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sexta-feira, 20 de julho de 2012

A Selva - QUARTA INSTRUÇÃO - A pregação e a administração do sacramento da penitênci

         Santo Afonso Maria de Ligório
(27/09/1696 - 02/08/1787)
Bispo de Santa Àgata
Confessor
Doutor Zelosíssimo da Igreja
Fundador dos Missionários Redentoristas

A Selva



SEGUNDA PARTE - MATERIAIS PARA AS INSTRUÇÕES
QUARTA INSTRUÇÃO


A pregação e a administração do sacramento da penitência


Se todos os pregadores e confessores satisfizessem aos seus ministérios, como devem, estaria o mundo cheio de santos. Os maus pregadores e os maus confessores são a ruína do mundo; e por maus entendo os que não exercem o seu ministério como convém.

Falemos em primeiro lugar do modo de anunciar a palavra de Deus; depois trataremos da administração do sacramento da Penitência.

I - A pregação

É pela pregação que a fé se propaga, e é também pela pregação que o Senhor quer que ela se conserve: Crê-se porque se ouve, e ouve-se porque a palavra de Jesus Cristo é pregada1. Mas não basta que o cristão saiba o que tem a fazer; é necessário que se lhe recorde de quando em quando a divina palavra, se lhe mostre a importância da sua salvação eterna e os meios a empregar para a conseguir. Por isso o Apóstolo fazia a Timóteo esta recomendação: Prega a palavra; insiste a tempo e contra tempo; repreende, suplica, faze argüições; não cesses de ensinar com muita paciência 2.

E foi o que o próprio Deus outrora mandou a Isaías e Jeremias: Clama, não cesses, faze retenir a tua voz como uma trombeta, e lança em rosto ao meu povo os seus crimes 3. Eis que ponho as minhas palavras na tua boca.Hoje te constituo sobre as nações e sobre os reinos, para que arranques e destruas... edifiques e plantes4. A mesma obrigação impôs o Senhor aos padres, por ser a pregação uma das suas principais funções: Ide pois, ensinai todos os povos... a observar os mandamentos que vos dei5. E se algum pecador vier a perder-se, por não ter tido ninguém que lhe anuncie a palavra de Deus, o Senhor pedirá contas da sua alma ao padre, que lha podia anunciar: Quando eu digo ao ímpio: Tu morrerás; se tu não o advertires, ele morrerá na sua iniqüidade, mas eu te pedirei contas do seu sangue 6.

Para salvar, porém as almas, não basta pregar; é necessário, como no princípio dissemos, pregar convenientemente. Ora, a primeira condição para bem pregar é a ciência, acompanhada do estudo; quem prega ao acaso e sem preparação, faz de ordinário às almas mais mal do que bem. A segunda condição é uma conduta exemplar. Despreza-se a palavra do pregador, quando se lhe despreza a vida, diz S. Gregório7. Lemos na Obra imperfeita: Desmentís com as vossas obras o que afirmais com as vossas palavras 8. Como persuadir por palavras aos outros o que se lhes dissuade pelas ações? Tudo quanto o pregador possa então dizer, só servirá para o condenar.

Como diz S. Paulo, a si próprio se condena quem dá exemplo do mal que censura nos outros: Não tens desculpa, ó tu, que julgas os outros! Porque, ao julgá-los, a ti mesmo te condenas9. Daí a bela resposta do venerável João de Ávila, a quem lhe perguntava qual a regra melhor a seguir para bem pregar: “Amar muito a Jesus Cristo”. Um facho apagado não pode incendiar, dizia também S.Gregório 10. É necessário que o pregador primeiro se incenda do divino amor, para poder depois afervorar os outros. Dizia S. Francisco de Sales: “Fala o coração ao coração”11. Queria significar que as palavras só por si ressoam aos ouvidos, mas não penetram no coração; só aquele que prega do coração, isto é, que sente o que diz, só esse pode falar ao coração dos outros e movê-los a amar o Deus. Eis por que um pregador deve amar muito a oração, para dela haurir os sentimentos que deve comunicar aos outros, conforme as palavras do Redentor: O que vos digo ao ouvido, pregai-o em público 12. É a oração a ditosa fornalha, em que os oradores se inflamam no amor divino: Na minha meditação se ateará o fogo13. Ali se preparam os dardos de fogo que penetram os corações dos ouvintes.

Além disto, é preciso que na pregação se tenha em vista um fim reto: que se pregue, não sob o impulso de algum interesse temporal, mas para glória de Deus; não para conseguir aplausos efêmeros, mas para salvar as almas. Neste intuito, procurará o pregador acomodar-se à capacidade dos ouvintes, como ordena o Concílio de Trento: Por si próprios, ou por outros pregadores idôneos, cuidarão os arciprestes de apascentar as almas que lhes estão confiadas, fazendo-lhes ouvir palavras salutares e amoldadas à sua capacidade 14. “É necessário evitar os quamquam e os longos períodos dos pedantes, dizia S. Francisco de Sales; tudo isso é a peste da pregação15.

Assim é de fato, primeiramente, porque Deus não presta o seu concurso a esta maneira balofa de pregar; e em segundo lugar porque os ouvintes de ordinário são pessoas pouco instruídas, que não compreendem uma linguagem arrebicada. Que pena causa ver por vezes tanta pobre gente afluir a um sermão, sem colher dele nenhum fruto! Ei-los a sair da igreja, tristes e desanimados, por não terem compreendido o que lhes pregaram! O venerável João de Ávila, falando dos que pregam em estilo sublime, e ininteligível para seus ouvintes, dizia com razão que são traidores a Jesus Cristo esses que, enviados a procurar-lhe a glória, só se aplicam a pregar-se a si próprios.

