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segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Coelhos, Raposa, Doninhas, Furões e Ratos. Uma história

Acompanho alguns sites italianos ligados à Tradição, e há dias recebi no e-mail o texto que publico hoje, e me pareceu uma perfeita oportunidade de reflexão. O texto é uma recensão de um livro que traz uma visão sobre a Fé nos tempos atuais, de crise da Igreja. O livro em si não aguçou minha curiosidade principalmente porque parece relativo a ambientes falso-católicos pois trata como canonizáveis pessoas ligadas, por exemplo, à Opus Dei ou, de qualquer forma, modernistas. Vou me ater ao que importa, que é a comparação dos “católicos” de hoje a alguns animais - os montfortianos vão ficar de cabelos em pé! rsrs - em um estilo quase esopiano, mas bem preciso. Em azul, os pontos a refletir. Ao texto.




A Fé no tempo dos coelhos. E da raposa, das doninhas, dos furões e dos ratos. Um livro. 



Por Marco Tosatti





A Fé católica no tempo dos coelhos, mas também da Raposa, das Doninhas, dos Furões e do Ratos... Quem vos escreve quer vos falar hoje – brevemente, porque as recensões longas são aborrecidas; e sobretudo prejudicam o livro, dando a quem lê a impressão de tê-lo já descoberto e explorado – de uma obra que acabou de ser lançada, escrita por Matteo Orlando, cuja assinatura frequentemente aparece em artigos no “A Fé Cotidiana”. O título do livro é: “FAITHBOOK. A Fé Católica no tempo dos coelhos”, e foi publicado pela Chorabooks Hong Kong. Quem tiver interesse pode encontrá-lo no site Amazon, ou também fazendo uma pesquisa na Internet.

O título aguçou a curiosidade de quem vos escreve; ainda que, antes mesmo de percorrer as páginas para encontrar uma explicação, já se imaginava quem fossem os coelhos de que se fala no título, isto é, nós, que nos declaramos católicos, mas... 


O autor ajuda rapidamente a entender, e é oportuno reportar integralmente estas palavras, que não são dele, mas de alguém que da Fé precisava em sua batalha cotidiana contra o inimigo de sempre:  

“Em um célebre manuscrito, ‘A fé, Messina, 1970’, o salesiano, exorcista, apóstolo da boa imprensa católica, Padre Giuseppe Tomaselli(1), de venerável memória, escreve que há décadas estamos em uma época em que a Fé recebe fortes golpes. Há quem tenha medo de manifestá-la, quem a perde, e há, infelizmente, quem a despreze para se dar ares de modernidade e para não ser, na sociedade, menos que os demais’. E continua: Como o coelho que, por timidez, logo que é visto, foge e vai a se esconder na toca, assim quem tem medo de demostrar a sua fé, quando tem ocasião de falar para defender os direitos de Deus, se cala, e, no momento de agir, recua e se esconde

Assim, muitos cristãos têm medo de demonstrar a sua Fé, às vezes apenas para não desagradar o mero respeito humano, escondendo a sua fortaleza cristã e a sua dignidade pessoal.

Don Tomaselli auspicava que se superasse o coelhismo e que se retornasse à Fé viva e forte dos mártires, os quais a professavam diante dos carrascos, prontos para enfrentar qualquer tormento!”. 

Eu diria que essas palavras se encaixam muito bem à nossa sociedade e aos nossos tempos; e a tibieza, a ambiguidade e a covardia que se escondem por vezes por detrás dos bons modos eclesiásticos não conseguem ser sacudidas nem mesmo pelos exemplos atuais de coragem e de martírio que vêm diariamente de Países em que ser cristão quer dizer perseguição, discriminação e morte.  

Não é um livro longo, o de Matteo Orlando, mas é muito útil para nos fazer entender onde e como nos perdemos. É sobretudo a falta de oração, “A causa que mais do que qualquer outra levou ao resfriamento da vida cristã em tantos crentes, mesmo em parte do clero” – dizia Padre Ferdinando Rancan(2), sacerdote em odor de santidade, recentemente falecido em Verona – é o abandono da oração que:
- atenua antes de tudo a Fé...;
- depois, debilita a esperança (que é a confiança em Deus e o desejo do Seu reino; assim, o entusiasmo, a alegria de ser cristão cedem lugar ao tédio, ao cansaço, à indiferença);
- finalmente, diminui a caridade (sem oração, o coração torna-se árido, perde ímpeto e calor, não vibra mais nem por Deus nem pelos irmãos), provocando a morte interior.

Vinha-me à mente, ao ler essas palavras, o sermão ouvido há algum tempo de um jesuíta de uma importante instituição romana. Lamentava ele que os seus confrades passassem mais tempo na frente da televisão do que do Santíssimo...

