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segunda-feira, 13 de março de 2017

O culto à feiura no mundo revolucionário

Editado em 16/03/2017: Uma besta quadrada mandou um comentário fazendo exigências estapafúrdias. Não vou publicar o comentário porque é anônimo, ou seja, não tem o NOME de quem comenta (preciso ser explícita porque parece que nem todos os leitores são inteligentes). Aparentemente, a besta não leu o LEIA ANTES conforme indicado pelo blog. Tivesse lido, me pouparia de perder meu precioso tempo. Se esta besta quadrada tivesse catecismo básico, aquele das crianças mesmo, não teria se exposto ao ridículo. Mas vou usar a manifestação da besta para deixar claras algumas coisas: 

1. O blog é meu, e publico o que eu quiser
2. Em sendo o blog meu, e não seu, você não é obrigado a ler. Me poupe, se poupe, nos poupe. 
3. Este artigo vale pelo assunto tratado: a feiura na arte. Não faço apologia a nenhum herege ou heresia. O fato de mencionar o nome de um cardeal (em relação ao qual não nutro nenhum tipo de simpatia, e deixo bem claro no meu blog sempre que posso) ou a biografia de um padre "herege" (que nem conheço, mas falou algo muito bom sobre o tema que pretendia abordar; leia mais no n. 7 abaixo) não me faz partícipe da heresia deles. O link ou revista ou site ou onde quer que possa ter sido publicado também não é relevante visto que não se faz, aqui, apologia ao local, mas exclusivamente AO QUE É DITO.  
4. Se não quer sequer ler, neste blog, o nome de um herege eventualmente mencionado, releia o número 1 e 2 acima e se poupe de ler o restante do blog, porque menciono Lutero, Francisco, Williamson etc., onde e quando necessário falar deles. 
5. Se quiser viver em uma bolha cátara... saia da internet, camarada! 
6. Não sou da "Desistência" (se conhecesse o blog, saberia!), faço resistência à heresia modernista instalada no Vaticano. Entendeu ou preciso desenhar? 
7. É notório que não importa quem diz, mas o que é dito, como foi dito váaaaaarias vezes neste blog. Claro que sempre tomamos o cuidado de evitar figuras polêmicas que possam induzir a algum tonto achar que estamos indicando a pessoa, não o que ela diz, sobretudo figuras conhecidas. Por exemplo, Lutero tem várias frases bonitinhas, mas eu nunca publicarei. Agora, esse padre é um ilustre desconhecido, e aqui não evidenciamos nenhuma das heresias que ele defende. Ou evidenciamos? Onde foi exatamente, besta quadrada? Calúnia, até onde eu sei, continua pecado. 
8. Por fim, se já cumpriu todas as suas obrigações de estado e de devoção - traduzindo: se lavou toda aquela pilha de roupa suja atrás da porta ou se cumpriu sua jornada de trabalho (não sei o sexo da besta quadrada) e se rezou tudo que é de sua obrigação rezar hoje - e ainda lhe sobra tempo para patrulhar ideologicamente os sites católicos, procure um lote para carpir. Se não souber onde tem um lote, eu lhe indico.  Meu e-mail é de conhecimento público. Mente e mãos vazias são oficina do diabo
9. Para quem se possa chocar com minhas expressões "agressivas" utilizadas neste esclarecimento, fato é que as bestas quadradas não leem o LEIA ANTES, não conhecem a história deste blog, até ontem estavam gritando em línguas e batendo palmas junto com os carismáticos e se acham no "direito" de me interpelar e fazer exigências. Porta da rua é serventia da casa



O belo vem sendo escorraçado no mundo moderno para ceder lugar ao horrendo. Há necessidade de uma reação para se obter a restauração da beleza, da verdade e da bondade de Deus.