Com não menos razão que são traidores a Jesus Cristos esses que, enviados a procurar-lhe a glória, só se aplicam a pregar-se a si próprios. Com não menos razão, o Pe. Gaspar Sanzio lhes chama os maiores perseguidores hodiernos da Igreja, porque se tornam causa da perda de muitas almas, que uma pregação simples e verdadeiramente apostólica teria salvado. O Apóstolo, que pregava animado do verdadeiro espírito de Deus, escrevia aos Coríntios: Ao pregar-vos, não me tenho servido dos discursos persuasivos da sabedoria humana, mas antes dos efeitos sensíveis do espírito e da virtude de Deus16. Ao ler as vidas dos santos que trabalharam na salvação das almas, encontro muitos que foram louvados por terem pregado duma maneira simples e popular; não tenho encontrado nenhum que o fosso por haver pregado em estilo elegante e florido.

A este propósito, convirá referir aqui resumidamente o que escreveu o sábio e célebre Luís Muratori no seu livro de ouro — Da Eloqüência popular.Eis o que ele diz: Há duas espécies de eloqüência: uma sublime, outra popular.

Com a eloqüência sublime, compõem-se discursos cheios de pensamentos profundos, de argumentos engenhosos, expressões brilhantes e períodos arredondados; com a eloqüência popular, expõe-se simplesmente as verdades eternas, e ensinam-se coisas ao alcance de todos os auditórios, em estilo simples e familiar, de tal modo que cada um possa compreender tudo quanto lhe é anunciado. Nos sermões, não se fala somente a pessoas instruídas, mas a ignorantes, que de ordinário compõem a maior parte dos auditórios. Eis por que sempre convém pregar dum modo simples e popular, não só nas missões e exercícios espirituais, mas em todos os sermões feitos ao povo. Diante de Deus, tão preciosas são as almas dos sábios como as dos ignorantes, e o pregador é obrigado a procurar a vantagem duns e doutros, indistintamente, conforme a palavra do Apóstolo: Sou devedor aos sábios e aos ignorantes17. Por outro lado, mesmo aos sábios, os sermões em estilo simples e familiar são mais proveitosos, que em estilo sublime e florido; porque, quando se assiste a esses discursos brilhantes e elevados, facilmente o espírito se detém a admirá-los, ou a criticá-los, — o que as mais das vezes acontece; e pela sua parte a vontade, privada do seu alimento, pouco fruto colhe deles. O Pe. Paulo Segneri le Jeune, pregando duma maneira popular, arrebatava, diz Muratori, o coração dos próprios sábios. Outro tanto acontecia com os sermões de S. João Francisco Regis.

Assim, quem quer pregar, não para ser louvado, mas para ganhar almas para Deus, não deve desejar que digam dele: Ó que belos pensamentos! que orador brilhante! que grande talento! — Deve proceder de modo que todos os seus ouvintes se retirem cabisbaixos, a chorar os seus pecados, decididos a mudar de vida e a dar-se a Deus. Tal é o fim da verdadeira retórica: persuadir, tocar os ouvintes, e movê-los à prática das exortações que se lhes dirigem. De resto, a eloqüência popular não esquece os segredos da arte oratória: admite as figuras, a ordem das razões, o colorido, a peroração, — mas sempre com simplicidade, sem afetação, no intuito único de fazer fruto, e não de conquistar aplausos. Se em tais sermões os ouvintes não gozam o prazer de admirar a beleza da elocução e a sutileza das reflexões, colhem como fruto luzes e motivos, para trabalharem com ardor no único negócio importante, que é a sua salvação eterna.

Tudo isso, segundo Muratori, tem aplicação aos sermões pregados nas cidades, onde o auditório é composto de ignorantes e pessoas instruídas; mas acrescenta que, quando se prega apenas ao povo humilde e aos habitantes dos campos, se deve usar da eloqüência mais popular e chã, para acomodar a linguagem à curta inteligência dos pobres aldeões. É necessário que o pregador se considere como um dentre eles, que quisesse ensinar outro, ou persuadi-lo a cumprir algum dever. Devem portanto as expressões ser populares e usuais, os períodos curtos e desembaraçados, conforme o costume de raciocinar dessas pessoas. Numa palavra, todo o cuidado do pregador deve ter por objeto fazer compreender aos ouvintes o que lhes diz, e inspirar-lhes a resolução de praticarem as exortações; neste empenho deve empregar a forma mais própria para os impressionar. De acordo com o estilo, devem também os pensamentos ser simples e fáceis, evitando pontos discutidos pelos escolásticos, assim como interpretações engenhosas da Escritura que, embora bem compreendidas, seriam inúteis para essa gente.

Consiste o talento do pregador em lhes expôr com simplicidade as verdades eternas, a importância da salvação, os artifícios do demônio, e os perigos em que se podem perder; indiquem-se-lhes os meios a empregar nos casos particulares, que lhes possam ocorrer, mas tudo isso de modo que nada exceda a sua capacidade. É assim que se parte o pão, conforme o Senhor manda aos pregadores, queixando-se dos que não cumprem o seu dever: Pediram pão os pequeninos, e não havia quem lho repartisse18. É também muito conveniente, quando se prega a pessoas ignorantes, entremiar por vezes perguntas e respostas no sermão. Convém ainda citar-lhes os exemplos dos santos e pôr-lhes diante dos olhos os castigos, que Deus há infligido aos pecadores. Acima de tudo, importa insinuar-lhes coisas práticas, e repetir-lhas muitas vezes, para que lhe fiquem gravadas na memória.

