranca-o e lança-o fora” (Mt. 5, 29).
A virtude vale mais do que o saber – e devemos afastar-nos dos conhecimentos nocivos à virtude.
A honra vale mais do que a saúde – e importa guardar aquela, mesmo com detrimento desta.
O dever vale mais do que o prazer – e devemos abandonar os divertimentos que impedem o cumprimento dos deveres.
Assim, daremos aos valores espirituais tanto maior cuidado quanto o espírito é superior ao corpo.

3. No amor ao próximo respeitaremos do mesmo modo a hierarquia de valores.
a) A salvação de uma alma prevalece sobre qualquer necessidade temporal nossa ou alheia. (Em que casos se pode dar isto?).
b) Para salvar uma vida, somos obrigados a sacrifícios mais ou menos importantes. Mas não somos obrigados a expor a própria vida para salvar a de outrem.
c) Devemos preferir as obras de caridade espirituais, que são entre nós, infelizmente, as mais desprezadas. (A que obras de caridade espiritual v. se pode dedicar?).
Às vezes, porém, somos obrigados a começar pelo corpo para chegarmos aos cuidados espirituais que, na intenção, são os primeiros. “É inútil pregar conformidade e resignação a homens famintos” (Troniolo). As Conferências Vicentinas, cuja finalidade é espiritual, começam sempre pelo socorro material.

4. É contra a caridade para conosco expor-nos a perigo grave de pecar, em benefício espiritual do próximo. (Que pensar de certos jovens que vão para os bailes dançar para fazer Ação Católica?).

5. A caridade espiritual é de todas a primeira. A caridade consiste no amor de Deus, isto é, no estado de graça. Então a caridade conosco é nos mantermos no estado de graça, empregando para isto os meios. Com o próximo, a caridade é levá-lo à graça divina, usando igualmente dos meios aptos.

6. Na própria necessidade há uma ordem. Podemos achar-nos em necessidade extrema, grave ou comum.


Qualidades da caridade

1. Sobrenatural, para ser caridade. Vemos no próximo um filho de Deus, em membro de Jesus Cristo.

2. Operosa. Virtude de obras e não apenas de afetos. Se é verdade que as obras sem amor não são caridade, também os afetos só não bastam.
“Se um irmão ou uma irmã estiverem nus e precisarem do alimento quotidiano, e algum de vós lhes disser: Ide em paz, aquecei-vos e saciai-vos; porém não lhes derdes as coisas necessárias ao corpo, de que lhes aproveitará?” (Tgo. 2, 15-16).

3. Universal, não só enquanto atinge a todos os homens, mas também enquanto envolve todos os atos e anima todas as virtudes cristãs, que sem ela nada valem.
“Ainda que eu falasse a língua dos homens e dos anjos, se não tiver caridade, sou como um bronze que soa ou como um címbalo que tine” (1 Cor. 13, 1). (Ver o elogio da caridade feito por S. Paulo em 1 Cor. cap. 13.).


Para viver a doutrina

1. A verdadeira caridade quer o maior bem do próximo. No entanto, dizer mal do próximo, zombar, divulgar seus defeitos e faltas, não socorrê-lo nas necessidades espirituais, não ajudá-lo a sair do pecado ou das ocasiões perigosas – são faltas de todo dia. O meu amor ao próximo deve tomar novo incremento.

2. Toda gente se queixa da grande miséria espiritual do mundo moderno. Há no meio em que vivo indícios desta miséria? (Examinar e determinar). E eu tenho o dever de minorá-la. Converter a uns para a prática da Religião, chamar outros para a frequência dos Sacramentos, cuidar de que todos vivam na graça divina – eis a missão da Ação Católica. Como poderei eu fazer isto? (Responder de modo prático, que encaminhe à ação).

3. A verdadeira caridade fraterna é fazer o próximo viver na graça santificante. Ora, há milhões de almas que nem conhecem o verdadeiro Deus. Que faço pelas Missões? Os missionários fazem um trabalho sobrenatural, mas precisam também de meios humanos para tratarem da conversão dos pagãos. Que posso eu fazer para ajudar aos missionários? (Responder de modo prático, que leve à ação).

4. Ao nosso lado há hereges – protestantes e espíritas. Afastados da verdadeira fé, errando o caminho da salvação. Sou obrigado a amá-los, interessando-me pela sua conversão e salvação. Tenho feito isto? Que posso fazer neste sentido? (Responder). Há um apostolado de preservação contra essas heresias: advertir os incautos contra as sessões, remédios e enganos do espiritismo; contra a propaganda (livros, revistas, pregações) protestante.

5. É a caridade uma das virtudes mais fáceis de praticar, desde que a tenhamos no coração. Não faltam ocasiões.
Em vez de palavras ásperas, palavras bondosas; em vez de zombarias que desagradam, um trato amável; em vez de rixas, união com todos; em vez de rivalidades, que provocam discórdias, humildade, que desfaz competições; em vez de maledicências e juízos temerários, dizer e pensar bem de todos. Há uma infinidade de pequenos serviços, há muitas ocasiões de proporcionar alegria, há inúmeros meios de mostrar gentileza que uma pessoa caridosa pode e sabe aproveitar.