Não vemos ou fazemos externamente coisas virtuosas porque não mais existe virtude ou beleza no interior. Uma sociedade que não acredita em Deus, no sobrenatural, nem mesmo na verdade — para não mencionar também a beleza — só fará coisas feias. O culto à feiura em nossa Terra não é menor que a raiva de satanás contra Deus.

O Pe. Anthony Brankin foi ordenado sacerdote na Arquidiocese de Chicago em 1975, tendo recebido licenciatura em Sagrada Teologia. Passou depois seis anos como assistente na igreja de Nossa Senhora da Caridade, em Cícero, Illinois.

Pe. Anthony Brankin:

"O culto da feiura é tão penetrante, 
preenche todos os interstícios da  
vida, que corremos o risco de não
analisá-lo e deixar, assim,  
de rejeitá-lo"
Em 1998, o cardeal Francis George nomeou-o capelão do capítulo de Chicago do Legado Internacional, organização formada por executivos católicos e suas esposas. Atualmente é pároco da igreja de Santo Odilon, em Berwyn, Illinois.

Regressou a Chicago em 1983. Em 1989 foi constituído pároco da igreja de São Tomás More. Nesta paróquia é celebrada a Missa tridentina em latim todos os domingos ao meio-dia.Em 1981 o Cardeal Cody o enviou a Roma, para que prosseguisse seus estudos em arte e teologia. Frequentou simultaneamente a Academia de Artes Finas em Roma (estudando escultura e pintura) e a Universidade de São Tomás de Aquino, onde continuou seus estudos de teologia.

Além de pronunciar conferências em diversos lugares, o Pe. Brankin escreve para a "Homiletic and Pastoral Review", "The New Oxford Review" e "The Wanderer", e faz recensão de livros para a editoraCatholic New World, de Chicago.

Desenhista, pintor e escultor desde a juventude, o Pe. Brankin recebe encomendas oriundas de mosteiros, conventos, igrejas e organizações civis dos EUA e de Roma para a confecção de imagens em tamanho natural feitas por ele geralmente em bronze. Recentemente esculpiu duas grandes esculturas: uma representando o "Cristo do Apocalipse" montado num cavalo, e outra de São José com o Menino Jesus, encomendada pelo Cardeal Raymond Burke.


Entusiasta [sic] da Missa em latim e excelente pregador com visão crítica da cultura e da história, ele expõe as verdades da fé de modo acessível a todos. 


*       *       *

Catolicismo — O que o Sr. visa em suas palestras sobre a questão da feiura nos ambientes hodiernos?

Pe. Brankin — Não pretendo mencionar cada caso possível de feiura na nossa sociedade atual. Isso seria fatigante, quando não simplesmente desalentador. Vivemos de fato imersos numa cultura incrivelmente feia; não podemos escapar disso. O propósito é manter as pessoas atentas quanto ao real perigo de não perceberem a feiura, nem de se darem conta da verdadeira destruição que ela opera em suas almas. 

Catolicismo — Poderia mencionar casos de feiura na sociedade atual? Por que se fazem construções, músicas e modas feias, se o que atrai é o belo?

Pe. Brankin — Um exemplo relativo aos Estados Unidos: quando digo que as pessoas vivem imersas na feiura, quero dizer que elas estão cercadas por quilômetros de irredutíveis feiuras: McDonalds e Burger Kings comprimidos entre postos de gasolina e cortiços. Embora não confundam isso com beleza, à força de serem tão comuns elas poderão não mais achá-los particularmente feios. 

As pessoas não mais reconhecem as coisas especificamente como feias. Nunca se poderá fazer uma reflexão sobre a feiura de todos os shoppings com as suas fachadas falsas e interiores ainda mais falsos, ou sobre os condomínios, tão vazios e estéreis no interior quanto no exterior. Tudo agora se apresenta exatamente assim. E, claro, isso é só para começo de conversa, pois existe também em nosso mundo uma feiura espiritual não menos penetrante e de algum modo relacionada com a feiura visual que nos cerca.

