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quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Lourenço: além das estrelas, o mártir que protegeu o Graal

De A Bússola
Por Rino Cammilleri

São Lourenço, por que tanto de estrelas pelo ar anil arde e cai?[1]. Assim começa a poesia de Pascoli[2] “X Agosto”, e eu, estudante do ensino fundamental, enquanto, obrigado, a decorava, me perguntava o que significava aquele 'X'. Apenas no nível médio viria a saber que não era uma letra, mas o numeral romano para 10. 

O poeta tinha seus motivos (o assassinato de seu pai) para ligar a festa de São Lourenço[3] ao “choro de estrelas”[4], mas o mártir do século III nada tinha a ver com os meteoros que se incendeiam brevemente ao entrarem na atmosfera. Lembro-me delas, precisava olhar na direção das Plêiades[5], à noite e no campo, por volta, justamente, do dia 10 de agosto[6]. Mas isso há muito tempo atrás, em uma galáxia muito, muito distante, quando a poluição, até mesmo a luminosa, deixava os céus noturnos do Sul literalmente salpicados de estrelas. 


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Não, não é pelo pobre Lourenço que o céu estivo chora. Se realmente se quer encontrar o maravilhoso na história de São Lourenço, precisa mirar mais alto, à “lenda das lendas”, que é o Graal. Sim, porque Lourenço está envolvido nisso. É não é dito que seja uma lenda. Mas procedamos com ordem.

Lourenço era um dos diáconos de Papa Sisto II[7], aos tempos das perseguições. A Lourenço foi confiada também o caixa da diocese de Roma; em particular, incumbia a Lourenço ocupar-se da assistência. Os Apóstolos tinham criado os primeiros sete diáconos justamente por isso, para aliviar-se da incumbência de ter que prover às viúvas, aos órfãos e aos necessitados com os fundos que os primeiríssimos cristãos compartilhavam. Sisto II sofreu o martírio, em seguida coube a Lourenço.

A este último foi reservado o suplício da grelha para que revelasse onde havia colocado as “riquezas” da Igreja. Ele apontou para os pobres, para os quais aquelas “riquezas” haviam sido gastas. Então, ele gritou para o carrasco que poderia até virá-lo, visto que um lado já estava “cozido”, e entregou sua alma a Deus. Lourenço era hispânico, por isto o catoliquíssimo imperador Filipe II[8] deu ao seu palácio real[9] a forma de um “escorial”, uma grelha.


Bem, no ano 258, visto que as coisas iam mal, Sisto II tinha confiado a Lourenço alguns objetos preciosos a serem protegidos. Preciosos para a Fé, é claro. Lourenço os havia levado a seu país, a Huesca[10]. Entre estes objetos havia também uma taça de ágata preciosa, aquela com a qual o Papa celebrava a Missa. Porque era especial, aquela taça? Porque com ela costumava celebrar São Pedro, que a tinha levado para Roma de Antioquia, e em Antioquia a havia trazido de Jerusalém. Com aquela taça os vinte e dois[11] sucessores celebraram até o tempo de Sisto II. Era o cálice que Jesus usara na Última Ceia. Nela, o vinho havia sido transformado em seu sangue. De fato, a frase com a qual na Missa se procedia à consagração devia ser considerada literalmente: “...tomou este cálice precioso...”[12]. Mas a taça que continha o Sangue de Cristo é o Santo Graal[13]

O que aconteceu com o Graal de Huesca[14]? Atravessou os séculos passando por várias mãos, sempre protegido para subtrai-lo primeiro aos Vândalos, arianos, e depois aos muçulmanos. Em 1399, o rei de Aragão, Martim I[15], o mandou colocar na Catedral de Zaragoza[16] e adornar com acréscimos em ouro. Em 1424, o rei Alfonso o Magnânimo[17] o doou à cidade de Valência[18], que desde 1437 o guarda em sua catedral. Com ele os papas João Paulo II e o atual Bento XVI, de visita, celebraram a Missa. No século XX, foi submetido a exames por uma equipe de estudiosos que, por unanimidade, concordaram que se trata, efetivamente, de um objeto em uso na Palestina do primeiro século[19].


Porque na Idade Média o Graal era considerado “perdido” e, portanto, lendário? Pelo simples fato de que a Espanha era dominada por muçulmanos. E quem sabia onde estava o Graal evitava abrir a boca.



Tradução: Giulia d'Amore. 





O POEMA: X AGOSTO (em italiano)


San Lorenzo, io lo so perché tanto
di stelle per l'aria tranquilla
arde e cade, perché sì gran pianto
nel concavo cielo sfavilla.

Ritornava una rondine al tetto:
l'uccisero: cadde tra spini:
ella aveva nel becco un insetto:
la cena de' suoi rondinini.

