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quinta-feira, 2 de agosto de 2012

A Selva - SEXTA INSTRUÇÃO - Sobre a humildade

          Santo Afonso Maria de Ligório
(27/09/1696 - 02/08/1787)
Bispo de Santa Àgata
Confessor
Doutor Zelosíssimo da Igreja
Fundador dos Missionários Redentoristas

A Selva



SEGUNDA PARTE - MATERIAIS PARA AS INSTRUÇÕES
SEXTA INSTRUÇÃO


Sobre a humildade


Aprendei de mim que sou manso e humilde do coração

1 . A humildade e a doçura foram as duas virtudes favoritas de Jesus Cristo, virtudes em que, dum modo muito especial, quis ser imitado por seus discípulos. Falemos primeiro da humildade, depois falaremos da doçura.

I - Necessidade da humildade

Segundo S. Bernardo, quanto mais alta é a dignidade do padre, tanto mais ele deve ser humilde 2; de contrário, se cair no pecado, a da queda será a medida da sua elevação. Donde conclui S. Lourenço Justiniano que a jóia mais brilhante e preciosa do padre deve ser a humildade3. No mesmo sentido diz Alcuino: Visto que estás colocado na mais sublime dignidade, necessária te é a mais excelente humildade4. E antes deles tinha dito o divino Mestre: O maior dentre vós faça-se o mais pequeno de todos5. A humildade é a verdade; por isso o Espírito Santo nos adverte que, — se soubermos distinguir o precioso do vil, isto é, o que é de Deus do que é nosso, — seremos como que a sua boca, que sempre diz a verdade6. Devemos pois repetir sempre esta súplica de Sto. Agostinho: Que eu me conheça a mim e vos conheça a vós7.É também o que continuamente dizia a Deus S. Francisco de Assis, por estas palavras: “Quem sois vós e quem sou eu?” Estava tão compenetrado a um tempo, da grandeza e bondade que via em Deus, como da indignidade e miséria que descobria em sim mesmo. É assim que, à vista do Bem infinito, os santos se abatem até ao centro da terra; quanto melhor conhecem a Deus, tanto mais pobres e cheios de defeitos se reconhecem. Os orgulhosos, ao contrário, mal conheceu o seu nada, porque estão às escuras.
Separemos portanto o que nos pertence a nós do que pertence a Deus.Da nossa parte só temos miséria e pecado. De fato, o que somos nós senão um pouco de pó manchado de iniquidades? E podemos orgulhar-nos? Porque se encheu de orgulho o que é terra e cinza?8 A nobreza, a riqueza, os talentos e os outros dons da natureza são apenas um manto lançado sobre os ombros dum pobre mendigo. Acaso não olharíeis como um louco o pedinte que se orgulhasse com sua cobertura bordada a ouro, que lhe houvessem emprestado? Que tendes vós que não hajais recebido? E se o recebestes, porque vos gloriais, como se o devêsseis a vós mesmos?9 Que possuís vós que não tenhais recebido de Deus, e que ele não possa tirar-nos, quando lhe aprouver? Mais ainda, dispensa-nos Deus os dons preciosos da sua graça, e nós misturamos-lhes inumeráveis faltas, distrações, fins desordenados e impaciências.