6. É o amor aos inimigos um dos mais difíceis preceitos da caridade cristã. Longe de ser fraqueza, como pensa o mundo, é prova de grande valor moral. Sinal de força é o homem vencer-se, dominar os seus baixos instintos. A melhor prova de que isto é mais heroísmo do que fraqueza, é que muitos são capazes de odiar e vingar-se, poucos de perdoar e amar. Mas somos cristãos para seguir e imitar a Jesus Cristo.

7. Se somos obrigados a amar a todos, devemos no entanto respeitar a ordem na caridade. Nesta ordem há um ponto que devemos salientar: é a solidariedade dos católicos.
Preferir o médico, o advogado, o comerciante, o operário, etc., que comungam da mesma fé conosco é recomendação do próprio São Paulo: “Façamos o bem a todos, mas principalmente aos irmãos na fé” (Gl. 6, 10). (Que mal pode fazer numa família um médico sem religião?).
A preferência aos colégios e professores católicos é uma imposição da Igreja, por causa dos perigos que os anticatólicos trazem à fé.

8. Nunca nos devemos expor a perigo de pecar, mesmo para cuidar da salvação do próximo. Se a companhia de certo amigo me faz mal (mesmo que eu lhe faça algum bem), devo deixá-la. Se frequentando certo divertimento corro perigo espiritual, devo abandoná-lo ainda que a minha presença evite alguns males. Se uma leitura me prejudica moralmente, ainda que me ilustre o espírito, sou obrigado a abandoná-la.



OBRAS DE CARIDADE

Santa Isabel da Hungria

A prova da caridade são as obras. Não é com meros sentimentos nem com palavras que haveremos de socorrer e assistir a nossos irmãos nas suas múltiplas necessidades.

Importa conhecer essas necessidades. Assim atenderemos a cada qual segundo o seu valor, orientando nossas ações para a suprema preocupação da caridade, que é o amor de Deus, sem nos esquecermos de que muitas vezes é o corpo o melhor caminho para atingirmos as almas.


Obras de misericórdia

1. As CORPORAIS são:

1º dar de comer a quem tem fome: “Tive fome e me destes de comer” (Mt. 25, 35).
A viúva dá a Elias o último punhado de farinha que lhe resta, e Deus a recompensa com fartura (3 Reg. 17, 12-16). S. Domingos (4 de agosto) dá aos pobres os últimos pães que havia no convento. Ainda criança, Santa Rosa de Viterbo (4 de setembro) dava aos pobres o pão da merenda.

2º dar de beber a quem tem sede: “Tive sede e me destes de beber” (Mt. 25, 35).
“E todo o que der a beber a um daqueles pequeninos um copo d’água fria, por ser meu discípulo, na verdade vos digo que não perderá a sua recompensa” (Mt. 10, 42). Rebeca dá de beber ao servo e aos camelos de Abraão (Gn. 24, 15-20).

3º Vestir os nus: “Estava nu, e me vestistes” (Mt. 25, 36).
Tobias dava roupas aos seus parentes pobres (Tb. 1, 20). S. Martinho corta a metade do manto para dar a um pobre, e à noite Jesus lhe aparece vestido naquele manto (11 de novembro).

4º Remir os cativos.
S. Felix de Valois (20 de novembro) funda a Ordem dos Trinitários para a remissão dos cativos.

5º Visitar os enfermos e encarcerados: “Estava enfermo, e me visitastes; no cárcere, e viestes ver-me” (Mt. 25, 36).
S. João de Deus funda uma Ordem para cuidar dos enfermos (8 de março). Os hospitais católicos. S. Tomás de Vilanova com o dinheiro que lhe davam, ainda criança, comprava ovos para levar aos doentes (23 de setembro).

6º Dar pousada aos peregrinos: “Era peregrino, e me acolhestes” (Mt. 25, 35).
S. Paulo manda não esquecermos a hospitalidade (Hb. 13, 16). A Regra de São Bento manda hospedar no mosteiro os peregrinos. Raquel hospeda Tobias com alegria (Tb. 7, 1).

7º Sepultar os mortos.
Tobias enterra os mortos, com sacrifícios ousados (Tb. 2, 3-9). Davi felicita os que sepultaram a Saul (2 Reg. 2, 5). José de Arimatéia sepulta a Jesus (Mt. 22, 60). Os cemitérios paroquiais. As encomendações. Acompanhar os enterros, por espírito de caridade.


2. As ESPIRITUAIS são:

1º Dar bom conselho.
S. João Batista aconselha Herodes a abandonar o pecado (Mc. 6, 18). Por uma boa conversa se pode levar uma alma a Jesus. (Ver Jo. 1, 40-51; 4, 39-42). (Que oportunidades lhe aparecem para dar bons conselhos?).

2º Ensinar aos ignorantes. Jesus manda aos apóstolos: “Ide e ensinai” (Mt. 28, 19).
Os pregadores e catequistas. As Congregações ensinantes. As Missões entre os infiéis.

