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terça-feira, 3 de janeiro de 2012

A Renovação Carismática Católica

A RENOVAÇÃO CARISMÁTICA CATÓLICA

Pe. Scott Gardner, FSSPX

Fruto do Concílio Vaticano II, Semente de Destruição.


Introdução:


Batizados no “Espírito”

“Batizado no Espírito”, “Oração em Línguas”, “O Dom da Profecia”, e um “Relacionamento Pessoal com Jesus Cristo” são todas expressões muito em voga e indispensáveis no vocabulário da assim chamada “Renovação Carismática Católica” (RCC), um movimento cujas origens se devem a um retiro sem nenhum acompanhamento realizado em 1967 por alguns estudantes da Universidade de Duquesne em Pittsburg (USA). Por volta de 1990, o movimento já contava com cerca de 72 milhões de seguidores no mundo inteiro e organizações oficiais em mais de 120 países.

Um crescimento tão rápido aqui e no exterior, juntamente com o quase completo abandono de práticas e crenças genuinamente católicas, bem como modo de se expressar, tem sido motivo de preocupação para os Católicos já por um bom espaço de tempo. À luz do trigésimo aniversário da RCC ocorrido no ano de 1997, uma análise mais profunda de suas práticas, crenças e ideias vem bem a calhar.

O trecho abaixo tirado da literatura carismática, diz respeito a um dos carros-chefes da RCC, “Batismo no Espírito”, uma “Experiência de fé”, na qual uma pessoa “libera” as graças recebidas no Batismo, Confirmação e Sagrada Eucaristia e assim experimenta a presença de Deus de um modo profundamente pessoal. Só por aí já podemos antecipar a visão e a compreensão dos Sacramentos mais comuns para os seguidores desse movimento:

“Cada Paróquia possui um certo número de grupos com sua própria visão, propósito e área de serviço. Ninguém se sente incomodado ou perturbado pelos outros movimentos tais como, Grupos do Rosário, Legião de Maria, Sociedade de São Vicente ou qualquer outra organização paroquial — a lista aqui poderia ser bem maior; portanto, por que toda essa polêmica em torno da Renovação Carismática? A verdade é que a RCC não é apenas uma questão de encontros de oração semanal. O seu coração reside no Batismo no Espírito Santo — uma graça de Deus a qual deveria ser parte da experiência normal de todo cristão — Através desse batismo, todo mundo: clero e leigos, homens e mulheres, jovens e velhos, negros e brancos, ricos e pobres — todos sem distinção têm a oportunidade de dar o seu sim a Deus. Mas é ainda muito mais do que isso. Ao fazermos nossa adesão pessoal a Jesus Cristo, nós estamos dizendo ‘sim’ à presença poderosa do Espírito Santo e aos seus dons: os carismas. Muitos de nós fracassamos em fazer isso quando iniciamos o processo da Iniciação Cristã. Mas agora todos nós podemos fazê-lo, basta permitirmos que o Espírito Santo transforme-nos desde o mais profundo íntimo do nosso ser, equipando-nos para o serviço à Igreja e ao mundo”. (Charles Whitehead — Charismatic Renewal — A Challenge 1993.)


Irregularidades Doutrinárias



As implicações de tal declaração não deveriam deixar perplexo ninguém que tem um mínimo de conhecimento do Catecismo. Do ponto de vista ortodoxo e para dar ao autor o benefício da dúvida, poderíamos considerar tal declaração como uma referência ao Sacramento da Confirmação, o Sacramento pelo qual o Espírito Santo vem até nós de modo particularmente especial para nos transformar em verdadeiros cristãos e perfeitos soldados de Cristo.

Que fosse tal pensamento relativo ao caráter sacramental, poderíamos ainda assim suspeitar de que o que eles pretendem sugerir seria na verdade, um “oitavo sacramento” necessário para completar os outros sete. Mas muito ao contrário, os carismáticos negam qualquer clara conexão entre o “Batismo no Espírito” e os sacramentos Católicos, uma vez que “ritos sacramentais e experiência religiosa são partes complementares da iniciação Cristã básica. E uma vez que esses aspectos da ‘Iniciação Cristã’ são complementares, os Carismáticos não veem nenhum motivo pelo qual não católicos e até não cristãos sejam excluídos da oportunidade de experimentar ou receber os tais carismas, aqui se referindo é claro, às extraordinárias manifestações do Espírito Santo, as quais auxiliaram na expansão da Igreja Primitiva e desapareceram pouco tempo depois da Era Apostólica. (...) De fato, eles sustentam que a natureza complementar das duas partes da ‘Iniciação Cristã’ faz com que ela se torne algo facilmente reversível, ou seja, que uma pessoa não batizada pode experimentar esse ‘batismo no Espírito’ e se tornar ipso facto, um cristão autêntico, precisando dos ‘ritos sacramentais’ meramente para ‘completar’ sua ‘iniciação cristã’. O status dessas pessoas teoricamente seria o mesmo daqueles católicos que tendo recebido os Sacramentos, ainda esperam por uma consciente manifestação das graças invisíveis. É óbvio que muitas pessoas, mesmo os grandes Santos, nunca receberam consolações notáveis em sua Fé e muito menos manifestações extraordinárias do Espírito Santo; portanto, dizer que uma pessoa que experimentou esse ‘batismo no Espírito’ está de tal forma unida a Deus como (ou até mais que) um católico piedoso e batizado que nunca vivenciou tal experiência é claramente um absurdo”.

A raiz desse absurdo é o falso entendimento de que uma experiência emocional sempre acompanha a concessão de uma graça — ou que pelo menos faz parte da “liberação da graça”. Muito ao contrário, no que diz respeito à graça sacramental, frequentemente a única indicação sensível da concessão da graça é o sinal sacramental por si mesmo.

O Catecismo do Concílio de Trento define um sacramento como “um sinal visível de uma graça invisível, instituído para a nossa justificação”. É, portanto, um sinal, cujo efeito é o que significa. Uma vez que todos os sinais visíveis de todos os sacramentos são completamente objetivos e estabelecidos pela Igreja de acordo com o mandamento ou inspiração de Nosso Senhor Jesus Cristo, os sentimentos pessoais de um indivíduo não tem nada a ver com a conferência da graça pelos sacramentos (naturalmente, desde que não haja nenhuma intenção contrária).

Objetivo: Expor as Ideias Básicas do Movimento Carismático e sua incompatibilidade com o Catolicismo.

O “Batismo no Espírito Santo” é o componente primário da RCC, e juntamente com a maioria dos demais, reside em falsas concepções sobre a graça, experiência e relacionamento mútuo, como é sustentado por seus seguidores. Os itens principais da plataforma carismática, juntamente com os falsos princípios nos quais eles se apoiam, serão examinados um por um à luz da Doutrina Católica. Alguns de seus erros como o fenomenalismo, gnosticismo, ecumenismo, protestantismo e antiquarianismo ou arqueologismo, já foram tratados pelo Magistério da Igreja com profundidade. A eclesiologia defeituosa da RCC, bem como erros maiores no tocante à graça, o livre-arbítrio e os sacramentos merecerão um tratamento consideravelmente mais profundo.

Portanto, ficará claro que, apesar do entusiasmo dos modernos homens da Igreja por esse movimento, a RCC é fundamentalmente um movimento não católico irreconciliável com 20 séculos de Magistério Católico. Depois de um breve exame de suas raízes, a inteira árvore será examinada ramo por ramo e todos os seus frutos amargos expostos, levando em consideração o mandamento apostólico: “Examinai tudo: abraçai o que é bom” (I Tess. 5. 21).


Breve História do Movimento

Raízes Protestantes

Apesar de muitos carismáticos tentarem atribuir suas chamadas “manifestações do Espírito” à ininterrupta Tradição Apostólica, eles acabam sempre por fracassar nesse intento. Alguns chegam ainda a sustentar que o fenômeno cessou por causa de uma atitude “sufocante e burocratizante” por parte da Hierarquia Católica. Apesar disso, o fato da existência desses carismas não ser conhecido depois da era Apostólica, é algo que fica claramente demonstrado por essa declaração de Santo Agostinho, feita no quarto século:

“Quem em nossos dias, espera que aqueles a quem são impostas as mãos para que recebam o Espírito Santo, devem, portanto, falar em línguas, saiba que esses sinais foram necessários para aquele tempo. Pois eles foram dados com o significado de que o Espírito seria derramado sobre os homens de todas as línguas, para demonstrar que o Evangelho de Deus seria proclamado em todas as línguas existentes sobre a Terra; portanto, o que aconteceu, aconteceu com esse significado e passou”.

Ao descartarmos a atribuição dos carismas à Tradição Apostólica, devemos, portanto, olhar para outras direções para compreendermos a origem desse fenômeno moderno. Muitos escritores atribuem o início do moderno Pentecostalismo a John Wesley, o famoso ministro ex-Anglicano e fundador do Metodismo no século 18.

O próprio Wesley, filho de um ministro Anglicano, cresceu tentando “espiritualizar” a então ainda “muito católica” religião Anglicana, ou seja, tentando livrar o Anglicanismo de todo o seu “ranço” católico. Ele enfatizava a necessidade de uma piedade pessoal extremamente emocional, um “relacionamento pessoal” com Deus. Um dia, depois de um período convalescendo de uma longa enfermidade, Wesley sentiu uma “sufocante” manifestação do “Espírito” e percebeu que todas as suas antigas obras religiosas não passavam de tolices. Assim “cheio do poder”, batizado no Espírito, tendo recebido aquilo que ele chamava de “segunda bênção”, ele foi capaz de sair e conquistar os corações de gelo das massas de denominação Anglicana dando-lhes um sentido mais profundo da presença de Deus através de seu “Método” de “Encontros de Oração”.

O paralelo entre o nascimento do Metodismo e as origens da RCC se torna ainda mais evidentes quando consideramos o segundo passo no desenvolvimento do primeiro. Wesley começou o seu movimento como uma espécie de suplemento para os serviços dominicais da Igreja Anglicana. Os encontros de oração eram realizados durante a semana, normalmente com a supervisão de algum membro do clero. Mas logo logo as autoridades Anglicanas começaram a ficar apreensivas com o rumo que os Metodistas estavam tomando e assim recusaram-se a designar mais elementos do clero para acompanhá-los. Como consequência, Wesley e seu movimento romperam com a hierarquia Anglicana, fundando sua própria igreja, sob sua própria autoridade, embora nunca tendo renunciado ao seu “sacerdócio anglicano”. O número de apóstatas Católicos, cuja apostasia_ formal ou material_ é devida à RCC sem dúvida é significante, pois qualquer um sabe que uma igreja pentecostal ou carismática é formada quase em sua totalidade por apóstatas católicos.