Escultura do prestigiado artista moderno Miró, no Défense, em Paris:

"Uma sociedade que não acredita em Deus, no sobrenatural, nem mesmo na verdade — para não mencionar também a beleza — só fará coisas feias"

Depois, naturalmente, quando por fim as pessoas chegarem às suas casas, ligarão a televisão para ouvir as notícias sobre o progresso científico de nossa cultura de colheita e venda das partes de corpos de bebês. Verão notícias de candidatos políticos tentando suplantar uns aos outros na faina de matar bebês por meio do aborto. Ao ligar o rádio do carro, tudo o que se ouvirá serão notícias sobre algum novo tiroteio. No entanto, as pessoas estarão em condições de formar uma imagem mental dos bandidos, pois já viram suas feições e trajes no próprio quarteirão em que residem, e, talvez mesmo, entre os familiares: cabelo colorido em mechas, mutilações, tatuagens, brincos no nariz e nas sobrancelhas, roupas frouxas, bonés de beisebol ao revés, aspectos grosseiros e grunhidos mal-humorados.

Liga-se um canal, no qual por horas a fio ser-lhes-á oferecido um espetáculo de atores e atrizes vomitando frases vis, em produções de um mau gosto cada vez maior. Seria possível descrever melhor a programação televisiva do que dizer que ela apresenta gente feia e ruim, fazendo coisas feias e ruins umas às outras? De fato, a feiura é tão universal e transformou-se de tal maneira em parte da nossa vida, que ela nem se registra mais em nossa mente.

Bem, mas poder-se-á pensar que, ao menos no domingo, seríamos poupados de toda essa feiura visual e espiritual indo à igreja. Mas a feiura também lá está, pois, possivelmente, sua igreja já foi despojada pelos modernos bárbaros católicos, que não possuem sequer senso artístico.

Catolicismo — Os edifícios horrorosos construídos também para igrejas?

Pe. Brankin — Os modernistas removem o tabernáculo para um closet e o crucifixo para o subsolo do salão paroquial. Eles terão destruído o santuário, as capelas, e gastado tudo o que puderem para arruinar qualquer senso de beleza estética demonstrado pelos primeiros paroquianos e pelo arquiteto original. Porém, mais uma vez, os fiéis se acostumaram tanto com isso, que já não mais se registra em suas mentes aquilo que em nome da reforma eles fizeram com sua igreja. Pelo menos até se confrontarem com o que eles fizeram também com a Missa — sempre insolente, sempre infantil, sempre mutável, sempre aborrecida. Até os fiéis não estarem mais seguros, de quem deveria ser o maior embaraço: o dos fiéis por estarem ainda lá, ou o dos liturgicistas que inventaram aquilo tudo.

De fato, o culto da feiura é tão penetrante, nos cerca tão completamente e preenche todos os interstícios de nossa vida, que corremos a cada momento o risco de não analisá-lo e deixar, assim, de rejeitá-lo.

Catolicismo — Como o Sr. conceituaria a noção de beleza?

Pe. Brankin — Pergunte-se a qualquer criança que esteja desenhando, o que ela está tentando fazer. Ela dirá que está tentando recriar algo que viu na natureza, seja uma maçã, o sol, uma árvore ou uma casa. E, invariavelmente, para aquela criança a medida do sucesso de seu desenho é o quanto ele proximamente se pareça com a natureza.

Precisão em conformidade com a natureza sempre foi o padrão de referência para artistas e sociedades, para todas as altas civilizações, dos egípcios e gregos aos romanos e europeus. As sucessivas gerações de artistas de cada cultura procuraram melhorar, ou ao menos preservar, as técnicas, lições e descobertas das gerações anteriores, sempre buscando maior beleza de linhas, mais solidez nas formas e perspectivas mais verdadeiras.

Era, de modo geral, aceito haver algo de infinitamente mais para uma face do que a simples face; algo relativo às proporções entre nariz, olhos, ossos molares, maxilar, lábios e boca. Isto, evidentemente, seria a beleza.

