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segunda-feira, 8 de abril de 2013

MEDITAÇÕES: Entrada do Anjo em casa da Santíssima Virgem

The Annunciation
Carl Heinrich Bloch - 1865

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Entrada do Anjo em casa da Santíssima Virgem


A vitória da misericórdia

Já a doce compaixão triunfou na mente de Deus; e a paz confortadora acalmou o seio irado do Senhor. Já a concórdia afável cancelou as inimizades passadas e um amor cheio de paz afugentou as contendas da justiça.

Já o Deus de bondade esquece as iras de outrora e no seu olhar misericordioso afaga a pobre raça humana. Reconheceu, por fim, que a semente lançada à lama só pode gerar amálgama de pó estéril, e que os sentidos, esporeados pela paixão, correm para o mal e rastejam como onda preguiçosa.

As entranhas do pai soem compadecer-se do filho e quando este erra não o punem largo tempo com crueza. Tal é a doce piedade, que desarma o Eterno Pai, sempre que vem de envolta com o furor da justiça. Para tão longe arremessou de nós os acervos de nossos pecados e os males devidos aos crimes que cometemos quanto se afasta do alto céu a terra e dista do ocidente a região da aurora.

Já as verdes esmeraldas adornam o sólio celestial, os palácios altaneiros rebrilham com o fulgor do jaspe. O arco-íris circunda o trono da divindade com um véu resplandescente e com suas cores variegadas orna a sede da luz.

Já nasce para o mundo a esperança da próxima salvação, de braço dado à paz imperturbável. O céu se esposa com a terra, a altura com o abismo, e esses desponsórios serão eternos!


Um olhar sobre Nazaré

Estando Deus para mandar do céu o Filho unigênito para que se fizesse homem nas entranhas da Virgem Imaculada, cravando sobre as terras da Galilea seus olhos suavíssimos, volveu-os para os muros da ilustre Nazaré. Aí está uma habitação, pequena sim, mas levantada a tanta glória, que há de competir com o palácio dos céus.

Contente nos poucos palmos do seu lar, habita nesta casa uma donzela, que será em breve maior qeu o firmamento. Aí ela se esconde humilde e sem nome na terra, e contudo a amplidão do espaço ainda não viu claridade maior.

Ela guarda intactos os selos lacrados da pureza e há de gerar no augusto remanso do seu seio a Deus imenso. Cerradas as portas, guarda perpétuo silêncio quem com poucas palavras há de trazer a salvação do mundo.

Quem, pergunto, quem és tu, mulher, para que o céu te reserve tanta grandeza? Quem é teu esposo e qual teu nome? Teu esposo é José, cuja linhagem descende diretamente do grande Davi. Ele é teu esposo, a ti unido como a verdadeira esposa; contudo, não conhece teu leito virginal: pois gravou em seu peito de diamante o voto inviolável de florir a teu lado em castidade eterna.

O direito a teu leito virginal servirá tão somente para fazê-lo herdeiro de tua glória. Ele será chamado pai de teu Filho e gererá os passos do que governa o turbilhão dos mundos.

Tão excelsa és tu, e assim te escondes? Teu nome glorioso Virgem Maria, há de ressoar desconhecido entre quatro paredes? Tu, a cidade santa, construída em píncaros de montes, hás de ocultar moradas tão altas como o céu? Permanecer na sombra o disco fulgurante deste róseo sol? Velar a face luminosa esta lua sem mancha?

Furtar-se à vista, quando inflamado em chamas resplandecentes, o candelabro iluminado em meio dum palácio? Em vão, em vão te escondes, cidade altaneira, sol radiante, lua esplendorosa, chama vivaz! Se te ocultas à terra, o céu bem te conhece! Trair-te-á a luz dos astros, a luz do próprio Deus!


“Ave Maria”

Eis que das ameias celestes despede o Senhor ao mensageiro alado com o cofre dos seus segredos: “Vai, lhe diz, à arca incorruptível que encontrei depois de tantos séculos: Vai saudar a Maria! Flor de intacta virgindade, ela será a mãe de meu Filho, para a eterna salvação do mundo!” Disse Deus, e o anjo, com as rutilantes asas sorve a amplidão do espaço, como a estrela da tarde se engolfa no horizonte.

Com o rosto a irradiar nobreza e formosura, o jovem aparece sob o teto virginal do teu aposento. Extasiado pelo resplendor divino do teu espírito, cai de joelhos, pronunciando estas palavras:

    “Tu, Senhora, entre as mulheres, única, contentaste ao Pai celeste; Ave! Visão primeira do supremo artista! A graça divina cumulou tua mente humilde e o amor de Deus inundou teu coração puríssimo. Está contigo o Senhor onipotente que num olhar abarca as muralhas do céu, os recantos da terra, a vastidão do mar. Senhor foi ele sempre do teu coração: ele só empunha as rédeas de tua alma. A ti não dominou a culpa original nem te prostrou outro pecado algum: o onipotente Senhor te senhoreou inteira, só ele teu amor possui eternamente, só ele desfrutou o teu amor: de teu coração só ele é o confidente. Por isso a tua glória há de jorrar por toda a vastidão da terra e os altos céus hão de curvar-se aos teus mandados. Tu és a mais bendita Mãe que um Esposo tenha dado jamais ao seu amor: a mais feliz Esposa que um Pai tenha preparado ao seu amado. As mulheres te olharão com a glória última do seu sexo, primeira do seu decoro!”