Foi isto o que Muratori escreveu, mas com maior desenvolvimento. Quis apresentar aqui um resumo, para fazer compreender a todos os pregadores que, em vez de colherem aplausos, provocam até as censuras das pessoas instruídas, quando falam em linguagem alevantada ao pobre povo, de que se compõe ordinariamente o auditório nas igrejas.

Nada mais diremos aqui sobre a pregação. Ao falarmos dos exercícios nas missões, esperamos acrescentar outras reflexões, sobre o modo de pregar em missão, e acerca da ordem a observar nos sermões. Vamos falar agora da administração do sacramento da Penitência.

II - Administração do Sacramento da Penitência

1. Grave responsabilidade dos confessores

O grande Papa S. Pio V disse: Haja confessores capazes, e veremos uma reforma completa em toda a cristandade19. Quer isto dizer que um bom hábil confessor deve antes de tudo olhar o seu ministério como uma função cheia de espinhos e perigos; razão por que o Concílio de Trento lhe chamou uma carga terrível, até para ombros de anjos20. De fato, que coisa mais arriscada, diz S. Lourenço Justiniano, do que assumir a pesada obrigação de prestar contas da vida dos outros?21 Não há matéria, diz S. Gregório, em que o erro seja mais funesto22. Certo é que, se uma alma se perder por culpa do confessor, o Senhor lhe exigirá contas dela: Eu lhes perguntarei o que fizeram das minhas ovelhas23. É o que o Apóstolo nos declara: Obedecei aos vossos superiores e sujeitai-vos a eles; porque superintendem em vós, como quem há de responder pelas vossas almas diante de Deus24. Donde conclui S. Gregório que o confessor tem por assim dizer tantas almas, como penitentes, e de todas essas há de dar contas a Deus25. E S. João Crisóstomo ajunta esta reflexão: Se o termos de dar conta dos nossos pecados é pensamento que nos faz tremer, em que há de confiar o que tem de responder por muitas pessoas? 26
Não tem isto aplicação aos bons padres que, compenetrados dum santo temor, se preparam convenientemente para o cabal desempenho deste terrível ministério, e só o exercem no intuito de levarem as almas para Deus.Fala-se aqui dos que se atrevem a ouvir confissões com vistas mundanas, quer por interesse temporal, quer por amor próprio, e algumas vezes sem a ciência suficiente.

2. Ciência requerida para bem ouvir as confissões

Quem intenta ressuscitar as almas dos outros, necessita de muita graça e duma ciência não medíocre. É S. Lourenço Justiniano quem assim fala 27.Para ser bom confessor, é preciso em primeiro lugar ter muita ciência. Há quem olhe a ciência moral como muito fácil; mas Gerson afirma com razão que é a mais difícil de todas as ciências. Antes dele disse S. Gregório Magno: A direção das almas é a arte das artes 28. E S. Gregório de Nazianzo: A meu ver, dirigir os homens é a ciência das ciências29. S. Francisco de Sales dizia igualmente que o ministério de confessor é o mais importante e difícil de todos os ministérios; e tinha razão: é o mais importante, porque dele depende a salvação eterna, que é o fim de todas as ciências. É também o mais difícil porque a ciência moral exige o conhecimento de muitas outras ciências, e abrange uma multidão de matérias diferentes. O que a torna sobremaneira difícil é a necessidade de variar as decisões, conforme as circunstâncias múltiplas e os casos diversos, que se apresentam. O princípio, por exemplo, que aplica a um caso, acompanhado de certa circunstância, não poderá aplicar-se a outro revestido duma circunstância diferente.
Há sacerdotes que desprezam a leitura dos moralistas e imaginam que, para confessar, basta conhecer os princípios gerais da moral, mediante os quais dizem, se resolvem facilmente os casos particulares. — Eis a minha resposta: É certo que todos os casos se devem resolver por meio de princípios; mas a dificuldade está em aplicar com precisão aos diferentes casos os princípios que lhes convém, e é o que têm feito os moralistas: têm procurado fazer ver segundo que princípios se deve resolver um grande número de casos particulares. Além disto, sem falar do antigos cânones, há hoje, em bulas e decretos, tantas leis positivas que o confessor é obrigado a conhecer!Mui difícil lhe será ter um conhecimento suficiente dessas leis, sem ler os autores de moral. O sábio autor da Instrução para os novos confessores diz com razão — que não é raro encontrar teólogos tão ignorantes em moral, como profundos nas ciências especulativas. No entanto, segundo Sperelli, os confessores que só se entregam ao estudo da escolástica, e olham como perdido o tempo dado ao estudo da moral, laboram em grande erro; acontece-lhes, como ele diz, não saberem distinguir entre lepra e lepra. E ajunta:Este erro leva à perdição eterna confessores e penitentes 30.
Devemos pois persuadir-nos de que a administração do sacramento da Penitência exige muita ciência, e ao mesmo tempo muita prudência; porque um confessor, sem prudência, por sábio que seja, pouco fruto tirará do seu ministério, e até por vezes fará mais mal do que bem.

3. Caridade e firmeza que deve ter o confessor

Acima de tudo, necessita o confessor da santidade, para se manter com firmeza no exercício de seu ministério. Se não estiver adiantado na santidade, dizia S. Lourenço Justiano, não poderá trabalhar na salvação do próximo, sem prejudicar a sua 31.

