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segunda-feira, 26 de novembro de 2012

RATZINGER: O Concílio e a dignidade do sagrado

Interessante texto de 1988, no qual o então Cardeal Ratzinger expressa seu parece acerca da "questão Lefebvre". Como todos sabem, era o Cardeal Ratzinger o principal interlocutor de Mons. Lefebvre; representando João II, sim, mas, em última análise, eram as palavras dele que o Arcebipo ouvia. O que dá o que pensar, agora que ele se tornou Bento XVI. 
É uma leitura interessante também para compreender a situação atual da FSSPX. 


O Concílio e a dignidade do sagrado

por Joseph Ratzinger

Nos últimos meses, trabalhamos muito no caso Lefebvre, com a intenção sincera de criar para seu movimento um espaço dentro da Igreja, espaço que fosse suficiente para que este pudesse viver. A Santa Sé tem sido criticada por isso. Diz-se que não defendeu o Concílio Vaticano II com energia suficiente; que, enquanto tem tratado os movimentos progressistas com grande severidade, tem mostrado uma simpatia exagerada com a revolta tradicionalista. O desenrolar dos eventos é suficiente para refutar essas afirmações. A acusação de rigorismo por parte do Vaticano diante dos desvios dos progressistas, apresentado de uma maneira mítica, pareceu ser apenas um discurso vazio. Até agora, de fato, foram publicados apenas alguns avisos; em nenhum caso houve penas canônicas rigorosas em sentido estrito. E o fato de que, quando as coisas ficaram ruins, Lefebvre tenha se retratado de um acordo que já havia sido assinado, indica que a Santa Sé, se fez concessões realmente generosas, não lhe garantiu aquela licença completa que ele desejava.

Lefebvre viu que, na parte fundamental do acordo, era obrigado a aceitar o Vaticano II e as afirmações do Magistério pós-conciliar, segundo a autoridade própria de cada documento. Há uma contradição evidentíssima no fato de que é precisamente quem não perdeu ocasião de dar a conhecer ao mundo a própria desobediência ao Papa e às declarações magisteriais dos últimos 20 anos que pensa ter o direito de julgar que esta atitude é branda demais e que deseja que se tivesse insistido em uma obediência absoluta ao Vaticano II. O mesmo vale para aqueles que sustentam que o Vaticano concedeu o direito de discordar a Lefebvre, um direito que tem sido obstinadamente recusado aos defensores de uma tendência progressiva.

Na verdade, o único ponto que é afirmado no acordo, de acordo com a Lumen Gentium 25, é o fato límpido de que nem todos os documentos do Concílio têm a mesma autoridade. Para o resto, ficou indicado explicitamente no texto que foi assinado que as polêmicas públicas devem ser evitadas e que foi solicitada uma atitude de respeito positivo paras as decisões oficiais e as declarações. Foi concedido, ainda, que a Fraternidade São Pio X possa apresentar à Santa Sé – a qual se reserva o exclusivo direito de decisão – as suas dificuldades particulares no que diz respeito às interpretações das reformas jurídicas e litúrgicas. Tudo isso mostra que, neste diálogo difícil, Roma uniu claramente a generosidade em tudo que é negociável à firmeza naquilo que é necessário.

A explicação que Mons. Lefebvre deu para a retração de seu acordo é indicativa. Ele declarou que, ao final, entendeu que o acordo que assinara mirava apenas integrar a sua fundação “à Igreja Conciliar”. A Igreja Católica em união com o Papa é, em sua opinião, “a Igreja Conciliar”, que rompeu com seu passado. Parece, efetivamente, que não consiga mais ver que aqui se trata da Igreja Católica na totalidade de sua Tradição, e que o Concílio Vaticano II pertence a esta. Sem dúvida alguma, o problema que Lefebvre colocou não terminou com a ruptura de 30 de junho. Seria fácil demais refugiar-se em uma espécie de triunfalismo e pensar que esta dificuldade tenha deixado de existir a partir do momento em que o movimento liderado por Lefebvre se separou com uma ruptura formal com a Igreja. Um cristão não pode jamais, ou não deveria, comprazer-se de uma ruptura. Mesmo que seja absolutamente certo de que a culpa não pode ser atribuída à Santa Sé, é um dever para nós nos examinarmos, tanto sobre quais seriam os erros que temos cometido, quanto sobre quais erros ainda agora estamos cometendo. Os critérios pelos quais julgamos o passado no decreto do Vaticano II sobre o ecumenismo devem ser usados – como é lógico – para julgar também o presente.

