Pesquisar este blog

Novidades!!!

terça-feira, 30 de novembro de 2010

LEFEBVRE: O neo-modernismo ou “Pierre Vivantes” em ruínas

Carta Aberta aos Católicos Perplexos:

O neo-modernismo ou “Pierre Vivantes” em ruínas



No vocabulário inteiramente renovado dos homens da Igreja, algumas palavras sobreviveram. Fé é uma delas. Contudo é empregada nas mais diversas acepções. Ora, existe uma definição da fé, não se pode mudá-la. É a ela que se deve referir o católico quando não entende mais nada do palavreado confuso e pretensioso que se lhe apresenta.

A fé é a adesão da inteligência à verdade revelada pelo Verbo de Deus. Nós cremos numa verdade que vem de fora e que não é, de maneira alguma, segregada por nosso espírito. Nela acreditamos devido à autoridade de Deus que no-la revela, não é preciso buscar alhures.

Esta fé ninguém possui o direito de no-la tomar para substituí-la por uma outra. Vemos ressurgir uma definição modernista da fé, já condenada por Pio X há oitenta anos, e segundo a qual ela seria um sentimento interior: não seria preciso procurar a explicação da religião fora do homem: ”É pois no próprio homem que ela se encontra e, como a religião é uma forma de vida, na vida mesma do homem.” Ela seria alguma coisa de puramente subjetivo, uma adesão da alma a Deus sendo Ele próprio inacessível à nossa inteligência, cada um por si, cada um na sua consciência.

O modernismo não é uma invenção recente, ele já não o era em 1907, data da famosa encíclica; é o espírito perpétuo da Revolução, que nos quer fechar na nossa humanidade e colocar Deus fora da lei. Sua falsa definição não busca senão corromper a autoridade de Deus e a da Igreja.

A fé nos vem do exterior, nós estamos obrigados a nos submeter a ela. “Quem crer será salvo, quem não crer será condenado”, é Nosso Senhor que o afirma.

Quando eu fui ver o papa em 1976, ele, para minha imensa surpresa, me reprovou o fato de fazer meus seminaristas prestarem um juramento contra ele. Tive dificuldade de compreender donde isto poderia provir, pois alguém com toda a evidência lhe havia insuflado esta idéia, na intenção de prejudicar-me. Depois se fez a luz no meu espírito: tinha-se interpretado neste sentido o juramento antimodernista que até agora todo o sacerdote era obrigado a recitar solenemente antes de sua ordenação e todo o dignitário eclesiástico no momento de receber seu cargo. S.S. Paulo VI o havia ele mesmo prestado mais de uma vez na sua vida. Ora, eis aqui o que se encontra neste juramento:

“Eu tenho como certíssimo e professo sinceramente que a fé não é um sentimento religioso cego, que emerge das trevas do subconsciente sob a pressão do coração e a inclinação da vontade moralmente informada! Mas que ela é um verdadeiro assentimento da inteligência à verdade recebida de fora, pela qual nós cremos ser verdadeiro, devido à autoridade de Deus, tudo o que foi dito, atestado e revelado pela pessoa de Deus, nosso criador e soberano.”

O juramento antimodernista não é mais exigido para alguém se tornar padre ou bispo; se o fosse, haveria ainda menos ordenações que há. Com efeito, o conceito de fé foi falseado, e muitas pessoas, sem terem más intenções, se deixam influenciar pelo modernismo. É porque elas aceitam crer que todas as religiões salvam, se cada um tem uma fé segundo sua consciência, se é a consciência que produz a fé, não há razão de pensar que uma fé salva melhor que outra, contanto que a consciência seja orientada para Deus. Lêem-se afirmações como esta num documento proveniente da comissão de catequese do episcopado francês: “A verdade não é qualquer coisa de recebido, de inteiramente feito, mas alguma coisa que se faz.”

A diferença de ótica é total. Diz-se-nos que o homem não recebe a verdade, mas a constrói. Ora nós sabemos e nossa própria inteligência no-lo confirma que a verdade não se cria, não somos nós que a criamos. Mas como defender-se contra estas doutrinas perversas que arruínam a religião, visto que estes “dizedores de novidades” se encontram no próprio seio da Igreja? Eles foram, graças a Deus, desmascarados desde o início do século dum modo que permite reconhecê-los facilmente. Não pensemos que se trata de um fenômeno antigo que interessa apenas aos escritores eclesiásticos: a Pascendi é um texto que se acreditaria escrito hoje, é duma atualidade extraordinária e pinta, com cores tão frescas que não se poderia admirá-la demasiadamente, estes inimigos do interior.

Ei-los “curtos em filosofia e em teologia sérias, se apresentando, com desprezo de toda modéstia, como renovadores da Igreja... desprezadores de toda a autoridade, indóceis a todo o freio.” “Sua tática é jamais expor suas doutrinas metodicamente e no seu conjunto, mas de fragmentá-las de alguma sorte, de espalhá-las aqui e ali, o que faz julgá-los ondulantes e indecisos, quando suas idéias, ao contrário, são perfeitamente determinadas e consistentes... Tal página de sua obra poderia ser subscrita por um católico; virai a página e vós credes estar lendo um racionalista... Censurados e condenados, eles seguem o seu caminho dissimulando sob aparências enganadoras de submissão uma audácia sem limites... Quem quer que tem a desgraça de criticar uma ou outra de suas novidades, por monstruosa que seja, eles caem sobre ele em fileiras cerradas, quem a nega é tratado de ignorante, quem a abraça e a defende é elevado às nuvens... Uma obra aparece, respirando a novidade por todos os seus poros, eles a acolhem com aplausos e gritos de admiração. Quanto mais um autor levar sua audácia a difamar a antiguidade, a minar a Tradição e o magistério eclesiásticos tanto mais será sábio. Enfim, se acontece que um dentre eles é golpeado pelas condenações da Igreja, bem depressa os outros vão cerrar fileiras à sua volta, cumulá-lo de elogios e venerá-lo quase como um mártir da verdade.”

Todos estes traços correspondem tão bem ao que vemos, que se acreditariam esboçados bem recentemente. Em 1980, após a condenação de Hans Küng, um grupo de cristãos procedia, diante da catedral de Colônia, a um auto de fé à guisa de protesto contra a decisão da Santa Sé de retirar do teólogo suíço sua missão canônica; tinha-se feito uma fogueira sobre a qual eles jogaram um manequim e obras de Hans Küng “afim de simbolizar a interdição dum pensamento corajoso e honesto” (Le Monde). Pouco antes, as sanções contra o P. Pohier haviam provocado outros levantamentos de escudos: 300 dominicanos e dominicanas endereçaram uma carta pública de protesto contra estas sanções, uma vintena de personalidades assinavam um outro texto; a abadia de Boquen, a capela de Montparnasse e outros grupos de vanguarda vinham em ajuda. A única novidade em relação à descrição de São Pio X é que eles não se dissimulam mais sob aparências enganosas de submissão; tomaram confiança, têm muitos apoios na Igreja para esconder-se ainda. O modernismo não está morto, ao contrário, progrediu e se ostenta.

Continuemos a ler a Pascendi: “Depois disto, não há motivo de se admirar se os modernistas perseguem com toda a sua malevolência, com toda a sua acrimônia, os católicos que lutam vigorosamente pela Igreja. Não há sorte de injúrias que os modernistas não vomitem contra eles. Se se trata dum adversário cuja erudição e vigor de espírito o tornam temível: os modernistas buscarão reduzi-lo à impotência organizando em torno dele a conspiração do silêncio”. É o caso hoje dos padres tradicionalistas acossados, perseguidos, dos escritores religiosos ou leigos de quem a imprensa nas mãos dos progressistas jamais diz uma palavra. Movimentos de juventude são também postos de lado porque permanecem fiéis e cujas atividades edificantes, peregrinações ou outras, ficam desconhecidas do público que no entanto poderia encontrar nisto um reconforto.

“Se eles escrevem história, procuram com curiosidade e publicam aos quatro ventos, sob o pretexto de dizer toda a verdade e com uma sorte de prazer mal dissimulado, tudo que lhes parece macula na história da Igreja. Dominados por certos preconceitos, destroem, tanto como podem, as piedosas tradições populares. Põem em ridículo certas relíquias muito veneráveis por sua antiguidade. Eles são enfim possuídos pelo vão desejo de fazer falar deles; o que não sucederia, eles bem o compreendem, se dissessem como se tem sempre dito até aqui.”

Quanto à sua doutrina, ela repousa sobre alguns pontos seguintes, que não se terá dificuldade em reconhecer nas correntes atuais: ”A razão humana não é capaz de elevar-se até Deus, não, nem mesmo para conhecer, por meio das criaturas a sua existência.” Sendo impossível toda revelação exterior, o homem buscará em si mesmo a satisfação da necessidade do divino que sente e cujas raízes, se encontram no seu subconsciente. Esta necessidade do divino suscita na alma um sentimento particular ”que une de algum modo homem com Deus.“ Tal é a fé para os modernistas. Deus é assim criado na alma e é a revelação.

Do sentimento religioso se passa ao domínio da inteligência que vai elaborar o dogma: o homem deve pensar sua fé, é uma necessidade para ele, uma vez que é dotado de inteligência. Ele cria fórmulas que não contêm a verdade absoluta mas imagens da verdade, símbolos. Estas fórmulas dogmáticas estão, por conseguinte, submetidas à mudança, elas evoluem. “Assim está aberto o caminho à variação substancial dos dogmas.”

As fórmulas não são simples especulações teológicas, elas devem ser vivas para serem verdadeiramente religiosas. O sentimento deve assimilá-las ”vitalmente”.

 Fala-se hoje da “vivência da fé”. “Afim de que elas sejam e permaneçam vivas, continua Pio X, estas fórmulas devem ficar ajustadas ao crente e à sua fé. No dia em que esta adaptação viesse a cessar, então elas se esvaziariam ao mesmo tempo de seu conteúdo primitivo; não haveria outro partido a tomar senão mudá-las dado o caráter tão precário e tão instável das fórmulas dogmáticas, compreende-se muitíssimo bem que os modernistas as tenham em tão pouca estima se é que não as desprezam abertamente. O sentimento religioso, a vida religiosa é o que eles têm sempre nos lábios”. Nas homilias, nas conferências, nos catecismos, dá-se caça às “fórmulas preparadas.”

O crente faz sua experiência pessoal da fé, depois ele a comunica a outros pela pregação, é assim que a experiência religiosa se propaga. “Quando a fé se tornou comum ou, como se diz, coletiva” experimenta-se a necessidade de se organizar em sociedade para conservar e fazer crescer o tesouro comum. Donde a fundação duma Igreja. A Igreja é “o fruto da consciência coletiva, falando de outra maneira, da coleção das consciências individuais: consciências que derivam dum primeiro crente - para católicos, de Jesus Cristo”.

E a história da Igreja se escreve como segue: no início, quando se acreditava ainda que a autoridade da Igreja vinha de Deus, era concebida como autocrática. “Mas hoje se voltou atrás a esse respeito. Assim como a Igreja é uma emanação vital da consciência coletiva, de igual modo, por seu lado, a autoridade é um produto vital da Igreja.” Então é preciso que o poder mude de mãos e venha da base. A consciência política criou o regime popular, deve acontecer o mesmo na Igreja: “Se a autoridade eclesiástica não quer, no mais íntimo das consciências, provocar e fomentar um conflito, cabe a ela ceder às formas democráticas.”