3º Corrigir os que erram: “Se teu irmão pecar contra ti, corrige-o” (Mt. 18, 15). Natan corrige a Davi, quando este pecou (2 Reg, 12, 7-12).

4º Consolar os aflitos: “Vinde a mim todos os que trabalhais e estais sobrecarregados, e eu vos aliviarei” (Mt. 11, 28).
(Procurar passagens do Evangelho em que Jesus consola os que sofrem). “Visitar os órfãos e viúvas nas suas tribulações” (Tgo. 1, 27). S. Camilo de Lelis funda uma Ordem para socorrer os moribundos (18 de julho).

5º Perdoar as injúrias: “Perdoai, se tendes alguma coisa contra alguém” (Mc. 11, 25).
Generosidade de Davi para com Saul (1 Reg. 24, 4-8 e 26, 6-12). E os nossos interesses estão em jogo: “Perdoai as nossas dívidas assim como nós perdoamos aos nossos devedores”...

6º Sofrer com paciência as fraquezas do próximo.
A paciência nos é necessária (Hb. 10, 36) e precisamos revestir-nos dela (Col. 3, 12) para suportarmos os outros – mesmo porque precisamos também ser tolerados por eles: “com paciência, suportando-vos uns aos outros por caridade” (Ef. 4, 2). (Quais as fraquezas do próximo que mais me custa suportar? Como fazer para vencer-me?).

7º Orar pelos vivos e defuntos.
Abraão pede a Deus pelos habitantes de Sodoma (Gn. 18, 22-32). Moisés pede pelos israelitas (Ex. 32, 11-14). Jesus reza por São Pedro (Lc. 22, 32), pela Igreja (Jo. 17, 20-26). Judas Macabeu ora pelos soldados mortos (Mac. 12, 42-46). – Lição da Missa de aniversário dos defuntos. O rosário e a conversão dos albigenses.


A esmola

1. A esmola envolve grande parte das obras de caridade corporal. É em si mesma um preceito da lei natural.

2. É um preceito da lei divina. E não simples conselho. É obrigação, que pode ser grave, mesmo gravíssima, ainda com grande incômodo e dano de quem dá.
O mau rico foi condenado ao inferno por negar a Lázaro os seus sobejos (Lc. 16, 19-23). E no dia do juízo muitos serão por isto condenados: “Afastai-vos de mim, malditos...porque tive fome e não me destes de comer” (Mt. 25, 41). Na Lei Antiga já tinha sido mandado por Deus: “Eu te ordeno que abras a mão a teu irmão necessitado e pobre” (Deut. 15, 11).

3. A doutrina da Igreja tem sido constante a este respeito.
S. Jerônimo adverte que o supérfluo não nos pertence. S. Agostinho diz mesmo: “O supérfluo do rico é necessário ao pobre; retém o alheio quem o retém”. S. Ambrósio increpa os ricos: “Um homem pede pão, e teu cavalo tem arreios de ouro!”


Regras da esmola

1. Regra geral: A esmola deve ser de acordo com a condição de quem dá e a necessidade de quem pede. Simples na teoria, é regra bem difícil na prática:
a) Somos obrigados a dar do supérfluo. O supérfluo é o que sobra do necessário à nossa existência (alimento, roupa, habitação) e ao nosso estado ou condição social (empregados, hóspedes, visitas, decência condigna).
b) A necessidade de quem pede pode ser:
1) extrema: morre, se não for socorrido;
2) grave: corre um grande perigo corporal ou moral;
3) comum: a dos mendigos em geral.

2. Regras particulares:

1ª Na extrema necessidade somos obrigados a dar o suficiente para socorrer a pessoa no momento, mesmo tirando do necessário ao nosso estado;

2ª Na necessidade grave somos obrigados a dar do mesmo modo, mas não com grave detrimento nosso;

3ª Na necessidade comum, só do supérfluo somos obrigados a dar, e não a todos os necessitados.


3. Como se deve dar:

a) Por amor de Deus, vendo a Jesus no próximo: “Quantas vezes fizestes ao menor dos meus irmãos, a mim foi que fizestes” (Mt. 25, 40). Somente feita por amor de Deus, a esmola é caridade.

b) Por amor do próximo e, portanto, sem humilhar quem pede, sem se mostrar aborrecido em dar; sem constrangimento, mas com prontidão (2 Cor. 9, 7), sem ostentação (Mt. 6, 3). O modo de dar, às vezes, é mais caridade do que a esmola. Dando esmola por amor, teremos cuidado de não favorecer o vício, como nos adverte São Vicente de Paulo.

c) Com generosidade. Há pessoas que nunca têm supérfluo... Guardam tudo com ambição crescente. Mas, na verdade, a melhor esmola é a que sai do nosso necessário, como o óbolo da viúva, louvado de Jesus (Mc. 12, 43-44).