Todas as nossas boas obras são como um tecido repleto de manchas 10. Deste modo, quando talvez nos cremos mais alumiados e ricos de merecimentos, — depois das nossas missas, ofícios e orações, — é que mais nos quadra a censura dirigida a um bispo no Apocalipse: Dizes tu: Sou rico; e não sabes que és pobre, miserável, cego e nu?11 Pelo menos, desde que aos olhos de Deus conheçamos a nossa pobreza e imperfeições, cuidemos de lhe endereçar as nossas súplicas, humilhando-nos e confessando as nossas misérias, conforme ensina S. Bernardo: Suprireis com a humildade da vossa confissão o que falta ao vosso fervor12. Estava ainda no mundo S.Francisco de Borja, quando um santo homem lhe aconselhou que, se queria fazer grandes progressos na virtude, não deixasse passar nenhum dia sem considerar a sua miséria. Dócil a este aviso, consagrava ele cada dia as duas primeiras horas da sua oração ao conhecimento e desprezo de si mesmo.Foi assim que chegou à santidade e nos deixou tão belos exemplos de humildade.Diz Sto. Agostinho: Deus está alto; se te elevas, foge de ti; se te abaixas, desce para ti13. Aos humildes une-se o Senhor de boa vontade, e enriqueceos das suas graças; dos orgulhosos, afasta-se, e foge deles com horror14.
Ouve as preces dos humildes: A oração do que se humilha atravessará as nuvens... e não se retirará sem que o Altíssimo a tenha atendido15. Repele ao contrário as orações dos soberbos: Resiste Deus aos soberbos e dá a sua graça aos humildes16. Aos orgulhosos não quer vê-los senão de longe: Está Deus muitíssimo alto e olha com benevolência as coisas baixas; as altas olha-as de longe17. As pessoas que vemos ao longe não as conhecemos; assim de certo modo parece que Deus não conhece nem ouve os orgulhosos que lhe pedem. Quando esses o invocam, responde-lhes: Em verdade vos digo que não vos conheço18. Numa palavra, os orgulhosos são abomináveis a Deus e aos homens19. Por vezes se vêem os homens obrigados a prestar homenagem aos soberbos; mas no seu coração detestam-nos e desprezam-nos, até em presença dos outros: Onde reina a soberba, lá reinará também o desprezo 20.
Falando da humildade de Santa Paula, S. Jerônimo tece-lhes este elogio: Obtinha a glória, fugindo dela; porque, assim como a sombra segue o homem que a evita, e parece fugir do que corre atrás dela, assim a glória se liga ao homem que a despreza, e se afasta de quem a procura21. Quem se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado22. Se um padre, por exemplo, fizer uma boa obra e não falar dela, os que vierem a conhecê-la todos lhe darão louvores; se ele a publicar, para ser aplaudido, colherá desprezos em vez de louvores. Que vergonha, exclama S. Gregório, ver os que devem ensinar a humildade, tornarem-se pelo mau exemplo doutores do orgulho!23 Desnecessário será dizer que não se fala dos benfeitores senão para manifestar o bem e dar por ele glória a Deus. Falar da obra, diz Sêneca, é louvar o obreiro24. Quem vos ouvir publicar o bem que tendes feito, há de acreditar que o fazeis para serdes louvado; assim perdereis a estima dos homens e o merecimento diante de Deus que, ao ver-vos procurar os louvores do mundo, vos aplicará esta sentença do Evangelho: Na verdade, na verdade vos digo, já receberam o seu salário25. Declara o Senhor que abomina, dum modo especial, três espécies de pecadores: O pobre soberbo, o rico mentiroso e o velho insensato26. Vê-se que o primeiro na aversão de Deus é o pobre soberbo.