Assim, para entendermos qualquer coisa sobre o culto à feiura, precisamos primeiro entender o que é a beleza. Sua definição é bastante básica. De acordo com o grande santo-filósofo da Idade Média, Tomás de Aquino, a beleza é aquilo que quando visto agrada. Nem mais, nem menos. Se cores, formas, figuras e composições agradassem ao mesmo tempo a mendigos e a reis, seriam então consideradas belas.

Catolicismo — Por que agradam? O que leva a nos deleitar com aquilo que nossos olhos veem?

Pe. Brankin — Santo Tomás disse que, se alguma coisa nos dá prazer, é porque algo de bom de algum modo existe na coisa que nos dá prazer; e o bem sempre nos atrai e agrada.      

Agora, o bem que uma pessoa vê e sente em alguma coisa é a sua forma. Ou seja, sua totalidade, suas proporções. Se tal coisa for completa, direita e equilibrada, ela é boa e a razão pela qual somos atraídos por aquela forma é porque sentimos haver no objeto o mesmo tipo de forma existente dentro de nós. Vemos e sentimos, na formado belo objeto, um bem. E o bem nele ecoa o bem em nós — ou, pelo menos, o bem que deveria haver em nós. Sentimo-nos fascinados e atraídos por aquela semelhança. Ela nos agrada e queremos permanecer na sua presença. Observemos como as crianças são totalmente tomadas umas pelas outras, como elas reagem em relação àquelas outras pequenas criaturas que se parecem tanto com elas. Como elas fitam as outras crianças, reconhecem as suas similitudes e até se aproximam para lhes tocar a face.

A forma de um belo objeto é considerada bela pelo fato de ser completa e proporcionada, do mesmo modo como nos sentiríamos completos e proporcionados nos deleitando com a beleza do nosso próprio ser. Há uma semelhança entre aquilo que está em nós e aquilo que está no objeto belo. E sentimo-nos agradados.

Mas isso não é tudo. Há outro elemento presente, sem o qual não podemos obter todo esse reconhecimento deleitável. Do mesmo modo como os olhos do corpo necessitam da luz para verem algo, também os olhos da alma precisam de semelhante luz — que Santo Tomás denomina claritas (claridade) —, uma centelha de luz, por assim dizer, que se reflete no belo objeto e dele provém.

Trata-se da mesma centelha de ser que provém do ser de Deus. O próprio ser de Deus está presente no ser do objeto, e o belo ser de Deus revela-se assim na forma, proporções e claridade do objeto. É precisamente pelo fato de uma coisa ser um reflexo da beleza de Deus que somos naturalmente atraídos para ela, como o seríamos para Deus em nosso desejo de união com Ele.

A beleza de Deus está refletida misteriosamente, de algum modo, na beleza do ser. Primeiro na natureza — nas árvores, nos crepúsculos, faces e nas formas das figuras; depois na arte — desenhos, pinturas, esculturas, e até mesmo na arquitetura; e, de modo ainda mais misterioso, na música.

Quanto mais próximas da natureza e a ela conformes, tanto mais essas formas artísticas se conformarão estreitamente com o sobrenatural e mais precisamente refletirão a verdade, beleza e bondade de Deus.

Catolicismo — Hoje em dia é comum ouvir objeções ao que o Sr. afirma. Diz-se que a beleza é subjetiva; que depende dos olhos do observador; que é uma questão de gosto; que depende da educação e de cada um. Se ele gosta da coisa, isso é bonito e ponto.

Pe. Brankin — Juntamente com 30 mil anos de instinto humano e dois mil anos de tradição católica, posso hoje declarar que a beleza não se encontra nos olhos do observador. Ela reside na coisa bela em si mesma. Ou ela tem proporção, totalidade, integridade e clareza em si mesma e vem de Deus, ou não possui essas qualidades e desagradará à alma com discernimento: será feia.