Para viver a doutrina

1. Tudo o que fizermos aos nossos irmãos, com os olhos na terra, na terra há de ficar. “Já receberam a sua recompensa”, disse Jesus (Mt. 6, 2). Tenhamos sempre em mira o amor de Deus, para encontrarmos tudo na eternidade.

2. É de muito valor a caridade corporal. Cristo mesmo a exerceu tantas vezes, curando enfermos, saciando famintos. A Igreja, em todos os tempos, se tem preocupado das necessidades corporais dos homens. Nisto ninguém lhe leva a palma.

3. Quando se trata de obras difíceis, contínuas, humildes, ninguém lhes mete ombros senão só os bons filhos da Igreja. Hospitais, leprosários, orfanatos, creches, etc., obras penosas, são mantidas por instituições eclesiásticas. Das mais notáveis invenções da caridade cristã são as Conferências Vicentinas, com sua visita semanal à casa dos pobres. E tudo feito em silêncio, por amor de Deus e do próximo.

4. Há obras de caridade corporal que todos podemos fazer com facilidade.
Uma pequena esmola, dar roupas usadas, visitar os doentes mesmo desconhecidos de um hospital, um pequeno serviço – são ações acessíveis a qualquer de nós. E não nos faltará ocasião. (Que obras de misericórdia corporal pode v. fazer?).

5. Mas as obras espirituais são muito mais importantes. Veremos o nosso irmão errar? Temos o dever de impedir o pecado, afastando-o da ocasião próxima. É a correção fraterna ocasião frequente de muitos benefícios espirituais ao próximo. (Que ocasião tem v. de praticá-la?).

6. Obra que merece grande dedicação é a instrução religiosa das crianças e das pessoas mais abandonadas. Muitos se perdem no protestantismo e no espiritismo, ou não praticam a Religião, ou a misturam com superstições, por não conhecerem o Catecismo. Devo ajudar ao Vigário no ensino religioso. Mesmo em conversas posso esclarecer muita coisa, retificar, dando a verdadeira doutrina da Igreja. É esmola muito mais valiosa do que o dinheiro. Sem isto, muitas pessoas se perderão eternamente.

7. Há ricos mais precisados da nossa caridade do que os pobres de esmolas. Há corações aflitos, que podemos consolar com uma palavra, uma visita, um bom conselho. Num momento de dor é grande conforto sabermos que os amigos sofrem conosco, rezam por nós, não nos abandonam. E não faltam ocasiões de praticarmos esta caridade.

8. Grande caridade é rezar pelo próximo. Quantos males podemos evitar, quanto bem fazer com a oração. Temos um tesouro na assistência à santa Missa aplicada por todas as necessidades. Ouvir, ou ainda melhor, mandar celebrar a Missa pelas intenções do próximo, é grande caridade, que ainda praticamos pouco. Nesta caridade não esqueçamos principalmente as almas do purgatório e os pecadores.

9. Acostumemo-nos, desde agora, a dar do pouco que temos. Além dos outros benefícios, a prática da esmola vai corrigindo nosso demasiado apego aos bens terrenos e os excessos do nosso egoísmo. Orientemos também, desde agora, nossos donativos para as obras de caridade espirituais (Missões, Boa Imprensa, O. V. S., Bom Pastor, etc.), em geral tão desprezadas e esquecidas.



PECADOS CONTRA A CARIDADE

Assim como todo pecado é contrário ao amor de Deus, podemos também dizer que todo pecado contra o próximo viola a caridade fraterna. Mas há pecados que se orientam contra o amor do próximo, ferindo-o diretamente.

Os pecados de omissão, além, de muito frequentes, podem ser tão graves que levam até ao inferno, segundo as palavras de Jesus (Mt. 25, 42-43) e a condenação do rico avarento. Há outros pecados que estudaremos agora, com a preocupação de evitá-los, a fim de nos mantermos no amor do próximo, que é dos sinais de que vivemos na graça divina.


I. Ódio

1. Amar é querer o bem para o próximo. Odiar é querer o mal.

2. É diferente o sentimento que experimentamos contra os defeitos do próximo. "Amai os homens, e combatei os seus erros". Mas esta detestação dos defeitos não atinge as pessoas.

3. Não é ódio a antipatia natural que nos causam algumas pessoas, ou mesmo o transtorno sensível que nos inspiram pessoas cuja presença nos lembra desgostos ou males que por sua causa padecemos. São movimentos instintivos, que não constituem pecado, embora os devamos refrear por serem um perigo para a caridade.

4. O ódio, em si, é pecado mortal, pois inverte totalmente a ordem estabelecida por Deus. "Quem odeia a seu irmão é homicida, e sabeis que nenhum homicida possui em si a vida eterna." (Jo. 3, 15).

5. Constitui também uma verdadeira fonte de pecado: falseia a verdade, ora aumentando os defeitos reais, ora inventando-os; viola a justiça, negando ao próximo o que lhe é devido; favorece a calúnia, estimula à maledicência; levanta iras; fomenta rixas; estabelece discórdias entre famílias inteiras, passando, às vezes, de geração em geração; leva até ao homicídio.