O Pentecostalismo propriamente dito teve início com o movimento Revivalista ou de Reavivamento, o qual desovou entre outras, a seita do reverendo Charles Parham em Topeka, Kansas por volta do ano de 1900. Os Católicos Carismáticos atribuem o início do “Derramamento do Espírito” nos tempos modernos a essa seita herética. Uma breve sinopse da história dessa seita pode ser encontrada no livro de William Whalen chamado “Minorias Religiosas na América”:

“O aparecimento da glossolalia (falar em línguas) foi registrado em 1901. Charles Parham, um pregador do movimento da Santidade, andava desanimado com sua própria aridez espiritual. Ele alugou então uma mansão que mais parecia um ‘elefante branco’ em Topeka, Kansas, e ali começou uma escola bíblica com cerca de 40 alunos. Juntos eles começaram uma espécie de curso intensivo das Escrituras e chegaram à conclusão de que falar em línguas era o sinal de que um cristão havia recebido o batismo no Espírito Santo. Às 7 horas da tarde, numa véspera de Ano Novo, uma de suas alunas, Agnes N. Ozmen, começava a reunir o grupo para orar e quando lhe foram impostas as mãos, ela começou a orar em línguas. Dentro de poucos dias, muitos outros a seguiram na experiência”.

Pahram passou os cinco anos seguintes levando uma vida de pregador itinerante antes de abrir outra escola bíblica, desta vez em Houston no Texas. Um de seus alunos, um ministro negro chamado W. J Seymore, levou a mensagem do “evangelho pleno” a Los Angeles. Assim o movimento de Reavivamento, com apenas 3 anos de existência na Califórnia já atraía pessoas de tudo quanto é parte do país e essas pessoas se encarregaram de fundar e espalhar o Pentecostalismo na maioria das grandes cidades dos Estados Unidos, bem como em muitos países da Europa. As antigas igrejas do movimento revivalista recusavam-se a enfatizar a necessidade de se falar em línguas, mas rapidamente dezenas de denominações pentecostais independentes se organizaram, dando origem entre outras, às chamadas “assembleias de Deus”.

Logo após esse firme estabelecimento em solo protestante, o Pentecostalismo começou a crescer rapidamente. De qualquer modo, sempre foi visto pelos escritores católicos como uma nova seita herética, nunca como “igreja-irmã”. A revolução entrou na Igreja com a mudança de atitude proclamada pelo Vaticano II, uma abertura das janelas para o mundo, o que significou também uma abertura para todas as religiões do mundo, sob a guia de seu Príncipe e fundador, Satanás.


Transplante Católico.

Em 1967, durante aqueles primeiros tempos de euforia pós-Vaticano II, uma época agitada pelo frenesi ecumênico e apostasia generalizada, alguns estudantes da Universidade de Duquesne em Pittsburg começaram a se expor às influências pentecostais devido à sua aridez espiritual. Eles estavam com “inveja” das “vidas modificadas” de seus muitos amigos protestantes e decidiram então orar pedindo graças idênticas. Uma espécie de retiro de fim de semana foi a chave providencial para os seus questionamentos. Várias pessoas se aproximaram de vários ministros protestantes, leigos e grupos de oração protestantes; e todos receberam o tal “batismo no Espírito” depois de terem tido mãos heréticas impostas sobre eles em oração.

A importância dessa ação não deve ser subestimada. Esses Católicos se submeteram a um rito não católico de caráter quase sacramental_ obviamente uma troça do Sacramento da Confirmação_ e toda a vibração emocional proporcionada por esse pecado (objetivamente falando, naturalmente) convenceu-os da santidade da inteira experiência. Eles saíram dali como “Católicos Carismáticos” e sua influência se espalhou igual fogo selvagem por todo o país — primeiramente nos campus de colégios e depois pelo mundo inteiro.

Se existe um bom argumento para se ouvir a Igreja, esse é um deles. A Igreja por quase 2000 anos, sempre alertou seus filhos para manterem distância de “cultos” heréticos, porque ela sabe muito bem as consequências de tal pecado, tanto para os indivíduos envolvidos como para o Corpo Místico como um todo. Apesar disso a RCC não só admite como imperturbavelmente louva suas raízes ecumênicas e protestantes!

A conclusão tácita é que a Igreja — O Corpo de Cristo — perdeu a maior parte da Fé, enquanto o Espírito Santo mantinha essa mesma fé dentro do Protestantismo; portanto, os protestantes é que estariam devolvendo à Igreja o seu patrimônio perdido. Esse é um posicionamento tão falso quanto audacioso, o que claramente cai em contradição com dois Dogmas de Fé: extra ecclesiam nulla salus = fora da Igreja não há salvação, e a indefectibilidade da Igreja. Ambos serão tratados minuciosamente mais a seguir.

Hoje em dia, praticamente em cada diocese existe um órgão oficial da RCC. Existem grupos de oração carismática, seminários, convenções, retiros, etc. Tudo isso espalhado pelo país e pelo mundo inteiro. Nenhum nível da hierarquia está livre do contingente carismático, e eles são numerosos também entre o clero — especialmente entre o clero regular ou secular. Como procuraremos demonstrar, nem sequer Roma está imune à influência dos Carismáticos.


Firme Estabelecimento no Solo da Igreja.

As Autoridades

Apesar das várias tentativas dos Carismáticos de tomar endossamentos pessoais de altos membros da Hierarquia e transformá-los em aprovações oficiais da Igreja, tais aprovações, no entanto, nunca existiram. Os Papas Paulo VI e João Paulo II receberam os Carismáticos várias vezes em audiência pública e falaram deles em seus pronunciamentos em várias ocasiões; como em 1990 quando o Conselho Pontifício para Leigos reconheceu a Fraternidade Católica de Comunidades de Aliança (uma organização Carismática internacional), como uma associação privada de leigos. Apesar disso, nenhum pronunciamento oficial foi feito sobre a RCC. Na verdade, os Carismáticos, como todos os Católicos liberais, tendem a atribuir uma pseudo-infalibilidade a pronunciamentos papais não-oficiais quando esses são a seu favor, ao mesmo tempo em que descartam completamente condenações oficiais e até mesmo dogmáticas relativas a muitas de suas práticas e crenças nada ortodoxas.

Apesar disso, podemos dizer que não existe escassez de adeptos do Movimento Carismático em nenhum nível da hierarquia ou do clero. Diáconos, padres, bispos, cardeais e papas têm sido e são grandes entusiastas da causa Carismática, isso quando não são membros diretos da RCC. Que esse povo, supostamente bem treinado em Ciências Sagradas, se deixe levar pelo sensacionalismo de um movimento sem nenhuma base doutrinária para suas crenças e práticas, não deixa de ser algo digno de reprovação.

Os “estudos quase oficiais” da Conferência Nacional de Bispos Católicos nunca foram aceitos por aquele mesmo órgão como sendo posições oficiais. Eles foram aceitos apenas como “Diretrizes Pastorais” para dioceses individuais. O relatório de 1969 alegava que:

Teologicamente o movimento possui razões legítimas para sua existência. Ele possui uma forte base bíblica. Seria difícil inibir a obra do Espírito a qual se manifestou tão abundantemente na Igreja Primitiva... Temos que admitir, no entanto, que tem havido abusos (no uso dos assim chamados carismas), mas a cura não é a negação da existência dos mesmos e sim o seu uso adequado.

A conclusão do relatório de 1969 recomenda que se permita que o movimento se desenvolva sob supervisão episcopal e com a participação sacerdotal.

É interessante notar que, aqui os bispos aceitam sem questionar uma das mais perigosas afirmações da RCC, ou seja, que o fenômeno atual, o qual se parece com a descrição dos verdadeiros carismas contidas no Novo Testamento, são verdadeiros carismas simplesmente devido a esta semelhança e que o Espírito Santo seria o autor do fenômeno atual, simplesmente em virtude do fato de que Ele era o mesmo autor dos verdadeiros carismas há quase 2000 anos atrás. Infelizmente para seu próprio prejuízo, bem como da inteira Igreja, eles sequer cogitam na possibilidade de que esse fenômeno extraordinário (o qual a RCC está tentando transformar em ordinário) possa ser apenas mais um engano do demônio, o qual não se importa de que tais pessoas até orem mais levados pela empolgação e pelo sensacionalismo, se depois tudo isso contribuir para levá-los direto para o Inferno.

Em 1975, os Bispos dos Estados Unidos lançaram um documento chamado “Declaração sobre a Renovação Carismática Católica”, o qual se definia como um documento “de cunho pastoral no tom e no conteúdo” e não como um “estudo exaustivo”. Esse documento reconhece alguns dos perigos inerentes ao Movimento: elitismo, fundamentalismo bíblico, exagero na importância dos dons, indiscriminado ecumenismo e as assim chamadas “pequenas comunidades de fé”. Por outro lado, encoraja a liderança e as orientações do movimento. É interessante notar que os bispos especificamente não se comprometem em dizer que a RCC é obra do Espírito Santo, embora admitam sinais encorajantes disso em algumas passagens.

Provavelmente o mais famoso advogado da RCC entre a hierarquia foi Sua Eminência, Cardeal Jozef Suenens, Arcebispo Emérito de Malines-Bruxelas, o qual, incidentalmente, foi uma das vozes liberais mais proeminentes durante o Concílio Vaticano II. No ano subsequente à sua aposentadoria em 1979, Cardeal Suenens passou o tempo todo viajando e escrevendo incessantemente em apoio à RCC. Por volta do 25º aniversário da RCC, Cardeal Suenens escreveu o seguinte trecho em seu artigo comemorativo:

“Os cristãos de hoje têm que redescobrir o coração da mensagem cristã; eles foram suficientemente ‘sacramentalizados’; mas não foram suficientemente ‘evangelizados’. Temos agora que encarar a tarefa de redescobrir e explicar o que realmente faz um cristão. Devemos ajudar os cristãos a se tornarem cada vez mais e continuamente cientes de sua fé e a vivê-la de um modo mais pessoal. Muitos devem, portanto, trocar aquele cristianismo sociológico ou herdado, por uma vida de fé mais plena e ativa, baseada em uma decisão pessoal e abraçada com completa consciência”.

Como a maioria das declarações dos liberais, esta também é ambígua o bastante para ser interpretada de modo ortodoxo; todavia, a terminologia nitidamente protestante é algo que não passa despercebido por ninguém.