Vós compreendeis agora, católicos perplexos, aonde o cardeal Suenens e todos os teólogos turbulentos foram buscar suas idéias. A crise pós-conciliar está em perfeita continuidade com aquela que agitou o fim do último século e o início deste. Compreendeis assim porque, nos livros de catecismo que vossos filhos trazem para a casa, tudo começa nas primeiras comunidades, que se formaram depois de Pentecostes, quando os discípulos sentiram a necessidade do divino, devido ao choque provocado por Jesus e viveram em conjunto “uma experiência original”. Vós podeis explicar-vos a ausência dos dogmas, a Santíssima Trindade, a Encarnação, a Redenção, a Assunção etc., nestes mesmos livros e nos sermões. O texto de referência elaborado para a catequese pelo episcopado francês se estende sobre a criação de grupos que serão “mini-Igrejas” destinadas a recompor a Igreja de amanhã segundo o processo que os modernistas creram ler no nascimento da Igreja dos Apóstolos: “Num grupo de catequese, animadores, pais e crianças trazem sua experiência de vida, suas aspirações profundas, imagens religiosas, um certo conhecimento das coisas da fé. Segue-se uma confrontação que é condição de verdade, na medida em que ela põe em movimento os desejos profundos das pessoas e as compromete realmente em direção das transformações inevitáveis que todo o contato com o Evangelho manifesta. Bloqueios são possíveis. É no final duma ruptura, duma conversão, duma espécie de morte que se pode, pela graça, efetuar a confissão de fé.”

São os bispos que põem em aplicação às claras a tática modernista condenada por são Pio X! Tudo se encontra neste parágrafo¹ relede-o com atenção. O sentimento religioso provocado pela necessidade, as aspirações profundas, a verdade originando-se na confrontação das experiências, a variação dos dogmas, a ruptura com a Tradição.

Para o modernismo os sacramentos nascem também duma necessidade “pois, como se notou, a necessidade, a exigência, tal é, em seu sistema, a grande e universal explicação”. É preciso dar à religião um corpo sensível. “Os sacramentos são (para eles) puros sinais ou símbolos, embora dotados de eficácia. Eles os comparam a certas palavras das quais se diz vulgarmente que elas têm sucesso, porque possuem a virtude de irradiar idéias fortes e penetrantes que impressionam e comovem. Bem se pode dizer: os sacramentos não foram instituídos senão para nutrir a fé: proposição condenada pelo concílio de Trento.”

Esta idéia se reencontra em Besret, por exemplo, que foi “perito” no concílio: “Não é o sacramento que põe o amor de Deus no mundo. O amor de Deus trabalha em todos os homens. O sacramento é o momento de sua manifestação pública na comunidade dos discípulos... Dizendo isto, não tenciono absolutamente negar o aspecto eficaz dos sinais formulados. O homem se realiza também ao revelar-se e isto vale nos sacramentos como no resto de sua atividade².

Os Livros Santos? Eles são para os modernistas “a compilação das experiências feitas numa determinada religião”. É Deus que fala através destes livros, mas o Deus que está em nós. São livros inspirados um pouco como se fala de inspiração poética; a inspiração é assimilada à necessidade intensa que experimenta o crente de comunicar sua fé por escrito. A Bíblia é uma obra humana.

Em Pedras Vivas, se diz às crianças que o Gênesis é um “poema” escrito um dia pelos crentes que “refletiram”. Esta compilação, imposta pelos bispos da França a todos os alunos do catecismo, respira modernismo em quase todas as páginas. Estabeleçamos um pequeno paralelo: São Pio X: ”É uma lei (para os modernistas) que a data dos documentos não poderia ser determinada de outra maneira senão pela data das necessidades às quais a Igreja está sujeita sucessivamente.”

Pedras Vivas: ”Para ajudar estas comunidades a viver o Evangelho, alguns Apóstolos lhes escrevem cartas que se chamam também Epístolas... Mas os Apóstolos contaram sobretudo de viva voz o que Jesus tinha feito no meio deles e o que lhes havia dito... Mais tarde quatro autores — Marcos, Mateus, Lucas e João — escreveram o que os Apóstolos disseram.”, “Redação dos Evangelhos: Marcos por volta de 70? Lucas entre 80-90? Mateus entre 80-90? João entre 95-100?”, “Eles narraram os acontecimentos da vida de Jesus, suas palavras e sobretudo sua morte e sua ressurreição para esclarecer a fé dos crentes.”

São Pio X: “Nos Livros Sagrados (dizem) há vários lugares, relativamente à ciência ou à história onde se verificam erros manifestos. Mas não é de história nem de ciência que estes livros tratam, é unicamente de religião e de moral.”

Pedras Vivas: “É um poema (o Gênesis) e não um livro de ciência. A ciência nos diz que foram precisos milhões de anos para ver aparecer a vida.” “Os Evangelhos não narram o relato da vida de Jesus como se refere hoje um acontecimento na rádio, na televisão ou num jornal.”

São Pio X: Eles não hesitam em afirmar que os livros em questão, sobretudo o Pentateuco e os três primeiros Evangelhos, se formaram lentamente de anexos feitos a uma narração primitiva muito breve: interpolações à maneira de interpretações teológicas ou alegóricas, ou simplesmente transições e suturas.”

Pedras Vivas: “O que se escreveu na maior parte destes livros tinha sido inicialmente narrado de pai para filho. Um dia alguém o escreveu para transmiti-lo a seu turno e freqüentemente o que escreveu, foi reescrito por outras pessoas ainda... 538, dominação dos Persas: a reflexão e as tradições tornam-se livros. Esdras, por volta de 400, reúne (diversos livros) para fazer deles a Lei ou Pentateuco. Os rolos dos Profetas são compostos. A reflexão dos Sábios acaba em diversas obras primas.”

Os católicos que se espantam com a linguagem nova utilizada na “Igreja Conciliar” têm ademais a saber que ela não é tão nova, que Lammenais, Fuchs, Loisy já a empregavam no século passado e que eles mesmos não tinham senão amontoado todos os erros que puderam ocorrer no decurso dos séculos. A religião de Cristo não mudou e não mudará jamais, não se deve deixar-se enganar.

1. Texto de referência, § 312.
2. De commencement em commencement, p. 176.

Carta Aberta aos Católicos Perplexos. Mons. Marcel Lefebvre.

_

sábado, 27 de novembro de 2010

LEFEBVRE: Conúbio da Igreja com a Revolução

Carta Aberta aos Católicos Perplexos:

Conúbio da Igreja com a Revolução



Na origem da revolução, que é “o ódio de toda a ordem que o homem não estabeleceu e na qual ele não é rei e Deus ao mesmo tempo” encontra-se o orgulho que já tinha sido a causa do pecado de Adão. A revolução na Igreja se explica pelo orgulho de nossos tempos modernos que se crêem tempos novos, tempos em que o homem enfim “compreendeu por si mesmo a sua dignidade, em que tomou uma maior consciência de si mesmo” a tal ponto que se pode falar de metamorfose social e cultural cujos efeitos repercutem sobre a vida religiosa... O próprio movimento da história se torna tão rápido que cada um tem dificuldade em segui-lo... Em poucas palavras, o gênero humano passa duma noção antes estática da ordem das coisas a uma concepção mais dinâmica e evolutiva: daí nasce uma imensa problemática nova que provoca novas análises e novas sínteses”. Estas frases surpreendentes figurando, com muitas outras semelhantes, na exposição preliminar da constituição “A Igreja no mundo deste tempo” auguram mal o retorno ao espírito evangélico; vê-se que este dificilmente sobrevive a tanto movimento e a tantas transformações.

E como compreender o seguinte: ”Uma sociedade de tipo industrial se estende pouco a pouco, transformando radicalmente as concepções da vida em sociedade” senão que se dá como certo o que se deseja ver produzir-se: uma concepção da sociedade que nada terá a ver com a concepção cristã, segundo a doutrina social da Igreja? Tais premissas não poderão senão conduzir a um novo Evangelho, a uma nova religião. Ei-la: “Que eles vivam (os crentes) em união muito estreita com os outros homens de seu tempo e que se esforcem em compreender a fundo suas maneiras de pensar e de sentir, tais como se exprimem na cultura. Que eles unam o conhecimento das ciências e das novas teorias, como as descobertas mais recentes, com os costumes e o ensino da doutrina cristã, para que o senso religioso e a retidão moral caminhem a par, neles, do conhecimento científico e dos incessantes progressos técnicos; eles poderão assim apreciar e interpretar todas as coisas com uma sensibilidade autenticamente cristã” (Gaudium et Spes, 62-6). Singulares conselhos, enquanto que o Evangelho nos manda evitar as doutrinas perversas! E que não se diga que podem ser entendidas de duas maneiras: a catequese atual as entende como queria Schillebeeckx: ela aconselha às crianças freqüentar a escola dos ateus, porque estes têm muito a lhes ensinar e que de resto, para não crer em Deus, eles têm suas razões, que é proveitoso conhecer.

Pode-se também dizer que a primeira frase do capítulo primeiro: ”Crentes e descrentes estão geralmente de acordo neste ponto, que tudo na terra deve ser ordenado ao homem como a seu centro e a seu cume”, se explica no sentido cristão pelo que segue. Ela tem uma significação em si mesma, aquela que precisamente se vê pôr em obra em toda a parte na Igreja pós-conciliar, sob a forma duma salvação reduzida ao desenvolvimento econômico e social da humanidade.

Por minha parte, penso que os crentes que admitirem esta proposição como base comum num diálogo com os descrentes e que unirem as teorias novas com a doutrina cristã perderão a fé, nem mais nem menos. A regra de ouro da Igreja é invertida pelo orgulho dos homens de nosso tempo; não se escuta mais a palavra sempre viva e fecunda de Cristo, mas a do mundo. Este agiornamento se condena por si mesmo. A raiz da desordem atual está neste espírito moderno ou antes modernista que recusa reconhecer o Credo, os mandamentos de Deus e da Igreja, os sacramentos, a moral cristã como a única fonte de renovação para todos os tempos até o fim do mundo. Deslumbrados pelos “progressos da técnica que vão até transformar a face da terra e já se lançam à conquista do espaço” (Gaudium et Spes, 5-1), os homens da Igreja, que não devem ser confundidos com a Igreja, parecem considerar que Nosso Senhor não podia prever a evolução tecnológica de nossa época e que, por conseguinte, sua mensagem não está adaptada a ela.

O sonho dos liberais desde um século e meio consiste em consorciar a Igreja com a revolução. Durante um século e meio também, os Soberanos Pontífices condenaram este catolicismo liberal; citemos, entre os documentos, os mais importantes: a bula Auctorem fidei de Pio VI, contra o concílio de Pistóia, a encíclica Mirari vos de Gregório XVI contra Lamennais, a encíclica Quanta cura e o Syllabus de Pio IX, a encíclica Immortale Dei de Leão XIII, contra o direito novo, os documentos de são Pio X contra “le Sillon” e o modernismo, e especialmente o decreto Lamentabili, a encíclica Divini Redemptoris de Pio XI, contra o comunismo, a encíclica Humani Generis do papa Pio XII.

Todos os papas recusaram o consórcio da Igreja com a revolução, que é uma união adúltera e duma união adúltera não podem provir senão bastardos. O rito da missa é um rito bastardo, os sacramentos, são sacramentos bastardos, nós não sabemos mais se são sacramentos que conferem a graça ou que não a conferem. Os sacerdotes que saem dos seminários são sacerdotes bastardos, não sabem mais o que são; não sabem mais que são ordenados para subir ao altar, oferecer o sacrifício de Nosso Senhor Jesus Cristo às almas.

Em nome da revolução padres foram mandados para o cadafalso, religiosas foram perseguidas e assassinadas. Lembrai-vos das barcaças de Nantes que eram afundadas no alto mar depois de terem sido amontoados nelas todos os sacerdotes fiéis. Pois bem, o que a Revolução fez não foi nada em comparação das obras do Vaticano II pois teria sido preferível que os vinte ou trinta mil sacerdotes que abandonaram seu sacerdócio e seu juramento feito diante de Deus tivessem sido martirizados, subido ao cadafalso; aos menos eles teriam salvo sua alma e agora correm o risco de perdê-la.

