Abrindo uma irrepetível exceção, publicarei um artigo que eu traduzi de um jornalista sobre a atual situação econômica italiana. Porque nos interessa? Primeiro, por que a crise na Europa pode afetar o resto do mundo sobretudo quando a 'vítima' da vez é uma País como a Itália que é tido como uma das potências econômicas do mundo, com a oitava melhor classificação no índice de qualidade de vida. O país goza de um alto padrão de vida, sendo o 18º país mais desenvolvido do mundo. É um membro fundador do que hoje é a União Europeia, tendo assinado o Tratado de Roma, em 1957, além de ser também um membro fundador da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). É membro do G8 e do G20 (com a sétima maior economia PIB nominal), da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), da Organização Mundial do Comércio (OMC), do Conselho da Europa, da União da Europa Ocidental e da Iniciativa Centro-Europeia. Isto é, a água começa a chegar aos gorgomilos. Segundo, nos interessa por que pode ser o proêmio da Terceira Guerra Mundial. De fato, o imbróglio nos interessa sim. Escolhi este texto, apesar do autor.
GdA
É o governo Napolitano-Monti-Goldman Sachs
Superando a náusea, debrucemo-nos sobre o pós-Berlusconi
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| Sílvio Berlusconi - Mario Monti |
Monti chega como um comissário ao quadrado. Os seus vices serão os inspetores do Fundo Monetário Internacional
e do Banco Central Europeu
. Como na Grécia
. Começaria outra república: a terceira
? Que anuncia a intenção de querer apagar a soberania nacional da Itália, a Constituição Republicana e toda forma de real expressão da vontade popular (viram os gritos dos 'mercados' contra a hipótese do
referendum grego?).
O Presidente da República construiu a escapatória de Berlusconi
fazendo movimentos bastante duvidosos do ponto de vista da legalidade constitucional, que ele deveria defender incansavelmente. Era seu dever, que não soube nem quis cumprir enquanto assinava tudo o que chegava de Palazzo Chigi
. E que agora ostensivamente ignora.
O resultado é um
governo da casta, que será definido como 'salvação nacional', ou seja, 'técnico'. Falsas a primeira e a segunda definição. Porque, primeiro, não vai salvar o País, mas obedecerá aos ditames das finanças, atingindo a população; e, segundo, será o mais político dos governos do segundo pós-guerra: pois sanciona a sujeição do nosso País a um 'governo' estrangeiro e hostil (e não me venham dizer que súditos já o éramos, porque esta heterodireção
é o começo de uma mudança d'época orwelliana
).
A prova? Todos os membros da casta (que entrará em massa no governo Napolitano-Monti-Goldman Sachs) falam da necessidade de implementar 'medidas impopulares'. Isto é, antipopulares. Mas quanta democracia!
Muitos nutrem a ilusão de que Monti queira fazer algo de bom. Mas ele não está aqui para isso. Nem mesmo para fazer uma lei eleitoral decente. Ele vem aqui para 'reeducar' os italianos à
religião do débito. Ele chega para executar as ordens do Banco Central Europeu, os 39 pontos da
carta de Draghi-Trichet. Um maoísta
do nosso tempo: 'educar o povo'. Até o disse, ao se referir à Grécia. Agora o fará conosco, se o deixarem.
O que fazer? Precisa mobilizar a maior oposição social possível, e se preparar para construir uma nova oposição política. Rejeitar a 'ordem de serviço' elaborada pelo Quirinale
sob indicação dos grandes centros financeiros do Ocidente.
Precisaria um governo de sábios que, protegidos por sua estatura moral, por seu prestígio intelectual, por seu conhecimento, sejam capazes de derrotar as poderosas pressões que serão exercidas contra eles, e que façam uma nova lei eleitoral, rigorosamente proporcional, para as eleições de todas as ordens e graus. Seu dever seria o de liquidar a ficção de bipolarismo
que agora se desintegra diante de nossos olhos. Alguém pode se perguntar: existem estes homens e estas mulheres? Eu sei que há, eu poderia fazer uma lista. Mas Napolitano não tem o habito de consultá-los. Ele consultou as
múmias e os que puxam as cordas para que se movam
.
Depois, precisaríamos correr a votar. Uso o condicional porque eu sei que isso não acontecerá. Mas também sei que o Governo Nmgs
dificilmente durará dois anos. Porque a crise está piorando. Anunciam 'reformas' para o crescimento. Mas todos os indicadores dizer que entraremos em recessão, junto com toda a Europa. Assim, a crise chegará muito em breve, ou a farão precipitar 'eles', os 'proprietários universais' (e para as massas não fará qualquer diferença, porque em ambas as variantes quem pagará serão elas).
Em segundo lugar: o débito, que agora é usado como uma espada sobre a cabeça
dos italianos, não pode e não deve ser 'honrado' com manobras que reduzirão drasticamente, não apenas o nível de vida da maioria da massa popular, mas anularão seus direitos fundamentais, consagrados da Constituição Italiana. O débito é uma fraude contra muitos e em benefício de poucos. O débito é iniquo e ilegal. Que paguem por ele os que foram por ele responsáveis.
Nós nos remetemos a nossos direitos constitucionais. A eles não renunciamos e não pretendemos renunciar. A Constituição nos dá o direito e o dever de nos defender contra qualquer violação de suas normas.
A soberania que delegamos a esta Europa não foi usada em nosso benefício e em harmonia com os nossos princípios constitucionais. Temos, portanto, o direito de exigir a sua restituição. Pelo menos até que essa Europa deixe de ser o trono dos banqueiros e comece a corresponder às nossas expectativas.
Que se dê, então, modo ao povo de se expressar rapidamente sobre a questão do débito: com um referendum. A Itália pode e deve fazê-lo, mesmo que a Grécia tenha sido impedida. O dever de um Presidente da República deveria ter sido, entre outros, o de subtrair o País da chantagem dos poderosos, sejam eles internos ou externos. Em nome da Constituição. Se ele não o fizer, o faremos nós.
Giulietto Chiesa
Tradução: Giulia d'Amore di Ugento
Pequena biografia: Giulietto Chiesa (1940) é um jornalista e político comunista italiano. Viveu na Russia por longo tempo, sendo correspondente do L'Unità e La Stampa. Mesmo sendo (e talvez por isso) comunista, enxerga em Draghi um maoísmo intrínseco e perverso.