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sexta-feira, 31 de julho de 2015

MONS. LEFEBVRE: O que é necessário para a continuação da Igreja Católica

Publiquei este texto em 10/06/2012. O republico, agora, porque importante e necessário. 

OPERAÇÃO MEMÓRIA. Traduzi um extraordinário, esclarecedor e definitivo texto de Mons. Marcel Lefebvre, escrito no fim de sua longa vida (em 1990). Depois disto, não penso que tenha "mudado de ideia", continuando uma linha de raciocínio que foi sempre a mesma durante toda a sua vida; as aparentes mudanças de rota em seu pensamento e ideias na verdade eram mera consequência das mudanças do pensamento e ideias na Igreja Liberal. À qual ele nunca pertenceu. Quem fizer uso da inteligência que lhe foi dada do Alto no momento que vem ao mundo (ler abaixo), compreenderá perfeitamente o que este texto quer dizer. Tirando o itálico, que ficou no texto seguindo o padrão normativo da Língua Portuguesa, retirei todos os grifos da versão italiana, porque não sei se estão também no original ou se (perdoem-me se não foi isso) quiseram "guiar" a leitura do texto, coisa que deve ser evitada, pois nem sempre é a ênfase que o autor original pretendia. Muitos blogs usam este recurso de grafar, negritar, colorir os textos, em uma vã tentativa, consciente ou não, de que o leitor veja ou sinta o que o blogueiro pretende... Vã, porque na maioria das vezes causa mais confusão que outra coisa. A Fé é a adesão da Razão às Verdades Reveladas. O uso da razão nos faz Católicos, e não devemos permitir que outro nos "guiem", pois pode se dar o caso que o outro seja mais cego do que nós, em que pese se trate de um santo (ler abaixo também). Mons. Lefebvre tinha ideias claras e simples, honestas. É um insulto à sua memória manipular suas palavras; é também uma ofensa à Fé que ele morreu - catolicíssimo! - defendendo.

Ah! Sim... E, ao contrário do que ando ouvindo por aí, quem morreu foi Mons. Lefebvre, não seu pensamento, suas ideias, sua vontade, seu legado e, principalmente, seu combate.

Giulia d'Amore

* * *

O que é necessário para a continuação da Igreja Católica


Saint Michel en Brenne, 29 de janeiro de 1990

Caríssimos leitores,

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Tendo chegado à noite de uma longa vida – pois, nascido em 1905, vejo o ano de 1990 – posso dizer que minha vida foi marcada por acontecimentos mundiais extraordinários: três guerras mundiais, a de 1914-1918, aquela de 1939-1945 e a do Concílio Vaticano II, de 1962-1965.

Os desastres acumulados por estas três guerras, e especialmente pela última, são incalculáveis no campo das ruínas materiais, mas muito mais no das ruínas espirituais. As duas primeiras prepararam a guerra no interior da Igreja, facilitando a ruína das instituições cristãs e o domínio da Maçonaria, que se tornou tão poderosa a ponto de permear profundamente, com a sua doutrina liberal e modernista, os organismos diretores da Igreja.


Instruído, graças a Deus, desde o meu seminário em Roma, pelo reitor do Seminário francês, o Venerado Padre Le Floch, e pelos professores, os Reverendos Padres Voetgli, Frey e Le Rohellec, sobre o perigo mortal que essas influências são para a Igreja, eu pude constatar durante a minha vida sacerdotal quanto eram justificados os apelos deles à vigilância, baseados nos ensinamentos dos Papas e, sobretudo, de São Pio X. Eu pude constatar, às minhas próprias custas, como essa vigilância era justificada, não só doutrinariamente, mas também pelo ódio que essa suscitava nos ambientes liberais laicos e eclesiásticos, um ódio diabólico.