Dizem-nos que entre estes pobres sacerdotes casados, muitos já se divorciaram, muitos já introduziram pedidos de anulação de casamento em Roma. Chamar-se-á a isto bons frutos do concílio? Vinte mil religiosas, nos Estados Unidos, e quantas outras nos demais países, romperam os votos perpétuos que as uniam a Jesus Cristo, para correrem também para o casamento. Se elas subissem ao cadafalso, teriam ao menos testemunhado sua fé. O sangue dos mártires é semente de cristãos, mas os padres ou os simples fiéis que se aliam ao espírito do mundo não fazem surgir messe nenhuma. É a maior vitória do diabo ter querido destruir a Igreja sem fazer mártires.

A união adúltera da Igreja e da revolução se concretiza pelo diálogo. Nosso Senhor disse: “Ide, ensinai as nações, convertei-as”, mas não falou: “Dialogai com elas sem tentar convertê-las”. O erro e a verdade não são compatíveis entre si, dialogar com o erro é colocar Deus e o demônio no mesmo plano. Eis o que sempre repetiram os papas e o que os cristãos compreendiam facilmente, pois é também uma questão de senso comum. Para impor uma atitude e reflexos diferentes, foi necessário agir sobre os cérebros de modo a tornar modernistas os clérigos chamados a difundir a doutrina nova. É o que se chama a reciclagem, processo de condicionamento destinado a remodelar o próprio instrumento que Deus deu ao homem para conduzir seu julgamento.

Eu fui testemunha duma operação deste gênero na congregação que é a minha, e da qual fui durante certo tempo superior geral. O que se exige em primeiro lugar da pessoa é que ela “reconheça a mudança”: o concílio operou transformações, e por isso é necessário que nós próprios mudemos. Mudança em profundidade, visto que se trata de adaptar as faculdades de raciocínio para fazê-las coincidir com idéias fabricadas arbitrariamente. Nós podemos ler num fascículo editado pela secretaria do arcebispado de Paris, A Fé palavra por palavra: “A segunda operação, mais delicada, consiste em assinalar as maneiras diferentes que têm os cristãos de apreciar, nas diversas mudanças, o fato mesmo da mudança. Esta determinação tem muita importância porque as oposições atuais dizem mais respeito às atitudes espontâneas e inconscientes diante da mudança que ao começo preciso de cada mudança.

“Duas atitudes típicas se delineiam, parece, com a condição de não negligenciar por isso todos os intermediários possíveis. Segundo a primeira cede-se a um certo número de novidades depois de ter verificado que elas se impõem uma após outra. É o caso de muitos cristãos, de muitos católicos, que cedem de degrau em degrau.

“Conforme a segunda, consente-se numa renovação de conjunto de formas da fé cristã à margem duma era cultural inédita. Deixa de assegurar-se sem cessar a fidelidade à fé dos Apóstolos.”

Esta precaução oratória está bem na tradição dos modernistas: eles fazem sempre protestos de seus sentimentos ortodoxos e tranqüilizam, com uma pequena frase, as almas que ficariam espantadas por perspectivas como “a renovação do conjunto das formas da fé cristã à margem duma era cultural inédita”, mas é já muito tarde, quando se se prestou a estas manipulações e será bem o tempo de ocupar-se com a fé dos Apóstolos, quando se tiver demolido completamente a fé!

Uma terceira operação se torna necessária no caso em que se retém o segundo diagnóstico: “O cristão não pode pressentir nisto um risco terrível para a fé. Não vai ela desaparecer pura e simplesmente, ao mesmo tempo que a problemática que a tinha conduzido até aí? Ele pede então uma garantia fundamental que lhe permite ultrapassar as primeiras atitudes estéreis.”

Todos os graus de resistência são então previstos. Que “garantia fundamental” se dá por fim ao neófito? O Espírito Santo. ”O Espírito Santo é precisamente quem assiste os crentes no movimento da história.”

O objetivo está atingido: não há mais magistério, nem dogma, nem hierarquia, nem mesmo Sagrada Escritura, como texto inspirado e historicamente certo: os cristãos são diretamente inspirados pelo Espírito Santo.

Então a Igreja desmorona, o cristão reciclado é abandonado a todas as influências, dócil a todos os slogans, pode-se conduzi-lo aonde se quer, agarrando-se, se ele busca uma garantia a esta afirmação: ”O Vaticano II apresenta seguramente numerosos indícios duma mudança de problemática.”

“A causa próxima e imediata (do modernismo) escreve Pio X na encíclica Pascendi, reside numa perversão de espírito.” A reciclagem cria uma tal perversão naqueles que não a possuíam. E o santo Pontífice cita esta observação de seu predecessor Gregório XVI: ”É um espetáculo lamentável ver até onde vão as divagações da razão humana, desde que se ceda ao espírito de novidade; que contrariamente à advertência do Apóstolo, se pretende saber mais do que é preciso e que, fiando-se demasiadamente em si mesmo, se pensa poder buscar a verdade fora da Igreja, na qual ela se encontra sem a mais leve sombra de erro.”¹.

1. SINGULARI NOS, 1834.
Carta Aberta aos Católicos Perplexos. Mons. Marcel Lefebvre.

_

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

LEFEBVRE: Os Camaradas e os irmãos

Carta Aberta aos Católicos Perplexos:

Os Camaradas e os irmãos



Resumamos. O bom senso cristão se choca a cada instante com a nova religião. O católico está exposto a uma dessacralização geral; tudo se lhe mudou, adaptou. Faz-se-lhe compreender que todas as religiões trazem a salvação, que a Igreja acolhe indistintamente os cristãos separados e mesmo o conjunto dos crentes, inclinem-se eles diante de Buda ou de Krishna. Explica-se que os clérigos e os leigos são membros iguais do “Povo de Deus” de modo que leigos designados para funções particulares assumem tarefas clericais (vêem-se celebrar sozinhos os enterros e encarregar-se do viático aos doentes, enquanto que os clérigos assumem as tarefas dos leigos, se vestem como eles, vão trabalhar nas usinas, se inscrevem nos sindicatos, fazem política. O novo direito canônico reforça esta concepção. Ele confere prerrogativas inéditas aos fiéis, reduzindo a diferença entre estes e os sacerdotes e instituindo o que chama de “direitos”: teólogos leigos podem ter acesso às cátedras de teologia nas universidades católicas, os fiéis participam do culto divino no que estava reservado a certas ordens menores e à administração de certos sacramentos: distribuição da comunhão, participação no testemunho ministerial, nas cerimônias do casamento.

Fórmula suspeita, pois a doutrina de sempre ensina que a Igreja de Deus é a Igreja Católica.            

De outra parte lê-se que a Igreja de Deus “subsiste” na Igreja Católica. Se se aceita esta formulação recente, pareceria que as comunidades protestantes e ortodoxas façam igualmente parte dela, o que é falso, uma vez que elas se separaram da única Igreja fundada por Jesus Cristo: Credo in unam sanctam Ecclesiam.

O novo direito canônico foi redigido às pressas e na confusão, e a prova disto é que, promulgado em janeiro de 1983, ele conhecia, em novembro do mesmo ano, 114 modificações. Também isto desconcerta o cristão, que tinha o hábito de se referir à legislação eclesiástica, como a qualquer coisa de fixo.

Se, como pai de família, ele tem a preocupação de educar bem seus filhos, sendo praticamente assíduo ou afastado da prática dos sacramentos, as decepções o esperam. As escolas católicas adotaram em numerosos casos a co-educação, ministra-se nelas a educação sexual, o ensino religioso desaparece nas classes superiores, não é raro encontrarem-se professores com orientações socialistas, senão comunistas. Por ocasião de uma questão que causou muito rumor no oeste da França, um destes educadores, eliminado pelos pais e depois reintegrado pela direção diocesana, apresentava assim sua defesa. “Seis meses depois de ter entrado em Notre Dame, um pai de aluno quis simplesmente eliminar-me pois no início do ano eu me havia apresentado sob todos os pontos de vista, político (de esquerda), social, religioso... Não era possível, na sua opinião ser professor de filosofia e socialista num estabelecimento privado”.

Um outro caso que sucede no Norte: um novo diretor é nomeado numa escola pela direção diocesana: os pais se dão conta, ao cabo de algum tempo, de que ele é militante num sindicato de esquerda, de que se trata dum sacerdote reduzido ao estado leigo e casado, de que seus filhos não parecem ter sido batizados. Pelo Natal ele organiza uma festa para os alunos e os pais, com a participação do Auxílio popular que é, como se sabe, uma organização comunista. Então os católicos de boa vontade se perguntam se é útil fazer esforços para pôr seus filhos na escola livre.

Numa instituição para moças do centro de Paris, o catequista se apresenta numa manhã como o capelão de Fresnes, que acompanha um jovem detento de dezoito anos. Eles explicam às alunas que os prisioneiros se sentem muito sós, que têm necessidade de afeição, de contatos com o exterior e de correspondência. Se uma ou outra das alunas quiser tornar-se protetora, ela pode dar seu nome e seu endereço. Mas, sobretudo, não se deve falar disto aos pais, pois eles não compreendem estas coisas; isto deve permanecer um assunto de jovens.

Noutro lugar, é uma professora primária que é repreendida, desta vez por um grupo de pais, por ter ensinado a seus alunos fórmulas de catecismo e a Ave-Maria. Ela foi absolvida pelo bispo, coisa que não poderia ser mais normal, mas que parece tão insólita que a carta foi reproduzida na “Famille éducatrice” como se fora um acontecimento.

Como entender isto? Quando o governo francês decidiu acabar com a escola livre, ela se mostrou vulnerável porque, na quase totalidade dos casos, não correspondia mais à sua missão, quer num ponto, quer em vários. Seus adversários tinham motivos de dizer: que fazeis no sistema educativo? Para que servis? Nós fazemos a mesma coisa; por que duas escolas? Certamente encontram-se ainda reservas de fé e convém render homenagem a numerosos professores conscientes de suas responsabilidades, mas o ensino católico não se afirma mais de um modo claro em face da escola pública, ele percorreu uma boa metade do caminho no qual o querem comprometer os zeladores do laicismo. Foi-me relatado que, nas manifestações, grupos haviam causado escândalo cantando “Queremos Deus nas nossas escolas”. Os organizadores tinham secularizado o mais possível os cantos, os slogans, os discursos afim de, diziam eles, não pôr em posição embaraçosa as pessoas que tinham vindo sem preocupações religiosas particulares, e entre as quais se encontravam descrentes e até socialistas.

É fazer política querer afastar o comunismo e o socialismo de nossas escolas? O católico sempre pensou que a Igreja se opunha a estas doutrinas devido ao ateísmo militante que elas professam. Ele tem visto perfeitamente razão quanto ao princípio e quanto às aplicações: o ateísmo determina modos radicalmente diferentes de conceber o sentido da vida, o destino das nações, as orientações da sociedade. Houve tanto mais estranheza ao ler em Le Monde de 5 de junho de 1984 que Dom Lustiger, respondendo às perguntas deste jornal e exprimindo de resto várias idéias muito justas, se queixa de ter visto escapar uma oportunidade histórica com o voto do Parlamento sobre a escola livre. Esta oportunidade, explica ele, consistia em encontrar, em acordo com os social-comunistas, um certo número de valores fundamentais para a educação das crianças. Que valores fundamentais comuns pode haver entre a esquerda marxista e a doutrina cristã?

É tudo o oposto.

Mas o católico vê com surpresa intensificar-se o diálogo entre a hierarquia eclesiástica e os comunistas.

