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quarta-feira, 2 de março de 2016

As Origens do Liberalismo


(...) 

Se vocês não lerem muito, cedo ou tarde serão traidores, porque não terão compreendido a raiz do mal. Com estas fortes palavras um de meus colaboradores[4] recomendava aos seminaristas de Êcone a leitura de boas obras que tratem do liberalismo.

Com efeito, não se pode compreender a crise atual da igreja nem conhecer a verdadeira cara dos que ocupam a Roma atual, e em consequência ver que atitude tomar perante os fatos, se não se  procura as causas desta crise, se não se estuda seu curso histórico, e  se não se descobre sua fonte primeira neste liberalismo condenado  pelos papas dos últimos séculos.


Nossa luz: a voz dos papas


Partiremos das origens, como faziam os soberanos pontífices ao denunciarem as graves perturbações em curso. Além de acusarem o liberalismo, os papas vão mais longe no passado e todos, desde Pio VI até Bento XV, falavam da crise reduzindo-a para a luta encetada contra a Igreja no século XVI pelo protestantismo e pelo naturalismo, do qual aquela heresia foi a causa e a primeira  propagadora.


O RENASCIMENTO E O NATURALISMO

O naturalismo já se encontrava no renascimento, que no esforço para recuperar as riquezas das antigas culturas pagãs e particularmente a cultura e a arte dos gregos, conduziu à exaltação exagerada do homem, da natureza e das forças naturais.

Exaltando a bondade e o poder da natureza, menosprezava-se e desaparecia do pensamento dos homens a necessidade da graça, a destinação da humanidade para a ordem sobrenatural, a luz trazida pela revelação.  Sob o pretexto de arte quiseram introduzir por toda parte, até nas igrejas, esse nudismo (sem exagero se pode chamar de nudismo) que domina na capela sistina em Roma. Consideradas sob o ponto de vista artístico, estas obras tem seu valor; porém nelas prima o aspecto sensual da exaltação da carne, totalmente em oposição aos ensinamentos do evangelho: pois a carne luta contra o espírito, diz  São Paulo, e o espírito luta contra a carne. (Gal.V:17)

Não condeno esta arte se restrita aos museus mundanos, mas não vejo nela um meio de exprimir a verdade da redenção, ou seja, uma feliz submissão da natureza redimida à graça. Já na arte barroca da contra-reforma católica, meu julgamento é bem diferente, especialmente nos países que resistiram ao protestantismo: o barroco utilizar se ainda anjinhos rechonchudos mas esta arte de puro  movimento e expressões às vezes patéticas é um canto de triunfo da  redenção, um canto de vitória do catolicismo sobre o pessimismo de  um protestantismo frio e desesperado.


O PROTESTANTISMO E O NATURALISMO

Pode parecer estranho e paradoxal chamar o protestantismo de naturalista. Nada há em Lutero de exaltação à bondade intrínseca da  natureza porque, segundo ele, a natureza esta irremediavelmente  decaída e a concupiscência é invencível. No entanto a opinião excessivamente niilista que o protestante tem sobre si mesmo desemboca em um naturalismo prático: na intenção de menosprezar a natureza e de exaltar o poder só da fé, relegam a graça divina e a ordem sobrenatural ao domínio das abstrações. Para os protestantes a graça não opera uma verdadeira renovação interior; o batismo não é a restituição de um estado sobrenatural habitual, é somente um ato de fé em Jesus cristo que justifica e salva. A natureza não é restaurada pela graça, permanece intrinsecamente corrompida; e somente a fé obtém de Deus que deite sobre nossos pecados o manto pudico de Noé. Todo o organismo sobrenatural que o batismo agrega à natureza enraizando nela a graça, todas as virtudes infusas e os dons do Espírito Santo são reduzidos a nada, reduzidos a um só ato  forçado de fé-confiança em um redentor que gratifica somente para  retirar-se para longe a criatura, deixando um abismo intransponível  entre o homem definitivamente miserável e Deus transcendente três vezes santo. Este pseudo-supernaturalismo, como chama o Padre  Garrigou-Lagrange, deixa finalmente o homem, apesar de haver sido  redimido, sujeito somente à força de suas aptidões naturais;  fatalmente se afunda no naturalismo. Deste modo os extremos opostos se unem! Jacques Maritain exprime bem o desenlace naturalista do luteranismo: a natureza humana terá que rechaçar como um inútil acessório teológico o manto de uma graça que não é nada para  ela e cobrir-se com sua fé-confiança para converter-se em uma  bela besta livre, cujo infalível e continuo progresso encanta  hoje o universo inteiro [5].