Os inúmeros contatos que, por causa dos encargos que me foram conferidos, tive com as mais altas autoridades civis e eclesiásticas em muitos países, e particularmente na França e em Roma, me deram a preciosa confirmação de que o vento era geralmente favorável a todos aqueles que estavam dispostos a se comprometer com os ideais maçônicos liberais, e desfavorável à firme manutenção da doutrina tradicional. Creio que posso dizer que poucas pessoas na Igreja puderam ter e fazer esta experiência informativa como eu fiz, não por minha iniciativa, mas pela vontade da Providência. Missionário no Gabão, os contatos com as autoridades civis eram evidentemente mais frequentes do que como vigário na Diocese de Lille. Aquele tempo de missão foi marcado pela invasão gaullista [1]: pudemos, então, constatar a vitória da Maçonaria contra a ordem católica de Pétain [2]. Era a invasão de bárbaros, sem fé nem lei! Talvez um dia minhas memórias irão fornecer alguns detalhes sobre os anos que vão de 1945 a 1960, detalhes que ilustrarão essa guerra no interior da Igreja! Leiam os livros de M. Marteaux sobre aquele período: são reveladores.

Dentro e fora de Roma se acentuava a ruptura entre o liberalismo e a doutrina da Igreja. Os liberais, conseguindo fazer eleger Papas como João XXIII e Paulo VI, farão triunfar a doutrina deles através do Concílio, um meio maravilhoso para obrigar toda a Igreja a adotar os seus erros. Após eu testemunhar a luta dramática entre o Cardeal Béa e o Cardeal Ottaviani, que representavam o liberalismo, o primeiro, e a doutrina da Igreja, o segundo, restou claro, após a votação dos 70 cardeais, que a ruptura estava consumada. E podia-se pensar, sem medo de errar, que o apoio do papa iria para os liberais. O problema agora havia chegado à luz do sol! Que farão então os bispos conscientes do perigo que a Igreja corre? Todos constataram o triunfo, dentro da Igreja, das novas ideias saídas da Revolução e das Lojas [maçônicas]: 250 cardeais e bispos se regozijam de sua vitória; 250 estão aterrorizados; 1750 se esforçam para não fazer disso um problema e seguem o Papa: “Depois se verá...!”.

O Concílio termina, as reformas se multiplicam o mais rápido possível. Começa a perseguição aos cardeais e aos bispos fiéis à Tradição, depois, logo em seguida, por toda parte, contra os sacerdotes e os religiosos ou as religiosas que se esforçam para conservar a Tradição. É a guerra aberta contra o passado da Igreja e suas instituições: “Aggionamento! Aggiornamento!”.

O resultado do Concílio é muito pior do que o da Revolução: as execuções e os martírios são silenciosos; dezenas de milhares de sacerdotes, de religiosos e de religiosas abandonam os votos, outros se laicizam; as clausuras desaparecem; o vandalismo invadiu as igrejas: os altares são destruídos, as cruzes desaparecem; os seminários e os noviciados estão vazios. As sociedades civis ainda católicas se laicizam sob a pressão das autoridades romanas: Nosso Senhor já não reina sobre a Terra! O ensino católico é ecumênico e liberal. Os Catecismos são modificados e não são mais católicos. A Universidade Gregoriana de Roma se tornou mista; Santo Tomás não é mais a base do ensino.

Diante desta constatação pública, universal, qual é o dever dos bispos, oficialmente os membros responsáveis daquela instituição que é a Igreja? Que farão? Para muitos, a autoridade é intocável, mesmo que esta não se conforme mais ao fim para o qual foi instituída! [Eles pensam:] Aqueles que ocupam a Sé de Pedro e alguns bispos são os responsáveis; era mesmo necessário que a Igreja se adaptasse aos tempos! Os excessos passarão! Melhor aceitar a revolução em nossa diocese e manobrá-la do que contestá-la!