Os dirigentes soviéticos, e também terroristas como Yasser Arafat são recebidos no Vaticano. O concílio deu o tom, recusando renovar a condenação do comunismo. Não encontrando sinal desta condenação nos esquemas que lhes eram submetidos, quatrocentos e cinqüenta bispos, lembremo-lo, tinham assinado uma carta reclamando uma revisão neste sentido. Eles se apoiavam nas condenações passadas e, em particular, na afirmação de Pio XI que qualificava o comunismo de “intrinsecamente perverso”, significando com isto que não havia nesta ideologia aspectos negativos e aspectos positivos, mas que se devia rejeitá-lo em sua integralidade. Tem-se lembrança do que adveio daí: a emenda não foi transmitida aos padres, o secretariado central do concílio declarou não ter tido conhecimento dela, depois a comissão admitiu que a tinha recebido mas demasiadamente tarde, o que não era exato. Foi um escândalo, que terminou pela anexação, por ordem do papa, à constituição Gaudium et spes, duma passagem alusiva sem grande alcance.

Quantas declarações de bispos para justificar, senão para encorajar a colaboração com os comunistas, independentemente do ateísmo ostensivo! “Não compete a mim, mas aos cristãos, que são adultos responsáveis, dizia Dom Matagrin, ver em que condições eles podem colaborar com os comunistas.” Para Dom Delorme os cristãos devem “lutar por mais justiça no mundo com todos os que são animados pela justiça e pela liberdade, inclusive os comunistas”. É o mesmo tom em Dom Poupard que incita a “trabalhar com todos os homens de boa vontade em todas as obras da justiça onde se constrói incansavelmente um mundo novo”.

Num boletim diocesano, a oração fúnebre dum padre operário foi arranjada assim: “Ele tomou o partido do mundo dos trabalhadores por ocasião das eleições municipais. Não podia ser o sacerdote de todos, ele optou por aqueles que faziam a escolha da sociedade socialista. Foi duro para ele. Criou-se inimigos, mas também muitos novos amigos. Tito Paulo era um homem posicionado”. Um bispo dissuadia, há pouco tempo, seus sacerdotes de falar nas suas paróquias da obra “ajuda à Igreja na miséria” dizendo: “minha impressão é que esta obra se apresenta sob aparências muito exclusivamente anticomunistas.”

Verifica-se com assombro que a excusa dada a este gênero de colaboração repousa sobre a noção, falsa em si mesma, de que o partido comunista teria por objetivo instaurar a justiça e a liberdade. É preciso relembrar sobre este assunto as palavras de Pio IX: ”Se os fiéis se deixam enganar pelos promotores das manobras atuais, se consentem em conspirar com eles para os sistemas perversos do socialismo e do comunismo, que o saibam e o considerem seriamente: acumulam para si mesmos e junto do divino Juiz tesouros de vingança no dia da cólera; e, na espera disto, não provirá desta conspiração nenhuma vantagem temporal para o povo, mas antes um aumento de misérias e de calamidades.”

Basta, para ver a justeza desta advertência lançada em 1849, há mais de cento e quarenta anos, observar o que se passa em todos os países colocados sob o jugo comunista. Os acontecimentos deram razão ao papa do Syllabus e, não obstante isto, a ilusão continua viva e mesmo se acentua. Mesmo na Polônia país católico entre todos, os pastores não apresentam mais a questão da fé católica e da salvação das almas como primordial e que deve fazer aceitar todos os sacrifícios, inclusive o da vida. O que mais importa no seu espírito é não provocar ruptura com Moscou, o que permite a Moscou reduzir a uma escravidão ainda mais completa o povo polonês, sem encontrar a verdadeira resistência.

O padre Floridil mostra com clareza os compromissos da “Ostpolitik” vaticana¹:

“É sabido que os bispos tchecoslovacos consagrados por Mons. Casaroli são colaboradores do regime, como o são os bispos que dependem do patriarcado de Moscou... Feliz de ter podido dar um bispo a cada diocese húngara, o papa Paulo VI rendeu homenagem a Janos Kadar, primeiro secretário do partido comunista húngaro” principal promotor e o mais autorizado da normalização das relações entre a Santa Sé e a Hungria”. Mas o papa não dizia o preço elevado pelo qual tinha sido paga esta normalização: a instalação em postos importantes da Igreja de “padres da paz”... De fato, grande foi o estupor dos católicos quando ouviram o sucessor do cardeal Mindzenty, o cardeal Laszlo Lekai, prometer intensificar o diálogo entre católicos e marxistas”. Falando da perversidade intrínseca do comunismo, Pio XI acrescentava: “e não se pode admitir em nenhum terreno a colaboração com ele da parte de qualquer que deseja salvar a civilização cristã!!

Esta ruptura com o ensino da Igreja, ajuntando-se àquelas que enumerei, nos  briga a afirmar que o Vaticano está ocupado por modernistas e por homens deste mundo que acreditam encontrar nas astúcias humanas e diplomáticas mais eficácia para a salvação do mundo do que aquilo que foi instituído pelo divino fundador da Igreja.

Citei o cardeal Mindszenty; como ele, todos os heróis e os mártires do comunismo, em particular os cardeais Beran, Stepinac, Wyszynski, Slipyi são considerados como testemunhas embaraçosas pela atual diplomacia vaticana e, digamo-lo como reprovações mudas no que respeita aos primeiros, hoje adormecidos na paz do Senhor, enquanto que se abafa a grande voz do cardeal Slipyi.

As mesmas aproximações se realizaram com a franco-maçonaria, não obstante a declaração desprovida de ambigüidade da Congregação para a Doutrina da Fé em fevereiro de 1981, à qual havia precedido uma declaração da Conferência episcopal alemã em abril de 1980. Mas o novo direito canônico não faz menção delas e não formula expressamente nenhuma sanção. Os católicos souberam anteriormente que os maçons B'nai Brith tinham sido recebidos no Vaticano e, numa data recente, o arcebispo de Paris acolhia, para uma conversa, o grão mestre duma loja, enquanto certos eclesiásticos não se cansam de querer reconciliar a Sinagoga de Satã com a Igreja de Cristo.

Tranqüilizam-se os católicos dizendo-lhes como para o resto: “A condenação das seitas ontem era talvez fundada, mas os irmãos tripingados não são mais aqueles que eram”. “Vejamo-los então agindo. O escândalo da loja P2, na Itália, está ainda bem fresco nas memórias. Na França não há dúvida de que a lei laica contra o ensino livre é antes de tudo obra do Grande Oriente, que multiplicou as pressões junto do Presidente da República e de seus filiados presentes no governo e nos gabinetes ministeriais para que se realize enfim o “grande serviço da educação nacional”. Eles agiram mesmo, desta vez, às claras; jornais como Le Monde fizeram regularmente a justificação de suas negociações, seu plano e sua estratégia foram publicadas em suas revistas.

Devo acrescentar que a maçonaria é sempre o que era? O antigo grão mestre do Grande Oriente, Jacques Mitterand, que confessava pela rádio em 1969: “Nós tivemos sempre bispos e padres nas nossas lojas”, fazia a seguinte profissão de fé: “Se colocar o Homem sobre o altar em vez de nele colocar Deus é o pecado de Lúcifer, todos os humanistas desde o Renascimento cometem este pecado. “ Esta foi uma das censuras invocadas contra os franco-maçons, quando foram excomungados pela primeira vez pelo papa Clemente XII em 1738. Em 1982, o grão mestre Jorge Marcou não dizia outra coisa: ”É o problema do homem que prevalece.” Na primeira ordem de suas preocupações, quando foi reeleito figurava o abono do aborto pelo seguro social, “passando por esta medida a igualdade econômica das mulheres.”

Os franco-maçons penetram na Igreja. Em 1976, informava-se de que aquele que tinha sido a alma da reforma litúrgica, Mons. Bugnini, era franco-maçon. Pode-se julgar, desta revelação, que não era ele o único. O véu que cobria a maior mistificação da qual o clero e os fiéis foram objeto começava a rasgar-se. Vê-se mais claro com o tempo e os adversários seculares da Igreja também: ”Há alguma coisa que mudou na Igreja, escreve Jacques Mitterand, as respostas formuladas pelo papa às questões mais candentes, como o celibato dos padres ou a regulação dos nascimentos, são ardentemente contestadas no seio da própria Igreja; a palavra do Soberano Pontífice é questionada por certos bispos, por padres, por fiéis. Para o franco-maçon o homem que discute o dogma já é um franco-maçon sem avental.”

Um outro irmão, M. Marsaudon, do rito escocês, fala assim do ecumenismo cultivado no decurso do concílio: ”Os católicos, particularmente os conservadores, não se deverão esquecer por isso de que todo o caminho conduz a Deus. E (deverão) manter-se nesta corajosa noção de liberdade de pensamento que, pode-se verdadeiramente falar aí de revolução, oriunda de nossas lojas maçônicas, se estendem magnificamente sobre a cúpula de São Pedro”.

Eu queria citar-vos ainda um texto próprio a esclarecer esta questão e mostrando quem espera ser o vencedor do outro na reaproximação preconizada pelo abade Six e pelo padre Riquet. Ele é extraído da revista maçônica Humanismo, número de novembro-dezembro de 1968. “Entre os pilares que desabariam mais facilmente, citemos o poder doutrinal dotado de infalibilidade que tinha acreditado solidificar, transcorridos cem anos, o primeiro concílio do Vaticano, e que acaba de suportar assaltos conjugados na ocasião do aparecimento da encíclica Humanae Vitae; a presença real eucarística que a Igreja tinha conseguido impor às massas medievais e que desaparecerá com o progresso das intercomunicações e das concelebrações entre padres católicos e pastores protestantes; o caráter sagrado do sacerdote, que decorria da instituição do sacramento do Ordem e que cederá o lugar a um caráter eletivo e temporário; a distinção entre a Igreja dirigente e o clero “negro”, operando-se o movimento, de agora em diante da base para cima, como em toda democracia; a desaparição progressiva do caráter ontológico e metafísico dos sacramentos e, com toda a certeza, a morte da confissão, tornando-se o pecado na nossa civilização uma das noções mais anacrônicas que nos legou a severa filosofia da Idade Média, herdeira do pessimismo bíblico.”

Notar-se-á que os franco-maçons estão prodigiosamente interessados no futuro da Igreja, mas é para devorá-la. Os católicos devem sabê-lo, não obstante as sereias que procuram fazê-los dormir, e todas estas forças destruidoras são estreitamente dependentes umas das outras. A maçonaria se define como a filosofia do liberalismo, cuja forma aguda é o socialismo. O conjunto se agrupa muito bem sob o termo empregado por Nosso Senhor: ”as Portas do inferno”.

1. R. P. Ulisses Floridi, MOSCOU ET LE VATICAN, Ed. France-Empire.

Carta Aberta aos Católicos Perplexos. Mons. Marcel Lefebvre.

_

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

LEFEBVRE: “Vaticano II, é o 1789 na Igreja”

Carta Aberta aos Católicos Perplexos:

“Vaticano II, é o 1789 na Igreja”



A aproximação que eu faço da crise da Igreja com a Revolução Francesa não é uma simples metáfora. Nós estamos na continuidade dos filósofos do século XVIII e do transtorno que suas idéias provocaram no mundo. Os que transmitiram este veneno à Igreja são os mesmos a confessá-lo. É o cardeal Suenens exclamando: ”o Vaticano II, é o 1789 na Igreja”, e acrescentava, entre outras declarações desprovidas de precauções oratórias: ”Não se compreende nada da Revolução Francesa ou russa se se ignora o antigo regime ao qual elas puseram fim... Igualmente em matéria eclesiástica, uma reação não se julga senão em função do estado de coisas que a precedem.”