O discurso do Papa João Paulo II, por ocasião do 6º aniversário da RCC em 1987, acabou por endossar de modo inacreditável a ideia tácita mencionada pelos Bispos americanos (a qual mostraremos que tem suas raízes no fenomenalismo) de que o Movimento se encaixa no “Espírito do Vaticano II”, bem como sua constante preocupação com a vinda do Novo Milênio:

“O vigor e os frutos da Renovação certamente atestam a poderosa presença do Espírito Santo na Igreja durante esses anos que se seguiram ao Concílio Vaticano II. Graças ao Espírito, a Igreja mantém constantemente sua juventude e vitalidade. E a Renovação Carismática é uma eloquente manifestação dessa vitalidade nos dias de hoje, uma vigorosa afirmação do que ‘o Espírito está dizendo às Igrejas’ (Apoc. 2,7), na medida em que vamos nos aproximando do fim do segundo milênio”.

De qualquer modo, podemos dizer que um dos frutos positivos da total crise de autoridade na qual os católicos de hoje encontram-se imersos, é a sede saudável por conhecer mais sobre a história da Igreja e estudar os documentos de seu Magistério. A sabedoria comprovada dos Padres e Doutores da Igreja, Prelados genuinamente guiados pelo Espírito Santo, é de uma profundidade bem clara e de uma poderosa acuracidade. O surgimento de seitas “espiritualistas” é algo que já havia acontecido antes na história da Igreja, e um breve exame de como os modernos homens de Igreja lidam com elas serve-nos para obter um melhor entendimento da situação atual.


Paralelos Históricos.

Não podemos negar que extraordinárias manifestações do Espírito Santo ocorreram durante a Era Apostólica e que foram mais do que úteis para ajudar a difundir a Fé Cristã pelos quatro cantos do mundo conhecido até então. Qualquer um pode constatar isso, lendo os Atos dos Apóstolos. Tais manifestações tinham propósitos específicos: espalhar a mensagem do Evangelho a ouvintes de diferentes idiomas (ex.: São Pedro no dia de Pentecostes) ou provar a credibilidade ou santidade do pregador.

Todavia, é também inquestionável que esses fenômenos extraordinários duraram consideravelmente pouco e desapareceram logo após a Era Apostólica. A Igreja tinha então atingido uma universalidade moral e havia se estabelecido de tal maneira que essas manifestações já não eram mais nem úteis ou necessárias.

Apesar disso, de vez em quando, pipocavam ali e acolá alguns grupinhos “espiritualistas” que ganhavam notoriedade devido às suas estranhas crenças e práticas, mas que no fim acabavam por receber a condenação da Igreja. As principais entre essas seitas foram: a dos “Joaquinitas”, seguidores de Joaquim de Fiore por volta do século 12, os Fraticelli que eram alguns franciscanos cismáticos do século 13 e 14, e os Molinistas ou (Quietistas) por volta do século 17.

Joaquim de Fiore (1132-1202) foi um abade da Ordem Cisterciense especializado no estudo das Sagradas Escrituras. Todavia ele tinha uma mente muito voltada para o misticismo e passou anos dissecando as Escrituras, buscando descobrir significados escondidos nas entrelinhas das menores passagens. (Esta prática de se ler nas entrelinhas, “guiados pelo Espírito”, é a marca registrada dos carismáticos dos tempos modernos). No final de sua vida, depois de completar sua obra, Joaquim submeteu seus escritos ao julgamento de Roma.

Em seus escritos, ele expunha erros concernentes à Santíssima Trindade, embora mais tarde tenha se retratado depois que tais erros foram anatematizados pelo Quarto Concílio de Latrão. Todavia, sua ideia mística a respeito da História era o item mais problemático. Joaquim sustentava que a história do mundo tinha sido dividida em três fases distintas, cada uma correspondente a uma pessoa da S. S Trindade. Assim, a primeira fase da história da humanidade teria sido marcada pelo governo majestoso de Deus Pai, a segunda, que são os nossos tempos, pela Sabedoria do Filho e de sua Igreja, e a terceira, ainda por vir, pelo Espírito Santo num derramamento de amor universal e com o desaparecimento de todas as religiões formais em favor de um mundo governado apenas pelo espírito do Evangelho. Todo esse ensinamento foi condenado pelo Papa Alexandre IV logo após a morte de Joaquim no século 13.

A similaridade entre esse antigo ensinamento e o constante jargão Carismático sobre “uma nova era do Espírito”, é algo que dispensa comentários. Pelo contrário, mais preocupante é a fascinação do Santo Padre com a chegada do Novo Milênio. Ao falar dos preparativos para o Grande Jubileu do ano 2000, o Papa João Paulo II designou o ano de 1998 como o “Ano do Espírito”:

“A Igreja não poderia se preparar para o Novo Milênio de outro modo senão pelo Espírito Santo. O que foi conquistado pelo poder do Espírito Santo na plenitude dos tempos, apenas pelo poder do Espírito é que poderá emergir agora da memória da Igreja”.

E o Santo Padre vai ainda mais adiante:

“A tarefa primordial na preparação para o Jubileu incluirá uma renovada apreciação da presença e da atividade do Espírito Santo... [cita sinais de como isso já está ocorrendo]... maior atenção à voz do Espírito através da aceitação dos carismas e da promoção dos leigos, um compromisso mais profundo com a causa da unidade dos cristãos, e um crescente interesse pelo diálogo com outras religiões e com a cultura contemporânea”.

Essas declarações surpreendentes revelam claramente como o atual Papa associa Ecumenismo, Secularismo e Laicismo com o Novo Milênio e com a obra do Espírito Santo. A similaridade entre esse tipo de raciocínio e o pensamento de Joaquim de Fiori [aquele de que o Espírito, através de um derramamento de amor universal, unirá todas as religiões formais no espírito do Evangelho] é alarmante demais, pra não dizer o pior.

Um dos principais seguidores das ideias de Joaquim foi um grupo “espiritualista”, formado por alguns frades da Ordem Franciscana. Os descendentes diretos desse grupo formaram um século depois da morte de Joaquim, o grupo dos Fraticelli, e suas interpretações pessoais do Evangelho renderam-lhes os maiores problemas tanto dentro da Ordem Franciscana como com o Papa. No final, eles acabaram dizendo que a Igreja era corrupta e carnal, em contraste com a sua própria espiritualidade, e que eles eram os únicos verdadeiros seguidores do Evangelho. Eles acabaram sendo excomungados pelo Papa João XXII em 1318.

É interessante notar que os Carismáticos também costumam fazer essa distinção entre “Católicos plenos” e os “outros”, ao fazerem declarações como essa de uma tal Betty Nunez:

“Eu não estou dizendo que os ‘outros’ católicos não creem, mas quando você é renovado pelo Espírito, sua fé se torna viva”.

Agora, dando à Senhora Nunez todo o benefício da dúvida, tal declaração soa como um insulto a qualquer Católico não-Carismático[1], pois seria o mesmo que dizer que temos uma fé morta ao passo que os Carismáticos possuem uma fé viva. Esse tipo de declaração infeliz é muito parecida com a dos Fraticelli.

Miguel de Molinos (1628-1696) confundiu completamente o ensinamento Católico sobre a graça e a natureza. Apesar de ele acreditar que a graça supõe a natureza, ele ensinava que o único caminho para a santificação era o completo abandono da alma às ações de Deus (aqui no caso, o Espírito Santo). Novamente, isso soa como ortodoxo a princípio, ou seja, quando ouvido num contexto ortodoxo. Todavia contém um erro grave. Molinos sustentava que a alma deveria ficar completamente passiva à ação de Deus. Mas seu quarto princípio, também condenado, sustentava todos os demais: “A atividade natural é inimiga da Graça, impedindo a ação de Deus e a verdadeira perfeição, porque Deus deseja operar em nós, sem nós”. Aqui não se trata de conformarmos nosso livre-arbítrio, ou seja, nossa vontade, à Vontade Divina e sim de aniquilarmos nossa própria vontade, substituindo-a pela Vontade Divina. Como consequência disso, depois que ocorre esse “aniquilamento”, a pessoa fica isenta de qualquer responsabilidade pelos seus atos, já que ela se tornou de certa forma, um autômato.

A pergunta mais comum entre os Carismáticos costuma ser: “É Jesus Cristo o Senhor da sua vida?” Naturalmente que todo Católico deseja que Jesus Cristo seja não apenas o “Rei e Centro de todos os corações”, como também do mundo inteiro. Aliás, o Reino Social de Cristo Rei deveria ser uma de nossas bandeiras de luta. É importante, todavia, compreender a diferença entre essas duas posições. Os Católicos querem conformar sua vontade de forma que ela esteja de acordo com a Vontade Divina. As conquistas naturais são plenas de perfeição apenas quando guiadas e ordenadas para o sobrenatural. Já os Molinistas (e Carismáticos) querem aniquilar seu próprio livre-arbítrio, tornando-se vasos completamente passivos sob a ação da Vontade Divina. A seguinte passagem é um trecho típico da literatura carismática a esse respeito:

Jesus aprendeu a vontade do Pai, vivendo num relacionamento pessoal diário com Ele. Será que eu estou crescendo na prática da Presença de Deus através do meu dia-a-dia? Eu faço as coisas ou progrido de um modo compulsivo ou como resposta? Será que meu ouvido interior está treinado para ouvir, buscando ouvir o Espírito Santo e seguir sua doce moção? Seguir o Espírito é como pisar na corrente de um rio, permitindo que ela lhe dê a direção. (Patti Harrison — “Jesus Lord of my life”)

Qualquer um pode imaginar sendo esta a disposição na qual um Carismático se encontra antes de ter uma manifestação física do “espírito”. Afinal o que mais poderia proporcionar o clima ideal para que pessoas ordinárias sejam capazes de contorcer-se, saracotear, lançando-se em uma verdadeira algazarra dentro da Igreja? Uma das duas explicações parece ser o mais provável: que o sujeito realmente deseja — talvez até inconscientemente — realizar essa performance por causa da dinâmica de grupo ou histeria coletiva, ou que seu estado de relaxamento deixa-o completamente aberto e passivo a mercê de uma verdadeira manifestação do “espírito” — naturalmente que aqui não se refere ao Espírito Santo! Pois como sempre foi ensinado pela Igreja, o ato de se falar uma língua estranha que ninguém compreende é um sinal clássico de possessão diabólica.


O Desdobramento

Um outro desdobramento da árvore Carismática, que não podemos deixar passar despercebido é o fenômeno conhecido pelos seus seguidores como “Movimento Mariano” e pra quem está do lado de fora como “Aparição Mania”. Apesar de uma profunda avaliação desse aspecto não ser o objetivo desse artigo, os frutos maiores e mais venenosos deverão certamente ser demonstrados. Maiores considerações a respeito podem ser encontrados no livro de Michael Davis “Medjugorje — A Warning”.