Este naturalismo se aplicará à ordem civil e social: ficando a graça reduzida a um sentimento de fé-confiança, a redenção será  somente uma religiosidade individual e particular, sem influência na  vida pública. A ordem pública, econômica e politica fica condenada a viver e se desenvolver sem nosso Senhor Jesus Cristo. O protestante busca no seu êxito econômico o critério de sua justificação diante de Deus; assim, de bom grado escreverá sobre sua  porta: rendei honras a deus por teus bens, oferecei as primícias de  teus ganhos, então teus celeiros se encherão e teus tonéis  transbordarão de vinho. (Prov.III,9-10)

Jacques Maritain escreveu excelentes páginas sobre o materialismo do protestantismo, que dará nascimento ao liberalismo econômico e ao capitalismo:

E por três dos chamados de Lutero ao cordeiro que salva, por trás de seus movimentos de confiança e sua fé no perdão dos  pecados, há uma criatura humana que levanta a cabeça e faz  seus negócios no lodaçal em que está submersa por causa do  pecado de Adão! Desenvolver-se-á no mundo, seguirá a sede do poder, o instinto dominador, a lei deste mundo que é o seu mundo. Deus será somente um aliado um poderoso.  (op.cit.pag.52-53)

O resultado do protestantismo foi que os homens se apegaram ainda mais aos bens deste mundo, esquecendo-se dos bens eternos. E se um certo puritanismo chega a exercer uma vigilância exterior  sobre a moralidade pública, não impregnara os corações do espírito  verdadeiramente cristão, que é um espírito sobrenatural, onde reina a  primazia do espiritual. O protestantismo, necessariamente, será conduzido a proclamar a emancipação do temporal em relação ao espiritual. Esta emancipação, justamente, vai reencontrar-se no liberalismo. Os papas tiveram, portanto muita razão em denunciar  este naturalismo de inspiração protestante como sendo a origem do  liberalismo que transtornar· a cristandade em 1789 e 1848. Assim diz Leão XIII: esta ousadia de homens tão falsos que ameaça cada dia a  sociedade civil com maiores ruínas, e que estremece a todos  com inquietante preocupação, tem sua causa e origem nas  peçonhentas doutrinas que, difundidas entre os povos como Boas sementes em tempos passados, produziram em seu tempo frutos tão danosos. Bem sabeis, veneráveis irmãos, que a guerra cruel iniciada contra a fé católica pelos inovadores, desde o décimo sexto século e que vem recrudescendo  diariamente até o presente, tinha por fim unicamente afastar  toda revelação e toda ordem sobrenatural, para abrir a porta  aos inventos e delírios da razão [6].

E posteriormente, o papa Bento XV:

Desde os três primeiros séculos e desde as origens da Igreja, período em que o sangue dos cristãos fecundou toda a terra, pode-se dizer que nunca a igreja correu tão grande perigo  como o que se manifestou nos fins do século XVIII. Então uma filosofia em delírio, a continuação da heresia e a apostasia  dos inovadores, adquiriu sobre os espíritos um poder de  sedução, provocando transformação total, com o propósito  determinado de destruir as bases cristãs da sociedade, não  somente na frança, mas pouco a pouco em todas as nações[7].


NASCIMENTO DO NATURALISMO POLITICO

O protestantismo constituiu um ataque muito duro contra a igreja e ocasionou um desagregamento profundo na cristandade do século XVI, porém sem conseguir impregnar as nações católicas  com o veneno de seu naturalismo político e social. Isso só aconteceu quando este espírito secularizante chegou às universidades e em seguida àqueles que chamamos filósofos das luzes.