Entre os tradicionalistas, agora desprezados por Roma, um bom número apresentará a sua renúncia, e alguns morrerão de tristeza, como Mons. Morcillo, Arcebispo de Madrid, e Mons. McQuaid, Arcebispo de Dublin, e muitos bons sacerdotes. É evidente que se muitos bispos tivessem agido como Mons. de Castro Mayer, Bispo de Campos, no Brasil, a Revolução ideológica no seio da Igreja poderia ter sido limitada, porque não precisa ter medo de afirmar que as autoridades romanas atuais, a partir de João XXIII e Paulo VI, tornaram-se colaboradoras ativas da maçonaria judaica internacional e do socialismo mundial. João Paulo II é, antes de tudo, um politiqueiro filo-comunista a serviço de um comunismo mundial de nuance religiosa. Ele ataca abertamente todos os governos anticomunistas, e com suas viagens não faz qualquer renovamento católico. Essas autoridades romanas conciliares não podem, portanto, que se opor feroz e violentamente a qualquer reafirmação do Magistério tradicional. Os erros do Concílio e suas reformas restam a norma oficial consagrada pela profissão de Fé do Cardeal Ratzinger, em março de 1989 [em italiano; aceitação por parte de Dom Fellay em 2012 e apreciação a respeito dessa profissão por parte de Mons. Lefebvre ao Card. Ratzinger em 1989].

Ninguém negava que eu era membro oficial reconhecido do corpo episcopal. O Anuário Pontifício o afirmou até o momento da consagração dos Bispos em 1988, apresentando-me como Arcebispo-Bispo emérito da Diocese de Tulle. É por causa desse título de Arcebispo Católico que eu pensei em prestar um serviço à Igreja dilacerada pelos seus, fundando uma Congregação para a formação de verdadeiros sacerdotes católicos, a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, regularmente aprovada por Mons. Charrière, Bispo de Friburgo, na Suíça, e agraciada por uma Carta Laudatória do Cardeal Wright, prefeito da Congregação para o Clero. Eu podia pensar, fundamentadamente, que tal Fraternidade – que se queria agarrada a toda tradição da Igreja: doutrinal, disciplinar, litúrgica etc. – não restaria por muito tempo aprovada pelos demolidores liberais da Igreja [Irônico e trágico: agora, Dom Fellay quer justamente a aprovação - ou reconhecimento, que seja - dos mesmos demolidores liberais da Igreja que Mons. Lefebvre veementemente condenava!].

É um mistério que não existiram cinquenta ou cem Bispos agindo como Mons. de Castro Mayer e como eu: como verdadeiros sucessores dos Apóstolos contra os impostores. Não há orgulho nem imodéstia em dizer que Deus, em Sua misericordiosa Sabedoria, salvou a herança do Seu sacerdócio, de Sua graça, de Sua revelação, por meio desses dois Bispos. Não fomos nós a nos escolhermos, mas Deus nos guiou, ao conservar todas as riquezas da Sua Encarnação e da Sua Redenção. Aqueles que estimam ter que minimizar estas riquezas e até mesmo negá-las só podem mesmo nos condenar: coisa que confirma o cisma deles de Nosso Senhor e do Seu Reino através do laicismo e o ecumenismo apóstata [não soa como uma profética condenação de Dom Fellay? Para Mons. Lefebvre, "aqueles", que incluía o então Cardeal Ratzinger e até mesmo João Paulo II, eram cismáticos. Oras, se cismáticos, porque dependeriam os católicos do reconhecimento deles como tanto deseja Dom Fellay? Quem trata com cismáticos, cismático é!].