Assim, do mesmo modo como o modernismo teológico nega a realidade objetiva do sobrenatural, alegando que todo dogma e toda revelação é uma mera experiência pessoal e, portanto, a verdade é aquilo que você pensa ser verdade, o modernismo artístico tenta nos convencer de que qualquer coisa que alguém ache bonita será realmente bonita para ele.

De fato, a ninguém hoje é permitido dizer que algo seja feio, porque, para chamar alguma coisa de feio, ficaria insinuada a possibilidade de que exista um padrão real de referência segundo o qual algumas coisas podem ser belas e outras não. Isso insinua a existência de uma verdade objetiva, a qual certamente não é permitida na sociedade hodierna por remeter a Deus.

Somos intimidados a manter um silêncio moral e cultural diante da proclamação moderna de que é de certo modo bonita uma figura acocorada, desventurada e desproporcionada — e mesmo talvez mais artística que a figura inicialmente criada por Deus.

Catolicismo — Como se poderia dizer que algo que se nos afigura tão feio seja considerado bonito por outros?

Pe. Brankin — Os outros o dizem, mas agora sabemos que sua atitude se deve a uma vaidade intelectual moderna por onde a apreciação 'superior' que têm da arte os coloca acima dos que não fazem parte do jogo. Pela mesma razão, a ninguém é hoje permitido dizer que algo é errado, mau ou imoral. Se não há nada que seja intrinsecamente verdadeiro, então não há nada que intrinsecamente seja bom ou mau, belo ou feio.

Assim, os fiéis têm razão quando entram numa monstruosa igreja moderna e dizem instintivamente: "Meu Deus, que feia!". Ela provavelmente é feia mesmo. E a autoridade que lhes dá razão é, nada mais nada menos, Santo Tomás de Aquino.

Catolicismo — Não sendo o conceito de beleza subjetivo, posso manifestar meu desacordo em relação a uma pessoa que considera belo aquilo que eu vejo como feio?

Pe. Brankin — Os fiéis não incorrem em qualquer falta moral ou estética se os estranhos ângulos e o concreto aparente de uma igreja os fizerem sentir mal à vontade e desconfortáveis. Não há qualquer pecado em ver uma horrível deformação de Cristo na cruz ou uma monstruosa representação de Maria e dizer que aquilo é horrível e monstruoso. Como não há virtude em esforçar-se por achar que de algum modo tudo é bonito e que se deve estar errado. Rejeite a atitude de sentir-se forçado a choramingar num canto, dizendo: "Penso que não conheço muito sobre arte". Isso pode simplesmente significar que seus bons instintos humanos e católicos ainda estão intactos e que sobreviveram de algum modo nessa sociedade enormemente feia.

Catolicismo — Algum leitor poderia objetar: "Meu Deus, o mundo está caindo aos pedaços, as crianças sendo succionadas do ventre materno, e esse sacerdote falando sobre desenhos e belas pinturas". Como o Sr. se explica dando lições sobre a filosofia da arte?

Pe. Brankin — Isso vai mais fundo do que a filosofia estética. Tem a ver com o modo de pensarmos e de conduzirmos a nossa própria vida — a vida, a natureza e o ser enquanto todo. Toda atividade humana se exprime através da beleza para nos proporcionar um acesso a Deus, que é a própria Beleza. O homem medieval possuía o senso da beleza. É preciso ter virtude para fazer coisas virtuosas. Realmente, cumpre ter virtude até para reconhecer a virtude ou para reconhecer o que é oposto a ela. E se você possui essa virtude, essa graça — essa inclinação natural para o sobrenatural, esse saudável senso de beleza —, verá, conhecerá, sentirá e fará coisas que o geral das pessoas é simplesmente incapaz de fazer.

O mesmo vale para o senso de beleza. A menos que a beleza resida primeiramente no interior, ela nunca será exemplificada exteriormente em parte alguma da sociedade. Ela não será nem sequer reconhecida.