I. Precisa ele, primeiro que tudo, dum grande fundo de caridade, para acolher todos os que o procurem: pobres, ignorantes e pecadores. Padres há que não confessam senão pessoas devotas; se lhes aparece um pobre aldeão, de consciência embrulhada, ouvem-no com impaciência e despendemno com dureza. Assim, esse desgraçado que se fez uma grande violência para se vir confessar, ao ver-se repelido, ganha horror ao sacramento, não ousa aproximar-se, e entrega-se desesperado a uma vida dissoluta. O Redentor divino, que veio para salvar os pecadores, e sempre foi cheio de caridade para com eles, dirige a tais confessores a censura que um dia fez a seus discípulos: Vós não sabeis de que espírito deveis estar animados 32. Não procedem assim os confessores caridosos, que observam a exortação do Apóstolo: Como eleitos de Deus, como santos e queridos dele, tomai entranhas de misericórdia33. Quanto maior é um pecador que se lhes depara, e mais graves as suas iniquidades, tanto mais se esforçam por ajudá-lo, redobrando de caridade para com ele. Não sois encarregados de castigar como juízes de criminosos, mas de curar, diz Hugo de S. Vitor, como juízes de doentes34. É necessário, sim, advertir o pecador, para lhe fazer conhecer o estado miserável, em que se encontra de se condenar; mas sempre com caridade, exortando-o a não perder a confiança na misericórdia divina, e fornecendo-lhe os meios para se corrigir.
Ainda mesmo que o confessor se veja na necessidade de diferir a absolvição, deve contudo despedir sempre o seu penitente com doçura, marcando-lhe o tempo em que deve voltar, e apontando-lhe os remédios, de que deve fazer uso, a fim de se dispôr para a absolvição. É deste modo que se salvam os pecadores, e não exacerbando-os com censuras, que poderiam lançá-los na desesperação. Dizia S. Francisco de Sales que se caçam mais moscas com uma gota de mel, do que com abundantes aloes. — Mas dir-se-á que para tudo isso, é necessário muito tempo; e então os que esperam não podem confessar-se. — A isso respondo que mais vale confessar um só pecador, que um grande número imperfeitamente. A melhor resposta porém, é que o confessor não tem que prestar contas a Deus dos que estão à espera, mas só daquele a quem começou a ouvir de confissão.

II. Em segundo lugar, precisa o confessor de uma grande firmeza, e em particular para ouvir as confissões das mulheres. Quantos padres, em ocasiões tais, têm perdido a sua alma! Acham-se em relação com meninas, ou moças solteiras, ouvem a confissão das suas tentações e muitas vezes das suas quedas; porque também elas são de carne. A própria natureza nos faz afeiçoar às mulheres, principalmente quando elas vem com tanta confiança revelar-nos as suas misérias; e quando são pessoas piedosas, dadas à espiritualidade, o perigo do apego é ainda maior, como diz o Doutor angélico, por que então exercer maior atrativo sobre o nosso coração. No entender do mesmo santo, de parte a parte cresce a afeição, e à proporção dela crescerá o apego, sob a aparência de piedade, a princípio; mas depois o demônio facilmente conseguirá que a afeição espiritual se torne carnal 35.
Precisa também de muita firmeza para repreender os penitentes e recusar-lhes até a absolvição, quando se apresentarem mal dispostos, e isto apesar da nobreza e poderio deles, embora corra perigo de ser taxado de indiscreto ou ignorante. Não procureis ser juiz, se não vos reconheceis com coragem para reprimirdes as iniqüidades: não aconteça que vos acabardes diante dos poderosos36. Um padre da nossa Congregação, tendo uma vez recusado com justiça a absolvição a um sacerdote, a quem confessava na sacristia, este desgraçado levantou-se orgulhoso e não se envergonhou de lhe dizer de cara: “Seja, não passas de uma besta”.

Não há remédio; estão expostos a estas aventuras os pobres confessores, obrigados a recusar ou diferir a absolvição aos penitentes indispostos dalgum modo: ou porque não querem sujeitar-se às justas obrigações que lhes impõem, ou porque são recidivos, ou se encontram em ocasião próxima de pecado.
Devemos deter-nos aqui, a examinar a conduta que o confessor tem a seguir a respeito dos ocasionários e recidivos, assunto que exige dele o máximo cuidado, desde que queira salvar os seus penitentes. Mas é preciso que comecemos por observar que são igualmente perigosos para o confessor os dois extremos: o excessivo rigor e a demasiada indulgência para com os penitentes.
A demasiada indulgência, diz S. Boaventura, gera a presunção; o demasiado rigor leva ao desespero37. Sabido que é que muitos confessores pecam por demasiada indulgência, e assim causam um mal, que chamaremos não só grande, mas grandíssimo; porque os libertinos, — que são o maior número, — correm de preferência a estes confessores relaxados, e neles encontram a sua perda. Mas é igualmente certo que o excessivo rigor é ainda mais funesto às almas: Vós os governáveis com severidade e altivez, e as milhas ovelhas se dispersaram38. Assegura Gerson que o demasiado rigor só serve para lançar as almas no desespero, e do desespero em desenfreamentos extremos39. Depois acrescenta: Não devem os teólogos precipitar-se a afirmar que certa ação ou omissão é um pecado grave, sobretudo quando a matéria é controversa e não certa. É também o sentir de S. Raimundo 40. A mesma linguagem emprega Sto. Antonino: É muito perigoso decidir se um determinado ato é pecado mortal ou somente venial, a não ser que haja fundamento expresso na autoridade da sagrada Escritura, nalgum cânon, numa decisão da Igreja, ou numa razão evidente 41. Com efeito, acrescenta ele, aquele que, sem se firmar nalgum desses fundamentos, decide que determinada ação é mortal, aedificat ad gehennam, isto é, coloca as almas em perigo de se condenarem. Noutra parte, ao falar dos vão adornos das mulheres, o santo arcebispo exprime-se nestes termos: Quando o confessor vir claramente, de modo a não poder duvidar, que tal pessoa peca gravemente nesta matéria, não a absolva enquanto se não emendar.
No caso porém de não poder determinar, duma maneira certa, se a culpa é mortal ou venial, não precipite o seu juízo, não recuse a absolvição; não diga à penitente: É um pecado mortal. No caso contrário, se ela em seguida procedesse de encontra a esta decisão, pecaria mortalmente, embora a matéria em si não fosse grave; porque tudo o que é contrário à consciência condena ao inferno (desde que se apreenda como grave). E como é mais próprio das leis desligar do que ligar, e vale mais, segundo S. João Crisóstomo, ter de responder diante de Deus por uma excessiva misericórdia, do que por um exagerado rigor, o melhor partido a tomar nestes casos duvidosos parece que é absolver, deixando a Deus o cuidado de os julgar42. Silvestre professa a mesma doutrina43. Tal é também o sentir de João Nider que, depois de apontar a opinião de Guilherme, acrescenta: A nossa opinião concorda com a de Bernardo Clermont que diz: Quando uma opinião é discutida entre autores de peso, dos quais uns pensam que uma tal ação é pecado e outros negam, deve o confessor consultar alguns homens que lhe inspirem confiança e seguir a opinião deles. Pois, quando uma coisa é controvertida entre os sábios, e a Igreja ainda não decidiu, põe cada um optar pela opinião que lhe aprouver, contanto que se funde no parecer dos que julga mais autorizados 44.
E isto está de acordo com a doutrina de Santo Tomás: Não pode escusar-se de erro quem segue a opinião de qualquer mestre, em oposição com o ensino claro da Escritura, ou contra o sentir comum e aprovado pela Igreja 45.Portanto, em sentido contrário, segundo o Doutor angélico, é lícito tomar como regra uma opinião autorizada, que não se opõe ao texto formal da Escritura, nem a decisão alguma da Igreja. Em confirmação desta doutrina, citemos enfim uma passagem cheia de força, de Gabriel Biel, que florescia pelos fins do século quinze: A primeira opinião parece mais provável, porque não se deve avançar que uma certa falta é mortal, sem haver uma razão evidente ou um texto claro da Escritura 46.