II - Prática da humildade

Vamos agora à prática: vejamos o que temos a fazer para sermos verdadeiramente humildes, não de nome mas de fato.

1. Ter horror ao orgulho
Primeiro que tudo, devemos conceber um grande horror pelo orgulho, porque Deus, como acima vimos, resiste aos orgulhosos e priva-os das suas graças. Um padre, sobretudo para se conservar casto, necessita duma assistência particular de Deus; como pois, se for orgulhoso, poderá guardar a castidade, quando o Senhor lhe retirar o auxílio, em castigo do seu orgulho?O orgulho, diz o Sábio, é o sinal duma ruína próxima27. Por isso Sto. Agostinho chega a dizer que, de certo modo, é proveitoso aos orgulhosos caírem nalgum pecado manifesto, para que aprendam a humilhar-se e a desprezar-se a si próprios28. Assim Davi caiu em adultério, por falta de humildade, como depois confessou nestes termos: Pequei antes de ser humilhado29.Diz S. Gregório que o orgulho produz a impudicícia; porque a carne precipita no inferno os que se deixam enfatuar pelo espírito de orgulho30. Está no meio deles o espírito de fornicação... E a arrogância de Israel se ostenta no seu rosto31. Perguntai a um impudico porque recai sempre nas mesmas torpezas: Respondebit arrogantia: responderá por ele o orgulho, apresentando-se como causa; porque o Senhor castiga a audácia presunçosa do orgulhoso, permitindo-lhe que se afunde nas suas baixezas. Como diz o Apóstolo, foi o castigo infligido outrora ao orgulho dos sábios do mundo: Por isso os entregou Deus aos desejos do seu coração, à impureza, para que desonrassem o seu próprio corpo32.
O demônio não teme os orgulhosos. Refere Cesário ( Dial. l. 4. c. 5) que um dia um possesso, tendo sido levado a um mosteiro de Citeaux, o abade chamou para junto de si um jovem religioso, com grande fama de virtude, e disse ao demônio: Se este religioso te mandasse sair, ousarias tu resistir? — “Desse não tenho eu medo, porque é orgulhoso, respondeu o espírito maligno”. — S. José Calasâncio dizia que um padre orgulhoso é nas mãos do demônio como uma péla de jogar, que ele arremessa e faz cair onde lhe apraz.
Sempre os santos têm temido mais o orgulho e a vanglória que todo os males temporais. Conta Súrio ( 8 de jan. V. S. Sever.) que um santo homem, a quem os seus milagres atraíam a estima e veneração de todo o mundo, pediu ao Senhor que o tornasse possesso do demônio, para se pôr a salvo das freqüentes tentações de vanglória, que o assaltavam; foi ouvido, e permaneceu possesso durante cinco meses, passados os quais foi livre do espírito infernal, e ao mesmo tempo do espírito de vaidade que o atormentava. Neste intuito permite Deus que os próprios santos estejam expostos às tentações de impureza e, apesar das suas súplicas, persistam no combate. Foi o que aconteceu a S. Paulo, como ele escreveu: Para que a grandeza destas revelações me não fizesse orgulhar, foi-me dado o aguilhão da carne, um anjo de Satanás que me prega bofetadas. Por essa causa três vezes pedi a Deus que me livrasse dele; e respondeu-me: Basta-te a minha graça; porque a virtude aperfeiçoa-se na fraqueza33. Assim, diz S. Jerônimo, foi dado a S. Paulo o aguilhão da carne, como despertador para o conservar na humildade34. Donde S. Gregório conclui que, para se conservar a castidade em toda a sua integridade, é necessário confiá-la à guarda da humildade35.
Façamos aqui uma reflexão: Para humilhar o orgulho do povo egípcio, mandou-lhe o Senhor como tormento, não ursos ou leões, mas rãs. Que quer isto significar? Que algumas vezes permite Deus que sejamos atormentados por certas palavras insignificantes que ouvimos, por pequenas aversões, por coisas de nada, para que reconheçamos a nossa miséria e nos humilhemos.