O que precedeu e que ele considerava como devendo ser abolido, é o maravilhoso edifício hierárquico que tinha no seu cimo o papa, vigário de Jesus Cristo sobre a terra: ”O concílio Vaticano II marcou o fim duma época, por menos que se recue, ele marcou mesmo o fim de uma série de épocas, o fim de uma era”.

O padre Congar, um dos artífices das reformas não falava de outra maneira: “A Igreja fez, pacificamente, sua Revolução de outubro.” Plenamente consciente, ele notava: “A declaração sobre a liberdade religiosa diz materialmente o contrário do Syllabus”. Eu poderia citar um grande número de testemunhos deste gênero. Em 1976, o Pe. Gelineau, um dos chefes de fila do centro nacional de pastoral litúrgica, não deixava nenhuma ilusão àqueles que querem ver no novo ordo alguma coisa um pouco diferente do rito que era universalmente celebrado até então, mas nada de fundamentalmente chocante: ”A reforma decidida pelo segundo concílio do Vaticano deu o sinal do degelo... lanços inteiros de muralha desabam... Que não haja engano a respeito: traduzir não é dizer a mesma coisa com outras palavras. É mudar a forma... Se as formas mudam, o rito muda. Se se muda um elemento a totalidade significativa é modificada... É preciso dizer sem circunlóquios: o rito romano tal como nós o conhecemos, não existe mais. Foi destruído” ¹.

Os católicos liberais estabeleceram verdadeiramente um estado revolucionário. Eis o que líamos no livro de um deles, o senador do Doubs, M. Prelot². “Lutamos durante um século e meio para fazer prevalecer nossas opiniões no interior da Igreja e não tivemos êxito. Enfim chegou o Vaticano II e triunfamos. Doravante as teses e os princípios do catolicismo liberal foram definitiva e oficialmente aceitos pela Santa Igreja.”

É por meio da obliqüidade deste catolicismo liberal que a Revolução se introduziu, sob o pretexto de pacifismo, de fraternidade universal. Os erros e os falsos princípios do homem moderno penetraram na Igreja e contaminaram o clero, graças a papas liberais e ao favor do Vaticano II.

Uma vez que há um momento em que é preciso saber repor as coisas no devido lugar, eu lembrarei que não era refratário à reunião de um concílio ecumênico em 1962. Pelo contrário eu o saudei com uma grande esperança. Testemunho disto hoje é uma carta que eu endereçava em 1963 aos padres do Espírito Santo e que foi publicada numa de minhas obras precedentes³. Nela eu escrevia: “Digamos, sem hesitação, que certas reformas litúrgicas eram necessárias e que é desejável que o concílio continue neste caminho.” Eu reconhecia que se impunha uma renovação para pôr fim a uma certa esclerose que provinha do fato de se haver cavado um fosso entre a oração, acantonada nos limites dos lugares de culto, e a ação, a escola, a profissão, a cidade.

Nomeado pelo papa membro da comissão central preparatória, participei de seus trabalhos com assiduidade e entusiasmo, durante os anos que duraram. A comissão central estava encarregada de verificar e examinar todos os esquemas preparatórios que provinham de comissões especializadas. Eu estava bem colocado, pois, para saber o que tinha sido feito, o que devia ser examinado e o que devia ser apresentado à assembléia.

Este trabalho era conduzido com muita consciência e perfeição. Possuo setenta e dois esquemas preparatórios; neles a doutrina da Igreja é absolutamente ortodoxa, estão adaptados duma certa maneira à nossa época, mas com muita moderação e sabedoria.

Tudo estava preparado para a data anunciada e, a 11 de outubro de 1962, os padres tomavam lugar na nave da basílica de São Pedro em Roma. Mas houve um acontecimento que não tinha sido previsto pela Santa Sé: o concílio, desde os primeiros dias foi invadido pelas forças progressistas. Nós o experimentamos, sentimos, e quando digo “nós”, eu entendo a maioria dos padres do concílio naquele momento.

Tivemos a impressão de que se passava alguma coisa de anormal, e esta impressão se confirmou rapidamente: quinze dias após a sessão de abertura, não restava mais nenhum dos setenta e dois esquemas. Tudo havia sido recambiado, rejeitado, lançado ao cesto.

Isto se produziu da seguinte maneira: tinha sido previsto no regulamento do concílio que eram precisos dois terços dos votos para rejeitar um esquema preparatório. Ora quando se procedeu ao sufrágio, houve sessenta por cento contra os esquemas e quarenta por cento a seu favor. Por conseguinte, os opositores não obteriam os dois terços e normalmente o concílio deveria desenrolar-se a partir destes trabalhos preparatórios.

É então que se manifestou uma organização poderosa, muito poderosa, posta em ação por cardeais das margens do Reno, com todo um secretariado, exatamente no momento oportuno. Eles foram ter com o papa João XXIII dizendo-lhe: “É inadmissível, Santíssimo Padre, querem fazer-nos estudar esquemas que não tiveram a maioria” e obtiveram ganho de causa: o imenso trabalho realizado foi posto à parte, a assembléia se encontrou de mãos vazias, sem nenhuma preparação. Que presidente de conselho administrativo, por pequena que seja a sua sociedade, aceitaria ocupar o seu lugar sem ordem do dia, sem dossiê? Contudo foi assim que o concílio começou.

Depois, houve a questão das comissões conciliares que seria precisa nomear. Problema árduo: imaginai bispos chegando de todos os países do mundo e encontrando-se bruscamente juntos no recinto conciliar. Na maior parte, eles não se conheciam, conheciam três ou quatro colegas e alguns outros de nome entre os 2.400 que lá estavam. Como poderiam saber quais eram os padres aptos a fazer parte da comissão do sacerdócio, da liturgia, do direito canônico, etc.?

Muito legitimamente o cardeal Ottaviani fez passar para todos a lista dos membros das comissões pré-conciliares, das pessoas que, por conseguinte, haviam sido escolhidas pela Santa Sé e tinham já trabalhado sobre os assuntos a respeito dos quais se deveria debater. Isto podia ajudar a escolher, sem que houvesse nenhuma obrigação e era certamente desejável que alguns destes homens experimentados figurassem nas comissões.

Mas então se elevou um grito; não tenho necessidade de relembrar o nome do príncipe da Igreja que se levantou e proferiu o discurso seguinte: “É uma pressão intolerável que foi exercida sobre o concílio fornecendo nomes. É preciso deixar aos padres conciliares a sua liberdade. Ainda uma vez, a Cúria romana procura colocar os seus membros.”

Um pouco tomado de surpresa diante desta brutal intervenção, levantou-se a sessão e, à tarde, o secretário, Mons. Felici, anunciou: “O Santo Padre reconhece que é talvez melhor que sejam as conferências episcopais que se reúnam e forneçam listas.”

As conferências episcopais eram, nesta época, ainda embrionárias, elas formaram bem ou mal as listas que se lhes pediam sem aliás terem podido reunir-se como seria preciso, pois não lhes deram senão vinte e quatro horas.

Mas os que haviam urdido este pequeno golpe de Estado as tinham feito de antemão com indivíduos selecionados nos diversos países. Eles puderam adiantar-se às conferências e, de fato, obtiveram uma grande maioria.

O resultado foi que as comissões eram formadas de membros pertencentes, em dois terços, à fração progressista, tendo sido o terço restante nomeado pelo papa. Dos novos esquemas proveio logo uma orientação inteiramente diferente da dos primeiros. Gostaria de publicar um dia uns e outros para que se possa fazer a comparação e verificar qual era a doutrina da Igreja no dia que precedeu o concílio.

Quem possui alguma experiência das assembléias civis ou clericais compreenderá em que situação se encontravam os padres. Destes novos esquemas bem se podiam modificar algumas frases, algumas proposições a modo de emendas, não se podia mudar o essencial. As conseqüências serão graves. Um texto distorcido na sua origem jamais se corrige inteiramente, conserva a marca de seu redator e do pensamento que o inspira. O concílio, desde este momento, estava orientado.

Um terceiro elemento contribuiu para dirigi-lo no sentido liberal. Em lugar dos dez presidentes que João XXIII havia nomeado, o papa Paulo VI instituiu para as duas últimas sessões quatro moderadores sobre os quais o mínimo que se pode dizer é que eles não foram escolhidos dentre os cardeais mais moderados. Sua influência foi determinante sobre a massa dos padres conciliares.

Os liberais formavam uma minoria, mas uma minoria atuante, organizada, apoiada por uma plêiade de teólogos modernistas dentre os quais se encontravam todos os nomes que não cessaram de mandar e desmandar, como Leclerc, Murphy, Congar, Rahner, Küng, Schillebeeckx, Bisset, Cardonnel, Chenu... Que se pense na produção enorme dos impressos do IDOC, o centro de informação holandês subvencionado pelas conferências episcopais alemã e neerlandesa, que pressionava a todo o instante os padres a agirem no sentido esperado pela opinião internacional, criando uma sorte de psicose neste particular: não se devia decepcionar a expectativa do mundo que esperava ver a Igreja aderir a seus pontos de vista. Os instigadores deste movimento estavam em condições favoráveis de exigir instantaneamente a adaptação da Igreja ao homem moderno, ou seja, ao homem que quer libertar-se de tudo. Eles se prevaleciam de uma Igreja esclerosada, inadaptada, impotente, batiam a mão no peito de seus predecessores. Os católicos eram apresentados como tão culpados pelas divisões de outrora como os protestantes e os ortodoxos: deviam pedir perdão aos “irmãos separados” presentes em Roma onde estes tinham sido convidados em grande número a participar dos trabalhos.

A Igreja da Tradição era culpada de suas riquezas, de seu triunfalismo, os padres do concílio se sentiam culpados de estar fora do mundo, de não ser do mundo; eles já se envergonhavam de suas insígnias episcopais, em breve eles se envergonhariam mesmo de aparecer de batina.

Esta ambiência de liberação deveria apossar-se logo de todos os domínios, o espírito colegial iria ser o manto de Noé que se lança sobre a vergonha de exercer uma autoridade pessoal, tão contrária à mentalidade do homem do século XX, digamos: o homem liberal! A liberdade religiosa, o ecumenismo, a pesquisa teológica, a revisão do direito canônico atenuariam o triunfalismo duma Igreja que se proclamava a única arca da salvação. Como se diz que há “pobres envergonhados”, houve “bispos envergonhados”, os quais se influenciava, dando-lhes má consciência. É um processo que foi empregado em todas as revoluções.

Os efeitos estão inscritos em muitas passagens das atas do concílio. Que se releia a este respeito o começo do esquema “A Igreja no mundo deste tempo” sobre a mutação do mundo moderno, o movimento acelerado da história, as condições novas que afetam a vida religiosa, a predominância das ciências e das técnicas. Como não ver nestes textos a expressão do mais puro liberalismo?

Nós poderíamos ter tido um concílio esplêndido, tomando como mestre neste assunto o papa Pio XII. Não creio que haja um problema do mundo moderno, da atualidade, que ele não tenha resolvido com toda a sua ciência, toda a sua teologia e toda a sua santidade. Ele lhes deu uma solução quase definitiva, tendo verdadeiramente visto as coisas sob o ângulo da fé.

Mas não se podia vê-los assim, no momento em que se recusava a fazer um concílio dogmático. O Vaticano II é um concílio pastoral; João XXIII o disse, Paulo VI o repetiu. No correr das sessões, quisemos várias vezes fazer definir noções; foi-nos respondido: “mas não fazemos aqui dogmatismo, não fazemos filosofia, fazemos pastoral.” Que é a liberdade? Que é a dignidade humana? Que é a colegialidade? É-se reduzido a analisar indefinidamente os textos para saber o que é preciso entender por isto, e não se chega senão a aproximações, pois os termos são ambíguos. E isto não por negligência ou por acaso; o padre Schillebeckx o confessou: ”Nós introduzimos termos equívocos no concílio e sabemos o que daí tiraremos depois.” Estas pessoas sabiam o que faziam.