4. Regra a praticar com os ocasionários e recidivos
Examinemos agora em particular qual deve ser, na prática, a conduta do confessor a respeito dos penitentes, que estão em ocasião próxima do pecado, e dos que recaiem habitualmente nalgum vício.

I. Quanto aos primeiros, é necessário distinguir muitas espécies e ocasiões:

1. Divide-se a ocasião em remota e próxima: remota aquela em que as quedas têm sido raras, e ainda aquele em que os homens, geralmente falando, só raras vezes caem; proxima per se é aquela em que os homens têm o costume de cair sempre ou quase sempre; e ocasião proxima per accidens, ou ocasião relativa, é aquele em que o pecador cai freqüentes vezes, — conforme o sentir mais verdadeiro e comum, contra os teólogos que não reconhecem como próxima senão a ocasião, em que se cai sempre ou quase sempre.
2. Há mais a ocasião voluntária, e a ocasião necessária: voluntária a que se pode facilmente remover; necessária a que não se pode evitar, sem grande detrimento, ou sem dar grande escândalo a outrem.
Posto isto, grande número de doutores ensinam que se pode absolver primeira e segunda vez o penitente que está em ocasião próxima, mesmo voluntária, contanto que tenha a firme resolução de a remover logo que possa.Mas é necessário distinguir, com S. Carlos Borromeu na Instrução aos confessores, as ocasiões chamadas in esse, como ter uma concubina na sua companhia, das que não são in esse, como seria, por exemplo, o jogo ou certa sociedade com pessoa habituada a blasfemar, maldizer etc.Quanto às ocasiões que não são in esse, S. Carlos ensina que, quando o penitente promete firmemente abandoná-las, pode-se absolvê-lo duas ou três vezes; mas, se depois se não vir emenda, é necessário diferir-lhe a absolvição até que de todo remova a ocasião.
É quando as ocasiões in esse, diz o Santo que não se pode conceder a absolvição ao penitente, sem que ele afasta primeiro a ocasião; a simples promessa não basta. Falando em geral, deve seguir-se esta opinião, conforme o provamos na nossa Teologia moral 47, pela autoridade dum grande número de doutores. A razão é que o penitente não estaria bem disposto para receber a absolvição, se pretendesse obtê-la antes de ter afastado a ocasião; por causa do perigo próximo em que se encontraria de faltar à sua resolução, e à obrigação grave, em que já estava de remover essa ocasião.
Afastar uma ocasião próxima é coisa muita dura e difícil, que exige grande violência; ora, tal violência dificilmente se fará quando já se houver recebido a absolvição; passado o temor de não ser absolvido, de bom grado se lisonjeará o penitente de poder resistir à tentação, sem afastar a ocasião, e, permanecendo assim exposto ao mesmo perigo, certamente recairá; é o que nos mostra a experiência de tantos desgraçados que, recebida a absolvição de confessores demasiado indulgentes, não se tendo dado ao trabalho de remover a ocasião, recaíram e se tornaram piores que antes! Visto pois o perigo em que o penitente está de faltar à promessa, que fez de remover a ocasião, não tem as disposições requeridas para ser absolvido, desde que o quer ser antes de remover a ocasião; o confessor que neste estado o absolve certamente peca.
É necessário notar aqui que, geralmente falando, quando se trata do perigo de pecados formais, e sobretudo de pecados vergonhosos, quanto mais o confessor usar de severidade para com os meus penitentes, melhor contribuirá para a salvação da sua alma. Pelo contrário quanto mais indulgente se mostrar, mais duro se lhes tornará. Dos confessores demasiado indulgentes dizia S. Tomás de Vilanova, que são deshumanamente humanos — Impie pios. Tal caridade é contra a caridade.
Dissemos acima ordinariamente falando, porque, em alguns casos raros, poderia o confessor dar a absolvição, antes de se haver afastado a ocasião, por exemplo, se o penitente já tivesse testemunhado uma firme resolução de se corrigir, junta com uma viva compunção, e por outro lado não pudesse remover senão longo tempo depois, ou não pudesse voltar mais ao mesmo confessor; ou enfim se ocorressem outras circunstâncias extraordinárias, que obrigassem o confessor a absolver. Estes casos porém são muitíssimos raros, tornando-se por isso difícil poder absolver os que estão em ocasião próxima, se não a removerem antes, sobretudo se já prometeram fazê-lo e não o fizeram. E não venha dizer-se que o penitente disposto tem direito estrito à absolvição, desde que confessou os seus pecados; porque os doutores ensinam comumente que ele não tem direito a recebê-la logo depois da confissão, e que o confessor pode e até deve, como médico espiritual, diferir-lha, quando entender que a dilação possa ser útil para a emenda do seu penitente.