2. Não se gloriar do bem praticado
Em segundo lugar é necessário que estejamos prevenidos contra a vaidade, por qualquer bem de que sejamos instrumentos, — nós principalmente que nos achamos erguidos à sublime dignidade do sacerdócio. Como são altos os nossos ministérios! Foi-nos confiada a augusta função de oferecer a Deus o seu próprio Filho. Como diz S. Paulo, foi-nos conferida a missão de reconciliar os pecadores com Deus, pela pregação e administração dos sacramentos 36.Somos os embaixadores e vigários de Jesus Cristo, órgãos de Espírito Santo37. São as mais altas montanhas, diz S. Jerônimo, que estão mais expostas aos ventos impetuosos; assim, quanto mais sublime é o nosso ministério, tanto mais sujeitos estamos aos assaltos da vanglória. Todos nos estimam, e nos olham como sábios e santos; facilmente se perturba a cabeça dos que estão em grandes alturas. Quantos padres, por falta de humildade, caíram no precipício! Montano chegou a fazer milagres, e depois a ambição fez dele um heresiarca. Taciano compôs muitos e belos escritos contra os idólatras, e o orgulho fê-lo cair também na heresia. O irmão Justino, franciscano, foi precipitado pelo orgulho, dos mais altos graus da contemplação, na apostasia, e morreu como réprobro. Na Vida de S. Palemon se lê que um monge, caminhando sobre carvões ardentes se gloriava e dizia: “Qual de vós pode caminhar sobre brasas, sem se queimar?” S. Palemon repreendeuo, mas o desgraçado encheu-se de orgulho, caiu num pecado e morreu em mau estado.
Dominado pelo orgulho, o homem espiritual é o mais culpado de todos os bandidos, porque o que ele arrebata não são bens de terra, é a glória do Céu. S. Francisco tinha o costume de fazer esta súplica: “Senhor! guardai vós mesmo os bens que me derdes; de contrário, eu vo-los roubaria”. Tal é a oração que também nós, os padres devemos fazer. Digamos sempre com S.Paulo: Tudo quanto sou, à graça de Deus o devo38. De fato, segundo o mesmo Apóstolo, somos incapazes, não só de boas obras, mas até de termos de nós mesmos um bom pensamento39. Daí a advertência que o Senhor nos faz: Uma vez cumprido o que vos é prescrito, dizei: Somos servos inúteis; só fizemos o que era do nosso dever40. Que podem aproveitar a Deus todas as nossas obras? que necessidade pode ele ter dos nossos bens? Sois vós o meu Deus, dizia Davi, não careceis dos meus bens 41. Em Jó lê-se: Se fizerdes o bem, o que é que lhe dais?42 Que dádiva podeis oferecer a Deus, que o torne mais rico? Somos ainda servos inúteis, porque tudo quanto fazemos nada é, para um Deus que merece um amor infinito e tanto sofreu por nosso amor. Razão por que o Apóstolo dizia de si mesmo: Se pregar o Evangelho, não tenho que me gloriar disso, porque é dever meu fazê-lo 43.
Por dever e também por gratidão estamos obrigados a fazer por Deus o que pudermos, e tanto mais que tudo o que fazemos é mais obra sua do que nossa. “Quem não mofaria das nuvens, se elas se gloriassem da chuva que nos dão?” É S.Bernardo quem assim fala, e acrescenta que nas obras dos santos os louvores devem ir menos para os que as fazem, do que para Deus, que se serve deles para as fazer44. No mesmo sentido diz Sto. Agostinho, dirigindo-se a Deus: Se algum bem há, grande ou pequeno, é de vós que ele promana; da nossa parte só há mal45. E noutro lugar: Quem vos apresentar como seus alguns merecimentos, que vos apresentará senão os vossos dons?46
Assim, quando fazemos algum bem, devemos dizer ao Senhor: O que das vossas mãos temos recebido, é o que vos retribuímos47. Quando Sta. Teresa fazia ou via fazer alguma obra boa, louvava a Deus, dizendo que dele derivava todo o bem. Dali esta advertência de Sto. Agostinho, — que, se a humildade não caminhar na vanguarda, tudo quanto fizermos de bem se tornará presa do orgulho48. Está o orgulho como de emboscada para fazer perecer as nossas boas obras49. É o que fazia dizer a S. José Calasâncio: quanto mais Deus nos favorece com graças particulares, tanto mais nos devemos humilhar, se não queremos perder tudo.
Por um pouco de estima própria se compromete tudo. Multiplicar atos de virtude, sem a humildade, é o mesmo que lançar poeira ao vento, diz S.Gregório50. E Tritêmio ajunta: Se desprezais os outros, tornais-vos piores que todos51.
Nunca os santos se gloriam das suas vantagens, antes procuram fazer conhecer aos outros o que pode redundar em confusão sua. O Pe. Vilanova, da Companhia de Jesus, não tinha nenhuma repugnância em dizer a toda a gente que o seu irmão era um pobre artista. O Pe. Sacchini, da mesma Companhia, encontrando em público seu pai, que era um pobre almocreve, correu logo a abraçá-lo, exclamando: “Ó! eis o meu pai!” Cuidemos de ler as Vidas dos santos, e perderemos o orgulho: nelas encontramos atos heróicos, e cuja vista coraremos de tão pouco havermos feito.