Ouço dizer: “Vós exagerais! Há, cada vez mais e mais, bons Bispos que rezam, que tem a fé, que são edificantes...”. Mesmo se fossem santos, pelo fato de admitirem a falsa liberdade religiosa e, portanto, o Estado laico e o falso ecumenismo e, de consequência, a aceitação de mais vias de salvação, a reforma litúrgica e, por isso, a negação prática do sacrifício da Missa, os novos catecismos com todos os erros e heresias deles, eles contribuem oficialmente para com a revolução na Igreja e com a sua destruição. O Papa atual e estes bispos não transmitem mais nosso Senhor Jesus Cristo, mas uma religiosidade sentimental, superficial, carismática, na qual, geralmente, não flui mais a verdadeira graça do Espírito Santo. Essa nova religião não é a religião católica; ela é estéril, incapaz de santificar a sociedade e a família [Mons. Lefebvre é bem claro a respeito do que pensa sobre João Paulo II e da nova religião do Concílio Vaticano II, que, nunca é demais lembrar, é 95% bom e 5% discutível para Dom Fellay].

Uma coisa apenas é necessária para a continuação da Igreja Católica: Bispos totalmente católicos, sem qualquer compromisso com o erro [Dai que não tem como não lembrar, de novo, de Dom Fellay, que, contrariamente ao que diz Mons. Lefebvre, aceita 95% do CVII como bom (católico?) e 5% como discutível (quase católico? meio católico? 5% católico?...], que fundem seminários católicos, onde jovens aspirantes possam se alimentar do leite da verdadeira doutrina e colocar Nosso Senhor Jesus Cristo no centro de suas inteligências, de suas vontades, de seus corações; uma fé viva, uma caridade profunda, uma devoção sem limites os unirão a Nosso Senhor; eles pedirão, como São Paulo, que se reze por eles, para que avancem na ciência e na sabedoria do “Mysterium Christi”, onde descobrirão todos os tesouros divinos. Que eles se preparem para pregar Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado “importune, opportune…” [2 Tm IV,2].

Somos cristãos! Que todas as ciências humanas e racionais sejam também iluminadas pela luz de Cristo, que é a Luz do mundo, e que dá a cada homem a Sua inteligência no momento em que vem ao mundo! [façam uso da razão, senhores! Não sejam vaquinhas de presépio de Dom Fellay! Ele não é infalível! Isso é prerrogativa do Papa!] O mal do Concílio é a ignorância de Jesus Cristo e de seu Reino. É o mal dos anjos maus, é o mal que é o caminho para o Inferno.

É porque Santo Tomás teve uma ciência excepcional do Mistério de Cristo que a Igreja o fez seu Doutor. Amamos ler e reler as encíclicas dos Papas sobre Santo Tomás e sobre a necessidade de segui-lo quando da formação dos sacerdotes, para que não duvidemos um instante sequer da riqueza de seus escritos – e especialmente de sua Suma Teológica – para nos comunicar uma fé imutável e o meio mais seguro de alcançar, pela oração e pela contemplação, as margens celestes que nossas almas, inflamadas pelo espírito de Jesus, mesmo nas vicissitudes desta vida terrena, nunca mais deixarão. 


Mons. Marcel Lefebvre
 
 

Extraído de Itinerário Espiritual, Ed Echthys, pp 7-13.   
Tradução: Giulia d'Amore.  

Notas do Pale Ideas:
1 - "Gaullista" refere-se a Charles de Gaulle. O gaullismo é uma ideologia política francesa baseada nas ideias e na ação de Charles de Gaulle. O eixo principal da política internacional de de Gaulle era a independência nacional, com algumas consequências práticas, como a relutância a certas associações internacionais como a ONU ou à antiga Comunidade Econômica Europeia. Seu ponto principal era que a França não deveria depender de um país ou organização estrangeiros para sua sobrevivência, daí a criação da força de dissuasão nuclear, e que o país deveria recusar toda forma de servidão militar a uma potência estrangeira, fosse ela os Estados Unidos ou a União Soviética. O principal componente doutrinário do gaullismo é um desejo de se obter a independência da França de poderes estrangeiros, mas também há componentes sociais e econômicos em algumas formas da filosofia. Cf. https://pt.wikipedia.org/wiki/Gaullismo

2 - Henri Philippe Benoni Omer Joseph Pétain (1856-1951), o Marechal Pétain, foi um marechal francês durante a Segunda Guerra Mundial.
 

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