O senso remanescente de beleza em nossas mentes e corações, pelo qual ainda podemos reconhecer a feiura existente tanto em edifícios como na filosofia ou na vida, deve ser alimentado e protegido como a nossa última arma na batalha com o "Não-Deus".

Mas como pôde acontecer que o resto do mundo ter-se tornado tão irremediavelmente feio em todos os níveis? Parece que nos chafurdamos nisso. Bem, talvez agora esteja claro que não mais possuindo a virtude teológica ou prática, não mais possuindo a graça ou a fé, e nem mesmo as mínimas noções de Deus, nossa sociedade abraçou o vazio. Tendo nós abandonado o verdadeiro Deus, tornando-nos cegos à sua claritas, à sua centelha, à sua luz; habitamos na feiura, na escuridão e na confusão.

Não vemos ou fazemos externamente coisas virtuosas porque não mais existe virtude ou beleza no interior. Uma sociedade que não acredita em Deus, no sobrenatural, nem mesmo na verdade — para não mencionar também a beleza — só fará coisas feias.

Tragicamente, nosso mundo não reconhece sequer o que é o feio. Já dissemos que a beleza é aquilo que quando visto agrada e, portanto, o lógico seria que o feio fosse aquilo que quando visto desagrada. Mas olhem para a nossa sociedade, na qual o que agrada é o macabro, o esquisito, o torto e o deformado; na qual, por muitos anos, a peça mais popular de cinema — número um durante semanas — foi um filme sobre um canibal. São o mal e o feio que agora deleitam. Bem-vindos ao bravo novo mundo: o que em outra época teria sido chamado de mau agora é qualificado como bom, e o que era considerado feio é agora considerado bonito.

Catolicismo — O culto à feiura visa ao próprio Deus e à nossa percepção d'Ele? Ou à afirmação de que Ele não existe?

Pe. Brankin — O que digo não se restringe às belas imagens. Trato do antigo assalto à beleza de Deus e da original afronta à sua existência e à natureza e vida criadas por Ele. O culto à feiura em nossa Terra não é menor que a raiva de satanás contra Deus. Não é menor que a ponta-de-lança da cultura da morte. Mais ainda, o culto à feiura é tão absolutamente penetrante e diligente em celebrizar o infrutuoso, o estéril, o deformado e o feio, que põe à margem todas as outras fés — sobretudo a verdadeira Fé.

A mensagem subliminar contida em cada peça confusa e deformada da arquitetura, da arte, da música ou do drama, é a de que Deus não existe. A mensagem subliminar presente em cada mutilação deliberada das formas naturais, em cada tributo feito à perversão física e pessoal, é a de que Deus não existe. A mensagem subliminar manifesta em cada celebração do preternatural e do cadavérico é a de que Deus não existe. Esta mensagem subliminar é um iluminado"evangelho da morte", tão perfeito como qualquer cultura jamais poderia ter proclamado; e sua onipresença em todos os aspectos da vida moderna nos incita constantemente a aceitar esse "evangelho".

Infelizmente até mesmo grande parte do clero — cuja missão deveria certamente incluir o incentivo ao culto à beleza como parte da proclamação do Evangelho da Vida, e que imaginamos fosse capaz de nos defender das feias seduções do"Não-Deus" — é com frequência incapaz de perceber o que se passa e capitulou de várias maneiras ante o culto da feiura. Isto se comprova a cada momento em que entramos numa igreja e vemos um Cristo na cruz com pés disformes e olhos esbugalhados, ou uma tosca Nossa Senhora de cimento aparente. O pobre padre pensou estar simplesmente comprando para o seu rebanho uma peça de arte contemporânea. Com toda ingenuidade e ignorância, achou que estava adquirindo uma recente interpretação de temas religiosos tradicionais. E nunca se deu conta de que aquilo para o que olhava, e com o que enchia os olhos de seu rebanho, era na realidade uma forma humana explodida, explorada e degradada, reduzida às suas partes individuais e impotentes, novamente reunidas num desconjuntado desequilíbrio. Tudo com o propósito de revelar e ensinar uma profunda aversão às formas vivas, o ódio moderno ao Criador.