3. Manter-se na desconfiança de si mesmo

Em terceiro lugar, é necessário que vivamos numa contínua desconfiança de nós mesmos. Se Deus nos não assistir, não poderemos conservar-nos na sua graça: Se Deus não guardar a cidade, debalde vigiará o que a guarda 52. Há santos que, com pouca ciência, converteram povos inteiros. Santo Inácio de Loyola53 fazia em Roma discursos familiares, e até cheios de expressões impróprias; apesar disso, como eram palavras que saíam dum coração humilde e abrasado do amor de Deus, produziam um tal fruto, que os ouvintes iam logo confessar-se com tantas lágrimas que mal podiam falar.
Pelo contrário, há sábios que pregam e, com toda a sua ciência e eloqüência, não convertem uma só alma. É sobre eles que recai esta palavra de Oséas: Dá-lhes um seio estéril e peitos sem leite54. Inchados com o seu saber, tais pregadores são mães estéreis, mães apenas de nome e sem filhos. E, se os filhos dos outros vem pedir-lhes leite, morrerão à míngua, porque os orgulhosos só estão cheios de vento e fumo; só têm a ciência que incha55. Tal a desgraça a que os sábios estão expostos. É difícil, como escrevia o cardeal Belarmino a seu sobrinho, que um sábio seja muito humilde, que não despreze os outros, que não critique as suas ações; que não se apegue ao seu próprio juízo, e se sujeite de boa vontade ao pensar dos outros e às suas correções.
Sem dúvida, quem prega não deve falar ao acaso; é necessário que tenha meditado e estudado; mas, depois de termos preparado o nosso discurso, e depois de o pronunciarmos com clareza e facilidade, devemos dizer: Servi inutiles sumus. O fruto dele não devemos esperá-lo do nosso trabalho, mas da graça de Deus. Com efeito, que proporção pode haver entre as nossas palavras e a conversão dos pecadores? Poderá gloriar-se o machado, em detrimento de quem se serve dele?56 Terá direito a dizer-lhe: Fui eu que cortei esta árvore; não foste tu? Somos como bocados de ferro incapazes de nos movermos, se o próprio Deus nos não imprimir o movimento. Disse o divino Mestre: Sem mim, nada podeis57; o que Sto. Agostinho comenta assim: Não diz: Sem mim pouco podeis; mas diz: Nada podeis. E de si mesmo diz o Apóstolo: Por nós mesmos, nem um bom pensamento podemos formas58.
Se nem um bom pensamento podemos ter, quanto menos fazer uma boa obra! Nem o que planta, nem o que rega é coisa alguma, só é tudo Deus, que dá o crescimento59. Não são o pregador e o confessor que por suas palavras fazem crescer as almas na virtude; é Deus quem faz tudo. Donde S. João Crisóstomo conclui: Reconheçamos a nossa inutilidade, para que nos tornemos úteis60. Assim, quando nos louvarem, devolvamos logo a honra para Deus, único a quem ela pertence e digamos: Só a Deus a honra e a glória!61 E, quando a obediência nos impuser algum cargo, ou mandar alguma ação, não nos deixemos ir à desconfiança, considerando a nossa incapacidade; confiemos em Deus que, falando-nos pela boca do superior nos diz: Eu estarei na vossa boca 62.
O Apóstolo dizia: De bom grado me gloriarei nas minhas enfermidades, para que a virtude de Jesus Cristo habite em mim63. É o que nós devemos também dizer: devemos gloriar-nos no conhecimento da nossa fraqueza, para adquirirmos a virtude de Jesus Cristo, a santa humildade. Ó! que grandes coisas podem levar a cabo os humildes! Nada lhes é difícil, diz S. Leão64. De fato, os humildes, confiando em Deus, operam com o braço de Deus e conseguem quanto querem. Os que operam no Senhor crescerão em força65. S. José Calasâncio dizia: “Quem quer que Deus se sirva dele para grandes coisas, deve procurar ser o mais humilde de todos”. Só ao humilde pertence dizer: Posso tudo naquele que me conforta66. Esse, à vista duma empresa difícil, não perde a coragem, antes diz confiado: Com o auxílio de Deus faremos grandes coisas67. Para converter o mundo, não quis Jesus Cristo escolher homens poderosos e sábios, mas pescadores pobres e ignorantes, porque eram humildes e não confiavam nas suas próprias forças: Escolheu Deus as coisas fracas do mundo, para confundir os fortes... para que nenhuma carne se glorie na sua presença68.
Não nos deve lançar no desalento a consideração dos nossos defeitos.Por dolorosa que seja a facilidade com que recaímos nas mesmas faltas, apesar das resoluções tomadas e das promessas que fazemos a Deus, não nos abandonemos à desconfiança, como o demônio nos insinua, para nos precipitar em pecados mais graves. Então mais que nunca devemos avivar a nossa confiança em Deus, servindo-nos dos próprios defeitos para mais confiarmos na misericórdia divina, conforme a palavra do Apóstolo: Todas as coisas concorrem para o nosso bem69. A Glosa acrescenta: “Até os nossos pecados”. Por vezes permite o Senhor que se caia, ou se recaia em certa falta, para que se aprenda a não confiar nas próprias forças, mas sim no socorro divino. Era o que fazia dizer a Davi: Senhor, permitiste as minhas quedas para meu bem 70.

