DO RESPEITO HUMANO
Que é o respeito humano? É a vergonha daquele que não se atreve a manifestar os seus sentimentos religiosos e piedosos porque, com isso, é escarnecido, insultado, perseguido.
I — Natureza do respeito humano
O respeito humano é o respeito pelas coisas humanas colocado acima do respeito pelas coisas de Deus; é a estima pelo homem preferida à estima por Deus. O respeito divino coloca-nos na presença de Deus, a Quem devemos conhecer, amar e servir porque é nosso Criador, Senhor, Juiz e Remunerador. O respeito humano é a negação de tudo isto. Transfere sacrilegamente para o homem os direitos e a honra que são reservados a Deus. O homem é considerado como senhor e juiz, e, por isso, toda a vida exterior é para lhe agradar.
II — Aspectos diversos do respeito humano
O respeito humano reveste tantas formas quantos são os nossos deveres.
1º Omissão do bem. — O respeito humano impede a prática sincera e fiel da nossa fé, fecha-nos a boca quando é preciso falar e paralisa os nossos esforços quando é preciso agir.
Sabemos que a santa Missa é uma fonte de graças desde que assistamos a ela com edificação; todavia, na assistência à missa não estamos com a devida atenção e fervor porque não queremos dar nas vistas com a nossa devoção.
Encontramos na Comunhão uma grande força contra os inimigos da nossa salvação, um ódio ao pecado, um zelo ardente para o bem, uma garante de perseverança; todavia, não nos aproximamos muitas vezes deste banquete divino porque tememos que nos censurem.
Queremos fazer progressos na piedade e na virtude; mas para isso é preciso frequentar a confissão a fim de alcançarmos o perdão das nossas faltas, recebermos conselhos úteis e uma direção salutar; todavia, não nos confessamos com frequência porque tememos que escarneçam de nós.
2º Corrupção do bem. — O respeito humano infecciona tudo, mesmo o bem. Para que as nossas ações boas sejam meritórias devem ser feitas com intenção de agradar a Deus. Ora, o respeito humano inclina-nos e decide-nos a praticar o bem para agradar às criaturas. Portanto, o respeito humano tira o caráter sobrenatural às nossas ações. Dá preferência do homem a Deus.
3º Prática do mal. — O homem levado pelo respeito humano chega mesmo a praticar o mal para agradar os maus. Um companheiro aproxima-se de nós, convida-nos para os bailes, para reuniões profanas, para lugares perigosos e deixamo-nos arrastar pelo maldito companheiro até à boca do Inferno e não temos coragem de lhe dizer secamente: não quero, vai tu sozinho!
4º Jactância do mal. — O respeito humano faz mesmo com que o homem se glorie com o mal que fez e até mesmo se glorie com faltas que não cometeu.
5º O respeito humano é um mal universal. — Um outro caráter do respeito humano é a sua universalidade. Por exemplo, o mentiroso, o voluptuoso, o colérico, eles têm estas paixões próprias: inimigos da verdade, da castidade, da mansidão; e no campo do respeito humano são inacessíveis a qualquer virtude. O respeito humano não apresenta o aspecto de um defeito particular, torna-se o foco de todos os vícios. Escravo do respeito humano, o homem é capaz de transgredir todos os Mandamentos de Deus e da Igreja, faltar a todos os deveres e praticar todo o mal.
III — Motivos do respeito humano
1º O mundo tem horror à verdade e ao bem — O mundo tem horror à verdade e ao bem e aos que representem estas coisas. O ideal do mundo é o mal. Ora o mal é a negação do bem.
Moisés, que suportou tantas fadigas no governo de seiscentos mil homens, a ouvir as suas queixas e a apaziguar as suas discórdias, quando esperava do seu povo louvores e agradecimentos, ouve da boca de um pastor estas amargas palavras: “és néscio e doido em tomares sobre ti tantos negócios!”.
Vasti[1], esposa de Assuero, ao invés de ser louvada pela compostura e modéstia, porque recusou fazer alarde da sua formosura perante a multidão dos convidados, a tiveram unicamente por cabeçuda e teimosa.
Como queremos que os maus nos não tenham aversão se as nossas ações são uma repreensão contínua ao seu mau viver? Com a nossa piedade confundimos a sua falta de religião; com a nossa honestidade, a sua dissolução; com a nossa caridade, a sua avareza. Miram-se em nós como em espelhos e veem esses infelizes todas as suas fealdades. Que admira, pois, que nos desprezem, que nos escarneçam e maltratem, semelhantes ao camelo que, em vendo água clara e nela a sua enorme fealdade, revolve-a com os pés até turvá-la completamente?! “Os ímpios abominam os que andam pelo caminho reto” (Prov. 29,27). Assim como somos naturalmente levados a desculpar nos outros aquelas faltas que reconhecemos em nós mesmos, assim também, infelizmente, nos sentimos inclinados a desaprovar, ou, pelo menos, a desprezar nos outros as virtudes que não temos força de praticar. Eis aqui a verdadeira razão pela qual os maus murmuram das pessoas virtuosas.
2º O mundo quer perder as almas — O mundo sorri sarcasticamente e escarnece dos que têm religião e piedade porque ele quer prender e matar como outrora. Ele diz e faz como os irmãos de José: “Que quer este sonhador?”. E concluíram: “Lancemo-lo numa cisterna”. O cristão não deve temer o opróbrio dos homens. “Nolite timere opprobrium hominum” (Is 51,7). Um cristão deve manifestar que há nas suas convicções uma força maior do que todas as paixões dos adversários.
IV — Gravidade do respeito humano