Os Carismáticos sempre tiveram um lugar especial (mas não muito especial) para a Bem-aventurada Virgem, chamando-a de “a Primeira Carismática”, aquela que “concebeu pelo poder do Espírito Santo” e que “estava presente no Cenáculo quando os discípulos de Jesus ficaram cheios do Espírito Santo”.

Como muitos Carismáticos admitem, o Movimento Mariano estava começando a minguar por volta do início da década de 80. Mas de repente as assim chamadas aparições começaram a pipocar em diferentes locais no mundo inteiro e uma outra bem maior foi anunciada semanas antes do acontecimento num Encontro da RCC em Roma. Uma “profecia” foi proferida concernente a uma aparição que começaria dali a poucos dias nas Balcãs-Bósnia Herzegovina. Como foi prometido, Nossa Senhora teria aparecido na data marcada e desde então vem aparecendo quase que diariamente!

Obviamente que as supostas manifestações alegadas pelos Carismáticos e as supostas aparições reivindicadas pelos “videntes” de Medjugorje caem em duas categorias bem diferentes de fenômeno sobrenatural, mas a sobreposição entre os Carismáticos e os seguidores de Medjugorje é quase completa na descrição do autor do livro.

Os Carismáticos voam em bando para Medjugorje, apesar de a Igreja desencorajar tais peregrinações e apesar do julgamento do Bispo Diocesano, o qual declara que as supostas aparições não são autênticas de modo algum. Qualquer um deveria chegar à conclusão que um “espírito” que os leva a desobedecer a uma proibição explícita de Roma, bem como uma “Nossa Senhora” que leva os franciscanos encarregados da paróquia de Medjugorje, a menosprezarem as censuras de seu Bispo Diocesano por causa de suas atitudes pecaminosas, de forma alguma pode vir de Deus. Mas infelizmente, enquanto os “rosários” e outros souvenires continuarem se convertendo em ouro, ninguém parece estar muito preocupado com essas questões.

Ali “Nossa Senhora” supostamente estaria dando mensagens periódicas ao mundo. Mensagens que por mais estranho que pareça, são muito parecidas com as profecias proferidas pelos Carismáticos em seus grupos de oração. O conteúdo, nem precisamos mencionar, fica ao nível do primeiro grau de uma escola de Catecismo e o estilo normalmente é uma mistura de caráter sentimental. Mais abaixo apresentamos um paralelo entre dois exemplos:


Profecia Carismática:

“Meu povo, Eu coloquei o meu louvor em seus lábios. Ponham o meu louvor em cada situação de suas vidas e eu lhes mostrarei o poder do meu louvor, diz o Senhor! Meu povo, deem as costas para o mal, venham até mim. estejam no mundo, mas não sejam do mundo, honrem o Meu Filho e Eu lhes darei paz e contentamento, diz o Senhor! Mesmo se uma mulher esquecesse o filho que ela gerou, eu não me esqueceria de vocês. Seu nome está escrito na palma de minha mão, diz o Senhor. Tragam-me os doentes, e eu os curarei, suas preocupações, e eu as dispersarei, seus fardos e eu os carregarei. Meu povo, eu quero vos libertar, diz o Senhor”. (Livro: O Carisma da Profecia — Andy O’Neill)

Mensagem de Medjugorje de 9 de maio de 1985:

Caros filhinhos! Vocês não sabem quantas graças Deus está derramando sobre vocês nesses dias em que o Espírito santo está agindo de modo especial. Vocês não querem avançar. Seus corações estão voltados para as coisas terrenas e vocês se mantêm ocupados por elas. Voltem seus corações para a oração e peçam para que o Espírito Santo seja derramado sobre vocês. Obrigado por terem respondido ao meu chamado. (Fr. René Laurentin — As Aparições de Medjugorje continuam).

As mentiras, o engano, a desobediência e o escândalo aberto por parte de membros do clero, que envolvem essa suposta aparição, deveriam ser sinais mais do que suficientes para convencer qualquer um de sua falsidade. A proibição de Roma no tocante às peregrinações e a decisão do Bispo diocesano sobre a autenticidade do fenômeno tem mantido os Católicos obedientes afastados de toda essa confusão. Mas ainda assim o povo vai em massa, aos milhares por ano, por causa dos chamados “bons frutos”, ou seja, as assim chamadas conversões, curas, milagres do sol etc..

A Fé Católica sempre ensinou que verdade e erro não se misturam, nem bem com o mal, nem verdade com falsidade. Como já foi dito antes, Satanás não se importa de maneira alguma se as pessoas resolvem seguir essa ou aquela peregrinação, orar mais e até se sentirem mais tocadas emocionalmente em relação a Deus ou à Virgem Maria, pelo contrário, ele até ajuda com os bilhetes do avião, desde que tudo isso contribua de algum modo para levá-los direto para o inferno no final das contas.


Uma Comparação entre Ideias Carismáticas e a Doutrina Católica

Numa análise final, a ortodoxia de qualquer crença ou prática não depende tanto de como uma pessoa se sente a respeito, ou do que o padre, bispo e até mesmo o Papa (quando ensina apenas como um teólogo) diz a respeito, e sim da autoridade do Magistério perene da Igreja. O constante ensinamento de Papas e Concílios nesses quase 2000 anos de história da Igreja é que determina se uma crença particular é de fato Católica ou não. A negação desse fator básico pelos Católicos liberais é o motivo principal da crise na qual a Igreja se encontra mergulhada nos dias de hoje; portanto, não é de se admirar que encontremos os Carismáticos de hoje, sustentando crenças e práticas que há somente 50 anos atrás teriam lhes causado os maiores problemas com as autoridades da Igreja.

De modo a termos um claro panorama do que há de errado com a RCC, é necessário examinar seus princípios básicos à luz da Doutrina Católica. Apesar de estar muito além do objetivo dessa tese fazer uma análise teológica detalhada do movimento, vários pontos básicos serão levantados. Tais questões poderão ser aprofundadas posteriormente por teólogos competentes.

Embora a RCC seja um “grupo de grupinhos” vasto em número e intencionalmente impreciso do ponto de vista doutrinal, certos princípios específicos podem ser decodificados a partir da vasta literatura Carismática disponível. Esses princípios podem até não ser conscientemente apoiados por todos os Carismáticos em geral, mas eles podem ser frequentemente encontrados — explicitamente ou implicitamente — em seus escritos.


Ideias Fenomenalistas

O Fenomenalismo, cujas raízes procedem do Iluminismo do século 18, é o principal fator subjacente do Movimento Carismático. A Enciclopédia Católica define o fenomenalismo da seguinte maneira:

Fenomenalismo literalmente significa qualquer sistema de pensamento que tem a ver com as aparências. O termo, contudo, é comumente restrito à designação de certas teorias pelos que elas determinam: 1) que não existe nenhum outro conhecimento a não ser o próprio fenômeno da negação da substância no senso metafísico; ou 2) que todo conhecimento é fenomenal negação do objeto em si e determinação de que toda a realidade é diretamente ou refletidamente presente no inconsciente.

Portanto, para o Carismático, uma pessoa não conhece verdadeiramente Deus, enquanto não tiver “experimentado” Deus de forma consciente, ou seja, enquanto não tiver tido uma experiência sensorial (normalmente emocional e às vezes até física, como no caso da glossolalia, ou “falar em línguas”). De fato, a “experiência espiritual” chega a anular a Revelação pública e os quase 2000 anos de ensinamento do Magistério Católico em matérias, tais como, só pra citar um exemplo, o Ecumenismo.

Para o Carismático, a mera presença hoje em dia de um fenômeno supostamente idêntico aos verdadeiros carismas presentes na Igreja Primitiva já é o bastante para provar sua origem divina. A experiência é o que importa, não o questionamento legítimo do intelecto, tal como “Por que esse intervalo de quase 2000 anos?” Seria essa experiência a mesma do fenômeno descrito nas Escrituras? Estaria esse “espírito” guiando-nos para uma vida plenamente Católica ou rumo à apostasia? O fracasso dos Carismáticos em fazer um autêntico discernimento dos espíritos é possivelmente sua gafe mais perigosa, uma vez que o demônio é capaz de operar prodígios, os quais são como imitações ou mímicas daqueles fenômenos verdadeiramente realizados por Deus.

De fato, o intelecto é radicalmente descartado pelos membros da RCC. Existe uma conversa generalizada a respeito da assim chamada “18 polegadas da cabeça para o coração” em quase toda literatura Carismática nos primeiros níveis do “crescimento espiritual”. Como já foi dito anteriormente, tal “conhecimento do coração”, que nada mais é senão confortantes e agradáveis sentimentos em relação a Deus, de forma alguma é algo espiritual e sim puramente emocional — o que também significa físico! Esses escritores e autores Carismáticos desprezam de tal forma o intelecto, como se Deus não o tivesse dado ao homem para seu próprio proveito: “Intellectum tibi dabo” (Salmo 31).

Para a mente fenomenalista do Carismático, nem mesmo os Sacramentos estão imunes ao pensamento subjetivista a respeito da graça. Os Católicos sabem que o sacramento produz a graça ex opere operato, independente do estado espiritual do ministro ou do recipiente. Naturalmente o recipiente pode estar mais ou menos bem disposto para receber as graças concedidas, mas a graça é produzida independente das disposições subjetivas das partes envolvidas. Para o Carismático, qualquer coisa na vida espiritual que não produz uma consolação subjetiva ou emoção, não é experiência de fé válida e, portanto, não confere a graça.

Assim, o seguinte trecho do livro “Healings Sacraments” escrito por um sacerdote Carismático sobre a Confissão, nos dá um bom exemplo disso:

“Durante o Sacramento da Reconciliação nós recebemos a cura na forma do perdão e na forma de uma grande resistência contra a tentação. Eis porque nos sentimos mais leves e muito melhores depois de termos feito uma boa confissão”. (Fr. Dave Schwarz.)

Nem mesmo o Sacramento da Eucaristia está imune a tal princípio subjetivista:

“Quando você estiver orando depois de ter recebido a Comunhão, eu sugiro que você visualize raios luminosos de cura saindo da hóstia consagrada que você acabou de receber e fluindo através de todo o seu ser”...

Para o fenomenalista, assim como para o Carismático, o objeto não tem verdadeira existência quando separado do sujeito. Essa lógica extrema torna-se então uma questão do relacionamento da consciência consigo própria. Assim não é difícil ver no que a moderna religião pós-conciliar se tornou... de acordo com algumas acusações, a religião do homem adorando-se a si próprio.