Resposta do coração

Que sentimentos te invadiram o peito, que modéstia reluzia em teu semblante, Virgem humílima, quando prostrado por terra a teus pés, o mensageiro celeste te transmitia tão admiráveis novas? Permanecias imóvel, fixos no solo os castíssimos olhos, cobertas do rubor da virgindade as faces belas.

Perturbada por saudação tão nova tua prudência se admira, e receosa, revolve humildemente estes problemas: “Que novas expressões me ferem os tímidos ouvidos? Que novo modo de saudar é este? Virá dos céus um tão alto cumprimento? Tanta honra a um nada, a mim tanta glória? O céu a venerar quem da própria terra é indigna?

A mim, tão pequenina, glória tão imensa? Nesta cidadezinha apenas se conhece a esposa do carpinteiro… na cidade esplêndida de Deus, que havia eu de ser? Eu, pobre mulherzinha, cumulada de tais dádivas, de tais riquezas?

A mim, tal opulência? Honrar-me-á o céu com a glória de rainha, quando apenas sirvo para escrava? Sofrerá o Senhor onipotente habitar em minha alma sem ornato, hospedar-se em meu seio tanto tempo? Com razão devo temer-me de louvor tão súbito, ciente de minha vileza, de minha miséria… de meu nada!”


O segredo da humildade

Ó Virgem, humilde, singela e prudentíssima, por que o temor da dúvida assim te agrilhoa? Justamente porque és humilde: e humilde tudo temes de tua ingenuidade: por demais ingênuo, o coração da jovem deixa-se enredar às vezes em diversos ardís.

Tudo temes em tua prudência: tu, ponderando tudo à sua luz, temes qeu alguma aragem de pecado te bafege a alma, e que, prestando-lhe atenção, como Eva à serpente, venhas a cair em suas malhas. Porém, nenhum laço há aqui: o céu não te engana: não há na cidade de Deus lugar para a mentira.

Não há aqui monstro algum que te engane em música falaz, que te cegue os olhos d’alma como à primeira mulher. Já o Senhor pôs em ti o seu olhar: do alto da esfera celeste, sua pupila descansa nas pequenezes desta vida. Quanto mais te crês indigna, tanto mais digna te ergues para o céu, e tua fronte brilha, quanto mais se esconde.

A simplicidade humilde e a humildade simples do teu pensar enamora o Espírito de Deus. Por que te admiras de te fazerem Rainha do céu, se estás sempre a escolher na terra o último lugar? De admirar seria se tivesses o peito entumecido de soberba e se, apesar disso, o Senhor te contemplasse. Abre, portanto, o coração confiante à mensagem celeste: quanto é de ti mais digna, tanto menos deves temê-la.


Glória e predileção

Até agora ouviste de teus louvores o exórdio apenas: falta ainda o cúmulo de tua glória. Grandes os mistérios que ouviste: agora, porém, em meio de tua perplexidade, maiores te dirá o embaixador celeste:

    “Não temas, ó Maria: não há por que temer! Despe o rubor que cobre o teu semblante casto! não sou mensageiro de mundanas honras: a poeira desta terra é indigna de Virgem tão excelsa. Venho trazer-te honras que a suma sabedoria do Pai celeste a ti reservou antes da admirável criação dos mundos. Por que coras à voz do ministro de Deus que te enaltece e te abates em ouvir minhas palavras? Toda a côrte do empíreo fulgurante se curvará ao teu conspecto, rendendo-te obsequiosa submissão. Tu, finalmente, achaste a complacência do Pai supremo que te cumulou de graças inefáveis, inefavelmente! Esta graça, nosso primeiro pai perdeu-a com o pecado de morte, e perdida, buscaram-na em vão outrora nossos antepassados. Por ela suspira o céu há tanto tempo, por ela a terra palmilha o seu longo caminho de lágrimas. Achaste, afinal, esta graça, aninhada no coração indevassável do Deus da imensidade. A nenhum de nós, que te levamos a palma, por força da natureza angélica quis escolher a sabedoria eterna: Mas a ti, sobre nós todos, sublimou a graça, para o grande prodígio da redenção”.


A grande mensagem

Eis que teu seio avultará como corola que floriu e o fruto se desprenderá do ramo augusto. Chama-lo-ás com o singular e santo nome de Jesus, e terá novo brazão sua nobreza. Rei será ele de majestade suma e sua glória não terá limites. Será teu Filho o próprio unigênito de Deus e, por esse título, igual ao Pai na divindade. Dar-lhe-á o Onipotente o real trono de Davi, seu pai, depondo em suas mãos as rédeas do universo.

Ele regerá invicto a casa amplificada de Jacó e suas leis reinarão pelos dias sem fim. Seu poder se estenderá às extremas da terra, às mais remotas praias do oceano infindo, até onde a estrela da manhã abre o caminho ao dia e Vesper lhe fecha o cortejo, até onde os polos celestes movem os dois hemisférios. Lançará os braços imensos do seu poder até às extremidades desconhecidas do universo.

Legítimo herdeiro do Pai celeste, o Verbo dominará juntamente com ele o oceano dos astros. Sustentará eternamente o cetro como príncipe invicto, guiando os séculos a rolar na eternidade.”


Beato José de ANCHIETA, S. J. Poema da Virgem. São Paulo: Edições Paulinas, 1959, p.104-112.


Visto em: http://www.adf.org.br/home/2013/04/entrada-do-anjo-em-casa-da-santissima-virgem

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