O pobre padre jamais pensou estar fazendo isso. Não creio que tenha questionado a fonte espiritual de formas tão estranhas ou mesmo imaginado as fontes terríveis das quais provinham. Talvez nunca tenha suspeitado da existência de um culto à feiura. Talvez tenha julgado que tudo aquilo fosse apenas uma questão de gosto, e que seu gosto — como o de seu rebanho — era simplesmente retrógrado e destinado a sofrer um pequeno abalo aqui e acolá. Bem, abalados fomos todos nós.

Olhe para as nossas igrejas e catedrais mais recentes. Muitas delas são atordoantes e terríveis. Não pela homenagem à tradição e ao senso católico de beleza. Elas são atordoantes e terríveis na sua total desumanidade, na sua falta de proporções completa e horrenda, na sua minuciosa e total esterilidade. Não há um ângulo que agrade ou um arco que conforte. Nem sequer um pedaço de moldura que nos contenha em sua sombra. Tampouco uma imagenzinha diante da qual possamos acender uma pequena vela. Como o focinho escancarado e as fornalhas sacrificadoras de crianças do Moloch pagão, algumas de nossas novas igrejas consumirão os fiéis em holocaustos de horror visual. Atrevo-me a dizer que um ou dois desses "espaços eclesiásticos de culto" constituem as peças de arquitetura mais terrificantes realizadas por e para católicos modernos. 
Pe. Brankin — Nós, católicos, pensando que estávamos abrindo as janelas ao diálogo com a modernidade, nunca demo-nos conta de que estávamos sendo manipulados. Ao falarmos tanto tempo na linguagem e nas formas do mundo moderno, pensávamos poder dar uma interpretação cristã à filosofia do Iluminismo ateu. Julgávamos que agora eles nos amariam e viriam para o nosso lado. Mas nos inteiramos de que dizíamos e significávamos coisas que não queríamos dizer nem significar. E nem sequer sabemos mais como desdizer aquelas coisas.

Catolicismo— Se uma pessoa não analisa aquilo que é feio ou belo, por exemplo na arquitetura, não poderia ficar com a alma embotada para ver a Deus?

Aí estão, à vista de todo o mundo, nossa impotência evangélica e nossa paralisia espiritual, adquiridas recentemente e tão claramente exibidas na confusão de nossas igrejas renovadas, na loucura de nossas liturgias experimentais e no vazio de nossas catedrais. Por que alguém seria atraído para a beleza de Deus se é com tudo isso que Ele se parece? E um dia dar-nos-emos conta de que distanciamos cada vez mais de Deus, porque sua fascinante beleza não mais se encontra nem sequer em nossas próprias igrejas.

Catolicismo —Em vista desta bela exposição que o Sr. fez nesta entrevista, como agir? Devemos gastar nossas energias esforçando-nos por convencer, mudar e converter aqueles que aceitam o que é feio?

Pe. Brankin — Às vezes realmente pensamos nisso. Pensamos que, se todos vissem uma bela imagem, uma bela igreja, ou ouvissem um argumento perfeito ou um belo canto na Missa, todos se converteriam. Mas quantos convertidos vieram para a Igreja após ouvirem um canto gregoriano? Por certo, discos com música gregoriana foram vendidos aos milhões, mas estou seguro de que a maioria considerou como mais um pouco de música ambiente para acompanhá-los na rotina cotidiana. Os modernos não têm qualquer ideia sobre o que os monges estavam cantando, e o problema não era o latim.

