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segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Foi pelo dinheiro que eles se manifestaram?

Colocações portuguesas:

Indignado contra os indignados

No meio da crise social profunda que vive o mundo, alguns milhares de jovens manifestaram-se contra os valores da Igreja que representam os mais desfavorecidos

As imagens de fanatismo que nos chegaram das Jornadas Mundiais da Juventude (JMJ) em Madrid só podem ser um factor de indignação para qualquer cidadão que estime o valor da liberdade. Declaração de interesses: sou católico apostólico romano e faço parte de um movimento da Igreja Católica ligado à família. E como pai, confesso, senti uma grande realização pessoal por uma das minhas filhas ter sido uma peregrina. Uma viagem com custos que o contributo financeiro da nossa família, como muitas outras famílias por esse mundo fora, cobriu.

Apesar disso, e esgrimindo o argumento da despesa profana da Igreja e do Estado em tempo de crise, um bando de oportunistas indignados de diversas proveniências tentou beliscar este evento mobilizador. Os custos das JMJ ascenderam a 50 milhões de euros, mas esse dinheiro veio das inscrições dos jovens e de mecenas de todo o mundo. Na capital espanhola estiveram mais de um milhão de jovens de 139 países. Foi pelo dinheiro que eles se manifestaram? As JMJ chegaram a um público de 600 milhões de pessoas, projectando de forma única a marca de Espanha e de Madrid. Durante as jornadas, o "Expansíon" falava num aumento de 30% na ocupação hoteleira e projectava um retorno directo de 100 milhões de euros para a economia espanhola. E foi pelo dinheiro que eles se manifestaram? Claro que não foi. Milhões de jovens crentes e um papa serviram de pretexto para unir numa frente comum os "pregadores" da cartilha da diversidade e da neutralidade moral. A máscara caiu e o que sobrou foi uma manifestação de intolerância crua e provocadora.

Vivemos tempos difíceis, em que a Igreja Católica e as suas instituições vão continuar a ser insubstituíveis no apoio social: estando onde o Estado não está, fazendo o que o Estado não faz ou não quer fazer. Notável: foi contra estes valores, e em prejuízo dos mais desfavorecidos, que os "profetas" da paz mas sem qualquer obra - principalmente social - se rebelaram em Madrid.

Ao longo dos últimos anos têm sido aprovadas várias leis que se opõem violentamente aos nossos valores e à forma como nós, católicos, olhamos a organização da vida em sociedade. Perdemos as nossas batalhas, mas nunca pusemos em causa o valor da tolerância nem usamos o valor da liberdade como melhor nos servir consoante as circunstâncias. A história já tinha mostrado, e Madrid recordou-o: cuidado com os falsos profetas da liberdade e dos direitos. São os primeiros a arrebanhá-los quando mais lhes dá jeito e sem respeito pelas suas obrigações.

Paraíso perdido. A Europa viveu nos últimos 50 anos no paraíso, mas a verdade é que hoje está perdida. A história vai registar a crise das dívidas soberanas como o momento em que se constatou o inevitável: a rotação brusca do poder de norte para sul e de ocidente para oriente. Mas que Europa é esta? A crise actual deixa bem claro que não há estratégia. Não há política. Não há líderes políticos. Pelo contrário, há problemas orgânicos e de legitimidade que ninguém quer resolver. Pelo contrário, agravam-nos.

A ressurreição do eixo franco-alemão é um péssimo sinal. Nenhum de nós elegeu Merkel ou Sarkozy. Nem tão-pouco têm a legitimidade europeia que emanava de líderes como Helmut Khol ou François Miterrand. Têm apenas, perante os seus eleitorados, legitimidades próprias: nenhum português, finlandês ou italiano os escolheu para definir o novo governo económico da zona euro galgando as legitimidades da Comissão e do Parlamento Europeu. Porventura teremos mesmo de adoptar algumas das medidas que saíram do encontro bilateral. Se assim for, que o nosso país tenha a capacidade para fazer valer a sua vontade em três áreas-chave: agricultura e pescas, e usar factores distintivos (nomeadamente fiscais) na captação de investimentos provenientes de regiões apresentadas à Europa por Portugal.

por Carlos Carreiras
Presidente do Instituto Francisco Sá Carneiro


Fonte: ionline.pt
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