Filosoficamente o protestantismo e o positivismo jurídico têm origem no nominalismo surgido com a decadência da idade média (séc. XIV) que conduz tanto à Lutero com sua concepção puramente  extrínseca e nominal da redenção, como a descartes, com sua ideia  de uma lei divina indecifrável submetida somente ao arbítrio da  vontade de deus. Com São Tomás de Aquino, toda a filosofia cristã afirmava, ao contrário, a unidade da lei divina eterna e da lei humana natural: a lei natural é tão somente uma participação da lei eterna nas criaturas racionais. (Suma Teol. I-II,91,2)

Mas com Descartes já se põe uma ruptura entre o direito divino e o direito humano natural. Seguindo a descartes, os universitários e juristas não tardariam a tomar o mesmo caminho cismático.

Assim diz Hugo Grotius (1625), citado por Paul Hazard: e o direito divino? Grotius procura salvaguardá-lo: o que acabamos de dizer, declara, valeria mesmo se concordássemos (o que não pode ser concedido sem um crime) que não há  Deus e que os assuntos humanos não são objeto de seus cuidados. Não há dúvida alguma que Deus e a Providência existem, sendo portanto uma fonte de direito além da que provém da natureza. E mesmo este direito natural, pode ser atribuído a Deus, porque ele quis que estes princípios existissem em nós. A lei de Deus, a lei da natureza…, continua Paul Hazard, esta fórmula dupla não é Grotius que inventa (…) A idade média já a conhecia. Onde está seu caráter de novidade? De onde vem que seja criticada e condenada pelos doutores? Para quem é luminosa? A novidade consiste no aparecimento da separação de dois fins; em sua oposição, que tende a se afirmar; em uma tentativa de conciliação posterior, que por si só supõe a idéia de ruptura [8].

O jurista Pufendorf (1672) e o filósofo Locke (1689) darão o último toque para a secularização do direito natural. A filosofia das luzes imagina um estado de natureza que nada tem a ver com o realismo da filosofia cristã e que culmina com o mito do bom selvagem de Jean Jacques Rousseau. A lei natural fica reduzida a um conjunto de sentimentos que o homem tem de si mesmo e que são compartilhados pela maior parte dos outros homens; em Voltaire encontra-se o diálogo seguinte:

B: – o que é a lei natural?

A: – o instinto que nos faz sentir a justiça.

B: – a que você chama justo e injusto?

A: – ao que assim parece para o universo inteiro [9].

Tal conclusão é o fruto de uma razão desorientada, que na ânsia de emancipação em relação a Deus e à sua revelação cortou as ligações com os princípios da ordem natural, reforçados pela revelação divina sobrenatural e confirmados pelo magistério da igreja. Se a revolução separou o poder civil do poder da igreja, é porque ela originariamente já havia separado naqueles que se chamam filósofos, a fé e a razão. Vem a propósito relembrar o que ensina a respeito deste ponto, o Concilio Vaticano I (primeiro): não se pode nunca encontrar discordância entre a fé e a razão, pois elas se prestam mútua ajuda: a reta razão demonstra as bases da fé e, esclarecida por ela, cultiva a ciência das coisas divinas; e a fé, por sua vez, livra e defende a razão dos erros e lhe proporciona inúmeros conhecimentos [10].

Mais exatamente podemos dizer que a revolução se fez em  nome da deusa razão, da razão deificada, da razão que se faz norma  suprema do verdadeiro e do falso, do bem e do mal.


NATURALISMO, RACIONALISMO, LIBERALISMO

Desde já, podemos ver como todos os erros estão entrelaçados uns com os outros: liberalismo, naturalismo, racionalismo, são somente aspectos complementares do que se deve chamar  revolução. Onde a reta razão, esclarecida pela fé, vi somente harmonia e subordinação, a razão deificada cava abismos e levanta muralhas: a natureza sem a graça, a prosperidade material sem a procura dos bens eternos, o poder civil separado do poder  eclesiástico, a política sem deus nem Jesus Cristo, os direitos do  homem contra os direitos de Deus, finalmente a liberdade sem a  verdade.

Com este espírito se fez a revolução, que vinha se preparando a mais de dois séculos, como procurei mostrar, mas somente no fim  do século XVII culmina e de seus frutos decisivos: os frutos políticos como resultado dos trabalhos dos filósofos, dos  enciclopedistas e de uma extraordinária atividade da maçonaria [11], que em poucas décadas havia penetrado e estabelecido núcleos em  toda a classe dirigente.


