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domingo, 25 de maio de 2014

PAPA LEÃO XIII: ANNUM SACRUM - 1899

ENCÍCLICA DO SANTO PADRE LEÃO XIII

ANNUM SACRUM

sobre o Sagrado Coração





A TODOS OS NOSSOS VENERÁVEIS IRMÃOS, OS PATRIARCAS,PRIMAZES, ARCEBISPOS E BISPOS DO ORBE CATÓLICO, EM GRAÇA E COMUNHÃO COM A SÉ APOSTÓLICA

Veneráveis Irmãos, Saúde e Bênção Apostólica. 

1. Com nossa carta apostólica promulgamos recentemente, como bem sabeis, o ano santo, o qual, segundo a tradição, será dentro em breve celebrado nesta alma cidade de Roma. Hoje, na esperança e na intenção de tornar mais santa esta grande solenidade religiosa, propomos e recomendamos um outro ato verdadeiramente solene. E temos todos os motivos, se ele for cumprido por todos com sinceridade de coração e com unânime e espontânea vontade, de esperar frutos extraordinários e duradouros em vantagem da religião cristã e de todo o gênero humano.



2. Mais vezes, a exemplo dos nossos predecessores Inocêncio XII, Bento XIII, Clemente XIII, Pio VI, Pio VII, Pio IX, nos esforçamos por promover e pôr em sempre mais viva luz aquela excelentíssima forma de piedade religiosa, que é o culto do Sacratíssimo Coração de Jesus. Era essa a finalidade principal do nosso decreto de 28 de junho de 1889, com o qual elevamos ao rito de primeira classe a festa do Sagrado Coração. Agora, porém, pensamos numa forma de homenagem ainda mais esplêndida, que seja como o cume e coroação de todas as honras que foram tributadas até agora ao Coração sacratíssimo e temos confiança que seja de sumo agrado ao nosso redentor Jesus Cristo. Na verdade, isso não é novo. Com efeito, faz 25 anos, aproximando-se  o II centenário dirigido a comemorar a missão que a bem-aventurada Margarida Maria Alacoque havia recebido do alto, de propagar o culto do Coração divino, de toda parte, não somente de particulares, mas também de bispos, chegaram numerosas cartas a Pio IX, com as quais se pedia que se dignasse consagrar o gênero humano ao augustíssimo Coração de Jesus. Preferiu-se, naquelas circunstâncias, adiar para dar tempo a decisão mais amadurecida; entrementes se dava faculdade às cidades qu o desejassem, de consagrar-se com a fórmula prescrita. Tendo-se agora apresentado novos motivos, julgamos ter chegado o tempo de realizar aquele projeto.

3. Este testemunho universal e solene de honra e de piedade é plenamente devido a Jesus Cristo, precisamente porque Ele é rei e senhor de todas as coisas. Com efeito, a sua autoridade não se estende somente aos povos que professam a fé católica e àqueles que, validamente batizados, pertencem por direito à Igreja (ainda que erros doutrinais os mantenham afastados dela ou dissensões infringiram os vínculos da caridade), mas abraça também todos aqueles que não tem a fé cristã. Eis porque toda a humanidade está realmente sob o poder de Jesus Cristo. Com efeito, aquele que o Filho Unigênito do Pai tem em comum com ele a mesma natureza, "resplendor de sua glória e expressão de seu ser" (Hb I,3), tem necessariamente tudo em comum com o Pai e portanto o pleno poder sobre todas as coisas. Esse é o motivo pelo qual o Filho de Deus, pela boca do profeta, pode afirmar: "Fui constituído soberano sobre Sião, seu monte santo. O senhor me disse: Tu és meu filho, eu hoje te gerei. Pede-me e te darei como posse as gentes e como domínio os confins da terra" (Sl II, 6-8). Com essas palavras ele declara ter recebido de Deus o poder, não somente sobre toda a Igreja, prefigurada em Sião, mas também sobre todo o resto da terra, até onde se estendem os seus confins. O fundamento desse poder universal é claramente expresso naquelas palavras: "Tu és meu filho". Pelo fato de ser o filho do rei de todas as coisas, é também herdeiro de seu poder universal. Por isso o salmista continua com as palavras: "Dar-te-ei em posse as gentes". Semelhantes a esta são as palavras do apóstolo Paulo: "Constitui-o herdeiro de todas as coisas" (Hb I,2)