Todos os outros concílios que ocorreram no decurso dos séculos eram dogmáticos. Todos combateram erros. Ora, sabe Deus se havia erros a combater em nosso tempo! Um concílio dogmático teria sido dos mais necessários. Eu me lembro do cardeal Wyszinsky a dizer-nos: ”Mas fazei então um esquema sobre o comunismo; se há um erro que é grave hoje e que ameaça o mundo, é certamente ele. Se o papa Pio XI creu dever escrever uma encíclica sobre o comunismo, seria igualmente bem útil que nós, aqui reunidos em assembléia plenária, consagrássemos um esquema a esta questão.”

O comunismo, o erro mais monstruoso que jamais saiu do espírito de Satã, tem suas entradas oficiais no Vaticano, sua revolução mundial é singularmente facilitada pela não resistência oficial da Igreja e mesmo pelos apoios freqüentes que nela encontra, apesar das advertências desesperadas dos cardeais que sofreram as masmorras dos países do Leste. A recusa deste concílio pastoral em condená-lo solenemente basta sozinha para cobri-lo de vergonha diante de toda a história; quando se pensa nas dezenas de milhões de mártires, nos cristãos e nos dissidentes despersonalizados cientificamente nos hospitais psiquiátricos, utilizados como cobaias para as experiências. E o concílio pastoral se calou. Tínhamos obtido quatrocentas e cinqüenta assinaturas de bispos em favor duma declaração contra o comunismo. Elas foram esquecidas numa gaveta... Quando o relator da Gaudium et Spes respondeu às nossas perguntas, ele nos disse: “houve duas petições para solicitar uma condenação do comunismo — Duas? exclamamos nós. Há mais de quatrocentas — Ah, eu não estou a par disto.” Feitas as buscas, elas foram encontradas, mas demasiado tarde.

Eu vivi estes fatos. Fui eu que havia levado as assinaturas a Mons. Felici, secretário do concílio, em companhia de Dom Proença Singaud, arcebispo de Diamantina, e sou obrigado a dizer que aconteceram coisas, para falar a verdade, inadmissíveis. Não o faço para condenar o concílio e não ignoro que isto influencie na perplexidade de muitos católicos.

Pois enfim, pensam eles, o concílio é mesmo assim inspirado pelo Espírito Santo! Não necessariamente. Um concílio pastoral, não dogmático, é uma pregação, que por si não compromete a infalibilidade. Quando pedimos a Mons. Felici, no fim das sessões: “Não poderíeis dar-nos o que os teólogos chamam a nota do concílio?”, ele respondeu: “É preciso distinguir segundo os esquemas, os capítulos, os que já são objeto de definições dogmáticas no passado, é preciso fazer reservas.”

Portanto, o Vaticano II não é um concílio como os outros e é por isso que nós temos o direito de julgá-lo, com prudência e reserva. Eu aceito no concílio e nas reformas tudo o que está em plena concordância com a Tradição. A obra que fundei prova isto amplamente. Nossos seminários, em particular, correspondem perfeitamente aos desejos expressos pelo concílio e à Ratio fundamentalís da Sagrada Congregação para o ensino católico.

Mas é impossível pretender que somente as aplicações pós-conciliares são más. As rebeliões de clérigos, as contestações da autoridade pontifícia, todas as extravagâncias da liturgia e da nova teologia, o esvaziamento das igrejas, nada teriam então a ver com o concílio como se afirmou ainda bem recentemente? Ora essa! Tudo isso é fruto dele.

Eu compreendo, ao dizer isto, que não faço senão aumentar, leitores inquietos, vossa perplexidade. E não obstante, nesta balbúrdia brilhou uma luz própria a reduzir a nada os esforços do mundo para levar a cabo a destruição da Igreja de Cristo: O Santo Padre proclamou a 30 de junho de 1968 sua profissão de fé. É um ato que, do ponto de vista dogmático, é mais importante que todo o concílio.

Este Credo, redigido pelo sucessor de Pedro para afirmar a fé de Pedro, revestiu-se de uma solenidade absolutamente extraordinária. Quando ele se levantou para pronunciá-lo, os cardeais também se levantaram e toda a multidão quis imitá-los mas ele fez sentarem-se todos de novo; queria ser o único, na qualidade de Vigário de Cristo, a proclamar seu Credo, e o fez com as palavras mais solenes, em nome da Santíssima Trindade, diante dos santos anjos e de toda a Igreja. Por conseguinte ele praticou um ato que engaja a fé da Igreja.

Temos assim esta consolação e esta confiança de sentir que o Espírito Santo não nos abandonou. Pode-se dizer que a arca da fé, tomando seu ponto de apoio no concílio Vaticano I, reencontra um novo ponto de apoio na profissão de fé de Paulo VI.

1. DEMAIN LA LITURGIE, Ed. du Cerf.
2. LE CATHOLICISME LIBÉRAL, 1969.
3. UN ÉVÊQUE PARLE, Ed. Dominique Martin Morin.

Carta Aberta aos Católicos Perplexos. Mons. Marcel Lefebvre.

_

domingo, 21 de novembro de 2010

LEFEBVRE: A liberdade religiosa

Carta Aberta aos Católicos Perplexos:

A liberdade religiosa



No concílio, foi o esquema sobre a liberdade religiosa que suscitou as mais acirradas discussões. Isto se explica facilmente pela influência que exerciam os liberais e pelo interesse que tinham nesta questão os inimigos hereditários da Igreja. Passaram-se vinte anos e é possível ver agora que nossos receios não eram exagerados quando este texto foi promulgado, sob a forma duma declaração que reunia noções opostas à Tradição e ao ensinamento de todos os últimos papas. Tanto isto é verdadeiro que princípios falsos ou expressos dum modo ambíguo têm infalivelmente aplicações práticas reveladoras do erro cometido em adotá-los. Vou mostrar, por exemplo, como os ataques dirigidos contra o ensino católico na França pelo governo socialista são a conseqüência lógica da nova definição dada à liberdade religiosa pelo Vaticano II.

Façamos um pouco de teologia para compreender bem com que espírito esta declaração foi redigida. A argumentação inicial — e nova — fazia repousar a liberdade, para cada homem, de praticar interior e exteriormente a religião de sua escolha, sobre a “dignidade da pessoa humana”. Era, portanto, esta dignidade que fundamentava a liberdade, que lhe dava sua razão de ser. O homem podia aderir a qualquer erro em nome de sua dignidade.

Isto era pôr o carro à frente dos bois, apresentar as coisas pelo avesso. Pois aquele que adere ao erro decai de sua dignidade e, ademais, nada se pode estabelecer sobre o erro. De outra parte, o que fundamenta a liberdade não é a dignidade, mas a verdade: “A Verdade vos tornará livres”, disse Nosso Senhor.

Que se entende por dignidade? O homem a tira, segundo a doutrina católica, de sua perfeição, isto é do conhecimento da verdade e da aquisição do bem. O homem é digno de respeito segundo sua intenção de obedecer a Deus e não segundo seus erros. Estes geram indefectivelmente o pecado. Quando Eva, a primeira pecadora, sucumbiu, disse: ”A serpente me enganou.” O seu pecado e o de Adão acarretaram a degradação da dignidade humana da qual sofremos desde então.

Daí resulta que não se pode ligar a liberdade à degradação como à sua causa. Ao contrário, a adesão à verdade e o amor de Deus são os princípios da autêntica liberdade religiosa. Pode-se definir esta como a liberdade de render a Deus o culto que lhe é devido e de viver segundo seus mandamentos.

Se tendes seguido bem este raciocínio, a liberdade religiosa não se pode aplicar às religiões falsas, ela não sofre a partilha. Na sociedade civil, a Igreja proclama que o erro não tem direitos; o Estado somente deve reconhecer para os cidadãos o direito de praticarem a religião de Cristo.

Certamente, isto deve parecer como uma pretensão exorbitante àquele que não tem fé. O católico não contaminado pelo espírito do tempo julga-o normal e legítimo. Mas ai! Muitos, entre os cristãos, perderam de vista estas realidades. Repetiu-se tanto que era preciso respeitar as idéias dos outros, colocar-se em seu lugar, aceitar seus pontos de vista, divulgou-se tanto este contra-senso: “A cada um a sua verdade”; tanto se tomou o diálogo pela virtude cardeal por excelência, diálogo que leva obrigatoriamente a concessões: o cristão, por uma caridade mal entendida, acreditou que devia fazê-las mais que seus interlocutores, é freqüentemente o único a fazê-las. Não se imola mais, como os mártires, pela verdade; é a verdade que é por ele imolada.

De outra parte, a multiplicação dos estados leigos na Europa cristã habituou os espíritos ao laicismo e os conduziu a adaptações contrárias à doutrina da Igreja. A doutrina não se adapta, ela é fixa, definida uma vez por todas.

À comissão central preparatória do concílio, dois esquemas tinham sido apresentados, um pelo cardeal Bea sob o título “Da liberdade religiosa”, o outro pelo cardeal Ottaviani, sob o título ”Da tolerância religiosa”.

O primeiro se estendia por catorze páginas sem nenhuma referência ao magistério que o precedeu. O segundo compreendia sete páginas de texto e dezesseis páginas de referências, indo de Pio VI (1790) a João XXIII (1959).

O esquema do cardeal Bea continha, no meu parecer e no de um número não negligenciável de padres, afirmações em desacordo com a verdade da Igreja eterna. Lia-se nele, por exemplo: “É por isso que se deve louvar o fato de que, em nossos dias, a liberdade e a igualdade religiosas são proclamadas por numerosas nações e pela Organização Internacional dos Direitos do Homem.”

O Cardeal Ottaviani, por seu turno, expunha muito corretamente a questão: “Da mesma forma que o poder civil se julga com o direito de proteger os cidadãos contra as seduções do erro... ele pode mesmo regular e moderar as manifestações públicas dos outros cultos e defender os seus cidadãos contra a difusão das falsas doutrinas que, a juízo da Igreja, põem em perigo sua salvação eterna.”

Leão XIII dizia (Rerum novarum) que o bem comum temporal, fim da sociedade civil, não é puramente de ordem material, mas “principalmente um bem moral”. Os homens se organizaram em sociedade em vista do bem de todos; como se poderia excluir o bem supremo, que é a bem-aventurança celeste?

Há um outro aspecto das coisas que guia a Igreja quando ela nega o direito de cidadania às religiões errôneas: os propagadores de idéias falsas exercem naturalmente uma pressão sobre os mais fracos, os menos instruídos. Quem contestará que o dever do estado seja o de proteger os fracos? É seu principal dever, a razão de ser da organização em sociedade. Ele defende seus indivíduos dos inimigos, no exterior, protege-os na vida quotidiana contra as agressões de todo o gênero, contra os ladrões, os assassinos, os vigaristas e mesmo os Estados leigos asseguram uma proteção em matéria de costumes, proibindo, por exemplo, a afixação de jornais pornográficos, se bem que a situação se tenha degradado bastante na França neste últimos anos e que ela seja dos piores países como a Dinamarca. Mas enfim, por longo tempo os países de civilização cristã conservaram o senso de suas obrigações em relação aos mais vulneráveis e em particular às crianças! O povo permaneceu sensível a isso e pede ao Estado, por intermédio de suas associações familiares, que tome as medidas necessárias.

Proibir-se-ão emissões de rádio em que o vício é muito ostensivamente apresentado, embora ninguém esteja obrigado a escutá-las, mas porque as crianças dispõem freqüentemente de transistores e por conseguinte não estão mais protegidas. A doutrina da Igreja, que pode parecer excessivamente severa, é acessível ao raciocínio corrente e ao bom senso.