Tendências Gnósticas

Várias formas de gnosticismo tentaram fazer estrada dentro da Igreja através dos séculos; elas podiam até serem diferentes umas das outras nos detalhes, mas o fator central subjacente entre elas sempre foi a alegada existência de um “conhecimento secreto”, ou gnose, o qual faz de seu possuidor o crente verdadeiro, portanto, o único realmente preparado para o Céu. Com os Carismáticos, essa gnose se torna a experiência de Deus através das manifestações interiores e exteriores do “espírito”, o qual transforma aqueles que experimentam tais fenômenos em verdadeiros “crentes”.


Ecumenismo

A filosofia fenomenalista Carismática possui interessantes repercussões na área do Ecumenismo. Segundo a RCC, no Concílio Vaticano II, “a Igreja comprometeu-se irrevogavelmente em seguir o caminho da aventura ecumênica” (Ut Unum sint 3)...

O fato é que não católicos tem compartilhado das mesmas experiências dos Carismáticos independente da Igreja supostamente provar a validade de suas seitas heréticas. Essa atitude é fenomenalismo puro e simples: Deus Espírito Santo estaria produzindo o fenômeno “X” entre os Católicos Carismáticos; o fenômeno “X” está presente também na seita protestante “Y”; portanto, a seita protestante “Y” compartilha da mesma fé verdadeira com os Carismáticos Católicos. O fato de que o menos experiente aluno de escola primária poderia facilmente desbancar essa falsa suposição, parece não apresentar nenhum problema para os Carismáticos, uma vez que tal lógica cai naquela categoria que eles definem como “conhecimento racional” ao invés do verdadeiro conhecimento de “coração”, o qual eles se gabam de ter como experiência.

Como o seguinte trecho demonstra, os Carismáticos acham que a caridade mútua baseada na experiência é que é o princípio da Unidade Cristã:

“Enquanto a inteira Igreja, tanto o Clero como leigos, estão às voltas tentando responder a esse mandamento de buscar a Unidade, de um modo único isso já é real para os líderes da RCC, porque tanto as origens de nossa renovação pentecostal como as ações do próprio Deus na Renovação são ecumênicas. A renovação possui uma dimensão ecumênica, a qual de forma alguma é acidental, e sim que faz parte de sua natureza; portanto, a renovação Carismática como é frequentemente descrita, é uma graça ecumênica para a Igreja.

Três fatos da história moderna podem facilitar nossa compreensão. No final do último século, enquanto o Papa Leão XIII pedia aos Católicos de todos os lugares para que rezassem por uma renovação do Espírito Santo, muitos protestantes evangélicos também estavam avidamente buscando uma renovação no espírito. O segundo fato é que a confiança ecumênica do Vaticano II foi o principal componente do ‘novo Pentecostes’, pelo qual a inteira Igreja havia rezado antes e durante o Concílio. O terceiro fato é que quando a renovação pentecostal começou entre os Católicos lá pelo final da década de 60, a mesma renovação no Espírito, com carismas, serviço mútuo e amor... simultaneamente estava acontecendo também entre cristãos de outras denominações pelo mundo afora...

Aqui a chave para o sucesso é o genuíno respeito mútuo entre líderes protestantes e Carismáticos católicos. Quando ambos, Carismáticos católicos, evangélicos pentecostais, bem como outros líderes protestantes não denominacionais, aceitarem a validade da fé de seus concorrentes, aí sim, haverá uma boa fundação. Reconhecimento mútuo do fato de que a fé em Jesus Cristo e o batismo fazem-nos irmãos e irmãs em Cristo e membros de seu único Corpo é fundamental para construirmos relacionamentos de mútua confiança, respeito e amizade. Existe uma relação direta entre tal fundação de relacionamentos pessoais sólidos e o sucesso de qualquer empreendimento ecumênico”. (Kevin Ranaghan — Ecumenism and Catholic Charismatic Renewal Today.)

Todo Católico sabe muito bem que a tão propalada “unidade cristã” significa apenas uma coisa, o retorno daqueles que se encontram no erro ao seio da única Igreja, fundada por Jesus Cristo e administrada por seu Vigário na Terra, ou seja, o Romano Pontífice. A Unidade da Igreja é baseada na Verdade objetiva, guardada e proclamada pelo Papado, o qual é o princípio de unidade da Igreja. Aqueles que não estão unidos na fé e na comunhão com a Igreja são, pelo menos objetivamente falando, heréticos por negarem a fé e cismáticos por não se submeterem ao Romano Pontífice. A ininterrupta Tradição da Igreja, objetivamente dizendo, exclui-os da Salvação enquanto persistir sua desunião:

“Portanto, nós declaramos, nós definimos que é absolutamente necessário para a Salvação, que toda a criatura humana esteja sujeita ao Romano Pontífice” (Papa Bonifácio VIII — Unam Sanctam).

Ao contrário do que dizem os Carismáticos, o Papa Pio XII declara em sua magnífica Encíclica Mystici Corporis:

“... ‘Cristo’, diz o Apóstolo, ‘é a Cabeça do Corpo da Igreja’. Se a Igreja é o corpo, esse deve ser de uma inquebrantável unidade, de acordo com as palavras de Paulo: ‘Apesar de sermos muitos, somos um só corpo em Cristo’. Mas não é apenas necessário que o Corpo da Igreja seja uma unidade inquebrável, mas também que deve ser algo definido e perceptível como bem define nosso predecessor de feliz memória, Leão XIII em sua Encíclica Sagitis Cognitum: ‘A Igreja é visível porque ela é um corpo; portanto, erra em matéria de verdade divina, aqueles que imaginam a Igreja como invisível, intangível, algo meramente pneumológico (espiritual)’, como eles costumam dizer, ‘presente através de muitas comunidades cristãs, que embora se diferenciando umas das outras por sua profissão de fé, estão unidas por um elo invisível’.”

No que diz respeito à pertença à única Igreja de Cristo, o mesmo Santo Pontífice ainda declara:

“Verdadeiramente, apenas são contados como membros da Igreja, aqueles que tendo sido batizados, professam a verdadeira Fé e que não tiveram o infortúnio de se separarem da unidade do Corpo, ou que foram legitimamente excluídos pela autoridade devido a graves faltas cometidas. Pois em um só Espírito, diz o Apóstolo, ‘foram todos batizados em um só corpo, sejam judeus ou gentios, escravos ou livres. Assim, portanto, na verdadeira comunidade Cristã existe apenas um Corpo, um só Espírito, um só Batismo, e uma única fé. E assim, se uma pessoa se recusa a ouvir a Igreja, que ele seja considerado — como bem diz o Senhor — como um inimigo ou publicano. Segue-se então que aqueles que se separaram por fé ou governo, não podem estar vivendo na unidade de tal Corpo ou vivendo a vida de seu Divino Espírito’...”.

Portanto, partindo de um ponto de vista genuinamente Católico, devemos admitir que a existência de verdadeiros carismas entre os Protestantes é algo mais do que contraditório. Se esses fenômenos estivessem ocorrendo de fato, eles se dariam de forma claramente excepcional e não em caráter normativo. Por outro lado, eles teriam uma única finalidade, ou seja, a conversão dos Protestantes para o Catolicismo. Por outro lado, mesmo se verdadeiros carismas estivessem ocorrendo entre Católicos e Protestantes, a ideia de que um fenômeno tão suspeito como o de agora, possa servir de base para uma falsa e “irenística” união entre duas crenças completamente opostas, é algo claramente não católico e demonstra uma certa perda da Fé por parte daqueles que pensam dessa maneira.


Protestantismo.

Dado as origens ecumênicas e protestantes da RCC, não é de se admirar que o pensamento dos Carismáticos seja impregnado de concepções nitidamente protestantes. Uma das marcas registradas do Protestantismo é aquele princípio da sola scriptura, ou seja, apenas a Bíblia, ou melhor, apenas a interpretação pessoal das Escrituras baseada na “inspiração do Espírito Santo” é que tem valor. Devido a essa raiz tipicamente protestante, encontramos também entre os Carismáticos o menosprezo ou a rejeição da Tradição como fonte Divina da Revelação. Como bem demonstra o seguinte trecho, os carismáticos também compartilham dessa perigosa concepção:

“O fundamento da Renovação Carismática Católica é a Sagrada Escritura. Leituras de curtas passagens das Escrituras fazem parte da dinâmica dos grupos de oração... por minha própria experiência, essa sede pelas Sagradas Escrituras é uma das grandes bênçãos desses tempos... E mais, para mim é mais do que evidente de que aqueles que desejam ter um relacionamento pessoal com Deus deveriam pelo menos se familiarizarem mais com esse Livro... Que o Espírito Santo, inspirador das Escrituras, inspire-nos a termos amor por sua palavra. Que nos dirija naquelas passagens as quais são mais eficazes em nossas vidas e a um maior conhecimento do Pai e do Filho”. (Andy O’Neill — The Power of Charismatic Healing.)

“Através dos séculos os santos concordaram que relacionar-se com Deus mais intimamente em oração permite a Deus também relacionar-se conosco intimamente compartilhando de sua divina sabedoria conosco... Na medida em que nos comunicamos com Deus, Ele se comunica conosco. Mas o oposto também é verdade: se nós abrimos nossos corações para Sua Santa Palavra, uma extraordinária experiência de fé, esperança e amor jorrará em nossas almas... na medida em que alguém se torna cada vez mais ciente de que a ‘letra mata, mas o Espírito vivifica’ (II Cor. 3:6), eventualmente o Espírito o levará ao coração daquela passagem. Mesmo que ele não saiba a correta e exata interpretação da passagem, ele pode depender apenas do Espírito para adquirir tanto o significado como a sua correta aplicação... Talvez nosso maior problema resida no fato de que lemos muito a Palavra de Deus, mas a experimentamos muito pouco. Existe uma grande diferença entre memorizar passagens e pensar biblicamente com os ‘pensamentos de Deus’ (I Cor. 2,11). Existe uma grande diferença entre ter as Sagradas Escrituras alojadas como um livro empoeirado dentro de nossas cabeças e tê-las como uma fonte viva jorrando inspiração em nossos corações”. (Hampsch.)