4. Aceitar as humilhações

Em quarto lugar, para adquirir a humildade, é necessário acima de tudo que aceitemos as humilhações, que nos advierem, ou de Deus ou dos homens, dizendo então com sinceridade: Tenho pecado, sou verdadeiramente culpado, e não tenho sido castigado como merecia71. Pessoas há, nota S.Gregório72, que se dizem pecadoras e dignas de todo o desprezo, mas não se crêem tais; porque apenas são desprezadas ou repreendidas logo se irritam.São muitos os que têm as aparências da humildade, diz igualmente Sto.Ambrósio, mas sem terem dela a realidade73. Fala Cassiano 74 dum certo monge que protestava em altas vozes que era um grande pecador, indigno de permanecer sobre a terra. Na mesma ocasião foi repreendido duma falta considerável pelo abade Serapion: era de andar ocioso pelas celas dos outros, em vez de estar na sua, conforme o preceito da regra. Mas logo esse monge se perturbou, dando sinais exteriores de sua agitação. Então lhe disse o abade: “Como é isso, meu filho! Acabaste de te declarares digno de todos os opróbrios, e dás-te por magoado com a advertência caridosa que te fiz?” O mesmo acontece a muitos que desejariam ser tidos por humildes, mas que não querem sofrer nenhuma humilhação. Homem há, diz o Sábio, que se humilha com vistas humanas, mas tem o coração cheio de malícia75. Procurar ser louvado pela sua humildade, dizia S. Bernardo, não é efeito, mas ruína da humildade76. É isso alimentar o orgulho com a ambição de ser humilde. Quem é verdadeiramente humilde, não contente com ter de si mesmo uma baixa idéia, quer ainda que os outros a tenham também. É humilde, diz S. Bernardo, quem muda a humilhação em humildade. Quer isto dizer que o homem verdadeiramente humilde, ao receber desprezos, se humilha ainda mais, dizendo que bem os mereceu77.
Pensemos enfim que, se não formos humildes, não só não faremos nenhum bem, mas nem mesmo chegaremos a salvar-nos: Se não vos converterdes, e não vos tornardes como pequeninos, não entrareis no reino dos céus78. É necessário portanto, para entrarmos no Céu, fazermo-mos como criancinhas, não pela idade, mas pela humildade. Segundo S. Gregório, assim como o orgulho é um sinal da reprovação, a humildade é um sinal de predestinação79.
E S. Tiago nos dá estes aviso: Resiste Deus aos soberbos, mas dá a sua graça aos humildes80. Para os orgulhosos fecha o Senhor a sua mão e retém as suas graças; mas abre-as para os humildes. — Sê humilde, diz o mesmo Eclesiástico, e espera da mão de Deus todas as graças que desejares81. E o nosso Salvador diz: Na verdade, na verdade vos digo, se o grão de trigo não cair na terra e não morrer nela, permanecerá só e estéril; mas se morrer produzirá muito fruto82. O padre que morre ao orgulho, há de fazer muito fruto; o que não morre a si mesmo, o que é sensível aos desprezos, ou confia nos seus talentos, ipsum solum manet, esse permanecerá só, e nenhum fruto produzirá, nem para si, nem para os outros.
 