É de regra atualmente rejeitar toda forma de repressão e deplorar que ela se tenha exercido em certos momentos da história. SS. João Paulo II, cedendo a esta moda, condenou a Inquisição por ocasião de sua viagem à Espanha. Mas da Inquisição não se quer reter senão os exageros, esquecendo que a Igreja, criando o Santo Ofício, cujo título exato é “Sanctum Officium Inquisitonis”, preenchia sua função de defesa das almas e perseguia aqueles que tentavam falsificar a fé e punham assim em perigo uma população inteira no que concernia à sua eterna salvação. A Inquisição vinha em socorro dos próprios hereges, como se vai em socorro de pessoas que se lançam ao mar para acabar com a vida; acusar-se-iam os salvadores de exercer uma repressão intolerável para com esses infelizes? Para usar duma outra comparação, eu não penso que ocorra à mente de um católico, mesmo perplexo, censurar um governo por interdizer a droga, sob o pretexto de que ele exerce deste modo uma repressão sobre os drogados.

Pode-se compreender que um pai de família imponha a fé a seus filhos. Nos Atos dos Apóstolos, o centurião Cornélio, tocado pela graça, recebe o batismo “com todos os de sua casa”. Igualmente Clóvis se fez batizar com os seus soldados.

Os benefícios que traz a religião católica mostra o caráter ilusório de preconceitos dos clérigos pós-conciliares de abster-se de toda a pressão, e mesmo de toda a influência em relação aos “não crentes”. Na África, onde passei a maior parte de minha vida, as missões combateram os flagelos que são a poligamia, a homossexualidade, o desprezo com que é considerada a mulher. Esta, cuja situação degradante se sabe qual é na sociedade islâmica, se torna uma escrava ou um objeto, desde que a civilização cristã desaparece. Não se pode duvidar do direito da verdade se impor e substituir as religiões falsas. E não obstante a Igreja não preconiza na prática uma intransigência cega em relação ao culto público delas. Ela professou sempre que este podia ser tolerado pelos poderes públicos em vista a evitar um mal maior. É por isso que o cardeal Ottaviani preferia o termo “tolerância religiosa”.

Se nós nos colocamos no caso de um Estado católico, onde a religião de Cristo é reconhecida oficialmente, esta tolerância evita perturbações que seriam prejudiciais ao conjunto. Numa sociedade laica que professa a neutralidade, a lei da igreja, seguramente, não será observada. Então, direis, de que serve mantê-la?

É que em primeiro lugar não se trata duma lei humana que se pode ab-rogar ou modificar. Depois o próprio abandono do princípio tem graves conseqüências; nós já temos registrado várias.

Os acordos entre o Vaticano e certas nações que atribuíam muito justamente um estatuto preferencial à religião católica foram revistos. É o caso da Espanha e há pouco tempo o da Itália, onde o catecismo não é mais obrigatório nas escolas. Até onde se irá? Os novos legisladores da natureza humana pensaram que o papa é também um chefe de Estado? Seria ele levado a laicizar o Vaticano, a autorizar a construção ali dum templo ou duma mesquita?

É também o desaparecimento dos Estados católicos. No mundo atual, há estados protestantes, um estado anglicano, estados muçulmanos, estados marxistas e não se quer mais que haja estados católicos! Os católicos não teriam mais o dever de trabalhar em estabelecê-los, mas o dever de manter o indiferentismo religioso do Estado!

Pio IX chamou a isso “delírio” e “uma liberdade de perdição”. Leão XIII condenou o indiferentismo do Estado em matéria religiosa. O que era bom no seu tempo então não é mais verdadeiro?

Não se pode afirmar a liberdade de todas as comunidades religiosas na sociedade humana sem conceder igualmente a liberdade moral a estas comunidades. O Islão admite a poligamia, os protestantes têm, segundo as Igrejas, posições mais ou menos laxistas sobre a indissolubilidade dos vínculos conjugais e sobre a contracepção... O critério do bem e do mal desaparece. Na Europa, o aborto não é proibido pela lei a não ser na Irlanda católica. Não é possível que a Igreja de Deus acoberte de certa maneira estes excessos afirmando a liberdade religiosa.

Outra conseqüência: as escolas livres. O Estado não pode mais compreender que existam escolas católicas e que elas se atribuam a parte do leão no setor do ensino particular. Ele as coloca no mesmo plano, como se viu recentemente, que as escolas fundadas pelas seitas e diz: ”Se nós vos permitirmos existir, devemos fazer o mesmo para Moon e por qualquer outra comunidade deste gênero, que têm uma reputação tão má.” E a Igreja não possui mais argumentos! O governo socialista tirou muito bem partido da declaração sobre a liberdade religiosa. Conforme o mesmo princípio imaginou-se fazer uma fusão das escolas católicas com as outras, contanto que estas observem o direito natural! Ou então as abriram às crianças de qualquer religião, lisonjeando-se algumas de ter mais crianças muçulmanas que cristãs.

É assim que a Igreja, aceitando um estatuto de direito comum nas sociedades civis, corre o risco de tornar-se uma seita entre as outras. Ela se coloca na conjuntura de desaparecer, pois é evidente que a verdade não pode ceder seus direitos ao erro sem se renegar.

As escolas livres adotaram na França para se manifestarem nas ruas um hino muito belo mas cujas palavras traem o contágio deste espírito detestável: “Liberdade, tu és a única verdade.” A liberdade, considerada como um bem absoluto, é quimérica. Aplicada à ordem religiosa, conduz ao relativismo doutrinal e à indiferença prática. Os católicos perplexos devem agarrar-se à palavra de Cristo que eu citava: “É a verdade que os libertará”.

Carta Aberta aos Católicos Perplexos. Mons. Marcel Lefebvre.

_

LEFEBVRE: O ecumenismo

Carta Aberta aos Católicos Perplexos:

O ecumenismo



Existe, nesta confusão de idéias em que os cristãos parecem comprazer-se, uma tendência particularmente prejudicial à fé e tanto mais perigosa quanto ela se apresenta sob as aparências de caridade. A palavra, que apareceu em 1927 por ocasião dum congresso realizado em Lausanne, deveria por si própria prevenir os católicos se eles se referiam à definição que lhe dão todos os dicionários: ”Ecumenismo: movimento favorável à reunião de todas as Igrejas cristãs numa só.” Não se podem misturar princípios contraditórios, é evidente, não se podem reunir de maneira a fazer deles uma só coisa, a verdade e o erro. A não ser que se adotem os erros e se rejeite toda ou parte da verdade. O ecumenismo se condena por si mesmo.

O termo conheceu uma tal voga desde o último concílio, que penetrou a linguagem profana. Fala-se de ecumenismo universitário, de ecumenismo informático, e lá sei mais ainda, para exprimir um gosto ou uma idéia preconcebida de diversidade, de ecletismo.

Na linguagem religiosa, o ecumenismo se estendeu ultimamente às religiões não cristãs, traduzindo-se bem depressa em atos. Um jornal do Oeste nos indica por um exemplo preciso a maneira pela qual se processa a evolução: numa pequena paróquia na região de Cherburgo, a população católica se preocupa com trabalhadores muçulmanos que acabam de chegar para uma construção. É uma atitude caridosa pela qual não se pode deixar de felicitá-los. Numa segunda fase, vemos os muçulmanos pedir um local para festejar o Ramadã e os cristãos oferecer-lhes o sub-solo de sua igreja. Depois começa a funcionar neste lugar uma escola corâmica. No fim de dois anos, os cristãos convidam os muçulmanos a festejar o Natal com eles, “em torno de uma prece comum preparada com extratos dos capítulos do Corão e com versículos do Evangelho. A caridade mal entendida levou estes cristãos a pactuarem com o erro.

Em Lille, os dominicanos ofereceram uma capela aos muçulmanos para ser transformada em mesquita. Em Versalhes, pediu-se auxílio financeiro nas igrejas para “a aquisição dum lugar de culto para os muçulmanos”. Duas outras capelas foram-lhes cedidas em Roubaix e em Marselha, assim como uma igreja em Argentenil. Os católicos se fazem os apóstolos do pior inimigo da Igreja de Cristo, que é o Islão e oferecem seus óbulos a Maomé! Há, parece, mais de 400 mesquitas na França e em muitos casos são os católicos que deram o dinheiro para sua construção.

Todas as religiões têm hoje direito de cidadania na Igreja. Um cardeal francês celebrava um dia a missa em presença de monges tibetanos que tinham sido colocados na primeira fila vestidos com seus hábitos de cerimônia, e se inclinava diante deles enquanto que um animador anunciava: “Os bonzos participarão conosco da celebração eucarística.” Numa igreja de Rennes foi celebrado o culto de Buda; na Itália, vinte monges foram iniciados solenemente no Zen por um budista.

Não acabaria de citar os exemplos de sincretismo aos quais assistimos. Vêem-se desenvolver associações, nascer movimentos que encontram sempre para presidir-lhes um eclesiástico em pesquisa, como aquela que quer chegar “à fusão de todas as espiritualidades no amor”. Ou projetos pasmosos como a transformação de Nossa Senhora da Guarda em lugar de culto monoteísta para os cristãos, os muçulmanos e os judeus, projeto felizmente contrariado por grupos de leigos.

O ecumenismo, na sua acepção estrita, reservada então aos cristãos, faz organizar celebrações eucarísticas comuns com os protestantes, assim como sucedeu em particular em Estrasburgo. Ou então são os anglicanos que são convidados na catedral de Chartres para celebrar a “Ceia eucarística”. A única celebração que não se admite nem em Chartres, nem em Estrasburgo, nem em Rennes, nem em Marselha é a da santa missa segundo o rito codificado por São Pio V.

Que conclusão pode tirar de tudo isso o católico que vê as autoridades eclesiásticas dar cobertura a cerimônias tão escandalosas? Que todas as religiões se equivalem, que ele poderia muito bem obter sua salvação com os budistas ou os protestantes. Ele corre o risco de perder a fé na santa Igreja. É bem o que se lhe sugere; quer-se submeter a Igreja ao direito comum, quer-se pô-la no mesmo plano que as outras religiões, recusa-se a dizer, mesmo entre os sacerdotes, os seminaristas e os professores de seminário, que a Igreja Católica é a única Igreja, que ela possui a verdade, que somente ela é capaz de dar a salvação aos homens por Jesus Cristo. Agora se diz abertamente: “A Igreja não é senão um fermento espiritual na sociedade, mas em pé de igualdade com as outras religiões, um pouco mais que as outras, talvez...” Aceita-se em rigor, e nem sempre, em conferir-lhe uma ligeira superioridade.

Neste caso, a Igreja seria apenas útil, não mais necessária. Ela constituiria um dos meios de alcançar a salvação.

É preciso dizê-lo claramente, uma tal concepção se opõe dum modo radical ao próprio dogma da Igreja católica. A Igreja é a única arca da salvação, nós não devemos ter medo de afirmá-lo. Vós freqüentemente ouvistes dizer. “Fora da Igreja não há salvação” e isto choca as mentalidades contemporâneas. É fácil fazer crer que este princípio não está mais em vigor, que se renunciou a ele. Parece ser de uma severidade excessiva.

Entretanto, nada mudou, nada pode ser mudado neste domínio. Nosso Senhor não fundou várias igrejas, mas só uma. Não há senão uma só cruz pela qual nos possamos salvar e esta cruz foi dada à igreja católica; ela não foi dada às outras. À sua Igreja, que é sua esposa mística, Cristo deu todas as suas graças. Nenhuma graça será distribuída ao mundo, na história da humanidade, sem passar por ela.

Isto quer dizer que nenhum protestante, nenhum muçulmano, nenhum budista, nenhum animista será salvo? Não; e constitui um segundo erro pensá-lo.