Naturalmente que todo Católico sabe muito bem que a Interpretação das Sagradas Escrituras, como bem descreve a própria Escritura (II Pedro 1: 20), foi confiada exclusivamente à Igreja — a qual é verdadeiramente guiada pelo Espírito Santo — e não a cada indivíduo em particular. Aliás, o seguinte trecho extraído dos decretos do Concílio de Trento explica esse princípio claramente, bem como a punição prometida àqueles que compartilham dessa crença e prática herética:

Portanto, de modo a refrear pessoas espertas e imprudentes, o Sínodo decreta que ninguém que confia em seu próprio julgamento em matérias de fé ou moral, os quais são pertinentes à edificação da Doutrina Cristã, e que ninguém que distorce as Sagradas Escrituras de acordo com suas próprias opiniões, se atreva a interpretar as Sagradas Escrituras em sentido contrário àquele que já foi estabelecido pela Santa Madre Igreja, cujo dever é julgar tudo que se refere ao verdadeiro sentido e interpretação das Sagradas Escrituras, ou mesmo contrário ao unânime consenso dos Santos Padres, mesmo que tais interpretações nunca tenham sido feitas com a pretensão de serem divulgadas. Que aqueles que se ousem se opor a essa declaração sejam punidos com as penalidades prescritas pela lei. (Denziger, 786.)

Esse ensinamento foi reafirmado pela Profissão de Fé do Concílio de Trento e pela Constituição Dogmática do I Concílio Vaticano.


Antiquarianismo ou Arqueologismo.

Uma das tendências mais comuns entre os liberais é fingirem um certo desejo pelo retorno das práticas da Igreja Primitiva. Lutero, Huss e um número incontável de outros heréticos usaram o mesmo estratagema para mascarar suas inovações. Todo Católico sabe muito bem que a Fé da Igreja Primitiva era inteiramente ortodoxa e que as formas e práticas litúrgicas da Igreja seguiram um genuíno desenvolvimento (não evolução!) até chegar ao ponto em que as formas externas do culto Católico tornaram-se mais apropriadas para expressar sua crença interna. Assim esses supostos “acréscimos” feitos na Sagrada Liturgia, antes do Concílio vaticano II, podemos dizer que não foram realmente “acréscimos” e sim legítimos desenvolvimentos orgânicos da Liturgia, os quais proporcionaram uma maior solenidade externa ao culto Divino.

O Papa Pio XII, já durante seu Pontificado, teve que lidar com esse erro dos Modernisttreas.

“O desejo de restaurar tudo indiscriminadamente à sua antiga condição, não é nem sábio e nem digno de louvor. Seria errado, por exemplo, querer que o altar seja restaurado à sua antiga forma de mesa, ou querer eliminar a cor preta dos paramentos, ou ter estátuas e pinturas excluídos de nossas Igrejas, ou requerer que os crucifixos não tragam mais os sinais dos sofrimentos do Divino Redentor”. (Mediator Dei.)

Analogicamente, para aqueles que argumentam que a presença dos carismas na Igreja Primitiva prova sua necessidade e utilidade para os dias de hoje, os Católicos podem responder que uma coisa não segue necessariamente a outra. Os carismas serviram para um propósito específico num tempo também específico — ou seja, dar um impulso à expansão mundial da Igreja recém-nascida. Como diz o Papa Pio XII:

A Igreja a qual Ele fundou com o Seu próprio Sangue, Ele fortaleceu no Dia de Pentecostes por um poder especial descido dos Céus. Depois de ter solenemente instalado no mais exaltado ofício o Seu Vigário, Ele subiu aos Céus e sentado agora à direita do Pai, Ele desejou fazer conhecida a Sua Esposa através da descida visível do Espírito Santo, com o som de um vento impetuoso e línguas de fogo. Para que assim como, quando Ele próprio começou a pregar fazendo conhecido o Eterno Pai, através do evento do Espírito Santo descendo sobre Ele em forma de pomba, do mesmo modo, quando os Apóstolos estavam prestes a começarem seu ministério de pregadores, Cristo Nosso Senhor enviou o Espírito Santo dos Céus, para tocá-los com línguas de fogo e apontá-los com o dedo de Deus, para a missão sobrenatural e para o ofício da Igreja. (Mystici Corporis.)

Como já foi dito antes, o fim dessas manifestações externas do Espírito Santo correspondem aproximadamente à conquista pela Igreja de uma universalidade moral. O desejo de retornar a práticas as quais eram adequadas às necessidades da Igreja Primitiva e que nunca foram entendidas como ordinárias é antiquarianismo puro e simples. Como já foi mencionado anteriormente, descartar a Tradição da Igreja, como no caso da declaração de Santo Agostinho pertinente aos carismas, é uma atitude claramente protestante, na medida em que a justificativa para esse menosprezo da Tradição é baseado na leitura “inspirada” da Bíblia feita por cada Carismático individualmente.


Falsas concepções a respeito da Igreja.

Sua Missão.

Os Carismáticos alegam que a missão da Igreja é o louvor. “O Louvor é a raison d’être da Igreja” (Andy O’Neill).

Embora seja o louvor, inegavelmente e certamente algo que o homem por justiça deve ao seu Criador, isso dificilmente pode ser considerado a “razão” sine qua non, pela qual Jesus cristo instituiu sua Igreja. Pelo contrário, Nosso Senhor não fundou a Igreja de forma alguma para ter o seu próprio “fã-clube”. Ele a fundou de forma a perpetuar sua obra de Redenção por todos os séculos dos séculos. Assim explicam os Padres do I Concílio Vaticano em sua Primeira Constituição Dogmática (Pastor Aeternus):

“O Eterno Pastor e Bispo de nossas almas (I Pedro 2,25) de modo a tornar perene a obra salvífica da redenção, quis edificar a Santa Igreja de modo em que na casa do Deus Vivo, todos os fiéis pudessem ser abrigados e unidos pelo elo de uma única Fé e caridade”.

Esse ensinamento do Magistério da Igreja claramente contradiz à falsa noção dos Carismáticos a respeito da missão da Igreja e detona a base ecumênica do inteiro movimento.

Embora, inegavelmente, o propósito último de cada ação externa da S. S Trindade seja o crescimento da glória de Deus, o propósito imediato da fundação da Igreja foi aplicar os frutos da redenção a todos os homens. “A santificação do homem através da comunicação da Verdade, dos Mandamentos e das graças de Cristo é o propósito imediato da Igreja”. (Fundamentals of Catholic Dogma — Lwdwig Ott.)

Objetivamente falando, a glória de Deus se mostra ainda mais resplandecente por causa desse ato; subjetivamente falando, o homem deseja louvá-lo ainda mais ardentemente como consequência. Essa confusão entre algo subjetivo e algo objetivo é uma das marcas registradas da RCC e a raiz de toda a confusão é devido ao fenomenalismo.


Sua Indefectibilidade

A alegação dos Carismáticos de que apesar do desaparecimento dos carismas por quase 2000 anos, eles são essenciais à missão da Igreja, é um assalto direto à Indefectibilidade da Igreja, um dos seus atributos essenciais. Essa indefectibilidade é o corolário da promessa de Nosso Senhor a São Pedro (Mt 16,18). “A Igreja instituída por Jesus Cristo foi feita para durar para sempre, pelo menos em seus atributos essenciais” (Abade A. Boulenger - La Doctrine Catholique).

Essa doutrina garante apenas que a Igreja permanecerá para sempre, mas isso não previne da destruição de grandes porções da Igreja. Mais ainda, isso deve ser considerado como algo não essencial para o cumprimento de sua divina missão.

A perpetuidade (indefectibilidade) da Igreja resulta do fato dela ser uma religião definitiva a qual não pode renunciar à sua posição em favor de outra. De modo a cumprir sua divina missão (o que nos é garantido pela Revelação) é necessário que ela sobreviva em todos os elementos essenciais para o cumprimento dessa missão.

Portanto, todo o aspecto da Igreja que não é constante e universal (pelo menos de acordo com sua natureza) não é essencial para o cumprimento de sua missão. Os carismas são inequivocamente, um desses aspectos, e, portanto, são não essenciais para o cumprimento da missão da Igreja e nem protegidos pela sua indefectibilidade. De fato, a afirmação dos Carismáticos sobre a natureza essencial dos carismas, não deixa de ser um duro golpe no verdadeiro princípio da indefectibilidade, pois se um elemento essencial para a perpetuação da Igreja desapareceu por quase 2000 anos, isso significa apenas que a promessa de Nosso Senhor foi uma mentira.


Seu Magistério

Nosso Senhor Jesus Cristo fundou uma Igreja visível, a qual é Una, Santa, Católica e Apostólica. Ele disse aos Seus Apóstolos, os primeiros Bispos: “Ide pelo mundo todo e ensinai a todas as nações” (Mt 28. 19), e “Quem vos ouve, a mim ouve” (Lc 10. 16). O Magistério, ou ofício de ensinar da Igreja, é infalível quando:

a) O Papa pronuncia-se ex cathedra ou quando um Concílio Geral unido ao Papa faz uma declaração definitiva concernente à fé ou moral (de fide).

b) Ou pronunciamentos ordinários do Papa, Concílio ou Bispo correspondentes a algum ensinamento infalível anteriormente estabelecido.

A questão do Magistério é central para compreendermos a inteira crise na Igreja de hoje, porque os liberais acham que podem tranquilamente varrer 20 séculos de ensinamento Católico substituindo-Os por aquilo que os homens contemporâneos da Igreja derem na veneta. A esse critério poderíamos acrescentar a “inspiração pessoal do Espírito Santo”.

Frequentemente temos ouvido essa conversa sobre a diferença entre ensino “pré-conciliar” e ensino “pós-conciliar” no tocante à teologia, moral etc.. O que deve ficar bem claro é que um dado Concílio ou Papa não pode — com garantia divina — erradicar unilateralmente um ensinamento do Magistério da Igreja, o qual foi previamente definido como infalível. Novamente, aqui não é uma questão do que alguém “sente” que o Catolicismo deva ser; muito pelo contrário, o ensinamento Católico infalível é uma questão de fato histórico, completamente independente das “inspirações individuais” de qualquer indivíduo, seja ele, papa, cardeal, bispo, padre ou leigo. Como declara o Papa Pio XII:

Pois, juntamente com essas sagradas fontes (Escrituras e Tradição), Deus deu o Magistério vivo à sua Igreja, para iluminar e esclarecer aquilo que está contido no Depósito da Fé de forma obscura ou implícita. De fato, o Divino Redentor confiou esse Depósito não a cristãos individualmente, nem a teólogos para ser interpretado de forma autêntica, mas apenas ao Magistério da Igreja. (Papa Pio XII — Humani Generis.)


A Raiz do Problema

Ensinamento Católico sobre a Graça

Talvez seja na área do conceito sobre a graça que os Carismáticos façam a mais nítida ruptura com a Doutrina Católica e revelam a raiz chave de seu inteiro sistema de erros. Como já foi dito anteriormente, os Carismáticos defendem a necessidade de um fenômeno sensível que acompanhe e dê significado à recepção da graça (ou pelo menos que a “libere”) na alma. Em outras palavras, “Cristãos em cuja alma Deus realmente atua, sentem sempre a sua ação”. Isso é claramente falso.