Uma das descobertas fundamentais da teologia do ecumenismo é que os cismas podem ocorrer apenas quando determinadas verdades e determinados valores da Fé Cristã não são mais vividos e amados dentro da Igreja. A verdade que é marginalizada torna-se autônoma, permanece separada da totalidade da estrutura eclesiástica, e é então que um novo movimento se forma ao seu redor. Devemos refletir sobre o fato de que numerosos Católicos, distantes do estreito círculo da Fraternidade de Lefebvre, vejam este homem como um guia, em um certo sentido, ou pelo menos como um aliado útil. Não se pode atribuir tudo a motivos políticos, à nostalgia, ou a fatores culturais de importância secundária. Essas causas não são capazes de explicar a atração que é sentida também pelos jovens, e particularmente pelos jovens, que vêm de muitas nações realmente diferentes e que vivem em realidades políticas e culturais completamente diferentes. Certamente, mostram aquilo que é, de todos os pontos de vista, uma perspectiva limitada e parcial; mas não há dúvida de que um fenômeno dessa magnitude seria inconcebível se não houvesse agindo, aqui, alguns valores, os quais, geralmente, não encontram suficientes possibilidades de realizar-se dentro da Igreja de hoje. Por todas estas razões, devemos considerar toda a questão, sobretudo como a ocasião para um exame de consciência. Deveríamos não ter medo de fazermos a nós mesmos perguntas fundamentais acerca dos defeitos da vida pastoral da Igreja que emergem a partir desses fatos. Assim, deveríamos ser capazes de oferecer um lugar dentro da Igreja àqueles que estão procurando e pedindo, e de conseguir eliminar qualquer razão para um cisma. Podemos esvaziar o cisma de suas motivações renovando as realidades internas da Igreja.

Há três pontos, eu penso, que é importante considerar. Se há muitas razões que poderiam levar tão grande número de pessoas a procurar refúgio na liturgia tradicional, o principal é que lá encontram conservada a dignidade do Sagrado. Depois do Concílio, houve muitos padres que elevaram deliberadamente a “dessacralização” a um nível de um programa, sob a alegação de que o Novo Testamento aboliu o culto do templo: o véu do templo que se rasgou de cima para baixo no momento da morte de Cristo na cruz é, para alguns, o sinal do fim do sagrado. A morte de Jesus fora das muralhas da cidade, isto é, do mundo público, é agora a verdadeira religião. A religião, para ser vivida plenamente, deve ser vivida na não-sacralidade da vida cotidiana, no amor que é vivida. Inspirados por tal raciocínio, eles puseram de lado as vestes sagradas; despiram as igrejas quanto foi possível daquele esplendor que leva a elevar a mente ao sagrado; e reduziram a liturgia à linguagem e aos gestos de uma vida ordinária, através de saudações, de sinais comuns de amizade e coisas assim. Não há dúvida de que, com essas teorias e práticas, desprezaram por completo a autêntica conexão entre o Antigo e o Novo Testamento: se esqueceram de que este mundo não é o reino de Deus, e que “o Santo de Deus” (João 6,69) continua a existir em contradição a este mundo; que precisamos de purificação antes de nos aproximarmos dEle; que o profano, mesmo após a morte e Ressurreição de Jesus, não conseguiu se transformar no “santo”.

O Ressuscitado apareceu, mas àqueles cujo coração estava bem disposto em direção a Ele, o Santo; não se manifestou a todos. É, assim, um novo espaço foi aberto para a religião à qual todos nós agora devemos nos submeter; esta religião que consiste em nos aproximarmos da família do Ressuscitado, a cujos pés as mulheres se prostravam e O adoravam. Não pretendo, agora, desenvolver ulteriormente este aspecto; limito-me sinteticamente a esta conclusão: devemos recuperar a dimensão do sagrado na liturgia. A liturgia não é uma festa; não uma reunião com o objetivo de passar momentos serenos. Não importa absolutamente nada que o pároco queime os miolos para idealizar sabe-se lá que ideias ou novidades ricas de imaginação. A liturgia é aquilo que faz com que o Deus três vezes Santo esteja presente entre nós; é a sarça ardente; é a aliança de Deus com o homem em Jesus Cristo, que morreu e voltou novamente à vida.

A grandeza da liturgia não reside no fato de que ela oferece um entretenimento interessante, mas no tornar tangível o Totalmente Outro, que nós [sozinhos] não são capazes de evocar. Vem porque quer. Em outras palavras, o essencial na liturgia é o mistério, que se realiza na ritualidade comum da Igreja; todo o resto o diminui. Alguns procuram experimentá-lo segundo uma moda vivaz, e estão enganados: quando o mistério é transformado na distração, quando o ator principal na liturgia não é o Deus Vivo, mas o padre ou o animador litúrgico.