Isto quanto à ocasião voluntária, mas, se a ocasião é necessária, por via de regra, não há obrigação precisa de a remover; porque então, como o penitente não quer essa ocasião, antes a sofre e permite a pesar seu, há motivo para que o Senhor lhe conceda maiores socorros para resistir à tentação.Assim, por via de regra, pode-se dar a absolvição a quem está em ocasião necessária, contanto que esse esteja resolvido a empregar todos os meios para não recair. Os meios principais que ao pecador se devem inculcar para se corrigir, quando se encontrar em ocasiões necessárias, são três:

1.º - A fuga da ocasião, evitando quanto possível, encontrar-se de frente a frente com a pessoa sua cúmplice, entreter-se confidencialmente com ela, e mesmo olhar para ela.
2.º - A oração, implorando continuamente o socorro de Deus e da santíssima Virgem para poder resistir.
3.º - A freqüência da confissão e da comunhão, em que se recebem as forças para vencer o inimigo.
Disse — por via de regra — porque se o penitente, apesar de todos os meios empregados, recair sempre, sem nenhuma emenda, então o sentir comum mais verdadeiro, e que se deve seguir, é que se recuse a absolvição, se não remover a ocasião, ainda mesmo que isso lhe custasse a vida ( etiam cum jactura vitae, segundo a linguagem dos doutores), porque a vida eterna deve ser preferida à temporal. De mais, embora na ocasião necessária se possa, sem faltar às regras da moral, absolver o penitente disposto, contudo, quando se trata de pecados carnais, será sempre bom, ordinariamente falando, diferir a absolvição, até que se tenha visto por uma experiência conveniente e assás longa, de vinte ou trinta dias, que o penitente pôs fielmente em prática os meios que lhe foram sugeridos e não recaiu mais. Acrescentarei que, quando o confessor vir que é vantajoso diferir a absolvição, é obrigado a fazê-lo; porque um confessor é obrigado a empregar os remédios mais próprios para operar a cura do seu penitente. Além disto, em matéria de pecados sensuais, se o penitente está habituado de longe a viver na impudicícia, não lhe bastará evitar as ocasiões próximas; terá mesmo de fugir a certas ocasiões, em si mesmas remotas, mas que para ele se devem considerar próximas, em razão da fraqueza extrema, a que as suas recaídas o têm reduzido, e da propensão que contraiu para um tal vício.

II. Falemos em segundo lugar dos recidivos, que é necessário distinguir dos habitudinários.

Chamam-se habitudinários os que cometem habitualmente algum pecado, mas que ainda não confessaram o seu mau hábito. Se estes pecadores estão bem dispostos, isto é, sinceramente arrependidos e no propósito de empregar os meios para destruírem o hábito contraído, podem absolver-se a primeira vez que se confessem, assim como quando se confessarem depois de haverem por espaço notável renunciado ao seu mau hábito. É necessário contudo notar que, quando o mau hábito já está contraído, e principalmente se é inveterado, pode o confessor diferir a absolvição para experimentar o penitente, e ver como ele se aplica a praticar os meios que lhe são prescritos.Os recidivos são os que, depois da confissão, recaíram no mesmo hábito mau, sem nenhuma emenda. Não podem ser absolvidos, se só derem os sinais ordinários, isto é, se se contentarem com confessar os seus pecados, dizendo que se arrependem e estão no propósito de não recair.
Com justiça, Inocêncio XI condenou esta proposição: “Quando um penitente tem um pecado habitual contra a lei de Deus, contra a lei natural ou contra a lei da Igreja, ainda mesmo que não dê nenhuma esperança de emenda, não se lhe deve recusar nem diferir a absolvição, contanto que ele diga de boca que se arrepende e forma o propósito de se emendar48. Eis por que esta proposição foi condenado. É verdade que a própria confissão, com a afirmação do penitente, de que está arrependido e disposto a emendar-se, dá ao confessor uma certeza moral das suas boas disposições, contanto que não haja a presunção em contrário; mas, uma vez contraído o mau hábito e tendo o penitente recaído depois de recebida a absolvição, sem mostrar nenhuma emenda, essas recaídas então fazem suspeitar com fundamento que a dor e o propósito não são verdadeiros. Eis a razão por que neste caso se deve diferir a absolvição, até que a emenda, por algum tempo, e a prática dos meios prescritos demonstrem as boas disposições do penitente.
Importa observar aqui, que esta regra se aplica não só aos recidivos em pecados mortais, mas até aos recidivos em pecados veniais, muitos dos quais se confessam por costume, mas sem dor nem propósito. Se estes querem receber a absolvição, deve o confessor ao menos exigir que lhe apresentem matéria certa para o sacramento, acusando alguma falta mais grave da sua vida passada, que mais lhes pese e que estejam na resolução de não tornar a cometer.
Assim, para absolver tais recidivos, exige-se a prova do tempo, ou pelo menos sinais extraordinários de boas disposições que, — ao contrário do que dizia a proposição condenada — façam transparecer alguma esperança fundada de emenda. Eis, segundo o sentir dos doutores, quais são os sinais:

1.º - Uma grande compunção, manifestada em lágrimas ou por palavras saídas, não da boca, mas do coração, palavras que algumas vezes mostram melhor que as lágrimas a disposição do penitente.
2.º - Uma diminuição notável no número dos pecados, todas as vezes que o penitente se encontra nas mesmas ocasiões e tentações.
3.º - Precauções tomadas para não recair, evitando as ocasiões e pondo em prática os meios que lhe haviam sido prescritos; ou até uma grande resistência à tentação antes de sucumbir de novo.
4.º - Pedir o penitente remédios, ou novos meios para sair do pecado, com verdadeiro desejo de se corrigir.
5.º - Procurar ele o confessor, não por um piedoso costume estabelecido, como pelo Natal ou em certa festa, não por obediência a pais, mestres ou superiores, mas guiado por uma inspiração divina, para se congraçar com Deus, sobretudo se isso se lhe tornou custoso, fazendo uma longa viagem, ou se para vir teve de vencer grandes dificuldades e fazer-se dura violência.
6.º - Se foi movido a confessar-se por um sermão que ouviu, ou por uma morte repentina, ou por uma desgraça iminente, ou por algum outro motivo espiritual extraordinário.
7.º - Se acusa pecados que a vergonha lhe tinha feito calar nas suas confissões passadas.
8.º - Se, em seguida às advertências, que o confessor lhe dirige, mostra que recebeu um notável acréscimo de luz, e concebeu novo horror do seu estado e do perigo de se condenar.
9.º - Alguns doutores dão também como sinal extraordinário a promessa firme de empregar os remédios prescritos pelo confessor; mas é raro que se possa confiar bastante nessas promessas, não havendo outro sinal; porque os penitentes, para conseguirem a absolvição, prometem facilmente muitas coisas que talvez, nem mesmo então, estejam na resolução de cumprir.

Com esses sinais extraordinários, pode o confessor absolver o recidivo; mas pode também diferir-lhe a absolvição por algum tempo, quando isso lhe possa aproveitar. Quanto a saber se é sempre conveniente, em casos tais, diferir a absolvição ao penitente disposto, — é uma questão discutida entre os doutores; uns negam, outros afirmam, contanto que a dilação não ofenda a reputação do penitente, por exemplo: se, não se aproximando da sagrada Mesa, houvesse de dar aos outros suspeita positiva do pecado cometido.

Quanto a mim, como disse na minha Instrução aos confessores ( Homo. apost. tr. ult. punct. 2), entendo que, quando não há ocasião extrínseca e se trata de pecados cometidos por fragilidade intrínseca, tais como blasfêmias, ódios, poluções, deleitações morosas etc., raras vezes há vantagem em diferir a absolvição, porque sempre se poderá esperar mais do socorro da graça, que o penitente recebe pela absolvição, que da demora que lhe impusesse. Quando houver porém uma ocasião extrínseca, embora necessária, penso, como anteriormente disse, que sempre será útil, e as mais das vezes indispensável para a emenda do penitente, ainda que disposto, diferir-lhe a absolvição.
 