Ora è là come in croce, che tende
quel verme a quel cielo lontano;
e il suo nido è nell'ombra, che attende,
che pigola sempre più piano.

Anche un uomo tornava al suo nido:
l'uccisero: disse: Perdono;
e restò negli aperti occhi un grido
portava due bambole in dono...

Ora là, nella casa romita,
lo aspettano, aspettano in vano:
egli immobile, attonito, addita
le bambole al cielo lontano.

E tu, Cielo, dall'alto dei mondi
sereni, infinito, immortale,
Oh! d'un pianto di stelle lo inondi
quest'atomo opaco del Male!

 

Ainda Sobre São Lourenço, veja:




  1. Hino a São Lourenço: http://precantur.blogspot.com.br/2013/08/hino-sao-lourenco.html
  2. Imagens de São Lourenço: http://sacragaleria.blogspot.com.br/2014/07/sao-lourenco.html
  3. Lourenço: além das estrelas, o mártir que protegeu o Graal: http://farfalline.blogspot.com.br/2011/08/lourenco-alem-das-estrelas-o-martir-que.html
  4. Uma breve Vitahttp://farfalline.blogspot.com.br/2015/08/sao-lourenco-martir.html.


[1] É uma liberalidade do autor. De fato, o poema começa assim: “San Lorenzo, io lo so perché tanto di stelle per l’aria tranquila arde e cade...(ou seja, “São Lourenço, eu o sei por que tanto de estrelas pel’ar tranquilo arde e cai...”).
[2] Giovanni Pascoli (San Mauro Pascoli, Itália, em 31 de Dezembro de 1855 - Bolonha, Itália, em 6 de Abril de 1912) foi um poeta italiano e um especialista clássico. Perdeu o pai ainda criança, assassinado.
[3] Lourenço de Huesca ou São Lourenço (Huesca ou Valência, Espanha, 225? — Roma, 10 de Agosto de 258) foi um mártir católico e um dos sete primeiros diáconos (guardiões do tesouro da Igreja) da Igreja Cristã, sediada em Roma. O imperador Valeriano I o mandou queimar vivo sobre um braseiro ardente, por cima de uma grelha. Este santo foi, desde o século IV, um dos mártires mais venerados e seu nome aparece no cânone da missa. Foi sepultado no cemitério de Ciriaca, em Agro Verão, sobre a Via Tiburtina. Constantino ergueu a primeira capela no local que ocupa atualmente a igreja de São Lourenço Extramuros, a qual é a quinta basílica patriarcal de Roma. É lembrado no dia 10 de Agosto.
[4]perché sì gran pianto nel concavo cielo sfavilla”: “por que tão grã choro no côncavo céu cintila”.
[5] As Plêiades são um grupo de estrelas na constelação do Touro.
[6] A Noite de São Lourenço (10 agosto) é tradicionalmente associada ao fenômeno das estrelas cadentes, consideradas evocativas dos carvões ardentes sobre os quais o santo foi martirizado. De fato, naqueles dias, a Terra atravessa o enxame meteórico das Perseidas e a atmosfera é atravessada por um número de pequenos meteoros muito mais alto do que o normal. O fenômeno resulta particularmente visível nas latitudes italianas por ser o céu estivo geralmente mais sereno. Célebre a poesia de Giovanni Pascoli, que interpreta a chuva de estrelas cadentes como lágrimas celestes, intitulada justamente, por causa do dia dedicado ao santo, "X agosto".
[7] Papa Sisto II (em latim, Sistus) foi o vigésimo quarto Papa, de 30 de Agosto de 257 até 6 de Agosto de 258. Ele morreu como mártir, durante a perseguição do Imperador Valeriano. Sisto II procurou unir a igreja cristã em torno dos sacramentos e da palavra de Deus. Perdoou os delatores, fortaleceu o espírito dos condenados pelo “crime capital de professar a fé em Jesus Cristo”. Reatou as relações com os bispos africanos e da Ásia Menor, interrompidas pela controvérsia sobre o baptismo dos hereges. Efetuou o translado dos restos de São Pedro e São Paulo. Sisto foi decapitado enquanto efetuava a cerimônia da consagração do pão, como fizera Jesus Cristo, encontrando a morte junto com muitos fiéis e inúmeros ministros sacramentados. Ele e os mártires que o acompanharam são lembrados no dia 7 de Agosto.
[8] D. Filipe II de Espanha (Valladolid, 21 de maio de 1527 — El Escorial, 13 de setembro de 1598) foi rei de Espanha, a partir de 1556, e rei de Portugal, como D. Filipe I, a partir de 1580.