4. Porém, devemos agora dar uma grande e especial atenção para as declarações feitas por Jesus Cristo, não através dos Apóstolos ou dos profetas, mas por suas próprias palavras. Para o governador romano que lhe perguntou: "Tu és rei?" Ele respondeu sem hesitar: "Tu o dizes; eu sou rei" (Jo XVIII, 37). A grandeza deste poder e a imensidão de Seu reino é ainda mais claramente declarada nessas palavras dirigidas aos Apóstolos: "Todo o poder me foi dado no céu e na terra" (Mt XXVIII, 18.). Logo, se todo o poder foi dado a Cristo, segue-se necessariamente que o Seu império deve ser supremo, absoluto e independente da vontade de qualquer outro, de modo que não pode existir ninguém que seja igual ou semelhante a Ele: e uma vez que esse poder foi dado a Ele no céu e na terra, devem ter o céu e a terra obediência a Ele. E, na verdade, ele agiu com este direito extraordinário e peculiar quando ordenou a Seus Apóstolos que pregassem Sua doutrina sobre a terra para reunir todos os homens no único Corpo da Igreja através do batismo da salvação, e para vinculá-los por leis, que ninguém poderia rejeitar sem arriscar a sua salvação eterna. 

5. Mas isso não é tudo. Cristo reina não apenas por direito natural, sendo como é o Filho de Deus, mas também por um direito que adquiriu. Pois foi ele quem nos resgatou "do poder das trevas" (Colossenses I, 13), e "deu a si mesmo para a redenção de todos" (I Timóteo II, 6). Portanto, não só os católicos, e aqueles que têm devidamente recebido o batismo cristão, mas também todos os homens, individual e coletivamente, tornaram-se-Lhe "o povo adquirido" (I Pedro II, 9). As palavras de Santo Agostinho vão, portanto, direto ao ponto quando ele diz: "Você pergunta qual foi o preço que Ele pagou? Veja o que Ele deu e você vai entender o quanto ele pagou. O preço foi o sangue de Cristo. O que poderia custar tanto senão o mundo todo, e todo o seu povo? Para tudo, Ele deu tudo"(T. 120 in Ioan). 

6. Como, porém, isso se aplica em relação aos infiéis, no modo em como eles mesmos estão sujeitos ao poder e domínio de Jesus Cristo, é claramente demonstrado por Santo Tomás, que nos dá a razão e sua explicação. Por ter colocado a questão de saber se o Seu poder judicial se estende a todos os homens, e de ter afirmado que a autoridade judicial flui naturalmente da autoridade real, ele conclui decisivamente da seguinte forma: "Todas as coisas estão sujeitas a Cristo, quanto ao Poder que o Pai lhe deu sobre todas, embora nem todas estejam sujeitas a Ele, quanto ao exercício desse poder."(Suma Teológica, IIIae pars, q. 59, a. 4). Este poder soberano de Cristo sobre os homens é exercido pela verdade, pela justiça, e, acima de tudo, pela caridade. 