II. Inveja

1. A inveja é a tristeza que se sente por causa dos bens do próximo. Toma-se a felicidade alheia como uma diminuição da própria. Daí o desejo de diminuí-la ou destruí-la, fazendo o mal ao próximo.

2. Quando o bem do próximo nos estimula, e nós queremos atingi-lo também, mas sem prejuízo a ninguém, não é inveja que sentimos. É uma legítima emulação, que leva à imitação das virtudes, muito natural, recomendada por São Paulo (Hb. 10, 24), aconselhada pela Igreja ao nos apresentar os exemplos dos santos, intimada pelo próprio Cristo, que se apresentou como nosso modelo (Mt. 11, 29).

3. Em si, é a inveja um pecado mortal, porque transtorna inteiramente a ordem da caridade, que é nos alegrarmos dos bens alheios.

4. Lamentavelmente são também as consequências da inveja.
Para diminuir o próximo, desacredita-o com maledicências e calúnias, praticando injustiças, fomentando discórdias, criando inimizades, dividindo famílias, perturbando a paz, impedindo o bem pela desunião dos bons (entre católicos). Foi a inveja que cometeu o primeiro crime do mundo (Caim: Gn. 4, 8), vendeu o irmão como escravo (José: Gn. 37, 28), inspirou a Saul a morte de Davi (1 Reg. 19, 8-10), consumou a morte do próprio Filho de Deus: "Porque sabia que o tinham entregado por inveja" (Mt. 27, 18).


III. Vingança

1. Condenada por Cristo: "Não pagueis o mal com o mal" (Mt. 5, 31), a vingança é um pecado que revela maus sentimentos e baixeza moral.

2. O verdadeiro cristão sabe perdoar as injúrias que recebe. "Perdoai as nossas dívidas assim como nós perdoamos". A parábola dos dois devedores (Mt. 18, 21-35) mostra como serão tratados os que não querem perdoar.


IV. Escândalo

1. Escândalo (no grego significa tropeço) é uma palavra, ação ou omissão que dá ao próximo ocasião de pecado.

2. Se a pessoa faz isto com a intenção de levar o próximo ao pecado, sua falta é muito grave, mais grave do que o homicídio, porque mata a alma.
"Ai daquele homem por quem vier o escândalo. Melhor seria que lhe atassem ao pescoço uma pedra de moinho e o atirassem ao fundo do mar" (Mt. 18, 7).

3. Quem dá um escândalo fica responsável por todos os pecados que se cometem por sua causa. Ainda hoje proliferam escândalos dados há séculos. (Dar exemplos históricos).

4. Um bom cristão evitará mesmo algumas ações, que são boas mas possam escandalizar o próximo. É que a caridade obriga a evitar a ruína espiritual do próximo.


Para viver a doutrina

1. Tratemos com caridade as pessoas antipáticas, e estaremos praticando a caridade, melhor do que se as simpatizássemos.

2. Evitemos as pessoas cuja amizade não nos convém, cuja convivência nos é prejudicial. Isto não é inimizade, é prudência.

3. Pessoas elevadas gostam de ver a prosperidade alheia, e de ajudar o próximo em suas dificuldades. Dá mostra de nobreza quem se alegra com as boas notas dos colegas, a fortuna dos amigos, a prosperidade dos outros.

4. Em geral, é nossa ambição, vaidade, excessivo amor-próprio, desejo de louvor etc., a verdadeira causa da inveja. Sofreássemos as paixões, moderando-nos, e sentiríamos o direito que têm os outros de ser felizes. E seríamos nós muito mais felizes. Porque o invejoso é realmente infeliz: sofre de sua própria desgraça e da felicidade dos outros...

5. Acostumemo-nos a perdoar o que sofremos. O perdão é o melhor sinal de que amamos a Deus no próximo. Ordena Jesus que nos reconciliemos sem demora. (Mt. 5, 25). O perdão eleva os homens como elevou a José diante dos próprios irmãos que o venderam.

6. Levando uma boa vida cristã, evitarei facilmente qualquer escândalo ao próximo. E nisto eu serei bastante cuidadoso, porque o mau exemplo de um católico recai também sobre a Igreja, que os ímpios frequentemente acusam por causa dos erros individuais. Brilhem nossas boas obras diante dos homens para que Deus seja por todos glorificado (Mt. 5, 16).

7. Entre os jovens são, infelizmente, muito comuns conversas, cantigas e anedotas más, fonte, quase sempre, de graves ruínas. Não somente devemos evitá-las, mas impedir que outros as tenham. Às vezes, uma atitude séria basta. Outras vezes, é preciso dizer expressamente nosso desagrado, ou mesmo retirar-nos – sem nenhum receio de desagradar.

8. Pior que Herodes, o matador dos inocentes, é quem escandaliza as crianças, porque lhes tira a vida sobrenatural. No entanto, por minhas palavras, meu procedimento, eu posso em casa, no colégio ou na sociedade, escandalizar meus irmãos menores ou outras crianças. (De que maneira?). Muito cuidado, pois.