Notas:
1. Fides ex auditu, auditus autem per verbum Christi (Rom. 10, 17).
2. Praedica verbum: insta opportune, importune; argue, obsecra, increpa, in omni patientia et doctrina (2. Tim. 4, 2).
3. Clama, ne cesses: quasi tuba, exalta vocem tuam, et annuntia populo meo scelera eorum (Is. 58, 1).
4. Ecce dedi verba mea in ore tuo: ecce constitui te hodie super gentes et super regna, ut evellas, et destruas... et aedifices, et plantes (Jer. 1, 9).
5. Euntes ergo, docete omnes gentes... servare omnia quaecumque mandavi vobis (Matth.28, 19).
6. Si, dicente me ad impium: Morte morieris; non annuntiaveris ei... ipse impius in iniquitate sua morietur, sanguinem autem ejus de manus tua requiram (Ezech. 3, 18).
7. Cujus vita despicitur, restat ut ejus praedicatio contemnatur (In Evang. hom. 12).
8. Denegatis in opere, quod videmini profiteri in verbo (Hom. 40).
9. Inexcusabilis es, o homo omnis qui judicas! in quo enim judicas alterum, teipsum condemnas (Rom. 2, 1).
10. Lucerna quae non ardet, non accendit (In Ezech. hom. 11).
11. De la Prédic. ch. 5, a. 1.
12. Quod in aure auditis, praedicate super tecta (Matth. 10, 27).
13. In meditatione mea exardescet ignis (Ps. 38, 4).
14. Archipresbyteri, per se vel per alios idoneos, plebes sibi commissas, pro earum capacitate, pascent salutaribus verbis (Sess. 5, de Refor. c. 2).
15. De la Prédic. ch. 5, a. 1.
16. Praedicatio mea, non in persuasibilibus humanae sapientiae verbis, sed in ostensione, spiritus et virtutis (1. Cor. 2, 4).
17. Sapientibus et insipientibus debitor sum (Rom. 1, 14).
18. Parvuli petierunt panem, et non erat qui frangeret eis (Thren. 4,4).
19. Dentur idonei confessarii; ecce omnium christianorum plena reformatio.
20. Onus angelicis humeris formidandum (Sess. 6. de Refor. c. 1).
21. Periculosa res est, pro peccatoribus se fidejussorem constituere (De Inst. proel. c. 6).
22. Nullibi periculosius erratur.
23. Requiram gregem meum de manu eorum (Ezech. 34, 10).
24. Obedite praepositis vestris, et subjacete eis; ipsi enim pervigilant, quasi rationem pro animabus vestris reddituri (Hebr. 13, 17).
25. Quot regendis subditis praeest, reddendae apud eum rationis tempore, ut ita dicam, tot solus animas habet (Mor. l. 24. c. 30).
26. Si horremus, dum peccatorum propriorum rationem reddituri sumus, quid illi exspectandum est, qui tam multorum nomine causam sit dicturus? (De Sacerdot. l. 3).
27. Gratia indiget plurima, et sapientia non modica, qui proximorum animas ad vitam resuscitare conatur (De Compunc. p. 2).
28. Ars est artium regimen animarum (Past. p. 1. c. 1).
29. Scientia scientiarum mihi esse videtur hominem regere (Ap. 1).
30. Qui error confessarios simul et poenitentes in aeternum interitum trahet.
31. Nemo, nisi valde sanctus, absque sui detrimento, proximorum curis occupatur (De Casto Conn. c. 2).
32. Nescitis cujus spiritus estis (Luc. 9, 55).
33, Induite vos ergo, sicut electi Dei, sancti et dilecti, viscera misericordiae (Col. 3, 12).
34. Vos non, quasi judices criminum, ad percutiendum positi estis, sed, quasi judices morborum, ad sanandum (Mis. l. 1. tit. 49).
35. Spiritualis devotio convertitur in carnalem (De Modo conf.).
36. Noli quaerere fieri judex, nisi valeas virtute irrumpere iniquitates, ne forte extimescas faciem potentis (Eccli. 7, 6).
37. Cavenda est conscientia nimis larga, et nimis stricta; nam prima generat praesumptionem, secunda desparationem. Prima saepe salvat damnandum; secunda, e contra, damnat salvandum (Comp. theol. l. 2. c. 52).
38. Cum austeritate imperabatis eis, et cum potentia; et dispersae sunt oves meae (Ezech. 34, 4).
39. Per tales assertiones nimis duras et strictas, praesertim in non certissimis, nequaquam eruuntur homines a luto peccatorum, sed in illud profundius, quia desperatius, immerguntur.Doctores theologi ne sint faciles asserere actiones aliquas aut omissiones esse mortalia, praesertim in non certissimis (De Vita sp. lect. 4. cor. 11).
40. Non sis nimis pronus judicare mortalia peccata, ubi tibi non constat per certam Scripturam (Summ. l. 3. de Poenit. § 21).
41. Quaestio qua quaeritur de aliquo actu utrum sit peccatum mortale vel non, nisi ad hoc habeatur auctoritas expressa Scripturae sacrae, aut Canonis, seu determinationis Ecclesiae, vel evidens ratio, non nisi periculosissime determinatur (P. 2. tit. 1. c. 11. § 28).
42. Ex praedictis igitur videtur dicendum quod, ubi in hujusmodi ornatibus confessor inveniat clare indubitanter mortale, talem non absolvat, nisi proponat abstinere a tali crimine. Si vero non potest clare perspicere utrum sit mortale vel veniale, non videtur tunc praecipitenda sententia (ut dicit Gulielmus specie in quadam simili), ut scilicet deneget propter hoc absolutionem, vel illi faciat conscientiam de mortali; quia, faciendo postea contra illud, etiamsi illud non esset mortale, ei erit mortale, quia omne quod est contra conscientiam, aedificat ad gehennam. Et cum promptiora sint jura ad absolvendum quam ad ligandum (Can. Ponderet.dist. 1), et melius si Domino reddere rationem de nimia severitate, ut dicit Chrysostomus (Can. Alligant, 26. q. 7), potius videtur absolvendum et divino examini dimittendum (P. 2. tit. 4.c. 5. § 8.).
43. Dico, secundum Archiepiscopum, quod tuta conscientia potest quis eligere unam opinionem, et secundum eam operari, si habeat notabiles doctores, et non sit expresse contra determinationem Scripturae vel Ecclesiae etc. (Summa, verbo scrupulus 5º).
44. Concordat etiam Bernardus claramontensis, dicens: Si sunt opiniones inter magnos dicentes quod peccatum est, alii vero dicunt quod non, tunc debet consulere aliquos, de quorum judicio confidit, et secundum consilium discretorum facere, et peccatum reputare vel non reputare; ex quo enim opiniones sunt inter magnos, et Ecclesia non determinavit alteram partem, teneat quam voluerit, dummodo judicium in hoc resideat propter dicta eorum saltem quos reputat peritos (Consol. tim. consc. p. 3. c. 12).
45. Qui ergo assentit opinioni alicujus magistri, contra manifestum Scripturae testimonium, sive contra id quod publice tenetur secundum Ecclesiae auctoritem, non potest ab erroris vitio excusari (Quodlibet. 3. a. 10).
46. Prima opinio videtur probabilior, quia nihil debet damnari tamquam mortale peccatum, de quo non habetur evidens ratio vel manifesta auctoritas Scripturae (In 4. Sent. d. 16. q. 4. concl.5).
47. Theolog. mor. l. 6. n. 454.
48. Poenitenti habenti consuetudinem peccandi contra legem Dei, naturae, aut Ecclesiae, etsi emendationis nulla spes appareat, nec est neganda nec differenda absolutio, dummodo ore proferat se dolere et proponere emendationem (Prop. 60).


Fonte: Volta para Casa
PDF do livro: www.redemptor.com.br
CONTINUA...

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