7. Jesus, contudo, pela Sua bondade e nesse Seu duplo título de poder e dominação, graciosamente nos permite, se bem pensarmos, acrescentarmos de nossa parte uma consagração voluntária. Jesus Cristo, nosso Deus e nosso Redentor, é maximamente rico e possui perfeitamente todas as coisas: nós, por outro lado, somos tão pobres e necessitados que não temos nada de verdadeiramente próprio para oferecer-Lhe como um presente. Porém, ainda assim, em Sua infinita bondade e amor, Ele de modo algum rejeita a doação e a consagração de nós mesmos a Ele daquilo que já é d'Ele, como se fosse realmente nosso o que Lhe damos; longe de se recusar tal oferta, Ele isso deseja positivamente e mesmo nos pede: "Meu filho, dá-me o teu coração." Somos, portanto, capazes de sermos agradáveis a Ele pela boa vontade e o carinho da nossa alma. Pela consagração de nós mesmos a Ele nós não somente declaramos reconhecer e aceitar a Sua autoridade aberta e livremente sobre nós, mas também testemunhamos que, se o que nós oferecemos pode ser considerado como um presente realmente nosso, nós, ainda assim, iremos oferecê-lo com todo o nosso coração. Nós também imploramos a Ele que se digne receber isso de nós, embora claramente sejamos d'Ele. Tal é a eficácia do ato de que falamos, tal é o significado que deve ser entendido das nossas palavras. 

8. E uma vez que existe no Sagrado Coração um símbolo e uma imagem sensível do amor infinito de Jesus Cristo, que nos move a pagar amor com amor, é tanto mais conveniente consagrar-se ao Seu Sacratíssimo Coração - um ato que é nada mais do que uma oferta e uma ligação de si mesmo a Jesus Cristo, visto que toda honra, amor e veneração que é dada a este divino Coração é real e verdadeiramente dada ao próprio Cristo. 

9. Por estas razões, nós instamos e exortamos a todos os que conhecem e amam este divino Coração a, de boa vontade, realizar este ato de consagração; além disso, é nosso sincero desejo que todos possam fazê-lo no mesmo dia, de modo que as aspirações de tantos milhares de pessoas que estão realizando esse ato de consagração possam subir, ao mesmo tempo, ao trono de Deus. Porém, devemos nós permitir que escapem de nossa lembrança esses inúmeros outros sobre os quais a luz da verdade cristã ainda não brilhou? Nós mantemos o lugar daquele que veio salvar o que estava perdido, e que derramou Seu sangue para a salvação de todo o gênero humano. Assim sendo, nós muito desejamos trazer para a verdadeira vida aqueles que se encontram na sombra da morte. Como já enviamos mensageiros de Cristo sobre a terra, para instruí-los. Agora, na piedade para com sua sorte, com toda a nossa alma os recomendamos, e, tanto quanto de nós depende, nós os consagramos ao Sagrado Coração de Jesus. Desta forma, este ato de consagração, que recomendamos, será uma bênção para todos. Por ter realizado isso, aqueles cujos corações tem o conhecimento e o amor de Jesus Cristo, irão experimentar um aumento de fé e de amor. Aqueles que, conhecendo a Cristo, ainda negligenciam a Sua lei e os seus preceitos, poderão ganhar ainda do Sagrado Coração a chama da caridade. E, por último, por aqueles que, ainda mais infortunados, estão lutando nas trevas da superstição, vamos todos com uma só alma implorar a ajuda do céu para que Jesus Cristo, a cujo poder estão sujeitos, possa também um dia torná-los submissos quanto ao exercício desse poder; e rezamos para que não apenas na vida que há de vir, quando Ele executará plenamente sobre todos a sua vontade, salvando uns e punindo outros(Santo Tomás, ibid), mas também nesta vida mortal, dando-lhes fé e santidade. Que eles possam por essas virtudes se esforçar para honrar a Deus como devem, e para ganhar a felicidade eterna no céu. 