A graça Santificante, aquela que “santifica a alma” confere beleza sobrenatural à mesma, faz o homem justo entrar em relacionamento de amizade com Deus, torna-o um Templo do Espírito Santo, um Filho de Deus e que lhe dá consequentemente a herança dos Céus, é inteiramente insensível à alma. Naturalmente que isso não descarta a possibilidade de que Deus dê uma divina revelação a um indivíduo sobre seu estado de graça, mas tal revelação certamente cairia no campo do incomum e não como norma geral, ao contrário do que afirmam os Carismáticos.

Como declara o Concílio de Trento:

“Cada homem, ao levar em consideração a si próprio e a sua própria fraqueza e indisposição, pode experimentar medo e apreensão sobre sua própria graça, uma vez que ninguém pode saber com certeza de fé, a qual não está sujeita a erro, que ele obteve de fato uma graça de Deus”. (Denziger 802).

Naturalmente que Deus pode conceder graças verdadeiramente sensíveis (embora nem todas as graças sejam necessariamente sensíveis) a quem quer que seja, mas, mesmo entre as graças verdadeiras, sensibilidade não é uma condição sine qua non. Uma vez que muitas graças verdadeiras são sensíveis e os Carismáticos insistem tanto sobre o caráter sensível da graça, o resultado prático é que eles acabam confundindo graça santificante com graça verdadeira e no final acabam negando a primeira.

O resultado prático de se negar a graça santificante, significa de fato uma negação da Doutrina Católica acerca da justificação (como foi infalivelmente decretado nos cânones do Concílio de Trento) e, consequentemente, a Doutrina Católica concernente às operações externas da S. S Trindade, as quais serão discutidas mais a seguir. A seriedade dessa matéria não deveria ser menosprezada por ninguém. Sempre foi dito que semelhantes erros no princípio acabam levando a erros maiores na conclusão; portanto, a insistência dos Carismáticos sobre o caráter sensível das graças é a raiz chave de seu inteiro sistema de erros.


Ensinamento Católico sobre os Carismas.

É inegável que às vezes Deus concede graças verdadeiramente sensíveis, até mesmo fenômenos extraordinários a certas pessoas. Os verdadeiros carismas presentes na Igreja Primitiva são um claro exemplo desses fenômenos extraordinários. Uma das maiores gafes dos Carismáticos certamente é querer transformar algo extraordinário em ordinário e até necessário para todos.

As graças que Deus concede ao homem se dividem em várias categorias. Uma dessas categorias é a chamada gratia gratis data (graça concedida livremente) e a outra é a gratia gratum faciens (graça concedida para agradar). A primeira, frequentemente chamada “graça gratuita”, é usada para significar aquelas graças que são conferidas a algumas pessoas em particular para a salvação de outras. A essa classe pertencem aqueles extraordinários dons de graça, como os verdadeiros carismas (profecia, milagres, línguas etc.. conforme I Cor. 12. 8), o poder sacerdotal de Consagração e o poder hierárquico de jurisdição. A possessão desses dons é algo independente da constituição moral do seu possuidor.

Gratia gratum faciens é usada para descrever a graça de santificação pessoal para todos os homens. Ambas as graças; santificante e graça verdadeira, as quais nos preparam para a justificação caem nessa categoria. Essas graças são necessárias para todos, o que já não ocorre com as graças gratuitas. São Tomás de Aquino fala muito bem desta distinção, descrevendo ambas as categorias de graça em sua Summa Teológica, em duas seções separadas do II Capítulo do “Tratado Sobre a Graça” e o “Tratado Sobre Atos Pertinentes Especialmente a Certos Homens”. Os carismas são discutidos mais no final.

É interessante notar que São Tomás de Aquino nunca se refere aos carismas como sendo um fenômeno contemporâneo. Ele fala sobre eles apenas com referência aos tempos Apostólicos. Para uma explicação mais profunda sobre esses fenômenos, aconselho que se leia seus escritos.

Basicamente, os verdadeiros carismas foram dons que capacitaram a Igreja primitiva a se espalhar rapidamente até os confins do mundo até então conhecido e tornar-se bem estabelecida antes da morte dos Apóstolos. Como já foi dito antes e como bem elucidou São Paulo na sua II Epístola aos Coríntios, o propósito dos dons era a edificação da Igreja e não a santificação daqueles a quem eles eram conferidos.

O dom das línguas foi dado para permitir que o Evangelho fosse pregado a todos os ouvintes independente de seus idiomas. Profecia, curas, milagres etc. foram dados para provar a veracidade das pregações da Igreja e para promover conversões. Com a conquista de uma Universalidade Moral pela Igreja, a necessidade de tais fenômenos cessou por várias razões. Primeiramente, por causa da presença de povos de tudo quanto é nacionalidade dentro do Corpo da Igreja e em segundo lugar, por causa do comprovado estabelecimento da Igreja como Verdadeira Religião em um curto espaço de tempo.

O mesmo argumento pode ser feito hoje contra a presença contemporânea dos carismas. Uma vez que a Igreja é agora tanto moralmente quanto fisicamente Universal, abrigando pessoas — mesmo do Clero — de tudo quanto é nação e língua, que necessidade haveria da glossolalia para a evangelização? Uma vez que a Igreja já possui quase dois mil anos de existência comprovada como Verdadeira Religião, que necessidade ela teria dos carismas para provar sua Doutrina? Como declara Santo Agostinho:

“Uma vez que, mesmo agora, quando o Espírito Santo é recebido, ninguém fala nas línguas de todas as nações, é porque a própria Igreja já fala na língua de todas as nações: Já que quem quer que seja que não está dentro da Igreja, não recebeu ainda o Espírito Santo” (Santo Agostinho, Tratado de XXXII sobre João).

Por outro lado São Tomás de Aquino admite a possibilidade de grossa caricatura diabólica dos verdadeiros carismas em questões, sobre as quais o leitor é livre para examinar com atenção:

II-IIæ, Q. 172, A. 5: Se alguma profecia pode vir do demônio (RESPOSTA: SIM).
II-IIæ, Q, 172, A. 6: Se as previsões dos profetas dos demônios podem ser verdadeiras (RESPOSTA: SIM).
II-IIæ, Q. 178, A. 2: Se o Maligno pode operar milagres (RESPOSTA: SIM).

É bem sabido que o Diabo e seus demônios podem produzir prodígios que a princípio parecem milagres para os mais desavisados, como na história do Mago Simão e sua “milagrosa levitação” desbancada por São Paulo; portanto, é extremamente perigoso ir aceitando de cara, qualquer fenômeno extraordinário como sendo de origem divina. O grande místico e doutor da Igreja, São João da Cruz, tão frequentemente citado e tão mal compreendido pelos “gurus” espirituais modernos, tinha o seguinte a dizer, concernente a supostas “revelações pessoais” vindas de Deus e que foram experimentadas por alguns de seus contemporâneos:

“E eu temo muitíssimo pelo que está acontecendo nesses nossos tempos: se qualquer alma, seja lá qual for depois de um pouquinho de meditação, tiver em suas recordações uma dessas locuções, e imediatamente ‘batizá-las’ como vindas de Deus e com tal suposição disser: ‘Deus me disse’, ‘Deus me respondeu’. Ainda que não seja exatamente assim, mas, como já dissemos, essas pessoas são frequentemente os autores de suas próprias locuções”. (São João da Cruz — A Subida do Monte Carmelo).

“Através do desejo de aceitá-las, eles abrem as portas para o demônio. O demônio pode então enganá-los usando outras comunicações espertamente fingidas e disfarçadas como genuínas. Nas palavras do Apóstolo, ele pode transformar-se em ‘anjo de luz’ (II Cor. 11:14)... Independentemente da causa dessas apreensões, é sempre bom para um homem rejeitá-las de olhos fechados. Se ele fracassa em assim fazer, ele acabará por dar espaço para aquelas que têm origem diabólica e dará poder ao demônio para que se aposse de suas próprias comunicações. E não é só isso, as representações diabólicas se multiplicarão enquanto aquelas que vêm de Deus gradualmente cessarão, de forma que dali a pouco todas virão do demônio e nenhuma delas de Deus. Isso tem ocorrido com muitos incautos e não instruídos”. (S. João da Cruz.)

De fato, Nosso Senhor Jesus Cristo adverte a Igreja dos perigos de aceitar de cara supostos milagres: Porque se levantarão falsos cristos e falsos profetas, que farão milagres e prodígios a ponto de seduzir se isto fosse possível até mesmo os escolhidos. (Mt24, 24.)

Mais estarrecedor ainda é sua advertência: “Nem todo aquele que me diz Senhor, Senhor, entrará no Reino dos céus, mas sim aquele que faz a vontade do meu Pai que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não pregamos nós em vosso nome, e não foi em vosso nome que expulsamos os demônios e fizemos muitos milagres? E, no entanto, eu lhes direi: nunca vos conheci. Retirai-vos de mim, operários maus!” (Mt 7,21-23).


Ensinamento Católico sobre a Santíssima Trindade

Naturalmente que uma exposição dogmática mais profunda está bem além do objetivo desse artigo, mas de modo a compreender a gravidade dos erros dos Carismáticos é essencial entender as assim chamadas “missões externas”.

Uma missão, ou envio, pressupõe que haja um remitente, um envio e um destino para o qual algo é enviado. Com relação ao remitente e ao envio, os teólogos falam de acordo com as “apropriações” de Deus — Pai como sendo Aquele que envia; Deus Filho como Aquele que é enviado e ao mesmo tempo em que envia, e o Espírito Santo como Aquele que é enviado, mas que não envia. A Doutrina Católica sobre a Trindade ensina que todas as operações externas são comuns às três Pessoas Divinas. Com referência ao destino para o qual uma das divinas Pessoas é enviada, é bom que se fique claro que, embora Deus esteja presente em todas as partes do Universo, Seu modo de presença em qualquer dado lugar muda quando uma das Divinas Pessoas é enviada.

Existem dois tipos de missão externa da S. S Trindade: a visível e a invisível. A missão invisível é adequadamente, insensível à pessoa para quem a divina Pessoa é enviada, ao passo que a missão visível é também sensível. A missão insensível segue-se à conferência da graça santificante e tem como seu objetivo fazer com que Deus habite na alma do justo. Essa habitação na alma geralmente é atribuída ao Espírito Santo, mas juntamente com o Espírito Santo, também o Pai e o Filho habitam na alma do justo.

