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terça-feira, 15 de novembro de 2011

Exame de Consciência dum Cristão Medíocre

Exame de Consciência dum Cristão Medíocre

Jacques Debout
Da omissão em si mesma

Eu acuso-me de ter omitido os meus pecados de omissão; de me ter contentado com o mal que não cometi para levar comigo na eternidade; de ter considerado a moral cristã unicamente como uma mortificação e não como uma vida, como uma mutilação e não como uma expansão, como um travão e não como um impulso de progresso, como um muro de resguardo e não como um trampolim.

Eu acuso-me de ter olhado o bem a fazer como um dever bastante impreciso, preferencialmente facultativo e depressa cumprido, de me ter persuadido que a cólera eterna de Deus era unicamente provocada pela impiedade e pelos pecados contra a santa virtude; de ter batizado como bom Cristão um senhor que vai à Missa ao Domingo, cumpre o preceito pascal e de maneira nenhuma dá ocasião a que falem dele; de ter considerado excelente Cristão o senhor que recebe o clero à sua mesa e leva um círio na procissão, e de cristão, como eram necessários muitos, aquele senhor que, dentro de casa, protesta ruidosamente contra os inimigos da ordem e da sã doutrina.

A omissão de adorar na oração

Eu acuso-me de ter olvidado que a oração é uma adoração, de não ter compreendido que é necessário que o Nome de Deus seja santificado, que o Seu Reino chegue, e que a Sua vontade seja cumprida antes que Ele nos conceda, ou melhor, a fim de que Ele nos conceda o nosso pão.

Eu acuso-me de ter inquietado a Deus com os meus interesses, sem previamente eu me ter ocupado dos Seus.

Eu acuso-me de ter invocado a Deus à maneira dos pagãos, unicamente para obter êxitos e curas, sobretudo quando, encontrando-se esgotados os meios humanos, a intervenção sobrenatural surgia, ou como um trunfo a mais no jogo, ou como a última carta a jogar.

A oração pela sua alma

Eu acuso-me, portanto, de não ter possuído o cuidado da minha beleza sobrenatural; de não ter solicitado a Deus esta delicadeza, este esmero espiritual, o qual constitui a forma requintada do Amor Divino; acuso-me de apenas haver solicitado a Graça da Salvação, e não a graça para ser belo e bom segundo a beleza e a bondade Divinas, vivendo a Sua Vida sobrenatural; acuso-me de não haver visto na Graça senão um para-raios e não a veste nupcial, apenas uma garantia e não um valor positivo.

Eu acuso-me de não ter deplorado a minha impureza senão como um perigo e não como uma vilania; o meu egoísmo apenas como erro de cálculo e não como uma enfermidade; o meu orgulho como uma desordem e não como uma deformidade.

Acerca do valor da oração

Eu acuso-me de não haver acreditado profundamente no poder da oração; de nela não ter acreditado senão à força de nervos, sob a pressão da angústia e como um meio desesperado; de ter rezado sem fervor e simplesmente para não perder Deus, último recurso, assim eu me possa fiar nos meus recursos, nos meus cálculos, nas mi­nhas oportunidades.

Eu acuso-me de ter procurado a Providência quase unicamente na minha própria atividade; de não haver compreendido que a minha ação, para ser forte, feliz e útil, tem necessidade que o Senhor edifique o lar e guarde a cidade; eu acuso-me de não ter compreendido que aqueles que rezam obram mais pelo mundo do que aqueles que trabalham, e que Josué fraqueja no combate quando esmorecem na oração os braços erguidos de Moisés.

Eu acuso-me de nunca me ter acusado de ignorância religiosa, de nem dela me desculpar, a tal ponto esta ignorância me parece normal; acuso-me de ter sido levado a pensar que a docilidade me dispensava da ciência, que esta pobreza de espírito predispunha para o Reino de Deus e que seria perigoso ultrapassar a Fé do carvoeiro.