9. Para quem ama a Deus e quer a salvação do próximo, não escandalizar é pouco. Mesmo o apostolado do bom exemplo não basta. Desenvolverei um apostolado mais ativo, no meio em que vivo, a fim de afastar meus companheiros do pecado e conseguir que permaneçam no estado de graça. (Como há de ser este apostolado?).

(O Caminho da Vida, pelo Pe. Álvaro Negromonte. 15ª edição).

Fonte: web.
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sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Do hábito de pecar

Momento em que chega o Fantasma
Naquele canal em que costumo assistir filmes antigos, TCM, calhou, uma tarde dessas, de começar a acompanhar a triste história do príncipe dinamarquês, Hamlet, de Shakespeare, justamente na Cena IV, do Ato III, na qual o príncipe confronta a mãe. 

O filme de 1948, dirigido e protagonizado pelo grande Laurence Olivier, que o quis em preto e branco, foi o primeiro filme britânico – e também estrangeiro, de uma maneira geral – a ganhar um Oscar de Melhor Filme. Ao todo, o filme ganhou, em 1949, quatro das sete indicações ao Óscar, incluindo o de Melhor Ator (moleza!), Melhor Direção de Arte - preto e branco, Melhor Figurino - preto e branco. Também ganhou o Leão de Ouro (Veneza, 1949), por Melhor Filme e Melhor Atriz (Jean Simmons, como Ofélia); o prêmio BAFTA (Inglaterra, 1949), por Melhor Filme de Qualquer Origem (indicado também para Melhor Filme Britânico); o Globo de Ouro (EUA, 1949), por Melhor Filme e Melhor Ator (Olivier, of course); e o Prêmio Bodil (Dinamarca, 1949), por Melhor Filme Europeu. Causou, contudo, polêmica porque nem todos apreciaram as alterações introduzidas por Olivier para condensar em duas horas uma peça de quatro horas. 

Olivier, considerado o maior ator do Século XX, já havia interpretado Hamlet em 1937, primeiro no Antigo Teatro Vitoriano, depois no próprio Castelo Elsinore, cenário da macabra história. 

Confesso que nunca li Hamlet, porque, para mim - os apreciadores que me desculpem - Shakespeare é enfadonho, no estilo e quanto pessoa. Cresci na Itália, um País rico demais em literatura e arte que, durante o ano escolar, nós não tínhamos muito tempo para ver mais profundamente mais do que umas poucas obras de cada País que realmente importa nesse aspecto. Nossa formação era complementada em casa por pais zelosos que nos presenteavam em igual medida tanto com livros quanto com brinquedos. Da Literatura Infanto-Juvenil mundial, eu e meus caros irmãos lemos tudo o que havia para ler. Shakespeare, naquela época, não se encaixava nesse perfil, como infelizmente ocorre hoje, roubando inocência à inocência com filme pretensamente infantis. O filme de Laurence Olivier, contudo, ajuda a suportar o estilo, extirpando boa parte da chatice tipicamente britânica. 

E não creio ter sido mera coincidência eu ter ligado a TV justamente na hora em que passava a Cena IV do Ato III (no momento da foto acima), cujas palavras principais fiz questão de decorar para pesquisar depois e escreve um post, o de hoje. E porque? Porque fala de algo que os católicos parecem esquecer: o hábito de pecar nos arrasta cada vez mais para o fundo do poço do Inferno! Querer não é poder, diz acertadamente o ditado, pois não basta querer, precisamos do auxílio da Graça e, também, de uma vontade férrea de nos desapagarmos do hábito de pecar. Esta cena de Hamlet serve de inspiração para outras meditações. Tenho certeza; e por isso a compartilho aqui, confiante que poderá ser de bom proveito para outras almas como foi para mim. 

Os grifos e comentários no texto abaixo são meus.


Giulia d'Amore di Ugento


DO HÁBITO DE PECAR



HAMLET - ATO III, CENA IV, 93

Cena IV

Aposento da Rainha. (Entram a Rainha - e Polônio)

POLÔNIO — Ele aí vem; repreendei-o asperamente; mostrai que se excedeu nas brincadeiras, e como se interpôs Vossa Grandeza entre ele e a grande cólera [do rei - NdR]. Mais nada; somente vos reitero: sede ríspida.

HAMLET — (dentro) Mãe! Mãe!

A RAINHA — Podeis ficar tranquilo; retirai-vos; está ele chegando. (Polônio se esconde atrás do reposteiro) (Entra Hamlet)

HAMLET — Então, mãe, que há de novo?

A RAINHA — Grande ofensa a teu pai fizeste, Hamlet.

HAMLET — Grande ofensa a meu pai fizeste, mãe.

A RAINHA — Devagar! Respondeis com língua ociosa.

HAMLET — Vamos, que me falais com língua ociosa.

A RAINHA — Que é isso, Hamlet?

HAMLET — Que há de novo agora?

A RAINHA – Esquecestes quem sou?

HAMLET — Não, pela Cruz! Não me esqueci. Sei bem que sois a rainha, casada com o irmão de vosso esposo e — prouvera o contrário — minha mãe.