Aqueles que reclamam da intolerância ouvindo a fórmula de São Cipriano “Fora da Igreja não há salvação” rejeitam o Credo: “Reconheço um só batismo para a remissão dos pecados” e estão insuficientemente instruídos a respeito do batismo. Há três maneiras de recebê-lo: o batismo da água, o batismo do sangue (é o dos mártires que confessam sua fé sendo ainda catecúmenos) e o batismo de desejo.

O batismo de desejo pode ser explícito. Bastantes vezes, na África, ouvíamos um de nossos catecúmenos dizer: “Meu padre, batizai-me logo, pois se eu morrer antes de vossa próxima passagem, eu irei para o inferno.”

Nós lhe respondíamos: “Não; se não tendes pecado mortal na consciência e se tendes o desejo do batismo, já tendes a sua graça em vós.”

Tal é a doutrina da Igreja, que reconhece também o batismo de desejo implícito. Ele consiste no ato de fazer a vontade de Deus. Deus conhece todas as almas e sabe, por conseqüência que nos meios protestantes, muçulmanos, budistas e em toda a humanidade, existem almas de boa vontade. Elas recebem a graça do batismo sem o saberem, mas duma maneira efetiva. Por aí mesmo elas se unem à Igreja.

Mas o erro consiste em pensar que elas se salvam por meio de sua religião. Elas se salvam em sua religião, mas não por meio dela. Não há salvação por meio do Islão ou pelo xintoísmo. Não há Igreja budista no céu, nem Igreja protestante. São coisas que podem parecer duras de ouvir, mas esta é a verdade. Não fui eu quem fundou a Igreja, foi Nosso Senhor, o Filho de Deus. Nós, sacerdotes, somos obrigados a dizer a verdade.

Mas a preço de quantas dificuldades os homens dos países não penetrados pelo cristianismo chegam a receber o batismo de desejo! O erro é um obstáculo ao Espírito Santo. Isto explica porque a Igreja tenha sempre enviado missionários a todos os países do mundo, que inúmeros dentre eles tenham conhecido aí o martírio. Se se pode encontrar a salvação em qualquer religião, para que atravessar os mares, ir submeter-se, em climas insalubres, a uma vida penosa, à doença, a uma morte precoce? Desde o martírio de Santo Estevão, o primeiro a dar sua vida por Cristo e o qual por esta razão se festeja no dia seguinte ao do Natal, 26 de dezembro, os Apóstolos puseram-se a caminho para ir difundir a boa nova na bacia do Mediterrâneo; te-lo-iam feito se se soubesse que haveria salvação também no culto de Cibele ou pelos mistérios de Eleusis? Por que Nosso Senhor lhes teria dito: “Ide evangelizar às nações”?

E assombroso que hoje em dia alguns pretendam deixar cada um seguir o seu caminho para Deus segundo as crenças em vigor no seu “meio cultural”. A um padre que queria converter crianças muçulmanas, o seu bispo disse: “Não, fazei delas boas muçulmanas, será muito melhor do que torná-las católicas!” Foi-me certificado que os monges de Taizé tinham pedido, antes do concílio, para abjurar seus erros e tornar-se católicos. As autoridades disseram-lhes então: “Não, esperai. Depois do concílio vós sereis a ponte entre os católicos e os protestantes.”

Os que deram esta resposta assumiram uma grave responsabilidade diante de Deus, pois a graça vem num momento, talvez não venha sempre. Atualmente os caros padres de Taizé, que têm sem dúvida boas intenções, estão ainda fora da Igreja e semeiam a confusão no espírito dos jovens que os vão ver.

Falei das conversões que cessaram brutalmente em países como os Estados Unidos, onde se contavam cerca de 170.000 por ano, a Grã Bretanha, a Holanda... O espírito missionário se extingue porque se deu uma falsa definição da Igreja e por causa da declaração conciliar sobre a liberdade religiosa, da qual devo agora falar.
Carta Aberta aos Católicos Perplexos. Mons. Marcel Lefebvre.

_

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Martirio silencioso de Bagdá

Carta de duas Pequenas Irmãs de Bagdá

Eu encontrei no Blog do Marco Tosatti esta carta impressionante de Bagdá escrita por duas Pequenas Irmãs (ordem religiosa), testemunhas oculares do efeito do massacre islâmico perpetrado contra a comunidade sírio-católica (aqui a notícia de 31 de outubro pela agência AsiaNews). Parece-nos mesmo ler os documentos do segundo ou terceiro século da era cristã, que testemunham para nós o martírio dos primeiros cristãos. 

Essa carta, na sua clareza terrível, não pode não nos comover e deveria incentivar o Santo Padre, uma vez verificados os fatos, a declarar, logo, mártires da Fé e santos da Igreja católica estes irmãos siríacos que mesclaram seu sangue com aquele do sacrifício redentor que estavam celebrando.
Leiam e rezem:

Caros irmãos e irmãs em qualquer lugar,

Queremos começar esta carta agradecendo a todos por todas as mensagens de comunhão e de solidariedade que temos recebido. Há muitos desastres naturais neste momento no mundo que fazem muito mais vítimas do que aqui, mas a causa não é o ódio, e isso faz toda a diferença. Nossa igreja está habituada a golpes duros, mas é a primeira vez que recebeu um tão violento e selvagem, e, mais importante, é a primeira vez que isso acontece no interior de uma igreja, geralmente eles explodem bombas nos pátios das igrejas. A igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro é uma das três Igrejas sírio-católicas em Bagdá, a maioria daqueles que a frequentam são cristãos de rito siríaco original de Mossul ou de três aldeias siríaco-cristãs próximas de Mossul: Qaragosh de onde se originam as nossas irmãs Virgin Hanan e Rajah Nour; Bartolla e Bashiqa de onde vem Mariam Farah. Graças a Deus, nenhuma delas teve familiares mortos ou feridos gravemente.

A igreja foi tomada de assalto domingo dia 31 de outubro, após o meio dia, logo após a homilia do Padre Tha'er que celebrava a Missa. Padre Wasim, quem é filho de uma prima da irmã Lamia, confessava no fundo da igreja; padre Rafael estava no coro. Os agressores eram pessoas muito jovens (14-15 anos), sem máscaras, armados com metralhadoras e granadas e usando um cinturão de explosivos. Eles imediatamente abriram fogo, matando Padre Wasim que estava tentando fechar a porta da igreja, em seguida começaram a atirar a esmo, depois de ordenar as pessoas para se jogarem no chão, não se mover e não gritar. Alguns foram capazes de enviar mensagens com o telefone, mas depois os assaltantes estavam atirando em todos que viam usando o celular. Padre Tha'er, que continuava a celebrar, foi morto no altar, em suas vestimentas, seu irmão e sua mãe também foram mortos. Após aconteceu o massacre, não podemos contar tudo o que as pessoas nos disseram, até mesmo as crianças que choravam foram mortas. Algumas pessoas se refugiaram na sacristia e colocaram barricadas na porta, mas os atacantes subiram no telhado da igreja e lançaram granadas pelas janelas da sacristia, que estão no alto.

Tudo isso sugere que foi um ataque bem elaborado, e que tiveram ajuda de fora; como eles podiam forçar a barreira da polícia (na estrada que vai à igreja) e conhecer o caminho para chegar ao terraço, etc.? Eles metralharam também o equipamento de ar condicionado para que o gás, saindo, sufocasse aqueles que estavam perto. Eles metralharam a cruz, rindo e dizendo às pessoas: "Diga a Ele para salvar vocês". Então lançaram o apelo à oração: "Allau akbar, la ilah illa allahu…", e, finalmente, quando o exército estava prestes a entrar, se explodiram. O exército e a ajuda demoraram cerca de duas horas para chegar, assim como os americanos que sobrevoam de helicóptero, mas o exército não é treinado para lidar com estas situações, e não sabiam o que fazer. Porque levaram tanto tempo para chegar? Tudo estava acabado por volta das 10h30 - 11h da noite, durou muito e achamos que muitas pessoas morreram devido à perda de sangue e ferimentos. Após, os feridos foram levados a diferentes hospitais e os mortos ao necrotério.

As pessoas começaram a chegar para saber o que tinha acontecido e obter notícias de parentes, mas o acesso à igreja era proibido e as pessoas começaram a andar de hospital em hospital em busca de seus entes queridos. Temos visto pessoas que foram à procura de alguém até 4 horas da manhã para finalmente encontrar no necrotério. No dia seguinte, houve as exéquias na igreja caldeia próxima, a igreja estava cheia, era impressionante, havia quinze caixões alinhados no coro, as outras vítimas foram enterradas em seus povoados ou separadamente, conforme o caso. Havia representantes de todas as comunidades cristãs, do Governo, o nosso Patriarca falou, assim como o porta-voz do governo e um religioso, chefe de um partido islâmico, Moammar el Hakim. A oração foi realizada com grande dignidade e sem manifestações ruidosas. Padre Saad, responsável por essa igreja, ajudou as pessoas a rezar conforme chegavam, antes da cerimônia começar. Os dois jovens sacerdotes foram enterrados em sua igreja devastada. Há um cemitério sob a igreja, e antes de enterrá-los passaram os caixões pela igreja para que pudéssemos dizer-lhes adeus.

No início não sabíamos nada das vítimas, não conhecíamos ninguém diretamente, exceto Padre Raphael, um padre idoso; nós fomos ao hospital para visitá-lo e visitar os feridos que estavam lá. Eram as famílias que nos acompanharam de sala em sala, bem como as pessoas dos hospital que nos apontavam os feridos. Por acaso eram todos mulheres ou meninas, com ferimentos a bala, não era como uma explosão em que pode acontecer de perder um braço ou uma perna. Ficamos do lado delas, sem falar muito, eram elas que falavam ou suas famílias, cada uma revivia sua historia e a contava. Desde o começo do ataque que houve no domingo, na missa, membros de uma mesma família foram feridos ou mortos, alguns para proteger seus filhos. Impressionou-nos muito a calma e a fé deles enquanto contavam os eventos, nós sentíamos que eram pessoas que tinham vindo de outro mundo e que naquele momento lá (do ataque) nada importava mais do que o encontro bem próximo com o Senhor, não pensavam em nada mais, apenas rezavam, e isso durou cinco horas.

Na sexta-feira após o almoço, os jovens de muitas paróquias vieram para ajudar a varrer os restos e limpar um pouco, e, no domingo seguinte, 7 de novembro, todos os sacerdotes siríacos e caldeus de Bagdá que estavam disponíveis celebraram a Missa na igreja vazia e devastada sobre um altar improvisado; havia poucas pessoas, porque esta Missa não fora anunciada. Nós não fomos porque não sabíamos. Foi muito comovente. Houve um assombro de fé e de determinação, especialmente nos sacerdotes que restam em Bagdá e que dizem: querem nos caçar e exterminar, mas nós estamos aqui e aqui permaneceremos, depois de 14 séculos vocês não pode acabar com a gente. A história dos cristãos no Iraque é uma longa história de perseguição, de martírios, de cristãos expulsos e mandados embora. Pense na frase do Salmo 69: "Mais numerosos que os cabelos da cabeça são aqueles que me odeiam sem causa" e nós pensamos especialmente de Jesus, odiado sem razão alguma, enquanto passava e fazia o bem. Finalizamos esta carta com o grito de uma criança de três anos que viu matarem o pai e gritava: "chega, chega" antes de ser morto também. Sim, verdadeiramente com o nosso povo clamamos: basta.

Vossa irmãzinhas de Bagdá, Alice e Martina.

Fonte: Cantuale Antonianum
Tradução: Giulia d'Amore di Ugento

+

ABORTO - O GRITO SILENCIOSO

CONHEÇA O NOVO SITE DA EDITORA