10. Tal ato de consagração, uma vez que pode estabelecer ou esboçar mais estreitamente os laços que ligam naturalmente as nações com Deus, dá aos Estados a esperança de coisas melhores. Nestes últimos tempos, especialmente, a política tem feito de tudo para levantar uma espécie de parede entre a Igreja e a sociedade civil. Na constituição e administração dos Estados, a autoridade da sagrada e divina lei está sendo absolutamente desconsiderada, com o objetivo de fazer com que a religião não tenha parte constante na vida pública. Esta política quase tende à remoção da fé cristã do nosso meio, e, se isso fosse possível, ao banimento do próprio Deus da terra. Quando as mentes dos homens são elevadas a uma tal altura de orgulho insolente, há por acaso de se admirar em ver que a maior parte da raça humana esteja envolvida em tal inquietação de espírito e seria fustigada por ondas tão ásperas no qual ninguém está livre de temores e perigos? Quando a religião é uma vez descartada, segue-se, necessariamente, que os mais seguros fundamentos do bem-estar público cedem o lugar, enquanto Deus, castigando Seus inimigos com a punição que eles tanto merecem, deixa-os cativos de seus próprios maus desejos, para que eles se entreguem às suas paixões e, finalmente, se desgastem por excesso de liberdade. 

11. Daí deriva a violência dos males que, há tempo, estão como que implantados entre nós, e que reclamam urgentemente que busquemos a ajuda do único que tem poder para os afastar. E quem pode ser este senão Jesus Cristo, o unigênito de Deus? Pois nenhum outro nome foi dado aos homens sob o céu no qual devamos ser salvos" (At 4,12). Cumpre recorrer a Ele, que é o caminho, a verdade e a vida. Nós andávamos desgarrados e temos de voltar para o caminho certo: a escuridão tem ofuscado as nossas mentes, e a escuridão deve ser dissipada pela luz da verdade: a morte se apoderou de nós? Devemos então tomar posse da vida. Somente assim poderemos sarar nossos muitos ferimentos; somente então toda a primavera de justiça surgirá outra vez com a esperança de uma autoridade restaurada; somente assim é que os esplendores da paz serão renovados, que espadas e armas cairão da mão quando todos os homens reconhecerem o império de Cristo e de bom grado obedeçam a Sua palavra, e "toda língua confesse que nosso Senhor Jesus Cristo está na glória de Deus Pai "(Filipenses II, II). 

12. Quando a Igreja, nos dias imediatamente posteriores à sua instituição, foi oprimida sob o jugo dos Cézares, apareceu no céu, a um jovem imperador, uma cruz, feliz presságio e ao mesmo tempo a causa da gloriosa vitória que imediatamente se seguiu. E eis que agora, hoje, outro sinal diviníssimo e celeste se  oferece aos nossos olhos - o Sacratíssimo Coração de Jesus, com uma cruz subindo a partir dele e brilhando com esplendor deslumbrante em meio a chamas de amor. No Sagrado Coração todas as nossas esperanças devem ser colocadas, dele devemos implorar e esperar a salvação.

13. Finalmente, há um motivo no qual não estamos dispostos a passar em silêncio, pessoal para nós mesmos, é verdade, mas ainda assim um bom e pesado, que move-nos a realizar esta consagração. Deus, o autor de todo bem, não há muito tempo preservou nossa vida curando-nos de uma doença perigosa. Queremos agora, por este aumento da honra prestada ao Sagrado Coração por nós promovida, que permaneça a memória e o sinal público de gratidão por tão grande benefício recebido.

14. Por estas razões, nós ordenamos que no nono, no décimo e no décimo primeiro dia do próximo mês de junho, na igreja principal de cada cidade e aldeia, se rezem algumas orações, e em cada um desses dias deverá ser acrescentado às outras orações a ladainha do Sagrado Coração aprovada por Nossa autoridade. No último dia a forma de consagração que deverá ser recitada , veneráveis irmãos, nós vos enviamos com a presente carta. 

15. Como penhor dos benefícios divinos, e em sinal de nossa benevolência paterna, para vós, para o clero e pessoas confiadas aos vossos cuidados, Nós amorosamente concedemos no Senhor a Bênção Apostólica. 

Dado em Roma, junto de São Pedro no dia 25 de maio de 1899, no vigésimo segundo ano do Nosso Pontificado. 


Leo XIII, PP.

118º aniversário da Encíclica


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