A missão visível do Espírito Santo compreende fenômenos sensíveis como quando o Espírito Santo apareceu sob a forma de pomba no Batismo de Nosso Senhor, ou Sua descida em forma de línguas de fogo sobre os Apóstolos no Pentecostes, bem como os verdadeiros carismas ocorridos na Era Apostólica da Igreja. “Mas por sua verdadeira natureza, a missão visível é transitória” (S. Tomás de Aquino — Summa Teológica). A missão invisível ocorre com a conferência da graça santificante, a qual acontece normalmente com a digna recepção dos sacramentos.

“Mas a obra principal do Espírito Santo é a santificação das almas através da graça... E mais especialmente através dos Sacramentos, e de forma ainda mais notável através do Sacramento da Confirmação que o Espírito Santo comunica Suas Graças e Seus Dons”. (Abade A. Boulenger.)

Portanto, toda essa insistência sobre a sensibilidade da graça, praticamente negando a graça santificante, faz com que se acabe por negar também a missão invisível do Espírito Santo e rebaixar os Sacramentos de seu alto posto, reduzindo-os apenas a canais ordinários por onde passa a graça e a meros ritos eclesiásticos cujo papel é “complementar” o sensível “batismo no Espírito” durante o processo de “Iniciação Cristã”.


Ensinamento católico sobre a Graça Santificante e o Livre Arbítrio

A Doutrina Católica sempre ensinou que a graça santificante, a qual os Carismáticos praticamente negam, é a certeza da participação na vida Divina. Ao pensarmos sobre esse fato, devemos evitar dois extremos. O primeiro é aquele típico erro racionalista de pensar a participação na vida Divina como uma mera união moral com Deus, realizada através da imitação humana das Perfeições Divinas. O outro extremo é a ideia quietista ou panteística de que a alma é aniquilada e transformada na Divindade. Esse não deixa de ser o fim lógico das ideias Carismáticas.

Os Católicos sabem que a graça aperfeiçoa a natureza sem, contudo, destruí-la. Deus positivamente modela a alma à Sua Imagem e a assimila à Sua Vida Divina através de um poder que transcende a todos os poderes criados da alma, mas sempre utilizando tais poderes criados em livre cooperação com a vontade Divina. Não é, portanto, nem louvável e nem necessário aniquilar o livre-arbítrio ou vontade, ele deve ser subjugado ou dominado com o auxílio da graça e ordenado de acordo com a vontade Divina.

Com relação à vontade e a operação do Espírito Santo na alma humana, Papa Pio XII resume da seguinte maneira, a posição Católica:

“Não menos longe da verdade está o perigoso erro daqueles que se empenham em deduzir da nossa misteriosa união com Cristo um certo quietismo. Eles atribuem toda a vida espiritual dos Cristãos, bem como todo o progresso na virtude exclusivamente à ação do Espírito Divino, pondo de lado ou negligenciando aquela colaboração que nos é devida. Ninguém, naturalmente pode negar que o Santo Espírito de Jesus Cristo é a única fonte de qualquer que seja o poder sobrenatural que entra na Igreja e em seus membros. Pois como bem diz o Salmista ‘O Senhor dará a graça e a glória’. Mas que o homem deve perseverar constantemente em suas boas obras, que ele deve avançar tenazmente em graça e virtude, que ele deve combater e lutar para atingir as alturas da perfeição Cristã e ao mesmo tempo o melhor em seu poder para estimular outros a atingir a mesma meta... nada disto o Espírito Santo efetua a menos que eles contribuam diariamente com o zelo de suas atividades. Como já dizia Santo Ambrósio: ‘Pois os favores divinos são conferidos não àqueles que dormem, mas àqueles que vigiam’. Pois se em nossos corpos mortais os membros são fortalecidos e crescem através de constantes exercícios, muito mais isso pode verdadeiramente ser dito do social Corpo de Jesus Cristo no qual cada membro retém sua própria liberdade pessoal, responsabilidade e princípios de conduta. Por esse motivo, aquele que disse: ‘Eu vivo, mas não sou mais eu que vivo, mas Cristo que vive em mim’, também não hesitou em assegurar: ‘Sua graça em mim não foi em vão, mas eu tenho trabalhado mais abundantemente do que todos os outros, mas não eu, a graça de Deus que está em mim’. É perfeitamente claro, portanto, que nessas falsas doutrinas o mistério que nós estamos considerando não é dirigido ao avanço espiritual dos fiéis, mas voltados à sua deplorável ruina”. (Papa Pio XII — Mystici Corporis.)


Inegável Contradição

Devido a essas comparações entre as ideias Carismáticas e a Doutrina Católica, deveria ficar claro, portanto, que, seja lá quais forem as disposições individuais de seus seguidores em relação à Igreja e à Fé, a RCC, como um todo, de forma alguma pode ser considerada um Movimento Católico, mas sim mais uma seita enganadora do Pai da mentira infiltrado no corpo da Igreja. A maioria dos Carismáticos pode muito bem negar que eles apoiam tais erros concernentes à graça, ao Espírito Santo, às missões externas da S. S Trindade etc., mas sua própria renúncia à ação do intelecto torna explícitos seus erros implícitos.

O pensamento Carismático faz um paralelo muito próximo com aqueles erros os primeiros dias da Igreja e francamente demonstram uma admiração pelas heresias do Protestantismo. A ideia “evolucionista” que os Carismáticos adotaram a respeito do Magistério da Igreja é uma garantia que eles usam para se protegerem contra qualquer tipo de alegação proveniente dos ensinos anteriores ao Vaticano II. Identicamente aos Protestantes, eles descartam a Tradição, deixando-se levar quase inteiramente pela “defesa Bíblica” dos seus assim chamados “carismas”, depois de terem se submetido a um rito não Católico, quase sacramental, dirigido e inventado por heréticos.

O fato das autoridades eclesiásticas não terem a coragem de condenar a RCC, entrará para a história da Igreja no século XX, como sendo um fracasso semelhante àquele do Vaticano II em não condenar o Comunismo. De fato tudo isso nos leva a conjecturar se o “espírito” que os Carismáticos alegam seguir, não seria o mesmo “espírito do Vaticano II”, ou seja, o espírito do mundo...


A Resposta Católica: Apologética.

Uma vez que tanto as práticas como a crença dos Carismáticos são inegavelmente baseadas em heresia, podemos legitimamente duvidar da ortodoxia daqueles que professam filiação ao movimento. Naturalmente que somente Deus pode julgar almas, mas até por um dever de caridade não podemos considerar como ortodoxas aquelas ações e palavras que beiram à heresia. Ao fazermos isso, estaríamos sendo injustos, bem como sustentando uma mentira, semelhantes àqueles que mantêm uma atitude de indiferentismo religioso.

“Pelos frutos os conhecereis”, disse Nosso Senhor aos Apóstolos (Mt 7:20). Pelos frutos venenosos do movimento Carismático, qualquer um pode comprovar sua inerente incompatibilidade com o Catolicismo e o grave perigo que ele apresenta para a Fé Católica genuína. Diante da ignorância de muitos e a cumplicidade de outros tantos membros da Hierarquia Católica, alguém deve ter coragem de dizer a verdade sobre esse movimento e o perigo que ele representa para um incontável número de almas.

Obviamente, a menos que haja uma milagrosa mudança nos atuais ventos eclesiásticos, o dever de combater os erros Carismáticos deve permanecer ao nível do clero ortodoxo e dos leigos. A defesa baseada na Apologética deve se desenvolver em três níveis:

1. Um Católico deve estudar para conhecer melhor sua Fé, especialmente em áreas atacadas pelos Carismáticos e desenvolver uma piedade litúrgica forte e objetiva baseada em sua Fé e não na experiência de consolações.

2. Um Católico deve educadamente recusar-se a aceitar qualquer tipo de discussão a respeito dos assim chamados “carismas” presentes na Igreja de hoje como sendo algo ortodoxo. Verdadeiras discussões podem ser levadas a frente apenas baseadas em princípios igualmente compartilhados e enganos ou prevaricação em pontos decisivos não levarão a nenhum avanço genuíno para a verdade. O fracasso do tão propalado Diálogo entre Católicos e Protestantes demonstra isso bem claramente.

3. Um Católico deve saber e deve ser capaz de apresentar em simples termos, o verdadeiro ensinamento da Igreja a respeito dos Sacramentos, graça, livre-arbítrio, a natureza e a missão da Igreja e os carismas. Aqueles Carismáticos que se consideram ortodoxos e realmente estão em busca da verdade, saberão ouvir. Quanto àqueles que se recusam a ouvir, as Palavras de Santo Agostinho mostram-se bem apropriadas a esse ponto:

Porque a verdade atrai o ódio? porque o Seu Servo é tratado como inimigo por aqueles a quem Ele prega a verdade? Simplesmente porque a verdade é amada de tal modo que aqueles que amam outras coisas querem que essas coisas sejam a verdade e, precisamente porque eles não desejam ser enganados são reticentes em se deixarem convencer que estão enganados (Santo Agostinho — Confissões).


SUMÁRIO:

O Movimento Carismático Católico é uma árvore de frutos venenosos, plantada pelo demônio entre os protestantes e transplantada para dentro da Igreja pelos ventos do Concílio Vaticano II. O delírio das autoridades Eclesiásticas contemporâneas tem regado e alimentado essa árvore e a falta de uma adequada formação doutrinária Católica entre Sacerdotes e leigos, tem aplainado e fertilizado o solo na qual ela cresce vigorosamente. Muitas pessoas já comeram de seus frutos mortais no princípio, e agora a juventude vulnerável, tão sedenta por um profundo conhecimento de Deus e pelo senso do sobrenatural que lhes foi negado pela Igreja Conciliar corre um grande risco. Uma geração de filhos da Igreja está crescendo convencida de que o pensamento Carismático não apenas é perfeitamente normal, como até superior ao tradicional pensamento Católico.

Esses frutos são verdadeiramente uma semente de destruição, e certamente um dos mais perigosos frutos oferecidos ao homem desde aquele primeiro fruto oferecido a Eva pela mesma serpente. Que possa a Nova Eva, a Bem-aventurada Virgem Maria a quem foi dado o poder de esmagar a cabeça da serpente, interceder pela a Igreja e libertá-la do perigo em que ela se encontra por causa de novidades como a RCC.

Autor: Scott Gardner, do Seminário São Tomás de Aquino, Winona, Minnesota — EUA — Publicado pela THE ANGELUS PRESS — Março de 1998.


FONTE: http://permanencia.org.br/drupal/node/2235

[1] NdTª: Em que pese a autoridade e sabedoria do autor, se um carismático não é católico, como pode usar o termo “Católico não-carismático”? É uma incongruência.