[9] Monumental complexo mandado construir pelo rei Filipe II da Espanha para comemorar a vitória na Batalha de San Quintín, em 10 de Agosto de 1557, sobre as tropas de Henrique II, rei de França, e para servir de lugar de enterro dos restos mortais de seus pais, o Imperador Carlos I e Isabel de Portugal, assim como dos seus próprios e dos seus sucessores. A planta do edifício, com as suas torres, recorda a forma de uma grelha, em honra a São Lourenço, martirizado em Roma no suplício da grelha e cuja festividade se celebra a 10 de Agosto, dia da Batalha de San Quintín. Daí o nome do conjunto e da localidade criada à volta deste: El Real Sítio de San Lorenzo de El Escorial. Localizado em San Lorenzo de El Escorial, município situado 45 km a Noroeste de Madrid, na Comunidade de Madrid (Espanha).
[10] Osca (em castelhano: Huesca) é um município da Espanha, pertencente à comunidade autónoma de Aragão e capital da província de mesmo nome.
[11] Na realidade seriam vinte e três, excluindo-se São Pedro (o primeiro e já mencionado) e incluindo-se, necessariamente, Sisto II, que foi o vigésimo quarto Papa.
[12] Cânon Romano, mais antiga e principal oração eucarística do Missal de Pio V, em uso na Igreja Católica de Rito Romano: “accipiens et hunc præclarum Calicem in sanctas ac venerabiles manus suas”.
[13] O Santo Graal é o vaso ou cálice que Jesus Cristo usou para celebrar a Última Ceia com os Apóstolos. A tradição diz que São Pedro levou o cálice para Roma sendo conservado pelos seus sucessores até Sisto II. Nesta altura, no século III, o imperador Valeriano efetuava perseguições aos cristãos e São Lourenço de Huesca pediu ao Papa que o deixasse levar o Santo Graal para livrar a sua terra em Espanha das perseguições. Foi escondido na região dos Pirenéus durante a invasão muçulmana, tendo depois ido sucessivamente para o Mosteiro de San Juan de la Peña em Huesca, para os palácios dos reis de Aragão até que finalmente, em 1437, o rei Afonso V entregou a taça em ágata cornalina do século I à Catedral de Valência (fonte).
[14] O suposto itinerário do cálice começa por hipótese, na Terra Santa e percorre ao longo de quinze séculos, vários lugares consecutivos como Roma, Huesca, San Juan de la Peña, Zaragoza e Valência . O cálice ao chegar nas terras espanholas, foi transladado a Huesca, onde ficou durante onze séculos, alguns informam que permaneceu por algum tempo no monastério de Jaca, Yebra e San Pedro de Siresa. Os arquivos da coroa de Aragão guardam testemunho da entrega do cálice por São Lorenzo e de sua custódia em Huesca. No ano de 711 as invasões muçulmanas puseram a taça novamente em perigo. O bispo da época Adalberto decidiu se refugiar nos Pirineus com o Graal, finalmente escolhendo o monastério de San Juan de la Peña, na província de Huesca, aí o mesmo permaneceu até o século XV. No ano de 1399, o rei de Aragão, Martim I (o humano), solicitou o Graal para que este estivesse presente no Palácio de Aljaferia em Zaragoza durante o juramento dos seus foros. Pouco depois desta data o Monastério de San Juan de la Peña foi completamente destruído, salvando-se o cálice mais uma vez. O mesmo permaneceu em Zaragoza durante 38 anos, até 1437, durante o reinado de Afonso V (o magnânimo) e em seguida foi definitivamente transladado para a Catedral de Valência. Segundo os arqueólogos, esse Cálice foi confeccionado no séc. I, na Palestina, com ágata roxa, tendo nove centímetros de altura. As suas asas são de ouro, contendo rubis e esmeraldas incrustadas em sua base os quais foram colocadas no séc. XIII, dando ao conjunto o tamanho total de 17 centímetros. O cálice foi submetido a diversos estudos e estes que informam ser datado de uma época compreendida entre o séc. IV a.C. e o séc. I d.C. Poderia ter sido confeccionado na Palestina ou no Egito. (fonte).
[15] Martim I de Aragão (1356 - 31 de Maio de 1410), chamado de o Velho, o Humano, o Eclesiástico, foi rei de Aragão, Valência, Sardenha e Córsega e Conde de Barcelona desde 1396, e o rei da Sicília a partir de 1409 (como Martim II), exerceu entre 1387 e 1396 o Vice reinado da Catalunha.
[16] Zaragoza é a capital da comunidade autônoma de Aragão e da província de Zaragoza, na Espanha.
[17] Afonso V de Aragão (I de Napóles) (1396-1458), de cognome "o Magnânimo" ou o Grande. Nasceu em Medina del Campo, em 1394 e morreu em 27 de junho de 1458 em Nápoles.
[18] Valência ou Valença (València em valenciano e Valencia em castelhano) é a capital e a maior cidade da Comunidade Valenciana e terceira maior da Espanha.
[19] Vide nota 14, última parte, sobre o assunto.

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