Quem vos escreve acredita que seja um livro interessante para ler, até mesmo por sua clareza. Expressa, de maneira simples e eficaz, argumentos extremamente complexos, desmistificando inclusive lugares comuns que estão na moda, como o do Inferno vazio(3)... Com argumentos sólidos e dificilmente questionáveis. Um livro para ter para si e também para dar de presente.   




Enquanto quem vos escreve lia o livro, ocorreu-lhe, no entanto, que Mateus descreveu apenas uma parte da realidade que todos nós estamos vivendo. Porque os coelhos, pobres bichinhos, vivem em um mundo povoado por outros animais muito mais perigosos. Primeiro, tem a Raposa, ambígua, fugidia, com sede de poder; desde filhote tem um pelo bonito: vermelho vivo no verão, a sua estação, e, depois, muda, se tornando clara no inverno, quando é melhor não se destacar demais na neve. Depois, vêm as Doninhas. Odeiam desde sempre os coelhos, especialmente aqueles que são menos coelhos do que os outros e que de tempos em tempos fazem ouvir a sua voz. E eis que logo há uma doninha com as presas a postos na garganta. Para o bem do coelho, naturalmente. Não nos esqueçamos dos Furões: não possuem ódios particulares, mas um grande amor de si mesmos. E, para isso, silenciosa mas incessantemente, trabalham, trabalham... Por fim, os Ratos. Estavam bem com o Cão Pastor, enquanto havia um. De fato, sustentavam ser eles os melhores defensores de coelhos e galinhas, dando o alarme se uma Doninha mostrasse seus bigodes. Desaparecido, ou quase, o velhíssimo Cão Pastor, com desenvoltura se esforçam para provar que sempre foram raposistas, e que melhor do que uma Raposa nada se pode pedir ou imaginar, e que, de qualquer forma, entre Raposa e Cão Pastor não há nenhuma diferença. Pobres coelhos!


P.S. Até mesmo os coelhos mordem, mas para defender a sua toca... Não nos esqueçamos disso.  


________________
Notas:
1. Nascido em Biancavilla, Catania, 26 janeiro de 1902 - Messina, 9 de maio de 1989. 
2. Sacerdote da Opus Dei. Portanto, vamos devagar com o odor de santidade!  
3. Não há fogo no inferno”, dizia João Paulo II. Francisco, com sua “teologia da misericórdia para todos e para todas”, também aponta para um inferno vazio ou anacrônico, démodé. De fato, hoje, há algumas hipóteses: inferno existe, mas está vazio ou é para poucos e sem chamas eternas. Remete à apocatástase – termo criado por Orígenes de Alexandria (185-253 d.C.), também conhecido como Orígenes cristão – ou seja, a esperança de que o inferno não seja eterno, pois haveria a restauração final de todas as coisas em sua unidade absoluta com Deus. A apocatástase representa a redenção e salvação final de todos os seres, inclusive dos que habitam o inferno. É uma heresia. Em primeiro lugar, ela leva a supor que não há um único mundo criado – ou seja, o que principia no Gênesis e finda no Apocalipse – como afirma a Bíblia; pelo contrário, em sua atividade criadora, Deus cria infinitamente uma sucessão de mundos, o que só se esgotaria na apocatástase, quando todos os seres repousassem definitivamente em Deus. Em segundo lugar, parece dar a possibilidade de estabelecer uma distinção entre o Logos ou Verbo e sua encarnação como Cristo. Uma vez que Cristo é uma encarnação histórica neste mundo em particular, estaria aberta a possibilidade de uma encarnação futura do Logos ou Verbo. Embora as Escrituras falem da volta do Logos, contudo, essa tese herética permite questionar a divindade de Cristo,  que é um Dogma de Fé. Esse ponto em particular não é fiel a doutrina uma vez que o Verbo encarnou historicamente, mas, depois da crucifixão, Cristo ressuscitou num "corpo glorioso" e depois ascendeu ao Céu. “corpo glorioso” e depois ascendeu ao Céu. Assim, Ele voltará “em Glória” para julgar os vivos e os mortos e não como uma “nova encarnação”do Verbo de Deus. Séculos após a morte de Orígenes, o Segundo Concílio de Constantinopla considerou heresia os aspectos de sua doutrina que permitiriam subordinar a figura de Cristo ao Logos e ao Pai, rompendo também com o Dogma da Santíssima Trindade.  

Fonte: http://www.marcotosatti.com/2017/08/24/la-fede-nel-tempo-dei-conigli-e-della-volpe-delle-donnole-dei-furetti-e-dei-topi-un-libro/
Tradução e notas: Giulia d'Amore. 


  

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