A RAINHA -  Vou chamar quem convosco falar possa.

HAMLET — Vamos, sentai-vos; não saireis enquanto não vos apresentar eu um espelho que o recôndito da alma vos reflita.

A RAINHA -  Que pretendes fazer? Não vais matar-me? Socorro! Socorro!

POLÔNIO (atrás) — Que é que há? Socorro! Socorro!

HAMLET (desembainhando a espada) — Que é isso? Um rato? (Dando uma estocada no reposteiro) Aposto que o matei.

POLÔNIO (atrás) — Estou morto!

A RAINHA — Santo Deus, que fizeste!

HAMLET — Ignoro-o. Não era o rei?

A RAINHA — Que ação precipitada e sanguinária!

HAMLET — Ação precipitada e sanguinária? Tão ruim, boa mãe, quanto matar um rei e desposar o irmão do morto.

A RAINHA — Matar um rei?

HAMLET — Um rei; foi o que eu disse. (Levanta o reposteiro e descobre o corpo de Polônio) Adeus, bobo apressado e intrometido. Julguei que era o teu chefe; é o teu destino. Vês que o ser serviçal traz seus perigos. Não torçais tanto as mãos [agora, fala à mãe - NdR]; sentai-vos; quero lutar com vosso coração; no caso de ser ele amolgável, se o maldito costume o não deixou duro como o aço, tornando-o resistente à persuasão.

A RAINHA — Que fiz eu para usares de linguagem tão grosseira?

HAMLET — Uma ação que mancha a graça e o rubor da modéstia, que a virtude transforma em falsidade, muda as rosas da fronte prazenteira do amor puro em chaga repugnante, e os juramentos dos cônjuges em pragas de viciados. Uma ação que do corpo dos contratos tira a própria alma e muda em palavrório a doce religião; a própria face do céu cora de pejo; sim, o mundo compacto, nas feições, mostra a tristeza do juízo final, diante desse ato.

A RAINHA — Ai! que ação tão monstruosa, que troveja estrondeando, com o simples enunciado?

HAMLET — Mirai este retrato e mais este outro, que dois irmãos fielmente representam; vede a graça que encima esta cabeça, cachos de Apolo, a fronte alta de Júpiter, o olhar de Marte, ao mando e à ameaça afeito, o porte de Mercúrio, o mensageiro, quando pousa nos cumes altanados; uma forma, em resumo, perfeitíssima, em que os deuses seus selos imprimiram para que o mundo visse o que era um homem: esse foi vosso esposo. Agora o resto [refere-se ao usurpador assassino - NdR]: eis vosso esposo, espiga definhada que o irmão sadio empesta. Tendes olhos? Deixastes a pastagem deste belo monte por um pau? Ah! Tendes olhos? Não chameis a isso amor, que em vossa idade o sangue se arrefece, fica humilde e obedece à razão. E que razão passa deste para este? Sois sensível, pois vos moveis; mas tendes os sentidos paralisados. A loucura acerta; nunca os sentidos ficam subjugados pela paixão, a ponto de falharem totalmente na escolha. Que demônio vos logrou de uma vez na cabra-cega? O olho sem tato, o tato sem visão, o ouvido só por si, o olfato apenas, a menor parte, em suma, de um sentido verdadeiro, jamais se estontearia desse feitio. Pudor, por que não coras? Se nos ossos de uma matrona, inferno, te rebelas, que a continência fique, para os moços ardentes, como a cera que amolece no próprio fogo; nem de mancha fales, quando no ataque se atirar o instinto, uma vez que é tão quente a própria geada e a razão é alcoveteira da vontade.

A RAINHA — Não fales mais, Hamlet; a olhar me forças no mais íntimo da alma, onde acho manchas profundas e tão negras, que não perdem jamais a cor.

HAMLET — Viver num leito infecto que tresanda a fartum, onde fervilha a podridão, juntando-se em carícias num chiqueiro asqueroso!

A RAINHA — Oh! Não prossigas! Apunhalam-me o ouvido essas palavras. Basta, querido Hamlet!

HAMLET — Um assassino, um vil escravo, que não é um vigésimo do outro marido; um rei-bufão, um simples gatuno do governo desta terra, que a coroa empalmou da prateleira e a pôs no bolso.

A RAINHA — Basta!

HAMLET — Um rei-palhaço, em trajes de mendigo... (Entra o Fantasma) Estendei sobre mim, legiões celestes as asas protetoras! O que deseja vossa imagem graciosa?

A RAINHA — Ai de mim! Está louco.

HAMLET — Não viestes censurar o filho tardo, que deixa a ira assentar, e tão remisso se mostra no cumprir vossos preceitos? Oh, dizei!

O FANTASMA — Não te esqueças: minha vinda só visa estimular-te o intento rombo. Mas vê que em tua mãe se assenta o espanto. Corre a interpor-te entre ela e a sua alma em luta, que nas pessoas fracas é terrível o estrago da ilusão. Fala-lhe, Hamlet.