Eu acuso-me de me ter completamente desinteressado da Doutrina Cristã, sob pretexto de assim nela mais respeitar os mistérios e o carácter sagrado; de ter sido, aliás, persuadido que o dever é de essência exclusivamente prática; que no domínio intelectual não existe outra obrigação senão obedecer; que para ser um bom Cristão é necessário observar os Mandamentos de Deus, bem como os da Santa Igreja, que é suficiente recitar o Símbolo dos Apóstolos, e mesmo de saber responder ‘Amém’.

Jacques Debout  

Fonte: Revista “Semper” – Priorado da FSSPX em Lisboa, Portugal. 


* Jaques Debout, cujo nome canônio é René Roblot, 1872-1939, foi um religioso e um homem de letras francês. Ele também usou o pseudônimo de John St. Clair.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Quando os Sacerdotes são Castigo de Deus


São João Eudes
O maior sinal da ira de Deus sobre um povo e a mais terrível punição que sobre ele pode descarregar neste mundo é permitir que, em castigo dos seus crimes, venha a cair nas mãos de pastores que mais o são de nome do que de fato, que mais exercitam contra ele a crueldade de lobos famintos que a caridade de solícitos pastores, e que, em lugar de o alimentar cuidadosamente, o dilacera e devora com crueldade; que, em vez de levar o povo a Deus, o vende a Satanás; que em lugar de o encaminhar para o Céu, o arrasta com eles para o inferno; e, em vez de serem o sal da terra e a luz do mundo, são o seu veneno e as suas trevas.

Porque nós, sacerdotes e pastores, disse São Gregório, o grande, seremos condenados diante de Deus como "assassinos das almas que, todos os dias, vão para a morte eterna pelo nosso silêncio e nossa negligência". Diz também este mesmo Santo: “Nada há que tanto ultraje a Nosso Senhor (e, por conseguinte, que mais provoque a Sua ira e atraia mais maldições sobre os pastores e sobre o rebanho, sobre os sacerdotes e sobre o povo) como os exemplos de uma vida depravada dados por quem Ele estabeleceu para correção dos demais; quando pecam os que devem reprimir pecados"; quando os sacerdotes não cuidam da salvação das almas, quando não se preocupam mais do que em satisfazer as suas inclinações, quando todas as suas afeições terminam em coisas da terra; quando se alimentam com avidez da vã estima dos homens; quando para satisfazerem as suas ambições abandonam os trabalhos de Deus para se entregarem aos do mundo; quando, ocupando um lugar de santidade, se ocupam de questões terrenas e profanas e não mais pregam a verdadeira fé, a única que indica O Caminho, A Verdade e A Vida.

Quando Deus permite que isto suceda é prova muito certa de que está encolerizado contra o seu povo, sendo este o maior castigo que lhe pode enviar neste mundo.1 Por isso Nosso Senhor diz incessantemente a todos os católicos: "Convertei-vos a Mim e dar-vos-ei pastores segundo o Meu Coração". Daqui resulta muito claramente que o desregramento da vida dos pastores é um castigo pelos pecados do povo; e que, pelo contrário, pela imensa maioria do clero mundial, a começar pela reforma litúrgica que subverteu com dano incomensurável o Santo Sacrifício da Missa?... (N. do T.) o maior efeito da misericórdia de Deus dirigido ao Seu povo e a mais preciosa graça que pode outorgar-lhe é dar-lhe sacerdotes segundo o Seu Coração, que não buscam mais do que a Sua glória e a eterna salvação das almas.


São João de Eudes

 Fonte: Revista “Semper” – Priorado da FSSPX em Lisboa, Portugal.




[1] Porém, este castigo torna-se ainda mais severo quando o povo anestesiado pelo Príncipe das Trevas já não consegue entender que os pastores, sejam eles sacerdotes ou cardeais, em vez de o conduzir para Deus, o está arrastando para a condenação eterna. O tempo actual é prova irrefutável deste estado de coisas. Quantos são os católicos que se aperceberam de que até o próprio João Paulo II foi proferindo muitas e gravíssimas heresias completamente contrárias à imutável doutrina instituída por Nosso Senhor Jesus Cristo - e destes, quantos são os que recusam aceitar todas as novas (e falsas) doutrinas propagadas

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