Quantos de nós pensamos há 25 anos que a causa contrária ao aborto certamente triunfaria se ao menos pudéssemos mostrar às pessoas fotos de fetos em desenvolvimento? Ninguém ligou, e agora estamos batalhando contra o infanticídio. Sua pergunta seria: então tudo está acabado? Devemos dar de ombros em atitude de total desânimo? Resignarmo-nos à feiura física e ao vácuo espiritual de nossa época? Rendermo-nos ao "Não-Deus" de nosso tempo? Colocarmo-nos sobre o monte de esterco da modernidade aguardando como Jó uma morte misericordiosa?

As belezas e os encantos da arquitetura de Veneza atrairão sempre os homens retos

"Passemos a encher nossas mentes, nossos corações, nossas famílias, nossos filhos, todo o nosso mundo com tanta beleza quanto seja possível"

Não, penso que não. A primeira de nossas tarefas é permanecer convertidos e dedicados ao Deus de nossos pais, ao Deus de toda beleza e de todo o bem. E então, naturalmente, partilharemos sem nos darmos conta da beleza que interiormente experimentamos. A verdadeira cultura católica nos foi legada para recriarmos, ignorando olimpicamente tanto nossa sociedade moderna quanto os clérigos que desejam de modo ardente a modernidade. Nós os ignoramos. Passemos a encher nossas mentes, nossos corações, nossas famílias, nossos filhos, todo o nosso mundo com tanta beleza quanto seja possível. De modo que, por força da quantidade e da qualidade de nossos esforços, não haja mais lugar para aquilo que é desumano, feio e oposto a Deus.

Se isso soa como um toque de clarim conclamando a voltar às catacumbas, abandonando a cultura moderna, então assim seja. Sim, isso também é heresia em nossa Igreja contemporânea, onde somos constantemente encorajados a nos engajar e abraçar o mundo moderno. Mas, fazendo-o — como vimos no decurso das últimas trágicas décadas —, não temos nesse venenoso encontro nada a ganhar, mas tudo a perder.

Mas onde estão as catacumbas? Onde estão os refúgios dos horrores humanos e espirituais do nosso bravo mundo novo? — Estão em nossas próprias casas, salas e quartos, nos nossos cursos domésticos e nas academias de ensino privadas. Ali é onde a verdadeira cultura do Novo Milênio tomará forma, pois, indiferentes à pompa e aos prazeres, às arrogâncias pretensiosas e às superficialidades carnais deste mundo feio que nos cerca, as mães e os pais poderão educar, moldar e guiar seus filhos em uma fé sem adulteração, inculcando em suas almas todo tipo e exemplo de beleza.

Ao isolar e proteger seus filhos da sordidez que os circunda, os pais estarão somente fortalecendo-os para uma eventual confrontação com ela. Encham as paredes de suas casas com bela arte, os ouvidos de sua família com bela música, as almas de seus filhos com belas histórias e não haverá lugar para o insípido, o perverso, o feio, o sem fé. Fazendo das famílias uma pequena"igreja", não terão de estar continuamente se engajando numa ação de retaguarda para frustrar as toxinas da mídia, das escolas ou dos estranhos novos amigos de seus filhos na vizinhança. Não será preciso forçá-los a desaprender em sua casa as lições que eles acabam de aprender lá fora.

As famílias virão a conhecer e apreciar que existe apenas uma coisa da qual ocupar-se, em torno da qual mover-se, uma só coisa a cultivar: suas almas, o belo dom de Deus. Esta percepção ajudará então a fazer belas coisas e apreciar todas as coisas bonitas que provêm de almas repletas de graça.

E se fizermos isso, então, pouco a pouco, à medida que a modernidade continuar a morrer — como seguramente deverá, pois não é a morte o seu próprio tema? —, ela irá sendo substituída pela vida; de fato, uma nova cultura da vida, cuja sadia característica será a celebração da beleza de Deus na beleza da vida que nos cerca. Não resta dúvida de que existe um culto à feiura em nossa sociedade; mas este culto não é o nosso e com ele nada temos que ver.

Um comentário:

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