HAMLET — Senhora, que sentis?

A RAINHA — Que se passa contigo, que os olhos assim pousas no vazio e com o ar incorpóreo deblateras? Como se te ilumina a alma nos olhos! E tais como soldados, quando o alarma vem tirá-los do sono, teus cabelos, parecendo com vida, se desmancham, se curiçam na tua fronte. Ó meu bom filho! Lança a fria paciência sobre as chamas e o fogo do teu mal. Mas, para onde olhas?

HAMLET — Para ele, sim; quão pálido nos fixa! Seu destino e sua forma, se influíssem nas pedras, racionais as tornariam. Tirai de mim os olhos, para que esse gesto piedoso não transmude minhas ásperas intenções, pois o que tenho para fazer exige cores vivas. Necessito de sangue em vez de lágrimas.

A RAINHA — Para quem falas isso?

HAMLET — Ninguém vedes?

A RAINHA — Ninguém; no entanto vejo o que nos cerca.

HAMLET — E nada ouviste?

A RAINHA — Nada; a nós somente.

HAMLET — Vede ali! Vede! Já se afasta... Meu pai, tal como em vida se vestia. Acaba — vede-o! — de transpor a porta. (Sai o Fantasma)

A RAINHA — Isso é fruto, somente, de teu cérebro. É sempre muito fértil o delírio no inventar essas coisas.

HAMLET — Delírio! Meu pulso, como o vosso, é compassado; toca música sã. Não foi loucura quanto falei; ponde-me à prova: posso dizer tudo de novo. Um desvairado divagaria. Mãe, por vossa graça, não lisonjeeis vossa alma, acreditando que ouvis um louco e não vosso delito. A úlcera externa, assim, se fecharia, enquanto a corrupção minaria tudo por dentro, sem ser vista. Ao céu volvei-vos; mostrai-vos do passado arrependida; evitai o futuro, sem que o joio adubeis e lhe deis, assim, mais viço. Perdoai-me esta virtude, que nesta época bem cevada e de fôlego cortado necessita a virtude rebaixar-se ao próprio vício e apresentar-lhe escusas por tudo o que de bem possa fazer-lhe.

RAINHA — Hamlet, o coração em dois me partes.

HAMLET — Jogai fora a metade que não presta, para com a outra parte serdes pura. Boa noite. Mas evitai a cama do meu tio; fazei-vos de virtuosa, se o não fordes. O hábito, esse demônio que devora todos os sentimentos, nisso é um anjo, pois para o uso de ações boas e belas empresta vestimenta ou capa externa que lhes vão bem. Abstende-vos por hoje, que isso há de conferir facilidade à próxima abstinência; a outra, mais fácil vos há de parecer, que o uso consegue quase modificar a natureza, dominar o demônio e até expeli-lo com poder prodigioso. Uma vez mais, boa noite. Hei de pedir a vossa bênção, quando dela também necessitardes. Enquanto a este homem, faz-me pena; qui-lo desta arte o céu: punir a mim por ele, e a ele por mim. Fui servo, a um tempo, e açoite. Vou cuidar dele; fico responsável por esta morte. E ainda uma vez: boa noite. Preciso ser cruel para ser bom; o ruim começa; o pior já se acha feito. Uma palavra mais, senhora.

A RAINHA — Que é preciso que eu faça?

HAMLET — Nada do que vos disse neste instante. Que outra vez para o leito o rei balofo vos conduza e no rosto vos belisque, vos chame de ratinha, e que dois beijos infectos e carícias com as mãos grossas em vossas costas pronto vos induzam a revelar-lhe que estou bom do juízo, mas que finjo loucura. Dizei-lhe isso. Que rainha sensata, bela e honesta esconderia coisas tão preciosas de um sapo, de um morcego? É concebível? Apesar do bom senso, abri a gaiola no telhado e deixai fugir o pássaro; depois, como o macaco conhecido, entrai nela e fazei logo a experiência para em baixo partirdes o pescoço.

A RAINHA — Fica tranquilo; se o falar consiste em respirar, e o fôlego for vida, não terei vida alguma que respire quanto me revelaste.

HAMLET — Parto para a Inglaterra; já o sabíeis?

A RAINHA — Ai! que o esquecera... Assim ficou assentado.

HAMLET — Selaram cartas; meus dois companheiros de escola, em quem me fio como em dentes de víbora, se encontram com a incumbência de aplanar-me o caminho e conduzir-me direto ao cativeiro. Pois trabalhem! Há de ser engraçado ver a bomba fazer saltar o autor. Por mais difícil que seja, hei de cavar mais fundo ainda, para jogá-los no alto. Como é belo ver a astúcia vencer a própria astúcia! Este homem me ajudou a fazer as malas; vou pôr no quarto anexo esta barriga. Boa noite, mãe. Realmente, o conselheiro que era tão falador, está sisudo: quietinho, bem discreto, grave e mudo. Vamos, senhor, dar fim a este negócio. Boa noite, mãe. (Saem por lados diferentes, arrastando Hamlet o corpo de Polônio).
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