A MAÇONARIA PROPAGADORA DESTES ERROS

O Papa Leão XIII nos mostra em “Quod Apostolici“, encíclica já citada, e também em “Humanum Genusi” de 20 de agosto de 1884  sobre a seita dos maçons, com que precisão, com que clarividência os soberanos pontífices denunciaram esta empresa:

“Em nossos dias os malfeitores parecem conspirar em conjunto e lutar com maior força, guiados e auxiliados por uma sociedade que chamam dos maçons, firmemente constituída e muito difundida (…). Os romanos pontífices, nossos predecessores, zelando cuidadosamente pela salvação do povo cristão, reconheceram logo quem era e o que queria este inimigo, assim que ele começou a sair das trevas de sua conjuração oculta, para se lançar ao ataque em plena luz do dia.”

Leão XIII cita então os papas que já haviam condenado a maçonaria: Clemente XII, na encíclica “In Eminent” de 27 de abril de 1738 lança uma excomunhão contra os maçons; Bento XIV renova esta condenação na encíclica “Providas” de 16 de março de 1751; Pio VIII pela encíclica “Ecclesiam“de 13 de setembro de 1821 acusa especialmente os “Carbonari“; Leão XII em sua Constituição Apostólica “Quo Graviorai” de 13 de março de 1826 denuncia a sociedade secreta “A Universitária” que procurava perverter a juventude; Pio VIII na “Traditi” de 24 de março de 1829, e Pio IX na alocução “Consistorial” de 25 de setembro de 1865 e na encíclica “Quanta Cura” de 8 de dezembro de 1864, falaram no mesmo sentido.

Posteriormente, deplorando a pouca atenção dispensada pelos governantes apesar de tantas advertências, Leão XIII constata os espantosos progressos da seita: vemos como resultado, que no período de um século e meio a seita dos maçons fez incríveis progressos. Empregando simultaneamente a astúcia e a audácia, invadiu todos os setores da hierarquia social e começou a tomar, no interior dos estados modernos, um poder que equivale à soberania.

O que ele diria hoje, quando todos os governos obedecem aos decretos das lojas maçônicas! [12]. Agora mesmo, no assalto à hierarquia da igreja, o espírito maçônico e a própria maçonaria progridem solidamente. Voltaremos ao assunto.

O que é então o espírito maçônico? Eis em poucas palavras o que diz o senador Goblet d’Aviello membro do grande oriente da Bélgica, falando na loja dos amigos filantrópicos de Bruxelas em 5 de agosto de 1877: “Digam aos neófitos que a maçonaria… é antes de tudo uma escola de vulgarização e aperfeiçoamento, uma espécie de laboratório onde as grandes  idéias do momento vim a se combinar e se firmar para se espalhar pelo mundo profano sob uma forma palpável e prática. Digam-lhes em uma palavra, que somos a filosofia do liberalismo. Fique então claro, caros leitores, que embora não a mencione sempre, a maçonaria é o centro dos temas que lhes falarei em todos os capítulos seguintes.


Do Liberalismo à Apostasia - D. Marcel Lefebvre
__________
4 Padre Paul Aulagnier, 17 de setembro de 1981.
5 Trois Reformateurs, p·g. 25
6 Enciclica Quod Apostólici de28 de dezembro de 1878.
7 Carta Anno Jam Exeunte De 7 De Março De 1917, Paz Interior Das NaçIes (Pin.486) vide bibliografia.
8 la Crise De La Conscience Européenne, 1680-1715, Fayard, Paris, 1961; 3a parte, cap. 3.
9 Voltaire, Diálogos Filosóficos, A.B.C., 1768, Quarto Di·Logo, Da Lei Natural E Da Curiosidade Citado Por Paul Hazard, Op.Cit.
10 Const. De Fide Catholica, Dei Filius, Dz Nº1799.
11 – 1517: Rebelião De Lutero, Que Queima A Bula Do Papa Em Wittenberg -1717: Fundação Da Grande Loja De Londres
12 Sem excluir os países comunistas, visto que os partidos comunistas são  simplesmente sociedades maçônicas, com a única diferença que nestes países elas são legais.


   
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