Notas:
1. Discite a me quia mitis sum et humilis corde (Matth. 11, 29).
2. Tanto quisque debet esse humilior, quanto est sublimior (De 7 Donis Sp. S.).
3. Humilitas et sacerdotum gemma (De Inst. proel. c. 21).
4. In summo honore summa tibi sit humilitas (De Virt. et Vit. c. 10).
5. Qui major est in vobis, fiat sicut minor (Luc. 22, 26).
6. Si separaveris pretiosum a vili, quasi os meum eris (Jer. 15, 19).
7. Noverim me, noverim te (Solit. l. 2. c. 1).
8. Quid superbit terra et cinis? (Eccli. 10, 9).
9. Quid autem habes, quod non accepisti? Si autem accepisti, quid gloriaris, quasi non acceperis? (1. Cor. 4, 7).
10. Quasi pannus menstruatae, universae justitiae nostrae (Is. 64, 6).
11. Dicis: Quod dives sum; et nescis quia tu es miser, et miserabilis, et caecus, et nudus (Apoc. 3, 17).
12. Quidquid minus est in te fervoris, humilitas supplebit confessionis (De Int. domo c. 21).
13. Altus est Deus. Erigis te, et fugit a te; humilias te, et descendit ad te (Serm. 177. E. B.app.).
14. Abominatio Domini est omnis arrogans (Prov. 16, 5).
15. Oratio humiliantis se nubes penetrabit... et non discedet, donec Altissimus aspiciat (Eccli.35, 21).
16. Deus superbis resistit; homilibus autem dat gratiam (Jac. 4, 6).
17. Excelsus Dominus, et humilia respicit; et alta a longe cognoscit (Ps. 137, 6).
18. Amen dico vobis, nescio vos (Matth. 25, 12).
19. Odibilis coram Deo et hominibus superbia (Eccli. 10, 7).
20. Ubi fuerit superbia, ibi erit contumelia (Prov. 11, 2).
21. Fugiendo gloriam, gloriam merebatur, quae virtutem quasi umbra sequitur, et, appetitores sui deserens, appetit contemptores (Ep. ad Eustoch.).
22. Qui autem se exaltaverit, humiliabitur; et qui se humiliaverit, exaltabitur (Matth. 23, 12).
23. Doctores humilium, duces superbiae! (Epist. l. 4. ep. 32).
24. Qui rem non tacuerit, non tacebit auctorem (Epist. 105).
25. Amen dico vobis, receperuut mercedem suam (Matth. 6, 2).
26. Tres species odivit anima mea... pauperem superbum, divitem mendacem, senem fatuum (Eccli. 25, 3).
27. Contritionem praecedit superbia; et ante ruinam, exaltatur spiritus (Prov. 16, 10).
28. Audeo dicere, superbis esse utile cadere in aliquod apertum peccatum, unde sibi displiceant (De Civ. D. l. 14. c. 13).
29. Priusquam humiliarer, ego deliqui (Ps. 118, 67).
30. Multis saepe superbia luxuriae seminarium fuit; quia, dum eos spiritus quasi in altum erexit, caro in infimis mersit (Moral. l. 26. c. 12).
31. Spiritus fornicationum in medio eorum... Et respondebit arrogantia Israel in facie ejus (Os.5, 4).
32. Propter quod tradidit illos Deus in desideria cordis eorum, in immunditiam, ut contumeliis afficiant corpora sua in semetipsis (Rom. 1, 24).
33. Et me magnitudo revelationum extollat me, datus est mihi stimulus carnis meae, angelus Satanae, qui me colaphizet. Propter quod ter Dominum rogavi, ut discederet a me: et dixit mihi: Suficit tibi gratia mea; nam virtus ia infirmitate perficitur (2. Cor. 12, 7).
34. Ad revelationum humiliandam superbiam, monitor quidam humanae imbecillitatis apponitur (Ep. ad Paulam.).
35. Per humilitatis custodiam servanda est munditia castitatias (Moral. l. 26. c. 11).
36. Dedit nobis ministerium reconciliationis (2. Cor. 5, 18).
37. Pro Christo ergo legatione fungimur, tamquam Deo exhortante per nos (Ibidem 20).
38. Gratia autem Dei sum id quod sum (1. Cor. 15, 10).
39. Quod non sufficientes simus cogitare aliquid a nobis (2. Cor. 3, 5)