Além das questões litúrgicas, os pontos centrais do conflito atualmente dizem respeito à posição tomada por Lefebvre contra o decreto que trata da liberdade religiosa e ao chamado “espírito de Assis”. É aqui que Lefebvre estabelece as linhas de demarcação entre a sua posição e à da Igreja Católica. Há pouco a dizer sobre isso: o que ele está dizendo sobre esses pontos é inaceitável. Aqui não queremos considerar os seus erros, mas desejamos nos perguntar onde está a falta de clareza em nós mesmos. Para Lefebvre, o que está em jogo é a batalha contra o liberalismo ideológico, contra a relativização da verdade. Não estamos obviamente de acordo com ele sobre o fato de que – entendido segundo as intenções do Papa – o texto do Concílio ou a oração de Assis induzam ao relativismo.

É uma operação necessária defender o Concílio Vaticano II em relação a Mons. Lefebvre, como válido e como vinculante para a Igreja. Certamente, há uma mentalidade tacanha que leva em conta apenas o Vaticano II e que provocou esta oposição. Há muitas apresentações dele que dão a impressão de que, do Vaticano II em diante, tudo foi mudado, e que aquilo que o precedeu não tem valor ou, na melhor das hipóteses, só tem valor à luz do Concílio Vaticano II. O Concílio Vaticano II não foi tratado como uma parte da inteira Tradição viva da Igreja, mas como o fim da Tradição, um novo começo do zero. A verdade é que este particular Concílio não definiu dogma algum e deliberadamente escolheu permanecer em um nível modesto, como um concílio meramente pastoral; mas muitos o tratam como se tivesse se transformado em uma espécie de superdogma que tira a importância de todos o resto. Esta ideia é fortalecida por coisas que estão acontecendo agora.

O que antes era considerado o mais santo – a forma como a liturgia foi transmitida – aparece, repentinamente, como a mais proibida de todas as coisas, a única coisa que pode ser impunemente proibida. Não suportam que sejam criticadas as decisões que foram tomadas pelo Concílio; por outro lado, se alguns questionam as regras antigas, ou até mesmo as verdades principais da nossa Fé – por exemplo, a virgindade corporal de Maria, a Ressurreição corporal de Jesus, a imortalidade da alma etc. – ninguém reclama, ou apenas o faz com a maior moderação. Eu mesmo, quando era professor, vi como o próprio Bispo que, antes do Concílio, havia despedido um professor que era realmente irrepreensível, por uma certa crueza no falar, não foi capaz, depois do Concílio, de afastar um professor que negava abertamente verdades da Fé certas e fundamentais. Isto tudo leva muitas pessoas a se perguntar se a Igreja de hoje é realmente a mesma de ontem, ou se a mudaram por qualquer outra sem contar às pessoas. A única maneira que o Vaticano II pode ser feito plausível é a de apresentá-lo como ele é: uma parte ininterrupta da única Tradição da Igreja e da sua Fé.

Não há a menor dúvida de que, nos movimentos espirituais da era pós-conciliar, muitas vezes houve um esquecimento, ou até mesmo uma supressão da verdade: aqui nos confrontamos com o problema hoje crucial para a teologia e para o trabalho pastoral. A verdade é tida como sendo uma pretensão que é demasiado elevada, um triunfalismo que não pode ainda ser absolutamente permitido. Vós vedes claramente esta atitude na crise que afeta a prática e o ideal missionário. Se não fizermos da verdade um ponto importante na proclamação de nossa Fé, e se essa verdade não é mais essencial para a salvação do homem, então as missões perdem seu significado. De fato, a conclusão foi tirada, e foi tirada hoje, de que no futuro devemos apenas buscar que os cristãos sejam bons cristãos, os bons muçulmanos sejam bons muçulmanos, os bons hindus sejam bons hindus e assim por diante. E se chegamos a essas conclusões, como fazemos para sabermos se alguém é “um bom” cristão ou um “bom” muçulmano? A ideia de que todas as religiões são – levando-as a sério – apenas os símbolos daquilo que finalmente é incompreensível está ganhando terreno rapidamente na teologia e já penetrou a prática litúrgica. Quando as coisas chegam a este ponto, a Fé é deixada para trás, porque a Fé realmente consiste em confiar na Verdade tanto quanto é conhecida. Assim, nesta matéria, há todas as razões para retornar no reto caminho. Se ainda uma vez seremos capazes de evidenciar e viver a plenitude da religião Católica sobre esses pontos, podemos esperar que o cisma de Lefebvre não seja de longa duração.

Discurso de Sua Eminência, o Cardeal Ratzinger, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, à Conferência Episcopal Chilena, aos 13 de julho de 1988.

Fonte original: Rinascimento Sacro 6/12/2007
Fonte: Internetica.it
Tradução: Giulia d'Amore di Ugento
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