40. Cum feceritis omnia quae praecepta sunt vobis dicite: Servi inutiles sumus; quod debuimus facere, fecimus (Luc. 17, 10).
41. Deus meus es tu, quoniam bonorum meorum non eges (Ps. 15,2).
42. Si juste egeris, quid donabis ei, aut quid de manu tua accipiet? (Job 35, 7).
43. Si evangelizavero, non est mihi gloria, necessitas enim mihi incumbit (1. Cor. 9, 16).
44. Si glorientur nubes, quod imbres genuerint, quis non irrideat? — Laudo Deum in santis suis, qui, in ipsis manens, ipse facit opera (In Cant. s. 13).
45. Si quid boni est, parvum vel magnum, donum tuum est; et nostrum non est nisi malum (Solil. an. ad D. c. 15).
46. Quisquis tibi enumerat merita sua, quid tibi enumerat, nisi munera tua? (Conf. l. 9. c. 13).
47. Quae de manu tua accepimus, dedimus tibi (1. Part.29, 14).
48. Nisi humilitas praecesserit, totum extorquet de manu superbia (Epist. 118. E. B.)
49. Superbia bonis operibus insidiatur, ut pereant (Epist. 211. E. B.).
50. Qui sine humilitate virtutes congregat, quasi in ventum pulverem portat (In Ps. poenit. 3).
51. Caeteros contempsisti; caeteris pejor factus es.
52. Nisi Dominus custodierit civitatem, frustra vigilat, qui custodit eam. — Nisi Dominus aedificaverit domum, in vanum laboraverunt, qui aedificant eam (Ps. 126,1).
53. Ribadeneira (Vit. l. 3. c. 2).
54. Da eis vulvam sine liberis et ubera arentia (Os. 9, 14).
55. Scientia inflat (1. Cor. 8, 1).
56. Numquid gloriabitur securis contra eum qui secat in ea? (Is. 10, 15).
57. Sine me, nihil potestis facere (Jo. 15, 5)
58. Non quod sufficientes simus cogitare aliquid a nobis (2. Cor. 3. 5).
59. Neque qui plantat, est aliquid, neque qui rigat, sed qui incrementum dat, Deus (1. Cor. 3,7).
60. Nos dicamus inutiles, ut utiles efficiamur (Ad pop. ant. hom. 7. 38).
61. Soli Deo honor et gloria (1. Tim. 1, 17).
62. Ego ero in ore tuo (Exod. 4, 15).
63. Libenter igitur gloriabor in infirmitatibus meis, ut inhabitet in me virtus Christi (2. Cor. 12,9).
64. Nihil arduum est humilibus (De Epiph. s. 5).
65. Qui autem sperant in Domino, mutabunt fortitudinem (Is. 40, 31).
66. Omnia possum in eo qui me confortat (Phil. 4, 13).
67. In Deo faciemus virtutem (Ps. 59, 14).
68. Infirma mundi elegit Deus, ut confundat fortia... ut non glorietur omnis caro in conspectu ejus (1. Cor. 1, 27).
69. Omnia cooperantur in bonum (Rom. 8, 28).
70. Bonum mihi quia humiliasti me (Ps. 118, 71).
71. Peccavi et vere deliqui, et, ut eram dignus, non recepi (Job. 33, 27).
72. Moral. l. 22. c. 14.
73. Multi habent humilitatis speciem, virtutem non habent (Ep. 44).
74. Callat. 18. c. 11.
75. Est qui nequiter humiliat se, et interiora ejus plena sunt dolo (Eccli. 19, 23).
76. Appetere de humilitate laudem, humilitatis est, non virtus, sed subversio (In Cant. s. 16).
77. Est humilis, qui humiliationem convertit in humilitatem (In Cant. s. 34).
78. Nisi conversi fueritis, et efficiamini sicut parvuli, non intrabitis in regnum coelorum (Matth.13, 3).
79. Reproborum signum superbia est; et contra, humilitas electorum (Moral. l. 34. c. 22).
80. Deus superbis resistit; humilibus autem dat gratiam (Iac. 4, 6).
81. Humiliare Deo, et exspecta manus ejus (Eccli. 13, 9).
82. Amen, amen, dico vobis: nisi granum frumenti, cadens in terram, mortuum fuerit, ipsum solum manet; si autem mortuum fuerit, multum fructum afferet (Jo. 12, 24).


Fonte: Volta para Casa
PDF do livro: www.redemptor.com.br
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